janeiro 20, 2008

E nos entretantos...


... ontem comeu-se uma magnífica salada de polvo, umas moelas de fazer salivar qualquer um e bebeu-se rosé muito fresco. Rematou-se tudo com umas partidas de Tekken na PS e terminou-se o dia com a maior gargalhada dos último anos, com as lágrimas a correrem bochecha abaixo, sem parar.


... hoje passou-se o fim da tarde num banco do jardim da Estrela, gozando os tímidos e invernais raios de Sol deste fim de semana e dividindo as atenções entre o sósia do Keith Richards do banco ao lado e o livro que chegou até mim desde Munique.

Huh.

janeiro 18, 2008

S O C O R R O!!!

Pela primeira vez meti dois polvos na panela a cozer (amanhã é dia da dita salada) e estou profundamente enojada, mesmo com medo que aqueles tentáculos comecem a mexer e se enrolem a um dos meus braços, deixando atrás de si um rasto de nhenha que só um polvo consegue deixar! Os bichos podem estar mortos e podem saber muito bem de azeite e vinagre mas duvido que mais alguma vez cozinhe uma coisa destas. Brrrrr!

janeiro 17, 2008

Da exaustão *



Esta semana sinto-me sem forças. Acordo às seis e meia e tudo o que me resta é canalizado para o trabalho, para tentar que sete pessoas trabalhem exactamente no mesmo sentido. Esta pressão só vai parar no Sábado, quando o mês se encerrar para nós e quando não tiver mais que sonhar com números astronómicos. Passo os dias a fazer contas, a ver se o trabalho aparece feito, a tentar lutar contra um sistema informático mais do que deficiente. Como os pedidos entram em tempo real, parece muitas vezes que, em vez de avançarmos, estamos a recuar.

Tenho as costas feitas num oito. Parece que tenho punhos a pressionar constantemente, a empurrar-me os ombros em direcções opostas e por isso só penso numa coisa (além da porcaria do trabalho): m a s s a g e m. Já pedi a colegas para me esticarem os braços e inclusivamente ponderei a hipótese de massagens com os pés mas nada. Decidi que na folga da próxima semana me vou aventurar numa massagem a sério e hoje vou dormir no chão. Como noutras alturas, meço o meu nível de cansaço pela leitura que tenho atrasada: tenho dois Y por ler, dois livros começados quase ao mesmo tempo, uma revista por devorar e outra por recordar. Não consigo fixar páginas com muitas letras mais do que uns cinco minutos e não consigo concentrar-me mais do que esse mesmo tempo. E também não tenho paciência para a televisão. Os únicos momentos de prazer têm vindo do sono e da música que ouço entre a Estrela e Picoas.

Apetecia-me dormir até Sábado às seis da tarde mas tenho que me contentar com amanhã, às seis e meia da manhã. Como a história do burro e da cenoura, o que está a fazer-me avançar são as moelas, a salada de polvo e as amêijoas que vou comer no Sábado. E o vinho verde ou rosé com que vou regar tudo. A companhia vai saber-me bem e vou estar pronta para me rir desta semana infernal. Até lá, vou tentar apenas sobreviver. Acreditem, é difícil.

* é sobre isso esta música, sobre a exaustão e também sobre o meu passado. Se repararem, são os Foo Fighters e a música fala sobre mim: chama-se Exhausted.

janeiro 15, 2008

Eu já vi o dia do Apocalipse.

Desde que me lembro que não sonho. Ou melhor, não tenho sonhos bons, como são entendidos pela maioria das pessoas. Grande parte daquilo que se passa no meu inconsciente/sub-consciente à noite parece-se muito mais com um pesadelo. Mas, mesmo já estando habituada, não paro de me sentir estafada quando o despertador toca às seis e meia da manhã e eu estou a correr num cenário apocalíptico de destruição e caos.

Já tive uma altura em que sonhava maioritariamente com a minha família mais próxima, sendo que a minha mãe era a pessoa mais visada. Sonhei que a desmembravam como se ela fosse uma boneca de plástico, sonhei que a emparedavam viva e que me ofereciam colares de pérolas para que fosse morta. Caí na asneira de tentar encontrar significado para isto num daqueles livros de esoterismo de bolso e arrependi-me: o resultado era qualquer coisa como sonhar com a sua mãe é o símbolo do seu desejo de concretizar o incesto com ela. De maneiras que não quis consultar mais livro nenhum - não preciso de terapia para perceber que tudo não passava de um (odioso) equívoco.

Mas, de há alguns anos para cá, a coisa mudou. E agora, em vez de sonhar com terríveis carnificinas envolvendo o meu núcleo familiar, dou comigo a sonhar com o fim do Mundo. Já sonhei com a trovoada Final mas os sonhos envolvem normalmente eu e dezenas de máquinas descontroladas. Em alguns sonhos, as máquinas erguiam-se do solo para exterminar tudo o que viam à sua volta (e por isso me impressionei tanto com a última Guerra dos Mundos); noutros, como esta semana, há objectos voadores semelhantes a aviões que distribuem lasers e demais munições por Lisboa inteira. Começa sempre tudo com um momento de silêncio aterrador, após o qual se desencadeia toda a sequência de destruição. Corro normalmente muito, durante o sonho todo, diria e, curiosamente, consigo arranjar um esconderijo mais ou menos seguro. Mas a ideia de que o que conheço como Mundo não vai estar à minha espera paralisa-me.

Eu gosto de analisar os meus próprios sonhos. Muitas vezes, o seu significado é óbvio e consigo reconstruir com eles os meus medos ou preocupações temporárias. Mas estas últimas variações deixam-me desorientada e não há nada que consiga associar a elas. Já pensei procurar na internet mas acho que, no fundo, tenho receio da explicação que vou encontrar. Enquanto isso, deito-me todos os dias a pedir para ter um sonho daqueles bons, daqueles em que se passa o sonho todo a beijar na boca ou daqueles em que, subitamente, consigo voar. Não tenho pedido o suficiente, parece-me.

