junho 22, 2008

Receita para os primeiros dias de Verão *

Depois da estreia em noites quentes, dorme-se a primeira sesta do fim de semana, em quarto com ambiente tropical e propício à preguiça. Quando o sono acaba, aproveita-se a boleia até à Portagem para um soberbo prato de caracóis, dois dedos de conversa e uns minutos de ar menos pesado e quente. Encerra-se o capítulo gastronómico do dia com umas sardinhas ( quase a chegar à dezena) e uma imperial fresquinha.

Passa-se à música, com uma noite animada pelos Yard Dogs Road Show (que podem experimentar aqui). São onze pessoas envolvidas numa mistura de cabaret, freak show e rock cuja presença em palcos portugueses já pode ser designada de frequente. Muito bons músicos, humor burlesco e dançarinas sensuais - passo o espectáculo todo de sorriso na boca, espantada com as plumas, o acordeão e com o homem que engolia facas. A fechar a noite, assiste-se pela segunda vez à actuação do Cais Sodré Cabaret (que também podem conhecer aqui), um grupo de sensuais e coquetes raparigas convenientemente vestidas a rigor (todas com o ar super-retro anos 40/50 e maravilhosos penteados a rematar) com coreografias originais mas ainda a precisarem de mais tempo em palco.

Termina-se em beleza com uma manhã na piscina. É dos meus momentos preferidos: quando finalmente seco numa espreguiçadeira e o meu pai lê o jornal à sombra. Vamos falando dentro e fora de água, ele mergulha de chapão e eu consigo fantasiar tanto de olhos abertos...

* consumir exactamente por esta ordem.

junho 20, 2008

Terapia

Dentro do carro estão seguramente quase quarenta graus. Tenho as calças coladas às pernas e as pernas coladas ao banco. O calor come as cores e passa a existir apenas o amarelo palha do chão e o cinzento sujo do céu. Na recta entre Pavia e o Vimieiro, dezassete quilómetros traçados a esquadro e régua, grito com tudo o que as minhas cordas vocais podem oferecer. Todo o amor do Mundo não foi suficiente/Porque o amor não serve de nada. Quando abrando nos semáforos do Vimieiro, sinto-me mais leve. O suor já a correr em bica mas o fardo um bocadinho aliviado.

junho 19, 2008

*

Era o desejo em ondas tímidas sempre que podia pensar nele. Era uma erupção morna, palavras deslizando sobre o calor, naufragando entre o ventre e a boca cheia de beijos. Ela encostava a cabeça ao vidro e sonhava-o durante os minutos vagos. Intencionalmente, deixava os olhos abertos enquanto a escuridão se instalava a seu lado, à sua volta e repetia a sombra dele encostada à porta, repetia o gesto casual da sua mão tocando a parede, preparando-se para lhe tocar. Era muito mais que o desejo, era o fascínio cru da carne e do suor enquanto se olhavam, como dois corpos celestes em doce colisão. Entregavam-se à ausência do amor e, em silêncio, habitavam outros corpos nesses breves instantes de abandono total. E era tudo demasiado simples para sequer ser real.

*[...] o teu corpo não me serviu de resgate[...]

junho 18, 2008

Au coeur d'un Orient *

Estão os dois sentados numa boîte de péssimo gosto e partilham o mesmo maço de tabaco. Um tem o olhar perdido num passado que o faz continuar a correr, o outro abandona-se à incerteza do caminho que fez até agora. Querem ambos ser amados apesar dos seus segredos, da falta de tempo, da efemeridade das palavras com que encantam as mulheres que à noite os satisfazem.

Ele pega na máquina fotográfica e dispara incessantemente: um abraço proibido num posto fronteiriço, a força a que submete todas as mulheres que se deitam na sua cama, o homem com quem partilha o quarto e que diz mais com os olhos do que com palavras, os cabelos negros espalhados pela almofada do seu quarto de hotel. Procura em todas as mulheres pedaços que o ajudem a construir a sua amada - aprendeu-o num dizer tradicional. Os seus olhos semi-cerrados são a fonte da luxúria, a razão pela qual as mulheres terminam a noite deitadas sob a sua objectiva. É terrivelmente sexual e sabe disso.

(ou a história deste filme que, não deslumbrando, tem o mais poderoso par de olhos - como os dele - dos últimos tempos e uma banda sonora tão inesperada me ocupará o adormecer durante algumas noites...)

junho 16, 2008

A garagem da vizinha + Great DJ

Afinal, Santos também podem ser quando nós quisermos - é esta a vantagem das festas da cidade em Lisboa se arrastarem por um mês inteiro e por vários bairros simultaneamente. Portanto, eu continuo a acreditar que para tudo há uma razão e a razão pela qual eu fiquei em casa na véspera de feriado foi para me poupar para a noite de Sábado.

O que nos juntou foi essa ideia de comer sardinhas e aproveitar as noites já quentes (esqueçamos a chuva de ontem e o dia de hoje...) para bailar. Já tínhamos falado na Bica e foi exactamente aí que satisfizemos o nosso desejo de Santos. Depois de esperarmos duas horas para conseguir uma mesa para oito (e aquele casal passar à frente e os músicos passarem à frente e estas duas senhoras passarem à frente e esta malta não se levantar nem à lei da bala), lá conquistámos a simpatia da Guida (a empregada de serviço, que acabou a noite a oferecer-nos imperial) e do senhor Jaime (com a sua cara encardida de assar tanta sardinha e de voltar tanta bifana mas que fazia questão que tudo estivesse em ordem).

O baile já se ouvia onde na noite anterior se tinha reunido Portalegre A. O largo de Santo Antoninho estava longe de cheio mas era isso que tornava tudo mais agradável. As pessoas, maioritariamente moradoras na zona, dividiam-se entre o gradeamento que assomava sobre o palco e o largo propriamente dito, onde um grupo de freaks dançava efusivamente. Os músicos eram (provavelmente) os piores do Mundo mas isso tornava a noite numa ocasião irresistivelmente mais divertida. Entre nós, não se dançou muito - alguns pés guardavam-se para o que viria depois.

Já tinha perdido a conta às vezes que quis ir ao Incógnito numa noite destas. Adiei quase sempre por falta de companhia - estar sozinha numa discoteca não faz nada o meu género. Mas ontem, culpa de uma conjugação inédita de factores, lá dancei ao som dos Discos Voadores do Nuno Galopim. Sempre li os alinhamentos das edições anteriores com alguma inveja porque eram sempre demasiado perfeitos para eu não poder dançá-los. E foi perfeito na mesma: a pista mais desimpedida que o costume, o gin tónico logo à entrada, o dj de braços no ar a incentivar toda a gente à festa, a música que se ouve em casa, agora pronta para dançar.

Do que veio a seguir, guardarei apenas memória porque não me orgulho de ser irresponsável. Mas digamos que envolveu quatro sandes mistas, um biquini vestido e estender o corpo finalmente na cama às nove da manhã. E os Santos eram na quinta-feira, diziam vocês? Na.

junho 12, 2008

(E ainda) os Santos...

É quinta-feira, véspera de Santo António e a menina está onde? Em casa. Os pais saíram para uma sardinhada ainda não eram oito horas; os amigos ligaram a perguntar onde se dava o pezinho de dança; as marchas ocupam o horário nobre na televisão. Não é que eu tenha saudades de ser esmagada por uma corrente humana alcoolizada e alegre por coisa nenhuma, nem das sardinhas que nunca conseguimos comer porque não aguentamos e precisamos procurar mais uma casa de banho, nem das três horas que esperei sozinha por um táxi no ano passado.

