maio 20, 2008

Do the right thing *

Parece que ultimamente há qualquer coisa que pretende testar os meus limites, julgar as minhas decisões. Vejo-me obrigada a decidir vezes demais se aquilo que estou a fazer é a coisa certa, aquilo que considero mais justo.

Depois de procurar um objecto que alguém perdeu (e por se tratar de algo com valor afectivo), descubro finalmente o seu paradeiro. O problema é que a pessoa que o tem já disse a quem o perdeu que não sabe dele e eu não posso provar o contrário. Portanto, se falo corro o risco de passar por parva, não conseguir provar nada e ainda tornar-me persona non grata. Só que, se não falo, fico a bater-me com a minha consciência, que me diz claramente que isto tudo é injusto e indigno mesmo. Será assim tão difícil as pessoas, por uma vez na vida, portarem-se como adultas e reconhecerem que cometeram um erro? Já errei muito e já vi errar e nunca me pareceu que a capacidade de admitir um erro fosse alguma coisa de que devemos ter vergonha. E isto nem se trata de eu sofrer de uma espécie de excesso de princípios: simplesmente mantenho-me com aquilo que me parece importante e a honestidade (valor que em tempos desprezei) está no topo da minha lista.

Depois, há o trabalho com disputas infantis, suspeitas infundadas, pessoas que acham que nos tomam por parvos, pessoas que realmente têm razão em tomar-nos como parvos, um diz-que-disse constante nas nossas costas. Importam-se de não complicar, só durante um bocado? Obrigada.

* como em We own the night, com o grande Joaquin Phoenix a estender a mão ao irmão Mark Wahlberg.

maio 18, 2008

Banda sonora do fim de semana *



Ideal para fins de semana de um só dia, em que a moleza é tão grande que parece que nunca mais vamos conseguir sair da cama (e, mesmo quando conseguimos, fazemos imediatamente planos para voltar). Também muito indicado para preparar jantares de aniversário (mais um trigésimo, o medo a instalar-se), criando o ambiente necessário ao ensaio do pé de dança. É também recomendado para a roupa que se planeia passar o ferro (pela terceira vez na nossa vida), ainda que em frente à televisão.

* Paper planes da M.I.A

maio 16, 2008

Sentir dor é quando temos que empurrar para outros aquilo que queremos guardar só para nós. Silenciosa e abnegadamente.

Being bad feels pretty good

Tendo alguma tendência para ser uma pessoa conflituosa, é com muito desconforto que me vejo no centro de um conflito entre pessoas da mesma equipa. Tenho mais ou menos jeito para ser a parte ofendida e bastante queda para ser a parte que despoleta o conflito. Mas esta posição, esta neutralidade forçada e necessária fazem com que dê comigo imersa em palavras de apaziguamento e conselhos sobre contenção - o que tem a sua piada ou não fosse eu do género primeiro falar, depois pensar.

É daqueles casos em que não interessa saber quem tem razão. Tudo assenta no tom ou na forma como se escolhe encarar o que divide as partes. Por muito que seja amiga de uma das pessoas, não é isso que me paga os ordenados no final do mês. E é exactamente isso que me coloca numa posição ingrata: eu não posso fazer o que acho porque sou obrigada a fazer o que é melhor. E quem diz fazer, diz pensar ou mesmo falar. É por essa razão que, apesar de concordar com quem me está mais perto, admito que essa pessoa está errada na colocação das premissas. Baralhados? Eu também.

Saí do trabalho e, até este momento em que escrevo, isto já me assaltou os pensamentos umas vezes valentes. Não me cabe a mim nenhuma decisão, apenas tentar manter a cordialidade, união da equipa e tentar chamar as pessoas à razão. Mas esta trivialidade faz-me pensar como é difícil fazer o que está certo. Aliás, mais do que isso, faz-me pensar como custa saber o que está certo. Como é que posso ter a certeza que não estou a ser injusta? Como é que posso pesar os argumentos de ambas as partes de forma igual se uma das pessoas é mais do que colega de trabalho? Como é que posso convencer ambas as partes a aceitarem-se e a prometerem fazer mais cedências? Estou a dar demasiada importância a uma disputa mesquinha ou estou a tocar o fundo de algo realmente importante? Se há coisa que eu gostava que dissessem de mim era 'Oh ela é uma pessoa muito justa'. Muito mais do que 'Ela é muito boa onda' ou 'É uma pessoa muito divertida'. O senão disto tudo é que a justiça não traz manual de instruções. E eu, inventando pelo caminho, não tenho a certeza de estar a acertar em coisa alguma.

maio 15, 2008

Sexo *

This was sex. They'd wallk down a street together and see themselves in a dusty window. A flight of stairs was sex, the way she moved close to the wall with him just behind, to touch or not, brush lightly or press tight, feeling him crowd her from below, his hand moving around her tight, stopping her, the way he eased up and around, the way she gripped his wrist.

*
ou a vontade de devorar livros que regressou onde antes eu pensava, alarmada, que não existia mais. Ler só mais um bocadinho, só mais esta página, nesta não posso parar que não acaba em ponto final, só mesmo até ao fim do capítulo. A vontade de ler voltou como uma febre, uma inquietação mansinha que cresce conforme a noite avança e domina mesmo que o corpo já peça descanso. Afinal, tudo não tinha passado de um susto e eu ainda gosto de ler como antes e ainda consigo emocionar-me e sentir náusea e sonhar com um livro, não era tudo uma mentira. Na prateleira, começa a diminuir a fila dos livros que esperam para ser lidos e a aumentar a secção dos que já foram folheados. Não posso dizer que os livros me salvaram a vida. Mas posso dizer que animaram tempos mortos em consultórios, fizeram esquecer as viagens intermináveis de carro-autocarro-avião, sábados em que almocei sozinha no trabalho, noites em que o sono teimava em tardar. Continuo a emocionar-me e a escolher a personagem que quero ser e a inventar-lhes rostos e corpos, a adivinhar-lhe as virtudes e a maldizer os seus defeitos, tomando partido silenciosamente. Chegou a vez de Falling man, do Don DeLillo e os parágrafos iniciais, como podem ler, prometem.

Across the sea

Quando um dia a Caras me pedir para abrir as portas da minha casa, prometo que é esta edição maravilhosa chegada directamente de NY que vai estar na minha mesa da sala. Não há calhamaços de arquitectura ou de design para me armar em esperta, só esta mega-edição que vou passar ao meu primogénito como um tesouro.

(obrigada a este moço pela compra e a este pelo transporte)

maio 13, 2008

Cortar (outr)o cordão umbilical

Já estava mais do que na altura e o meu pai começava a insistir nisso. Que já tinham passado dois anos, que precisava tratar das coisas, que provavelmente me ia esquecer. Não me esqueci (seria difícil com tantos lembretes...) e lá fui eu - o diploma já está aqui pronto para que os meus pais possam servir-se dele à vontade.

Foi uma sensação muito, muito estranha. Voltar à universidade, depois destes anos todos, causou-me um certo mau estar. Entrei e nenhuma das caras me era familiar, a esplanada continua cheia de alunos que preferem passar o seu tempo ao Sol em vez de encerrados numa sala da torre velha, há um pavilhão novo, pré-fabricado que alberga qualquer coisa que se parece com um café. A secretaria estava vazia: ninguém à espera, nenhuma senha para ser chamada, nenhum funcionário a atender. Depois de uns minutos de espera (em que tentava chamar a atenção para a minha presença), chegou uma moça nova que franziu o olho quando ouviu ao que eu vinha. Talvez pensasse que o diploma tivesse sido pedido há meia dúzia de dias, talvez pensasse que eu não sabia ao que ia. Trouxe-me aquela solitária folha, rabiscada por três ou quatro pessoas, carimbada e numerada e plim, cortou-se este cordão umbilical.

Quando vi o meu reflexo nos vidros da repartição académica, reparei que estava a sorrir. De alívio, acho eu. Não é que os meus anos na faculdade tenham sido, na sua essência, maus. Mas a quantidade de escolhas absurdas e pobres decisões que fiz nos primeiros tempos não me deixou saudades nenhumas. Quando olho para trás, o que vejo é um caminho tão mas tão incerto, tão intermitente que me apetece apagar tudo e voltar ao início. Não é bem arrependimento: de certa forma, tudo o que fiz serviu para me trazer até aqui. Mas saber que podia ter feito muito melhor é um grande castigo e uma coisa difícil de admitir. E depois há a questão da inutilidade do curso. Entrei na minha primeira opção, na faculdade que queria - fui eu que escolhi esta inutilidade. Nem o facto de ter completado o curso com um minor na área da comunicação mudou alguma coisa.