Hipérbole(s)

Perto dele sinto-me modestamente perigosa e drasticamente perdida.

janeiro 14, 2008

Além de contas, o carteiro traz felicidade


Hoje foi dia de receber o correio. E também foi dia de me enjoar oficialmente da música nova da Alicia Keys, porque as moças lá do departamento teimam em ouvir a mesma rádio o dia todo e essa rádio não é a Radar. Mas, voltando ao correio, ele chegou finalmente. Já sabia que não chegaria a tempo do Natal mas não me importei muito porque já tinha a minha maior prenda comprada. E não é à toa que tenho que adorar a globalização. Compra-se a mercadoria na loja americana e ela chega até nós desde a Nova Zelândia!

Nem sempre sei porque encomendo os livros em vez de tentar encontrá-los numa livraria portuguesa. É verdade que muitas vezes é difícil encontrar os originais em inglês e ainda mais a preços aceitáveis. Mas o que sinto é que o facto do livro atravessar o oceano inteiro ou metade de um continente o torna ainda mais especial; como se o enredo beneficiasse desse longo percurso até acabar nas mãos do leitor. Depois há toda esta excitação da espera, que deriva também da possibilidade da encomenda ficar retida na alfândega (de duas encomendas de supostas prendas de Natal não há ainda sinal...).

Quanto mais navego na internet, mais descubro sítios fantásticos para gastar dinheiro. Alguns não fazem envios internacionais, mas já consegui coisas verdadeiramente originais e feitas à mão nessas minhas incursões. Existem ainda muitas coisas que nos estão vedadas e às quais dificilmente teremos acesso, por razões de logística ou princípios comerciais. Mas, por enquanto, ainda consigo deslumbrar-me com o que há por aí. E se souberem de algum segredo bem guardado, abram uma excepção e partilhem comigo

janeiro 13, 2008

Clean slate *

Estava mais do que na hora. Aliás, há muito que tinha este projecto em mãos mas demasiada preguiça para o concluir. Esta é a nova cara do blog, mais suave e personalizada. Espero que seja do agrado. É, de qualquer maneira, um trabalho inacabado :)

* ou quase, porque o conteúdo, pelo menos, ficou.

janeiro 12, 2008

Amigo emigra, eu também gosto muito de ti mas...

...desculpa lá, nunca o maestro diria tal coisa. O gajo chorou quando marcou um golo ao Benfica. Snif.

(Instaurámos o hábito no ano passado: ele oferece-me um livro que tenha lido, eu faço exactamente o mesmo. Este ano calhou-me A morte de um apicultor de Lars Gustafsson, a ele Mulheres de Charles Bukowski. No embrulho que vêem na imagem acima, Rui Costa diz 'Sporting é o maior' e o Camacho responde 'Podes crer, ó Rui'.)

janeiro 08, 2008

Só porque sim.



Porque não consigo deixar de ouvir esta música. E porque me apetecia mesmo muito experimentar. Pronto.

A música é, obviamente, dos LCD Soundsystem e as imagens são minhas. No harm was done to the shoes while shooting this video.

Sou muito amiga do alheio

Liguei pela primeira vez o computador em Lisboa depois do disco ter sido formatado. É certo que perdi a parte da minha memória que nele tinha armazenado, situação que (espero!) não se repetirá. Mas o melhor estava guardado para o fim: depois de ligar o computador, reparo que me liguei automaticamente a uma rede sem fios. Espero que o dono da ligação não esteja a ler este post ou que, pelo menos, desconheça a minha morada. É que escrever enquanto estou no conforto do meu quarto é outra qualidade.

Cada vez mais me convenço de que o equilíbrio cósmico existe mesmo.

janeiro 05, 2008

Um longo Sábado de tédio

...estas duas semanas foram estranhas e passadas sempre a correr entre dois ou mais sítios diferentes. Com o barril do petróleo a passar os cem dólares, vou de certeza ter que equacionar melhor a quantidade e/ou a frequência das minhas viagens...
É nisto que me apanho a pensar neste Sábado mortiço.

Há coisas melhores para pensar num dia destes, realmente. Posso pensar como o portátil apanhou um vírus que conseguiu dizimar todo o conteúdo do disco. Nas séries e na música que tinha lá eu nem penso - saca-se outra vez. Mas o que hei-de dizer das fotografias? De que maneira vamos repetir todos os momentos, como vamos guardar todos os sítios novos sem ser na retina (sim, até tive tempo para me lembrar do Gabriel Alves entretanto...)? Lembro-me de ir a passear pelas ruas de Leuven com o amigo emigra e de que como ele me disse que perdeu todas as fotos de Copenhaga ( se não estou em erro). Eu ri-me e disse que agora ele não tem provas de alguma vez ter estado lá. Neste momento, não me estou a rir.

Apesar do tempo invernoso e absolutamente convidativo a enfiar-me debaixo do edredon, em luto, estou a esforçar-me por pensar positivo. Mas é inevitável que o pensamento aterre sempre nos currículos, num conto que já ia com oito páginas, nas listas que organizavam toda a minha música e filmes. Mas tudo bem: no fundo, eu gosto de começar de novo. Já estou habituada e até sabe bem poder reorganizar tudo, instalar apenas o necessário. E entretanto, enquanto espero que o computador regresse à base, estou a olhar para uma caixa inteirinha de Merci. Vou levar isto ali à sala antes que seja tarde demais. Vou resmungando baixinho que odeio as novas tecnologias.

janeiro 02, 2008

Best of 2007

Afinal, não foi um ano nada mau. Nada mau, mesmo.

Resolução para 2008

Ter a Someone great dos LCD Soundsystem como possível toque de telemóvel para a eventualidade de aparecer alguém digno dessa designação.

Feliz Ano Novo desde o Casal do Sesmo!



Com toda a encenação, festejos e movimento possíveis.

dezembro 30, 2007



Ando aqui às voltas há uns dias a pensar que chegou a hora, que é tempo de me sentar, sossegada, e tentar fazer um balanço do ano que está quase quase a a acabar. Por todo o lado (nos jornais e revistas, nos blogs que leio, na televisão) chegou a hora de resumir o ano de 2007 em factos, histórias mais ou menos embaraçantes, momentos de verdade e instantes de decisão. Mas a verdade é que ainda nem consegui fazer esse balanço interiormente. E por isso pensei que talvez a melhor maneira de o fazer fosse escrevendo porque sempre fui melhor com a tinta do que com o som.