Mas apetecia-me tanto bailar. E perder-me nas travessas que rodeiam o Castelo. E procurar transporte até a manhã começar a levantar... Acho que vou ali amuar e maldizer o dia em que resolvi trabalhar num departamento alemão - feriados? Nem vê-los.

E agora para três ou quatro coisas diferentes...

Well, it's not like you're one thing or the other, okay? There's still a kid inside but you grow up when you decide to do right, okay, and not what's right for you, what's right for everybody, even when it hurts.

Os abraços que faziam doer, o prato de comida ainda por tocar, o pânico que fazia desapertar a gravata. Ele não sabia como crescer senão inventando para si mesmo um amor incondicional, um substituto do conforto e da paixão. Vestia camadas de roupa para se proteger do toque dos outros. Espreitava atrás das cortinas a vida normal que ele não conseguia para si. Queria gostar mas isso só fazia tudo doer ainda mais. Por não ser também muito tolerante à frustração, gostei deste filme. É material para me deixar com um nó na garganta.
Não tinha assim grandes expectativas sobre o novo álbum destes moços, principalmente porque só há pouco tempo me apercebi que vinha aí qualquer coisa nova. Sei bem as opiniões contraditórias que a música deles gera por aí mas acho que não me podia importar menos com os preconceitos dos outros. Ando a ouvi-los muito (alternando com os moços do post abaixo), especialmente pela manhã, enquanto os primeiros raios de sol (já quente) furam entre as copas do jardim da Estrela.
Eu consegui resistir até aqui. Não partilho desta histeria generalizada à volta da selecção que leva as pessoas a interromperem o trânsito só porque ganhámos mais um jogo da fase de grupos. Não tenho sido adepta da bifana nem sequer da mini durante os jogos, porque jogos e trabalho são duas coisas incompatíveis. E não me incluo nos pessimistas que davam tudo como perdido antes do primeiro jogo nem aos optimistas que acham que vamos ser campeões. Mas foi a primeira vez que ouvi o relato de um jogo da selecção e a primeira vez que ouvi um golo e pude comemorar com as pessoas que encontrei a caminho de casa. Em vez de Estrela brilhante brilhante brilhante brilhante* não podíamos ter Portugal brilhante brilhante brilhante brilhante?

* se não sabem a que me refiro, experimentem a ver a Liga dos Últimos um dia destes e descobrem :)

junho 10, 2008

Dezoito segundos antes do amanhecer *

Absolutamente luminoso. As mesmas paisagens inóspitas da Islândia mas agora na Primavera. A infinita capacidade que a música tem de gerar paz. Os últimos acordes do piano a fecharem uma canção. O emaranhado de palavras que não entendemos mas que nos confortam. Os crescendos épicos a fazerem o peito inchar. A música ideal para o primeiro cruzar de olhos. Uma espécie de elevação que parece que não vou aguentar. As noites em que ainda vou adormecer ao som disto.

* em português porque o meu islandês (e o meu hopelandic) não está famoso. Eles voltaram e ainda bem. Já fazia falta esta luz.

junho 09, 2008

Visto nunca ter sido intenção deste blog denegrir a imagem de alguém e pelo menos uma pessoa ter manifestado a sua indignação, o último post foi apagado.

junho 07, 2008

2-anos-2

Dois anos. Vinte e quatro meses a dedicar-me a um projecto a que vi nascer, crescer, estagnar e desenvolver. Duas promoções depois, sinto que ainda não estou no sítio onde gostaria de estar. Não me refiro exactamente à posição na empresa, que muito me honra, mas à actividade profissional. Esta coisa de não ter escolhido nada com uma designação profissional concreta baralha-me um bocadinho. Podia ter ido para as engenharias ou para o design ou para medicina mas não - tinha que decidir-me pelo abstracto das literaturas.

Depois, há toda a questão material. Não tenho nenhum desejo secreto de ser milionária mas não posso dizer que não sonho ganhar mais dinheiro. Faço planos com todo este dinheiro que não ganho. Porque nunca se sabe e um dia isto pode dar uma cambalhota grande e eu, quando menos espero, estou noutro sítio qualquer. Não me parece, em todo o caso. Mas como eu até sou uma pessoa crente (vulgo, patinho que acredita em tudo)...

Os dois anos neste emprego ensinaram-me muita coisa. Maioritariamente, ensinaram-me coisas más e digo isto sem qualquer amargo de boca: simplesmente ensinaram-me diferentes formas de sermos lixados por diferentes pessoas. Ensinaram-me a trabalhar sem os recursos necessários e, mesmo assim, conseguir atingir os objectivos a que eu mesma me propus. Mas também fizeram maravilhas pela minha paciência, pelas minhas capacidades de formação, pela vontade de unir as pessoas em torno de uma mesma coisa. Tudo isto me será útil no futuro, tenho a certeza. Mas fico sempre um bocadinho desconsolada por ter que aprender estas coisas todas à força, sem ter tempo para as digerir logo. Aqui, não há tempo para pensar em nada, nenhum segundo para contemplações. E esta segunda promoção amainou o meu desejo de procurar uma experiência nova. Mas, com esta gente por lá, é até ver.

(ou estou a enganar-me a mim própria?)

junho 04, 2008

Dormir mais feliz #14

diz-me o porquê dessa canção tão triste
me fazer sentir tão bem
decerto alguma coisa mais te disse a mesma voz
que tu não dizes a ninguém

junho 03, 2008

(Porto) After hours



Imagens minhas, música Eu tentei dizer do Manel Cruz

Todos os dias foram curtos para nós. Por isso, vi nascer duas manhãs no Porto. Tentámos apanhar gaivotas, conhecemos as faculdades todas e tomámos o pequeno-almoço onde, há menos de doze horas, tínhamos jantado também. Às memórias, junto aquilo que a minha máquina também viu e brinco aos vídeos caseiros. Como se nos pudéssemos esquecer.

junho 02, 2008

Porto ♥

Por ordem de chegada: C., A. e eu (sete da manhã, perto dos Aliados); Casa da Música♥ pós-concertos; Serralves toda para nós *

Se eu quiser dizer a verdade verdadinha, só existia uma razão para eu ainda não conhecer o Porto: não tinha ainda calhado. E lá por ser a única razão não quer dizer que seja boa ou válida ou compreensível até. O que interessa é que agora essa razão deixou de existir e eu regressei de um fim de semana (quase) perfeito, com mais uma cidade a juntar às que outras das quais gostei à primeira.

Há muitas razões para uma pessoa se enamorar do Porto. Temos a esplanada do Piolho às sete da tarde, enquanto os indies lêm o Y; temos a Ribeira completamente formatada para turista ver; as francesinhas verdadeiras e gigantes; temos a forma atrevida com que os empregados topam os não-portuenses à distância; a cor das fachadas dos prédios mais velhos; o bom gosto dos bares e discotecas; e temos o tempo que muda quando nos sente chegar à cidade. A isto tudo, eu ainda juntei boa companhia e um melhor guia. Quero voltar lá. E quero voltar depressa.