A inocência de quem entra para o ensino superior chega a ser comovente: as ilusões todas que temos, o desejo de ser diferente, a vontade de ser o melhor. Quase tudo para chegar ao fim e nos dizerem que temos excesso de qualificações ou que o que estudámos não tem qualquer serventia profissional. E eu sei que o que é preciso é não cruzar os braços e continuar a tentar por outros meios, eu sei. Mas é complicado não pensar O que é que eu andei a fazer estes anos todos?. Em todo o caso, eu acho que encontrei a resposta a isto. Estive a crescer.

maio 12, 2008

Do amor (perdido, sem salvação e sem futuro) *

He rose and walked out and stood barefoot in the sand and watched the pale surf appear all down the shore and roll and crash and darken again. When he went back to the fire he knelt and smoothed her hair as she slept and he said if he were God he would have made the world just so and no different.

* outra vez o sr. McCarthy em The Road.

We're the heirs to the glimmering world

Foi assim... como direi?

Perfeito.

(a vontade de saltar da cadeira. o suor provocado por tanta gente a gostar de uma coisa ao mesmo tempo. os gritos descontrolados na Squalor Victoria. uma espécie de nervoso sempre antes de começar uma música. toda a gente a gritar I won't fuck us over e eu a perguntar-me a mim mesma quantas vezes já o fiz. o Matt a subir pelos bancos das doutorais, amparado pelo público, em êxtase. mesmo a The Geese of Beverly Road que não tocaram, we'll run like we're awesome. pessoas que queria ver e pessoas que não queria mesmo ver. quero mais)

maio 11, 2008

E agora, se me dão licença, ...



... vou só ali deslumbrar-me mais um bocadinho e já venho.

maio 10, 2008

Dormir mais feliz #13

no teu corpo adormecido
imóvel e silencioso
desenho um mapa
do nosso grande amor

La traversée *

Ele leva o cigarro à boca enquanto a câmara segue atrás dele. O vento forte na escarpa deixa-lhe o cabelo em desalinho. Sobe sozinho pelo caminho já marcado, como se soubesse exactamente onde tem que chegar. Bebe um café e ri-se, as mãos dele tremem, são incertas porque querem ser perfeitas. Encosta a cabeça ao vidro da carruagem do comboio que rasga a paisagem urbana feita de ferro e vidro em repetição monótona. Quando sorri, brilham-lhe os olhos, ilumina-se-lhe o rosto e, por instantes, não é mais tímido. Está sentado em frente a um piano e é como se começasse lentamente a esquecer-se de quem é para nos devolver qualquer coisa mais pura. Tem duas argolas na orelha e deixa os cigarros arderem enquanto traz a sua fantasia ao mundo. É muito bonito e a música que faz, sem que ele saiba, encerra muitas das coisas que um dia eu já quis dizer. Chama-se Yann Tiersen.

* ou este documentário, onde me apaixonei ainda mais.

(O primeiro de mais) três dias inteiros sem trabalhar

Significa que os dias podem começar assim. E que posso saltar refeições e passar a ferro porque realmente me apetece (ok, isso nunca vai acontecer) e que posso ler o jornais atrasados e ver filmes que já me emprestaram há uma porrada de tempo. Posso simplesmente ficar à espera da chuva que ainda vai cair porque só já volto a trabalhar na terça-feira de manhã. Vou só ali preguiçar mais um bocado.

maio 08, 2008

I ♥ Lisboa

Já há muito tempo que sinto que a música tem um grande ascendente sobre a minha escrita. Não exactamente no facto de escrever sobre concertos ou sobre a música de que gosto, mas na sua influência determinante quando me sento a escrever qualquer coisa. Em alturas de maior melancolia, é quase assustador o fluxo de palavras quando escolho a música que vai bem com o meu estado de espírito.

Ontem à noite, enquanto folheava um dos jornais que tenho atrasados, descobri um concurso de escrita. Chama-se Lisboa à letra (podem consultar aqui) e convida jovens até aos trinta anos a escreverem sobre a cidade. Basta para isso que tenham nascido, trabalhem ou estudem aqui. Partindo de uma ideia que já tinha há bastante tempo, deixei que a música dos Dead Combo me conduzisse a mão e escrevi mais de duas mil e quinhentas palavras sobre a minha cidade adoptiva. Era giro ganhar qualquer coisa, pois claro que sim. Mas a sensação de escrever sem amarras e de saber exactamente o que escrever foi muito, muito boa. Se, como eu, aprenderam a amar esta cidade, é experimentar!

maio 07, 2008

Post das Lamentações

O tratamento (cujo preço quase me garantia uma apoplexia em plena farmácia e me arrancou uma nervosa gargalhada quando a farmacêutica me perguntou Mais alguma coisa?, sendo que a minha vontade era responder Sim, já agora aproveite e leve mesmo tudo o que me resta...) começou na segunda-feira, para que me consiga orientar facilmente. Eu, que sou um bocado distraída, dou por mim a ser muito metódica e organizada com os comprimidos e os cinquenta cremes (vá, cinco, mas que têm que ser usados por ordem ou o balúrdio que me custaram não vai definitivamente compensar). Só ainda não consegui decorar mesmo a sequência mas acho que dezasseis dias de antibióticos mais vinte de vitaminas (vezes dois, que isto quando se faz é a sério) se vão encarregar de a inscrever na minha cabeça.

Então, além de andar sempre com a cara muito cremosa, há o antibiótico. Que é muito fácil de tomar depois de jantar mas que significa que não há álcool para ninguém. Por isso, não é assim muito giro quando se marca um jogo de cartas em casa de amigos, chegam oito pessoas e há aperitivos espalhados pelas mesas e me perguntam O que é que bebes?, ao que eu respondo... Sumo? Tens? e a pessoa me atira um Ora, deixa-te de coisas... Uma mini? e eu me vejo forçada a repetir, envergonhada, ... um sumo?. Isto de beber é muito social, é para fazer companhia e eu ontem não fiz grande companhia à malta do Carolands nem do Porto Ferreira e muito menos do whisky. Se calhar posso explicar a minha derrota em dois jogos de King assim, calha bem.

A juntar a isto tudo, já o suficiente para me deixar nervosa, acontece que resolvi andar muito. Deixei o autocarro de lado e passei a andar só de metro, o que me obriga a uma caminhada bem mais longa até à estação do Rato. De manhã, nem preciso dizer o agradável que é atravessar o jardim da Estrela pela fresca, ainda só frequentado pela malta que corre no circuito e um ou dois velhotes. Mas, com esta temperatura meio tropical e a chuva que cai-ora-não-cai, o regresso à tarde é sempre demasiado suado para esta altura do ano. Depois, chego a casa e faço umas séries de abdominais mesmo antes de me enfiar no banho. Não sei se já está a dar resultado mas faz-me sofrer um bocado. Isso já deve ser bom sinal. Ai.

maio 04, 2008

Razões (realmente muito) boas para se voltar a casa

As favas com morcela e salada de alface migada da minha avó. Andar treze quilómetros até ao Senhor dos Aflitos entre as sete e as nove e meia da manhã, respirando o cheiro a giestas e rasgando o nevoeiro matinal. A minha outra avó a dizer empalangosa*, referindo-se a uma vizinha que costuma visitá-la durante tempo demais.

*apenas um dos inumeráveis neologismos com que ela constrói diariamente o seu discurso!

maio 03, 2008

The Allstar Project

Os The Allstar Project e a varanda pró-cigarros pós-concertos

[As encostas despidas de um desfiladeiro. A violência de um motim. Os corredores de umas ruínas abandonadas. Uma viagem pelo espaço. Toda a vida a passar à nossa frente em câmara lenta. Tenho a certeza que se a bolha da minha tristeza algum dia rebentasse era este o som que iria sair lá de dentro.]

Ontem, mais uma (e outra) vez, foi dia de pensar que não presto a devida atenção ao que se faz por cá. É claro que vamos ouvindo bandas que têm mais projecção nas rádios ou noutros meios de comunicação mas cada vez mais penso que as escolhas editoriais que se fazem são demasiado orientadas para um público que quer ouvir coisas simples, sem analisar ou comprometer gostos. Aqui têm os The Allstar Project, que fazem música violentamente bonita, que têm a escola das bandas que ouvia enquanto me tornava numa adolescente impossível e que dão um espectáculo intenso, quase espesso. Se eu tivesse que escolher só um género de música acho que escolhia este: é música boa para sonhar, ouvir sossegada com o volume no máximo, para ler, para domar os sentimentos, para expulsar demónios, fazer planos e suposições, para fazer viagens no Verão com a janela escancarada, à procura duma réstia de fresco.

maio 01, 2008

Lido por aí

(sem direito a link, desta vez)

Um rapaz mal desenhado *

Vive na minha cabeça

Um rapaz sem contornos.

