janeiro 27, 2007

Talisman - Carta atrasada


Às onze da manhã entraste num autocarro com destino ao teu Destino. A essa mesma hora, eu acordei e, ainda deitada e atordoada com o frio da manhã, pensei que estavas a partir. Estar longe de ti não é sequer uma novidade: aliás, a única maneira de funcionarmos foi sempre essa. Mas, mesmo assim, acho que vai ser estranho pensar em ti, para lá da nossa fronteira.


Tens dois braços ansiosos à tua espera. Tens um olhar, que recordavas nas noites em que não dormias, que precisas de rever. Ela é o teu porto de abrigo e vai receber-te exultante. Imagino a tua viagem e a maneira como olhas pela janela do autocarro, meio perdido, meio deslumbrado com a liberdade total. Tentaste ser feliz muitas vezes e sempre de maneiras diferentes e nunca foste capaz. Nem eu fui capaz de chegar onde precisas que cheguem. Mas pelo menos eu tentei. Ela conseguiu, pelos vistos. Ela foi mais forte e levou-te até ela, portanto tem que ser alguém especial. E se assim é, tu vais conseguir construir finalmente qualquer coisa. Um caminho, um legado, uma relação, qualquer coisa.


A carta que te escrevi chegar-te-à às mãos. Provavelmente vais lê-la e escondê-la. Ou então lê-la e deitá-la fora de imediato. Mas as cartas sempre foram um tesouro, escrever tudo à mão sempre foi um alívio e uma marca mais duradoura que um telefonema, um email. Para já apenas desejo que sejas feliz. Que não seja esta mais uma oportunidade desperdiçada, um engano, um contratempo, uma indecisão da tua cabeça inconstante. E que o seja nos braços de alguém que lê as tuas necessidades nos teus olhos inexploráveis, os olhos mais bonitos que alguma vez vi.


We only come out at night.

Auto-retrato com mãozinha de MT

janeiro 21, 2007







No meu sítio preferido de Lisboa é fácil fingir que sou outra pessoa qualquer. Basta-me olhar para as janelas que furam o casario que se estende até perder de vista.

janeiro 20, 2007

Hoje


consegui sentir sobre mim a luz do dia, os graus centígrados que ameaçam tornar-se negativos já amanhã



sentei-me novamente sozinha numa sala de cinema, escura e semi-vazia, à espera do momento em que deixo de dar por mim



vi tantas tantas caras conhecidas, vi-as até sentir uma tímida náusea



abri uma garrafa de vinho porque posso porque mereço porque me quero esquecer das coisas que se dizem ao telefone porque não acho justo porque comemoro a minha liberdade e a minha solidão porque quero fingir que nada se disse porque hoje não quero estar sozinha



(sei escrever apenas sobre o que conheço. é por isso que nunca serei grande escritora.)

Post OST : Someone like you, New Order

"Are you watching closely?"

How could I not be?

(imagem daqui)

janeiro 18, 2007

Popular Mechanics for Lovers

Hoje estou, como diria esse rapagão alto e espadaúdo chamado RAP, um pouco confusa. Deitei-me ontem com um pensamento na cabeça, uma coisa para durar assim umas horas valentes (não que tenha durado tanto, porque já ia com a pestana quase fechada...): não sei exactamente o que esperar num rapaz. Ou melhor, e a verdade é dura, não sei patavina sobre o que quero. Temos sempre a pretensão de não sermos pessoas complicadas, de só querermos ser feliz, blá blá blá mas no fim não há nada que se consiga aproveitar.