Não sei como definir sequer este ano que passou. Vi muitos concertos, coisas que nem pensava ver tão cedo e surpresas tão boas quanto me eram desconhecidas. Voltei aos festivais para me sentir inadequada e para desejar estar noutros sítios, para descobrir que (já) não pertenço à confusão e ao pó mas segura de que tive o meu tempo. Vi a minha cidade renovar-se com tantos concertos bons e inesperados, com boas apostas e coragem de arriscar, o que só me dá mais vontade de regressar nos fins de semana.

Tive os meus momentos altos e aterradoramente baixos no trabalho. Criaram um lugar propositadamente para mim no dia dos anos do meu pai e promoveram-me, depositando em mim a responsabilidade da mudança. Viajei em trabalho até à Alemanha e trouxe de volta mais experiência e ideias. Fiz parte do projecto de comunicação da empresa, participei nas actividades radicais anuais, coordenei as comemorações do Natal. Fui considerada brusca e seca, fui repreendida por ser espontânea e usar o meu tempo livre como entendia. Tive os meus piores dias no que a relacionamentos profissionais diz respeito, especialmente com a minha chefe, que é uma pessoa de humores. Compreendi que trabalhar com pessoas, não, é mais que isso, orientar pessoas é uma tarefa ingrata porque quanto mais sobes, mais os outros te vêem longe. Mas tive na recta final do ano direito aos elogios das minhas equipas e finalmente os resultados de muitos meses a refrear a minha impulsividade.

Tive a minha parte de amores platónicos este ano. Terminei o ano passado quase apaixonada pela pessoa mais errada do momento mas safei-me a tempo. Pude ter ao meu lado uma pessoa certa mas não fui capaz de falar ou sequer aceitar que pudesse ser o momento. Tive a noite mais estranha e empolgante dos últimos tempos ao som de um filme espanhol de série Z, longe de casa, longe do Mundo porque é para esse sítio distante que a companhia me leva sempre. Tornei-me um bocadinho mais cínica, é verdade, mas nem por isso desfaleceu a minha esperança no amor. Senti abrir-se à minha frente um leque de possibilidades, que é mais do que posso dizer dos últimos anos. Andei tantas vezes com o coração a querer rasgar o peito que muitas vezes pensei que não resistia. Mas a verdade é que não amei ninguém como quero amar. Mas tenho tempo.

Viajei, fiz amigos novos, perdi amigos novos e guardei os velhos no sítio mais seguro do meu coração. Estive em três casamentos de amigos e perdi um por razões mais que conhecidas. Vi nascer outra sobrinha postiça e crescer muito o meu primeiro sobrinho emprestado. Perdoei-me por ser incapaz de mais aventura, por ser pouco atrevida. Fiquei contente quando cheguei onde quis chegar. Não chorei mais com pena de mim e aprendi as maravilhas de morar sozinha, resolvi ambicionar mais e adiar menos.

Acabo o ano a confiar na mudança. Aconteceu muita coisa nestes últimos doze meses e por isso, por estar exausta com tanta surpresa, apetece-me que o ano acabe. Para começar tudo de novo, como naqueles dias em que nos sentamos na nova secretária e sentimos na ponta dos dedos a emergência das novas possibilidades. As sms estão no telefone à espera de serem apagadas, há planos já delineados para o novo ano. Para mim e para vocês fica o meu desejo de um 2008 muito feliz! Vemo-nos nesse ano a estrear :)

E ao antepenúltimo dia do ano apaixonei-me.



Pela música, não tanto pelo vídeo. São os Low e é uma das minhas canções do ano.

dezembro 29, 2007

Dormir mais feliz #10

Come clean and off with your head
The streams of bright rosy red
Your heart will do the rest
And you'll always fade
You'll always fade
Someday you'll change
But you'll always fade

Where's M?

Na companhia do sr. K (cuja identidade preservei), em noite de grande alegria, o que necessariamente implicava festejar com gin tónico. Num dos meus sítios preferidos de sempre...

dezembro 27, 2007

So... how's being single these days?

Esta foi a pergunta que seriamente ponderei colocar a um amigo (especial) há momentos. A ironia é que ele vive com a namorada, que está temporariamente em casa, de férias. E também que, em termos de celibato, eu estou quase a doutorar-me. Por isso, a pergunta ressoa ainda na minha cabeça como a coisa mais estúpida para se dizer dos últimos tempos.

Não é que eu esteja triste por ser uma rapariga solteira. De outra maneira, não poderia ver O Maquinista enfiada na cama, deliciando-me com uma tigela de gelado de morango com coraçõezinhos de chocolate, enquanto maldizia o corpo-esqueleto do Christian Bale. Não é o facto de estar sozinha que eu acho preocupante (reparem na cuidadosa escolha de palavra... facilmente podia ter descambado para desesperante mas eu aguentei): o que me preocupa, isso sim, é a ausência de alguém por quem valha a pena suspirar. Que os há, há, que eles são como as bruxas. E eu, apesar de ser muito céptica, acredito em breves momentos de magia. Mas assim de repente não me lembro de ninguém. E, portanto, é preciso ter grande moral para sequer pensar numa pergunta tonta como essa.

E, no fundo, se fizesse essa pergunta, tinha já uma linha de resposta em mente. Ele responder-me-ia que era porreiro, que estava a saber bem, que já nem se lembrava do bom que era, que deviam repetir isto mais vezes. E, sem o saber, confirmar-me-ia toda a teoria do ser solteira e independente. Só quando, no fim, ele dissesse que já tinha saudades de lhe (a ela) adivinhar o corpo quente debaixo dos lençóis é que acabava a minha fantasia. E lembrar-me-ia de repente de como é bom acordar e sentir aquele calor do outro, enquanto o abraço por trás ainda de olhos fechados e me deixo estar. A imaginar os dias em que a cama está mais vazia, eternamente insatisfeita.

dezembro 25, 2007

I'm gonna shoot from the hip!