Tem olhos grandes

Castanhos

E transbordantes de desejo.

Não lhe conheço os lábios

Mas adivinho-os macios

E molhados.

Olham-me com paixão

Aqueles olhos grandes.

Sofre com o desprezo

De uma mulher distante

E repousa os olhos

No meu colo quente.

O rapaz de olhos enormes

Sente dor

E eu sinto com ele

Tudo o que negam

Aos seus olhos castanhos.

Imagino

Beijar-lhe os olhos

Devagarinho

Enquanto lhe procuro os lábios.

Amarga-me a tristeza

Que jorra

Daqueles olhos grandes.

Quando o nosso olhar se cruzar,

Um dia,

Os meus olhos castanhos

Vão beijar

Os olhos grandes dele

E o desejo tomará conta

Do resto do nosso corpo.

*título gentilmente emprestado de uma das novas músicas d'A Naifa

abril 30, 2008

Algumas imprecisões sobre os últimos dias

Pois que a vida nos últimos dias tem muito de música pelo meio mas não tem sido apenas isso. O meu afilhado fez trinta-anos-trinta na segunda-feira e fomos comemorar com uma festa surpresa. Escolheu-se um sítio janota à beira rio e jantámos calmamente, ele já com a sua camisola do Glorioso vestida.

A ideia dos trinta já me começa a assustar, embora ainda me falte (pelo menos) um ano. Lembro-me da minha madrinha dizer que nunca se tinha sentido melhor quando entrou na terceira década da sua vida e de como só aí começara a aproveitar realmente a vida. Eu sinto-me mais confiante que antes e mais capaz de viver, menos ansiosa e certamente mais experiente. E sinto que estou a anos luz da pessoa que era aos vinte anos. Mas onde é que isso tornou tudo melhor ou mais fácil? Onde é que a vida mudou exactamente para eu sentir a vantagem de crescer? Eu não dei ainda por nada. Portanto, até ver, chegar aos trinta assusta porque eu nem sequer penso em mim como uma pessoa com mais do que vinte anos. Se calhar chegar lá é começar a ter algumas certezas. Por enquanto, continuo a deitar-me cheia de perguntas na cabeça.

Tive que tomar medidas drásticas porque estou cansada que o meu corpo continue a achar que não passei da adolescência. O médico explicou-me tudo em pouco mais que cinco minutos dentro daquele consultório antigo (tão antigo como o senhor doutor, se calhar) e assim se gasta (nesse tempo recorde dentro de uma sala) demasiado dinheiro. Eu adoro ser mulher mas os truques e os sacrifícios que são esperados de nós para que nos pareçamos com esses ideais de beleza fabricados às vezes moem-me.

Hoje é véspera de feriado e (como se lê) estou em casa, sem quaisquer planos para sair. Não exactamente por falta de opções ou convites - simplesmente porque quero estar sozinha. A noite promete o seguinte esquema: fazer um café -> ver um episódio do Lost -> fazer a minha variação do gin tónico -> ver um filme do Spike Lee -> repetir a dose do gin tónico -> quem sabe o que vai resultar depois das duas doses? Não sou anti-social e já fui mais bicho do mato. Mas, numa noite em que não preciso dormir e em que a manhã vai durar para além das oito da manhã, eu quero fazer apenas e só o que me apetece. E agora quero estar só.

Jose Gonzalez é ♥

(a foto possível - atraiçoada pela falta de pilhas e pelo controlo constante dos seguranças)

A delicadeza de um nórdico num corpo de um latino. Um trato quase angelical. Uma forma subtil de nos prender a ele, à guitarra que parece saber a música de cor. A timidez adolescente de quem não sabe o que fazer debaixo dos holofotes.

Não fazia ideia se ia ou não ser um bom concerto. Mais do que isso, foi um momento de extrema intimidade que durou uma hora e meia. O auditório estava completamente rendido às canções em crescendo, à guitarra que, apesar de solitária, enchia o palco quase vazio. Tocou tudo o que eu queria ouvir exactamente da forma como eu queria ouvir: de olhos fechados, concentrado e doce quando agradecia entre músicas. Mas também eu sou uma parva que se deixa arrebatar por tudo e por nada, que se comove com um certo pormenor das luzes. Em todo o caso, este sueco já me tinha conquistado há muito tempo. Agora, fui só eu a cair finalmente de amores por ele.

abril 27, 2008

A Naifa

Todo o amor do Mundo não foi suficiente
Porque o amor não vale de nada

Não há remédio. Não consigo parar de olhar fascinada para ela assim que as luzes se acendem. Tem um aspecto frágil mas parece que traz dentro toda a experiência do Mundo. A voz quente canta sobre desgostos de amor, sobre vulnerabilidade, sobre segredos que não se dizem em voz alta. Quando ouço as músicas mais antigas, o conforto é quase físico. Sinto-me desprotegida quando ela fecha os olhos e afasta o microfone da boca. Ela sorri timidamente, como a adolescente que às vezes eu também sou. Os rapazes também merecem a atenção mas é na voz dela que fico pendurada, em constante tentativa de antecipação da dor. É profundamente comovente, esta Maria Antónia. E a música desarma-me com demasiada facilidade, não consigo defender-me. Quando ouço a dor de todas as mulheres que se escondem naquela voz, desisto e deixo que as lágrimas me marejem os olhos. Não o suficiente para caírem - só para o olhar ficar vidrado e inundado por esta espécie boa de tristeza.

(e a tristeza que aumenta quando parece que vejo uma cara conhecida passear-se no piso de cima. ele é igual a ti, parece que os gestos se repetem também: a maneira como leva a cerveja à boca ou como pega no cigarro. de repente, é como se não estivesses a quilómetros de distância mas aqui e tivesses esquecido depressa. já esqueceste, eu sei, mas estavas ali e eu só queria cheirar-te o perfume outra vez. silencio a vontade de te passar as mãos pelos cabelos, fecho os olhos e faço-te voltar para onde realmente estás. impossivelmente longe.)

abril 26, 2008

Melech Mechaya

Como sempre, mais uma noite de surpresa e música boa de se descobrir. Os Melech Mechaya foram tocar à Quina das Beatas e foi como se, de repente, tivessem entrado os Balcãs inteiros por aquela porta. São cinco rapazes (de Évora, ouviu-se) que ofereceram chapéus a toda a gente, que se divertiram imenso em cima do palco e me deixaram menos triste por não ver Beirut. Cheirava a Verão e a noite estava perfeita para estarmos sentados na rua. Traz boas vibrações, este calor de Abril.

abril 25, 2008

Noites longas

A. em modo acrobático nas ruas tardias de Portalegre

- Epá, eu consigo fazer umas cinco ou seis cambalhotas de seguida.
- Ah sim? E que tal se fosse já? Agora, ali fora?
- Vamos a isso!

(Pode mesmo acontecer um bocado de tudo. Podemos montar a esplanada em dois minutos para aproveitar a noite que parece de Verão. E depois podemos ir à pizzaria que já fechou e beber uma cerveja enquanto comemos fiambre aos cubos. Se voltarmos, bebemos mais uma cerveja enquanto ponderamos se vale a pena tirar a máquina da mala. Podemos maldizer todos os êxitos da Tina Turner que estamos a ouvir mas não podemos evitar saber as letras... E quando percebemos que sim, que vale a pena, ainda não é tarde demais para uma cambalhota em frente ao museu. Talvez pudesse acontecer tudo noutro sítio. Mas acho que só aqui é que sabe bem.)

abril 23, 2008

A minha memória é uma estrada

Havendo algumas coisas sobre as quais me apetecia escrever, agora só me sai isto*.

Just remember that the things you put into your head are there forever, he said. You might want to think about that.

You forget some things, dont you?

Yes. You forget what you want to remember and you remember what you want to forget.

