dezembro 30, 2010

Cartas ao Vicente [edit]

A ideia já andava aqui a fervilhar há uns tempos e resolvi que a comemoração dos três meses do Vicente seria um começo perfeito. Escrevo, a partir de hoje, cartas ao meu filho presente para que o meu filho futuro melhor possa reconstituir a sua história. Se as quiserem ler, actualizem os vossos marcadores. A morada está mesmo ali ao lado!

[Por motivos que não altura não me pareceram óbvios, vou tornar o blog do Vicente num espaço fechado. Caso alguém se interesse pelas lamechices de uma mãe babada, pode enviar-me o seu endereço de e-mail para eu juntar à lista de amigos! O meu e-mail está disponível no perfil. Obrigada por estarem aí.]

dezembro 29, 2010

Em jeito de balanço

Chegou a última semana do ano. Esta é, habitualmente, a semana em que olhamos para trás e em que (mais importante ainda) piscamos o olho ao futuro. O meu ano não começou da maneira mais brilhante: despedi-me do meu avô logo no início de Janeiro, um dia gelado em que já nevava às oito da manhã, como se precisasse de um sinal para marcar a data para sempre. Foi uma semana difícil, essa. O controlo das coisas parecia estar constantemente a sair do meu alcance e eu começava a ficar cansada de tanto caos.

Só que em Fevereiro as coisas alteraram-se radicalmente: no mesmo dia, descobri que esperava um bebé e esta passou a ser a nossa casa. Cortei um difícil cordão umbilical com a minha irmã mas crescia em mim a semente da nossa nova família. Os meses que seguiram foram tanto de enjoos como de alegria: não posso esquecer-me do dia do temporal na Madeira e no sumo de clementina que a minha mãe me espremeu ao almoço e as viagens constantes entre a sala e a casa de banho. Foram meses de sonolência e alergia a cheiros, meses de incerteza sem sentir as cambalhotas do bebé Vicente, meses de me tratar bem e de me poupar a esforços. Depois foi chegando o bom tempo e alcancei a parte gloriosa da gravidez: ausência de desconfortos coroada com uma barriga em crescimento e uns valentes pulos do bebé cá dentro . No final de Julho, fui despedida num processo de despedimento colectivo, em que a minha empresa resolveu ignorar os meus anos de trabalho, as minhas capacidades e dedicação e até mesmo o facto de eu estar grávida. Foi preciso muito tempo para engolir esta decepção, apesar de já há muito saber deste destino. Mas a verdade é que tudo acontecia no tempo certo porque havia um bebé a caminho.

Os últimos meses do Verão foram de grande expectativa mas também de alguma calma. Estar livre deu-me tempo para tratar de toda a burocracia e para simplesmente gozar as últimas semanas de gravidez. E depois chegou o dia 29 de Setembro e, tal como sempre imaginei, o Vicente chegou antes da data marcada. E eu descobri que não há nada que nos possa preparar verdadeiramente para a experiência brutal que é ser mãe: podemos ler muito, investigar e pesquisar, podemos frequentar cursos mas quando, chega a altura, só o instinto maternal é que nos safa. Já chorei muito desde esse dia, especialmente quando não sei o que fazer mas ninguém me arranca a felicidade de ver o meu filho engordar, crescer e ter tudo o que precisa. É um amor que ocupa todos os lugares, tão incondicional que às vezes parece que perdemos o juízo. E a minha vida nunca mais foi como era.

A única coisa que desejo para o novo ano é a felicidade e bem estar do meu filho. E a minha única resolução é a de ser mais racional e não me deixar abater pelos pequenos obstáculos diários. Trabalho e outros dividendos hão-de vir e serão sempre bem vindos mas o meu mundo agora gira à volta de outras coisas. Feliz ano de 2011! Que a sorte ou o destino ou outra força qualquer vos seja generosa!

dezembro 25, 2010

Quem meus filhos beija, minha boca adoça


Não é nada que não soubéssemos já: o Natal este ano era do bebé Vicente e nós passaríamos definitivamente para segundo plano. As prendas que antes recebíamos foram transferidas para ele e nós, orgulhosos do nosso bebé, ficamos contentes por vê-lo a acumular brinquedos e roupa nova. Ontem à  noite desembrulhámos os presentes e o Vicente assistiu sereno a tudo, sem perceber o que estava a acontecer à sua volta. É um bebé cheio de sorte e nós não sentimos falta de presentes nenhuns. Para o ano é que ele vai ser...

