março 06, 2007

Extasiada!




Só estou à espera que alguém me diga ou me mostre quanto vai valer isto tudo... Não estou a falar de dinheiro, há alturas em que isso é secundário. Mas... vê-los todos? Num só ano? Alguns mais que uma vez? Na, alguém me há-de explicar onde é que está o '...mas...'.

março 04, 2007

Auto-ajuda

Only meet new people . Only wear new clothes. Only give to new beggars. Only think new thoughts. Only eat new food. Only read new books. Only browse new websites. Only watch new channels. Only visit new places. Only make love to new bodies. Only buy new furniture. Only dance new moves. Only listen to new music. Only discuss new topics. Only dream new dreams.

[Este é um diário que promete mudar a nossa vida. Chato é quando nem com ajuda nos deixamos mudar.]

fevereiro 28, 2007

Long Distance Callers *


Estendeu um pedaço de pano gigante numa esquina da Fontes Pereira de Melo. Agitava o megafone e gritava coisas que cá em baixo soavam apenas a ruído. Tinha escrito no pano 'Se não me derem chamadas internacionais a 15 cêntimos eu...' - presumo que continuasse esta frase de muitas maneiras, sempre com o megafone na mão. A minha primeira reacção foi pensar que era mais um manifesto dos funcionários da PT. Mas depois, banana como sou, levei a coisa para o romantismo: imaginei que mulher estaria a viver longe deste homem. Imaginei as saudades que sentiam um do outro e a rapidez com que (talvez) falam ao telefone para conseguirem poupar. Tanto quanto sei, isto podia ser apenas e só uma brincadeira ou mesmo um funcionário da PT muito zangado. Mas enquanto olhava lá para cima, comovida, isto soava-me apenas a mais um momento de poesia urbana.

A banda sonora deste momento materializou-se de imediato na minha cabeça. É dos portugueses Pinhead Society, dos quais tenho tantas saudades. Deles e do tempo em que não saíam da minha aparelhagem. É qualquer coisa assim* : Sometimes it seems like you're so far/ Just five minutes away from me/ It's like they are all against us/ And you like to feel that way/ I hear the ring and there goes my mind/ Through the telephone line...

fevereiro 27, 2007

Roam-se se inveja, esta é a minha nova freguesia!



Hoje senti-me cortada ao meio. Aproveitei o dia de folga a meio da semana para tratar de coisas que há muito estavam pendentes, como a inscrição no centro de saúde, a mudança de residência - burocracias do pior. E, se no centro de saúde a coisa correu pelo melhor, a questão da junta de freguesia é que não foi tão famosa. Não por não ter sido bem atendida ou por ter demorado uma eternidade, nisso lá se safaram. Mas o acto em si deixou-me um bocadinho triste. É óbvio que já não faz sentido manter a minha morada em Portalegre e muito menos faz sentido ter que fazer 200 km sempre que quero votar (para quando o voto em qualquer ponto do país?). Mas quando se completar este processo, é como se eu tivesse abandonado definitivamente a minha cidade. É verdade que já a abandonei há 10 anos (!) e que só volto como convidada. Mas continuava a pertencer ali. E agora vou continuar a pertencer... Mas os dados no meu cartão de eleitor e bilhete de identidade vão ser uma nodoazinha na minha naturalidade...

Mas depois disto, dou de caras com ruas que estendem os seus longos braços até ao rio. Cheira-me já a Verão quando ando na rua. O céu está tão azul para um mês de Fevereiro e o casaco já começa a incomodar-me... Nas ruas há muita gente a ir almoçar, a tratar das coisas triviais da vida, há velhos encostados aos quiosques a ler as gordas, há miúdos à porta das escolas e está tudo tão calmo. No ar e neste cheiro a Verão há uma promessa. Não sei exactamente do quê mas sinto-a. E conformo-me: afinal não é assim tão mau ser filha adoptada da Lapa.

fevereiro 24, 2007

Variações sobre um auto-retrato

Untitled Film Still #54, Cindy Sherman

Quando saí, já pingava lá fora. Durante largos minutos encostei-me à porta do prédio e esperei que passasse mas não valeu de nada. Esta noite, como tantas outras noites, lembrei-me que choveu em todos os dias que estivemos juntos. Disse-te isso uma vez mas tu encolheste os ombros e disseste que não ligavas nenhuma a estes sinais. Mas eu sim, eu sei o que eles querem dizer-me.

Hoje quis dizer-te que ficava, que afinal não quero nem posso dormir sozinha naquela casa vazia mas não consegui. A minha boca ainda se entreabriu mas não saiu um som sequer. Nem um murmúrio nem um sussurro nem uma palavra dita baixinho. Nada. Estavas sentado na poltrona a fumar, estavas despido e com frio mas o cigarro não te deixava voltar para a cama. Quando te levantaste hoje, sem sequer dizeres uma palavra, pensei que nunca mais me ia estender na tua cama. Mas eu tento enganar-me e convencer-me que és assim, que és um tipo de poucas palavras, que falas melhor com as tuas mãos do que com a tua boca e no final é mesmo assim. Eu estou ligada a ti apenas pelo corpo. Não existe nada mais que possamos partilhar - apenas um par de suspiros suados.