Ela este ano esmerou-se (ainda mais) e deu-me esta máquina. Já há uma viagem marcada para Barcelona e o dinheiro que juntei este ano faz-me sonhar com Cabo Verde em Maio. Pijamas, meias para dormir, livros e uma torradeira... Foi um Natal típico mas em versão melhor. Um dia destes, vou conseguir só receber vales da Fnac ou de alguma agência de viagens.

dezembro 24, 2007

Véspera de Natal

Amanhecer no alto do parque Eduardo VII, hoje

Entardecer na recta de Pavia, hoje

Um dia de trabalho como os outros em vez da véspera passada em casa, trincando pinhões e avelãs enquanto o bacalhau cozia lentamente. Um amanhecer claro e gelado em Lisboa, um final de dia morno e silencioso em pleno Alto Alentejo. Enquanto todos estavam em família, eu separava folhas de papel. Não queria mais Natal mas a verdade é que sentia falta das discussões repetidas ano após ano à mesa da consoada, do café em casa do vizinho e dos embrulhos revolvidos à procura de notas perdidas.

Um Natal muito feliz a todos. Com ou sem bacalhau, sozinhos ou numa casa cheia, sejam é felizes.

dezembro 22, 2007

Ganhar...

quarenta euros para comprar alguma coisa de útil a toda a gente do piso e ficar com um projecto de geocaching para cumprir. Mais do que ganhar o concurso, foi bom sentir-me envolvida numa actividade deste género, motivando as pessoas, treinando os dotes decorativos femininos e vendo a mesa tomar lentamente forma. As recordações que sobram são o nosso presépio pós-moderno (como lhe chamaram), a fartura das outras mesas e a originalidade de outros pisos. E felizmente acabou...

dezembro 21, 2007

M e o mundo da doçaria alemã

Pois, o que tenho a dizer é o seguinte: 'TOU FARTA DO NATAL!

Pronto, era isso. É que a pressão destes últimos dias tem sido demais: foi o mês a fechar hoje, foram as ideias para prendas já há muito esgotadas, foram as desilusões de onde menos se podiam esperar, foi o concurso de Natal do trabalho, foi esta constante exigência para que estejamos mais perto uns dos outros quando na realidade não sabemos o que está mesmo ao nosso lado. Além do trabalho ter que aparecer feito, escolheram a gastronomia de cada país representado na empresa para o tema do concurso de Natal deste ano. Foi assim que, a medo, me aventurei com Früchtebrötchen, que apresentarei amanhã a concurso.

Já dizia o outro É a primeira vez que contacto com a doçaria alemã e estou maravilhada! Não sei se isto contribuirá para o sucesso do nosso piso mas eu já provei e posso garantir que o icing de limão por cima lhe dá um toque de classe. Tudo a torcer por nós, vá.

dezembro 18, 2007

Compras absolutamente inúteis

A minha nova consola. Reparem só como diz na própria que são 9999 jogos em 1. É que estava só a dois euros.

Bah ou os restos de um armazém

As patroas (um negócio dominado por mulheres, que lindo, não é?) vieram até Portugal e deixaram para trás uma Münster provavelmente fria para encontrarem uma Lisboa ainda mais gelada e com o tempo mais escuro que vi nos últimos tempos. Parece que querem criar o hábito de visitar os pobrezinhos durante as quadras festivas, agradecer-lhes toda a paciência demonstrada ao longo do ano face a tantas incorrecções, indecisões e precipitações (e mais coisas acabadas em ões.). Há um discursozinho na copa, em alemão como convém, depois de espalharmos pelas mesas pão de ló, broas de mel, salames e bolos-rei. Obrigada, contamos com vocês para mais um ano de trabalho harmonioso (como diz?), têm sido tempos de sucesso.

Mas agora, pergunto eu: se estes são tempos de sucesso, se o negócio evoluiu no sentido em que se previa, não há direito a uma prendinha de Natal um bocadinho mais elaborada? Só dá para trazerem estas sweat-shirts já usadas (ou então apenas sujas), com o nome da empresa e o slogan, como se as fôssemos vestir com todo o orgulho? Vestir a camisola só mesmo na maneira metafórica. E se continuam com estes presentes, qualquer dia ando mas é em tronco nú.

dezembro 16, 2007

Lately...

... estive no jantar de Natal do trabalho. Ao contrário do ano passado, o sítio escolhido foi bem mais pequeno e a comida (em vez de tradicionalmente portuguesa) era brasileira. Houve tempo para prémios e discos pedidos, caipirinhas que nunca chegaram à mesa e alguma cerveja pré-jantar. O momento era de amena cavaqueira (Eddie e eu) enquanto esperávamos que a fila para o buffet se dissipasse.
... voltei a casa pelo segundo fim de semana consecutivo, o que já não acontecia há algum tempo. Dias soalheiros mas gelados, o queixo a tremer à noite sempre que punha o pé na rua. Não houve música porque a viagem só acabou à uma da manhã mas espalhou-se a alegria com a surpresa que levei comigo de Lisboa. Da minha janela, enquanto tentava adivinhar quantos graus estavam na rua, olhava para o Gaspar, muito atento e preguiçoso. (Tu, pelo menos, reconhece-lo!) Se eu fosse um gato, não lamentava os dias tão mal utilizados e deixava-me ficar no parapeito, a gozar o Sol de Inverno.
... fico ainda mais deprimida quando penso no Natal. Não bastava não simpatizar muito com a quadra: este ano não vou poder mesmo festejá-la como antes. Trabalhar com base no comércio de retalho tem destas porcarias e, portanto, ninguém pode folgar no dia 24 ou 31 de Dezembro. Andamos todos à espera do milagre económico que nunca mais vem, esperamos vender as quantidades que nunca vão deixar os armazéns e por isso não temos direito a nenhum dia de descanso. Portanto, em vez de fazer a contagem decrescente para a noite de 24 em família, vou fazê-la em Lisboa e, em calhando, numa fila de trânsito qualquer em direcção a casa. Estou ansiosa que esta semana passe depressa... não me venham é falar da poesia ou da magia do Natal. Essa parte de mim fechou para obras.

dezembro 14, 2007

Saudades *

Praia fluvial de Fronteira, Agosto 2007

Do Verão. E de como no tempo quente a única preocupação era conseguir arranjar cerveja suficientemente gelada. Agora, entre jantares de trabalho cuidadosamente ensanduichados na semana, divido-me entre o entusiasmo de um projecto novo (sem telemóveis à mistura) e a desilusão já gasta de não ter o que quero. A preocupação com a cerveja gelada mantém-se.

