maio 17, 2007

Magníficos dias atlânticos pt. II

Como se alguém pudesse não gostar de um dia assim.

(viagem de catamaran até ao Montijo - três miúdas num Polo até à Figueirinha - horas de calor devidamente tratadas com protector e banho na água fresquinha - imperial ainda no café da praia - paragem para retomar forças na marina fluvial - viagem de catamaran até ao Cais do Sodré - quase uma hora à espera do eléctrico para casa - banho - refeição frugal - cama, enquanto penso Isto sim, é uma folga)

maio 16, 2007

A melhor coisa de ter folgas durante a semana é ter tempo para fazer todas aquelas coisas que vamos deixando para trás, indeterminadamente, sem planos muito reais para as resolver. Também sabe especialmente bem poder acordar depois das sete e meia sem qualquer sentimento de culpa e pensar que o dia ainda está todo à minha frente. Hoje foi a primeira folga da semana (sim, porque amanhã há mais!) e sinto-me como se tivesse enfiado três ou quatro dias em apenas um.

Uma das melhores coisas que me aconteceu depois de me mudar para a minha casa é que posso usar o eléctrico tantas vezes quantas me apetecerem porque a paragem é praticamente à minha porta. Hoje foi andar até não aguentar mais ser esmagada por gordas turistas alemãs ou por velhas que ainda trazem posto o avental com que amanham o peixe, foi explicar se estavam no sentido certo, foi apanhar sempre o eléctrico à rasca, correndo uns metros para não o deixar fugir. Conto quatro viagens sob um calor mais típico de Julho do que de Maio, a temperatura apenas suportável porque as janelas iam todas abertas. Mas o que eu adoro andar de eléctrico... *suspiro*


Além das milhentas coisas que tinha para tratar (entre as quais, uma visita à Loja do Cidadão que me desapontou dada a ausência de material blogável...), acontece ainda o inesperado: saio de casa e, no mesmo instante em que largo o puxador da porta, lembro-me que as chaves estão do lado de dentro. E que o jogo de chaves suplentes mais perto está a sensivelmente a duzentos quilómetros daqui... Peço ajuda à minha vizinha, para tentar entrar pela janela das traseiras, sem sequer saber se consigo chegar à minha própria janela.



A primeira prova de fogo é tentar passar entre o estendal da roupa dela: em poucos segundos, ia ficando sem rabo, sem barriga e sem mamas! O estendal da vizinha era feito de uma qualquer liga de metal em vez das habituais cordas e eu... bem, eu não tenho a silhueta da Kate Moss. Depois, a medo, chego perto da minha janela e acontece aquilo que eu temia: a janela está bastante mais acima do que eu consigo alcançar sem esforço. Lanço os braços mas sem acreditar muito no que estou a fazer. A meio, tenho de parar para tirar o cinto e recomeçar tudo. Estou literalmente pendurada no meu parapeito, sem qualquer esperança de me conseguir içar mais e já há gente nos prédios atrás de mim a desconfiar da minha manobra. Completamente desesperada, decido que vou entrar, nem que bata de imediato com a cabeça no chão. E consigo! As cordas e arames não me mataram mas deixaram estragos.

E começo a temer pelo dia de amanhã. Hoje já foi o que foi e estou longe de me conseguir mexer, portanto amanhã tenho que proteger-me. Planeada está uma ida à praia (desculpem-me os trabalhadores, mas tinha mesmo mesmo que o dizer!) porque toda a gente me anda a falar nos trinta graus que vão estar amanhã. Vamos lá a ver se não me deixo enrolar por uma onda...

maio 14, 2007

Retrato de uma segunda-feira

A noite de sábado já tinha sido atribulada, fazendo-me saltar da cama a horas quase indecentes. Para complicar, a noite de ontem não foi melhor: eram duas e meia da manhã e a cadela da minha vizinha de baixo resolveu ladrar. Não sei exactamente porquê mas sei que ladrava. Muito. Mesmo muito. Tanto que tive que agarrar na minha almofada e mudar-me para o quarto livre. Era tão tarde e eu só pensava em atirar uma bolinha de tranquilizante para acalmar a bicha. Pronto, eu confesso: não era em tranquilizante que estava a pensar. Mas era madrugada e eu estava desnoitada e precisava recuperar o sono e ela desata a ladrar como se fosse o fim do mundo... Bah, tenho desculpa.

Cheguei ao trabalho e nem tive tempo de organizar as coisas: fui logo arrastada para uma sala de formação para o meu discurso. Que nem foi um discurso mas que me saiu quase perfeito: fui concisa e falei apenas sobre o essencial, com um discurso lógico, ideias perfeitamente encadeadas. Só as minhas mãos me podiam denunciar porque tremiam como varas verdes. Tremiam muito mas o meu olhar era firme e decidido. Portanto, não despedi ninguém porque nem autoridade tenho para isso. Mas discursei bem p'a caraças.

Um colega levantou-se, veio até ao meu lugar de propósito e perguntou-me O que é que se passa contigo? e eu pensei que as olheiras até ao pescoço me tinham denunciado. Nada, não tenho nada mas porquê?, respondi e perguntei eu. É que estás diferente... Pareces mais nova, mais fresca. De certeza que não se passa nada?, continuou ele e eu, de olhos muito abertos, Erm... Não... Mas jovem e assim? E ele, antes de voltar rapidamente ao lugar, diz Não sei o que é mas acho que te faz bem. Eu também não sei o que é mas parece que faz efeito.

Hoje dei um murro virtual numa mesa virtual e decidi que já é tempo de voltar a cozinhar. E não vale mais fazer a mesma lasanha de salmão de sempre ou aquela massa com brócolos e bacon. Portanto, hoje vai sair um pratinho típico que é uma maravilha.

(Se calhar até sei o que é - é fazer o que me dá na gana, sem medos e sem preocupações. Não existe um passado atrás de mim nem existe um futuro pelo qual esperar. Existe é o agora e o resto que se lixe.)

Os meus colegas são fofos!

Porque nem só de trabalho nos alimentamos... Os colegas foram passear e trouxeram prendinhas a mim. Na foto, o belo soquete vindo de Amesterdão, cortesia da M., a minha companheira de concertos e a fitinha do Bonfim, que é uma cortesia do M. Eu, que nem uso adereços nas mãos e nos pulsos e só gosto de meias sóbrias, abri uma excepção: a fita já cá mora, o soquete será estreado amanhã!

maio 13, 2007

Shortbus (ou da liberdade para sentir)



Não estava à espera deste filme. Não é que me tivesse enganado na sala de cinema ou que não quisesse vê-lo. Só não estava à espera dele, não sabia dele o suficiente para achar que ia gostar de o ver. E, talvez por isso, gostei muito. Não é aquele gostar de às tantas já pensar que eu podia ser uma personagem do filme, o campeonato é outro.