Prometi que um dia destes deixo de cá vir. Levantei a gola do casaco devagar, sem saber se me quero realmente proteger da chuva (como não sei se me quero proteger de ti). Saí de tua casa demasiado dormente e não consegui apanhar o último autocarro para casa. Em vez disso, chamei um táxi e fui beber um copo. Sentei-me ao balcão e senti que toda a gente olhava para mim. Acho que tinham tanta pena de mim que nem ousaram aproximar-se. Só quando saí é que me apercebi que ninguém sequer tinha notado que eu estava ali sentada. Apanhei um táxi e deixei o taxista falar o caminho todo. Secretamente, estava a debater cá dentro se amanhã te ligo primeiro ou se vou directa para tua casa.

fevereiro 23, 2007

Sobre descobertas inesperadas *

A minha amiga J. mima-me. Não só me convidou para conhecer a sua nova casa, como também me presenteou com mais um dos seus jantares deliciosos. Chegados a Algés demasiado atrasados, demos com a casa cheia, um Benfica já com um pezinho na próxima eliminatória da UEFA e uma garrafa de Monte Velho já aberta. E, se há coisa que consegue reunir estes amigos, essa coisa é qualquer ocasião em que estejamos todos sentados à mesa.

A mão dela para a cozinha é, entre nós, sobejamente conhecida. Já comemos belas açordas, fartas feijoadas de marisco ou simples pratos de massa feitos por ela. Quando estamos juntos é inevitável que a noite acabe a falarmos de comida. A imagem não varia muito: fim de noite, o bar começa já a ficar vazio mas nós insistimos em ficar. Fala-se do que se comeu essa semana mas, mais importante, daquilo que conseguíamos comer nesse preciso momento. Não raras vezes acabamos à porta duma fábrica de bolos, a comprarmos empadas quentinhas ou folhados de carne. Às vezes sinto saudades das noites em que nós sentávamos num bar, completamente fora de horas, a degustar um prato de linguiça frita ou aquelas febras grelhadas com molho de limão e manteiga. Sim, eu sei: só de falar nisto o meu colesterol está a aumentar.

Eu não entendo as pessoas que não gostam de comer, aquelas pessoas que comem apenas porque tem que ser e porque se não o fizerem morrem. Não compreendo como é que se pode não gostar de estar a almoçar tarde e a esticar o almoço até bem perto do jantar. Eu sou daquelas que chora quando vê o seu peso na balança mas que é incapaz de deixar de comer. Portanto, vivam todos estes momentos culinários! Agora, se me dão licença, vou ali acabar a minha sobremesa.

*requeijão com doce de framboesa, as seen @ Janeca's.

fevereiro 20, 2007




Receio que as trivialidades informativas tenham finalmente dado conta da minha vida.

Se ouço mais alguma vez falar no carnaval de Torres Vedras (ou de Sesimbra ou de Loulé ou de Sines, para todos os efeitos) prometo que vomito. Ligo a televisão e, senão é este carnaval, é o carnaval excepcional que nos foi oferecido por Alberto João Jardim. Se não falam disso, os jornalistas plantam-se à porta das urgências abertas até mais tarde, a tentar fazer duma banalidade uma reportagem séria. Estou cansada das manifestações contra os fechos das urgências, saturada da dança de cadeiras a que assistimos todos os dias na câmara de Lisboa, enjoada pelas sondagens que nos apontam como os mais pobres da Europa. Não há mais pachorra para novas telenovelas, velhos apresentadores de televisão, canais sobre fenómenos paranormais. Acho que odeio os nossos meios de comunicação social. Pelo menos por enquanto.

Por isso, retomei todas as actividades esquecidas. O livro já está estrategicamente pousado na mesa de cabeceira e leio quando as trivialidades não me fazem cair de sono ainda antes das onze da noite. O suplemento do jornal já volta a entrar cá em casa, depois de alguns meses de castigo. A cozinha tornou-se novamente um sítio a descobrir e uma óptima maneira de passar o tempo. Assim, tenho tempo para outras trivialidades. Só assim é que posso perder tempo a pensar como o queijo faz maravilhas por qualquer alimento sobre o qual derreta.

fevereiro 17, 2007

Sobre boas razões para se dançar na sala

Eu nem gosto dele por aí além. Fisicamente, quero dizer. Olho para o rapaz e as minhas hormonas quase não reagem - não é definitivamente o meu tipo. Mas confesso que ele canta coisas que me deixam a pensar duas vezes nesta não-atracção que sinto por ele. Contas feitas, depois de ouvir vezes sem conta o rapaz a cantar sobre coisas da carne, sobra-me uma pontinha de atracção. E não, não estou a falar de amor e dessas coisas melosas. Estou simplesmente a falar de sexo. As palavras fazem maravilhas, não é?

You can't stop, baby/You can't stop once you've turned me on/And your enemy are your thoughts, baby/So just let 'em go'/Cause all I need is a moment alone/To give you my tongue/And put you out of control/And after you let it in/We'll be skin to skin/It's just so natural

fevereiro 16, 2007

E agora para algo muito pouco romântico *

Os únicos planos que tinha saíram-me muito bem. Levei o papá ao estádio ver o Benfica na Taça Uefa, dificilmente teria encontrado uma prenda de anos melhor. Passámos algum frio, roemos muito as unhas mas lá saímos contentes da catedral. Se há algum motivo para eu ser uma lampiã(ona?) empedernida é este senhor aqui. E com muito gosto.

(antes do jogo começar assistimos a dois pedidos de casamento no relvado. Olho para os noivos no ecran gigante e fico desconsolada - consigo imaginar poucas coisas menos românticas. À saída, tentamos contrariar a corrente para voltar para casa. O teu perfume assalta-me demasiadas vezes entre a multidão - é estranho como o cheiro nos faz reconstituir momentos até ao mais ínfimo pormenor. Mesmo assim, o S. Valentim foi um senhor simpático e fez-me chegar flores num envelope. Saldo positivo, então!)

