abril 30, 2010

Aos Sábados ao Sol iv

Os fins de semana em que ficamos por cá têm sido muito bons, especialmente porque podemos dispensar os quatrocentos quilómetros das viagens. É claro que não matamos saudades da família mas acabamos por descansar bastante mais e aproveitar melhor o tempo. Tem dado para ver algumas das exposições aconselhadas por todo o lado (este Sábado foi esta), almoçar, passear e mesmo dormir a sesta com os amigos com uma das mais maravilhosas vistas do momento e relaxar o suficiente para começar a perceber que isto já é uma barriga de grávida! Saudades das noitadas? Nem por isso, especialmente quando penso na maravilha que vai ser ter a Pulguinha cá fora!

abril 29, 2010

Correr na Estrela #6

Bem, agora já não é propriamente correr. Não é que seja totalmente contra-indicado mas prefiro ser uma mulher prevenida e não arriscar demasiado no exercício. Vamos andar durante os habituais trinta e três minutos (este número pegou, já nem sei bem porquê) e a verdade é que já me custa um pouco a respirar e sinto-me necessariamente mais pesada. Esta semana, com o regresso do bom tempo, o jardim estava apinhado de crianças - de carrinho, de colo, com triciclos e bicicletas, com os pais, irmãos e os avós, endiabradas e sossegadinhas - e de pais (presumivelmente) partilhando experiências e tropelias. Agora que já tenho companhia e que os dias são substancialmente mais longos, sabe mil vezes melhor andar por lá e seguir o conselho da moça brasileira que dizia que andar é que é.

abril 27, 2010

Preparem a estatísticas: aqui vou eu!

Desde a manhã de ontem que estou obcecada com uma palavrinha bastante vulgar mas não menos importante: desemprego. A verdade é que eu já conheço este desfecho quase há um ano mas também é certo que, até há umas duas semanas atrás, eu acreditei piamente que a empresa seria inteligente o suficiente para rentabilizar o potencial humano e aplicá-lo noutras áreas com necessidades. Isso não irá acontecer, já o sei desde esta mesma altura. A empresa prefere recorrer a outros métodos (transparentes na sua essência mas obscuros nos seus resultados) para preencher vagas existentes, mesmo quando os candidatos internos já deram inúmeras provas das suas capacidades.

Bem, a esta embrulhada toda acresce que estou, como é público, grávida. E, se por um lado não gostaria de ser vista como a desgraçada que vai ficar desempregada e com um filho nos braços, por outro também sei que tenho direitos e que legalmente a decisão do meu despedimento poderá ser controversa. Mas não é a legalidade ou a ausência dela que me estão a preocupar (estou a tratar de reunir informação suficiente para contestar essa decisão): é a forma absolutamente desinteressada e glaciar como o futuro de todas estas pessoas está a ser tratado. Não se trata, obviamente, de um fenómeno em larga escala porque não estamos a falar de milhares de pessoas. Mas, exactamente por isso, sempre tive uma esperança (muito ténue, muito lá no fundo) que toda esta situação pudesse ser tratada de uma forma mais humana, mais ponderada e sobretudo mais orientada para uma esperada reordenação dos recursos. Saber que defendi as políticas da empresa durante todo este tempo, saber que dei a cara e a minha palavra, garantindo que o futuro passaria certamente por outro lugar aqui dentro faz-me sentir nauseada. Ser a face da máquina que mastiga as pessoas e as cospe quando já está farta não estava, decididamente, nos meus planos.

E portanto fui apanhada num nó cego: se sair voluntariamente perco subsídio de emprego e indemnização; se ficar até ao final e assistir aos últimos momentos de um departamento em agonia, recebo uma indemnização e um chuto no rabo; se me candidato a outros empregos e, honestamente, explico a minha condição actual, sou rejeitada nos primeiros segundos. Portanto, e agora deixem que suspire um bocadinho, é assim que estamos ou vamos estar - livre para gozar a minha pulguinha, entregue involuntariamente às prestações sociais. Pelo menos já não chove.

abril 23, 2010

A Pulguinha foi ao Coliseu

As fotos são dele, como sempre.

Resolvemos ver o concerto das galerias porque eu não posso estar demasiado apertada, sufocada por multidões e porque preciso ter um acesso privilegiado a uma casa de banho. Gosto de estar lá em cima porque consigo ver tudo sem ter que me esticar, o que, tendo em conta a minha altura, acontecia em todos os concertos. Já ouvi malta a dizer que a noite de ontem foi como uma reunião de velhas guardas e eu acho que confirmo: lá do alto, era impressionante o número de carecas na plateia e à saída também não era de desprezar a quantidade de cabelos brancos por degrau.

