Exausta. As pernas são dois autómatos, fielmente treinados para me levarem de casa até à estação do Rato. A casa arrumada à espera dos pais que chegam amanhã. Há quatro ou cinco dias que ouço apenas uma canção (podem ouvir aqui, sendo que a qualidade do video é inversamente proporcional à da música...) e apenas essa. Foi o terceiro encontro de King e finalmente a minha sorte mudou. Estou em pulgas para hoje à noite mas receio que o sono tome conta de mim. Agora, se me desculpam, vou só ali trabalhar cinco horas e pronto. Depois disso, o Porto há-de ser meu.
maio 30, 2008
maio 28, 2008
O segredo de um cuscuz *
Ele tem os vincos do trabalho e do sacrifício desenhados na expressão cerrada. É um homem fechado dentro de si mesmo, é o par de mãos com que remenda um casco de um barco velho. Não sabendo oferecer nada de si, carrega consigo uma caixa de peixe que se multiplica pelas suas várias famílias. Sentado, a janela aberta de par em par, contempla o cais vazio enquanto acende outro cigarro. Por ter trabalhado toda a vida num estaleiro, é uma traineira abatida que quer ainda fazer-se ao mar alto. Têm amor, aqueles olhos lentos e escuros. Mesmo que o amor não se mostre nunca através da ternura - ele faz, simplesmente, aquilo que tem a fazer.
* ou deslumbrada com a autenticidade, humor e surpresas deste filme.
maio 26, 2008
Desafio pt. 2
Aquela manhã de nevoeiro disperso estava a acordar aos poucos. Tal como aqueles olhos que iam abrindo de mansinho, a medo, e ficaram focados na janela gigante que dava para a praceta onde permanecia uma estátua de um qualquer marquês. Pôs-se de joelhos, com as mãos amarradas atrás das costas, e levantou um pouco a cabeça. Torceu todo o corpo para a esquerda e só então conseguiu lembrar-se do que tinha acontecido.(ÿpslon, www.vitaminaY.blogspot.com)
A memória chegava-lhe em imagens difusas, ele sabia que situação onde se encontrava era mais do que uma manhã embaraçosa depois de uma noite que não quis passar sozinho. A cada expiração, a dor lembra-lhe da posição do seu corpo contorcido... os olhos a custo procuravam alguma familiaridade naquele quarto-jaula, param no preciso instante em que o pé toca em algo, foca uma mulher, leonor, uma imagem difusa da noite anterior, também atada, contorcida, de olhos fechados, a começar a murmurar repetidamente… - “como fomos capazes…como fomos capazes…”
(indigente andrajoso, www.indigenteandrajoso.blogspot.com)
As lágrimas não demoraram a jorrar-lhe dos olhos. A disposição de todos os objectos naquele quarto fazia prova do caos da noite anterior: o cinzeiro que não chegava para tantas beatas, as lâminas de barbear usadas e dispostas numa fila metodicamente organizada, os restos do sangue debaixo do abajour carcomido pelo cortejo de lâmpadas acesas nos últimos dias. Ele tentava aligeirar o nó que feria os seus pulsos em vão e as cordas marcavam cada vez mais as veias onde o sangue corria descontroladamente. Cheio de culpa e náuseas, ele não conseguia parar de imaginar como seria possuí-la neste cenário desolador. Uma e mais outra vez.
(M., www.borboletasnabarriga.blogspot.com)
O mote estava dado pelo ÿpslon aqui e eu fui convidada para acrescentar o terceiro dos dez parágrafos que vão construir esta narrativa. Será, portanto, uma história escrita a dez mãos e em que o autor do último parágrafo fechará o ciclo, escolhendo um título para a apresentar ao mundo. O meu convite já foi feito - a história continua com Jesus Cartier, mestre de honra do Numb.
Desafio pt. 1
um coração avariado
que não posso desligar *.
que não posso desligar *.
Desafiada pela SuperM., aqui fica a minha biografia na versão mais curta possível. São-nos pedidas seis palavras (uma frase pequenina, minúscula mesmo... eu sei que uso quase o dobro das palavras pedidas mas seis palavrinhas é muito pouco!) para uma muito curta biografia (há quem opte por um conceito) e podemos dar-lhes ênfase com uma imagem. Devemos colocar um link para quem nos desafiou e por nossa vez desafiar cinco blogs, avisando-os deste mesmo convite. Considerem-se desafiados: Curse of Millhaven, Catarina, JC, Mafaldinha e Rita Maria.