* post atrasado de dia de S. Valentim.

fevereiro 11, 2007

Sobre as certezas que se têm uma vez na vida


Robert: When I think of why I make pictures, the reason that I can come up with just seems that I've been making my way here. It seems right now that all I've ever done in my life is making my way here to you.

(Hoje dá um dos meus filmes preferidos na televisão - As pontes de Madison County. Se eu fosse sincera comigo mesma e pensasse no que verdadeiramente espero do amor, iria com certeza desaguar nesta memória. Robert Kincaid rasga a monotonia da vida de Francesca Johnson, atravessando o seu caminho à procura de mais uma imagem perfeita. Resgatada da solidão de uma vida matrimonial que não consegue abandonar, Francesca oferece a si mesma a possibilidade de sonhar e de sentir na pele o toque de um homem que nunca vai poder ter perto de si. Atraído pela força e sensualidade reprimida de Francesca, Robert vê respondidas algumas questões sobre o sentido da sua vida.

Aos dois é dada a possibilidade de partir, de reiniciar uma vida longe das terras sufocantes do condado de Madison. E, aterrados pela possibilidade de serem livres, os dois escolhem o inevitável: Robert parte, em busca da aventura sem a qual não imagina a sua vida e Francesca fica, tratando da família que não pode deixar para trás. Aos dois restam as memórias de uma certeza única na vida, a certeza que nem todos experimentam mas que lhes foi oferecida aos dois: a certeza de que tinham encontrado a outra metade de si. Às vezes penso que a mim já me foi dada essa possibilidade e é por isso que me comove esta história: eles sabiam o que tinham, viveram-no intensamente e caminharam em direcções opostas. Porque é sempre mais fácil caminhar quando se tem aquela certeza.)

fevereiro 10, 2007

Lucky *

Eu bem sabia que alguma coisa ia acontecer. Acho que só não esperava que fosse uma coisa positiva, tal é o meu grau de pessimismo neste momento. Quando há demasiadas coisas a acontecerem a meu favor espero sempre o momento em que vem alguma coisa verdadeiramente má que vai dar o equilíbrio todo à coisa.

Mas não. Desta vez, finalmente, estava enganada. Chamaram-me à parte no trabalho, sentaram-me misteriosamente na copa e ofereceram-me uma promoção. Sem direito a concurso nem a decisões difíceis, sem direito ao nervoso miudinho de saber se se é ou não escolhido, sem a normal desilusão final. Temos este lugar para ti, é teu, foi assim que me apresentaram as coisas. Primeiro vem um arrepio de calor; depois, o coração dispara como num primeiro encontro; e finalmente há uma onda de dormência, como se tivessemos tomado uns miligramas de morfina e os contornos fossem de repente mais esbatidos. Tudo bem, talvez não tenha acontecido assim - mas é como eu me lembro de tudo. Deram-me a hipótese de recusar, caso achasse que não estava preparada. Mas se há coisa que eu estou é preparada. Muito preparada. Preparadíssima. E portanto a resposta foi sim.

Quando esta decisão foi anunciada ao resto da equipa, o silêncio que dela resultou foi quase sepulcral. Nenhuma reacção efusiva, negativa ou positiva, a não ser uns parabéns tímidos de alguém. Regressados ao trabalho, recebo umas palmadinhas nas costas com uns 'Tu mereces. Parabéns, hã?' muito pouco convincentes. Já me ocorreu que esta secura toda, esta dificuldade em aceitar a novidade seja uma coisa só da minha cabeça. Mas as pessoas não são assim tão imprevisíveis. Eu esperava já esta reacção - apenas não a esperava tão generalizada. Por isso, o meu primeiro dia nesta nova posição foi apenas um dia de alguma angústia. O primeiro de muitos que hão-de vir, segundo todos me dizem. Pensava que só podiam vir coisas positivas daqui. Afinal, estou já a preparar-me para mais uma prova de força. O que até nem interessa. Porque afinal de contas eu fui promovida.

*Im on a roll,
Im on a roll this time
I feel my luck could change.

fevereiro 09, 2007

As noites na Quina das Beatas


A menina foi ao Centro de Artes e Espectáculos de Portalegre ver os The Poppers. A ideia de café-concerto sempre me agradou: fica-se sempre mais perto da música. E depois, numa cidade desta dimensão, as probabilidades de acabar a noite com a banda a dançar freneticamente êxitos dos anos 50 e 60 são elevadas. Bastante elevadas. O concerto foi um pouco longo, com direito a uma pausa que a todos levava a crer que tinha já terminado (e tinha!). O rock dos meninos é bem oleado, de raízes tradicionais e a deixar adivinhar a mão amiga de Paulo Furtado. O frontman tem a dose necessária do ar sou-uma-estrela-do-rock-and-roll mas ainda lhe falta alguma experiência para ser o verdadeiro entertainer. Bom concerto, ainda assim.

fevereiro 06, 2007

Chungking Express



We're all unlucky in love sometimes. When I am, I go jogging. The body loses water when you jog, so you have none left for tears.

[de um momento para o outro, num fim de semana curto e caseiro, descobrem-se as soluções para as coisas que nos afligem]

fevereiro 03, 2007

A menina dos meus olhos!



Ainda é bebé. Nasceu saudável, com nove quilos. Não come muito, não me dá trabalho nenhum à noite. Ultimamente não consigo despegar os olhos dela. Quando vou no corredor, preciso olhar para trás para ver se ela fica bem. É que, depois de dez anos, já merecia uma caixinha assim.