* estas e outras impressões visuais sobre os concertos aqui.

maio 30, 2008

This state I'm in

Exausta. As pernas são dois autómatos, fielmente treinados para me levarem de casa até à estação do Rato. A casa arrumada à espera dos pais que chegam amanhã. Há quatro ou cinco dias que ouço apenas uma canção (podem ouvir aqui, sendo que a qualidade do video é inversamente proporcional à da música...) e apenas essa. Foi o terceiro encontro de King e finalmente a minha sorte mudou. Estou em pulgas para hoje à noite mas receio que o sono tome conta de mim. Agora, se me desculpam, vou só ali trabalhar cinco horas e pronto. Depois disso, o Porto há-de ser meu.

maio 28, 2008

O segredo de um cuscuz *

Ela tem o cabelo negro a cobrir-lhe as costas, um perfeito instrumento de sedução. Faz-lhe o café sem o questionar, come do mesmo prato quando ele a chama para se sentar junto de si. Tem consciência da sua determinação mas não da sua sensualidade, o que a torna ainda mais intrigante. Por ele, pelo homem a quem chama pai, inventa as mentiras necessárias para ver os seus sonhos a erguerem-se. Está ao lado dele. Mesmo quando ele a magoa com o seu silêncio, mesmo quando ele não lhe promete que vai ficar.

Ele tem os vincos do trabalho e do sacrifício desenhados na expressão cerrada. É um homem fechado dentro de si mesmo, é o par de mãos com que remenda um casco de um barco velho. Não sabendo oferecer nada de si, carrega consigo uma caixa de peixe que se multiplica pelas suas várias famílias. Sentado, a janela aberta de par em par, contempla o cais vazio enquanto acende outro cigarro. Por ter trabalhado toda a vida num estaleiro, é uma traineira abatida que quer ainda fazer-se ao mar alto. Têm amor, aqueles olhos lentos e escuros. Mesmo que o amor não se mostre nunca através da ternura - ele faz, simplesmente, aquilo que tem a fazer.

* ou deslumbrada com a autenticidade, humor e surpresas deste filme.

maio 26, 2008

Desafio pt. 2

Aquela manhã de nevoeiro disperso estava a acordar aos poucos. Tal como aqueles olhos que iam abrindo de mansinho, a medo, e ficaram focados na janela gigante que dava para a praceta onde permanecia uma estátua de um qualquer marquês. Pôs-se de joelhos, com as mãos amarradas atrás das costas, e levantou um pouco a cabeça. Torceu todo o corpo para a esquerda e só então conseguiu lembrar-se do que tinha acontecido.

(ÿpslon, www.vitaminaY.blogspot.com)

A memória chegava-lhe em imagens difusas, ele sabia que situação onde se encontrava era mais do que uma manhã embaraçosa depois de uma noite que não quis passar sozinho. A cada expiração, a dor lembra-lhe da posição do seu corpo contorcido... os olhos a custo procuravam alguma familiaridade naquele quarto-jaula, param no preciso instante em que o pé toca em algo, foca uma mulher, leonor, uma imagem difusa da noite anterior, também atada, contorcida, de olhos fechados, a começar a murmurar repetidamente… - “como fomos capazes…como fomos capazes…”

(indigente andrajoso, www.indigenteandrajoso.blogspot.com)

As lágrimas não demoraram a jorrar-lhe dos olhos. A disposição de todos os objectos naquele quarto fazia prova do caos da noite anterior: o cinzeiro que não chegava para tantas beatas, as lâminas de barbear usadas e dispostas numa fila metodicamente organizada, os restos do sangue debaixo do abajour carcomido pelo cortejo de lâmpadas acesas nos últimos dias. Ele tentava aligeirar o nó que feria os seus pulsos em vão e as cordas marcavam cada vez mais as veias onde o sangue corria descontroladamente. Cheio de culpa e náuseas, ele não conseguia parar de imaginar como seria possuí-la neste cenário desolador. Uma e mais outra vez.

(M., www.borboletasnabarriga.blogspot.com)

O mote estava dado pelo

Desafio pt. 1

o rádio sempre a tocar
um coração avariado
que não posso desligar *.

Desafiada pela SuperM., aqui fica a minha biografia na versão mais curta possível. São-nos pedidas seis palavras (uma frase pequenina, minúscula mesmo... eu sei que uso quase o dobro das palavras pedidas mas seis palavrinhas é muito pouco!) para uma muito curta biografia (há quem opte por um conceito) e podemos dar-lhes ênfase com uma imagem. Devemos colocar um link para quem nos desafiou e por nossa vez desafiar cinco blogs, avisando-os deste mesmo convite. Considerem-se desafiados: Curse of Millhaven, Catarina, JC, Mafaldinha e Rita Maria.

* e um desenho deste moço que já tinha mostrado aqui.

Silver lining *

Seguia no carro à minha frente, depois de me ter ultrapassado mesmo no início do caminho. Marcava o ritmo do que estava a ouvir com as mãos no volante. Eu não conhecia o carro nem a matrícula nem o condutor. Eu cantava em altos berros as músicas que saiam das colunas em modo aleatório. Estava indecisa entre usar óculos escuros ou conduzir sem eles. Ele ajeitou o espelho duas ou três vezes para se assegurar que os nossos olhares se cruzavam. Ele ultrapassava, eu ultrapassava. Quando fiz pisca para me desviar da estrada principal e seguir o meu caminho, ele olhou fixamente pelo espelho e, por fim, acenou-me longamente. Envergonhada, demorei algum tempo a reagir mas acenei-lhe de volta. Soube tão bem.

* ou sorrir mesmo num dia escuro, de nuvens baixas e aguaceiros indecisos

maio 25, 2008

Micro Audio Waves

Este foi o segundo aniversário da Quina das Beatas. Há dois anos atrás, as hostilidades abriam com um concerto intimista de JP Simões, ainda com poucas mesas na sala e muita gente sentada no chão. Entretanto, já vi mais concertos do que aqueles que poderia imaginar e de bandas que provavelmente nunca iria conhecer. Vimos concertos em pé e sentados, encostados ao balcão, com a sala vazia e com a sala composta, dançámos tanto quanto pudemos, bebemos cervejas juntamente com as bandas, comprámos CDs e EPs. Eu gosto das noites de sexta-feira por serem noites de CAEP, é como se se tivesse criado uma espécie de ritual e o cumpríssemos naturalmente sem perguntar quem vai estar lá. Espero que a boa música continue presente por ali por muito mais tempo e que as pessoas despertem para este lugar e possam aproveitar esta janela de oportunidades. Parabéns ao Centro de Artes do Espectáculo!

A escolha da banda para este segundo aniversário foi muito feliz. Ontem, os Micro Audio Waves deram uma lição de electrónica, rock e de sensualidade a uma audiência que não demorou muito a render-se. Cláudia Efe é uma diva moderna, concentra em si (e na forma como susurra os seus segredos ao público) todas as atenções. Seduz-nos com um olhar às vezes provocador, às vezes vago. Dança como quem sente a música como uma força imparável e impressiona com a leveza dos seus movimentos. Esta música dos MAW está carregada de promessas, de encontros secretos com estranhos, do prazer pelo prazer e dá vontade de transgredir, de pisar o risco. Há uma expressão que me vem à mente quando penso neles: pure pleasure seeker. Ontem foi um bocado assim e o prazer chegou pela música e pela liberdade dos movimentos.

maio 24, 2008

Karseron + Wintermoon

Ontem foi a noite mais estranha a que assisti até hoje no espaço da Quina das Beatas. É uma fotografia intencionalmente negra, como que a espelhar a música que ouvimos ali (e que podem experimentar aqui e aqui) e ir de encontro à sequência das projecções que a acompanhava. Eu não sou uma pessoa negra: o máximo que consigo é ouvir algumas coisas com as quais cresci mas das quais me libertei assim que me abriram outros mundos. Talvez por isso, a música de ontem não me deixou nenhuma memória especialmente relevante - ouvi-la era andar quinze anos para trás, quando os cabelos eram muito compridos, as calças muito apertadas, as vozes guturais e esta era a música da rebelião. Acho, em todo o caso, que uma noite destas já merecia ter acontecido e, quem diz deste género, diz de outros que possam agradar apenas a faixas muito específicas de assistência. Assistência (aparentemente) acima da média na noite de comemoração do feriado municipal, portanto terá sido uma aposta ganha.

maio 21, 2008

P.