Um dia li Quero entupir os meus sentidos contigo e agora esta frase faz muito mais sentido. Estamos imersos num mundo de sensações, somos estimulados continuamente sem sequer darmos conta, temos os sentidos adormecidos. Quase todas as personagens do filme sofrem deste bloqueio e procuram no sexo, no prazer carnal a redenção. Não interessa se nos sentimos uma ilha ou se sentimos que do outro lado não há ninguém a ouvir - enquanto o nosso corpo puder sentir outro(s) corpo(s) haverá sempre esta espécie de retorno. É como se o sexo nos pudesse provar que estamos vivos - aqui estás, despida dos males do mundo, com os sentidos concentrados noutro corpo nu igual a ti, dá a ti mesma a possibilidade de te arrepiares.

Como tantas outras pessoas, as personagens do filme fogem do seu isolamento, da sua incapacidade em sentir, da impossibilidade de fazerem parte de alguma coisa maior. O sexo não as torna mais normais ou não lhes devolve a paz que procuram. Mas enquanto a pele toca outra pele, enquanto se beijam de olhos abertos, enquanto suam nada mais tem que fazer sentido. Esse momento é o sentido. Somos todos perigosamente iguais - abandonamo-nos por momentos, à espera de uma revelação. Ela chega e, depois de breves segundos, volta tudo ao que era. A sensação de satisfação nunca permanece mas, durante esses instantes, somos felizes a acreditar que aquilo é tudo o que existe. E não é?

Digamos que...

...da tua boca pode não sair uma palavra verdadeira. Mas as tuas mãos não te deixam mentir.

maio 10, 2007

A minha chefe pediu-me hoje que prepare um pequeno discurso para a próxima segunda-feira. Encarregou-me de falar com um membro da minha equipa, muito provavelmente para testar as minhas capacidades de liderança. A situação é esta:


a pessoa em questão não cumpre os seus objectivos de produtividade, não chega a horas, passa a vida distraído, sabe fazer reivindicações mas não pretende cumprir com os objectivos estabelecidos pelo departamento, estás prestes a não ver o seu contrato renovado.

O meu estado de espírito é este:


apetece-me mostrar mais firmeza e determinação e testar os meus próprios limites mas não quero tornar-me numa pessoa insensível às pessoas e sensível aos números. Tenho a oportunidade de falar com a pessoa sobre coisas que há muito me incomodam mas não quero desviar-me do propósito da conversa, sob pena de dizer mais do que quero.

Ouvi um dia dizer que, quanto mais alto se sobe, mais sozinho se está. Ouvi que não há amigos no trabalho, que as pessoas precisam todas de se fazer à vida. Neste momento, eu estou no meio de uma equipa que me mantém bem disposta o dia todo, que me faz rir e que, mesmo com todos os problemas que já ali vivemos desde há um ano para cá, tem aguentado a barra. Acho que não me apetece ainda passar para o outro lado e ser fuzilada com olhares ou ser considerada totalitária ou ser simplesmente ignorada. Não vou fugir à minha responsabilidade mas vou pensar muito, mas muito bem quando é que quero dar o próximo passo em frente. Não será em breve.

(já vou sentindo falta de fazer zapping mas não há pachorra para o Mundo)

maio 08, 2007

Está decidido.

Não vou voltar a ligar a televisão até que a cachopa desaparecida no Algarve volte a aparecer.

maio 06, 2007

Senhor dos Aflitos


Comer uma bifana quentinha às nove da manhã é uma das melhores coisas que já me aconteceu. Dispensei a mini que a devia acompanhar porque continuo a ter as minhas reservas quanto à possibilidade de beber alcóol antes do meio dia. Foi assim que terminou a minha manhã, depois de ter acordado às seis (!) da manhã para fazer quinze quilómetros a pé.

O dia amanheceu lindo, com um céu azul daqueles que só se vêem aqui e uma temperatura fresca, ideal para a caminhada. O percurso é todo feito em alcatrão mas a paisagem é, muitas vezes, de uma beleza incrível. São as vinhas que se estendem por encostas sem declives, as vacas que aguardam no curral o seu começar do dia, os campos ainda verdes, apenas interrompidos pelo lilás do rosmaninho. A maior parte das pessoas foi cumprir promessas, nós fomos apenas pelo prazer de andar, o mesmo prazer que no final se tornou em dor e na sensação esquisita de termos pernas que andam automaticamente, já não respondem ao cérebro. À chegada, há uma feira montada, há o cheiro enjoativo da massa frita a competir com as bifanas que fritam ao lado, há balões e algodão doce, há demasiadas pessoas a entrar na igreja e ainda mais pessoas a tentar acender uma vela.

Com mais tempo, podíamos ter ficado a dormir debaixo de uma oliveira, a gozar o dia e a agitação. Como tempo não há, regressámos à cama durante breves horas, a antecipar a segunda viagem do dia. Dissemos 'Até para o ano!'.

maio 05, 2007

Da simplicidade

Hoje foi um dia bom, a contrariar os fins de semana passados em casa, a vegetar de pijama vestido e a alternar entre o sofá e a cama. Podia ter muitos mais dias assim se não fosse tão preguiçosa.

A noite de ontem já tinha sido como nos bons velhos tempos: malta que vem a Portalegre pouquíssimas vezes, o sítio do costume, o último grito na música que se dança por aí. Ninguém estava interessado em fazer sentido ou em poupar os corpos. Ainda faltou gente e a alguns faltou (talvez) a vontade de arriscar mas, quando me deitei, já a noite ia muito longa e já não havia tempo para fantasiar muito mais.

O dia foi começado à pressa. Tive tempo de engolir um pequeno-almoço à pressa, tomar banho ainda mais rapidamente e ainda começar a almoçar antes do primeiro compromisso do dia: o voluntariado no Banco Alimentar contra a Fome. Tínhamos sido convidados a participar já há algum tempo por gente de Portalegre, gente com muita vontade de fazer e fazer bem. À hora marcada, chegámos para recebermos o tour das instalações e desde logo foi claro que a organização não tinha descurado nenhum aspecto. Havia uma cantina para que os voluntários pudessem fazer as suas refeições ou apenas uma pausa para o café, muita gente a auxiliar os recém-chegados e outros voluntários, que prontamente nos ajudaram a integrar.

Para os trabalhos menos pesados, onde estávamos, a maioria dos voluntários eram mulheres. Os homens ocupavam-se das tarefas que incluiam lidar com grandes pesos ou com o transporte da mercadoria. Na zona da separação, nós dividíamos os produtos doados. Estes eram depois pesados e etiquetados e, finalmente, armazenados. O ambiente esteve sempre muito animado, embora o rádio estivesse lá fora. Rapidamente ganhámos ritmos de trabalho paralelos, de forma a conseguirmos não incomodar as outras pessoas e a conversa foi-se soltando mais com o passar de poucas horas.