I'm not here for you entertainment

Tinha adormecido cedo, culpa da semana de trabalho que só hoje terminava. Por uma vez, tinha adormecido de forma pacífica e rápida, sem grandes voltas na cama, sem nada em que pensar. Não que o sono me tenha faltado nos últimos tempos - mas mesmo assim, tinha sido um adormecer indolor. A noite não quis ser assim: quando o sono ia já em estádios avançados, chovem as mensagens, pingam os telefonemas. Não interessa que eu esteja a dormir, nem sequer importa que trabalhasse de manhã. Eu tento explicar, lutando contra o ruído imenso do outro lado da linha, que estou a dormir. Ou antes, que estava. Mas não consigo fazer-me entender, o telefone toca outra e mais uma vez. Até que o desligo. Ponto final.

A manhã começou quase radiosa. Pelo menos metaforicamente. Enfio-me no carro, encolhida com o frio. Subo até ao carro com a garrafa Pluma na mão, qual anúncio do gás. Mas em versão morena. E pernas muito mais curtas. E.. enfim. Ligo a rádio para me acompanhar, a viagem não é longa. De uma assentada só, o DJ da Radar oferece-me os Postal Service, os Beirut e os Eels. A viagem é curta mas suficiente para recordar. Quando chego ao topo do parque Eduardo VII maravilho-me pela enésima vez com o amanhecer em Lisboa: a neblina que sobe do rio, os tons rosa e azul pastel mesmo por cima da avenida da Liberdade, as ruas vazias e aparentemente limpas. Chegada à garagem do emprego, consigo o último lugar vago. Pensei '...não pode ser. alguma coisa está para acontecer.'

O dia é o mais calmo que me lembro. A única perturbação é a colega psicopata a arrotar de 10 em 1o segundos, depois de beber a segunda garrafa de litro de água com gás. Alguém põe a tocar uma colectânea do George Michael e eu abano-me na cadeira - aquilo é muito boa música pop. Depois há um cd inteirinho de salsa, outro da Nelly Furtado. O trabalho rende mais do dobro em dias assim mas parece que nunca é suficiente. Deixo aquilo para trás às quatro da tarde e cheira-me finalmente a fim de semana. Debato-me entre as decisões difíceis a tomar: concerto no Fórum Lisboa ou reabertura do Incrível Almadense. Há uma garrafa e meia de gin no armário e água tónica no frigorífico. O passado continua a bater-me à porta. É nestes dias que franzo o sobrolho e penso '... que raio estará a vida a preparar-me agora?'.

janeiro 27, 2007

Talisman - Carta atrasada


Às onze da manhã entraste num autocarro com destino ao teu Destino. A essa mesma hora, eu acordei e, ainda deitada e atordoada com o frio da manhã, pensei que estavas a partir. Estar longe de ti não é sequer uma novidade: aliás, a única maneira de funcionarmos foi sempre essa. Mas, mesmo assim, acho que vai ser estranho pensar em ti, para lá da nossa fronteira.


Tens dois braços ansiosos à tua espera. Tens um olhar, que recordavas nas noites em que não dormias, que precisas de rever. Ela é o teu porto de abrigo e vai receber-te exultante. Imagino a tua viagem e a maneira como olhas pela janela do autocarro, meio perdido, meio deslumbrado com a liberdade total. Tentaste ser feliz muitas vezes e sempre de maneiras diferentes e nunca foste capaz. Nem eu fui capaz de chegar onde precisas que cheguem. Mas pelo menos eu tentei. Ela conseguiu, pelos vistos. Ela foi mais forte e levou-te até ela, portanto tem que ser alguém especial. E se assim é, tu vais conseguir construir finalmente qualquer coisa. Um caminho, um legado, uma relação, qualquer coisa.


A carta que te escrevi chegar-te-à às mãos. Provavelmente vais lê-la e escondê-la. Ou então lê-la e deitá-la fora de imediato. Mas as cartas sempre foram um tesouro, escrever tudo à mão sempre foi um alívio e uma marca mais duradoura que um telefonema, um email. Para já apenas desejo que sejas feliz. Que não seja esta mais uma oportunidade desperdiçada, um engano, um contratempo, uma indecisão da tua cabeça inconstante. E que o seja nos braços de alguém que lê as tuas necessidades nos teus olhos inexploráveis, os olhos mais bonitos que alguma vez vi.


We only come out at night.

Auto-retrato com mãozinha de MT

janeiro 21, 2007







No meu sítio preferido de Lisboa é fácil fingir que sou outra pessoa qualquer. Basta-me olhar para as janelas que furam o casario que se estende até perder de vista.

janeiro 20, 2007

Hoje


consegui sentir sobre mim a luz do dia, os graus centígrados que ameaçam tornar-se negativos já amanhã



sentei-me novamente sozinha numa sala de cinema, escura e semi-vazia, à espera do momento em que deixo de dar por mim



vi tantas tantas caras conhecidas, vi-as até sentir uma tímida náusea



abri uma garrafa de vinho porque posso porque mereço porque me quero esquecer das coisas que se dizem ao telefone porque não acho justo porque comemoro a minha liberdade e a minha solidão porque quero fingir que nada se disse porque hoje não quero estar sozinha



(sei escrever apenas sobre o que conheço. é por isso que nunca serei grande escritora.)

Post OST : Someone like you, New Order

"Are you watching closely?"

How could I not be?

