novembro 30, 2009

Our time is running out

Ela conta-me muitas coisas nesta viagens outonais, rampa acima, perdidas entre os castanheiros que tombam sobre a estrada e os castelos de gelo [sic] que se formam nos pontos mais altos. E fala-me de toda a comida que tem feito nos últimos dias e de como, simultaneamente, já perdeu a vontade de comer. Ouço pormenores de frangos tostados e caldos verdes e qualquer coisa que se deixou a descongelar entretanto - tudo azedando lentamente em tachos gastos por umas dezenas de anos.

Fala-me dos medos, dos rapazes que às vezes vê dentro do quarto e de como se tapa até à cabeça, esperando ficar novamente sozinha. Vai confessando que teme que a expiem e a sigam e, acima de tudo, que seja o assunto do falatório das vizinhas entre o vento gelado e as bolsas do pão. Vou muitas vezes em silêncio, olhando para ela a espaços, tentando gravar-lhe as rugas na minha memória, tentando ignorar a pele seca das mãos e a roupa onde nada um corpo de mais de oitenta anos.

Já tentei explicar-lhe que ele não voltará a andar. E desfiz-me em detalhes para lhe mostrar que também não irá recuperar a fala. Mas como é que se mostra a alguém que a pessoa com quem viveu mais de sessenta anos é apenas uma sombra de si mesmo, três ou quatro sílabas balbuciadas sem nexo, um corpo feito de pele e osso curvado sobre si mesmo? Concentro-me nas abertas e nas árvores de folha caduca e nos prados amadurecidos pela estação. Controlo as lágrimas e é como se este fosse só mais um passeio de Domingo.

novembro 25, 2009

A dr. M. responde!

Houve alguém que chegou ao meu blog com a pesquisa "questionario como saber se gosto de um rapaz" [sic].

Sendo eu uma pessoa com tendência para paixões assolapadas, há uma ou duas dicas que posso dar, sem que alguma delas tenha algum valor científico ou tenha realmente sido comprovada. A mim acontece-me que passo o tempo todo a pensar nele: a minha chefe pode estar a pedir-me um relatório complicadíssimo ou um professor pode estar a marcar o exame final mas a única coisa que a minha cabeça regista é o nome dele e o quão incrível ele me parece. Tenho vontade de pegar no telefone a toda a hora só para lhe dizer como ele é giro e como ele cheira bem e como gostava que ele estivesse perto de mim. Depois, desmancho-me com qualquer canção de amor, mesmo aquelas de que me rio num estado normal, isto é, de não-apaixonada. E de repente, a canção que antes era pirosa passa a ser querida e, incrivelmente, eu consigo arranjar uma justificação para agora gostar dela. Quando se gosta de um rapaz, tem-se o poder de acreditar sempre nele, mesmo que ele nos esteja a contar uma mentira que vai muito para além de piedosa.

Não costumo ouvir sininhos nem ver estrelinhas. Mas garanto que fico tão nervosa que me sinto zonza e as borboletas na barriga passam a uma vontade indescritível de tomar um calmante e acho que vou morrer de taquicardia a qualquer instante. Isto longe dele, claro, porque se estiver perto sinto que vou literalmente desfalecer. Eu já me sei controlar, felizmente. É o que acontece quando gostamos tanto de um rapaz que não precisamos de nenhum questionário nem nenhuma ajuda - sabe-se e pronto. Pode ir fazendo cruzes até lá, caro/a leitor/a anónimo/a. Garanto-lhe que quando chegar a altura vai saber. Desconfie especialmente quando não se lembrar de alguma vez ter sido tão feliz.

novembro 24, 2009

Rock on (se ainda conseguires manter os olhos abertos)

As fotos são dele, pois claro*

Isto anda de tal maneira que até as nossas capacidades anímicas andam trocadas. Eu não me poupo na noite errada, ele sente-se com energia e eu, sem lhe perceber uma subtil nota de entusiasmo na voz, prefiro recolher-me. É só mais um exemplo, eu sei, de como coadunar duas vontades, duas gargantas, quatro pés dançantes e duas vozes que se espalham pelas salas é muitas vezes um esforço ingrato e algumas vezes insuficiente. E é também uma das razões pelas quais as relações hoje em dia não funcionam: as pessoas não querem perder tempo a conhecer o outro mas não querem, acima de tudo, ter que fazer concessões, ceder naquilo que são os seus pequenos caprichos, abraçar as diferenças do outro. E eu, não me querendo armar em doutora nem em terapeuta de casais ou numa pessoa muito experiente, só acho que essa malta está a perder todo um mundo que se abre quando nos damos tempo e quando experimentamos fazer diferente. E quando nos damos a possibilidade de errar. E para a próxima, as duas da manhã serão só o começo porque a noite (como o meu amor) é apenas uma criança.