* e um desenho deste moço que já tinha mostrado aqui.
* e um desenho deste moço que já tinha mostrado aqui.
Silver lining *
Seguia no carro à minha frente, depois de me ter ultrapassado mesmo no início do caminho. Marcava o ritmo do que estava a ouvir com as mãos no volante. Eu não conhecia o carro nem a matrícula nem o condutor. Eu cantava em altos berros as músicas que saiam das colunas em modo aleatório. Estava indecisa entre usar óculos escuros ou conduzir sem eles. Ele ajeitou o espelho duas ou três vezes para se assegurar que os nossos olhares se cruzavam. Ele ultrapassava, eu ultrapassava. Quando fiz pisca para me desviar da estrada principal e seguir o meu caminho, ele olhou fixamente pelo espelho e, por fim, acenou-me longamente. Envergonhada, demorei algum tempo a reagir mas acenei-lhe de volta. Soube tão bem.
* ou sorrir mesmo num dia escuro, de nuvens baixas e aguaceiros indecisos
* ou sorrir mesmo num dia escuro, de nuvens baixas e aguaceiros indecisos
maio 25, 2008
Micro Audio Waves

A escolha da banda para este segundo aniversário foi muito feliz. Ontem, os Micro Audio Waves deram uma lição de electrónica, rock e de sensualidade a uma audiência que não demorou muito a render-se. Cláudia Efe é uma diva moderna, concentra em si (e na forma como susurra os seus segredos ao público) todas as atenções. Seduz-nos com um olhar às vezes provocador, às vezes vago. Dança como quem sente a música como uma força imparável e impressiona com a leveza dos seus movimentos. Esta música dos MAW está carregada de promessas, de encontros secretos com estranhos, do prazer pelo prazer e dá vontade de transgredir, de pisar o risco. Há uma expressão que me vem à mente quando penso neles: pure pleasure seeker. Ontem foi um bocado assim e o prazer chegou pela música e pela liberdade dos movimentos.
maio 24, 2008
Karseron + Wintermoon
maio 21, 2008
M. @ cozinha IV
Antes

Depois
Foi a segunda vez que me dediquei aos canelones (a primeira experiência está há muito perdida da memória). O recheio saiu inteiramente da minha imaginação e posso confidenciar que inclui espinafres, azeitonas e cogumelos. O que também posso afiançar é que está de comer e chorar por mais! É uma pena que, vivendo sozinha, não tenha mais vontade de me aplicar mas cozinhar para uma pessoa é uma seca. Em todo o caso, há mais alguém a prová-los porque amanhã vou fazer um colega de trabalho mais feliz.
Depois
maio 20, 2008
Do the right thing *
Parece que ultimamente há qualquer coisa que pretende testar os meus limites, julgar as minhas decisões. Vejo-me obrigada a decidir vezes demais se aquilo que estou a fazer é a coisa certa, aquilo que considero mais justo.Depois de procurar um objecto que alguém perdeu (e por se tratar de algo com valor afectivo), descubro finalmente o seu paradeiro. O problema é que a pessoa que o tem já disse a quem o perdeu que não sabe dele e eu não posso provar o contrário. Portanto, se falo corro o risco de passar por parva, não conseguir provar nada e ainda tornar-me persona non grata. Só que, se não falo, fico a bater-me com a minha consciência, que me diz claramente que isto tudo é injusto e indigno mesmo. Será assim tão difícil as pessoas, por uma vez na vida, portarem-se como adultas e reconhecerem que cometeram um erro? Já errei muito e já vi errar e nunca me pareceu que a capacidade de admitir um erro fosse alguma coisa de que devemos ter vergonha. E isto nem se trata de eu sofrer de uma espécie de excesso de princípios: simplesmente mantenho-me com aquilo que me parece importante e a honestidade (valor que em tempos desprezei) está no topo da minha lista.
Depois, há o trabalho com disputas infantis, suspeitas infundadas, pessoas que acham que nos tomam por parvos, pessoas que realmente têm razão em tomar-nos como parvos, um diz-que-disse constante nas nossas costas. Importam-se de não complicar, só durante um bocado? Obrigada.
* como em We own the night, com o grande Joaquin Phoenix a estender a mão ao irmão Mark Wahlberg.
maio 18, 2008
Banda sonora do fim de semana *
Ideal para fins de semana de um só dia, em que a moleza é tão grande que parece que nunca mais vamos conseguir sair da cama (e, mesmo quando conseguimos, fazemos imediatamente planos para voltar). Também muito indicado para preparar jantares de aniversário (mais um trigésimo, o medo a instalar-se), criando o ambiente necessário ao ensaio do pé de dança. É também recomendado para a roupa que se planeia passar o ferro (pela terceira vez na nossa vida), ainda que em frente à televisão.