(imagem daqui)

janeiro 18, 2007

Popular Mechanics for Lovers

Hoje estou, como diria esse rapagão alto e espadaúdo chamado RAP, um pouco confusa. Deitei-me ontem com um pensamento na cabeça, uma coisa para durar assim umas horas valentes (não que tenha durado tanto, porque já ia com a pestana quase fechada...): não sei exactamente o que esperar num rapaz. Ou melhor, e a verdade é dura, não sei patavina sobre o que quero. Temos sempre a pretensão de não sermos pessoas complicadas, de só querermos ser feliz, blá blá blá mas no fim não há nada que se consiga aproveitar.

Gostava que o rapaz gostasse de ler mas não pode gostar muito porque correria o risco de se tornar num intelectual chato e sem graça, que já leu tudo o que há para ler e cujas conversas nos enfadam. Era bom que ele gostasse da mesma música do que eu. Mas reconheço noutros gostos musicais um sopro refrescante, ao que ainda podia juntar as discussões saudáveis e construtivas sobre gostos que nunca se deviam discutir. Gostava que ele fosse um bom garfo mas não demais: não quero correr o risco de partilhar as minhas refeições com alguém que come como se lhe tivessem dito que o mundo acabava nos próximos quinze minutos. Gostava que fosse bonito mas não demasiado. Há coisas muito mais interessantes nas imperfeições, há pormenores que se descobrem todos os dias e dos quais aprendemos a gostar. Gostava que ele fosse cavalheiro mas apenas o suficiente para me fazer sentir uma dama de vez em quando: não é bom que nos tirem sempre tudo da frente, que nos queiram sempre abrir as portas, que nos queiram sempre servir primeiro. Caramba, uma gaja gosta de ser esquecida de vez em quando! Como é óbvio, gostava que me dissesse coisas bonitas e me fizesse elogios. Mas só quanto baste, porque quando as pessoas se começam a auto-anular a coisa dá imediatamente para o torto e o interesse cai a pique. Gostava que me desse razão. Muitas vezes. Mas apenas as vezes suficientes para não achar que ele não tem mesmo opinião. E depois porque esse combate pela razão é muitas muitas vezes afrodisíaco... E gostava que pensasse em mim. Mas de tempos a tempos. Muitos tempos. Mas que de vez em quando se fizesse esquecido e me deixasse a pensar.

E sobretudo, a exigência maior e sobre a qual não estou disposta a fazer cedências, tem que ser uma pessoa que me acelere o coração duma tal maneira que eu nem sei se vou conseguir sobreviver. No outro dia, ia no autocarro e sentia-me assim, como se o coração já me tivesse chegado à garganta. E pensava que talvez não aguentasse a viagem de dez minutos até chegar ao trabalho. E depois no trabalho sentia-me a sufocar, como se estivesse sob o sol do deserto. E o raio do coração a impedir-me de falar: só me conseguia concentrar na sua batida descontrolada. Mas não, o meu coração estava só a pregar-me uma partida. O gajo às vezes é assim, brincalhão. Devia ser só para me lembrar de como é que uma pessoa se sente. Pronto, já me lembrei. Agora vê se tratas da coisa, mas a sério.

janeiro 16, 2007

Porque ainda há quem pense que o melhor é estarmos sozinhos


A minha mãe já está sentada na poltrona onde agora passa os dias. Tem a manta de xadrez por cima das pernas e suspira muito porque acha que não vai aguentar um mês de inactividade. Eu pego nos filmes que trouxe para ver e pergunto-lhe o que quer ver. Não gosta de escolher mas o nome Richard Gere faz escapar-lhe uma faísca tímida. Temos que ver o Shall we dance?, a pedido. Eu e a minha irmã ajeitamo-nos no sofá grande: afinal, ver um filme de Domingo à tarde numa Segunda à tarde nem é mau.

O meu pai entra, chegado do café habitual. Cruza a sala a tentar-se mexer ao ritmo dos sons latinos que ouvimos no filme - obviamente, faz figura de tonto. Olha para o ecran e diz 'Ah! estão a ver um filme com a Jéni Ó [sic]!'. Nós as três olhamos-nos e desatamos a rir - 'Pai, é J Lo. Ou Jeniffer Lopez, se preferires.'. Ele ri-se muito porque sabe que, de certa maneira, disse aquilo só mesmo para nos rirmos e conseguiu. Agarra-se à caixa de ferramentas e entretém-se. Há um ténue momento de paz nesta sala mas só até a sessão de cinema terminar.

janeiro 12, 2007

Sorgenlos

Daqui a umas horas já estou sentada calmamente ao som de um qualquer disco de jazz suave ou música brasileira da antiga (da boa?), enquanto o bar se enche de gente e, a certa altura, o fumo é tanto que os meus olhos começam a chorar e a implorar por ar fresco. O café já chegou acompanhado de um bombom de chocolate que ele insiste em oferecer-me, mesmo depois de eu já ter perdido a conta às vezes que o declinei. A esta hora já a televisão passa um qualquer jogo de futebol, muito comentado pelos quarentões e canastrões habituées, enquanto as suas esposas nos maçam os ouvidos com as suas compras em Badajoz.

A esta hora, amanhã, já teria terminado o jantar que afinal nem sequer vai haver. E eu estaria já a sorrir, porque não me consigo lembrar de melhor maneira de começar as férias. Sim, as férias. Sabe-me tão bem a palavra que a vou dizer mais uma vez: f é r i a s. A mala está encostada aos painéis que fecham o meu quarto, a roupa escolhida a dedo, a leitura atrasada também já a arrumei dentro da mala. Na minha bagagem de mão vai a vontade de ver uma mãe convalescente, uma mãe a quem tiraram a pequena casinha onde um dia nasci. Vai também a certeza que nestas f é r i a s vou fazer tudo menos descansar: vou trabalhar por ela, responder aos seus desejos, sair durante a semana, que é coisa que aqui não conheço.