Gostava que o rapaz gostasse de ler mas não pode gostar muito porque correria o risco de se tornar num intelectual chato e sem graça, que já leu tudo o que há para ler e cujas conversas nos enfadam. Era bom que ele gostasse da mesma música do que eu. Mas reconheço noutros gostos musicais um sopro refrescante, ao que ainda podia juntar as discussões saudáveis e construtivas sobre gostos que nunca se deviam discutir. Gostava que ele fosse um bom garfo mas não demais: não quero correr o risco de partilhar as minhas refeições com alguém que come como se lhe tivessem dito que o mundo acabava nos próximos quinze minutos. Gostava que fosse bonito mas não demasiado. Há coisas muito mais interessantes nas imperfeições, há pormenores que se descobrem todos os dias e dos quais aprendemos a gostar. Gostava que ele fosse cavalheiro mas apenas o suficiente para me fazer sentir uma dama de vez em quando: não é bom que nos tirem sempre tudo da frente, que nos queiram sempre abrir as portas, que nos queiram sempre servir primeiro. Caramba, uma gaja gosta de ser esquecida de vez em quando! Como é óbvio, gostava que me dissesse coisas bonitas e me fizesse elogios. Mas só quanto baste, porque quando as pessoas se começam a auto-anular a coisa dá imediatamente para o torto e o interesse cai a pique. Gostava que me desse razão. Muitas vezes. Mas apenas as vezes suficientes para não achar que ele não tem mesmo opinião. E depois porque esse combate pela razão é muitas muitas vezes afrodisíaco... E gostava que pensasse em mim. Mas de tempos a tempos. Muitos tempos. Mas que de vez em quando se fizesse esquecido e me deixasse a pensar.

E sobretudo, a exigência maior e sobre a qual não estou disposta a fazer cedências, tem que ser uma pessoa que me acelere o coração duma tal maneira que eu nem sei se vou conseguir sobreviver. No outro dia, ia no autocarro e sentia-me assim, como se o coração já me tivesse chegado à garganta. E pensava que talvez não aguentasse a viagem de dez minutos até chegar ao trabalho. E depois no trabalho sentia-me a sufocar, como se estivesse sob o sol do deserto. E o raio do coração a impedir-me de falar: só me conseguia concentrar na sua batida descontrolada. Mas não, o meu coração estava só a pregar-me uma partida. O gajo às vezes é assim, brincalhão. Devia ser só para me lembrar de como é que uma pessoa se sente. Pronto, já me lembrei. Agora vê se tratas da coisa, mas a sério.

janeiro 16, 2007

Porque ainda há quem pense que o melhor é estarmos sozinhos


A minha mãe já está sentada na poltrona onde agora passa os dias. Tem a manta de xadrez por cima das pernas e suspira muito porque acha que não vai aguentar um mês de inactividade. Eu pego nos filmes que trouxe para ver e pergunto-lhe o que quer ver. Não gosta de escolher mas o nome Richard Gere faz escapar-lhe uma faísca tímida. Temos que ver o Shall we dance?, a pedido. Eu e a minha irmã ajeitamo-nos no sofá grande: afinal, ver um filme de Domingo à tarde numa Segunda à tarde nem é mau.

O meu pai entra, chegado do café habitual. Cruza a sala a tentar-se mexer ao ritmo dos sons latinos que ouvimos no filme - obviamente, faz figura de tonto. Olha para o ecran e diz 'Ah! estão a ver um filme com a Jéni Ó [sic]!'. Nós as três olhamos-nos e desatamos a rir - 'Pai, é J Lo. Ou Jeniffer Lopez, se preferires.'. Ele ri-se muito porque sabe que, de certa maneira, disse aquilo só mesmo para nos rirmos e conseguiu. Agarra-se à caixa de ferramentas e entretém-se. Há um ténue momento de paz nesta sala mas só até a sessão de cinema terminar.

janeiro 12, 2007

Sorgenlos

Daqui a umas horas já estou sentada calmamente ao som de um qualquer disco de jazz suave ou música brasileira da antiga (da boa?), enquanto o bar se enche de gente e, a certa altura, o fumo é tanto que os meus olhos começam a chorar e a implorar por ar fresco. O café já chegou acompanhado de um bombom de chocolate que ele insiste em oferecer-me, mesmo depois de eu já ter perdido a conta às vezes que o declinei. A esta hora já a televisão passa um qualquer jogo de futebol, muito comentado pelos quarentões e canastrões habituées, enquanto as suas esposas nos maçam os ouvidos com as suas compras em Badajoz.