Já tinha sido voluntária antes, não em campanhas deste género mas conhecia a abnegação de muita gente que tenta fazer a sua pequena (grande) parte nesta tentativa de melhorar o Mundo. Esta iniciativa não foi diferente. Quando acabou o nosso turno, haviam já sido recolhidas sete (7!) toneladas de alimentos apenas no distrito de Portalegre, que vão depois ser distribuidas por institutições particulares de solidariedade social. Não quero sequer pensar naquelas dúvidas que surgem na cabeça de alguns sobre o destino que vai ser dado a todos os alimentos: eu ainda sou capaz de acreditar que as pessoas são honestas. E bastava a qualquer um ter visto a alegria com que se trabalhava ali para se deixar contagiar por ela e pensar que, depois desta grande campanha, vai haver mais gente feliz. E é tudo tão simples, realmente.

Com a cidade completamente cheia de energia (uma prova de BTT e a queima das fitas trouxeram tanta tanta gente...), a noite de hoje promete voltar a ser longa. Se o tempo ajudar, há-de ser uma noite de Praça da República, a falar com gente bonita e interessante, a esquecer-me que segunda-feira começa mais uma semana que promete ser infernal. Hajam muitos fins de semana assim e o pijama há-de ficar esquecido atrás das almofadas.

maio 02, 2007

Porque é que...


... um homem com cabelos brancos é charmoso e uma mulher com cabelos brancos é velha?

(acho que tenho medo - eles já estão por todo o lado.)

maio 01, 2007

E só porque agora é mesmo oficial...


Perdi a cabeça e o amor a muitos euros. O dinheiro fez-se para gastar, já me diziam há uns tempos. Agora é só entrar em contagem decrescente e esperar que o corpo se mantenha rijo durante todos estes dias. O resto é festa.

let down and hangin' around

(A foto é confusa. Não, não é isso que quero dizer: não se percebe nada. Às vezes é o que vemos quando temos os sentidos concentrados noutras coisas.)


O local: Lisboa, véspera de feriado
As condições climatéricas: noite de vento, aguaceiros incómodos mas temperatura agradável.

Há muito que não saio. Fico boquiaberta quando descubro que o Largo Camões está relvado, pelo menos temporariamente mas não estranho as pessoas que esperam por alguém neste ponto de encontro. Já há quem nos espere, portanto consigo fugir à angústia inicial do sítio a escolher, de ouvir mais uma vez 'Vá lá, tu é que sabes. Sabes que eu nunca decoro nada...' - eu também não consigo. Na rua não há tanta gente como suspeitava, o que significa que ainda é relativamente fácil chegar à cerveja (o mesmo não acontece com as casas de banho imundas que nos ofereciam naquele lugar). Conversamos em mais do que um idioma e rimos que nem tontos quando falamos dos casamentos em Espanha e quando comentamos o jogo do nosso Benfica. Na rua passa um rapaz de pestanas enormes que tinha visto o jogo no mesmo café da Estrela: só lhe decorei as pestanas.

Quando tentamos mudar de pouso, está tudo tão cheio, há tanta gente à porta, não sei, se calhar já devíamos estar à espera. Começa a chover e não conseguimos abrigar-nos. 'Vamos dançar?', pergunto eu a medo, temendo que os outros corpos não desejassem movimento como o meu. Para meu espanto toda a gente concorda na hora. 'Estamos nas tuas mãos', diz alguém. Apressamos o passo e entramos no Incógnito completamente encharcados - não entrava lá há demasiado tempo. A pista está cheia, mal consigo mexer-me mas já tinha decidido que nada me ia privar de dançar. Nem mesmo rapazes demasiado grandes e desajeitados ou tias que por ali param porque querem ser da moda. Apetece-me mais uma cerveja mas não quero sair da pista. Não vou. Danço tudo e fecho os olhos muitas vezes: é como se estivesse num Karrera Klub. Um rapaz muito atraente e muito latino, de blaser escuro e cabelo puxado com gel dança à minha frente, vai dançando cada vez mais perto, até que preciso afastar-me para não dançarmos colados. Ele sabe que se está a colar a mim. Está de costas para mim e consigo cheirar-lhe o perfume. Ele sai e nós ficamos. A pista está finalmente mais descomposta e podemos fazer movimentos mais amplos. É a segunda vez que danço a Rebellion (Lies) fora de casa e ainda me custa a crer.


O rapaz moreno está à porta mas não me vê sair. Subimos as ruas com cuidado, tentando não escorregar na calçada molhada. Deito-me cansada e confusa, já sei que vou sonhar. Francamente, devia andar mais vezes na rua.

abril 30, 2007

Capuchinho Vermelho


(Gin e sumo de frutos do bosque!)

Amanhã, dia do Trabalhador, esta vossa trabalhadora (quem mais?) vai estar: livre; desocupada; longe de responsabilidades; tranquila; ressacada, possivelmente; deitada sempre que for possível; radiante por gozar um feriado. Não encontrei melhor maneira de abrir as hostilidades do que esta nova long drink (mesmo que já exista, faz' conta que fui eu que inventei). Agora é esperar que a noite se mantenha à altura. Deixem-me partilhar convosco esta felicidade parva e fugaz e desejar-vos feliz dia do Trabalhador!

abril 28, 2007

Pure Pleasure Seeker*

Há dias em que me sinto normal. Nos restantes, sinto que perdi por completo a habilidade para amar.

* título roubado aos Moloko.

abril 26, 2007

*

Olhas como que através de mim, cada fissura, imperfeição. Olhas como se eu não estivesse aqui e fazes-me duvidar se tens razão.
Linda Martini

Vocês, pessoas, cansam-me.

Primeiro, são as pessoas com quem se tem que trabalhar. Chegam atrasadas, não chegam, reclamam porque está calor e porque está frio, não gostam de estar sem fazer nada mas também não podem trabalhar muito, querem ganhar mais mas trabalhar menos, não estão dispostas a fazer sacrifícios mas choram pelos louvores, obrigam-me a malabarismos organizacionais impossíveis, tornam cada conversa num momento ininteligível, não querem responsabilidades mas reclamam se não contamos com vocês. Uma coisa é lutar pelos nossos direitos, outra é ser muito pouco razoável. Chega de serem chico espertos! Por um dia, um dia só, sejam só um bocadinho mais compreensivos e profissionais e justos. Deixem de ser mesquinhos e trafulhas: trabalhem só. Será tão difícil ser simples?