Tantas tantas saudades de a ter perto de mim.

M. @ cozinha IV

Antes


Depois

Foi a segunda vez que me dediquei aos canelones (a primeira experiência está há muito perdida da memória). O recheio saiu inteiramente da minha imaginação e posso confidenciar que inclui espinafres, azeitonas e cogumelos. O que também posso afiançar é que está de comer e chorar por mais! É uma pena que, vivendo sozinha, não tenha mais vontade de me aplicar mas cozinhar para uma pessoa é uma seca. Em todo o caso, há mais alguém a prová-los porque amanhã vou fazer um colega de trabalho mais feliz.

maio 20, 2008

Do the right thing *

Parece que ultimamente há qualquer coisa que pretende testar os meus limites, julgar as minhas decisões. Vejo-me obrigada a decidir vezes demais se aquilo que estou a fazer é a coisa certa, aquilo que considero mais justo.

Depois de procurar um objecto que alguém perdeu (e por se tratar de algo com valor afectivo), descubro finalmente o seu paradeiro. O problema é que a pessoa que o tem já disse a quem o perdeu que não sabe dele e eu não posso provar o contrário. Portanto, se falo corro o risco de passar por parva, não conseguir provar nada e ainda tornar-me persona non grata. Só que, se não falo, fico a bater-me com a minha consciência, que me diz claramente que isto tudo é injusto e indigno mesmo. Será assim tão difícil as pessoas, por uma vez na vida, portarem-se como adultas e reconhecerem que cometeram um erro? Já errei muito e já vi errar e nunca me pareceu que a capacidade de admitir um erro fosse alguma coisa de que devemos ter vergonha. E isto nem se trata de eu sofrer de uma espécie de excesso de princípios: simplesmente mantenho-me com aquilo que me parece importante e a honestidade (valor que em tempos desprezei) está no topo da minha lista.

Depois, há o trabalho com disputas infantis, suspeitas infundadas, pessoas que acham que nos tomam por parvos, pessoas que realmente têm razão em tomar-nos como parvos, um diz-que-disse constante nas nossas costas. Importam-se de não complicar, só durante um bocado? Obrigada.

* como em We own the night, com o grande Joaquin Phoenix a estender a mão ao irmão Mark Wahlberg.

maio 18, 2008

Banda sonora do fim de semana *



Ideal para fins de semana de um só dia, em que a moleza é tão grande que parece que nunca mais vamos conseguir sair da cama (e, mesmo quando conseguimos, fazemos imediatamente planos para voltar). Também muito indicado para preparar jantares de aniversário (mais um trigésimo, o medo a instalar-se), criando o ambiente necessário ao ensaio do pé de dança. É também recomendado para a roupa que se planeia passar o ferro (pela terceira vez na nossa vida), ainda que em frente à televisão.

* Paper planes da M.I.A

maio 16, 2008

Sentir dor é quando temos que empurrar para outros aquilo que queremos guardar só para nós. Silenciosa e abnegadamente.

Being bad feels pretty good

Tendo alguma tendência para ser uma pessoa conflituosa, é com muito desconforto que me vejo no centro de um conflito entre pessoas da mesma equipa. Tenho mais ou menos jeito para ser a parte ofendida e bastante queda para ser a parte que despoleta o conflito. Mas esta posição, esta neutralidade forçada e necessária fazem com que dê comigo imersa em palavras de apaziguamento e conselhos sobre contenção - o que tem a sua piada ou não fosse eu do género primeiro falar, depois pensar.

É daqueles casos em que não interessa saber quem tem razão. Tudo assenta no tom ou na forma como se escolhe encarar o que divide as partes. Por muito que seja amiga de uma das pessoas, não é isso que me paga os ordenados no final do mês. E é exactamente isso que me coloca numa posição ingrata: eu não posso fazer o que acho porque sou obrigada a fazer o que é melhor. E quem diz fazer, diz pensar ou mesmo falar. É por essa razão que, apesar de concordar com quem me está mais perto, admito que essa pessoa está errada na colocação das premissas. Baralhados? Eu também.

Saí do trabalho e, até este momento em que escrevo, isto já me assaltou os pensamentos umas vezes valentes. Não me cabe a mim nenhuma decisão, apenas tentar manter a cordialidade, união da equipa e tentar chamar as pessoas à razão. Mas esta trivialidade faz-me pensar como é difícil fazer o que está certo. Aliás, mais do que isso, faz-me pensar como custa saber o que está certo. Como é que posso ter a certeza que não estou a ser injusta? Como é que posso pesar os argumentos de ambas as partes de forma igual se uma das pessoas é mais do que colega de trabalho? Como é que posso convencer ambas as partes a aceitarem-se e a prometerem fazer mais cedências? Estou a dar demasiada importância a uma disputa mesquinha ou estou a tocar o fundo de algo realmente importante? Se há coisa que eu gostava que dissessem de mim era 'Oh ela é uma pessoa muito justa'. Muito mais do que 'Ela é muito boa onda' ou 'É uma pessoa muito divertida'. O senão disto tudo é que a justiça não traz manual de instruções. E eu, inventando pelo caminho, não tenho a certeza de estar a acertar em coisa alguma.

maio 15, 2008

Sexo *

This was sex. They'd wallk down a street together and see themselves in a dusty window. A flight of stairs was sex, the way she moved close to the wall with him just behind, to touch or not, brush lightly or press tight, feeling him crowd her from below, his hand moving around her tight, stopping her, the way he eased up and around, the way she gripped his wrist.

*
ou a vontade de devorar livros que regressou onde antes eu pensava, alarmada, que não existia mais. Ler só mais um bocadinho, só mais esta página, nesta não posso parar que não acaba em ponto final, só mesmo até ao fim do capítulo. A vontade de ler voltou como uma febre, uma inquietação mansinha que cresce conforme a noite avança e domina mesmo que o corpo já peça descanso. Afinal, tudo não tinha passado de um susto e eu ainda gosto de ler como antes e ainda consigo emocionar-me e sentir náusea e sonhar com um livro, não era tudo uma mentira. Na prateleira, começa a diminuir a fila dos livros que esperam para ser lidos e a aumentar a secção dos que já foram folheados. Não posso dizer que os livros me salvaram a vida. Mas posso dizer que animaram tempos mortos em consultórios, fizeram esquecer as viagens intermináveis de carro-autocarro-avião, sábados em que almocei sozinha no trabalho, noites em que o sono teimava em tardar. Continuo a emocionar-me e a escolher a personagem que quero ser e a inventar-lhes rostos e corpos, a adivinhar-lhe as virtudes e a maldizer os seus defeitos, tomando partido silenciosamente. Chegou a vez de Falling man, do Don DeLillo e os parágrafos iniciais, como podem ler, prometem.

Across the sea

Quando um dia a Caras me pedir para abrir as portas da minha casa, prometo que é esta edição maravilhosa chegada directamente de NY que vai estar na minha mesa da sala. Não há calhamaços de arquitectura ou de design para me armar em esperta, só esta mega-edição que vou passar ao meu primogénito como um tesouro.

(obrigada a este moço pela compra e a este pelo transporte)

maio 13, 2008

Cortar (outr)o cordão umbilical

Já estava mais do que na altura e o meu pai começava a insistir nisso. Que já tinham passado dois anos, que precisava tratar das coisas, que provavelmente me ia esquecer. Não me esqueci (seria difícil com tantos lembretes...) e lá fui eu - o diploma já está aqui pronto para que os meus pais possam servir-se dele à vontade.