* do brilhante Cormac McCarthy em The Road.

abril 22, 2008

Nick

Um homem de cinquenta e um anos pisa o palco do Coliseu. A multidão, à visão do incontornável fato escuro e do bigode impecavelmente aparado, grita, como que dizendo que já ia sendo altura dele regressar. Há duas baterias em palco, há luzes entre o vermelho e o rosa a contrastarem com o negro do homem que se move agilmente entre os restantes membros da banda. Talvez por ser o primeiro concerto da digressão, o homem parece incansável e bem humorado. Apesar de não ser conversador, diz o suficiente para deixar o público à sua mercê. Faz dois encores, em que deixa o público escolher o que quer ouvir. A multidão abandona o Coliseu com um tranquilo ar de satisfação.

(Nunca fui a maior das fãs mas ensinaram-me a gostar dele. Por isso é que, quando ouvi a Red right hand e a Stagger Lee, estar ali fez sentido. São apenas duas músicas mas que trazem consigo duas caras e ainda mais recordações que parecia ter esquecido. Eram tempos de pura confusão e ideias desalinhadas, noites em que chegava a casa às sete da manhã e ficava no tapete da sala a ouvir música de olhos fechados. Eram noites em que ficava a fumar num parque infantil perto de casa, em que escrevia e recebia cartas sem saber exactamente o que estava a fazer. Eram tempos de sentimentos proibidos e pouco claros. Mas eram tempos profundamente empolgantes e pródigos em vontade de arriscar. Se a música dele não me trouxe mais nada, chegam-me estas memórias desconjuntadas, que começam num banco do Terreiro do Paço e terminam numa tasca suja do Bairro Alto. Portanto, gostando muito ou não, também faz um bocadinho parte de mim. E eu saí tranquila e com tímidas saudades daqueles olhos castanhos.)

abril 21, 2008

Liquid magma noise, man.



Não consigo ouvir esta música (chamada Lovely Allen, dos Holy Fuck - um nome pouco cândido, é certo) sem sentir pelo menos uma pontinha de felicidade. Não porque a vida me corra assim tão bem mas às vezes é muito difícil não sorrir e pensar que, afinal de contas, somos pessoas cheias de sorte. É isso: a música enche-me de esperança. E, mesmo que hoje esteja naquele pico depressivo pós-festa, apetece-me dizer que (com jeito) isto vai.

(uma garrafa de rosé bebida em casa entre confissões risota; um restaurante alentejano com os melhores torresmos e alheira de caça dos últimos tempos; o karaoke demasiado mau para ser verdade, com os colegas de trabalho a abrilhantarem a noite e aquela malta que lá está todas as noites a tentar brilhar; o Incógnito em modo electro com gin tónico, cheiro a cereja e pernas em movimento constante; os aguaceiros antes do táxi de volta à Lapa; dois copos de leite e os olhos fechados no sofá; sossegar)

abril 17, 2008

Substituição: sai o moço deprimido, entram os betinhos cheios de ritmo.



Estou até agora a pensar que é um erro ficar contente e falar nisto mas não consigo. Depois deste outro concerto ser cancelado devido a razões de força maior, tratei hoje de reservar o meu lugar na pista de dança onde estes moços vão contagiar toda a gente com as cores dos pólos e pulloverzinhos de meninos bem comportados. Também vai ser a minha primeira vez no Porto* (assim a sério, mesmo de verdade, sem ser de passagem ou para apanhar um avião) e, consequentemente, nesta sala de espectáculos. Posso estar muito ansiosa por ver outros concertos mas estou ainda mais contente por poder ir abanar a anca ao som disto!

* sim, eu sei que não conhecer o Porto é uma mancha enorme no meu currículo geográfico e já há muito que pensava em colmatar essa falha. Mas à falta de uma ida espontânea, agora há um motivo gigante para ir que vai transformar a visita em algo memorável - é que, não sei as outras pessoas, mas eu vou partir aquela pista toda. Figurativamente falando, claro.

abril 16, 2008

O jogo de hoje do Benfica pareceu-se um bocado com as minhas relações até agora. Na primeira parte, dominou e mostrou-se uma equipa sólida e confiante. Na segunda, depois de voltar dos balneários, foi lentamente sofrendo do excesso de confiança e da ilusão do resultado. Onde antes havia segurança, passou a existir atrapalhação e desnorteio. E quando é assim, o final beneficia sempre a outra parte.

It's a kind of magic...

Lá no escritório, eu tenho a fama de pôr as coisas a funcionar. Sempre que uma folha de cálculo não responde ou a pasta dos Meus Documentos nem sequer aparece, a(s) pessoa (s) chama(m)-me e pede para eu ir até ao seu lugar. Quando chego, coloco-me atrás dela (s) e, miraculosamente, o que antes não funcionava passa a funcionar às mil maravilhas. Mas é sempre, hã? Há quem diga que é por às vezes não ser a pessoa mais simpática do Mundo. Eu cá prefiro pensar que é puro magnetismo sobre as tecnologias.

Aconteceu há dois dias estar num centro comercial com um amigo e o carro dele não pegar. Depois de chegarmos com variadas compras nas mãos, ele meteu a chave na ignição e nada. Nadinha, só um tic tic muito tímido, nada de faísca no motor de arranque. Primeiro, achámos que talvez o carro estivesse quente e que seria preferível esperar um pouco. Mas o tempo arrastava-se, já tínhamos pago o parque há mais de vinte minutos e o carro insistia em ficar sossegado. O atendimento do parque (muito prestável, diga-se de passagem) prontificou-se a enviar a assistência deles, o que nós amavelmente recusámos devido aos potenciais custos.

Portanto, estávamos os dois no carro, perdidos de riso, a ver as horas do jantar a passarem e sem esperança do bicho voltar a funcionar. Quando ficámos fartos de esperar, decidimo-nos pelo evidente: empurrar o carro e tentar que pegasse em andamento. Pedimos ajuda a um jovem que acabara de estacionar: primeiro, olhou desconfiado; depois, percebeu o desespero e resolveu ajudar. Na primeira tentativa, não larguei de imediato a embraiagem e o carro não pegou. Na segunda tentativa, larguei a embraiagem e o carro não pegou. Já tínhamos desistido e o meu amigo tinha-se decidido pela assistência em viagem quando eu, só porque sou a pessoa mais teimosa do Mundo, resolvi voltar a rodar a chave. E o carro pegou. Puro acaso? Talvez. Mas desta vez o acaso granjeou-me grande sucesso entre... bem, entre mim e o meu amigo.

Portanto, o magnetismo não se limita às tecnologias. Estende-se também à mecânica. Acho que vou abrir um consultório.

Acho que estou seriamente viciada.



So I'm moving to New York *
'Cos I've got problems with my sleep

* [antes fosse.]

abril 15, 2008

K de Kazoo

Já antes tinha falado da minha falta de talento para trabalhos manuais ou para a música. Mas até agora nunca tinha tido um instrumento meu (excluindo, claro, a minha voz). E ontem ofereceram-me este kazoo, garantindo-me que isto é viciante e que, acima de tudo, é fácil de usar. Lá genial é ele, que sempre nos dá a ideia de estarmos a fazer algo de particularmente interessante no mundo das canções. É claro que me ri e disse na altura que isto não era nenhum desafio, que era demasiado fácil fazer música com ele, que era só soprar e a música havia de sair.

O problema foi quando, em casa, tentei sacar com facilidade uma versão duma música dos Vampire Weekend. Não deu. Quer dizer, não consegui mais do que soprar sem qualquer consequência, quase sem som. À segunda vez, percebi que há ali um jeito que se dá com a língua (acho eu, que muitas vezes não sei explicar como consigo determinadas proezas) e que, isso sim, faz com que haja qualquer coisa parecida com música. Mais do que lutar para conseguir uma canção completa, ando a lutar com o ridícula que me sinto quanto tento tocar. E se calhar isto nem vem a ser um mau treino. Saber ser ridícula com classe sempre é outra coisa.

abril 14, 2008

Bairrismo

A minha vizinha do lado (que tem mais de sessenta e tal anos) faz-me travessas de aletria, oferece-me pedras semi-preciosas no Natal, recolhe a roupa que esqueci no meu estendal com um anzol (!) e canta o fado enquanto recolhe a roupa dela.

