junho 26, 2009

Faltam quarenta e cinco minutos para estar de férias. Antes disso, há uma secretária para arrumar, assuntos pendentes para delegar, assistentes de quem cuidar. É como se tivesse um nó na garganta e só pudesse respirar depois das três e meia da tarde. Amanhã, por esta hora, estarei certamente estendida numa espreguiçadeira no Sul de Espanha durante horas a fio.
Até breve. Vou ter saudades.

junho 25, 2009

Preciso. Stop. Férias. Stop.

Deixei os telemóveis em casa (o plural não é mesmo engano...). Está um tempo esquisito e as pessoas vestem sobretudos por cima de camisolas de alças só porque o céu está nublado. Tenho uma alergia no braço direito e, mesmo depois de mudar os lençóis, não percebo porquê. Ontem passei mais que dez horas no trabalho e saí demasiado irritada. Há uma coisa importante a acontecer amanhã e eu não consegui dormir, só a sonhar com isso. Tenho saudades e saudades e saudades mas às vezes não é exactamente isso que me sai da boca. Faltam 11h30 de trabalho para estar de férias durante quinze dias e nem sequer consigo acreditar. Amanhã a marcha de Alfama vai ao meu bairro e não sei se tenho tempo de comer sardinhas. Estou pronta para oito dias de preguiça mas metade de mim gostava de ficar. Vou ali só ter mais uma reunião e já venho. As horas (contigo) deviam esticar.

junho 22, 2009

Um pouco de Time Management *

Sou uma pessoa extremamente indisciplinada, especialmente se tiver que escolher entre dever e prazer. Só eu sei o que me custou criar a rotina da corrida duas vezes por semana e manter isso desde Setembro do ano passado. Até mesmo quando me decido a ir, luto para não acabar a corrida mais cedo. Pela minha cabeça, já passaram todas as desculpas possíveis: hoje não que tenho fome, acho que está a começar a chover, então e se a minha mãe liga? Mas tenho-me aguentado.

Depois, há as coisas de casa. Há vezes em que tenho que revoltar-me com a minha inércia para aspirar a casa. Tenho a campainha avariada há uns meses largos mas ando a adiar a vinda dum electricista. Tinha um lavatório entupido e foi preciso aquilo chegar a uma situação insustentável para meter mãos à obra e ser eu mesma a desentupi-lo (foi espectacular, eu a desmontar canos, a raspar aquela massa preta sem saber se encontrava um mutante, a colocar tudo no sítio, mesmo com o vedante um bocadinho deslocado!). Normalmente, diria que é preciso chegar a esse ponto de não retorno. É que nem sei se chamo a isto preguiça - talvez seja por ter muito prazer quando apareço, finalmente, com as coisas feitas.

Esta é uma das razões que fazem com que esteja a anos-luz daquilo a que se chama uma escritora. Falta-me a rotina da escrita, falta-me domar a ficção, falta-me criar os rituais. E agora, que escrevo umas carolices para outros sítios, já me obriguei a usar um pequeno bloco de notas para poder apontar as coisas mais relevantes. Ainda me assusta a ditadura dos caracteres, o relato que tenho que fazer caber num espaço pré-definido, as emoções com que lido em cada vez que escrevo. Ainda agora tenho um texto com um mínimo de mil palavras para escrever, muitas das quais já estão na minha cabeça, mas estou a escrever isto. E a pensar numa tigela de melancia à minha espera no frigorífico e em candidatar-me a outro emprego qualquer e a ponderar a hipótese de voltar a estudar. As mil palavras já cá cantam mas a disciplina é que ainda não.

* no trabalho como na vida

junho 21, 2009

Crónica breve dos últimos dias

A segunda foto é da autoria de Anthony Suau e a terceira deste fotógrafo.

Os quase quarenta graus que se fazem sentir ali fora já não são novidade para ninguém, embora me espantem sempre que ponho um pé na rua, porque espero sempre que corra uma aragem. Há já uns três dias que a ventoinha funciona quase non-stop, tentando evitar que eu desidrate com a quantidade gigantesca de suor que esta casa me está a provocar. Comecei mansinha, no programa Low mas, enquanto escrevo, penso se não seria melhor logo experimentar tudo o que ela tem para me dar [cliquei no High mas a diferença é pouca].