Depois, são as pessoas na rua. Cortam as unhas nos autocarros, reclamam por ir de pé e por ir sentadas, comem com a boca tão aberta que acompanhamos o desenvolvimento integral do vosso bolo alimentar, sorvem as bebidas, reclamam porque não sabem o que é um túnel, querem ser os primeiros em tudo, querem aparecer na televisão sem terem nada de interessante ou inteligente para dizer, falam mal do governo mas não votam porque 'são todos iguais!', têm saudades de um ditador que vos privava da liberdade e do conhecimento, fazem turismo lá fora porque é mais fino e nem conhecem o vosso país.

E finalmente, as pessoas que fazem parte da minha vida. Entram e saem sem dar justificação e esperam que eu aceite isso com naturalidade, esquecem-se de mim quando é mais conveniente, não ouvem o que eu tenho para dizer, tratam-me como se fosse invisível mas olham-me nos olhos como se me soubessem de cor, querem usar e deitar fora, não compreendem a forma que escolhi para viver, escondem-me segredos e não-segredos, mentem-me sem dó nem piedade nem medo de que venha a descobrir, entram-me na cabeça sem pedir licença e vão ficando, gostam mas depois não gostam. Será que um dia podemos só experimentar dar e receber? Em quantidades iguais e em períodos coincidentes. Sem medo de falhar e sem vontade de escangalhar tudo. Reciprocamente.

E, por muito que odeie o eco dos meus passos no corredor de casa ou que odeie sentar-me à mesa sozinha e que não tenha alguém com quem falar destas parvoíces todas, a melhor coisa é mesmo enrolar-me sozinha em casa. Sem dizer nada, sem incomodar, sem ferir.

*e não, não é um post amargo, apenas cansado.

abril 25, 2007

About life defining moments *



É quando se ouve/sente/vê assim um click.

(Na Alemanha não se festeja a Liberdade, apenas a Unidade. Assim sendo, não houve outro remédio senão arrastar-me para o trabalho mais uma vez, sem poder ver as cerimónias, sem poder passear a pé pelo novo túnel, sem sequer suspeitar do estado de saúde do Eusébio. Enquanto milhares de pessoas eram totalmente livres, eu cá era um bocadinho menos - o jugo dos boches não se compadece das nossas efemérides nacionais. E o que se faz numa véspera de feriado, enquanto a malta toda anda na rua a antecipar a festa, a celebrar o bom tempo? Fica-se em casa, pois evidententemente. E qual é o programa extraordinário que conseguimos? Rever um filme, quando há tanta coisa nova para ver. É que ser livre não é para todos ou para todos os momentos: às vezes juro que não sei o que fazer com tanta liberdade.)

* a Natalie Portman e o Zach Braff no momento em que se podiam ter apaixonado, no filme Garden State.

abril 23, 2007

[modo Lisboa: on]

Sempre que passo mais que dois dias fora de casa, a minha vizinha do lado pergunta-me se estou bem de saúde. Como se a única razão para deixar a minha casa e Lisboa fosse uma doença gravíssima, qualquer coisa a precisar de uns dias de convalescença longe dos fumos da capital. Não sei o que ela arranja mas consegue sempre apanhar-me a subir as escadas, carregadas de sacos de comida já feita e toda a roupa a que joguei a mão quando as férias começaram. E se pensar bem nisto, a senhora até tem razão porque eu padeço daquele mal terrível cujo principal sintoma é não estar bem em lado nenhum.

Se estou em Lisboa, é muito bom e isso tudo mas, depois duns dias, começa a irritar entrar em casa e ter os meus passos a ecoar no corredor, sem ninguém a saudar-me à entrada nem a fazer-me companhia às refeições. Se estou em Portalegre, o início é sempre bom, a matar saudades disto e daquilo mas, depois de pouco tempo, já me custa respeitar os horários e já me aborrece sair de casa só à noite. Se estou fora, longe de casa e da minha casa adoptiva, começo a sentir-lhes a falta e a invejar-lhes o conforto. O ideal era conseguir enfiar na minha cidade a minha casa de Lisboa, mudar as instalações da empresa para lá e no fim mudar a cidade toda de tempos a tempos.

Depois desta semana, dividida entre Portalegre e a costa alentejana, cheguei a Lisboa no mínimo desorientada. Não sei bem se me apetecia estar outra vez sentada a ver o mar, se me apetecia cumprir as regras lá de casa ou se afinal estou melhor aqui sozinha mas a reinar sobre o meu mini-feudo. A única coisa que sei é que já precisava de ocupar o tempo de forma mais útil e isso posso garantir aqui. Portanto, a eficiente ocupação do meu tempo é inversamente proporcional à possibilidade de estar com quem mais gosto. Não, não é uma tragédia. É só mais uma chatice sem importância nenhuma com que temos de viver. Talvez relativizar seja definitivamente o segredo.

abril 22, 2007

25 dele


Qualquer razão era boa para festejar mas as coisas souberam ainda melhor por ser um vigésimo quinto aniversário. Jantar massa com atum, beber caipiroskas enquanto alguém nos pintava as unhas de preto, pular e dançar slows até aguentarmos. Depois recuperar, jantar num sítio demasiado caro, rir a bandeiras despregadas com os navalhudos e os javalancas e dançar ainda mais, mesmo quando não havia mais gente a fazê-lo. Haja força e vontade para mais festas destas - as férias não podiam ter terminado de melhor maneira.

abril 19, 2007

Magníficos dias atlânticos

As imagens são minhas, a música chama-se Sanvean e é da Lisa Gerrard e o título é descaradamente roubado a uma música dos Ban.

abril 16, 2007

Distractions (ou sobre noites já quentes)

Numa noite saio do bar como voluntária do Banco Alimentar contra a Fome. Sentamo-nos a beber, enquanto falamos daquilo que nos parece fácil de resolver, como se todas as coisas pudessem mudar apenas com a nossa vontade. Não podem.

Noutra noite saio do bar final e oficialmente como madrinha de casamento: olho para o meu afilhado e a sua noiva e sei que aquilo está certo. Vivemos tanto tempo juntos, há tanta coisa que eu disse a ele e a mais ninguém, foram tantas as noites em que nos confessámos um ao outro - eu quero-o feliz. Quero que ele possa recordar as vezes em que nos sentámos no carro dele, debaixo duma árvore que há muito foi abatida ou lembrar-se da nossa primeira noite em Lisboa, sentados na varanda, sem conseguir dormir, a pensar no que os tempos de universidade nos reservavam. Lembrá-lo-ei sempre por me dizer exactamente aquilo que precisava de ouvir, sem nunca se compadecer das minhas dores de amor, das minhas dúvidas de criança (as mesmas que ainda hoje me assaltam). Lembrá-lo-ei por ser o obreiro da maior história de amor que já vivi, emprestando-me o seu telefone para que trocássemos mensagens de voz. Eu sentada na varanda e ele no sofá, tranquilo: sabia que estava a fazer o que está certo. Vou perdê-lo para outra mulher e parte de mim sente esse desconforto de não poder competir com ela mas a maior parte sente que vai ser bom sentar-me com ele na mesa dos noivos.