E longe daqui, longe do sossego da minha casa, longe do silêncio que sinto mal fecho a porta, eu vou procurar um outro silêncio. Vou curar o desassossego com coisas boas de se ouvir, com amigos, com as noites à volta de rodadas de médias Super Bock, com o tédio. Vou respirar fundo e, finalmente, não me preocupar mais. Vou deixar de ser este borrão e regressar feliz, de contornos bem definidos. Ou se calhar até não. Mas que vou tentar, isso vou.

janeiro 08, 2007

Respirar (debaixo de água)


Hoje queria sentir-me como o Pedro do meu filme português preferido, Respirar (debaixo de água). Queria submergir-me, gozar da leveza com que nos movimentamos dentro de água, não ouvir nada senão aquele zumbido que resulta do silêncio duma grande massa de água. Queria olhar-me num espelho e fingir que eu sou os meus próprios medos. Queria uma casa vazia numa tarde de Verão, com o telefone fora do descanso, uma camisola de alças e um tronco nú. Queria o desafio do amor proibido. Queria não falar e ser compreendida só pelo que os olhos dizem, ter a certeza do que quero, ter a coragem de saltar sem sequer saber o que está no fundo. E mesmo quando fosse derrubada, gostava de abrir os olhos no escuro, decidida, e saber erguer-me de novo.

[alívio]

janeiro 06, 2007

Duvidar


Sentada na sé catedral não podia alhear-me das palavras do padre. Metada de mim estava interessada em acreditar mas a outra metade já decidiu há muito que aquilo são tudo tretas. O padre falava muito, muito baixo e de olhos fechados como se se estivesse a embalar ao mesmo tempo. Olhava para nós com cara de reprovação sempre que alguém tossia, se mexia mais bruscamente ou que as crianças soltavam algum pedido mais alto. Falou tanto que me aborreceu: ou isso ou já não ia a uma igreja há muito tempo e tinha-me esquecido de como tudo cumpre rituais antiquíssimos e desconfortáveis. Sempre que nos era pedido participar com algum dizer ou oração os meus lábios não conseguiam abrir-se, apenas o suficiente para disfarçar o incómodo e para não envergonhar totalmente os meus pais. Quanto mais o padre falava nas virtudes de ser cristão e nos perigos da televisão pagã, mais eu me sentia afastada daquela instituição toda. O papel dos padrinhos, a alma que nasce de novo, o cristão que não cumpre, preparar o espírito para a caminhada em Jesus blá blá blá. Eu sou daquelas a quem dava jeito um milagre, aqui e agora. E nem sequer o peço para mim. Mas, como sou uma cristã provavelmente quase excomungada, isso dos milagres não é para mim. Portanto, o caminho é para a frente e ala! que se faz tarde. Vou procurar a minha força noutro sítio qualquer.

janeiro 04, 2007

Às vezes canso-me de fingir que aguento tudo o que, na verdade, não aguento.

janeiro 02, 2007

Dias felizes... *

...a desafiar as goelas.



... a lembrar-me como a diversão é simples.


... a tentar recuperar a leitura que me faz falta.


...a comer e a beber como se realmente não houvesse amanhã.



...a tentar sentir-me menos invisível e a não conseguir.

* continuam a ser os meus votos para este ano de 2007. Feliz Ano Novo!

dezembro 29, 2006

Chegámos ao fim da canção...

Este foi um ano incrível e em que, pela primeira vez, os momentos bons superaram em muito os momentos maus ou péssimos. Houve um salto profissional (pequeno, é certo, mas depois disso vem o Mundo), houve uma casa nova a que hoje já chamo minha e tanta gente nova a cruzar-me o caminho. A febre de deixar Portugal acalmou, pequenas coisas começaram a fazer sentido e foi um bom ano em termos de crescimento pessoal. Se este ano que aí vem me trouxer tantas surpresas, então vai valer a pena de certeza não ter medo de avançar.

Há uns anos atrás, numa viagem a propósito da passagem de ano, deixaram-me uma marca. Um amigo lançou para o ar que devemos deixar para trás tudo o que não nos deixa feliz e fazê-lo, por exemplo, de uma forma simbólica: apagando todas as mensagens que temos no telefone. Porque, eu não sei vocês, mas a mim dá-me sempre uma nostalgia estúpida quando tento apagar alguma. Como se o não apagar pudesse trazer aquele momento exacto de volta. Como se se pudesse sentir a mesma coisa de maneira totalmente idêntica e repetir a sensação uma e outra vez, até a mensagem esgotar o seu sentido. Desde aí limpo a minha caixa de entrada e também a minha caixa de saída, garantindo que não levo passado para o ano que vem aí. E mais uma vez vou apagar tudo, a custo, eu sei. Tudo o que tiver que ser guardado ficará apenas na memória, onde só eu posso vasculhar e onde posso calma ou atabalhoadamente guardar as recordações.

Portanto, entrarei no novo ano como uma folha em branco, como se estivesse num qualquer estádio de inocência ou de castidade. Estou pronta a reescrever tudo, rasurar, rabiscar, rascunhar ou escrever a tinta permanente. E é esta receptividade e disponibilidade para o futuro que desejo a todos. Um Feliz Ano de 2007, em branco, com o caderno meio cheio ou com o caderno escrito até ao fim. Quero ser e desejo que sejam felizes!

dezembro 28, 2006

Casa (fazemos de conta)




Às vezes esqueço-me de como é bom voltar.