Eu gostei do concerto e acho que a Pulguinha também. Digo isto porque as vibrações não foram tão potentes como esperava e o som talvez um pouco menos brutal. Mas ontem descobri que não estou pronta para os festivais de Verão: as constantes idas à casa de banho e o desconforto de estar em pé já é grande aos quatro meses, nem quero imaginar o que vai acontecer daqui para a frente. A barriga parece crescer diariamente e à noite está especialmente grande e em actividade. Dizem que nos próximos tempos bebé e barriga darão um salto e eu já só ando a contar o tempo que falta para a próxima ecografia e para saber se é menino ou menina. São só mais treze dias! Concerto agora? Sim mas sentada!

abril 22, 2010

Entre trabalho, concertos e a escola...

... só tenho a dizer que o Mundo se divide em dois tipos de pessoas: as normais e as que usam chinelos mal vêem um raio de Sol ou sobretudo quando caem uns pingos de chuva.

[dedicado à senhora do metro hoje de manhã que calçava umas belas Havaianas e cujo chapéu de chuva ainda pingava]

abril 19, 2010

Sobre o cansaço

Eu admiro verdadeiramente as pessoas que fazem uma licenciatura inteira a trabalhar ao mesmo tempo. Imagino o que são cinco anos (ou três anos, agora) acordando cedo, lutando pela produtividade do país, aturando colegas chatos e rindo com os mais bem dispostos para depois ainda ter umas seis horas de aulas. Não interessa que quem faça este sacrifício o faça por mera realização pessoal ou por exigências profissionais: interessa é que resista.

Sonhei pela primeira vez com o mestrado ainda o meu emprego estava certinho, garantido, no mesmo sítio de sempre. Sabia que o poderia pagar e conclui-lo sem grandes implicações para o meu desempenho profissional. Depois de o começar, descubro que ainfal não, que afinal tudo tem um fim e o deste emprego seria em Maio deste ano. Fiz as contas à vida e concluí que sim senhor, ainda era possível e que, ficando desempregada na pior das hipóteses, sempre tinha tempo para a tese.

Mas, e há sempre um mas, afinal tenho uma pulguinha dentro de mim. E a verdade é que, durante os primeiros meses da gravidez, foi muito difícil encontrar as forças e a motivação para continuar. Trabalhar oito horas e depois ainda contar com seis horas de aulas seguidas, ainda que só dois dias por semana, foi coisa para me desanimar logo à partida. E isto era nos dias bons, em que as náuseas não deixavam o ser racional que há em mim funcionar em condições. Era um cansaço tal, uma má disposição que me obrigou a escolher sempre os lugares mais perto da porta (para fugir para a casa de banho, se acontecesse um desastre), a vontade quase sobrenatural de me enfiar num quarto escuro. Mas pronto, tive sempre a felicidade de ter quem me empurrasse para a frente (quase literalmente!) e a coisa lá se foi levando.

A verdade é que na semana passada, regressada de umas férias tranquilas e de um Sábado passado na praia, não me sentia preparada para retomar o ritmo trabalho + aulas e isso deu cabo do resto: das caminhadas que não fiz, das noites em que devia ter dormido, de tudo aquilo que não escrevi, das noites em que devia ter saído, do livro que está quase quase a terminar. Resta-me acreditar que à segunda semana as coisas se compõem ou que já não falta quase nada para chegar Junho. Eu sei que dizem que quem corre por gosto não cansa mas eu confesso, tenho andado a sucumbir ao cansaço.

abril 12, 2010

Ain't it the life

Se eu pudesse escolher, a minha rotina diária a partir de agora seria pouco diferente deste dia. Acordaria cedo, teria boleia com amigos, apanhava os últimos raios de Sol da manhã, faria uma dieta de apenas peixe e frutos do mar, refrescava a garganta com sangria de espumante (talvez daqui a um ano...), voltaria para os últimos raios da tarde até que a brisa já fresca nos mandasse embora e fecharia o dia com mais peixe e frutos do mar. A barriga ainda não pesa mas já é (um pouco) proeminente e, apesar da pressão sobre a bexiga da menina, não incomoda muito nem impede que se passe o dia inteirinho fora de casa. Foi outra barriguinha amiga que nos levou mas no caso dela já não se fala de pulguinhas mas de um bebé quase inteiro e é bom fantasiar sobre como vão os dois crescer juntos. Já sei que a chuva vai voltar mas não faz mal, já consegui um cheirinho do que vai ser o meu Verão :)

abril 05, 2010

Levar a pulguinha a conhecer sítios bonitos


Ela poderá ainda não se aperceber mas certamente sente a satisfação da mãe quando vai a sítios que lhe enchem a alma. Um desses sítios fica bem no alto, um castelo que às vezes se esconde entre as nuvens, espalhando a magia entre Portugal e Espanha. É uma incrível sensação de elevação (e não pela óbvia altitude), os olhos a perderem-se entre a planície e a Estrela ainda com neve num céu tão limpo, o Sol do final de tarde ainda sobre a vila. Pulguinha, não nascerás aqui mas será sempre esta a tua terra.

abril 04, 2010

Sobre crescer *

No ano em que faço trinta e um anos e vou ter um filho, acho que tenho já alguma autoridade para falar sobre o crescimento. E sei que ele não é medido pelo número de casamentos, responsabilidades profissionais ou aumento da prole. Durante muito tempo recusei-me a crescer, ou pensava eu. Até a assinatura do cheque que pagou a minha casa me provocou alguma urticária, um marco colossal do momento em que se fechavam as portas da minha adolescência e se iniciava a descida ao inferno dos adultos. Mas enganei-me e depois desse dia, depois de me sentar numa sala com notários, advogados, proprietários e os meus pais fiadores, depois de ouvir a leitura de um contrato de que não entendi mais do que duas ou três palavras e olhar sobre a paisagem cinzentamente urbana da Praça de Espanha, fiz muita asneira. E, consequentemente, não cresci. Não como estava pré-estabelecido, não como se esperava de mim, não como via os outros crescerem e fiquei pensando que talvez isso não me estivesse destinado.