(Os últimos dias foram tão agitados, e não numa forma exactamente positiva, que não houve sequer tempo para me sentar aqui e escrever os meus votos de Natal. A todos os que estão desse lado desejo um Feliz Natal atrasado, na esperança de terem tido uma noite tão cheia como eu!)

dezembro 21, 2010

O (meu) primeiro banho do Vicente

Demorei este tempo todo, é verdade e tenho muita vergonha. Quando o Vicente veio para casa, tentei logo dar-lhe banho mas ele era tão pequeno e tão frágil que a banheira que comprámos parecia enorme para ele (é uma banheira shantala, se nunca viram descubram como os bebés gostam aqui). Fiquei frustrada por não me sentir segura no banho - saber que os bebés precisam de uma quantidade mínima de água para se afogarem não ajudou. Entretanto, fui ajudando no banho e vendo o pai, carinhoso e paciente, a dar-lhe o banho à noite, enquanto eu me ocupava de secá-lo e enchê-lo de creme hidratante. Só que agora ele é bem grandinho e ontem à noite lá me aventurei no banho do meu bebé. Sei que me ia arrepender amargamente no futuro se nunca participasse neste ritual por um medo parvo e um pouco infundado. Ainda tenho alguma falta de jeito mas já tenho a certeza que, a partir de agora, vou repeti-lo tantas vezes quanto puder e conseguir estar mais perto do meu bebé!

dezembro 17, 2010

Das saudades que me disseram que ia sentir

Acho que é por ainda ter algumas amigas grávidas. Lembro-me de me dizerem, já quase no final da gravidez, que ainda ia ter saudades da barriguinha, para a gozar bem antes do Vicente sair cá para fora. Mas acho que naquela altura estava completamente refém dos sintomas maus da gravidez (a azia à noite, os pés inchados como balões, dores nas articulações das mãos, dores nas ancas e costas, algumas insónias) e do tamanho da minha barriga para sequer pensar nessa possibilidade. Custava-me tanto levantar-me da cama ou do sofá que a única coisa que desejava era que a barriga desaparecesse com um passo de magia.

Mas entretanto tinha amigas grávidas (uma delas já tem o seu homenzinho cá fora!) e lia blogs de outras grávidas que ainda esperam os seus bebés e não consigo evitar sentir o que posso descrever como uma pontinha de inveja (saudável, claro está!). Não é tanto do tamanho da barriga mas é daqueles momentos de expectativa, de sentir um bebé às voltas cá dentro, da vontade incontrolável de o conhecer. Ter o Vicente comigo é maravilhoso, é evidente, mas tenho saudades do tempo em que ele estava na minha barriga e em que eu idealizava o seu nascimento e crescimento. São as únicas coisas que me fazem ter vontade de voltar a ser mãe neste momento - não que não gostasse de ter mais filhos, mas ainda é muito cedo para pensar nisso. Vou-me entretendo a cobiçar as barrigas alheias!

dezembro 13, 2010

Breves destas bandas


Quase a chegar aos três meses, o bebé Vicente está (naturalmente) muito diferente dos meses anteriores. Sofre menos de cólicas, passa muito tempo alerta e ri-se muito para o pai e a mãe. Já ensaia as primeiras tentativas de palavras e, quando estimulado, parece que já nos está a responder. Continua muito chorão, é verdade, e conseguir adormecê-lo continua a ser um pesadelo mas acho que já podemos falar em mudanças. Como agora já está mais atento ao que o rodeia, montámos um mobil no fraldário e já o deitámos numa manta de recreio para que possa ir ficar atento às novas formas e cores mais vivas.

Como é óbvio, este Natal vai ser muito especial porque é o primeiro que passa connosco. Mas quando nos perguntam que prendas oferecer ao Vicente ficamos sem saber responder: é ainda muito pequeno para apreciar brinquedos, cresce a um ritmo alucinante para pensar em roupa e já tem todas as comodidades que precisa com esta idade. No ano que vem já será diferente e ele já será capaz de gozar as festas de outra maneira. Este ano vai limitar-se a ser adorado como o novo Menino Jesus e até nós não pensamos em comprar-lhe grande coisa: não lhe tem faltado nada e é assim que planeamos continuar.

