setembro 05, 2007

Tens razão, sou eu.

Sou eu, completamente despegada da minha terra e a ser consumida pelas saudades quando estou muito tempo sem lá ir. Sou eu, agarrada ao volante de um carro que teima em funcionar, que me arrasta pelo alcatrão quente na recta de Pavia. Sou eu, a remexer as memórias e a montar todas as recordações de novo, a tentar mudar o rumo das coisas que já fiz e a tentar escapar à previsibilidade do que ainda aí vem. Sou eu, a aproveitar todos os momentos em que estou em silêncio para silenciar também a minha cabeça. É um coração avariado, passeando a sua desordem à beira dos rebanhos incandescentes, como na música d'A Naifa. Sou eu, sim senhor. Até as sobrancelhas carregadas e negras que herdei da minha família paterna estão lá.

É paradoxal, sentir que há um retrato que nasce das minhas palavras. Não foi preciso que este par de olhos se cruzasse com o meu par de olhos: só foi preciso escrever e deixar a música colar-se às minhas palavras. É desarmante, alguém que nos sem nos ver.

Este moço tem mais desenhos aqui.

setembro 04, 2007

Ténue fronteira

Depois de alguém se manifestar incomodado com a forma como respondi (não fui galante nem delicada, acham), a minha chefe decide entregar-me os destinos dessa equipa. Estou com sérias dificuldades em distinguir o castigo da recompensa.

setembro 03, 2007

Sobre diferentes formas de percepção


Obadiah Parker, Hey Ya
!

Absolutamente delicioso. Mais uma obra do acaso, descoberta neste site. Eu participaria também, se ao menos tivesse algum talento musical.


setembro 02, 2007

Acho que é capaz de ser a isto que chamam picos de humor. Depois de um fim de semana cheio de gente em casa, de ver gente na rua, de pessoas que chegam e pessoas que partem, há uma espécie de solidão instalada no primeiro andar direito do número treze. Por precisar de conforto, encaracolo-me sobre mim e decido só abrir os olhos amanhã. Pestanejar só quando o dia prometer qualquer coisa de bom.

Restos da noite de ontem

Um olho a controlar-me todos os movimentos e uma voz na cabeça, dizendo que errei outra vez. Mas eu gosto de errar assim e conheço bem os meus limites: não há nada a impedir-me de tropeçar novamente. É a vertigem a tomar conta dos meus passos.

setembro 01, 2007

Até já! *


Às sete da manhã já estávamos a pé, para que pudesses começar a tua nova vida a tempo e horas. Era uma mala demasiado grande, dizias tu. Não levas quase nada, argumentava eu. A verdade é que levas muita coisa contigo para Bruxelas: a tua vontade de fazer bem, o desejo de pertenceres a alguma coisa maior, a coragem de arriscar. Vais-me fazer tanta falta... Vou ter saudades das médias, das conversas de fim de noite, das apostas e tira teimas que resolvemos com o Google, das tuas queixas sobre o jornalismo, das tuas ideias sobre tudo. O tempo passa depressa, eu sei, mas é estranho. Mesmo assim, podemos já dizer Até Novembro! e fazer de conta que faltam só dois dias. Ficamos todos a torcer por ti!

* com a mascarilha que pediste, para que possas espreitar toda a gente :)

agosto 31, 2007

Um povo, uma cultura, uma região

Já me tinham dito que era um sítio obrigatório e que nem percebiam como é que nunca lá tinha entrado. Já tinha passado à porta tantas vezes, sem nunca me ter apercebido que era ali e, francamente, ainda bem que assim é: pode ser já muito visitado mas ainda é um segredo para alguns (os mais distraídos, como eu). O jantar do management lá do departamento (o jargão já se instalou, não há remédio) aconteceu ontem na Casa do Alentejo, depois de sugerido por um colega.

A comida era um mimo, verdadeiramente alentejana, sem decepcionar na variedade e na quantidade de banha usada para fazer aquelas migas.O vinho bebeu-se tinto, aliás, não poderia beber-se outro na sede da alentejanidade e era um vinho macio e pouco doce, ideal para não acordar com a boca seca no dia seguinte. A companhia não comprometeu, deixando os assuntos rotineiros para o sexto piso da Latino Coelho. Sete mulheres para um homem, a simbolizar a distribuição dos sexos naquele prédio todo. Depois do jantar, seguiu-se o deslumbramento daquelas salas com tecto, chão e paredes trabalhados, a influência árabe em cada pormenor, os azulejos tradicionais tão bem conservados, um orgulho quase irritante em ser alentejana. Podia aqui dissertar sobre a maneira alentejana de ser mas não vale a pena. Vocês sabem do que é que eu falo.

agosto 28, 2007

Um desafio!

Porque só agora se reuniram as condições ideais, aqui fica um desafio a todos os que espreitam este espaço. Falem-nos ( a mim e a ele) sobre as coisas que vos tiram o fôlego. Pode ser um objecto, um animal, o vosso amor, a vossa terra. Acompanhem com uma fotografia (se quiserem) e mostrem (porque não?) ao Mundo aquilo que vos faz feliz.

Basta que nos enviem o pedaço de felicidade para este mail. Pode ser uma descrição breve, um poema, uma canção, uma deixa de um filme. Surpreendam-nos! Afinal, a beleza às vezes está onde menos esperamos. Já podem ver coisas que nos fazem feliz aqui.

agosto 27, 2007

Motivos para sorrir (por ordem de aparição) *


Um leque que me chegou às mãos vindo directamente das belas ramblas de Barcelona (cortesia do M., o que só vem provar que é bom levantar-me todos os dias para trabalhar). Uma travessa de aletria que me chegou às mãos directamente vinda da porta ao lado (cortesia da minha vizinha M., que talvez me tenha querido agradecer por lhe ter perguntado pelos joelhos).

* a contrastar com o abraço de que ele hoje precisava e que eu não pude dar.

Violent mood



Ontem alguém pensou que eu tinha tido um ataque cardíaco. Assistimos a duas trovoadas secas que se deslocavam furiosamente sobre o céu, sentados na praça. Amanhã retomo o ritual de acordar antes das sete. Está calor mas já não está aquele calor. Apetece-me pegar no carro e fazer cem mil quilómetros sem parar. Today I'm on a violent mood.


(As imagens, como de costume, são minhas e Be quiet and drive (far away) é uma música dos Deftones.)

agosto 24, 2007

Das tristezas alheias

Quando saimos do cinema, decidimos que o melhor é apanhar um táxi e fazer duas paragens. Ele fica em Santos, eu peço para o taxista me levar à Estrela. Depois dele sair, vejo-me inesperadamente travada por um camião do lixo que fazia a recolha àquela hora. A conversa com o taxista nasce desta paragem, passa pelo Euromilhões, pelas dificuldades com que vivemos, por tudo aquilo que faríamos com um pouco mais de dinheiro.

Quando ele começa a falar da separação por que passou há um ano, eu não adivinho que vai terminar a conversa de lágrimas nos olhos. Conta-me como o amor o cegou, como embarcou num casamento que o deixou na miséria e que rompeu com o que restava do seu coração. Diz-me

Quando eu entro numa sala e ela está lá, o meu coração fica escuro, um poço negro sem fundo

e eu comovo-me com esta franqueza. Parados em frente à basílica, conversamos sobre o amor e as mulheres e ele olha-me com tristeza pelo espelho. Tudo o que o amor constrói também pode destruir, semeando a devastação. Diz que já não acredita no amor mas que eu devo acreditar, a menina é nova, diz ele. Despedimo-nos com um aperto de mão, ele chama-me amiga e pede-me desculpa. Já é tarde demais: para mim, porque me ataca o sono; para ele, porque já não quer saber do amor. Durante quase uma hora, fomos amigos.

agosto 21, 2007

Dormir mais feliz #7 *

woman driving, man sleeping
passing all the other cars
searching in the black
but never turning to look back
a little metal box under the stars


*tentando pensar além deste vento que me assobia em todas as janelas. Talvez seja esta loucura que nos é soprada à força que me planta estas imagens na cabeça: os dois naquele sofá, a fingir que nos tocamos apenas por acidente; as pernas longas e magras em direcção a mim debaixo daquela luz amarela; a lenta e delicada ponta dos dedos dele; o beijo que evitamos até quase perdermos o fôlego.