* ou ando sem cabeça para títulos melhores

dezembro 10, 2007

Sehnsucht *

Continua a ser o álbum que mais vezes ouvi na minha vida. Se fosse um vinil, certamente estaria riscado ou gasto ou vazio: nenhum vinil poderia aguentar tantas e tantas tardes a dançar debaixo da agulha...

Há muito, muito tempo atrás, trocava cartas com um professor de Inglês de Aveiro que tinha nascido e vivido em Antuérpia alguns anos. Escrevíamos cartas sem saber exactamente quem era aquela pessoa que estava do outro lado, sem saber se as nossas linhas eram esperadas com a ânsia que havia no nosso lado. E trocávamos cassetes com as músicas que ouvíamos quando os dias eram menos felizes. Ele dizia-me Tens que o ouvir! e gravou-me o que tinha numa cassete, que rapidamente se tornou na única que ouvia. Lembro-me do dia em que peguei no CD, ainda na Carbono em plena Almirante Reis e pensei que dois contos não era muito dinheiro. Ouvi tudo e soube imediamente que ele tinha razão, que eu tinha que o ouvir.

Conheço cada inflexão da voz deste CD. Sei as letras, vi os vídeos que pude. Comprei uma VHS para conseguir vê-lo a actuar ao vivo. Imagino ainda hoje todas as mulheres para quem ele escreveu estas canções de amor, invento romances impossíveis numa cidade chuvosa, ele de guitarra às costas, perdido entre as pautas e os amantes delas. Deu-me horas e horas de conforto, amparou-me as lágrimas, atenuou-me a dor. Mas, de todas as vezes que me resgatava, mais eu pensava como era injusto eu ter chegado à música dele tão tarde.

Continua tudo a fazer sentido para mim. Gosto dele como no primeiro dia, como na primeira cassete que rebobinava só para ouvir partes tão específicas da música. Gosto dele como se um dia tivesse sido sua amante e o tivesse visto partir, fechar uma porta sem nunca virar as costas, sabendo que era isso que o fazia continuar. Gosto dele como no primeiro momento em que olhei a capa do álbum e ele me parecia piroso, em que me perguntava a mim mesma porque o tinha levado para casa. Gosto dele porque, sempre que o ouço, me lembro das manhãs que passei debaixo daqueles cobertores, a ouvir os autocarros subir a minha rua, a ouvir o candeeiro da mesa de cabeceira tremer com essa vibração e a pensar que tinha a vida toda na minha mão. E gosto de pensar que sobrevivi aos dias em que me afundava a uma velocidade supersónica na dor e que ele foi um dos que me estendeu a mão. Um morto, é a ironia disto. E o professor não mais tornei a ver. Roubou-me um beijo na Gare do Oriente sob o pretexto dum glorioso pôr do sol e enfiou-se no comboio. Quis procurar a cassete mas nunca soube onde. Na minha vida, parece-me que é uma constante: nunca chego à hora certa.

* brach mir das Herz.

(Outra) história de violência

É um filme a oscilar entre a contenção e a brutalidade. Mas eu gostei a sério desta tensão sexual mal resolvida.

(mas também da cara de pulha de Cassel, dos olhos frios do Rei e da excentricidade do tio russo, da cerimónia iniciática das tatuagens e da voz impregnada de melancolia do acordeonista, do código que nunca se quebra, da resistência à traição e da permeabilidade ao sofrimento dos outros)

dezembro 09, 2007

dezembro 07, 2007

Never trust anyone. Especially the ones you know. *

Mais um golpe, mais uma viagem. Enquanto cá andarmos há-de sempre existir alguém que nos surpreende e, depois de nos fazer confidências, depois de nos confiar coisas suas, é capaz de jurar que não nos conhece. A duração do estado de desilusão é cada vez mais breve. É capaz de querer dizer que estamos a crescer.

(mas na aquela altura sobem-me as lágrimas aos olhos, sobe-me a vergonha às maçãs do rosto e encho-me de raiva porque quero perguntar tudo, quero saber porquê, quero que ela diga que foi só uma frase sem sentido e só ouço a minha voz mais alta, cheia de indignação e vontade de gritar porque é que não me conheces melhor quando eu te conheço bem? e engulo em seco tantas vezes quantas me apetece levantar da cadeira e sair e enquanto faço o caminho para casa a desilusão amansa e passa a ser apenas um momento de nevoeiro num dia já de si imperfeito)

*frase roubada e (muito) adaptada aqui

dezembro 04, 2007

Falta de comparência

Esta é uma das razões para andar a postar menos nos últimos tempos. O Natal é quando eu quiser e para mim já foi. Agora, há demasiadas páginas daquele livro de instruções para ler. E muito para decifrar, já que o mesmo se encontra em francês, língua que não domino. Tem sido disparar, disparar, disparar. Sobre assuntos triviais, quotidianos. E gosto dela.

Depois, também houve o fim de semana que me esgotou as forças. Quase precisei de um horário para conseguir fazer tudo o que queria, estar com toda a gente que me apetecia ver. E houve música, pois. Com esta senhora e esta também. Foi uma noite de música bonita, com momentos em que parecia que se abria um túnel secreto para um lugar mais feliz.

E há tanta coisa a acontecer no emprego, tanta gente a sair, tanta má notícia a dar, tanta formação que planear e novos projectos que precisamos abraçar que continuo esgotada. A precisar dos cinco dias de férias que me faltam gozar. Assim que comece o ano, prometo. Por enquanto, só me apetece sentar no sofá, desligar a luz e deixar o filme adormecer-me. Pode ser?

novembro 29, 2007

Agætis Byrjun *

Estava a começar a escrever um novo post quando me apercebi. Este não é um sítio para deixar recados subliminares. Pelo menos, não às pessoas a quem os podemos dar pessoalmente. Posso tentar dar recados a quem não mais encontrarei, deixando que eles ecoem pelo espaço virtual fora até encontrarem os ouvidos a que se destinam. Mas não posso, isso não, usar este espaço para me atrever a escrever as palavras que podia efectivamente dizer, caso tivesse alguma coragem. Não me restando (hoje) um pingo desta última, remeto-me ao silêncio. Dos recados, claro.

(E assim, como todo este amontoado de palavras, se escreve mais do que se queria.)