* os The Kendolls e as Baby Shakes tocaram aqui em mais uma bela noite de rock'n'roll.

novembro 21, 2009

Guilty pleasure #1



You lying beside me, me full of love and filled with hope


(vivo cheia dos mais variados poemas de amor, incapaz de resistir a um one hit wonder holandês, casais perfeitos em dias perfeitos numa paisagem mediterrânica, cansada mas feliz por tudo e por nada)

novembro 19, 2009

[ela vive]

Quando cheguei a casa, a minha irmã tinha-me guardado duas fatias de pizza para o almoço de hoje. Há uns três dias que não vejo notícias, há uns quatro que não leio os meus blogs preferidos. Esta semana jantei a casa de amigos e às dez e tal da noite tinha quase mais sono que o bebé deles, que fez ontem dois meses . Ontem senti tanto stress que as minhas pernas pesavam-me uns quinhentos quilos antes de me deitar e nem a noite de sono fez desaparecer a sensação de peso. Ontem estive em duas apresentações: uma encheu-me de confiança, a outra da sensação que o meu dever ficou por cumprir. Tenho um site para montar até daqui a duas semanas e uma mini-tese para escrever até Janeiro. No trabalho, chegámos finalmente à fase em que não há gente suficiente para os malabarismos que o nosso cliente pretende e, simultaneamente, para poupar dinheiro. E muito menos para motivar pessoas a quem já foi anunciado o desemprego a partir de Maio. Vou ter que me voltar a habituar a dormir sozinha e a lembrar-me do que significa saudade. Nem sequer tenho tido tempo para escrever nos sítios onde é costume. E ler... Bem, chamo ler a passar os olhos por uma ou duas páginas do livro de cabeceira antes de cabeçear de sono. Nunca a expressão So much to do, so little time fez tanto sentido para mim.

As coisas acontecem todas a uma velocidade que não consigo controlar. É como aqueles sonhos que eu tinha antes de fazer o exame de condução, em que ia enfiada num carro, montanha abaixo, uma estrada de terra batida e nenhum pedal de travão que me valesse. Alguém me trave o Mundo, eu quero sair, já eles diziam.

novembro 15, 2009

Diário de uma jovem adulta com demasiadas coisas para fazer

Agora que o fim de semana está no fim, agora que alguns projectos estão melhor encaminhados, reservo uns minutos do meu dia para respirar fundo e tentar compreender melhor o que anda a acontecer. Não foi o fim de semana sossegado com que sonho já há alguns tempos mas deu para sentir brevemente o sabor do descanso.

A equipa a que pertenço é uma das finalistas deste concurso. Além de ser uma agradável surpresa (porque não me tinha inscrito com nenhuma expectativa), tornou-se num evento muito maior do que esperava e deixou-me a sonhar com a hipótese de arranjar um futuro melhor depois de Maio. Não seria abrindo um atelier de pastelaria, nem organizando eventos - isto é muito maior. A única desvantagem é ver-me ainda a braços com o trabalho e o mestrado e não estar a conseguir despachar tudo como gostava. Seja qual for o resultado deste concurso, a verdade é que consegui ter uma ideia bastante sucinta sobre as variáveis a ter em conta quando se pensa em montar um negócio de raíz, um mini-curso sobre iniciativa e marketing. Sweet!

Também fui conhecer um sítio novo, na melhor das companhias. Comeu-se por lá uma deliciosa tosta de salmão fumado com alcaparras, um sumo Royale de chorar por mais enquanto a chuva caía lá fora. É um sítio tão bonito, daqueles que desejava abrir um dia, um espaço onde a luz não incomoda e se pode ler tranquilamente o jornal, com um terraço a fazer lembrar outras capitais europeias. Depois, foi a vez de ver esta peça, que aconselho - mas nunca de estômago vazio! O teatro é lindíssimo, os actores muito divertidos, o texto cheio de metáforas actuais. E depois casa, que me esperava uma apresentação sobre as audiências dos novos media digitais. Novidades, só mesmo nos próximos dias. Façam figas por mim!

novembro 07, 2009

Passamos a primeira tarde dos meus trinta à procura da fotografia perfeita para o primeiro dia de Inverno (saltei deliberadamente o Outono porque este frio, este vento gelado chegou, ignorando a ordem natural das estações). Corremos atrás das abertas que fazem derramar incipientes raios de Sol sobre os campos desordenados, criando efeitos de luz que desejamos ver repetidos. O nevoeiro desce, sem medo, cobrindo os pontos mais altos, apagando serras inteiras do mapa mas às vinhas ainda conseguimos admirar as cores.