É um sonho recorrente este, em que ele vai no banco ao meu lado enquanto conduzo. Leva os olhos fechados mas não dorme. Reclina o banco e vira-se para mim, de maneira que vejo o brinco a luzir atrás dos caracóis que não penteou. Espreita-me, pensando que eu não o estou a ver - eu vejo-o tão bem. Olhamos um para o outro sempre pelo canto do olho, com medo que o outro perceba o fascínio. Já estamos atrasados e as filas de trânsito demoram-nos ainda mais. É mais tempo que passamos em silêncio, dizendo adeus.

Day Off

(Ainda estou indecisa se conto ou não à mamã, para evitar outra reacção daquelas.)

Hoje foi dia de folga e, não sei se alguma vez o disse, eu adoro folgas durante a semana. É óbvio que os fins de semana deviam ser sagrados mas este sossego das terças ou das quartas é tão bom quanto matar saudades num sábado. Portanto, um dia inteirinho à minha frente ditava que eram necessários planos. E os planos fizeram-se ontem à noite, entre uma colher de Fragolata e dois episódios dos Sopranos.

Actividade Um: subir a íngreme encosta até à rua Ferreira Borges, tentando escapar às velhas senhoras que desciam com os cabelos ensopados em laca; entrar no supermercado para me abastecer das mercearias mais básicas, entre elas um gelado de pêssego com molho de framboesa (das mais elementares necessidades, pois); descer a encosta, orgulhosa do meu saquinho de pano amigo do ambiente (e das minhas costas também.)

Actividade Dois: pano amarelinho, luvas rosa de borracha, creme de limpeza, água quente, aspirador - esfregar a casa de ponta a ponta, deixar as louças a brilhar, aspirar as quantidades industriais de cabelos meus que se passeiam pela casa; terminar com uma muito bem executada recolha da roupa já seca.

Actividade Três: subir para o autocarro 738; descer na praça do Duque de Saldanha; entrar no Nimas a pensar que ia ver o Diário de um Escândalo e descobrir que afinal vou ver o Labirinto do Fauno; sair de lá satisfeita, a pensar por que raio não me apetece mais vezes enfiar-me assim numa sala de cinema; fazer o caminho até ao Monumental em cinco minutos; comer um croissant de chocolate e sentar-me a ver Evan Todo Poderoso; deixar o cinema com a sensação de 'Ehhh...' [ler com tom de desconsolo].

Actividade Quatro: apanhar o 36 até à baixa e fazer o caminho até ao Chiado a pé; entrar na Fnac para comprar um livro que me tinham encomendado e sair de lá sem ele mas com outro livro e um Moleskine; pela enésima vez, pensar que nunca mais lá entro assim sem dinheiro.

Tudo solita. E o bem que soube, hã?

agosto 20, 2007

Baldes de água fria *

Estava há quatro dias sem sequer pensar em internet, blogs, stats e outras coisas do género. Foi um fim de semana preenchido e cheio de sol, a contrariar algumas previsões. E tinha coisas para escrever, talvez fotografias para partilhar. Mas passou-me a vontade toda quando meti a chave na caixa de correio e dei com uma factura do maior operador móvel de Portugal. A cobrar-me 54-euros-54 por ter usado o serviço deles durante 7 dias. Um serviço que, na maior parte das vezes, não durava mais que 5 minutos ligado. E de repente apeteceu-me mais berrar com toda a gente e resolvi ninguém merece. Vou só ali despejar a minha raiva (estou indecisa entre uma caixa de gelado e cervejas geladas) e já volto.

* também podia ser águia fria, que não sei quem se lembrou desta comédia do Camacho voltar ao Benfica em tão curto espaço de tempo. Mas eu gosto dele. Parece um ursinho, o espanholito.


agosto 14, 2007

Eu disse: é o medo que nos vem acariciar. *

Depois de o ver em Paredes de Coura, a minha convicção cresceu e fui dominada pelo seu porte altivo e semblante (que maravilha, não esperava usar tal palavra) carregado. O Adolfo Luxúria Canibal é o gajo mais bem parecido do róque português.


* de Tu disseste, dos Mão Morta

agosto 13, 2007

Puseste o dedo na ferida

Mãe: Então, o que é que fizeste hoje?
Eu: Fui ao cinema à tarde.
Mãe: Sozinha, outra vez?
Eu: Hei-de ir com quem? Era segunda-feira à tarde, ninguém está livre.
Mãe: É que andas sempre sozinha.
Eu: Não ando nada.

(Acabo a chamada com o nó na garganta que sentimos quando sabemos que não temos razão. Quero dizer-lhe que é mentira mas não consigo argumentar mais. Nem inventar mais. Por isso, às segundas-feiras à tarde ninguém larga o trabalho para ir ao cinema comigo. Nem às terças ou noutro dia qualquer da semana. Eu cá já me habituei a sentar-me sozinha e até já nem sinto falta de comentar o filme. Toda a gente aprende a estar só.)

agosto 12, 2007

Sobre coisas que fazem acelerar o coração *



Bebemos a garrafa de Monsaraz naquele jantar como quem mata a sede numa tarde de Verão. Ele servia-me ou eu mesma pegava na garrafa, enquanto toda a gente se contentava com uma sangria arrasada pelo excesso de canela. Ouvimos anunciar à mesa Eu vou ser pai, a sério, vou mesmo ser pai. Brindámos à felicidade evidente daquelas duas pessoas. Descubro mais uma grávida na mesa e dou comigo a pensar se alguma vez vou sentir aquela alegria desenfreada, se alguma vez vou tocar na minha barriga e sentir vida. Não sei se vou mas faço votos que sim. Fazer votos já não chega mas isso eu consigo controlar. Ter um filho é que é uma coisa que já me escapa mais.

Combinamos uma hora tardia num sítio improvável. Na verdade, não sei se ainda o consigo reconhecer porque há sempre demasiado tempo entre os nosso encontros. Já não vou nervosa. Bem, pelo menos até faltarem oito quilómetros, altura em que regressam as borboletas na barriga e eu fico aflita com tantos nervos. Quando o apanho numa rotunda deserta, descubro que as borboletas sossegam, ficam escondidas, abrandam o ritmo, deixam de me afligir. Passamos a noite a tentarmos não nos concentrar um no outro, a tentar ignorar esta vontade que nos queima a ponta dos dedos. A gata Mia olha para mim demasiado fixamente, como se me quisesse ver por dentro e eu não consigo afastar os meus olhos dos dela. Quando finalmente nos deitamos, sentimos os braços e as pernas em espasmos devido ao cansaço. Os meus espasmos também resultam do meu braço tocar o dele... Por muito tempo que viva, nunca vou entender isto que me liga a ele.

Ouvi muito esta música numa altura em que vivia com o coração na garganta porque pensava que tinha um pedaço de felicidade nas mãos. Uma vez, no elevador do trabalho, pensava que não ia aguentar a taquicardia com que vivia aqueles dias. Não faz mal que me tenha enganado: foi só mais uma vez. Hei-de enganar-me muitas mais e, mesmo assim, hei-de continuar a gostar das coisas simples. Como estes meninos na água ou o casal que se beija envergonhadamente. Há-de de haver sempre um sopro a acelerar-me o coração.

*Postcards from Italy dos Beirut

agosto 08, 2007

Dormir mais feliz #6


So until your your blood runs to meet the next full moon
You're madness fits in nicely with my own
Your lunacy fits neatly with my own, my very own
We're not alone *


* ou estamos?

agosto 07, 2007

SW 07: os freaks já não moram aqui

Estar dois anos sem ir a um festival de Verão teve o seu impacto este ano quando me vi sufocada com a imensa multidão de pessoas maioritariamente bem cheirosas que tentavam comprar o seu bilhete. Já tinha ido umas seis ou sete vezes mas nunca me lembro de ter visto tanta gente junta. Nem mesmo no dia em que os Oasis foram corridos à pedrada à segunda ou terceira música. E esta gente toda não é, obviamente, sinónimo de malta porreira e boa onda, que se quer apenas divertir e fazer praia e ouvir uns concertos (afinal vai-se lá para quê?).