E quando acabei de escrever a palavra coragem, o meu raciocínio desviou mais uma vez a atenção do que ia realmente escrever e fez-me pensar em momentos de coragem. Lembro-me de um, por exemplo. Passou-se comigo mas a coragem não era minha. Sentada no call center, atendendo o trilionésimo cliente mal educado e iletrado, vejo cair um bocado de papel quadriculado rasgado sem precisão sobre o teclado. Tinha um número de telefone e um nome, acho eu. É preciso ser corajoso para oferecer esta disponibilidade por escrito, como que assinando um contrato num pedacinho de papel. Foi o mais perto que tive assim daquelas cenas que se vêem nos filmes. A uma amiga, enfiaram um bilhete do metro com um email rabiscado à pressa dentro da mala. Dizia "Gostava de a conhecer blablabla@blablabla.com". Qual é a probabilidade de isto acontecer? A mim, nula. E de, ainda por cima, me tratarem por você... Pff.

Depois veio-me à cabeça a coragem da minha amiga J. Vai arriscar aventurar-se num doutoramento de quatro anos que conseguiu rés vés, Campo de Ourique (diz ela...). Acha que vai ganhar pouco mas eu já lhe segredei que será mais do que eu ganho. O que, visto termos as mesmas qualificações no momento, me parece razoável. É corajoso ou não, continuar a estudar, a investigar, a fazer a diferença? E a fazer isto tudo em Portugal, sublinhe-se. Não é um cérebro que foge para outro país, é um cérebro que lança definitivamente a âncora em Portugal. Eu cá gosto. E acho corajoso.

Às vezes, tenho tão pouca coragem que me envergonho. Noutras, sinto que posso tudo. Mas estas contam-se pelos dedos de uma mão. E enquanto assim for, pues nada, como dizem os espanhóis. Enquanto não conseguir fingir que faço da vida o que me apetecer, hei-de balançar entre estes dois estados. O de enfiar papelinhos no bolso de um estranho e o de remeter-me à minha invisibilidade.

* musicando os meus dias mais ocos.

novembro 27, 2007

E não me tinha ainda esquecido disto!

All the while the thing regarded us with what, later, when we had begun to appreciate the range of its emotions, we might too easily have recognized as contempt.

Thomas Pynchon, Against the day

A próxima é de quem a apanhar.

M e a arte de controlar os nervos

Pois, foi hoje. E, francamente, acho que correu bem. Tirando uma ou outra hesitações breves, disse mais ou menos o que gostava e o que tinha que ser. Estava à espera de muita malta engravatada mas o que vi foram pessoas mais novas que eu, vestindo informalmente. O que, basicamente, é uma trampa, visto eu me ter esmerado e parecer uma pessoa demasiado séria. Quando hoje me vi ao espelho pela primeira vez, de toillette pronta e sapatinho calçado, estava frente a frente com uma senhora de sucesso e não com uma gaja simples. É claro que mais gente do escritório se esmerou também mas parece que todos embirram comigo - Márrise, você hoje... Cuidado.

O mundo das pessoas sérias e das miúdas que se empoleiram todos os dias em saltos altos não deve ser para mim. Se fosse, eu não sentiria que estava a desfilar numa passerelle o dia todo.

[edit: Então e o ar de senhora bem posta enquanto no Ipod rodava o White Pony dos Deftones? Um fartote.]

novembro 25, 2007

Diz que o David Fonseca veio a Portalegre...

Imprecisões

Dele já me disseram as mais variadas coisas. Já me disseram que não tem talento, que
é aborrecido e desinteressante. Já ouvi dizer que ele escreve coisas tiradas de um diário adolescente, que é inconsequente e não sabe falar inglês. Já me falaram sobre a sua (suposta) falsa modéstia e sobre essa mania de ser perfeito que ensombra tudo o que faz. Pois a mim nada disso interessa.

Ele tem em si - descobri hoje à noite - grande parte dos homens que são importantes para mim. Tem o gajo magro, tem o gajo com o cabelo perfeito, tem aquele que destila poesia apaixonada, o que toca guitarra sem nunca ter aprendido, tem o tipo engraçado sem ser hilariante. E tem a música que, por muito simples ou banal ou infantil que seja, me faz apertar as mãos com força. Como se eu não conseguisse aguentar aquilo tudo. Portanto, e nisto sou inflexível, ele é muito bom. É bom o suficiente para me fazer sonhar e para verbalizar os meus medos e os meus desejos e alguns fracassos. Sim, é claro que tem (muito) bom aspecto. E é óbvio que conquista muito público feminino por isso. Mas tem aquele ar de sonhador, tem dentro dele aquela dor mansa de gostar de alguém, tem vontade de dançar. Não passo de uma adolescente quando ele está na mesma sala do que eu. Antes isso que o cinismo cosmopolita que (sinto) está a tomar conta de mim.

Factos


Às vezes sinto que as pessoas em Portalegre não merecem ouvir música. Não sei se lhe hei-de chamar timidez ou desconforto ou falta de hábito mas sei que estar nesta sala de concertos se revelou (mais do que uma vez) uma situação embaraçosa. Não há reacções efusivas, não há movimentos nas cadeiras, quase não há aplausos para encore. É como se toda a gente não fosse letrada na arte de ver concertos, como se houvesse um livro de estilo que escapou a todos. Ter medo de expressar esta alegria ou ter vergonha de cantar é ser um bocadinho menos livre. E, ao contrário do que seria normal, torno-me mais livre em cada concerto que passa. Porque se isto me faz mais feliz que outra coisa qualquer, tenho o direito de dançar e aplaudir entusiasticamente. Mesmo que a malta da geração RFM (e sim, isto paga direitos de autor) olhe para mim desconfiada e só aplauda quando eles tocam aquela.

novembro 22, 2007

M e o mundo da alta finança

Imaginem que os directores financeiros de vários países (da vossa empresa, claro) vêm a Portugal participar numa conferência importantíssima. Depois, imaginem que alguém decide que a vossa área dentro da empresa é de importância extrema e que nos interessa trazer para Portugal mais trabalho do género. De seguida, essa mesma pessoa decide também que vocês devem fazer uma apresentação em inglês sobre a vossa área, exibindo as virtudes da vossa equipa (a flexibilidade, o domínio de várias línguas, a elevada produtividade) e mostrando que é uma área em franco desenvolvimento. As palavras de ordem são sell, sell e sell.