* Paper planes da M.I.A
maio 16, 2008
Being bad feels pretty good
Tendo alguma tendência para ser uma pessoa conflituosa, é com muito desconforto que me vejo no centro de um conflito entre pessoas da mesma equipa. Tenho mais ou menos jeito para ser a parte ofendida e bastante queda para ser a parte que despoleta o conflito. Mas esta posição, esta neutralidade forçada e necessária fazem com que dê comigo imersa em palavras de apaziguamento e conselhos sobre contenção - o que tem a sua piada ou não fosse eu do género primeiro falar, depois pensar.
É daqueles casos em que não interessa saber quem tem razão. Tudo assenta no tom ou na forma como se escolhe encarar o que divide as partes. Por muito que seja amiga de uma das pessoas, não é isso que me paga os ordenados no final do mês. E é exactamente isso que me coloca numa posição ingrata: eu não posso fazer o que acho porque sou obrigada a fazer o que é melhor. E quem diz fazer, diz pensar ou mesmo falar. É por essa razão que, apesar de concordar com quem me está mais perto, admito que essa pessoa está errada na colocação das premissas. Baralhados? Eu também.
Saí do trabalho e, até este momento em que escrevo, isto já me assaltou os pensamentos umas vezes valentes. Não me cabe a mim nenhuma decisão, apenas tentar manter a cordialidade, união da equipa e tentar chamar as pessoas à razão. Mas esta trivialidade faz-me pensar como é difícil fazer o que está certo. Aliás, mais do que isso, faz-me pensar como custa saber o que está certo. Como é que posso ter a certeza que não estou a ser injusta? Como é que posso pesar os argumentos de ambas as partes de forma igual se uma das pessoas é mais do que colega de trabalho? Como é que posso convencer ambas as partes a aceitarem-se e a prometerem fazer mais cedências? Estou a dar demasiada importância a uma disputa mesquinha ou estou a tocar o fundo de algo realmente importante? Se há coisa que eu gostava que dissessem de mim era 'Oh ela é uma pessoa muito justa'. Muito mais do que 'Ela é muito boa onda' ou 'É uma pessoa muito divertida'. O senão disto tudo é que a justiça não traz manual de instruções. E eu, inventando pelo caminho, não tenho a certeza de estar a acertar em coisa alguma.
É daqueles casos em que não interessa saber quem tem razão. Tudo assenta no tom ou na forma como se escolhe encarar o que divide as partes. Por muito que seja amiga de uma das pessoas, não é isso que me paga os ordenados no final do mês. E é exactamente isso que me coloca numa posição ingrata: eu não posso fazer o que acho porque sou obrigada a fazer o que é melhor. E quem diz fazer, diz pensar ou mesmo falar. É por essa razão que, apesar de concordar com quem me está mais perto, admito que essa pessoa está errada na colocação das premissas. Baralhados? Eu também.
Saí do trabalho e, até este momento em que escrevo, isto já me assaltou os pensamentos umas vezes valentes. Não me cabe a mim nenhuma decisão, apenas tentar manter a cordialidade, união da equipa e tentar chamar as pessoas à razão. Mas esta trivialidade faz-me pensar como é difícil fazer o que está certo. Aliás, mais do que isso, faz-me pensar como custa saber o que está certo. Como é que posso ter a certeza que não estou a ser injusta? Como é que posso pesar os argumentos de ambas as partes de forma igual se uma das pessoas é mais do que colega de trabalho? Como é que posso convencer ambas as partes a aceitarem-se e a prometerem fazer mais cedências? Estou a dar demasiada importância a uma disputa mesquinha ou estou a tocar o fundo de algo realmente importante? Se há coisa que eu gostava que dissessem de mim era 'Oh ela é uma pessoa muito justa'. Muito mais do que 'Ela é muito boa onda' ou 'É uma pessoa muito divertida'. O senão disto tudo é que a justiça não traz manual de instruções. E eu, inventando pelo caminho, não tenho a certeza de estar a acertar em coisa alguma.
maio 15, 2008
Sexo *
This was sex. They'd wallk down a street together and see themselves in a dusty window. A flight of stairs was sex, the way she moved close to the wall with him just behind, to touch or not, brush lightly or press tight, feeling him crowd her from below, his hand moving around her tight, stopping her, the way he eased up and around, the way she gripped his wrist.