Chegar lá à meia-noite não tem graça nenhuma. Acabámos a estacionar o carro do lado oposto do recinto, num sítio onde nunca tinha visto carros estacionados. Por sua vez, isto significa que tivemos que carregar as nossas tralhas uns valentes metros antes de podermos assentar arraiais. Andar não faz mal nenhum, eu sei; mas faz um bocadinho pior quando vamos com metade da roupa que temos e com o saco cama e o colchão e o saco cheio de enlatados. Depois de entrar no campismo, confirmou-se a minha suspeita de que haveria gente demais e gente demasiado nova por toda a parte. O generation gap começa a apertar muitíssimo e eu já não sei se são eles que são muitos novos para festivais ou se eu sou demasiado velha para estas aventuras... Eu juro que vi miúdos que não tinham quinze anos. Ou isso ou estão muito bem conservados.

Depois também é importante a malta com quem se vai. Eu, desprovida dos fiéis companheiros de SW (Zina, a falta que tu fizeste ali...), avancei com nova companhia. As pessoas eram divertidas e acessíveis (tendo em conta que conheci a maior parte apenas lá) mas não estávamos no mesmo comprimento de onda. Por isso, foi bom aproveitar os dias de calor na praia, estendida a dourar uma pele já de si morena mas faltou-me mais actividade e mais entusiasmo. Os concertos que vi sofreram do mesmo mal e perdi algumas das coisas que queria mesmo ver.

Mas o pior estava para vir na noite de Sábado. Um daqueles meninos extremamente bem educados, provavelmente habitante da Lapa ou Campo de Ourique, resolveu usar a traseira da minha tenda como casa de banho e o resultado foi fascinante: toda a gente a pisar-me a tenda para se desviar da bela obra de arte e eu dentro da tenda, com um valente ataque de pânico, a tentar evitar ser esmagada, com o coração a querer galgar-me as goelas. Não admira que me quisesse ver dali para fora o mais rápido possível e que, ao deitar-me no chão da minha casa, me sentisse finalmente protegida.

Já não há freaks no SW. Já não há malta que não se importa de tomar banho ou de cheirar um bocadinho a eau du suvac. Já não há malabarismos, os jambés são demasiado tímidos e desajeitados, a roupa é comprada em exclusivo para aqueles dias. O que há é uma profusão de anúncios por todo o lado, promoções a tudo e mais alguma coisa, restaurantes self-service dentro do campismo (!), pessoas que cheiram a perfume caríssimo. Há quem diga que estou apenas velha. Mas eu, francamente, acho que não e decidi só que SW (talvez) nunca mais. Para o ano encontramo-nos mais a Norte.

agosto 06, 2007

SW 07: as (parcas) imagens


Tomar banho debaixo de uma torneira que está a cerca de um metro do chão é sempre bom. Dá para dançar o limbo mas encostadas à parede e fingir que se participa naqueles clips eróticos com moças cheias de espuma. Ahem.
Ficar cliente habitual do café nestes dias também é simpático. Assim, podíamos todos os dias ouvir a dona a reclamar de ter tantos clientes, fazer apostas sobre quem arrisca a primeira cerveja logo de manhã ou comer a mesma bifana cheia de nervo todos os dias. Sweet.
Dá para amaldiçoar o dia em que decidi não levar o Ipod? Esta malta da pesada fazia-me isto na praia: tudo deitadinho, a fazer a soneca que não tinham feito à noite. E eu ali, sem conseguir dormir, pestana aberta mas não o suficiente para ler. Quero ser daquelas pessoas que dormem em qualquer lado, em qualquer posição!

agosto 02, 2007

Memórias *

Do you remember the festival
We took those drugs I never thought
I'd get into that pumpin' stuff
A thousand eyes won't recognize us

'Cause I know you and you know me
that's all you need and all I think of
I know this ain't nothing very deep but it's good fun
So don't run into the crowd


(lembro-me de uma manhã de sábado passada dentro da tenda enquanto a lama se acumulava lá fora. das quinhentas latas de atum, cavala, grão, sardinha em tomate picante, feijão frade, feijão branco, raviolis que já comi. das manhãs em que me sentava sozinha, à frente da tenda, porque não aguentava o calor. das pessoas que vi e, estupidamente, deixei passar, sem sequer dizer olá. de todas as noites que passámos sentados no escuro, a rir incontrolável e inexplicavelmente de tudo. de toda a música de dança que não dancei porque não sei ir sem companhia. de todas as praias onde destilámos a noite anterior, onde tomámos sempre banho porque praia sem banho não é praia. de o ver sentado no muro da zambujeira e deixar-me ficar sentada na esplanada, convencida de que ele também sabia que eu estava ali e isso chegava. de entrar em casa suja e encardida e não me deixarem sequer pousar as malas: banho!. não vos levo mas é como se levasse. agora com licença. vou ver como me corre a vida a sudoeste.)


* roubado a Memories of a Festival dos dEUS.

julho 31, 2007

Dormir mais feliz #5 *

Don't let your eyes refuse to see
Don't let your ears refuse to hear
Or you ain't never going to shake this sense of sadness




* Mom goes Polaroid




A Oeste


Colagem sobre Polaroid inutilizada

julho 28, 2007

Post ligeiramente optimista *


As seen here.

Afinal de contas, parece que o Verão chegou hoje a esta cidade e já se pode sair à noite sem o casaco pelos ombros e já podemos sentar-nos na esplanada sem começar a tremer de frio quando a noite já vai longa e ir dançar deixa de ser uma desculpa para ficar quente e passa a ser apenas prazer. E com isto tudo, podemos ouvir falar de canais de televisão para condóminos, podemos ensinar como se massajam as costas sem nunca revelar onde foi que aprendemos a usar primeiro a força dos dedos e depois o arrepio do toque, podemos vasculhar na roupa do verões passados pelas camisolas de que já nos esquecemos (dos verões ninguém se esquece). E podemos estar deitados à beira da piscina, a cismar que às dez da manhã já estão quarenta graus e que a tarde vai acabar por nos matar de calor, enquanto o meu pequenino de quatro anos entra dentro de água sozinho pela primeira vez e não tem medo de pisar o chão da piscina. E, enquanto o calor lá fora derrete o alcatrão e enquanto os grilos e as cigarras cantam depois da noite escurecer, conversamos muito. Falamos pelos cotovelos, gastamos todas as palavras que poupámos durante a semana, enterramos o nosso tempo em conversas que nunca vão chegar a lado nenhum, esquecemos o calor e trocamos de assunto a cada cinco minutos. Mas nem o calor faz com que todas as palavras que tenho na minha cabeça se materializem na minha boca e, enquanto falo, ouço o eco das palavras que ficam, das palavras que podiam mudar tudo. Hei-de guardá-las para um dia melhor. Ou isso ou ficarão definitivamente por dizer.

* porque nem só de chatices são feitos os dias.

Adeus Emigrante! / Summer Tinto Noya Festival


Só já faltam dois fins de semana para me ver estendida à beira de uma barragem qualquer ( local a definir, lá está)... Eu, que tenho tanto medo da água das barragens e de tudo aquilo que as suas águas cobriram (suspiro).

Os festejos devem-se a dois motivos diferentes. Uns acabaram o curso e estão prontinhos para ingressar no carrossel de frustrações que é o mercado de trabalho português; o outro vai deixar outra vez Portugal e fazer novamente (desta feita, a sério!) a sua vidinha em Bruxelas. Se por um lado estou contente por aqueles que agora deixam para trás e com saudades a vida de estudante, por outro estou ainda mais contente por saber que agora tenho um quartinho à espera em plena Europa central. A viagem está marcada, pelo menos mentalmente. Os 25 anos foram em Amesterdão, os 26 em Berlim, os 27 em Lisboa e os 28 serão em Bruxelas.