Foi uma sensação muito, muito estranha. Voltar à universidade, depois destes anos todos, causou-me um certo mau estar. Entrei e nenhuma das caras me era familiar, a esplanada continua cheia de alunos que preferem passar o seu tempo ao Sol em vez de encerrados numa sala da torre velha, há um pavilhão novo, pré-fabricado que alberga qualquer coisa que se parece com um café. A secretaria estava vazia: ninguém à espera, nenhuma senha para ser chamada, nenhum funcionário a atender. Depois de uns minutos de espera (em que tentava chamar a atenção para a minha presença), chegou uma moça nova que franziu o olho quando ouviu ao que eu vinha. Talvez pensasse que o diploma tivesse sido pedido há meia dúzia de dias, talvez pensasse que eu não sabia ao que ia. Trouxe-me aquela solitária folha, rabiscada por três ou quatro pessoas, carimbada e numerada e plim, cortou-se este cordão umbilical.

Quando vi o meu reflexo nos vidros da repartição académica, reparei que estava a sorrir. De alívio, acho eu. Não é que os meus anos na faculdade tenham sido, na sua essência, maus. Mas a quantidade de escolhas absurdas e pobres decisões que fiz nos primeiros tempos não me deixou saudades nenhumas. Quando olho para trás, o que vejo é um caminho tão mas tão incerto, tão intermitente que me apetece apagar tudo e voltar ao início. Não é bem arrependimento: de certa forma, tudo o que fiz serviu para me trazer até aqui. Mas saber que podia ter feito muito melhor é um grande castigo e uma coisa difícil de admitir. E depois há a questão da inutilidade do curso. Entrei na minha primeira opção, na faculdade que queria - fui eu que escolhi esta inutilidade. Nem o facto de ter completado o curso com um minor na área da comunicação mudou alguma coisa.

A inocência de quem entra para o ensino superior chega a ser comovente: as ilusões todas que temos, o desejo de ser diferente, a vontade de ser o melhor. Quase tudo para chegar ao fim e nos dizerem que temos excesso de qualificações ou que o que estudámos não tem qualquer serventia profissional. E eu sei que o que é preciso é não cruzar os braços e continuar a tentar por outros meios, eu sei. Mas é complicado não pensar O que é que eu andei a fazer estes anos todos?. Em todo o caso, eu acho que encontrei a resposta a isto. Estive a crescer.

maio 12, 2008

Do amor (perdido, sem salvação e sem futuro) *

He rose and walked out and stood barefoot in the sand and watched the pale surf appear all down the shore and roll and crash and darken again. When he went back to the fire he knelt and smoothed her hair as she slept and he said if he were God he would have made the world just so and no different.

* outra vez o sr. McCarthy em The Road.

We're the heirs to the glimmering world

Foi assim... como direi?

Perfeito.

(a vontade de saltar da cadeira. o suor provocado por tanta gente a gostar de uma coisa ao mesmo tempo. os gritos descontrolados na Squalor Victoria. uma espécie de nervoso sempre antes de começar uma música. toda a gente a gritar I won't fuck us over e eu a perguntar-me a mim mesma quantas vezes já o fiz. o Matt a subir pelos bancos das doutorais, amparado pelo público, em êxtase. mesmo a The Geese of Beverly Road que não tocaram, we'll run like we're awesome. pessoas que queria ver e pessoas que não queria mesmo ver. quero mais)

maio 11, 2008

E agora, se me dão licença, ...



... vou só ali deslumbrar-me mais um bocadinho e já venho.

maio 10, 2008

Dormir mais feliz #13

no teu corpo adormecido
imóvel e silencioso
desenho um mapa
do nosso grande amor

La traversée *

Ele leva o cigarro à boca enquanto a câmara segue atrás dele. O vento forte na escarpa deixa-lhe o cabelo em desalinho. Sobe sozinho pelo caminho já marcado, como se soubesse exactamente onde tem que chegar. Bebe um café e ri-se, as mãos dele tremem, são incertas porque querem ser perfeitas. Encosta a cabeça ao vidro da carruagem do comboio que rasga a paisagem urbana feita de ferro e vidro em repetição monótona. Quando sorri, brilham-lhe os olhos, ilumina-se-lhe o rosto e, por instantes, não é mais tímido. Está sentado em frente a um piano e é como se começasse lentamente a esquecer-se de quem é para nos devolver qualquer coisa mais pura. Tem duas argolas na orelha e deixa os cigarros arderem enquanto traz a sua fantasia ao mundo. É muito bonito e a música que faz, sem que ele saiba, encerra muitas das coisas que um dia eu já quis dizer. Chama-se Yann Tiersen.

* ou este documentário, onde me apaixonei ainda mais.

(O primeiro de mais) três dias inteiros sem trabalhar

Significa que os dias podem começar assim. E que posso saltar refeições e passar a ferro porque realmente me apetece (ok, isso nunca vai acontecer) e que posso ler o jornais atrasados e ver filmes que já me emprestaram há uma porrada de tempo. Posso simplesmente ficar à espera da chuva que ainda vai cair porque só já volto a trabalhar na terça-feira de manhã. Vou só ali preguiçar mais um bocado.

maio 08, 2008

I ♥ Lisboa

Já há muito tempo que sinto que a música tem um grande ascendente sobre a minha escrita. Não exactamente no facto de escrever sobre concertos ou sobre a música de que gosto, mas na sua influência determinante quando me sento a escrever qualquer coisa. Em alturas de maior melancolia, é quase assustador o fluxo de palavras quando escolho a música que vai bem com o meu estado de espírito.

Ontem à noite, enquanto folheava um dos jornais que tenho atrasados, descobri um concurso de escrita. Chama-se Lisboa à letra (podem consultar aqui) e convida jovens até aos trinta anos a escreverem sobre a cidade. Basta para isso que tenham nascido, trabalhem ou estudem aqui. Partindo de uma ideia que já tinha há bastante tempo, deixei que a música dos Dead Combo me conduzisse a mão e escrevi mais de duas mil e quinhentas palavras sobre a minha cidade adoptiva. Era giro ganhar qualquer coisa, pois claro que sim. Mas a sensação de escrever sem amarras e de saber exactamente o que escrever foi muito, muito boa. Se, como eu, aprenderam a amar esta cidade, é experimentar!

maio 07, 2008

Post das Lamentações

O tratamento (cujo preço quase me garantia uma apoplexia em plena farmácia e me arrancou uma nervosa gargalhada quando a farmacêutica me perguntou Mais alguma coisa?, sendo que a minha vontade era responder Sim, já agora aproveite e leve mesmo tudo o que me resta...) começou na segunda-feira, para que me consiga orientar facilmente. Eu, que sou um bocado distraída, dou por mim a ser muito metódica e organizada com os comprimidos e os cinquenta cremes (vá, cinco, mas que têm que ser usados por ordem ou o balúrdio que me custaram não vai definitivamente compensar). Só ainda não consegui decorar mesmo a sequência mas acho que dezasseis dias de antibióticos mais vinte de vitaminas (vezes dois, que isto quando se faz é a sério) se vão encarregar de a inscrever na minha cabeça.

Então, além de andar sempre com a cara muito cremosa, há o antibiótico. Que é muito fácil de tomar depois de jantar mas que significa que não há álcool para ninguém. Por isso, não é assim muito giro quando se marca um jogo de cartas em casa de amigos, chegam oito pessoas e há aperitivos espalhados pelas mesas e me perguntam O que é que bebes?, ao que eu respondo... Sumo? Tens? e a pessoa me atira um Ora, deixa-te de coisas... Uma mini? e eu me vejo forçada a repetir, envergonhada, ... um sumo?. Isto de beber é muito social, é para fazer companhia e eu ontem não fiz grande companhia à malta do Carolands nem do Porto Ferreira e muito menos do whisky. Se calhar posso explicar a minha derrota em dois jogos de King assim, calha bem.