Não me casei, não me tornei amarga e cinzenta, quis criar os meus próprios rituais. Não engravidei, não chegava cedo a casa e não respeitava os ideais do mundo dos negócios. Não tinha um relacionamento feliz (aliás, sempre fui exímia a escolher as pessoas mais erradas), não me tinha tornado numa dona de casa exemplar e continuava a não querer crescer. Mas a verdade é que toda essa viagem, todo esse trajecto de vazio em vazio, todos os dias em que cheguei a casa e ouvia o eco dos meus próprios passos me estavam a transformar radicalmente. Já tinha deixado de estar triste para estar apenas conformada com a ideia determinista que uma vida normal não era para mim. E via os meus amigos a casarem e a terem filhos e a mudarem de casa e a investirem no seu futuro e eu nada, nicles, continuava no (des)conforto da Lapa.

Aquilo que me fez crescer foi eu desejar o melhor para mim. Foi começar a pensar se era assim que eu queria continuar e tornar-me daquelas pessoas que não são ilhas mas antes icebergues à deriva, incapazes de controlar o seu rumo e prestes a chocarem contra a costa. Foi começar a perceber que eu podia efectivamente mudar a minha vida, eu é que tinha o poder de alterar as coisas, de me envolver em actividades que me davam prazer, de abrir-me mais ao Mundo. E quando fiz isso, quando resolvi que quem manda aqui sou eu e dei esse metafórico murro na mesa, cresci. A questão não é ter dinheiro nem é ter status nem sequer é encontrar quem nos preencha: é mudarmos a nossa vida com as nossas mãos, sem esperar que nos ajudem, nos aconselhem, nos incentivem. Tudo o resto muda a partir daí. Crescer é ter a vida em marcha, é perguntar a nós mesmos se é isto que queremos, é não ter medo de admitir que fizemos mal. E para este crescimento não são precisos aumentos nem viagens nem apartamentos novos. É só não acreditarmos que fomos destinados a ser um falhanço, especialmente quando há cinquenta mil pessoas a quererem provar-nos o contrário.

E crescer é não recusar desafios. Se vem aí um filho, há melhor coisa a fazer que desejá-lo como loucos e sonhar com o dia em que o vamos abraçar? Mesmo sabendo dos cocós que aí vêm e das saídas à noite e de todas as vezes em que não nos vamos entender e as noites velando-lhe o sono? Crescer também é abraçar aquilo que a vida nos dá e usá-lo o melhor que podemos. Quem se preocupa com os terríveis trinta quando, por dentro, ainda nos sentimos com os saudosos dezoito? Mesmo que o corpo já não o confirme... ;)

* para ti, que ainda não sabes quem és

abril 03, 2010

Em Sexta-feira Santa vimos o Diabo na Cruz

Fotos dele

Foi o dia em que retomei alguns hábitos antigos em Portalegre. Já há muito tempo que não me sentia em condições de sair para um concerto, ver gente (a mesma de sempre, na verdade, porque aos concertos vamos sempre os mesmos), chegar a casa depois da uma da manhã. Estes primeiros três meses de gravidez deixaram-me debilitada o suficiente para não querer ver nem falar com ninguém, enfiada no meu casulo e guardada pelo aquecedor. Mas, agora que a curva é ascendente, tudo mudou e de repente aguento estar a pé até mais tarde e ver gente e foi maravilhoso (a sério!) o número de felicitações que recebi ontem.

Fomos os três (eu, ela e ele) ver os Diabo na Cruz, uma daquelas super bandas que só conhecia de nome e de single na rádio, apesar de conhecer o trabalho a solo de alguns membros. Tinha lido a entrevista do Jorge Cruz ao Ipsílon e lembro-me de ele dizer que, no fim, a História estará ao lado daqueles que celebram a língua portuguesa (mais coisa, menos coisa). E ontem se provou que se calhar isso até é verdade e assistimos nos dias que correm à História a ser escrita em directo com esta recuperação das raízes populares da música, sem cedências nem contrafacções, modernizando-as apenas no sentido em que as tornam novamente actuais. Para mim foi um regalo ouvir alguns ritmos já ancestrais ou as lendas cantadas num Português impecável e sentir vontade de dançar. Agora, estou ansiosa por ouvir as versões de estúdio e tenho a certeza que serão bela companhia nas viagens de Primavera que aí vêm.