Fica-me cá um coração apertado que também queria ir embora. Para onde, não sei exactamente mas deixava de bom grado tudo para trás.

julho 27, 2007

Eu ainda não sei.



Sentada à janela, tento à força não adormecer com o computador no colo. Ouço o eléctrico a deslizar nos carris e os aviões a rasgarem o céu sobre a Lapa. Duas pessoas param a conversar debaixo duma janela: uma fala em inglês, a outra responde em português. Desvio as cortinas para deixar que o ar fresco atenue a minha transpiração. Estou suada e não consigo evitar suar ainda mais, é o Verão em que a purgação acontece assim facilmente. A mala ainda está por fazer: arrumados estão só a toalha e o biquini que vou usar quando o meu pai me levar à piscina (ainda hoje pensei como me apetecia que me levasse pela mão, como se eu não pudesse ainda pisar o Mundo sozinha). A televisão continua ligada sem que eu consiga ouvir o mínimo ruído, desligo-a quando forem horas de dormir. As pessoas podem ver-me, se quiserem, através de uma fisga entre as cortinas: há alguém que pára e fica a escutar mas esconde o olhar. É Verão aos poucos e há planos, muitos planos para dias de calor e de água e despreocupação. Só a música justifica esta sensação de vazio.


(Só precisei ouvir os primeiros acordes: soube de imediato que a iria ouvir em repeat. Colou-se a mim e apertou-me a garganta. Esta tristeza é das boas.)

julho 23, 2007

Por favor, digam-me que o dia acabou.

Definitivamente preciso de férias. Já não é só uma questão física, é um assunto do foro mental. Ultimamente, a minha vida tem sido um percurso em terreno acidentado mas o dia que vivi hoje ultrapassa já os limites do suportável e nem toda a boa vontade do Mundo me vai ajudar a trabalhar assim, todos os dias com esta gente a reclamar, a refilar, a responder mal, a desafiar a estima que tenho por eles. Esgotam-se os meus argumentos cordiais, cansa-se o meu sorriso, chega-me à raiva que não posso expulsar à garganta. E eu, que nem sequer sou uma pessoa boazinha, começo a sentir-me cada vez mais acima desta gente sem humildade, sem respeito pelos outros e sem um pingo de decência profissional.

Já não me apetece puxar pelas pessoas e oferecer-lhes a possibilidade de poderem brilhar. Também não me apetece ser tão liberal porque vejo que ali há muita coisa a acontecer à minha revelia. Mas há uma coisa muito positiva no meio disto tudo: deparo-me com a possibilidade de ver como as pessoas ocultam traços da personalidade sem que isso me possa, directamente, ser prejudicial. E se, como disse, não sou a melhor das pessoas, pior é ver como as pessoas se moldam ao seu interlocutor e deixam marcas totalmente distintas nas pessoas, sem que ninguém consiga perceber exactamente com quem está a falar.

O potencial de observação que a minha posição me proporciona é muito valioso. Não só consigo desmontar esquemas de incompetência na profissão, mas também consigo melhor compreender onde residem os meus erros de avaliação de carácter. E já errei imenso, muito mesmo - não só aqui, já falhei inúmeras vezes até chegar aqui. E sim, eu sei que isto nunca vai acabar; que , por muito que confie na minha intuição, vou ter sempre amargos de boca. Só me pergunto quando é que isso vai deixar de ser uma surpresa para mim, quando é que vou ser de tal maneira insensível que me basta um encolher de ombros para dissolver a desilusão. Como dizem os Interpol, e muito bem, permitam-me, I'm training myself not to care. E agora, se faz favor, digam-me que já é terça-feira. Por favor?

julho 22, 2007

Os Da Weasel é que o dizem.

Já que falo por eufemismos, gostava de dizer que ainda gosto bastante de ti.

julho 20, 2007

Palavra de honra


Não consigo resistir-lhe. Penso em cada personagem dos Sopranos e é ele sempre o primeiro. É um sacana sem moral e sem escrúpulos mas completamente dedicado à família. É um furacão de reacções, impulsos e, muitas vezes, de ingenuidade. Não é bonito mas é definitivamente atraente: há um magnetismo no olhar dele que me prende ao ecran do computador onde agora recupero o tempo perdido. Quando ele estraga um negócio, quando não cumpre ordens ou quando grita sem razão - é quando ele transgride que me sinto mais perdida naqueles olhos inquietos. Pertence à (minha) categoria de homens (ou personagens) feitos para dominar, falta-lhe a piedade e a misericórdia dos homens bons.

Há uma (gigantesca) parte de mim com queda para o drama.

julho 19, 2007


O pior acidente de viação de que me lembro ter assistido no cinema, com direito a desmembramento quase em câmara lenta; um grupos de mulheres (raparigas? gajas?) que desancam um tipo que quase as matava; o regresso de Kurt Russell, que muita gente dava como desaparecido; a auto-citação a meio do filme; e a banda sonora completamente sexy e destravada, como aliás a maior parte do filme.

Acho que precisava de uma coisa assim. Quando decidi ir ao cinema, nem estava muito convencida que ia ver o novo do Tarantino, apenas pensei que veria o que começasse primeiro. E, se é certo que a sala ficou surpreendida com o final, eu ri-me bastante e fiquei presa ao filme nos longos momentos das perseguições (o que já quer dizer muito!). É que, depois de ver o Hostel, eu já esperava tudo. De pior, entenda-se.

As coisas no trabalho estão perto de me levar a uma apoplexia nervosa. Esta semana saem cinco pessoas (umas de livre vontade, outras convidadas a sair), o que significa que é urgente preencher vagas. Há um projecto da minha equipa a terminar amanhã e não sabemos se estamos preparados: achamos que estamos mas ali já aprendi que nada é garantido. A minha chefe hoje ia entrando em colapso com os nervos que algumas exigências mais mesquinhas lhe provocam (eu a ser a felizarda que puxou o assunto). Há vagas abertas para posições acima da minha mas nenhuma neste departamento. Se me serrassem ao meio, a sensação era igual: metade de mim quer concorrer, evoluir novamente e tentar chegar a uma posição onde não tenha só que sobreviver; a outra metade, a menos assertiva, não quer sair de onde está para não ter que começar de novo, conhecer pessoas novas, ser rejeitada por colegas novos.

Às vezes acho que já não chego para todas as perguntas que me colocam, para todas as vezes que me chamam para confirmar uma opinião já certa, para repetir o mesmo procedimento cem vezes por dia. Tenho a sensação que um dia mando um par de berros a alguém e puf!, lá se vai a Marisinha disponível, a enciclopédia andante e sempre pronta a esclarecer dúvidas e apaziguar ânimos, a pessoa que lembra toda a gente de jogar no Euromilhões e recebe o dinheiro e mete os boletins e organiza os presentes de aniversário... Há dias em que CHEGA. Há dias que me sugam toda a força com que me levanto de manhã. Há dias em que as pessoas podiam parar de pensar nelas um bocadinho e olhar para fora, perceberem que há problemas que afectam a todos, até a mim, vejam lá! Eu juro que chego todos os dias ao escritório com vontade de trabalhar e de fazer a diferença mas isso tem andado a esbater-se. E, se bem que com um ajuste, já estou como o outro: 90% das pessoas deste mundo não interessam a ninguém. A mim, pelo menos, não.

(não era este o post que tinha planeado mas, na verdade, foi o que me saiu dos dedos. viva esta espécie de associações livres!)

julho 18, 2007

(Outra) constatação de facto

Como na minha parede, há pessoas que simplesmente não consigo segurar na minha vida.

julho 17, 2007

It's hard to keep track of you falling through the sky *

Entre caracóis e cerveja, a constatação estranha ( e já gasta) de que agora somos adultos. Depois de virar a esquina para voltar para casa, a sensação de sermos juvenis quando lidamos com a maturidade *.