Agora, alguém me explica porque é que só penso como me vou conseguir aguentar em cima dos saltos o dia todo?

novembro 21, 2007

Sobre inevitabilidades e dias de folga


Tábua de queijo e enchidos, seguida de moelas. Duas ginjinhas bebidas de golo, para acompanhar os moços na cerveja. O despertador caladinho, às sete da manhã, e os vizinhos a fazerem algazarra desde as oito. Acordar mas ficar na cama a gozar a luz e as sombras que vejo desenhadas no corredor. Sair da cama a fazer planos, a desfazer planos, a ensaiar discursos, a imaginar desculpas. Constatar como às vezes os serviços camarários funcionam na perfeição. Fazer a viagem no 28, ida e volta debaixo de um sol morno de Outono, enquanto os turistas entram e saem em todas as paragens. Entrar no cabeleireiro mais próximo e pedir para arranjar as unhas, saindo de lá não só com as unhas arranjadas mas também com um tratado sobre cabelos brancos, vernizes no frigorífico, conselhos femininos que não pedi. Reforçar mais uma vez a ideia de que todos os cabeleireiros não passam de um grande cliché. Entrar em casa, planear um almoço saudável e uma tarde debaixo de cobertores, vendo episódio atrás de episódio de uma série qualquer. Esperar.

novembro 17, 2007



Foi hoje à noite. Não sei exactamente quando ou onde mas dei com esta música. E dar com esta música significou desenterrar uma série de fantasmas que eu resolvi esconder/recalcar/esquecer. Quer dizer, eu nem sequer decidi: eles foram empurrados para partes do meu cérebro às quais não quero ter acesso. Já passaram dez anos, nove anos, oito anos, tantos anos que passaram sobre esta pessoa que era Eu. De repente, vi-me à porta do Alcântara Mar com dezassete anos, sem um pinga de álcool no sangue, a tentar entrar com desconto de estudante. Era tudo tão novo para mim e para os outros, éramos nós na cidade grande, era termos liberdade e não ter ideia do que fazer com ela. Foram as noites que passei a destruir a vida que me tinha trazido até aqui para construir qualquer coisa nova, aprendendo a respeitar-me e a ser independente e a pensar pela minha cabeça.

Eu tinha uma ideia muito precisa sobre o meu futuro quando tinha dezassete anos. Eu pensava que tinha tudo resolvido e entendia tudo, entendia a vida e as desilusões, aceitava-as estoicamente, como se estivesse destinada a sofrer. Não fazia ideia de que havia vida fora, não conhecia o significado de conceitos tão simples como Amor ou Liberdade. A minha vida, o meu futuro passava por um casamento - não imaginava nada de outra maneira. Era feita de uma estúpida massa de ingenuidade e inocência, não era cínica porque acreditava numa espécie de Destino. E quando cheguei aqui, quando me mostraram o Mundo (que não era feito de discotecas nem de promiscuidade ou noitadas mas de poesia e saudades e uma sensação esquisita na barriga), eu passei a ser outra pessoa, não melhor nem pior mas apenas outra. E o perigo reside aí mesmo, no momento em que deixamos de precisar de alguém para pensar.

Há muitas coisas das quais sinto saudades ainda hoje. Sinto falta especialmente da sensação de possibilidade com que acordava todos os dias, naqueles dias. Sentir que eu é que estava ao comando foi muito mais importante do que qualquer recomendação, qualquer conversa, qualquer conselho. Mas também sinto saudades de ter aquelas certezas todas, de sentir que a minha vida estava previamente planeada, que eu estava apenas a seguir as linhas mestras com que tinham cosido a minha vidinha banal. Hoje, sou livre e sou independente mas nem sequer faço a menor ideia de qual é a minha verdadeira direcção. Se estiverem indecisos acerca do meu presente de Natal, estou bastante receptiva a um GPS emocional. Porque sinto que estou num campo de minas, prestes a pisar qualquer coisa que vai rebentar debaixo de mim. E, francamente, dava-me jeito alguém/alguma coisa que me pudesse estender uma mão. É por aqui. É só isso que preciso que me digam.

novembro 16, 2007

Reflexos condicionados *

Aconteceu-me ontem. Quando descobri que amanhã, na sessão dupla do canal 2, passam (seguidinhos!) o Mon Oncle e o Il mio viaggio in Italia lembrei-me que preciso passar no supermercado para comprar uma garrafa de rosé. E talvez alguma água tónica para o gin.

* não propriamente a salivar mas sorrindo porque tenho uma razão tão boa para ficar no sofá num Sábado à noite!

novembro 13, 2007

Digamos que...

... me sinto um bocado esmagada por esta pressão de ser feliz.

(E que estou um bocado aflita com este nariz quase em ferida e que não pára de me manter acordada durante a noite. E, já agora, acrescento que posso não ser grande fã de crepes com molho de chocolate de leite mas aprecio alguém que tem assunto para mais do que dois dedos de conversa).

novembro 12, 2007

Parte III...



... e última, em que a autora descobre as maravilhas do fim de semana holandês (que dura até às treze horas de segunda-feira), faz a sua primeira incursão pela lojas de roupas holandesas, enche a mala de coisas doces e é transportada de bicicleta cidade fora.

novembro 10, 2007

Um furacão chamado Seu Jorge

Dezanove pessoas em palco. Cavaquinhos, pandeiretas e cuíca. Um homem muito magro entra em palco, ainda tem o casaco vestido e dirige-se de imediato ao público. Na sala, há quem saiba todas as letras de cor. A medo, as pessoas obedecem ao ritmo e levantam-se das cadeiras para deixar o samba tomar conta dos movimentos. Temos todos samba dentro de nós, diz ele. Ontem Seu Jorge fez a festa acontecer.


fotografias desta moça (cliquem para aumentar)