(Um post sossegado a contrastar com o regresso ao trabalho: sem sistema a manhã inteira, houve milhares de contratos para serem separados. Há mais trabalho em espera do que o que esperava e tudo tem que ficar pronto até Sábado. A minha chefe foi de férias, os assistentes perdem a memória todos os dias e as tarefas acumulam-se na minha lista de prioridades. Acho que preciso de férias outra vez. Desta vez, a sério.)

abril 12, 2008

Badlovers & Hysteria Iberika

Foi a última Quina das Beatas antes de voltar à dura realidade. Numa das noites mais concorridas dos últimos tempos, vimos os Badlovers & Hysteria Iberika a flirtar com o público, com gritos a incitar à dança e provocações constantes. Eu era muito pequena quando explodiu a Movida espanhola mas aposto que se parecia um bocadinho com isto. E a frase da noite foi "No me interessa tu polla, solo tu dinero"... Ahem.

abril 11, 2008

Contagem descrescente

Portalegre, pormenor do Paço Episcopal

E eis que ao último dia de férias a chuva dá uma trégua. Em vez das enxurradas dos últimos dias, um Sol tímido por entre nuvens muito altas fez-me ter vontade de sair de casa. Os últimos 5 dias tinham sido passados fechada em casa, sem vontade de encarar a chuva ou o vento forte. Hoje, que é oficialmente o meu último dia de férias, aproveitei para passear um pouco e para [literalmente] ver a luz do dia. Não sinto grande coisa em relação ao fim das férias: demasiado tempo de inactividade leva-me sempre a desejar regressar à rotina. Talvez Domingo o sentimento seja outro e me recuse a entrar no carro para mais duzentos quilómetros. Vou tentar aproveitar ao máximo o tempo que me resta aqui para que na Segunda, quando voltar a ser escrava do sistema (um sistema qualquer, um monstro abstracto e castrador), possa rir-me por dentro e encarar o regresso com coragem.

Casa ♥

Imortalizá-la no (meu) tempo.

abril 10, 2008

We never get to dance, we just seem to stare. *

O tempo vai mudar, eu sei. Denuncia-o o vento que me revolve os cabelos quando fecho a porta do carro e o fumo que as chaminés derramam sobre as ruas do meu bairro. Sei-o quando estou parada, a porta aberta só para ver chover como se fosse a primeira vez, como se não adivinhasse este dilúvio já. Quando te disse que gostava de ouvir esta música muito alto, era apenas isso que queria dizer: que a queria ouvir até que ela me cobrisse, até que não houvesse mais nada. Conversamos tanto sobre tão pouco que às vezes duvido da minha capacidade de abstracção. Falamos, usamos palavras gastas, moldamos-lhe o significado, tentamos alterar-lhes o sentido até que elas possam dizer exactamente o que queremos mas nunca conseguimos, ficamos sempre quase lá.

E tu, quando tu me pedes silenciosamente para ficar, sabes que gostaria de ficar. Desenterras a ferida mestra com que me marquei um dia e sabes exactamente quando e como me vou magoar. Não faz mal, penso eu. Não importa que saibas ler-me para além de todo o ruído com que normalmente me cerco. Eu quero ser triste contigo porque tu sabes como dói. E quando a minha dor passa a ser a nossa dor, a tristeza amansa e somos menos tristes, as duas. Sentada neste banco alto, espero apenas o momento em que me desarmas para soltar o dilúvio. De palavras, de sal. E se me ofereces mais um copo, é porque sabes como a dor desiste de mim quando a euforia me controla o corpo. Só quero que me doa até chegar aqui. Até ao momento em que abrimos a porta e há um rio castanho a lamber a soleira. Antes disso e depois disso, eu sou apenas mais uma.

* de alguém de quem gosto muito.

abril 09, 2008

Porquê?

Em resposta ao desafio que a Sónia me lançou aqui, fica a explicação.

Nas primeiras vezes, escrevi num blog (que já não existe) em forma de diário. Tendo perdido a password para aceder ao mesmo, copiei os textos que tinha lá e foi assim que comecei este. Naquela altura, pensei que era uma maneira mais ou menos segura de manter um diário, sem os constrangimentos de alguém o poder ler. Já tinha experimentado a versão papel mas uma vergonha constante de ser descoberta fez-me desistir.

Depois de colados os textos neste blog, comecei a perceber que havia mais coisas sobre as quais podia escrever. E a verdade é que, ao longo dos tempos, a escrita adensou-se e foi acompanhando os meus (inúmeros) picos de humor. No início, ninguém sabia da existência do blog mas sabia que, por ser um local público, era provável que alguém lesse o que escrevia. Lembro-me que um amigo o descobriu, acidentalmente, em 2004, o que provocou uma mini-revolução na minha maneira de escrever porque sabia que estavam de olhos postos em mim.

Quando estive em Berlim, tinha a intenção de usar o espaço para mostrar como se vivia por lá. Mas a preguiça e a dificuldade no acesso à internet não me motivaram e só sobraram meia dúzia de posts errantes. Só depois de voltar consegui manter uma frequência digna desse nome - e aí já mais gente sabia que escrevia. Daí até chegar ao ponto onde estamos hoje foi um salto.

Continuo a escrever porque é, talvez, aquilo que me dá mais prazer. Sem talento para trabalhos manuais ou para tocar qualquer instrumento, sobra-me a escrita. Também não vou negar que a esperança de existir gente desse lado me faz continuar: é muito reconfortante essa sensação de feedback, de partilha - de público, enfim. Mas provavelmente continuaria a escrever se tudo isso não passasse de uma esperança porque preciso. Nem que seja meia dúzia de palavras. E a vocês, o que vos move? Ao Pedro, ao Cosmonauta, à Catita, à SuperM. e à Berlinerin.

abril 07, 2008

Uma cidade adormecida

Era Domingo de manhã e eu precisava sair de casa com urgência, depois de um Sábado passado a contorcer-me ora no sofá, ora na cama. A minha mãe tinha-me dito que o melhor era vestir umas calças e ir para a rua andar um bocado. Não saí de casa antes de procurar um boné. Estava tanto calor para um Domingo de Abril mas nada que possamos realmente estranhar porque agora quase só temos duas estações. Havia mais pessoas a subirem a serra, devagar, conversando sobre coisas que a música não me deixava ouvir, suando debaixo do mesmo Sol que fazia com que destilasse todos os meus excessos.

Quando desliguei a música dei-me conta da ausência de sons, à excepção talvez das cigarras e do crepitar das ervas secas. Portalegre ainda estava a dormir ou a espreguiçar-se pelas altitudes que (dizem) já não deviam ser alentejanas. Evaporavam-se os meus males com a caminhada e encontrava finalmente a tranquilidade de que andava à procura.

abril 06, 2008

Wraygunn

Dificilmente podia ter um melhor começo de férias. Um concerto no sítio do costume e uma noitada à moda antiga, com direito a discoteca e tudo. Desta vez, os Wraygunn tocaram no Grande Auditório, que infelizmente estava muito longe de esgotado. Mas se calhar essa mesma ausência de público tornou o concerto num acontecimento muito mais espontâneo e ajudou a que pouca gente fizesse a festa em grande. Todos foram convidados a estar perto do palco e, no momento mais surrealista da noite, dada a possibilidade de alguns motores serem danificados (quando se falou nisso houve uma gargalhada geral na sala porque ninguém entendeu do que se falava), todos foram convidados a subir ao palco.

Não contente apenas com o público a partilhar os holofotes, o homem tigre ainda montou o microfone na primeira fila da plateia e tocou entre um público impressionado com a sua espontaneidade. Galgou todas as filas da plateia de microfone em punho, demonstrou o seu sentido de humor com um casal de holandeses que também se encontrava no concerto e acabou a noite a passar discos no bar do café-concerto. É por isto que é tão bom ouvir e ver música aqui - porque a certa altura artista e público tornam-se num só e, de copo na mão, é muito difícil distinguir quem é quem.

* uma nota breve sobre o encontro de blogues que este concerto proporcionou. Pedro, espero que a tua princesa tenha gostado das Princesas no Gelo

abril 03, 2008

Return to sender

Mala feita. Livros, máquina fotográfica, jornais em atraso, disco externo num saco. Não tenho planos nenhuns para a próxima semana, que será de férias em casa. Também podia ficar em Lisboa para acordar cedo todos os dias e pensar, aliviada, que não preciso ir trabalhar. E podia aproveitar este tempo desregrado para dar um salto a uma praia qualquer.

Faz por esta altura um ano que estava aqui e não conseguia encontrar melhor sítio para estar. Apetecia-me repetir estes dias todos que passei sozinha a conduzir quase sempre à beira-mar, a comer peixe fresco em restaurantes em que era a única cliente, a estrear a roupa de Verão, a passar a manhã inteira na Zambujeira com um pequeno-almoço daqueles enquanto lia o jornal e gozava o silêncio, a fazer uma espécie de viagem de reconhecimento dentro de mim. Quase nunca conduzi a mais do que setenta quilómetros por hora, descobri praias escondidas por caminhos de terra batida e comi o primeiro gelado do ano enquanto ia a pé para a praia de Almograve.