A música chama-se Icct Hedral (de Aphex Twin), as fotografias são minhas

(porque o fim de semana foi de neura. porque são memórias recorrentes. porque há muito queria usar esta música em qualquer lado. há muito que a ouvi mas só agora descobri que gostava dela. não é uma questão de gosto mais ou menos requintado: agora sou é mais permeável)

julho 14, 2007

São dez da manhã e, assim que saio de casa, dou conta do calor - é o mesmo que me aquece o quarto o dia inteiro para não me deixar respirar à noite. Assim que chego, lanço-me para a água e nado um bom bocado, sempre sem vir à tona respirar. Toco na parede e faço uma pausa de segundos, torno a nadar. Olho para a pele do meu pai e vejo de onde me vem a cor, olho para a pele da minha irmã e pergunto-me de onde virá ela. Sento-me à beira da piscina e sinto uma brisa que podia deixar-me desconfortável mas que me deixa apenas fresca.

Deito-me ao Sol: gosto de estar assim, deitada apenas, sem nenhum objectivo debaixo deste astro alentejano (porque Sol como este não há em mais lado nenhum). Um insecto que não soube reconhecer deixa-me o seu ferrão entre duas veias e só dou conta depois da sesta da tarde. Lá fora, só se ouvem as cigarras e os grilos que alguém guardou numa gaiola, alimentados a alface. Hoje encho-me de recordações.

julho 11, 2007

Variações sobre um auto-retrato II *


Não há nenhuma ternura na forma como olhas para mim. Um dia, ela existiu e foi maior que tudo, maior que a nossa vontade de fazermos tudo funcionar. Também já não existe nenhuma ternura na maneira como te olho. Se alguma coisa restou, foi apenas uma indiferença que às vezes me esmaga e me impede de respirar e que me prende a esse olhar piedoso que me deitas agora.

O nosso último encontro fez secar o veio largo de onde jorrou um dia o nosso amor. Caminhava de cabeça baixa, como sempre costumo fazer para evitar o contacto com os outros mas levantei a cabeça no momento errado, no preciso momento em que atravessavas a rua, vinhas direito a mim, querias que eu soubesse que estavas ali e que não me guardavas nenhum rancor. Olhaste-me tão friamente, como se nesses olhos não pudesse mais ver um gesto de carinho, como se a minha imagem tivesse morrido em ti e tivesse apenas renascido para que a pudesses castigar. Eu fiquei com a sensação de que tinha conseguido disfarçar o incómodo. Mas tudo nos teus olhos me dizia que sabias precisamente o que estava a sentir e, mais uma vez, acusavas-me de qualquer coisa que não sabia definir apenas com o teu olhar.

Passaram só três meses, sabias? Passaram três meses desde que descobriste e desde que eu não soube como explicar. Não quiseste as minhas palavras mansas nem ouvir-me falar de perdão ou da improbabilidade do amor. Tantas vezes achei as palavras certas para me explicar, tantas vezes soube exactamente o que precisava de te dizer. Mas em todas elas estavas longe de mim e em todas também eu senti um imenso vazio, uma sensação de cansaço dessas palavras. Foram danos irreparáveis. Foi tudo demasiado rápido e, mesmo tendo achado a palavra certa para me desculpar, eu nunca quis estar novamente perto desse abismo que abrias à minha frente quando me olhavas daquela maneira.

Já só consigo ver-te ao longe. Não suporto engasgar-me mais nas desculpas que mastiguei, nas fábulas que inventei para te aproximar de mim, nos esforços esgotantes para te fazer compreender uma coisa que não quero que compreendas. A fórmula que encontrei para te manter mais perto é empurrar-te para longe antes que sejas tu a riscar-me do tempo presente. Destruí brutalmente o que sentias por mim. Por favor, deixa-me conservar a secura das tuas palavras.

* ficção sobre Untitled Film Still #58 de Cindy Sherman.

julho 10, 2007

Blá blá blá blá blá...

Eu até fui inscrever-me na junta de freguesia da Lapa mas a proximidade das eleições impede que eu exerça o meu direito (e dever) de voto. Eu acredito na participação de cada cidadão na democracia, mesmo que muitas vezes perca a esperança que alguma coisa vá mudar. E depois de ver debates como o de ontem à noite, com os candidatos à câmara de Lisboa, a minha fé nos políticos saiu ainda mais debilitada.

Para muitas pessoas da minha idade, a idoneidade e honestidade dos políticos são características que não existem. Talvez a geração anterior à nossa tenha visto à frente do país políticos com maior carisma ou com maior coerência, com mais vontade de debater ideias em detrimento de questões menores ou sem pertinência para a nossa vida. Eu compreendo porquê e às vezes também me canso de defender a importância que cada um de nós tem na vida política. Não é que eu viva a política intensamente mas chateia-me que as pessoas cruzem os braços.

Fiquei constrangida com o que vi ontem. Os representantes dos maiores partidos resolveram perder o tempo que tinham para apresentar propostas para desviar a atenção para questões fúteis e para trocar acusações infundadas; os representantes dos partidos com menor probabilidade de chegarem ao poder foram os únicos a apresentar propostas assentes naquilo que parecia um programa coeso e bem delineado; os representantes dos partidos da minoria ou dos novos partidos não traziam nenhuma ideia para o debate, demonstrando que estavam nesta corrida por motivos alheios ao destino de Lisboa. Um dos presentes mostrou mesmo que, para além de não ter qualquer programa eleitoral, não tinha sequer uma capacidade argumentativa que lhe permitisse esconder essa deficiência. A moderadora do debate assumiu um tom agressivo e duro, em muitos momentos excessivo e roçando mesmo o desagradável.

Reconheço que as circunstâncias do debate o tornaram num acontecimento sui generis: o facto de serem eleições intercalares que resultaram de uma câmara em clara falência e a opção de incluir todos os candidatos num único debate tornaram difícil quer a moderação, quer a exposição das ideias de cada um. Mas acho que, como eu, o cidadão comum só esperava que todos tivessem um projecto e que, mais do que isso, as suas intervenções fossem inteligíveis. A reabilitação da nossa confiança nesta classe política terá ainda que esperar. Talvez regresse quando se voltar a fazer política por paixão.

(Três dias são demasiados dias sem internet - espera-se que hoje seja reposta a normalidade.)

julho 06, 2007

Dormir mais feliz #4


Cinderella through the room
I glide and swan cause I’m the best slow dancer
in the universe

"Se te perderes entretanto, encontramo-nos no Miguel Ângelo!" *


Andei mais uma semana inteira a tentar sobreviver. A tentar constantemente convencer-me a mim mesma que isto de concertos e trabalho é perfeitamente conciliável, a fingir que posso beber cervejas de meio litro, deitar-me às três da manhã e acordar às sete fresquinha. Mas não é, consegui hoje concluir. Qualquer pessoa o podia ter concluído antes mas eu dei o benefício da dúvida ao meu corpo de velha de vinte e sete anos.

O casamento já me tinha esgotado algumas forças: ninguém consegue partir uma pista de dança e sair imune disso. De maneiras que o primeiro dia de concertos (a quinta-feira não conta) acabou comigo muito rabujenta mas muito feliz. Já tinha visto os Block Party no Coliseu mas este concerto pareceu-me melhor, menos em piloto automático mas em alguns momentos tornou-se aborrecido. Sem contar com a Two More Years, acho que o alinhamento foi cópia integral do outro concerto - neste campo também poucas novidades.

Mas depois tocaram os Arcade Fire (vénia). Ameaçava chover a qualquer momento mas não estava frio. Eu punha-me em bicos dos pés para tentar ver qualquer coisa e pouco conseguia - o jeito que me dava ter antes a altura de uma sueca qualquer. Abriram o concerto com Black Mirror e agarraram no público no primeiro acorde. Eu olhei muitas vezes à minha volta e o que via eram pessoas a gritar angústias, a deixarem sair segredos que pareciam estar guardados há tantos anos. Os Arcade Fire têm a chave para uma parte qualquer de nós: eu não sei onde fica ou sequer como se chama; só sei que é uma parte secreta que guarda o que nós não conseguimos dizer em voz alta. E depois foi tudo a cantar em coro, a chuva a querer cair mas a hesitar, o ritmo a querer que o meu corpo mexesse mais depressa. Seria perfeito se o cenário não tivesse sido um parque de estacionamento. Não: acho que mesmo assim foi perfeito.