A esta hora, amanhã, já teria terminado o jantar que afinal nem sequer vai haver. E eu estaria já a sorrir, porque não me consigo lembrar de melhor maneira de começar as férias. Sim, as férias. Sabe-me tão bem a palavra que a vou dizer mais uma vez: f é r i a s. A mala está encostada aos painéis que fecham o meu quarto, a roupa escolhida a dedo, a leitura atrasada também já a arrumei dentro da mala. Na minha bagagem de mão vai a vontade de ver uma mãe convalescente, uma mãe a quem tiraram a pequena casinha onde um dia nasci. Vai também a certeza que nestas f é r i a s vou fazer tudo menos descansar: vou trabalhar por ela, responder aos seus desejos, sair durante a semana, que é coisa que aqui não conheço.

E longe daqui, longe do sossego da minha casa, longe do silêncio que sinto mal fecho a porta, eu vou procurar um outro silêncio. Vou curar o desassossego com coisas boas de se ouvir, com amigos, com as noites à volta de rodadas de médias Super Bock, com o tédio. Vou respirar fundo e, finalmente, não me preocupar mais. Vou deixar de ser este borrão e regressar feliz, de contornos bem definidos. Ou se calhar até não. Mas que vou tentar, isso vou.

janeiro 08, 2007

Respirar (debaixo de água)


Hoje queria sentir-me como o Pedro do meu filme português preferido, Respirar (debaixo de água). Queria submergir-me, gozar da leveza com que nos movimentamos dentro de água, não ouvir nada senão aquele zumbido que resulta do silêncio duma grande massa de água. Queria olhar-me num espelho e fingir que eu sou os meus próprios medos. Queria uma casa vazia numa tarde de Verão, com o telefone fora do descanso, uma camisola de alças e um tronco nú. Queria o desafio do amor proibido. Queria não falar e ser compreendida só pelo que os olhos dizem, ter a certeza do que quero, ter a coragem de saltar sem sequer saber o que está no fundo. E mesmo quando fosse derrubada, gostava de abrir os olhos no escuro, decidida, e saber erguer-me de novo.

[alívio]

janeiro 06, 2007

Duvidar


Sentada na sé catedral não podia alhear-me das palavras do padre. Metada de mim estava interessada em acreditar mas a outra metade já decidiu há muito que aquilo são tudo tretas. O padre falava muito, muito baixo e de olhos fechados como se se estivesse a embalar ao mesmo tempo. Olhava para nós com cara de reprovação sempre que alguém tossia, se mexia mais bruscamente ou que as crianças soltavam algum pedido mais alto. Falou tanto que me aborreceu: ou isso ou já não ia a uma igreja há muito tempo e tinha-me esquecido de como tudo cumpre rituais antiquíssimos e desconfortáveis. Sempre que nos era pedido participar com algum dizer ou oração os meus lábios não conseguiam abrir-se, apenas o suficiente para disfarçar o incómodo e para não envergonhar totalmente os meus pais. Quanto mais o padre falava nas virtudes de ser cristão e nos perigos da televisão pagã, mais eu me sentia afastada daquela instituição toda. O papel dos padrinhos, a alma que nasce de novo, o cristão que não cumpre, preparar o espírito para a caminhada em Jesus blá blá blá. Eu sou daquelas a quem dava jeito um milagre, aqui e agora. E nem sequer o peço para mim. Mas, como sou uma cristã provavelmente quase excomungada, isso dos milagres não é para mim. Portanto, o caminho é para a frente e ala! que se faz tarde. Vou procurar a minha força noutro sítio qualquer.

janeiro 04, 2007

Às vezes canso-me de fingir que aguento tudo o que, na verdade, não aguento.

janeiro 01, 2007

Dias felizes... *

...a desafiar as goelas.



... a lembrar-me como a diversão é simples.


... a tentar recuperar a leitura que me faz falta.


...a comer e a beber como se realmente não houvesse amanhã.



...a tentar sentir-me menos invisível e a não conseguir.

* continuam a ser os meus votos para este ano de 2007. Feliz Ano Novo!