A juntar a isto tudo, já o suficiente para me deixar nervosa, acontece que resolvi andar muito. Deixei o autocarro de lado e passei a andar só de metro, o que me obriga a uma caminhada bem mais longa até à estação do Rato. De manhã, nem preciso dizer o agradável que é atravessar o jardim da Estrela pela fresca, ainda só frequentado pela malta que corre no circuito e um ou dois velhotes. Mas, com esta temperatura meio tropical e a chuva que cai-ora-não-cai, o regresso à tarde é sempre demasiado suado para esta altura do ano. Depois, chego a casa e faço umas séries de abdominais mesmo antes de me enfiar no banho. Não sei se já está a dar resultado mas faz-me sofrer um bocado. Isso já deve ser bom sinal. Ai.

maio 04, 2008

Razões (realmente muito) boas para se voltar a casa

As favas com morcela e salada de alface migada da minha avó. Andar treze quilómetros até ao Senhor dos Aflitos entre as sete e as nove e meia da manhã, respirando o cheiro a giestas e rasgando o nevoeiro matinal. A minha outra avó a dizer empalangosa*, referindo-se a uma vizinha que costuma visitá-la durante tempo demais.

*apenas um dos inumeráveis neologismos com que ela constrói diariamente o seu discurso!

maio 03, 2008

The Allstar Project

Os The Allstar Project e a varanda pró-cigarros pós-concertos

[As encostas despidas de um desfiladeiro. A violência de um motim. Os corredores de umas ruínas abandonadas. Uma viagem pelo espaço. Toda a vida a passar à nossa frente em câmara lenta. Tenho a certeza que se a bolha da minha tristeza algum dia rebentasse era este o som que iria sair lá de dentro.]

Ontem, mais uma (e outra) vez, foi dia de pensar que não presto a devida atenção ao que se faz por cá. É claro que vamos ouvindo bandas que têm mais projecção nas rádios ou noutros meios de comunicação mas cada vez mais penso que as escolhas editoriais que se fazem são demasiado orientadas para um público que quer ouvir coisas simples, sem analisar ou comprometer gostos. Aqui têm os The Allstar Project, que fazem música violentamente bonita, que têm a escola das bandas que ouvia enquanto me tornava numa adolescente impossível e que dão um espectáculo intenso, quase espesso. Se eu tivesse que escolher só um género de música acho que escolhia este: é música boa para sonhar, ouvir sossegada com o volume no máximo, para ler, para domar os sentimentos, para expulsar demónios, fazer planos e suposições, para fazer viagens no Verão com a janela escancarada, à procura duma réstia de fresco.

maio 01, 2008

Lido por aí

(sem direito a link, desta vez)

Um rapaz mal desenhado *

Vive na minha cabeça

Um rapaz sem contornos.

Tem olhos grandes

Castanhos

E transbordantes de desejo.

Não lhe conheço os lábios

Mas adivinho-os macios

E molhados.

Olham-me com paixão

Aqueles olhos grandes.

Sofre com o desprezo

De uma mulher distante

E repousa os olhos

No meu colo quente.

O rapaz de olhos enormes

Sente dor

E eu sinto com ele

Tudo o que negam

Aos seus olhos castanhos.

Imagino

Beijar-lhe os olhos

Devagarinho

Enquanto lhe procuro os lábios.

Amarga-me a tristeza

Que jorra

Daqueles olhos grandes.

Quando o nosso olhar se cruzar,

Um dia,

Os meus olhos castanhos

Vão beijar

Os olhos grandes dele

E o desejo tomará conta

Do resto do nosso corpo.

*título gentilmente emprestado de uma das novas músicas d'A Naifa

abril 30, 2008

Algumas imprecisões sobre os últimos dias

Pois que a vida nos últimos dias tem muito de música pelo meio mas não tem sido apenas isso. O meu afilhado fez trinta-anos-trinta na segunda-feira e fomos comemorar com uma festa surpresa. Escolheu-se um sítio janota à beira rio e jantámos calmamente, ele já com a sua camisola do Glorioso vestida.

A ideia dos trinta já me começa a assustar, embora ainda me falte (pelo menos) um ano. Lembro-me da minha madrinha dizer que nunca se tinha sentido melhor quando entrou na terceira década da sua vida e de como só aí começara a aproveitar realmente a vida. Eu sinto-me mais confiante que antes e mais capaz de viver, menos ansiosa e certamente mais experiente. E sinto que estou a anos luz da pessoa que era aos vinte anos. Mas onde é que isso tornou tudo melhor ou mais fácil? Onde é que a vida mudou exactamente para eu sentir a vantagem de crescer? Eu não dei ainda por nada. Portanto, até ver, chegar aos trinta assusta porque eu nem sequer penso em mim como uma pessoa com mais do que vinte anos. Se calhar chegar lá é começar a ter algumas certezas. Por enquanto, continuo a deitar-me cheia de perguntas na cabeça.

Tive que tomar medidas drásticas porque estou cansada que o meu corpo continue a achar que não passei da adolescência. O médico explicou-me tudo em pouco mais que cinco minutos dentro daquele consultório antigo (tão antigo como o senhor doutor, se calhar) e assim se gasta (nesse tempo recorde dentro de uma sala) demasiado dinheiro. Eu adoro ser mulher mas os truques e os sacrifícios que são esperados de nós para que nos pareçamos com esses ideais de beleza fabricados às vezes moem-me.

Hoje é véspera de feriado e (como se lê) estou em casa, sem quaisquer planos para sair. Não exactamente por falta de opções ou convites - simplesmente porque quero estar sozinha. A noite promete o seguinte esquema: fazer um café -> ver um episódio do Lost -> fazer a minha variação do gin tónico -> ver um filme do Spike Lee -> repetir a dose do gin tónico -> quem sabe o que vai resultar depois das duas doses? Não sou anti-social e já fui mais bicho do mato. Mas, numa noite em que não preciso dormir e em que a manhã vai durar para além das oito da manhã, eu quero fazer apenas e só o que me apetece. E agora quero estar só.

Jose Gonzalez é ♥

(a foto possível - atraiçoada pela falta de pilhas e pelo controlo constante dos seguranças)

A delicadeza de um nórdico num corpo de um latino. Um trato quase angelical. Uma forma subtil de nos prender a ele, à guitarra que parece saber a música de cor. A timidez adolescente de quem não sabe o que fazer debaixo dos holofotes.

Não fazia ideia se ia ou não ser um bom concerto. Mais do que isso, foi um momento de extrema intimidade que durou uma hora e meia. O auditório estava completamente rendido às canções em crescendo, à guitarra que, apesar de solitária, enchia o palco quase vazio. Tocou tudo o que eu queria ouvir exactamente da forma como eu queria ouvir: de olhos fechados, concentrado e doce quando agradecia entre músicas. Mas também eu sou uma parva que se deixa arrebatar por tudo e por nada, que se comove com um certo pormenor das luzes. Em todo o caso, este sueco já me tinha conquistado há muito tempo. Agora, fui só eu a cair finalmente de amores por ele.

abril 27, 2008

A Naifa

Todo o amor do Mundo não foi suficiente
Porque o amor não vale de nada

Não há remédio. Não consigo parar de olhar fascinada para ela assim que as luzes se acendem. Tem um aspecto frágil mas parece que traz dentro toda a experiência do Mundo. A voz quente canta sobre desgostos de amor, sobre vulnerabilidade, sobre segredos que não se dizem em voz alta. Quando ouço as músicas mais antigas, o conforto é quase físico. Sinto-me desprotegida quando ela fecha os olhos e afasta o microfone da boca. Ela sorri timidamente, como a adolescente que às vezes eu também sou. Os rapazes também merecem a atenção mas é na voz dela que fico pendurada, em constante tentativa de antecipação da dor. É profundamente comovente, esta Maria Antónia. E a música desarma-me com demasiada facilidade, não consigo defender-me. Quando ouço a dor de todas as mulheres que se escondem naquela voz, desisto e deixo que as lágrimas me marejem os olhos. Não o suficiente para caírem - só para o olhar ficar vidrado e inundado por esta espécie boa de tristeza.