Do segundo dia não guardo nenhuma memória porque não fui. O meu corpo cedeu, confesso. E pensei que não havia nada que me entusiasmasse. E depois soube do concertaço que deram os LCD Soundsystem. E fiquei bastante chateada, claro que fiquei chateada.

Ontem foi assim bom. Os The Gossip animaram o final de tarde, com a vocalista a esbanjar sexo na maneira como se movia em palco, o Pedro Mexia estava ali mesmo ao lado e eu com vontade de lhe ir perguntar se ele se sente realmente desencantado com este mundo como escreve, os TV On The Radio brilharam já a noite se começava a instalar. Mas depois... Há muito que esperava para ver os Interpol e dou todo o meu tempo por bem empregue. Há uma tristeza naquela voz, uma melancolia urbana, um desespero ou uma dor de amor que me fizeram fechar os olhos tantas vezes e me trouxeram demasiadas imagens de volta. Estarão de volta em Novembro e eu faço planos para os rever. Não cheguei a ouvir mais que um tema dos Underworld mas, do que ouvi, gostei. Quero mais música.

* ou a forma irritante como esta pessoa estava sempre onde nós estávamos

julho 01, 2007

É oficial: fui madrinha!

O grupo mais animado do casamento

O distinto casal de padrinhos do noivo

As garotas mais giras e sorridentes do casamento

Foi este fim de semana que o S. se casou com a S. Enfiei o modelito comprado em Badajoz, empinei-me nos sapatos de verniz demasiado altos e lá fui ser testemunha de mais um dia de felicidade, de alegria que nos contagiou a todos e garantiu um casamento inesquecível.

O dia começou muito mal, com um atraso no cabeleireiro que me deixou em estado semi-psicótico e que me impediu de estar com o meu afilhado na sua casa. Depois de superadas as dificuldades relacionadas com a minha extensa cabeleira, lá partimos para a Atalaia. O noivo estava mais nervoso que a noiva ou assim me parecia. Estar sentada mesmo ao lado dele durante a cerimónia significou que pude dar-lhe todos os olhares de reconforto possíveis. E assinar o registo simbolizou que agora existe entre nós um laço ainda mais forte que nos une para além da nossa (grande) amizade. Foi um momento feliz.

A quinta estava pronta para nos receber debaixo de um Sol que se revelou cada vez mais quente conforme o avançar do dia. Entre generosos gins tónicos, cervejas frescas ou águas com gelo e limão fomos fazendo a festa e preparando a noite que aí vinha. O facto de estar ao lado do noivo agradou-me muito: implicava que era sempre a terceira pessoa a ser servida e que as nossas necessidades eram sempre atendidas mais rapidamente. O serviço foi rápido e eficiente. Mesmo quando um dos empregados me perguntou quantas fatias de lombo iria desejar o meu marido...

A pista de dança foi nossa. Não porque a tomássemos refém ou porque a ocupássemos com rebeldia - simplesmente a vontade de dançar foi sempre muita e sempre constante, o que fez com que ficássemos conhecidos como os reis da pista. O trio de baile tocou muita música latina, muita salsa e rumba e pouca música pimba e isso foi muito bom. O senhor do orgão chegou inclusivamente a oferecer-se para tocar no meu casamento... Que supostamente será em breve porque, depois de obrigada a estar presente, fui eu que apanhei o bouquet da noiva. Eu não queria, juro. E mesmo quando a música acabou, mesmo quando os músicos arrumaram o seu estaminé a festa continuou. Já não sobravam mais convidados, apenas os pais dos noivos e mesmo esses foram embora antes de nós. Dançámos toda a música pimba que não tínhamos dançado até aí, cantámos o Boa Sorte até à exaustão e brindámos os noivos com a Cabana.. do José Cid. Foi pena não termos organizado uma prenda de casamento mais arrojada mas redimimo-nos: este casamento foi de arromba!

junho 27, 2007

Um même

(A doce Rita Maria desafiou-me para uma coisa destas e eu vou aceitar. Como ela, não sei exactamente o que é mas de certeza vai sair qualquer coisa. Não tão poética como a que ela fez mas sairá.)

Acredito nas pessoas. Mesmo com provas definitivas da sua maldade ou mesquinhez ou traição, eu acredito que também vale a pena conhecer o outro lado delas e que, por esse mesmo lado, elas podem ser perdoadas. Acredito na sua natureza boa acima da natureza má e na sua capacidade de se entregarem aos outros acima da vontade de se fecharem em si próprias.

Acredito que o sentido da Vida está na música que ouvimos, nos filmes que vemos, nos livros que estão à espera na nossa mesa de cabeceira, nos quadros pendurados nas paredes dos museus e nas paredes na rua. O sentido está em todos os minutos em que nos esquecemos que somos máquinas de ganhar dinheiro para sobreviver e é por isso que acredito que o facto de não ter um cêntimo poupado faz também todo o sentido.

Acredito nas viagens como máximo espelho para a imensidão daquilo que nós somos. Acredito que as pessoas são iguais em muitos cantos do globo e que, por isso, podemos simpatizar com as suas causas, apreciar a sua beleza, invejar a sua vida. Acredito que seríamos muito mais felizes se pudéssemos esquecer as diferenças de rendimento, de objectivos, de cultura ou civilização e nos limitássemos a ser pessoas. Só.

E acredito no Amor. Em todas as formas, em todos os lugares ou épocas. O Amor é aquilo em que mais acredito. É com ele que me comovo, é por ele que me encho ainda de esperança. Não interessa que haja quem diga que ele já não existe: eu já o experimentei e ninguém me convence que isso não irá acontecer outra vez. Mesmo que em alguns dias até eu duvide disso... Acredito que não há nada melhor para sentir que aquela desinquietação, aquele estado febril, mesmo que venham em ondas de diferentes dimensões e efeitos.

Acredito em mim e que esta vida que se estende até um sítio que interessa. Às vezes (muitas vezes) esqueço-me disso e fraquejo. Mas pego em mim e empurro-me para a frente. Que p'à frente é que é caminho.

(O novo desafio fica ao Lobístico - que certamente terá coisas bonitas para escrever - e à A.M. - que também ama a escrita.)

junho 26, 2007

There are many of us. *

Hanna: Um, because I think that if we go away to someplace together, I'm afraid that, ah, one day, maybe not today, maybe, maybe not tomorrow either, but one day suddenly, I may begin to cry and cry so very much that nothing or nobody can stop me and the tears will fill the room and I won't be able to breath and I will pull you down with me and we'll both drown.

Josef: I'll learn how to swim, Hanna. I swear, I'll learn how to swim.


(numa sala quase vazia, as duas mulheres resolveram sentar-se ao meu lado. exactamente coladas a mim. pelo menos não eram das que falavam. deixei escapar três lágrimas, não mais, que me desceram cara abaixo e secaram depois do meu pescoço. atrás de mim, um rapaz de cabelo sob os olhos e ténis excêntricos soluçava muito alto. soluçava mesmo quando toda a sala estava em silêncio. havia outra pessoa que chorava na sala mas não era eu. eu só verti três lágrimas solitárias. não sei se estou a ficar insensível ou se as estou a guardar para o dia.)

* este ciclo de cinema legisla. hoje foi este.

junho 25, 2007

Acho que é seguro dizer que sobrevivi.

Hoje disse a alguém que já não tenho idade para certas coisas. Salvaguardando os devidos exageros, às vezes sinto que é mesmo assim - acho que não me vou suportar logo quando chegar aos trinta.

A sexta-feira trouxe consigo mais uma actividade da empresa, que é como quem diz: enfiam-se quase todos os funcionários em autocarros, levam-se até um sítio seguro e mais ou menos deserto e deixa-se que a malta conviva enquanto participa em actividades ao ar livre. Eles chamam-lhe team building, eu cá digo que a fórmula disto é qualquer coisa do género

conhecer malta nova + actividades ao ar livre = - trabalho

Este ano a coisa foi mais radical. A primeira vez que deitei olho às actividades programadas pensei que não ia participar em nenhuma. Quase todas implicavam estar num sítio demasiado alto para mim e achei que não teria coragem. Só se escapava o tiro com arco e com besta e, mesmo assim, não era nada garantido porque nem sabia se tinha jeito. Mas a ideia de passar tempo com outras pessoas, mexer-me e jantar com elas agradava-me e confirmei a minha presença logo no primeiro dia.