(Combinar tudo à pressa. Sair para as noites geladas sem saber muito bem onde aterrar. Lanchar na véspera de Natal, perto da fonte. Falar de coisas sérias como quem está a brincar. Não falar do que se deve falar. Chegar a casa a cheirar ao fumo dos vossos cigarros. Sair só porque sim. Enfiar-me na cama às cinco da manhã de uma terça-feira. Entrar em todas as capelinhas para tentar fingir que ainda não são horas. Levar a casa os que precisam. Deixar para trás o que ainda se aguentam. Escrever um pedaço de música popular. Descansar e distrair a minha cabeça nesse vosso ombro colectivo. Se não voltarmos hoje, voltaremos amanhã.)

Fotos autoria [T]

dezembro 24, 2006

Season Greetings



As manas Maurícias desejam a todos um Natal muito feliz. Façam o favor de serem felizes, onde, como ou com quem for. E nada de abusar nos Mon Cherri (blhearc!) ou nos Ferrero Rocher (blhearc!).

dezembro 22, 2006




Hoje ainda não tinha anoitecido completamente quando atravessei o Jardim da Estrela. Como sempre, e quando cheguei ao portão de saída, fiquei esmagada pela Basílica: estas dimensões sempre me impressionaram um bocado. É um medo assim irreal e inexplicável que sinto destas obras em tamanho XXL, como o são também os eólitos espalhados por aí e dos quais sinto mesmo terror.Enquanto caminhava às escuras pelo jardim ocorreu-me que ontem foi o dia do Solstício de Inverno, o que me alegrou - os dias começam a partir de ontem a ser mais compridos, a noite chega sempre mais tarde. E ia jurar que hoje mesmo já se sentia a diferença.


No capítulo obrigatório do Natal as coisas estão quase encerradas. Todo este stress, esta profusão de luzes pelas ruas, Pais Natais a trepar na janela (OK, enforcar o Pai Natal afinal tinha piada, tinhas razão), concursos de Natal, prendas singelas e menos singelas, bolos em doses industriais e proibidas, zangas com quem mais gosto (sempre obrigatórias e ainda longe de terminar porque a noite da Consoada ainda vai longe...) esgotaram parte do meu (pouquíssimo) espírito de Natal. Salvam-se as coisas que fazemos com as nossas mãos e que esperamos sejam apreciadas, as coisas que vamos podendo retribuir (sempre em quantidade insuficiente), os desejos de quem não dizia uma palavra há muito. Se estes 4/5 dias que vou passar a casa não me trouxerem paz de espírito, então não sei o que mais vai consegui-lo. E se eu já normalmente não me sinto embuída deste fenómeno festivo, sem um bocadinho de descanso as coisas pioram - e solta-se, quem sabe, a psicopata em potência que existe em mim. Portanto, vamos lá a acalmar todos: esta jovem precisa de tempo para não fazer nada e para não pensar em ninguém - a não ser eu.


E depois as horas não passam. Este é o quarto fim de semana consecutivo em Lisboa e isso não está de forma nenhuma a contribuir positivamente para este princípio de neurose. Lembro-me quando estava em Berlim e uma semana antes do Natal me sentia a sufocar e só pensava em sair de casa a correr, tropeçar na neve, mergulhar no Spree mas correr até Portugal. Num só fôlego. E como sentia que a cidade que também amava me tinha estendido uma jaula à volta e me obrigava a amá-la ainda mais, esgotando-me e sugando-me o amor que lhe tinha. Lembro-me do suspiro gigante que dei quando aterrei na Portela e como tinha desejo de absorver tudo de novo, tudo outra vez. Agora são só duzentos quilómetros que me separam de Casa e a sensação é semelhante. Porque a minha Casa também me desinquieta: matava-me se lá ficasse sempre mas é um pedaço meu sempre que lá não estou.


Por isso, com Natal ou sem ele, lá vou de viagem, de malas e presentes às costas, montada em 57 cavalos que amanhã vou chamar de renas. E não sei vocês mas depois deste texto todo carregado de ansiedade eu exijo que seja Natal. Uff.

(Hoje o espírito de Natal vai resumir-se a umas cervejas e um concerto dos X-Wife. Pode ser que amanhã o Pai Natal me consiga acordar a tempo para trabalhar.)

dezembro 20, 2006

A sabedoria popular é uma coisa muito bonita e muito acertada também. E eu gosto dela, porque normalmente não me deixa ficar mal. Desta vez, o provérbio que se materializou perante mim foi o brilhante 'Não há duas sem três.' ou, numa versão que prefiro, 'À terceira canta o galo'.

Há por aí quem diga que o Universo é um tipo que conspira baixinho e parece-me que desta vez, e para variar um bocado, se virou contra mim. Mas, da mesma maneira que me tira, este Universo também me dá. E eu já começo a achar que isto é tudo menos coincidência. Depois de A Naifa e dos Yo La Tengo, aqui a yours truly vai hoje pisar mais uma vez o território do Santiago Alquimista para poder (re)ver o delicado e contundente JP Simões. Portanto, temos que

Amargo de boca + Decisão errada= Bilhete para concerto

que, apesar de ser uma fórmula compensadora, já começa a irritar um bocadinho. Não, eu não sou pobre e mal agradecida: gostava era de acertar mais e ouvir menos. Em todo o caso, um abraço ao pessoal da Radar, que já deve achar que nós não fazemos mái'nada senão telefonar para eles. E vivam os bilhetes totalmente grátes: não resolvem embrulhadas mas sempre afagam o ego.

dezembro 18, 2006

E porque eu quero o vosso bem, amigos leitores...