A mãe duma pessoa que conheço suicidou-se. Não tinha com estas pessoas qualquer laço afectivo neste momento mas não consigo evitar ficar espantada. Há uma coisa que me assombra nestes momentos: o desejo de levantar a pessoa do reino dos mortos e perguntar-lhe porquê. É uma coisa que me aflige, que me intriga porque, apesar daquilo que senti exactamente antes de ceder à tristeza, eu não compreendo o que pode levar uma pessoa a isto. E outra coisa que me assusta é a nossa incapacidade em perceber o que vai na mente dos outros: alguém que se suicida está num ponto de ruptura tão extremo que cede a essa mesma pressão. Estamos nós demasiado ocupados com as nossas questõezinhas da tanga ou simplesmente desenvolvemos esta incapacidade de nos relacionarmos com a dor dos outros?

Os dias têm sido passados a fantasiar, resultado de demasiado tempo livre. Acordo demasiado cedo e continuo na cama, enfio os phones nos ouvidos e enceno videoclips sobre o amor, sobre o abandono, sobre o arrependimento, sobre planos impossíveis, sobre a vontade, sobre olhos que não me saem da cabeça. E por isto tudo, por me massacrar a pensar e a imaginar, fico contente quando penso que terça-feira pego no carro e vou embora sozinha. O quarto já está marcado, tenho vontade de ver o mar, tenho vontade de mergulhar em água gelada e estar sozinha comigo mesma: durante o tempo possível, estar sozinha fora do mundo onde me movo e desligar-me verdadeiramente de tudo. Sem sequer saber o que estou a fazer ou sem pensar que nada resultará como espero, só ir e estar frente ao mar.

E já não é só o cheiro do calor. É sair à rua e sentir que a brisa morna nos afaga. Quero acreditar que há promessas de Verão no ar.

abril 14, 2007

Para começar as férias em beleza...

... só mesmo um bocadinho de stress. Sim, os alentejanos têm fama de ser preguiçosos e lentos e pouco trabalhadores e moles e tranquilos mas deseganem-se, não somos todos assim. Cheguei a casa há coisa de minutos. Isto não é, obviamente, nenhuma notícia de última hora. A questão é que demorei 1 HORA E MEIA a fazer um percurso que por norma demora 2 minutos! Quer dizer, eu já demorei 2 horas a ir da estação do Oriente até à Estrela mas isto hoje atingiu novos máximos de congestionamento! Debaixo de um Sol muito quente para este mês, fiz a única coisa possível e desliguei o carro, saí e fui encostar-me a um muro, à sombra (OK, talvez seja preguiçosa...). Sem dinheiro no telemóvel, sem leitor de mp3, sem jornal ou livro, sem antena no carro - a Sorte não quer nada comigo nos últimos tempos. Enquanto outros reclamavam enfurecidos, eu tentava dizer a mim mesma que está tudo bem, que esta até era uma maneira bem original de começar as férias - não, não consegui convencer-me desta.

Acho muito bem que organizem uma Volta ao Alentejo e que fechem todas as porcarias de estradas, ruas da cidade, circulares à cidade, caminhos de terra batida e outras artérias que tais. Eu compreendo que é só mais uma forma de tentar revitalizar uma cidade que, caso contrário, já estaria morta há muitos anos. Mas aquilo que não acho bem é que o façam exactamente no meu primeiro dia de férias. Para o ano a ver se combinamos estas coisas com mais jeitinho, hã?

abril 13, 2007

[modo trabalho: off]

Desliguei. Puxei a ficha com jeitinho e saí antes que alguém pudesse/quisesse despedir-se de mim. Arrumei a secretária de maneira a parecer que ali não habita ninguém. Distribuí o trabalho pelos colegas de quem, muito provavelmente, não vou sentir falta. Desliguei tudo mas a cabeça foi-se mantendo ligada até agora. Espero que, ao contrário de outras noites, não sonhe com Diensteänderungen ou com nachträgliche EVN ou com Sparoptionen Listen. A única forma de parar isto é inspirar, pensar branco e sair de casa, ir ver gente e ouvir música e beber cerveja. Inspiro fundo, penso férias e ...






já está. Over and out.

abril 11, 2007

Agora que foi retomada a normalidade da transmissão...

... acho que é oficial: sou maricas. Não, não me estou obviamente a referir à minha orientação sexual mas sim ao facto de ser dominada pelo medo demasiadas vezes e pelos motivo mais variados. Que é uma tristeza, uma moça de vinte e sete anos ser assim facilmente amedrontada, eu sei. Não faço ainda ideia de como posso combater este inimigo - calculo que não consiga.

A verdade é que, quanto mais cresço, mais medo tenho e, se bem percebi esta história do crescimento, era suposto a coisa funcionar ao contrário. Tenho muito medo das coisas que não compreendo mas isso é comum a muitos de nós; tenho medo de morrer mas não há ninguém que não sinta isto pelo menos uma vez na vida; tenho medo de não voltar a ser amada ou de amar com a mesma intensidade com que já amei mas sou feita de demasiada matéria romântica. Não acredito em espíritos mas morro de medo de ser contactada por um, de ser escolhida para a transmissão de qualquer mensagem obscura ou terminar qualquer tarefa inacabada. Morro de medo todas as semanas quando me meto no carro e me disponho a fazer duzentos quilómetros até casa - é como se um dia também eu fosse fazer parte desses números negros que abrem os telejornais todos os dias. Aterroriza-me a ideia de poder nunca vir a ter filhos - quero conseguir sentir-me completa.

Mas isto a propósito do dia de hoje. Já não é a primeira vez que há um incidente do género no trabalho: há uns tempos tínhamos presenciado um ataque epiléptico dum colega, situação que me era totalmente estranha e que me impressionou terrivelmente. Hoje a coisa foi bem mais simples: uma colega desmaiou duas vezes num espaço de dez minutos, sem qualquer razão aparente. Mas fê-lo caindo sempre de olhos abertos, como se tivesse morrido subitamente. E eu, em vez de me sentir impelida a socorrê-la, petrifiquei. Os pés colaram-se ao chão, a boca secou e não conseguia dizer palavra, só esboçar esforços para dizer qualquer coisa. Ela já estava a ser assistida, não precisava de mim mas eu não fui capaz de agir e isso é tudo. Eu só olhava, incrédula, sem saber exactamente o que pensar e certamente sem conseguir tomar uma decisão.