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket

O resultado é que participei em tudo, não me esquivei a nada: caminhada de quatro km com orientação GPS, rapel, escalada, slide e tiro com arco e besta. Se me dissessem há uns tempos que estaria pendurada por uma corda, a alguns metros do chão e apenas dependente de mim ia com certeza achar que a pessoa estava maluca. A nossa equipa obteve um honroso segundo lugar e sempre deu para conhecer malta que vemos todos os dias por ali. Só por isto eu esqueço o suor e o pó que se tinham tornado na minha segunda pele, os nervos que senti quando comecei a descer a parede de escalada e a dor de costas e braços que ainda hoje tenho. Perder medos é bom.

junho 20, 2007

Sobre coisas invulgares

O Super Panda há muito que se queixa: a pintura está a ficar roída, não tem antena há anos (graças a uma pessoa que eu cá sei...). Agora deu-lhe para ficar rouco e fazer as viagens inteiras engasgado. Ele continua a andar e continua a ser o meu carro preferido de todos os tempos e eu continuo a ter grandes planos para ele mas o mecânico disse que o que ele tem se resolve muito facilmente... com um carro novo! Claro que ainda o vai tentar salvar, vai usar o equivalente a um desfibrilhador para carros (neste caso, uma caixa de velocidades nova) e dar mais alguma esperança ao meu menino.

A primeira coisa invulgar de ontem foi ouvir o meu pai dizer

Olha, nós levamos o teu carro para Portalegre. Ficas cá com o meu e leva-lo no Sábado.

Como diz? A mesma pessoa que, quando anda comigo a conduzir, finca bem o pé no chão, tentando travar. A mesma pessoa que, quando anda comigo a conduzir, acha que vou levar todos os espelhos de todos os carros com que me cruzo. A mesma pessoa que tem a tentação de (ainda) me orientar o volante nas curvas. Hum. Eu desconfio desta valente manifestação de confiança e sorrio secretamente a pensar na maravilhosa viagem que vou fazer, confortável e certamente a mais quilómetros por hora.

Depois, houve aquele que considero o momento alto da minha semana. Estava sentada atrás deste mesmo ecran, enquanto os meus pais viam televisão na sala e ia relatando as minhas decisões: que tinha decidido comprar ao meu afilhado uma boneca insuflável, que precisava de descobrir uma loja online que fosse discreta. Que ele precisava de uma coisa assim antes do casamento, agora é que era a altura. E a minha mãe ia abanando a cabeça, ia sempre dizendo que sim e ia perguntando os preços (como se ela soubesse o que é razoável pedir por uma boneca insuflável...). E foi assim, com o alto patrocínio da senhora minha mãe, que comprei a primeira boneca insuflável da minha vida. E (espero que) a última... Não quero mais ter que escolher entre uma Pamela, uma morena, uma ruiva ou uma obesa... Não quero ter que optar ou não pela que tem um kit de reparação (o que quer que isto queira dizer...)

De maneiras que comprei esta menina. Chama-se Ramona (baptizei-a eu) e é uma excelente companhia. Agora o meu afilhado só vai ter que acompanhar a menina na noite de Sábado. E depois talvez montar-lhe um apartamento, que não me parece que a noiva vá gostar. Portanto, resumindo... Sex shop e a minha mãe a acenar. Eu juro que não esperava viver para ver este dia.

junho 17, 2007

Às vezes parece que a minha vida está a acontecer noutro sítio qualquer


You stood in my doorway smelling of cigarrettes and jazz
I wanted you to kiss me with your tongue of fire
I guided you slowly through a dark narrow corridor
We made our way through the path of desire
Your eyes said pleasure, mine just sparkled.

junho 15, 2007

E agora para a antítese...





Só no Domingo passado tive a oportunidade (não foi a primeira nem a segunda oportunidade mas a preguiça daria tema para um post inteirinho...) de ver Lisboetas, o documentário de Sérgio Tréfaut sobre a gente que abandona o seu país e vem ser alfacinha. Por um lado, fiquei contente por ter adiado isto até agora: tenho a certeza que, se tivesse visto isto na sala escura de um cinema, teria passado o filme inteiro a chorar ou com um apertado nó na garganta que me ia sufocar se não abandonasse a sala a correr após o fim. Mas, por outro lado, senti o alívio final de quem consegue algo que há muito desejava. E eu desejava mesmo ver isto. Mesmo que tenha deixado todas as oportunidades fugir...

Fiquei colada à televisão. Eu choro por tudo e por nada. E se não choro, fico muitas e muitas vezes com as lágrimas à beira de deixar os meus olhos. Foi o caso em demasiados momentos do filme: no momento em que a mãe olha, embevecida, o seu bebé no eléctrico 15; nos momentos angustiantes em que os emigrantes se sentam frente aos funcionários do SEF sem perceberem uma única palavra e sem que estes se dignem a admitir que não são compreendidos; nos momentos em que os brasileiros telefonam para casa e prometem bicicletas; nos momentos em que um professor de português para estrangeiros consegue um verbo conjugado da boca de um estrangeiro; ou nos momentos em que a funcionária de um posto médico ambulante se interessa pela vida de mais um paciente.

Em que parte das nossas vidas nos tornamos assim insensíveis? Em que exacto minuto passamos a virar a cara para o lado para não doer mais? Em que momento é que decidimos que os nossos males são suficientes? São demasiadas perguntas para quem tem uma vida para orientar e uma casa para pagar e bocas a quem dar de comer e férias para pagar em prestações suaves. Eu também não queria ser insensível mas é a única maneira de manter a sanidade. É a única maneira de sobreviver no meio de ruas onde a miséria espreita demasiadas vezes. É?

A felicidade é contagiante (?)

Seis da tarde.

Na avenida Fontes Pereira de Melo um casal de noivos beijava-se, encostado a um poste. Atravessar a avenida foi uma aventura para a noiva que segurava desajeitadamente a cauda do vestido. Eu não conseguia descolar o meu olhar deles. As pessoas que por eles passavam não conseguiam evitar olhar para trás. Os condutores traziam todos um sorriso nos lábios.

A vida ainda agora começou. Mesmo para nós.

junho 13, 2007

Dormir mais feliz #3


When we kiss, when we kiss
Bears and boulders vibrate through the air.
Gravity is dead, you see...
No gravity... all I need is beating red.
No gravity...

Os Santos [modo: telegráfico]



Descobrir a janela com a vista quase perfeita e contemplar a fronteira quase inexistente entre o azul do céu e o azul do rio. Gozar de muito boa companhia, com sotaque espanhol (de Saragoza) e com uma natural e espanhola queda para a cozinha. Minis Sagres, Couteiro Mor e Cubatas. Ruas cheias de gente: os mais eufóricos, os gelados, os pacientes, os sequiosos. O cheiro a sardinhas, a bifanas, a manjericos, a cerveja e a rio. Renunciar à multidão em festa, trocá-la por uma cambada de boches impacientes. Esperar duas horas por um táxi - sozinha, ignorando o frio que descia subtilmente, tentando não ouvir as conversas dos outros para não ter que rir. Três horas de sono, três horas muito curtas mas quentes, três horas que souberam a oito.

Se isto dos Santos não é Lisboa, então não sei o que será.

junho 11, 2007

Franchicola!

O meu gajo preferido faz hoje quatro anos! Não me ligou nenhuma ao telefone, como é óbvio: estava precisamente a desembrulhar qualquer coisa relacionada com o Spiderman. Espero que ele cresça com estes olhões lindos e com a genica que demonstra até agora. Não sei muito bem o que sinto por ele mas é qualquer coisa perto do amor :)

Tacones Lejanos *

Eu olho e (re) olho para eles e respiro fundo. O casamento está quase aí à porta e eu ando a contar os dias que faltam não exactamente para o casamento, mas para o dia em que vou ter que andar encavalitada neles.