Cantou-se ali sobre a exclusão social no Brasil, sobre o amor que se desfez porque a ponte estava congestionada e sobre a colonização portuguesa. Cantaram-se as inevitáveis versões de Bowie e outras baladas apenas acompanhadas por uma guitarra acústica, obrigando o público a suster a respiração em momentos de delicada fragilidade, nos instantes em que Seu Jorge parecia oferecer ao público um olhar breve sobre o seu íntimo. Mas se a dor e a pobreza foram cantadas e se houve mesmo um momento profundamente político, em que o artista (porque ele não é apenas um cantor) falou das aflições das crianças brasileiras e da inexistência da sua infância, também a alegria contagiou a sala. E é em noites como esta que nós sabemos que há uma chama dentro de cada brasileiro que o faz encontrar uma espécia de força nas adversidades: a festa corre-lhes no sangue. Por isso, não foi de estranhar quando todo o público foi convidado a sambar no palco, juntamente com Seu Jorge e toda a banda. E também não foi de admirar que se tenha formado um comboio gigante de pessoas que, com o artista à cabeceira, dançaram sala fora. Foram quase três horas de brasileirices, batucada, de português com açúcar. Este furacão não provocou vítimas nem estragos - talvez apenas o suor bom de quem tenta sambar e sente a felicidade que se tira de todas as coisas simples.

novembro 09, 2007

Dormir mais feliz #10

Tonight I feel it closer
And I can almost touch it
To you it may be nothing
It's something to me
This raging light...

Parte II...

... em que a autora descobre as maravilhas do comboio na Bélgica; em que a (in) correcta leitura de um mapa nos leva a falhar um parque vezes sem conta; em que a autora descobre que os fins de semana são menos propícios a turistas e em que a sensação de cansaço passa a pura exaustão, motivando assim a (falsa) sensação de que as pernas não faziam já parte do seu corpo.

novembro 08, 2007

I ♥ Interpol

Já de volta a casa-casa e completamente estourada destes últimos dias, vêm-me à memória as imagens do concerto de ontem. Do lado direito do palco, mesmo mesmo de lado, aliás, ouvi um concerto cirúrgico na companhia da camarada de concertos e de um basco que conheci ontem mesmo* (maravilhas disto, é a tecnologia, estúpido!). Paul Banks é (talvez) o tipo menos simpático do Mundo, pouco efusivo e nada comunicativo mas isso não o impediu de fazer saltar um Coliseu cheio como há muito não via. Como dele não esperava palavras amistosas ou deliberamente falsas, fiquei contente com a alinhamento preciso e aguardado, com a Stella... a tornar o encore no melhor momento do concerto e com o sorriso do guitarrista que... francamente. A droga e as relações pós-modernas fazem-lhes bem.

* pois escreveu-me, dizendo que não tinha companhia para o concerto, estava solito em Portugal e eu pensei Ora, que se lixe! Venha o basco também! Simpática figura, muito empenhada em falar o português e em fazer amigos. Afinal, a internet não está só cheia de sociopatas e serial killers...

novembro 07, 2007

Parte I...



... em que a autora descobre no aeroporto de Bruxelas que tem o conteúdo de uma garrafa de azeite e de uma de vinho a cobrir toda a sua roupa e agasalhos; em que um colombiano à espera do divórcio introduz no parco vocabulário francês da autora a expressão faire chier; em que as ruas sujas e escuras causam primeiro uma impressão negativa e em que a autora se vê a braços com uma manifestação de dois mil turcos frente à Comissão Europeia.

Lisboa-Bruxelas-Leuven-Maastricht-Lisboa

Bola de espelhos gigante em Leuven, moi et Ricardo

Como seria de esperar, trouxe muitas memórias comigo. A viagem foi (mais ou menos) curta mas intensa o suficiente para parecer que durou muito mais tempo... Ao fim de dois dias, já parecia que tudo me era familiar ou que já estava lá há bastante tempo. Como é óbvio, ver os amigos foi a melhor parte da viagem. Ele recebeu-me efusivamente na Gare du Midi, enquanto ela, na estação quase deserta de Maastricht, me dizia várias vezes Eu não acredito que estás aqui! Visitar as cidades foi apenas um pretexto para matar as saudades e é por isso que vou insistindo que os meus amigos se vão espalhando por todo o Mundo.

Vou recordar muitas coisas nestes dias: o cinzento opressor do céu de todas as cidades que visitei (a contrastar com o azul da minha Lisboa...), as diferentes marcas de cerveja que experimentei num limitado espaço de tempo, as ruas temáticas de Bruxelas cheias de lojas de móveis ou galerias de arte ou chocolaterias, a ausência de pessoas em Leuven (cidade definitivamente flamenga), a calma manhã de Maastricht. Voltaria a todas elas e voltaria com tempo e calma para conseguir apreciar os encantos da(s) cidade(s) sem ser incomodada pelo frio cortante ou pela sujidade das ruas ou pela ausência de luz solar. Mas voltaria sabendo que posso sempre regressar à delicada luz outonal que vejo agora quando espreito pela varanda: esta cidade é seguramente o meu grande amor*.

*no que a cidades diz respeito, pois claro.

novembro 06, 2007

Achtentwintig jaar oud

Achtundzwanzig Jahre alt. Vinte e oito anos de idade. Já está decidido, os próximos serão comemorados nas ilhas Fidji.

novembro 01, 2007

Vacances!

Agora, se me dão licença, vou até aqui.

Foto daqui (curiosamente, um português!)

Vou visitar o amigo emigra e a amiga que voltou para os Países Baixos. Levo na mala o obrigatório azeite e a garrafa de tinto que se impõe. Regressarei já mais velha um ano, com as saudades amansadas e com alguma coisa para contar. À bientôt!

Receita perfeita para a noite de Halloween

Não comemoro a data porque não lhe descortino qualquer significado que valha a pena. Não simpatizo particularmente com disfarces nem com bruxas, não me lembro sequer de alguma vez ter participado numa festa neste dia. Mas ontem descobri uma maneira perfeita para aproveitar esta véspera de feriado.

Um português, uma espanhola e eu. Uma cerveja pré-jantar. A conversa toda posta em dia. A curiosidade despertada pelos cheiros na cozinha. A prova dum tinto de reserva de uma adega algures nos Pirinéus. Peito de pato flambeado em brandy com molho de natas e três pimentas, acompanhado com tomate, batatas assadas com um fio de azeite, salsa e alho e espargos grelhados. Um Merlot espanhol de reserva, macio e frutado. Gelado de cheesecake de morango. Cubatas muito frescas (a versão espanhola da Cuba Libre, em que o sumo de limão natural torna tudo mais leve). Gargalhadas (e muitas memórias) em frente ao VH1 Classics. O sono dos justos depois das três da manhã.