Como ainda não sou milionária, não posso seguir à letra essa ideia das férias fora de época. Trabalha-se em Agosto, enquanto toda a gente esgota as praias e os sítios giros de se visitar, e gozam-se as férias num mês improvável, quando a possibilidade de encontrar mais gente na mesma situação diminui drasticamente. Resta-me saber que no meu destino vou encontrar desse silêncio. Mais familiar, é certo, mas igualmente bom para pensar. Faltam dezasseis horas e meia e eu sinto o tempo a passar devagar. Quando voltar, estarei já em modo férias.

abril 02, 2008

Idiossincrasia

Enquanto aspirava o quarto e a cozinha dei comigo a pensar que umas vezes quase me emociono quando encontro pessoas parecidas comigo (os mesmos gostos, as mesmas ambições, as mesmas maneiras de encarar as dificuldades). Noutras vezes, apenas sinto um esboço de tédio. Às vezes, sinto-me a pessoa mais cruel que existe.

(E, nem a propósito, preparo-me para ver o There will be blood, onde (parece) vou encontrar uma personagem que vai mudar a minha definição de crueldade. Para me lembrar que não sou assim todos os dias.)

março 31, 2008

Ficção #3

(Sobre alguém que ainda não conheço.)

Tento domar o cabelo com um elástico em frente ao espelho. Estou sozinha em casa mas é como se ele espreitasse sobre o meu ombro. Primeiro, sinto-me tentada a sorrir. Mas logo repito, em silêncio, as palavras com que me enfeitiçou mais uma noite. Decorei cada sequência para poder repeti-la na minha cabeça até à náusea, até me sentir livre outra vez. Sei de cor todas as mentiras que me disse até agora, todas as promessas ocas que esbanjou em todas as noites que estivemos juntos. Como se me pudesse iludir durante mais que umas horas. E mesmo essas horas sou eu que mas permito, como um barco frágil navegando desgovernado nesse mar de palavras que já não sei se ouvi ou se inventei. Quando mais me olho no espelho, mais suspeito que está a acontecer outra* vez. E, como em todas as vezes, planeio sair**. Receio que, como sempre, vá sair tarde demais e preparo-me para os estilhaços do que aí vem.

* a corda ainda prende o pé mas eu já fugi daqui tantas vezes
** ainda é cedo muito tarde p'ra me vires buscar

março 29, 2008

Só porque não há duas sem três.

E porque estou extremamente feliz. Não me interessa que não tenha um pé de meia para as eventualidades. Gosto de concertos.

Alla Polacca

Cumprindo o ritual das sextas-feiras, ontem foi noite de ver os Alla Polacca aqui. Acho que foi o primeiro concerto a que assisti em que o encore foi brutalmente melhor que o concerto em si. Portanto, não subestimem o poder das minis alentejanas: depois de beber algumas, a música pode tornar-se incrivelmente mais densa e inspiradora. E para terminar a noite, nada como um pezinho de dança ao som dos Vampire Weekend e a Someone Great dos LCD Soundsystem a fechar. Perfeito.

Pórtiched

Portanto, o concerto dos Portishead...

Eu já sei o que os fãs indefectíveis vão dizer. Que foi um espectáculo, que foi o concerto da vida deles, que esperaram anos para vê-los, que já tardava o regresso. Eu não pertenço a esse grupo de pessoas: gosto dos Portishead mas não são a banda da minha vida nem pouco mais ou menos. Ouvi-os muito numa altura mais feliz da minha vida e por isso não os consigo associar a outra coisa senão felicidade. Mesmo que o negrume de algumas músicas (como na Wondering Stars) às vezes se imponha e faça esquecer tudo.

Gostei do concerto. As músicas com as linhas de baixo mais graves e com as batidas sujas podiam ter sido enormes mas foram só assim-assim. A escuridão continuou a ser a escuridão e a voz da Beth provou(-me) ser suficiente para encher o Coliseu inteiro. Safaram-se os três ecrãs atrás da banda que, projectando imagens ao sabor da música ou a banda enquanto tocava, ajudaram a tornar a música mais envolvente. Mas foi só isso. Gostava que tivessem falado mais com o público - afinal sempre são onze anos sem dizer olá. Gostava que ela estivesse mais tempo virada para o público do que para os músicos. Gostava que tivesse existido uma centelha de emoção. Eu não senti muita.

março 26, 2008

Grandes receitas para pequenos problemas

Esta semana, apenas com quatro dias de trabalho, revelou-se a mais difícil dos últimos tempos. Já tinha regressado o escritório com a certeza de que a minha tentativa de desinteresse não iria passar em claro mas não esperava o embate de ontem. A procura de um novo pouso não parou mas a ideia de ter férias daqui a uma semana tranquiliza-me - é mais tempo para procurar. Para este desalento e cinzentismo todo encontrei as receitas:

- ver episódios da terceira série do Lost como se não houvesse amanhã, até chegar ao célebre (pelo menos neste grupo amigos) episódio dezanove. Sentir o rabo dormente de tanta hora passada deitada/sentada/em permanente escorreganço entre a cama de lá e a cama de cá;

- tratar dos assuntos relacionados com números (novo jogo de pneus a um preço mínimo já a caminho e a declaração de impostas preenchida em dez minutos para, no momento da simulação, perceber que devo receber para cima da centena de contos);

- ver a bebé mais fofa dos últimos tempos, a primeira filha de um dos amigos mais chegados. Despertar os sorrisos da pequena para depois ela bolsar - primeiro no meu casaco, depois para dentro da minha mala;

- chegar a casa e abrir o correio para ficar surpreendida com a eficácia. Levantar na estação de correios de Campo de Ourique o novo pack Linda Martini (vinil+EP+tote bag) e o novo dos If Lucy Fell;

- relativizar. Mas relativizar tanto que nem mesmo a possibilidade de morrer à fome me pareça importante. Relativizar até sentir que os meus problemas são patéticos e risíveis. Relativizar até sentir os problemas dos outros como meus.

E rezar... Bem, não exactamente rezar mas qualquer coisa parecida com pedir baixinho a uma entidade superior qualquer que faça isto passar depressa, que ainda me dispense o poder da decisão e da clarividência, que não me deixe esgotar em trivialidades e faits divers. E que me dê tranquilidade. É pedir demais, talvez. Mas metade do caminho já fiz eu.

março 24, 2008

Pull me out (of the possible car crash)

O carro perdeu imensa velocidade e, vindo da bagageira, começou um ruído altíssimo e estranho. Pensava que era simplesmente por a subida ser acentuada e o carro, velho como é, não estar a aguentar. Mas afinal era um furo. Não, melhor: era um pneu novo completamente estraçalhado.

Não foi assim muito divertido. À velocidade a que ia, foi quase um milagre o carro não ter desviado a sua trajectória e não ser obrigada a nenhuma manobra súbita. Estava bastante calor para estar parada ao Sol. O triângulo, que nunca antes tinha usado, estava partido. O colete também ainda não tinha sido retirado do saquinho plástico. Depois de tudo devidamente sinalizado, peguei no pneu suplente e no macaco para começar a troca. O carro estava demasiado baixo para conseguir enfiar o macaco no sítio e levantá-lo. E foi mais ou menos aí que começou a frustração, talvez até um pouco mais cedo: sentir que precisava ser mais autónoma e não conseguir, querer resolver um problema e sentir que a solução está a uns quilómetros de distância. E a solução não foi exactamente a assistência, mas sim o meu paizinho*, que ainda estava a poucos quilómetros de casa.

Odeio ser frágil. Porque não era não saber como se mudava um pneu- era não ter a força para alterar a inclinação do carro, para contrariar as leis da física. E provavelmente, mesmo que conseguisse colocar o macaco na posição correcta, não iria conseguir desapertar as porcas. E agora, como se o resto das despesas não estivessem já contra mim, vou provavelmente ter que comprar dois pneus. Portanto, foi um dia impecável, a deixar a minha auto-estima e o meu orçamento pelos dias da amargura. Nem sei se hei-de pensar que melhores dias virão ou que o pior ainda está aí a espreitar... Vou fingir que não me lembro da lei de Murphy.