Consegui(mos) fugir às filas intermináveis para as praias do outro lado, acordando invulgarmente cedo para uma manhã de Sábado. Há uma senhora de aspecto duvidoso que me vende um guarda-sol e que, num assomo de sinceridade, me garante que tem ali peças a cinco euros mas que são feitas de nylon e que, se as pessoas soubessem, não torravam debaixo daquilo. E depois eram nove da manhã e a água estava já a uma temperatura tão agradável e o Sol avançava, quase agressivo, especialmente para quem ainda não tinha um centímetro de corpo bronzeado. Consegui(mos) fugir ás filas do regresso a casa, deixando a praia mais cedo do que a metade de Lisboa que parece fugir para lá e ainda há tempo para ver a World Press Photo logo no dia da abertura em Belém, depois do banho tomado mas ainda com os mesmos quarenta graus da tarde. A sorte é que o Museu da Electricidade, apesar do espaço aberto, tem um óptimo sistema de ventilação.

E o dia termina-se com uma boa surpresa. Sem saber à partida, acabo (amos) no restaurante do senhor que faz os anúncios daquela marca de azeite, um sítio bonito e acabado de estrear, com um serviço simpatiquíssimo e petiscos do melhor que já provei. Só para abrir o apetite, que está quase na hora do almoço, comemos codornizes com cerejas e moelas fritas com maçã e camarão salteado em malagueta e alecrim, entre outras coisas divinais. Se disse que acompanhámos com um Cabriz tinto, não é de estranhar termos saído do restaurante depois das onze da noite completamente satisfeitos, a precisar de caminhar um pouco e com aquela sensação de relaxamento a aumentar os níveis de preguiça.

É, oficialmente, o primeiro dia de Verão, o tempo esforça-se por acompanhar a estação e os últimos dias foram particularmente ricos em termos gastronómicos. Falta uma semana para ir de férias e tenho ao meu lado a minha pessoa preferida. Uma pessoa até estranha mas é (também) oficial: dificilmente conseguiria ser mais feliz.

junho 17, 2009

Às vezes vale a pena esperar!

É o mês dos regressos, como se todos fossem emigrantes em parte incerta. Hoje, na noite do seu próprio aniversário, foi a vez de Gomo (ou devemos dizer o Paulo?) regressar aos palcos, suar as estopinhas e mostrar que esta pausa tão longa, este regresso ao anonimato teve tudo para o fazer renascer. Festejar com os amigos e fãs em palco deve ser uma sensação inigualável e eu também andei por lá. Impressões feitas de caracteres ainda virão; as impressões visuais, como sempre, estão aqui.

junho 15, 2009

O bandido foi ao S. Jorge [actualizado]

E eu também fui (porque esta menina, infelizmente, não estava ainda pronta a sair). Sentada nas escadas do cinema S. Jorge, dividi-me entre o extremo desconforto da posição, a emoção de ver o Manel ao vivo e o caderno onde fui apontando, no escuro, o que me chamava a atenção. As impressões estarão em breve por aí, a minha memória visual amadora é que já está por aqui.

e à minha volta tudo vai ter luz

[Escrevi finalmente o meu testemunho, depois de dissecar um bocadinho o que vi ali. Está aqui, para quem quer saber o que perdeu. As fotografias, agora em modo profissional, são do JER.]

junho 14, 2009

Uma tempestade quase tropical

Há semanas demais que as semanas são demasiado curtas. Chego à conclusão que preciso fazer uma to do list também para conseguir responder a todas as solicitações e compromissos e desejos. A minha mãe diz-me que aceito coisas a mais, que me meto em tudo e mais alguma coisa mas, depois dum período da minha vida em que não acontecia rigorosamente nada, acho que mereço esta agitação toda.