Uma vez, enquanto visitava a minha avó no hospital, vi uma mulher morrer na sua enfermaria. Eu vi o momento exacto em que os orgãos cedem à pressão, o momento em que ela desistiu de sofrer, o momento em que a cara passa a ter a cor da morte. Estava vidrada naquela cama. Chamei o meu pai, que achou que a senhora estava apenas a dormir. Mas não, tinha morrido. E acho que recalquei essa imagem até ao dia em que o rapaz se contorcia com o ataque. Ou que a rapariga estava deitada no chão. E tenho medo porque não quero ver morrer mais ninguém. Portanto, façam o favor de se manterem vivos enquanto estão perto de mim. Por favor.

abril 10, 2007

To whom it may concern.

Este post só fará sentido para alguns.

Nunca pretendi veicular opiniões que não as minhas e, portanto, desprovidas de qualquer comprovativo científico. Não me interessa realmente o que outros pensam se não souberem ler 0 que escrevo aqui. Nunca tive qualquer intenção de ser intelectual ou coisa parecida nestes posts: tenho links na minha lista de blogs preferidos que cumprem esta função. Eu não sou intelectual nem sequer pseudo-intelectual: apenas gosto dos prazeres da vida, das pequenas coisas que nos são oferecidas todos os dias e às quais normalmente não prestamos qualquer atenção.

Não acho que viver em Lisboa é que é. Já vivi noutra capital europeia e sei como é diferente. Não sou autista o suficiente para pensar que a minha vida é que é boa, que quem vive na minha terra natal morre aos bocadinhos. Eu sei apenas de mim e disso até sei umas coisas: sei que viver aqui me sufocaria mas não acho que tenha que pedir desculpa por ter uma opinião diferente. Há muitas pessoas que vivem aqui, na terra onde nasci, e que lutam pela mudança - a essas, o meu respeito. Às outras, que não sabem do que falo, a minha indiferença.

Outra coisa que não me preocupa minimamente é o que pensam da minha vida. Não escrevo esperando qualquer validação dos meus actos ou das coisas que penso. Não penso inscrever as minhas atitudes na matriz cinzenta de quem se rege pelo que os outros pensam. Não sou exemplo para ninguém, sou apenas mais uma e sei isso - não me sinto especial ou mais digna de nota. Sou como sou e não obrigo ninguém a vir ler o que escrevo todos os dias. Se o fazes é certamente porque queres. Esta é a minha forma de diário e não me apetece que o critiquem ou, pelo menos, espero que o façam abertamente.

Gosto de ler as opiniões dos outros sobre o que escrevo, é evidente. Mas só se o fizerem com a sua própria perspectiva. E só se perceberem que não o faço para mudar nenhuma vida, a não ser a minha. E ainda se me apresentarem argumentos válidos/divertidos/inteligentes o suficiente para eu perder tempo/rir/debater-me com eles. A única coisa que espero das pessoas é que consigam compreender o que escrevo e que consigam entender que existo para além destas linhas. Quem achar que me conhece o suficiente quando lê estes posts... Bem, a essas pessoas falta o essencial. De qualquer maneira, espero que os outros continuem a presentar-me com a sua presença :)

abril 09, 2007

Já não preciso esconder-me?

Dr. Karev: For a kiss to be really good, you want it to mean something. You want it to be with someone you can't get out of your head, so that when your lips finally touch you feel it everywhere. A kiss so hot and so deep you never want to come up for air. You can't cheat your first kiss. Trust me, you don't want to. Cause when you find that right person for a first kiss, it's everything.

(um fim de semana inteirinho com chuva, muito frio e carradas de episódios de mais séries ainda por ver. uma incapacidade de não me relacionar/emocionar/sonhar com todos. umas mini-férias em que a ideia ar livre nunca existiu e a ideia noitada vai subsistir até hoje. quatro dias longe do trabalho a pensar onde vou descansar a cabeça nas férias que aí estão. dez minutos para inventar uma teoria sobre a forma como preenchemos o nosso coração. mais um momento de tristeza quando olho para a débil conta bancária. tentativa de escapar a uma menina que me quer conhecer à volta dum café. fuga das coisas importantes que me atravessam o caminho. deficiente digestão desta época a que chamaram Páscoa.)

abril 07, 2007

Não foi para este Sábado que acordei.

Abrir os olhos antes das nove da manhã com a mesma dor de cabeça com que me deitei. Ouvir más notícias que deixaram a casa em alvoroço (injustificado, descobrimos depois). Sair de casa e gelar numa manhã fria (é suposto chover em Abril, não estarem temperaturas de Inverno). Avistar mais uma tarde sem sair. Ter mais certeza de que estarei perto deste sítio na próxima semana: a desligar-me do sistema, a não me preocupar, a aproveitar o Sol que (eu sei) há-de vir.

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É Odeceixe mas em Agosto. Aposto que em Abril também me esticava numa toalha de praia.

abril 06, 2007


Há assim um sítio onde gosto de estar e onde posso passear-me atrás do balcão. Enfio a mão na arca e tiro a minha cerveja e tiraria a minha imperial, se as soubesse tirar. A música ultimamente tem andado em piloto automático, mas um piloto automático que me agrada, feito do mais fresco rock que anda por aí. Posso estar ali à conversa durante tempo, nalguns dias demasiado tempo. Mas o melhor de tudo é quando acontecem coisas que nos apanham de surpresa.


Eu: Ó P. tens aí alguma coisa que se beba com 5 cêntimos? (claramente a abusar da minha sorte)

P: Olha... Tenho. Mas tens que beber tudo o que eu quiser e não te podes recusar. (riso sarcástico)

Eu: Venha isso. (demasiado confiante)


Tenho a dizer em minha defesa que não desisti. Não, não conta ir hesitando mais entre copos. Eram jarros que ela servia em pequenos copos de shot. Apenas cerveja, nada de mais adicionado, apenas servida a um ritmo frenético e sem qualquer piedade. Também não houve estragos que eu, quando quero, também sei comportar-me como uma senhora. O melhor de tudo é que ela pode não se lembrar mas desafiou-me para hoje.


P: Digo-te mais... Se amanhã me aparecerem aqui frescas, sirvo-vos shots do que vocês quiserem a noite toda. (duvidando das minhas capacidades de recuperação)


Pfff.

(É esta senhora. Que é gira e tem uma força de vontade do tamanho do Universo. E a quem reconheço ainda grandes qualidades de tasqueira.)

abril 02, 2007

Auto-retrato breve *



Invades-me e eu deixo de existir.
Um dia quero voar e não regressar mais.
Os teus olhos presos nos meus.
Sou mediterrânea e morena, sou do Sul e do Sol.
Boa mesa, boa cerveja, bons amigos.



* e incompleto e vago e simplista mas não menos verdadeiro.