* que, quero que fique registado publicamente, é o maior do Mundo por correr sempre para mim quando preciso, por me acalmar com aquele ar de quem sabe tudo (mas tudo!) o que é preciso e que não fica zangado por me ter ensinado a mudar um pneu sem sucesso (vemos agora).

março 22, 2008

Ölga

Mais uma noite, mais uma surpresa. Três moços apenas, projecções numa parede que desta vez pareceu pequena, a casa quase quase cheia. Mais música a descobrir, a provar que nem sempre tenho sido ouvinte atenta da nova música portuguesa. Podem ouvi-los aqui.

março 21, 2008

E não consigo evitar falar nisto.

Não sou professora mas quis ser durante quase toda a minha vida. Desde a minha quarta classe que sentia que era isso que saberia fazer e só as vicissitudes da vida (um curso que demorou demasiado tempo a ser acabado, um mercado de trabalho que mudou drasticamente, outros horizontes e outras pessoas) me fizeram mudar de ideias. Mas, mesmo não pertencendo à classe, não consigo deixar de ficar indignada com os últimos acontecimentos. O video que agora veio a lume só vem dar razão à minha (forçada) decisão: ser professor é uma questão de vocação e de esforço, muitas vezes não compensados.

Não me choca que o video tenha chegado à internet, é apenas natural que isso acontecesse. Nem me choca que o motivo da discórdia fosse um telemóvel porque é apenas um sinal dos tempos em que vivemos. Mas toda aquela falta de respeito, todo o desprezo que os alunos mostraram pela professora deixa-me enojada e envergonhada. Fico constrangida quando penso que é com aquela frivolidade que os alunos se sentam numa sala de aulas. Sempre fui uma aluna sossegada mas reconheço a naturalidade de alguns comportamentos, especialmente em idades tão estranhas como são os 14 ou 15 anos. Tive colegas que gostavam de provocação e de desafios mas nunca a este nível.

É claro que desrespeito existiu sempre. É evidente que sempre houve alunos calados e alunos destabilizadores. Mas provavelmente a estes distúrbios seguiam-se medidas correctivas que, pelo menos, restituíam alguma dignidade aos ofendidos. Sou nova mas ainda me lembro dos caldos do professor Júlio ou das chapadas de outros professores. E, atenção, sou completamente contra todas as formas de violência. Mas também sou contra situações destas, em que os alunos saem normalmente impunes, os professores enxovalhados e os pais a culparem o sistema educativo, disfarçando a falta de atenção e incapacidade de imposição de disciplina que vivem em casa.

Chamem-me velha... Provavelmente, este é o início do generation gap que, mais tarde ou mais cedo, me iria atacar. Mas prefiro ser velha do que insensível. E prefiro sentir o abismo entre a minha geração, à qual um dia chamaram rasca, e esta geração, em que muitos depositaram a confiança para mudar o estado das coisas. A juventude sempre foi um período de instabilidade, de fervor, de impetuosidade e ausência de limites. Mas de burrice e desprezo pelos outros não.

Sobre não saber resistir

Eu não sou uma pessoa de doces. Conquistam-me mais facilmente com uma empadinha ou um croquete de carne do que com uma tablete de chocolate. Tenho chocolate há séculos no meu frigorífico e vou continuar a ter o mesmo porque não tenho vontades súbitas nem o hábito de comer doces. Mas hoje, durante uns momentos, fui gulosa. A minha irmã (que me mima sempre (L)) trouxe-me estes chocolates* e garantiu-me que valia a pena experimentar. O triângulo tinha um recheio de framboesa e creme de chocolate, o quadrado em cima tem 99% de cacau e o quadrado em baixo tem, como se pode comprovar, um salpico de ouro (!). O triângulo já foi e bem, é uma maravilha ouvir a capa de chocolate a estalar! Eu sei que hoje era suposto ser um dia santo e assim. De qualquer maneira, se realmente houver Céu e Inferno, eu já sabia onde vou parar.

* artesanais, integralmente feitos à mão e que podem comprar-se em Portalegre! A loja chama-se Sons e Sabores e fica na rua Direita, onde era a antiga (e saudosa) Woodstock. Se estiverem por cá e quiserem adoçar a boca, já sabem

março 19, 2008

Dormir mais feliz #12

We all recognise that I'm the problem here
We all recognise that I'm the problem here

It's impossible to know or so it seems
What I'm supposed to do with you on anything
I know that playing this time is going to fall on me
A vida anda tão parada e desinteressante como uma repartição pública na tarde de amanhã.

(apesar de ontem à noite ter estado em vários lugares com algumas das vistas mais deslumbrantes sobre Lisboa, enquanto a chuva se envergonhava de cair; de ter oscilado, ao jantar, entre uma feijoada e um belíssimo arroz de marisco; de ter partilhado uma shisha com sabor a limão com outros não fumadores; de ter feito planos para o próximo festival de Verão que vai, de certeza, ser diferente de todos a que fui até agora; de deixar de trabalhar amanhã às cinco da tarde e só regressar na terça, às nove e meia da manhã; de ficar a saber do concerto que vamos ver este fim de semana e da festa que se prevê de arromba; de decidir que vamos a Espanha comer o sorromilho da dona Estrela este fim de semana e, quem sabe, ver moças de fato de treino, mala e sapatos de senhora)

Este foi o truque que me deu mais trabalho a aprender até hoje: ser feliz com coisas pequenas. Nem fazer bolinhas com o fumo me custou tanto.

março 17, 2008

Caramelo

Pensava que o Domingo já tinha acabado. A porta já estava trancada e o pijama vestido, só esperava que chegasse o sono. Inesperadamente, surgiu um convite para a sessão da meia-noite que eu, cansada de estar sozinha, aceitei logo. Fomos ver este filme que é, como alguém o descreveu, uma espécie de Almodóvar libanês, com a vantagem de ter mulheres ainda mais bonitas no elenco.

(e aquele perfume ali ao meu lado, a estranheza de todos os momentos, a rapidez com que os pensamentos me atravessam a cabeça. i just don't know what to do with myself)

março 16, 2008

Easy like (ok, vocês sabem o resto...)

Não me lembro de um Domingo tão bom há muito tempo. Tinha aproveitado a noite de Sábado para recomeçar a procurar emprego, o que não abona muito a favor das noites do meu fim de semana. Vesti uma t-shirt que me ofereceram lá no escritório e agarrei-me aos anúncios: era assim uma espécie de vingança infantil, como se estivesse a espetar uma faca nas costas da empresa que até agora me acolheu bem. Enviei uns quantos currículos, que isto agora é moda - as candidaturas online. No meu tempo, escrevi uma série de cartas de motivação, comprei uma série de envelopes A4 e gastei uma série de dinheiro em selos... E a verdade é que nada disso me conseguiu o emprego que tenho agora mas adiante: de ausência de respostas e currículos em vão todos temos a nossa parte.

Mas esqueçamos o Sábado. O Domingo valeu por todos os dias em que me andei a arrastar Lisboa fora, sem vontade de acordar nem de trabalhar. Dormi doze horas, apesar dos meus planos para a noite incluírem cervejas, das quais apenas cheguei a beber duas. Comi daqueles pequenos-almoços que não dão vontade de comer mais nada durante o dia. Estendi-me na cama do quarto vazio e li quase tudo o que tinha em atraso durante quase quatro horas. Depois do banho, comi um pseudo-almoço que metia salmão e espinafres só para dizer que sim senhor, tinha almoçado. Saí de casa apenas para levar a reciclagem e beber um café, que a cafeína é um vício que ainda não consegui eliminar. Voltei a casa para acabar com a segunda série do Lost, episódio atrás de episódio - finalmente, estou a recuperar terreno.

E amanhã é dia de folga outra vez. Não era suficiente que este fosse o melhor Domingo de que me lembro mas amanhã é outra vez dia de folga - a primeira vez em dois anos em que posso folgar numa Segunda-Feira. São, portanto, dois dias seguidos e eu nem quero acreditar. Deixei para amanhã tudo o que podia ter feito hoje: passear por Lisboa e apanhar o eléctrico até ao meu sítio preferido, ir ao cinema (amanhã quem estará numa sala de cinema à tarde?) e comprar um modelito para estrear no próximo Domingo. A vida é mais ou menos, vá.

É Domingo na Lapa.

E, portanto, a manhã começou desta maneira, enquanto na aparelhagem tocava o Ma Fleur dos Cinematic Orchestra. Gosto de pequenos-almoços.

março 13, 2008

Um pé em Nova Iorque, outro no Mundo...