novembro 06, 2009

A borboletear desde 1979

Faz hoje trinta anos que a Casa de Saúde me viu nascer. Fui uma filha muito desejada mas aposto que os meus pais tiveram second thoughts quando perceberam que era uma chorona. Ainda sou uma chorona, na verdade. Choro por tudo e por nada, enervo-me a sério, comovo-me demasiado. Portanto, comprometi muitas horas de sono aos meus pais e esfrangalhei-lhes os nervos de vez em quando.

Faz hoje trinta anos (e só eu sei como ainda me arrepia dizer isto assim, admitir que este é um estado irreversível, imaginar-me a responder a questionários e já não caber naquela categoria dos dezoito aos vinte e tal) que nasci e agora começam a contar-se as coisas em décadas, tantos anos a passarem que é impossível lembrar tudo o que é importante. Ainda tive uma esperança que este Verão continuasse colado ao Outono e pudesse usar manga curta pela primeira vez em trinta anos mas não, aqui em casa é definitivamente Outono e o nevoeiro chega até ao chão.

A minha madrinha sempre me disse que a vida começa aos trinta. Uma assistente minha dizia-me que é a década da redução de velocidade e da responsabilidade. E recebi agora uma bela SMS que dizia que trinta é uma bonita idade para se ser feliz. E tirando aquelas partidas que a saúde dos outros nos prega (e contra as quais eu aprendi que não se deve lutar), eu sou mesmo feliz: estou mais ocupada que nunca, a investir em mim e a tentar mudar a minha vida, ao lado da minha pessoa preferida, fazendo apenas aquilo que me apetece, quando me apetece. Não sei se é isto que os trinta trazem. Mas eu aceito a sua chegada, dividida entre recusar ser trintona e abraçar a nova década.

novembro 05, 2009

Relembrando os anos 90 mesmo à porta dos 30 (e pizzas e um pouco de lamúria!)

Esta hora de almoço é o único tempo verdadeiramente livre que tive esta semana. Entre o trabalho (a cavalgar desenfreadamente para a fase terminal), as aulas (em que não tenho feito muitas amizades, é um facto) e uma formação em empreendedorismo (em que fiz bastantes amizades, é de estranhar) ia-me dando um chilique. Sobre esta coisa das amizades ou das relações, ainda hei-de um dia escrever um tratado. Não consegui ainda deslindar o que está atrás da química que aproxima ou afasta as pessoas. Já tentei ser muito simpática, desligada, tímida e extrovertida também mas nunca tenho a certeza do que é que funciona.

Tive direito a médico ao domicílio, jantar numa pizzaria gourmet e ele levou-me por umas horas de volta à altura em que os meus pais me abandonavam em Lisboa pelas primeiras vezes - fui ver os Skunk Anansie, pois. Estou a viver as últimas horas antes dos meus trinta anos, aquela década em que supostamente todos começamos a viver mesmo. Já me apeteceu mais, já me foi indiferente, já quis que chegasse a hora. Agora, estou a hesitar perante a ideia de ser trintona mas eles não param e não há que possa fazer para os impedir de chegar. Daqui a sete horas, dobro mais uma década. Medo.

novembro 01, 2009

Dia de Santos

Há uns bons anos atrás, hoje seria dia da minha mãe nos dar umas bolsas do pão e de nós irmos, porta a porta, pedir os Santinhos. Lembro-me que estaria muito frio e nós sairíamos muito agasalhadas, ao contrário deste Verão que teima em ficar. Receberíamos principalmente romãs e nozes mas o que nós queríamos mesmo eram as moedas de cinquenta e cem escudos. Quem tivesse sorte, recebia uma de duzentos. Da família, as coisas já se mandavam para as notas de quinhentos escudos e, às vezes, um folar como na Páscoa.

A minha mãe gosta de misturar o moderno com o tradicional, por isso aos rebuçados e ovos de chocolate que compra juntas as broas de mel e de milho e os rebuçados de ovos que a minha avó faz. Em vez de cem, oferece duzentos e quatrocentos paus aos miúdos que nos têm batido à porta. Já não sei se eles trazem a bolsa do pão para levarem tudo para casa mas consigo ouvi-los, quase a guinchar de alegria quando se lhes abre a porta e eles dizem "É os Santinhos!". Carga religiosa à parte, é uma versão muito mais querida do que o Trick or treat. Aí chegam os próximos!