O problema é que, asfixiada pelos prazos que insisto em prolongar e pela minha dificuldade em começar qualquer coisa, parece que tudo me mexe nas hormonas. E de repente, passo de eufórica a absurdamente deprimida e oscilo entre estes dois estados demasiadas vezes. Rejubilo por saber que finalmente consegui resgatar o meu cartão de utente (depois de dois anos de procrastinação) mas desespero por saber que não vou ter tempo para comprar uma mala para o computador. Consigo terminar um texto que andava a adiar há meses mas, em meia hora, escrevo qualquer coisa emocionada. E isto até é suportável. O pior é quando estes picos de humor saltam as barreiras e me começam também a atravancar a vida emocional.

Ando há dias a repetir baixinho que eu não sou assim. Ando preocupada com as mínimas coisas que me consomem, com as reacções disparatadas, com todas as vezes em que não paro dois segundos para pensar. Ando há dias a tentar travar o pensamento, para impedir que a língua me traia. Entretanto, lá fora começou a chover. E eu tento convencer-me que a culpa é desta electricidade toda no ar, que é o calor o culpado desta impaciência toda. E repito baixinho as palavras de conforto e, enquanto a aragem insiste em não revolver os cortinados, repito também o doce abraço suado, o único capaz de me devolver à terra.

junho 11, 2009

Junho em Lisboa ♥

Chegámos àquela altura do ano em que Lisboa fervilha, em que as ruas são estreitas para tanta gente, em que o cheiro a peixe grelhado deixa de ser incomodativo e passa a ser parte da festa. Eu já andava a desejar sardinhas há uns dias valentes e não passou de ontem: depois da obrigatória travessa de caracóis, cinco sardinhas e batata cozida e salada com pimentos assados! Escolhemos um grupo recreativo onde as coisas funcionam tão mal que uma mesa de dezasseis pessoas, fartas de esperarem pela conta quase uma hora, resolve simplesmente sair sem pagar e diluir-se no resto da multidão que chega ao baile. No final, e para evitarmos uma situação semelhantes, fizemos nós a nossa própria conta, o que o empregado muito agradeceu porque não teve que se chatear com aquilo.

Depois foi o normal: mais banho de multidão, um organista fã dos Queen e vestido de Benfica dos pés à cabeça, algumas cervejas e uma noite ainda morna, a fazer-nos lembrar que o Verão, apesar de tudo, só começa daqui a uns dias.

junho 07, 2009

M. e os casamentos * em dias chuvosos de Junho

Não sei se já vos disse mas acho que, com a idade, dei por mim a gostar de casamentos. Gosto de ouvir as pessoas na igreja a dizer que aceitam partilhar (o que devia ser) o resto da sua vida, muitas vezes tremendo perante a grandiosidade do gesto que estão ter publicamente. Gosto que as pessoas se vistam a rigor para presenciar a cerimónia, mesmo que odeie escolher roupa para casamentos e ache que é sempre um desperdício de dinheiro e mesmo que isso implique que nem toda a gente está talhada para desfilar com glamour. Gosto de beber gins tónicos antes de me sentar à mesa e conversar com pessoas que conheço mal, mesmo que isso implique que tenha que quebrar as minhas convenções sociais. Gosto das montagens de fotografias que fazem para os noivos e gosto do ritual do bouquet no final, embora já tenha apanhado um e, portanto, tenha cumprido a minha parte de solteirona nesse capítulo.

Se calhar, isto tudo acontece porque é a primeira vez em muito tempo que vou a um casamento e, simultaneamente, me sinto realmente feliz. Assim daquele feliz que dá para uma pessoa andar sempre a procurar outra no meio da multidão para tentar acalmar a cavalgada do coração e tudo nos parece comovente e somos algumas vezes forçados a deixar-nos abater pela neura. E depois fico impressionada com a tábua de queijos e com a paciência dos noivos, carregando cestos de mesa em mesa, como se fosse possível conhecerem todos os convidados. Não idealizo um casamento destes para mim, dispensava a cerimónia religiosa e só ia querer convidar quem está mesmo perto. Provavelmente ia adorar ser a DJ no meu casamento e ter os meus próprios filhos a entregarem as alianças e a presenciar a oficialização da felicidade dos pais. Mas como essa data ainda está muito longe, contento-me com a roupa comprada em cima da hora, com o desconforto de me ver verdadeiramente maquilhada pela primeira vez (aos vinte e nove anos, sim) e com um par que apetece passear por ali. Se agora até aguento as sandálias de salto até às duas ou três da manhã...