* ou a vontade de devorar livros que regressou onde antes eu pensava, alarmada, que não existia mais. Ler só mais um bocadinho, só mais esta página, nesta não posso parar que não acaba em ponto final, só mesmo até ao fim do capítulo. A vontade de ler voltou como uma febre, uma inquietação mansinha que cresce conforme a noite avança e domina mesmo que o corpo já peça descanso. Afinal, tudo não tinha passado de um susto e eu ainda gosto de ler como antes e ainda consigo emocionar-me e sentir náusea e sonhar com um livro, não era tudo uma mentira. Na prateleira, começa a diminuir a fila dos livros que esperam para ser lidos e a aumentar a secção dos que já foram folheados. Não posso dizer que os livros me salvaram a vida. Mas posso dizer que animaram tempos mortos em consultórios, fizeram esquecer as viagens intermináveis de carro-autocarro-avião, sábados em que almocei sozinha no trabalho, noites em que o sono teimava em tardar. Continuo a emocionar-me e a escolher a personagem que quero ser e a inventar-lhes rostos e corpos, a adivinhar-lhe as virtudes e a maldizer os seus defeitos, tomando partido silenciosamente. Chegou a vez de Falling man, do Don DeLillo e os parágrafos iniciais, como podem ler, prometem.
* ou a vontade de devorar livros que regressou onde antes eu pensava, alarmada, que não existia mais. Ler só mais um bocadinho, só mais esta página, nesta não posso parar que não acaba em ponto final, só mesmo até ao fim do capítulo. A vontade de ler voltou como uma febre, uma inquietação mansinha que cresce conforme a noite avança e domina mesmo que o corpo já peça descanso. Afinal, tudo não tinha passado de um susto e eu ainda gosto de ler como antes e ainda consigo emocionar-me e sentir náusea e sonhar com um livro, não era tudo uma mentira. Na prateleira, começa a diminuir a fila dos livros que esperam para ser lidos e a aumentar a secção dos que já foram folheados. Não posso dizer que os livros me salvaram a vida. Mas posso dizer que animaram tempos mortos em consultórios, fizeram esquecer as viagens intermináveis de carro-autocarro-avião, sábados em que almocei sozinha no trabalho, noites em que o sono teimava em tardar. Continuo a emocionar-me e a escolher a personagem que quero ser e a inventar-lhes rostos e corpos, a adivinhar-lhe as virtudes e a maldizer os seus defeitos, tomando partido silenciosamente. Chegou a vez de Falling man, do Don DeLillo e os parágrafos iniciais, como podem ler, prometem.
Across the sea
(obrigada a este moço pela compra e a este pelo transporte)
maio 13, 2008
Cortar (outr)o cordão umbilical
Já estava mais do que na altura e o meu pai começava a insistir nisso. Que já tinham passado dois anos, que precisava tratar das coisas, que provavelmente me ia esquecer. Não me esqueci (seria difícil com tantos lembretes...) e lá fui eu - o diploma já está aqui pronto para que os meus pais possam servir-se dele à vontade.
Foi uma sensação muito, muito estranha. Voltar à universidade, depois destes anos todos, causou-me um certo mau estar. Entrei e nenhuma das caras me era familiar, a esplanada continua cheia de alunos que preferem passar o seu tempo ao Sol em vez de encerrados numa sala da torre velha, há um pavilhão novo, pré-fabricado que alberga qualquer coisa que se parece com um café. A secretaria estava vazia: ninguém à espera, nenhuma senha para ser chamada, nenhum funcionário a atender. Depois de uns minutos de espera (em que tentava chamar a atenção para a minha presença), chegou uma moça nova que franziu o olho quando ouviu ao que eu vinha. Talvez pensasse que o diploma tivesse sido pedido há meia dúzia de dias, talvez pensasse que eu não sabia ao que ia. Trouxe-me aquela solitária folha, rabiscada por três ou quatro pessoas, carimbada e numerada e plim, cortou-se este cordão umbilical.