Quando o menino decide dar um pulo a Lisboa, não há qualquer hipótese (e muito menos lógica) de recusar um convite para jantar. Isto de estar em Nova Iorque e aparecer por cá para uma visita de médico é giro e do mais cosmopolita que há. Aproveita-se para matar as saudades, elogiar os cintos novos, beber cerveja em condições e falar sobre o MoMA*. É ainda um melhor pretexto para jantar no café Buenos Aires: um bife argentino extraordinariamente mal passado, coberto de cogumelos salteados em rum e natas e o melhor bolo de chocolate dos últimos tempos (servido com doce de leite). O sítio é muito bonito e a música muito adequada: foi a primeira vez que jantei ao som de Carlos Gardel e fiquei maravilhada! A conversa estendeu-se para além do horário recomendável para quem acorda com as galinhas e ficaram promessas de recuerdos dos Estados Ónidos. Se as coisas fossem sempre assim - simples - eu agradecia.

* espreitem e procurem por uma moça portuguesa que tem uma exposição a decorrer por estes dias. Vale a pena, acreditem.

março 11, 2008

Gosto de falar ao telefone com a minha mãe porque ela me faz sentir calma, como se me pudesse isolar de todos os problemas, de toda a tristeza. Gosto de falar ao telefone como o meu pai porque ele me lembra dos jogos do Benfica e porque nos rimos dos treinadores dados como certos.


Hoje sinto-me violenta.

(Cheguei a casa, peguei no material de limpeza e deixei tudo a brilhar. Há que purgar... Hoje fui uma pessoa absolutamente horrível. Quis castigar os outros por aquilo que me falta a mim. Não consigo aceitar as regras do jogo.)

março 10, 2008

Música nova* ♥

Portishead - Third

Música para ouvir quando se chega a casa meio esgotada pelas banalidades do dia. Canções para ressuscitar a vontade de sentir a electricidade fazendo tremer as pernas, para entrar numa zona de penumbra onde os contornos das pessoas são menos definidos e agressivos. Uma voz sempre em equilíbrio frágil com a sujidade da electrónica, o sintetizador que toma conta da canção e gira à nossa volta, em espiral. Acompanha bem com um suissinho de pêssego.

Tindersticks - The Hungry Saw

Lamento todos os dias em que não gostei da voz dele. É como se precisasse de crescer até gostar de a ouvir.E já cheguei aqui, amadureci. É música de amantes, de adultério. Uma voz que canta atrás de uma cortina de veludo vermelho enquanto fingimos que não há mais nenhum sítio para estar e acabamos a bebida à pressa. É música para ouvir depois de beber gins tónicos num bar em que as cadeiras são todas desiguais e os empregados estão sempre deprimidos. São canções sobre o amor inconstante, com horas marcadas num quarto de hotel vazio e sobre o regresso a casa já o sol nasceu. É o orgão ocultando horas e truques de sedução inconfessáveis. Acompanha bem com café frio e os cigarros que deixei de fumar.

* a abrir-me novos mundos, aka, fazendo-me sonhar.

Sobre ser consumidor (a)

Hoje aconteceram duas coisas estranhas.

Saí do trabalho e fui à Fnac para comprar uns cds (If Lucy Fell, Vicious Five e Lobster). Já há muito que tinha decidido que vale definitivamente a pena comprar cds de bandas portuguesas, ainda mais quando são cheias de talento e me oferecem novidade como estas. Sabia que podia comprar na net mas preferi ter logo o cd na mão. Qual não é o meu espanto quando, depois de insistentemente verificar todos os expositores, descubro que nenhum destes cds é vendido lá! Não estavam expostos nas novidades e também não faziam parte da selecção de música portuguesa nem dos autores ordenados por ordem alfabética. É bizarro: em vez de novos talentos, nos expositores estão as colectâneas dos Morangos blá blá blá ou outras cuidadosamente preparadas para fazer render o catálogo das editoras. Não sei, como é óbvio, se é a loja a virar as costas às bandas nacionais ou se a distribuição marginal da música é uma opção destas últimas (que normalmente vendem cds nos concertos e têm distribuição online). Mas, que não me parece boa política, não parece.

E depois cheguei a casa e tinha correio... Da DECO. Esta associação de apoio ao consumidor convida-me, nesta missiva, a fazer parte dos seus sócios e a beneficiar de uma série de ofertas. Mas as perguntas dispararam de imediato: como é que a DECO sabe que eu moro aqui? De que forma escolhe os potenciais clientes? Que entidade divulgou os meus dados a terceiros e com que autorização? Este negócio de venda de dados pessoais é um bocado assustador mas é ainda pior quando quem supostamente nos devia defender se faz valer dele para angariar clientes...

Portugal é um lugar estranho.

março 08, 2008

Esta noite sinto-me assim*.

I'd give my body to be back again

In the rest of the room

To be alone with you

* com vontade de largar tudo à pressa e correr para uns braços que não me esperam ou de fechar os olhos e adormecer antes das dez da noite.

Quina das Beatas: If Lucy Fell

Ontem foi mais uma noite de boa música num espaço que me enche as medidas. Esta ideia de um ciclo de concertos com base nos artistas da Borland (cujo site que podem visitar aqui) é fenomenal. Ontem foi a noite dos If Lucy Fell, banda cujo trabalho eu desconhecia. Já devia conhecê-los mas ainda vou a tempo e vocês também - escutem-nos aqui. Quem disse que o rock morreu não esteve lá ontem à noite.

março 06, 2008

Ficção #2

(Sobre alguém que ainda não conheço.)

Apago a luz e tento arranjar a melhor posição na cama. Quando me viro para o lado que todas as noites está vazio, vejo-o deitado e sério, olhando para o tecto, sem saber que eu estou a observá-lo. Está calor e ele deita-se de tronco nu sem se tapar. Sei que fez a barba antes de se deitar e consigo imaginar-lhe o cheiro do after shave, que pôs mesmo sabendo que ia dormir. Os olhos dele não se movem, estão fixos no tecto ou em qualquer coisa que só ele vê. Secretamente, ele imagina que consegue controlar a direcção das suas emoções e a intensidade dos seus sentimentos. A sua força é tanta que já não há nenhuma fronteira entre aquilo que idealiza e o que vive. Está escuro no quarto mas os olhos dele continuam tão abertos como se o dia tivesse acabado de nascer. E estão fixos num ponto que para mim é imaginário e para ele é desconfortavelmente real.

março 03, 2008

Intimidade *

Estava a pensar no que é isto de ser íntimo de alguém. Estava a pensar que podia ser confiar segredos, desmontar vícios, ver através de alguém ou simplesmente estar nua junto a outro corpo nu. E ocorreu-me que talvez tenha tido os meus maiores momentos de intimidade com estranhos, com pessoas que nunca vi ou a quem nem sequer confiei o mais insignificante dos meus segredos. É estranho mas às vezes sinto-me travada pelo pudor com as pessoas que tenho mais perto de mim e, ao contrário, um estranho pode levar de mim a coisa mais inconfessável, se o momento for o certo... Com um estranho (e com isto quero dizer um homem ou uma mulher) não há obrigações morais nem de sociedade, não há protocolos a cumprir porque os vamos inventando pelo caminho, não há regras nem limites, não se espera nada em troca. E é óbvio que não estou aqui a fazer o elogio da ausência de laços nem a desprezar as minhas relações mais antigas. É só que nos cruzamos com tanta gente nova e as nossas reacções são tão imprevisíveis que estes momentos de intimidade se tornam um mistério para mim. E quanto mais avanço (sem saber em direcção ao quê), mais sinto esta espécie de liberdade.

(confiou-me um segredo baixinho e eu guardei-o como uma preciosidade. agora quero o resto da intimidade.)

* como no filme, um dos meus preferidos de sempre, em que ele e ela não precisam de falar: encontram-se naquela casa semi-vazia e suja, despem-se já ofegantes quase sempre à mesma hora e entregam-se um ao outro - dois estranhos, nus, a intimidade espalhada pelo chão. Fazem-no até ao dia em que a carne deixa de ser suficiente para se sentirem próximos - o laço invisível não estava lá.

março 01, 2008

Marvão: uma tarde de Inverno

E depois da agitação de ontem, a tarde foi passada mais ou menos assim. A sentir o sol na pele, já em manga curta, pelas muralhas mais lindas que conheço.

Party Hard

Ontem foi noite de ver os Waste Disposal Machine (que podem ouvir aqui) e de festa.

(The heart beats in its cage
Yes the heart beats in its cage)