Aos Domingos ao Sol




Já não me lembrava da última vez que tinha realmente apanhado Sol aqui em casa. Em Lisboa, o jardim é à porta, sentimo-nos mais sozinhos e, portanto, mais impelidos a sair. Foi dia de Sol e de silêncio, o silêncio como uma muralha que só aqui consigo sentir. Mas foi mesmo assim um dia em que nos deitámos ao Sol, fingimos dormir enquanto falávamos de olhos fechados e comentávamos como uma nuvem tinha a forma de rim.

março 29, 2007

Se me querem ver contente nestes dias, é levarem-me a ver um chick flick. E então se tiver assim um tipo já com rugas, sorriso impecável, sotaque de cavalheiro britânico e um toque de anca fenomenal, ainda melhor. Se ainda juntarmos uma miúda que é do tipo linda-sem-precisar-ser-deslumbrante, música ao som da qual é impossível não bater o pé e uma história boy-meets-girl com a dose ideal de lamechice, então tenho a tarde feita. E não, não é preciso que o filme seja uma obra-prima. Nem sequer é preciso que seja um grande filme. Só é preciso que me faça sentir bem.

(E o Hugh Grant podia ser um ganda Elton John. Com metade dos quilos, o dobro da sofisticação e infinitas vezes mais virilidade).

março 27, 2007

Às vezes acontece-me.

Acontece que me canso de meus pés e de minhas unhas,do meu cabelo e até da minha sombra. Acontece que me canso de ser homem [...] *

Um amigo falava-me um dia nas alterações de humor que sentia sempre que fazia uma noitada. A noite em si era de grande euforia e desprendimento, a conversa saía-lhe naturalmente sem qualquer hesitação, nada o fazia sentir incomodado ou inadequado, as pessoas eram interessantes. A esta agitação opunha-se o dia seguinte: a disposição era de tom depressivo, a vontade de estar num quarto sozinho e em silêncio impunha-se, sentia um vazio como se tivesse perdido (mais) uma parte de si. Num espaço de horas, sentia esse pico de euforia e afundava-se abruptamente num estado semi-depressivo, o corpo sem compreender, sem acompanhar o carrossel da mente.

É certo que não me sinto no meio desta montanha russa porque me deitei tarde. Nem porque bebi ou tomei qualquer droga, leve ou dura, excitante ou calmante que me deixasse num indefinido estado de humor. Mas assim estou: a experimentar a descida, a cair sem rede, pela milionésima vez na minha vida. Não sei se estou a cair sozinha ou se fui empurrada. Na semana passada acabou o Sol, a minha chefe castigou-me com exigências impossíveis um comportamento que nunca tive, a minha irmã não conseguiu aquilo por que há muito esperava, faltou-me a inspiração e a coragem. E por momentos não se acredita mais no cheiro a Verão e nem em romances nascidos na minha cabeça (sim, isto vai realmente ser um anúncio de televisão) nem em possibilidades. Nada. Vasculho os cds à procura de música de Verão *, qualquer coisa que seja capaz de me convencer a sossegar, qualquer coisa que cubra o cepticismo. E, guiada pelo post anterior, cheguei à banda sonora d' O Carteiro de Pablo Neruda. E agora, se me dão licença, vou ali ficar triste um bocadinho, que eu cá já aprendi a ser pragmática até com a tristeza.

* podem ouvir o Samuel L. Jackson a dizer este poema aqui.

março 21, 2007

20

Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Escrever por exemplo:
A noite está fria e tiritam, azuis, os astros à distância
Gira o vento da noite pelo céu e canta
Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Eu a quis e por vezes ela também me quis
Em noites como esta, apertei-a em meus braços
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito
Ela quis-me e às vezes eu também a queria
Como não ter amado seus grandes olhos fixos ?
Posso escrever os versos mais lindos esta noite
Pensar que não a tenho
Sentir que já a perdi
Ouvir a noite imensa mais profunda sem ela
E cai o verso na alma como orvalho no trigo
Que importa se não pode o meu amor guardá-la ?
A noite está estrelada e ela não está comigo
Isso é tudo
À distância alguém canta. A distância
Minha alma se exaspera por tê-la perdido
Para tê-la mais perto meu olhar a procura
Meu coração procura-a, ela não está comigo
A mesma noite faz brancas as mesmas árvores
Já não somos os mesmos que antes havíamos sido
Já não a quero, é certo
Porém quanto a queria !
A minha voz no vento ia tocar-lhe o ouvido
De outro. será de outro
Como antes de meus beijos
A sua voz, o seu corpo claro, os seus olhos infinitos
Já não a quero, é certo,
Porém talvez a queira
Ah ! é tão curto o amor, tão demorado o esquecimento
Porque em noites como esta
Eu a apertei em meus braços,
Minha alma se exaspera por havê-la perdido
Mesmo que seja a última esta dor que me causa
E estes versos os últimos que eu lhe tenha escrito.
(Pablo Neruda)

(Escreveram-me isto uma vez em jeito de prólogo, na primeira página dum livro de poesia, à mão. Sempre achei que era um poema de despedida mas agora, à distância, parece-me apenas um poema de amor. Nessa altura, este adeus doeu-me mais do que qualquer outra despedida da minha vida. Hoje, estes são apenas versos doces, de um passado ainda mais doce, escritos por um homem que tinha a mais delicada forma de amar as mulheres e que é figura central no meu filme preferido de todos os tempos. Não é só porque hoje é dia mundial da Poesia. É porque hoje arrasto-me mais do que me tenho de pé: há demasiadas coisas a acontecerem na minha vida e, na verdade, não há nada a acontecer. E assim afogo um bocadinho a minha raiva e a minha desorientação - embebedo-me com versos apaixonados.)

março 18, 2007

- E se eu fosse um peixe-lua?

- Então eu seria uma faca bem afiada, rasgando-te durante quatro longas primaveras.

[Peixe Lua passou ontem na 2:. Acho que agora percebo porque é que tu gostas tanto do filme.]

março 17, 2007

Aos Sábados ao Sol



Café bebido na Central da Estrela. The Most Serene Republic a tocar. Jornal atrasado enfiado à pressa na mala. Banco o mais ao Sol possível. A tentação de filmar as pessoas que passam. Manga curta e suor. A sensação de saciedade depois de ontem. Tempo para fechar os olhos e sentir que já cheira a calor.

março 16, 2007

Münster lädt ein! *

Se eu acreditasse nos horóscopos e assim devia andar mais atenta. Diziam eles para estar atenta a revoluções e a não recusar novas actividades, por estranhas que me parecessem. Como eu sei que eles deixam sempre um pistazinha para nós seguirmos, assim qualquer coisa que possamos dar como certo, eu ignorei. Mas diz que às vezes os signos têm razão.