(e a tristeza que aumenta quando parece que vejo uma cara conhecida passear-se no piso de cima. ele é igual a ti, parece que os gestos se repetem também: a maneira como leva a cerveja à boca ou como pega no cigarro. de repente, é como se não estivesses a quilómetros de distância mas aqui e tivesses esquecido depressa. já esqueceste, eu sei, mas estavas ali e eu só queria cheirar-te o perfume outra vez. silencio a vontade de te passar as mãos pelos cabelos, fecho os olhos e faço-te voltar para onde realmente estás. impossivelmente longe.)

abril 26, 2008

Melech Mechaya

Como sempre, mais uma noite de surpresa e música boa de se descobrir. Os Melech Mechaya foram tocar à Quina das Beatas e foi como se, de repente, tivessem entrado os Balcãs inteiros por aquela porta. São cinco rapazes (de Évora, ouviu-se) que ofereceram chapéus a toda a gente, que se divertiram imenso em cima do palco e me deixaram menos triste por não ver Beirut. Cheirava a Verão e a noite estava perfeita para estarmos sentados na rua. Traz boas vibrações, este calor de Abril.

abril 25, 2008

Noites longas

A. em modo acrobático nas ruas tardias de Portalegre

- Epá, eu consigo fazer umas cinco ou seis cambalhotas de seguida.
- Ah sim? E que tal se fosse já? Agora, ali fora?
- Vamos a isso!

(Pode mesmo acontecer um bocado de tudo. Podemos montar a esplanada em dois minutos para aproveitar a noite que parece de Verão. E depois podemos ir à pizzaria que já fechou e beber uma cerveja enquanto comemos fiambre aos cubos. Se voltarmos, bebemos mais uma cerveja enquanto ponderamos se vale a pena tirar a máquina da mala. Podemos maldizer todos os êxitos da Tina Turner que estamos a ouvir mas não podemos evitar saber as letras... E quando percebemos que sim, que vale a pena, ainda não é tarde demais para uma cambalhota em frente ao museu. Talvez pudesse acontecer tudo noutro sítio. Mas acho que só aqui é que sabe bem.)

abril 23, 2008

A minha memória é uma estrada

Havendo algumas coisas sobre as quais me apetecia escrever, agora só me sai isto*.

Just remember that the things you put into your head are there forever, he said. You might want to think about that.

You forget some things, dont you?

Yes. You forget what you want to remember and you remember what you want to forget.

* do brilhante Cormac McCarthy em The Road.

abril 22, 2008

Nick

Um homem de cinquenta e um anos pisa o palco do Coliseu. A multidão, à visão do incontornável fato escuro e do bigode impecavelmente aparado, grita, como que dizendo que já ia sendo altura dele regressar. Há duas baterias em palco, há luzes entre o vermelho e o rosa a contrastarem com o negro do homem que se move agilmente entre os restantes membros da banda. Talvez por ser o primeiro concerto da digressão, o homem parece incansável e bem humorado. Apesar de não ser conversador, diz o suficiente para deixar o público à sua mercê. Faz dois encores, em que deixa o público escolher o que quer ouvir. A multidão abandona o Coliseu com um tranquilo ar de satisfação.

(Nunca fui a maior das fãs mas ensinaram-me a gostar dele. Por isso é que, quando ouvi a Red right hand e a Stagger Lee, estar ali fez sentido. São apenas duas músicas mas que trazem consigo duas caras e ainda mais recordações que parecia ter esquecido. Eram tempos de pura confusão e ideias desalinhadas, noites em que chegava a casa às sete da manhã e ficava no tapete da sala a ouvir música de olhos fechados. Eram noites em que ficava a fumar num parque infantil perto de casa, em que escrevia e recebia cartas sem saber exactamente o que estava a fazer. Eram tempos de sentimentos proibidos e pouco claros. Mas eram tempos profundamente empolgantes e pródigos em vontade de arriscar. Se a música dele não me trouxe mais nada, chegam-me estas memórias desconjuntadas, que começam num banco do Terreiro do Paço e terminam numa tasca suja do Bairro Alto. Portanto, gostando muito ou não, também faz um bocadinho parte de mim. E eu saí tranquila e com tímidas saudades daqueles olhos castanhos.)

abril 21, 2008

Liquid magma noise, man.



Não consigo ouvir esta música (chamada Lovely Allen, dos Holy Fuck - um nome pouco cândido, é certo) sem sentir pelo menos uma pontinha de felicidade. Não porque a vida me corra assim tão bem mas às vezes é muito difícil não sorrir e pensar que, afinal de contas, somos pessoas cheias de sorte. É isso: a música enche-me de esperança. E, mesmo que hoje esteja naquele pico depressivo pós-festa, apetece-me dizer que (com jeito) isto vai.

(uma garrafa de rosé bebida em casa entre confissões risota; um restaurante alentejano com os melhores torresmos e alheira de caça dos últimos tempos; o karaoke demasiado mau para ser verdade, com os colegas de trabalho a abrilhantarem a noite e aquela malta que lá está todas as noites a tentar brilhar; o Incógnito em modo electro com gin tónico, cheiro a cereja e pernas em movimento constante; os aguaceiros antes do táxi de volta à Lapa; dois copos de leite e os olhos fechados no sofá; sossegar)

abril 17, 2008

Substituição: sai o moço deprimido, entram os betinhos cheios de ritmo.



Estou até agora a pensar que é um erro ficar contente e falar nisto mas não consigo. Depois deste outro concerto ser cancelado devido a razões de força maior, tratei hoje de reservar o meu lugar na pista de dança onde estes moços vão contagiar toda a gente com as cores dos pólos e pulloverzinhos de meninos bem comportados. Também vai ser a minha primeira vez no Porto* (assim a sério, mesmo de verdade, sem ser de passagem ou para apanhar um avião) e, consequentemente, nesta sala de espectáculos. Posso estar muito ansiosa por ver outros concertos mas estou ainda mais contente por poder ir abanar a anca ao som disto!

* sim, eu sei que não conhecer o Porto é uma mancha enorme no meu currículo geográfico e já há muito que pensava em colmatar essa falha. Mas à falta de uma ida espontânea, agora há um motivo gigante para ir que vai transformar a visita em algo memorável - é que, não sei as outras pessoas, mas eu vou partir aquela pista toda. Figurativamente falando, claro.

abril 16, 2008

O jogo de hoje do Benfica pareceu-se um bocado com as minhas relações até agora. Na primeira parte, dominou e mostrou-se uma equipa sólida e confiante. Na segunda, depois de voltar dos balneários, foi lentamente sofrendo do excesso de confiança e da ilusão do resultado. Onde antes havia segurança, passou a existir atrapalhação e desnorteio. E quando é assim, o final beneficia sempre a outra parte.

It's a kind of magic...