As compras foram relativamente pacíficas. Os meus pais deram-me uma mãozinha (sempre suspeita, porque eles acham que eu fico bem em qualquer trapo e de qualquer chanato) e fomos até Badajoz espreitar as modas. Como eu previa, comprei o vestido na primeira loja onde entrámos, em grande parte resultado da simpatia e da capacidade da vendedora em dar graxa descaradamente. Que sim, que aquele modelo me ficava bem, que sou nova e devia andar mais atrevida, que a cor me assentava lindamente. Esta enxurrada de elogios misturada com o efeito que a língua espanhola tem em mim nem me deixaram hesitar.

Mas o vestido é uma coisa. Outra coisa totalmente diferente é conseguir manter uma postura minimamente digna em cima destes saltos, tentando parecer (no mínimo também) normal. Já nem sequer falo do meu papel de madrinha, que (protocolo oblige) me obriga a estar deslumbrante. Manter uma postura erecta já será uma vitória gostosa. Entretanto, enfio os sapatos rasos num saquinho para poder dar cabo daquela pista de dança. Ah pois, que não serão uns saltos altos a estragar-me a festa.

* um belo filme do señor Almodóvar.

junho 10, 2007

As noites na Quina das Beatas III



Para acabar as férias em beleza, na sexta-feira tive a oportunidade de (re)ver os Vicious Five aqui. Foi uma noite atribulada mas em que parecia levitar (talvez já a adivinhar a semana de trabalho que amanhã começa...). Mais impressões sobre o concerto aqui. A vida normal tomará conta desta emissão dentro de umas horas. (suspiro)

junho 06, 2007

Dormir mais feliz #2

Yet my hands are shaking
I feel my body remains, time's no matter, I'm on fire
On the playground, love.

M @ cozinha III

Já que hoje estamos numa de posts de séries aqui fica também o terceiro desta saga na cozinha. Deixo-vos a fotografia do meu jantar de hoje: uma salada com alfaces (sim, o plural é intencional!), alperces, queijo mozarella fresco, cenoura ralada e azeitonas. Pode temperar-se de variadas formas, eu escolhi o molho de iogurte. Digam lá se com este calor não apetece uma coisa mais leve... Bom apetite!

Magníficos dias atlânticos pt. III


Esta coisa de ser pelintra, como a maior parte de todas as coisas, tem o seu lado bom e o seu lado mau. Ser pelintra significa, no meu caso, ter duas semanas de férias mas não ter dinheiro suficiente para fazer uma viagem, um passeiozinho sequer. Eu bem vi catálogos de agências de viagens e fiz muitas muitas contas ao dinheiro que ainda me sobrava e não - definitivamente não dava para nada. Tinha sempre a opção de me endividar, como grande parte das pessoas fazem (ai, é só mais uma prestação para podermos ir para aquele hotelzinho, sabes? aquele...) mas achei que uma dívida já me chega, especialmente quando é daquelas para toda a vida. De maneiras que... fiquei por casa.

A parte boa da coisa é que tenho alojamento, sem ser incomodada por outros hóspedes. E ainda tenho direito a um tudo incluído espectacular sem precisar de andar com aquelas pulseiras irritantes. E ainda... Bem, não há espectáculos à noite neste estabelecimento. Pelos menos não há karaoke nem drag queens. A parte má é que não há mais ninguém a tirar férias na primeira semana de Junho e, portanto, quaisquer idas à praia ou a outros locais têm que ser pensadas no singular. O que até nem é mau. Numa forma extrema de pensar, assim eu garanto sempre que a companhia é boa. Ou não, não sei.

E pronto, lá vai a menina todos os dias de manhã para o outro lado do rio. Pego no carro, atravesso a ponte no sentido menos caótico e quando chego ao destino posso dar-me ao luxo de escolher o melhor lugar de estacionamento. Arrumo à pressa a tralha (comida, toalha e chapéu) e olho para a areia que ainda tenho pela frente - respiro fundo. Posso escolher o sítio que me apetece, o areal é extenso mas acabo por ficar sempre ao pé do mesmo casal de velhos e da Ana Malhoa (o tempo que estive a tentar lembrar-me de onde conhecia aquela cara...). Depois, é só passar o (obrigatório) creme, tostar (moderadamente) ao sol, arriscar um banho nas águas (frias) do Atlântico. E depois volto para casa antes do trânsito se complicar, sempre na faixa do meio na ponte porque tenho medo daquelas correntes. E, depois do banho, atiro-me a uma sesta. Esta vida de pobre tem coisas fantásticas, não é? (suspiro)

junho 04, 2007

Dormir mais feliz #1


I dreamed you were a cosmonaut
of the space between our chairs
and I was a cartographer
of the tangles in your hair.

junho 02, 2007

Podemos sentir saudades de quem não conhecemos?


Jeff Buckley, 17 Nov 1966 - 29 Mai 1997

Chegaste até mim numa cassete. Viajaste trezentos quilómetros dentro de um envelope porque ele dizia-me sempre Tens que ouvir isto. A acompanhar, vinha uma nota tão breve quanto enigmática que dizia You left stars in my belly.

É teu o disco que eu ouvi mais vezes na minha vida. São tuas as palavras que me feriam por serem tão certas mas que me consolavam por serem tão doces e tranquilas. Perdi a conta às vezes que ouvi as tuas músicas enquanto tentava não chorar ou enquanto me queria sentir protegida. Escreveste muita coisa que eu desejava ter posto em palavras mas não consegui ou não pude. A tua voz protegeu-me sempre.

Agora passam dez anos sobre a tua morte e eu sinto assim um vazio porque não te conheci em vida. Nunca tive a oportunidade de te ver num concerto ou de seguir a tua carreira de perto. O que me restou foi tentar saber quem eras antes de chegar a mim e guardar tudo como um tesouro. Vou recordar-te sempre assim, livre e sábio. Mesmo longe, continuaste a espalhar as estrelas por aí.

Mira Calix

Esta rapariga de ar cândido e delicado chama-se Mira Calix. Ou melhor, chama-se Chantal Passamonte mas responde agora pelo primeiro nome. Nasceu na África do Sul e pouco mais se sabe sobre ela - apenas que já trabalhou com nomes como Aphex Twin, Autechre e chegou mesmo a fazer tours com os Radiohead. Chegou ontem ao espaço café-concerto do CAEP muito discretamente, carregando a sua mochila onde certamente guarda muitos tesouros.

O seu ar casual, as semelhanças com Sofia Coppola e a forma natural com que passou o concerto apoiada nos seus joelhos fizeram-me simpatizar com ela. Mira utiliza muitas vezes, além dos sons de cordas ou da batida convencionais, a sua própria voz e elementos naturais que grava no meio que a rodeia. Enrolando finos cigarros enquanto olhava, curiosa, para o (infelizmente pouco) público, a artista ia saboreando as variações entre os ambientes melancólicos e quase naïves e as transições para batidas furiosas que faziam as paredes do recinto tremer. Mais do que demonstrar um entusiasmo vibrante, Mira parecia estar em plena harmonia com a música que saía daquele laptop e mesa de mistura, transmitindo uma sensação de tranquilidade que contrastava com a urgência com que as batidas eram lançadas para a audiência.

Acho que nunca tinha assistido a uma actuação deste género, ou melhor, tinha mas a música era mais dançável. Para mim, a música de Mira Calix não encaixa na definição de electrónica de dança - é música para viagens curtas mas contemplativas, é música para estar deitada numa sala, janelas abertas mas estores descidos, a brisa a fazer tremer as cortinas numa quente tarde de Verão.

Foi muito bom, portanto.

junho 01, 2007

[modo : experimentar]


Estar de férias não é só estar estendida no sofá ou só beber copos com os amigos. Hoje, e provavelmente no restante fim de semana, vou estar por aqui (no festival, claro está) a dar uma mãozinha no bar. Mesmo estando atrás do balcão, vai ser bom ouvir coisas novas, provavelmente muito distantes daquilo a que estou habituada. O CAEP está bom e recomenda-se.