... aqui deixo uma coisa que todos deviam experimentar: o Galão Alentejano da minha terra! Não só o leite é de primeiríssima qualidade mas estão também a promover o desenvolvimento do interior esquecido e ostracizado. A sério... Quem teve esta ideia de galão de levar para casa merece o meu mais sincero bem-haja. Gosto de pessoas com ideias.

dezembro 17, 2006

Estou sentada na minha cadeira cor de rosa, a tentar preparar o que falta do presépio que idealizámos para o trabalho. Desta vez tive sorte e fiquei com a tarefa que mais me agradava: colorir as figuras, já devidamente montadas com as nossas caras. E tive ainda mais sorte porque era exactamente o que precisava nesta altura: uns momentos sem pensar em mais nada, só a combinar as cores e tentar não ultrapassar os contornos. Porque às vezes as coisas nos saem fora do alcance e porque é tudo muito mais complicado na vida real, é bom apenas pintar. Sem mais nada, só ficar a olhar atentamente para as cores de que dispomos, conferir se o lápis está devidamente afiado, ter a certeza que não vamos borrar isto como borramos realmente tudo o resto. E vejam se não tive mesmo sorte: a mim foi destinado o papel de Anjo. Mas, francamente, não há nada de que me sinta mais distante neste momento. Mas como o espírito de Natal não se compadece da minha realidade, vou ficar agradecida e pintar tudo com muito muito cuidado - todo o cuidado que dispenso em tudo o resto.



dezembro 14, 2006

É Natal no restaurante Sevilhana e essas coisas assim.



Eu e o chefinho. O chefinho não aguenta o flash que as máquinas modernas disparam e vai daí, deixa-se estar de olho fechado para não se chatear. É a pessoa com quem mais me lembro de discutir (saudavelmente, entenda-se). Não há quase nenhum assunto em que não discordemos: a higiene dos restaurantes chineses, o democracia (!) em Cuba, a actividade física ou as letras dos Moonspell. Mesmo assim, damo-nos muito bem. Menos quando ele me arrasta para bares góticos decadentes ou para bares em que o heavy metal toca muito acima dos decibéis que os meus ouvidos aguentam.

Faço um brinde. Comigo brinda a malta da pesada. Esta é a malta com quem ganho bilhetes para concertos, a malta com quem se pode beber duas imperiais e dar outros tantos dedos de conversa, a malta que quer fazer compras e ir ginasticar e ver filmes exclusivamente para mulheres. Da esquerda para a direita temos os dois chefinhos da nossa equipa, uma alentejana do Gavião, um alentejano de Castro Verde e a menina mais picuinhas da sala. Fofos.




Ao jantar segue-se um mini-espectáculo de Flamenco. Eu não consigo ver mais nada quando começa a tocar aquela música. Nunca soube explicar porquê mas sempre fiquei hipnotizada pelas saias, leques, cabelos bem apanhados atrás, flores no cabelo e pele morena. Fico completamente seduzida pelos movimentos dos bailarinos e não permito a ninguém a interrupção deste momento. Ao som de algumas guitarras parece que fico com os olhos marejados: é um som carnal e trágico. Y olé!

(fotografias de minha autoria, à excepção da primeira, da autoria da C.)

dezembro 12, 2006

American Psycho II (revisitado)

Eu já sabia que o moço tinha problemas. Que era um tipo um pouco perturbado por uma experiência de vida algo invulgar. Que era uma pessoa que não se encaixava nas nossas definições de pessoa normal. E sabia que, acima de tudo, ele era um inadaptado. Muitas vezes nos tinha ocorrido que algo de muito grave tinha acontecido com este rapaz que o impossibilitava de se integrar, de agir com naturalidade. Muitas mais vezes ainda rimos dos factos que dispara para quem quer ouvir ('Vocês sabem que no Pólo Norte não é preciso existirem frigoríficos?' ou então 'Vocês sabem que existem três tipos de liberdades: a de expressão, a de pensamento e a de acção?'), da forma como sorve o chá todas as manhãs ou da total incapacidade de se concentrar nas instruções de trabalho.

E ontem, no jantar de Natal do nosso piso, o rapaz voltou a mostrar porque é que às vezes quase temos medo dele. No meio de 40 pessoas foi o único a beber vinho demais. Bebia-o como copos de água, dizia quem estava junto dele. Falou muito, a contrariar todos os dias em que trabalhou até agora. Gritou o meu nome muitas vezes, exigiu que fosse com ele para o Catacumbas (onde suspeito que, apesar de apregoar o contrário, nunca pôs pé). Tornou-se agressivo e saiu do jantar já a cambalear. Mas, para mim, tinha guardado a pérola da noite. Eu já estava no escuro, debaixo dos lençóis quando o telemóvel tocou. Não conhecendo o número, atendi porque pensei que alguém podia precisar de alguma coisa. Ele atendeu, gritando o meu nome mais uma vez e eu assustei-me. Quando eu perguntei o que queria, ele respondeu-me que tinha acabado de vomitar. E pediu-me que não sentíssemos a falta dele, a sua folga seria curta. Eu fiquei sem saber o que dizer e pedi-lhe para desligar. Desliguei eu. Debaixo do edredon, ri-me, desprevenida. Mas adormeci dividida por dois sentimentos: por um lado, incomodada com o acontecimento do tipo stalker; por outro, invadida pela pena de alguém a quem talvez doa apenas ser.