Hoje vamos jantar pela primeira vez com amigos sem filhos. Já fomos convidados de outros jovens pais, que sabem como funcionam estas coisas e sabem que a qualquer altura a disposição dos bebés pode alterar-se. Hoje será mais um teste para nós e para o Vicente, que normalmente se dá bem em ambientes com mais ruído. Em todo o caso, e lembrando o que uma jovem mãe que escreveu no seu blog, os amigos sem filhos acabam por se afastar de nós porque não sabem como lidar com o bebé e nós acabamos por nos isolar um pouco porque sabemos da imprevisibilidade do comportamento dele. Estas experiências são necessárias, especialmente porque não podemos viver longe de tudo e porque afinal o Vicente está a crescer e a mudar. De qualquer maneira, são os amigos que se mantém longe que perdem: não chegam a ver um Vicente pequenino e sorridente nos intervalos das birras!

dezembro 10, 2010

Regresso ao passado

Chegou-nos hoje a casa esta relíquia ainda em perfeito estado de conservação e funcionamento. À minha memória vieram as tardes que passava no trabalho da minha mãe, dividindo o tempo das minhas férias entre máquinas de escrever e o Chuckie Egg nas salas do Projecto Minerva (alguém ainda se lembra disso?). Só já há uma fita de substituição disponível: depois, é rezar para encontrar mais naquelas papelarias velhas. Velhas não - saudosas. O pai do Vicente bem insiste comigo que era o meio ideal para começar a escrever um livro mas acho que seria demasiado trabalhoso, já para não falar de pouco prático. Afinal de contas, a tecla delete faz um jeitão daqueles e, que eu me lembre, o copy/paste não tinha ainda chegado ao analógico. Mas não deixa de ser um objecto meio romântico, uma peça de museu para o Vicente que nunca vai saber como era viver sem computadores e que dificilmente compreenderá a ideia de rolo de fotografias. Assim, matamos dois coelhos duma cajadada só: criamos-lhe memórias e preservamos a nossa própria história.

dezembro 07, 2010

Nós por casa



O pai do Vicente andou a experimentar a sua nova lente fisheye.

Há duas coisas que o bebé Vicente fez ou faz pela nossa pequena mas acolhedora casa: inspirou grande parte do mural de fotografias que nos recebe todos os dias e, ao mesmo tempo, trata da desarrumação de todas as divisões. Já desconfiava que ter filhos é isto mesmo: estratégias para o adormecer, chuchas, frascos de gotas, fraldas e materiais semelhantes espalhados pela casa e ainda nem chegámos à altura em que ele vai começar a brincar. Por enquanto, todos os brinquedos estão guardados em caixa ou em prateleiras no quarto que o Vicente ainda não ocupou. O tempo está a passar e não tarda, estamos a decidir que ele deve passar a dormir sozinho e independente do olhar obsessivo da mãezinha dele, preocupada com todas as voltas que ele dá na cama. Já o mural sabe-nos muito bem e foi empolgante ir escolhendo fotografias durante a gravidez, deixando sempre o espaço principal para o bebé que ainda não tinha nascido e imaginando as suas feições e as poses das primeiras fotografias. É o espaço público do nosso amor e o sítio onde escrevemos a nossa história.

dezembro 01, 2010

Campo de Ourique

A rua onde moramos é uma das fronteiras entre a Lapa e Campo de Ourique, chegando ao cúmulo de cada lado da rua (ou metade da rua, não estou certa) pertencer a uma das freguesias. A nós calhou-nos em sorte a freguesia da Lapa, o que fica muito bem no cartão do cidadão, impressiona algumas pessoas mas não tem metade do glamour que todos imaginam. Na verdade, conhecemos muito mal a Lapa e a forma como se estende desde a avenida Infante Santos até ao rio. Sabemos onde fica a junta de freguesia, onde fica a nossa mesa de voto, o centro de saúde e pouco mais.

Somos mais pessoas de Campo de Ourique, apesar de na verdade sermos pessoas de Portalegre. É lá que gostamos de fazer as nossas compras, de beber café e hoje aproveitámos o dia para passear um pouco entre a Ferreira Borges e o jardim da Parada. Este bairro tem vida e isto é muito mais do que se pode dizer de muitos bairros de Lisboa e o que é ainda mais interessante é a diversidade de pessoas com que nos cruzamos na rua. É verdade que grande parte é gente daquelas famílias antigas, de bem, meninos e meninas vestidos de igual, figuras públicas sentadas nas esplanadas e senhoras de cabelo armado. Mas também há jovens artistas, os velhos que jogam cartas no jardim da Parada, as figuras misteriosas dos bairros mais degradados à sua volta. E Campo de Ourique ainda é o paraíso para quem, como nós, gosta de prédios antigos cobertos de azulejos, melhor ou pior conservados. Há poucas ruas onde não encontramos um padrão que nos surpreenda, uma varanda onde nos víamos a viver. Levámos o Vicente a passear pelas ruas do bairro que também é seu, ouvir o movimento e as pessoas nas ruas, aproveitar uma pausa nas massas de ar frio. E pudemos, enfim, respirar.