* a foto não faz jus ao vestido de 19,90€ que consegui desencantar a dois dias do casamento, nem às sandálias finérrimas que a minha mãe me emprestou e muito menos à elegância e distinção do meu acompanhante, que me fez sempre sentir a rainha da festa.

junho 06, 2009

Metereológica

O que me preocupa neste momento é a eminência da chuva e a temperatura do ar. É que comprei o vestido para o casamento a pensar em trinta graus e agora saem-me catorze. Se houver gripe para a semana, já sei.

junho 03, 2009

Ode às consultas no privado

Não quero ser uma velha de setenta anos já aos vinte e nove mas isto consome-me. É o que dá passar umas boas três horas num centro de saúde, à espera de uma migalha de caridade da classe médica. Incapaz de me levantar para ir trabalhar, foi com esforço que me arrastei até ao dito posto médico, para onde há dois anos quis transferir o meu processo clínico. Decisão muito pouco acertada, sei-o agora, visto que há dois anos que espero por um médico de família. Ou seja, mesmo morando numa freguesia posh de Lisboa, sou obrigada a esperar que alguém morra para lhe ocupar o lugar nas consultas programadas da Lapa.

Foram, portanto, três horas sentindo-me quase apátrida, indigente porque tive a infelicidade de não ter marcado uma consulta e de não ter médico de família. E porque a senhora da recepção fez questão de frisar que teve sorte de conseguir um tempinho com a senhora doutora, especialmente se se lembrar que paga só dois euros e vinte cêntimos. Talvez seja esta fortuna que impeça os médicos de tratarem as pessoas como pessoas e os faça atender chamadas pessoais ou discutir culinária com uma auxiliar exactamente no meio de uma consulta. É por estas que às vezes, quando me lembro do meu seguro de saúde, me sinto afortunada e aliviada por caminhar a passos largos para uma vida burguesa em vez de depender desta miséria a que chamam serviço nacional de saúde. Que eu até sou uma pessoa com sorte e alguma saúde, isso reconheço. Mas os últimos tempos têm-me mostrado o que pode acontecer se algum dia estiver exclusivamente entregue a estas mãos.

Depois, quando ouço chamar o meu nome, reparo que afinal é um doutor e não uma doutora. Era um rapaz muito moreno, claramente de boas famílias, talvez um pouco mais novo do que eu. Atrapalhado com a ausência de dados do meu processo, esqueceu-se de perguntar o básico. E, depois de eu lhe explicar o que me levava ali, depois de lhe descrever os sintomas, abandonou-me (literalmente) no gabinete e foi perguntar à médica, que estava a atender no gabinete ao lado, o que devia fazer. Fiquei de boca aberta enquanto o ouvia no gabinete do lado a descrever o caso e a ouvir os conselhos da médica. Fiquei com a sensação de que sou tão boa médica como ele. Ou então estava a ser filmada para um daqueles programas de apanhados. E eu espero não me enganar mas a mim é que não me apanham num sítio daqueles tão cedo.

junho 01, 2009

Domingos à tarde


É assim que eu quero estar. Os pés quase a tocar a água fria, sem que me deixe impressionar pela corrente e os pequenos ramos que passam à minha frente. O vento quente debaixo de chorões e salgueiros. Destilar um pouco de ódio pelo número crescente de espanhóis à nossa volta. Relembrar o primeiro mergulho do ano, enquanto ele me segue com o olhar e eu posso fingir que somos só nós. A vista daquilo que o acalma e a mim me esmaga. Cervejas e caracóis numa esplanada só nossa, debaixo das videiras enquanto, lá ao fundo, se ouve o relato. O cúmplice e irrequieto silêncio entre nós.