Quando vi o meu reflexo nos vidros da repartição académica, reparei que estava a sorrir. De alívio, acho eu. Não é que os meus anos na faculdade tenham sido, na sua essência, maus. Mas a quantidade de escolhas absurdas e pobres decisões que fiz nos primeiros tempos não me deixou saudades nenhumas. Quando olho para trás, o que vejo é um caminho tão mas tão incerto, tão intermitente que me apetece apagar tudo e voltar ao início. Não é bem arrependimento: de certa forma, tudo o que fiz serviu para me trazer até aqui. Mas saber que podia ter feito muito melhor é um grande castigo e uma coisa difícil de admitir. E depois há a questão da inutilidade do curso. Entrei na minha primeira opção, na faculdade que queria - fui eu que escolhi esta inutilidade. Nem o facto de ter completado o curso com um minor na área da comunicação mudou alguma coisa.
A inocência de quem entra para o ensino superior chega a ser comovente: as ilusões todas que temos, o desejo de ser diferente, a vontade de ser o melhor. Quase tudo para chegar ao fim e nos dizerem que temos excesso de qualificações ou que o que estudámos não tem qualquer serventia profissional. E eu sei que o que é preciso é não cruzar os braços e continuar a tentar por outros meios, eu sei. Mas é complicado não pensar O que é que eu andei a fazer estes anos todos?. Em todo o caso, eu acho que encontrei a resposta a isto. Estive a crescer.
Foi uma sensação muito, muito estranha. Voltar à universidade, depois destes anos todos, causou-me um certo mau estar. Entrei e nenhuma das caras me era familiar, a esplanada continua cheia de alunos que preferem passar o seu tempo ao Sol em vez de encerrados numa sala da torre velha, há um pavilhão novo, pré-fabricado que alberga qualquer coisa que se parece com um café. A secretaria estava vazia: ninguém à espera, nenhuma senha para ser chamada, nenhum funcionário a atender. Depois de uns minutos de espera (em que tentava chamar a atenção para a minha presença), chegou uma moça nova que franziu o olho quando ouviu ao que eu vinha. Talvez pensasse que o diploma tivesse sido pedido há meia dúzia de dias, talvez pensasse que eu não sabia ao que ia. Trouxe-me aquela solitária folha, rabiscada por três ou quatro pessoas, carimbada e numerada e plim, cortou-se este cordão umbilical.
Quando vi o meu reflexo nos vidros da repartição académica, reparei que estava a sorrir. De alívio, acho eu. Não é que os meus anos na faculdade tenham sido, na sua essência, maus. Mas a quantidade de escolhas absurdas e pobres decisões que fiz nos primeiros tempos não me deixou saudades nenhumas. Quando olho para trás, o que vejo é um caminho tão mas tão incerto, tão intermitente que me apetece apagar tudo e voltar ao início. Não é bem arrependimento: de certa forma, tudo o que fiz serviu para me trazer até aqui. Mas saber que podia ter feito muito melhor é um grande castigo e uma coisa difícil de admitir. E depois há a questão da inutilidade do curso. Entrei na minha primeira opção, na faculdade que queria - fui eu que escolhi esta inutilidade. Nem o facto de ter completado o curso com um minor na área da comunicação mudou alguma coisa.
A inocência de quem entra para o ensino superior chega a ser comovente: as ilusões todas que temos, o desejo de ser diferente, a vontade de ser o melhor. Quase tudo para chegar ao fim e nos dizerem que temos excesso de qualificações ou que o que estudámos não tem qualquer serventia profissional. E eu sei que o que é preciso é não cruzar os braços e continuar a tentar por outros meios, eu sei. Mas é complicado não pensar O que é que eu andei a fazer estes anos todos?. Em todo o caso, eu acho que encontrei a resposta a isto. Estive a crescer.
maio 12, 2008
Do amor (perdido, sem salvação e sem futuro) *
He rose and walked out and stood barefoot in the sand and watched the pale surf appear all down the shore and roll and crash and darken again. When he went back to the fire he knelt and smoothed her hair as she slept and he said if he were God he would have made the world just so and no different.
* outra vez o sr. McCarthy em The Road.
We're the heirs to the glimmering world
Foi assim... como direi?Perfeito.
(a vontade de saltar da cadeira. o suor provocado por tanta gente a gostar de uma coisa ao mesmo tempo. os gritos descontrolados na Squalor Victoria. uma espécie de nervoso sempre antes de começar uma música. toda a gente a gritar I won't fuck us over e eu a perguntar-me a mim mesma quantas vezes já o fiz. o Matt a subir pelos bancos das doutorais, amparado pelo público, em êxtase. mesmo a The Geese of Beverly Road que não tocaram, we'll run like we're awesome. pessoas que queria ver e pessoas que não queria mesmo ver. quero mais)
maio 11, 2008
maio 10, 2008
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