Esta foi a minha primeira viagem de trabalho. Agora sim, pude experimentar o stress de entrar e sair de aeroportos em tempo recorde, de carregar comigo as conclusões das reuniões intermináveis, onde me sentei mais como aprendiz. Digo que foi a primeira viagem porque espero que muitas mais se sigam e que os destinos possam igualmente variar. Isto não é necessariamente importante: o que é realmente importante é alguém me ter aberto uma porta, dado um voto de confiança e me ter arrastado para horas de negociações pautadas pela inflexibilidade do adversário.


Calhou-me ir a Münster, bem no Norte da Alemanha, bem pegada com a Holanda. Está aí sediada a empresa e é ali que se sentam, por isso, os nossos adversários mais directos. Diziam-me antes de ir que ia secar por lá, que aquilo mais não é que uma aldeia. Mas, meus amigos, uma aldeia com uma rua inteirinha de lojas de luxo (lembro-me especialmente da Escada e da Jil Sander) não é para qualquer um. Não é para um país como Portugal, é mais o que quero dizer. Não tive, infelizmente, a oportunidade de ver a aldeia de dia mas à noite fiquei absolutamente fascinada com as ruas empedradas e de trânsito reservado a peões e bicicletas (esta é a cidade da Alemanha com mais bicicletas, orgulham-se eles), de prédios completamente restaurados e preservados, bem à maneira das capitais de sonho como Praga. A comida era óptima e, neste capítulo, retiro inteiramente tudo o que já disse sobre a Alemanha: a gastronomia deles não se resume a salsichas e couves.

É fixe viajar com o patrão na sua carrinha nova. É pena que o homem a conduza em mudanças automáticas (isso não é à macho!), que ouça Gipsy Kings quando nos vai buscar ('Spanish music for portuguese people, huh?') e que seja aí do dobro da minha altura. Mas isso são pormenores: quando nos levou directamente ao recinto da feira, com direito aos carrosseis da praxe, à curry wurst que tanto odeio e aos êxitos da música trash alemã do momento, eu fiquei satisfeita. Com sítios assim, até eu me tornava numa aldeã [suspiro]
* Münster convida, para os mais distraídos. Ou para os pouco versados em alemão.

março 11, 2007

A igreja estava gelada e cheia, havia mesmo que não tivesse lugar. Quando ouvimos o Sim resolvemos sair, já tinha acabado o que interessava, já estavam casados. Chegámos à festa quando a tarde, ainda quente, começava a dar lugar à noite. À beira da piscina, um quarteto de cordas dava as boas vindas aos convidados que se aglomeravam perto das mesas, esperando os noivos e o oficial início das festividades. Não havia outro vinho que não um Conventual macio e muito suave e as entradas, quarenta petiscos regionais, estavam ainda quentes. Vimos o Sol pôr-se à beira da piscina antes de nos sentarmos à mesa, onde saboreámos mais pratos de cozinha regional de fazer qualquer um salivar. Dançou-se bastante, sem direito a um acordeão ou a um orgão roufenho. Acho que já há muito tempo que não me ria assim. Quando vemos os outros felizes somos mais felizes também. É pena que a felicidade não seja uma epidemia.

março 10, 2007

As noites na Quina das Beatas II


Como sempre, tive vontade de escrever naquela hora. De dizer a melancolia que me ataca sempre que ouço estes acordes, sempre que ouço estas (poucas) palavras. E então se fingirmos que vale tudo e que as coisas nunca mudaram? E o que vai acontecer se eu confessar a minha falta de aptidão para ver além de ti? E se eu tivesse para te dizer todas estas notas, ordenadas desta maneira exacta e brutal, nesta amálgama de sons e de coisas que eles sentem enquanto estão a tocar? Mais ninguém na sala sente isto da mesma maneira dolorosa que eu sinto. Ninguém sente dor. Sentem apenas na pele um excesso de décibeis, um desconforto simples de resolver, uma preguiça do ouvido. Não quero mais sentir que vos ignoram e que ignoram, ao mesmo tempo, a minha dor. Sempre que vos ouvir a tocar esquecerei esta pressão de existir. Batam com violência na tarola, revirem a guitarra nesta solidão profunda que nos ataca no interior. Estamos sozinhos e gostamos. Ou não gostamos mas simplesmente não conhecemos outra maneira de sentir.

Nunca hei-de conseguir exprimir o que sinto pelos Linda Martini. Não é simpatia e não é estima. Não é solidariedade por serem portugueses. É apenas gratidão por musicarem o que eu sinto sem me perguntarem se é assim. É apenas a doce sensação de fazerem música violenta mas não para os ouvidos, apenas para os sentidos. Um dia, vou conseguir ver além deste estado final de melancolia que me abate. Eu quero engrossar as fileiras deste exército. Eu quero não sentir-me só. Por enquanto ainda estou.

Os Linda Martini tocaram na Quina das Beatas, em Portalegre.

março 06, 2007

Extasiada!




Só estou à espera que alguém me diga ou me mostre quanto vai valer isto tudo... Não estou a falar de dinheiro, há alturas em que isso é secundário. Mas... vê-los todos? Num só ano? Alguns mais que uma vez? Na, alguém me há-de explicar onde é que está o '...mas...'.

março 04, 2007

Auto-ajuda

Only meet new people . Only wear new clothes. Only give to new beggars. Only think new thoughts. Only eat new food. Only read new books. Only browse new websites. Only watch new channels. Only visit new places. Only make love to new bodies. Only buy new furniture. Only dance new moves. Only listen to new music. Only discuss new topics. Only dream new dreams.

[Este é um diário que promete mudar a nossa vida. Chato é quando nem com ajuda nos deixamos mudar.]

fevereiro 28, 2007

Long Distance Callers *


Estendeu um pedaço de pano gigante numa esquina da Fontes Pereira de Melo. Agitava o megafone e gritava coisas que cá em baixo soavam apenas a ruído. Tinha escrito no pano 'Se não me derem chamadas internacionais a 15 cêntimos eu...' - presumo que continuasse esta frase de muitas maneiras, sempre com o megafone na mão. A minha primeira reacção foi pensar que era mais um manifesto dos funcionários da PT. Mas depois, banana como sou, levei a coisa para o romantismo: imaginei que mulher estaria a viver longe deste homem. Imaginei as saudades que sentiam um do outro e a rapidez com que (talvez) falam ao telefone para conseguirem poupar. Tanto quanto sei, isto podia ser apenas e só uma brincadeira ou mesmo um funcionário da PT muito zangado. Mas enquanto olhava lá para cima, comovida, isto soava-me apenas a mais um momento de poesia urbana.

A banda sonora deste momento materializou-se de imediato na minha cabeça. É dos portugueses Pinhead Society, dos quais tenho tantas saudades. Deles e do tempo em que não saíam da minha aparelhagem. É qualquer coisa assim* : Sometimes it seems like you're so far/ Just five minutes away from me/ It's like they are all against us/ And you like to feel that way/ I hear the ring and there goes my mind/ Through the telephone line...