Este é um momento solene e de feliz partilha. Esta é a primeira imagem da primeira peça do meu enxoval que consegui arrancar à minha mãe. É isso mesmo: arrancar.A minha mãe mantém o meu enxoval refém desde os tempos mais remotos. É ela que põe ordem na imensidão de colchas de renda feitas pela minha avó, bolsas do pão como toda a gente devia usar (com as suas próprias iniciais), faqueiros, trens de cozinha, panos de cozinha e toalhas de mesa. Só há pouco tempo é que descobri que o meu enxoval inclui ainda um secador (e jeitoso!), uma faca eléctrica, um ferro de engomar e uma batedeira. Isto sou eu a ser pouco curiosa e a deixar o resto com a minha mãe.
Confesso que, como quase todas as raparigas que conheço, que sempre odiei a ideia de ter um enxoval. A simples palavra arrepia-me. A ideia que lhe está subjacente - a do casamento como dita a lei, dentro do tempo estipulado pela lei, com o marmanjo estipulado por moi- aflige-me. E sempre que a minha mãe me tentava convencer de que era a melhor coisa a fazer, que ser prevenida não podia fazer mal a ninguém e que mais um jogo de toalhas só trazia vantagens eu fugia. Eu simplesmente ignorava a prendas que se destinavam ao enxoval: deixava a minha mãe armazená-las junto do resto (coisa misteriosa) em localização incerta (e ainda mais misteriosa!). Cuecas e meias ainda vá que não vá; mas jogos de cama? De flanela, ainda por cima? Nã, nunca consegui esboçar o mais pequeno sorriso. Não era só eu, eu sei: esta é mais uma fobia geracional.
Os anos passaram depressa demais. Tão depressa que agora quem anda a ver do enxoval sou eu. Não do enxoval do género o véu e demais adereços do casamento mas das utilidades. Quando pensei numa casa minha e numa coisa totalmente independente deparei-me com um bonito e desesperante cenário: as casas vêm vazias! Quer dizer, eu sabia que vinham vazias.. mas vê-las assim... Hum. Portanto, há ali espaço que até chateia que uma miúda tem que encher. Há armários da cozinha à espera de ter tachos lá dentro e formas de bolos e travessas de pirex. Há gavetas à espera de panos floridos e de toalhas de plástico e há receitas que esperam os meus electrodomésticos para serem preparadas. O que não havia era vontade da parte da minha mãe para se desfazer de tudo.
Ela bateu o pé. Que não era suposto levar já as coisas, que o enxoval só se deve usar num casamento. Se não o exprimiu exactamente assim verbalmente, certamente que esteve lá próximo. De maneiras que, durante uns tempos, me vi obrigada a cercá-la e rondá-la e tentar descobrir onde guarda tudo. O que não consegui, obviamente, porque toda a gente sabe que a minha mãe é perita em esconder e rearrumar coisas. Depois passei às falinhas mansas, Precisava de fazer um bolo mãe! Mas em Lisboa. Onde está a batedeira? mas nada também. Ela dizia que ainda não era tempo. Estava quase a desistir quando lhe falei em secar o cabelo e ela me desencanta esta máquina. Um pequeno passo para mim, um passo gigante para o resto do enxoval. Se a coisa se compuser entretanto, vou poder vê-lo todo em algumas semanas. Mas só se ela achar que não é pecado uma gaja de 26 anos já viver sozinha com o seu próprio enxoval. Portanto, a coisa vai demorar.