Lá no escritório, eu tenho a fama de pôr as coisas a funcionar. Sempre que uma folha de cálculo não responde ou a pasta dos Meus Documentos nem sequer aparece, a(s) pessoa (s) chama(m)-me e pede para eu ir até ao seu lugar. Quando chego, coloco-me atrás dela (s) e, miraculosamente, o que antes não funcionava passa a funcionar às mil maravilhas. Mas é sempre, hã? Há quem diga que é por às vezes não ser a pessoa mais simpática do Mundo. Eu cá prefiro pensar que é puro magnetismo sobre as tecnologias.

Aconteceu há dois dias estar num centro comercial com um amigo e o carro dele não pegar. Depois de chegarmos com variadas compras nas mãos, ele meteu a chave na ignição e nada. Nadinha, só um tic tic muito tímido, nada de faísca no motor de arranque. Primeiro, achámos que talvez o carro estivesse quente e que seria preferível esperar um pouco. Mas o tempo arrastava-se, já tínhamos pago o parque há mais de vinte minutos e o carro insistia em ficar sossegado. O atendimento do parque (muito prestável, diga-se de passagem) prontificou-se a enviar a assistência deles, o que nós amavelmente recusámos devido aos potenciais custos.

Portanto, estávamos os dois no carro, perdidos de riso, a ver as horas do jantar a passarem e sem esperança do bicho voltar a funcionar. Quando ficámos fartos de esperar, decidimo-nos pelo evidente: empurrar o carro e tentar que pegasse em andamento. Pedimos ajuda a um jovem que acabara de estacionar: primeiro, olhou desconfiado; depois, percebeu o desespero e resolveu ajudar. Na primeira tentativa, não larguei de imediato a embraiagem e o carro não pegou. Na segunda tentativa, larguei a embraiagem e o carro não pegou. Já tínhamos desistido e o meu amigo tinha-se decidido pela assistência em viagem quando eu, só porque sou a pessoa mais teimosa do Mundo, resolvi voltar a rodar a chave. E o carro pegou. Puro acaso? Talvez. Mas desta vez o acaso granjeou-me grande sucesso entre... bem, entre mim e o meu amigo.

Portanto, o magnetismo não se limita às tecnologias. Estende-se também à mecânica. Acho que vou abrir um consultório.

Acho que estou seriamente viciada.



So I'm moving to New York *
'Cos I've got problems with my sleep

* [antes fosse.]

abril 15, 2008

K de Kazoo

Já antes tinha falado da minha falta de talento para trabalhos manuais ou para a música. Mas até agora nunca tinha tido um instrumento meu (excluindo, claro, a minha voz). E ontem ofereceram-me este kazoo, garantindo-me que isto é viciante e que, acima de tudo, é fácil de usar. Lá genial é ele, que sempre nos dá a ideia de estarmos a fazer algo de particularmente interessante no mundo das canções. É claro que me ri e disse na altura que isto não era nenhum desafio, que era demasiado fácil fazer música com ele, que era só soprar e a música havia de sair.

O problema foi quando, em casa, tentei sacar com facilidade uma versão duma música dos Vampire Weekend. Não deu. Quer dizer, não consegui mais do que soprar sem qualquer consequência, quase sem som. À segunda vez, percebi que há ali um jeito que se dá com a língua (acho eu, que muitas vezes não sei explicar como consigo determinadas proezas) e que, isso sim, faz com que haja qualquer coisa parecida com música. Mais do que lutar para conseguir uma canção completa, ando a lutar com o ridícula que me sinto quanto tento tocar. E se calhar isto nem vem a ser um mau treino. Saber ser ridícula com classe sempre é outra coisa.

abril 14, 2008

Bairrismo

A minha vizinha do lado (que tem mais de sessenta e tal anos) faz-me travessas de aletria, oferece-me pedras semi-preciosas no Natal, recolhe a roupa que esqueci no meu estendal com um anzol (!) e canta o fado enquanto recolhe a roupa dela.

(Um post sossegado a contrastar com o regresso ao trabalho: sem sistema a manhã inteira, houve milhares de contratos para serem separados. Há mais trabalho em espera do que o que esperava e tudo tem que ficar pronto até Sábado. A minha chefe foi de férias, os assistentes perdem a memória todos os dias e as tarefas acumulam-se na minha lista de prioridades. Acho que preciso de férias outra vez. Desta vez, a sério.)

abril 12, 2008

Badlovers & Hysteria Iberika

Foi a última Quina das Beatas antes de voltar à dura realidade. Numa das noites mais concorridas dos últimos tempos, vimos os Badlovers & Hysteria Iberika a flirtar com o público, com gritos a incitar à dança e provocações constantes. Eu era muito pequena quando explodiu a Movida espanhola mas aposto que se parecia um bocadinho com isto. E a frase da noite foi "No me interessa tu polla, solo tu dinero"... Ahem.

abril 11, 2008

Contagem descrescente

Portalegre, pormenor do Paço Episcopal

E eis que ao último dia de férias a chuva dá uma trégua. Em vez das enxurradas dos últimos dias, um Sol tímido por entre nuvens muito altas fez-me ter vontade de sair de casa. Os últimos 5 dias tinham sido passados fechada em casa, sem vontade de encarar a chuva ou o vento forte. Hoje, que é oficialmente o meu último dia de férias, aproveitei para passear um pouco e para [literalmente] ver a luz do dia. Não sinto grande coisa em relação ao fim das férias: demasiado tempo de inactividade leva-me sempre a desejar regressar à rotina. Talvez Domingo o sentimento seja outro e me recuse a entrar no carro para mais duzentos quilómetros. Vou tentar aproveitar ao máximo o tempo que me resta aqui para que na Segunda, quando voltar a ser escrava do sistema (um sistema qualquer, um monstro abstracto e castrador), possa rir-me por dentro e encarar o regresso com coragem.

Casa ♥

Imortalizá-la no (meu) tempo.

abril 10, 2008

We never get to dance, we just seem to stare. *

O tempo vai mudar, eu sei. Denuncia-o o vento que me revolve os cabelos quando fecho a porta do carro e o fumo que as chaminés derramam sobre as ruas do meu bairro. Sei-o quando estou parada, a porta aberta só para ver chover como se fosse a primeira vez, como se não adivinhasse este dilúvio já. Quando te disse que gostava de ouvir esta música muito alto, era apenas isso que queria dizer: que a queria ouvir até que ela me cobrisse, até que não houvesse mais nada. Conversamos tanto sobre tão pouco que às vezes duvido da minha capacidade de abstracção. Falamos, usamos palavras gastas, moldamos-lhe o significado, tentamos alterar-lhes o sentido até que elas possam dizer exactamente o que queremos mas nunca conseguimos, ficamos sempre quase lá.

E tu, quando tu me pedes silenciosamente para ficar, sabes que gostaria de ficar. Desenterras a ferida mestra com que me marquei um dia e sabes exactamente quando e como me vou magoar. Não faz mal, penso eu. Não importa que saibas ler-me para além de todo o ruído com que normalmente me cerco. Eu quero ser triste contigo porque tu sabes como dói. E quando a minha dor passa a ser a nossa dor, a tristeza amansa e somos menos tristes, as duas. Sentada neste banco alto, espero apenas o momento em que me desarmas para soltar o dilúvio. De palavras, de sal. E se me ofereces mais um copo, é porque sabes como a dor desiste de mim quando a euforia me controla o corpo. Só quero que me doa até chegar aqui. Até ao momento em que abrimos a porta e há um rio castanho a lamber a soleira. Antes disso e depois disso, eu sou apenas mais uma.

* de alguém de quem gosto muito.

abril 09, 2008

Porquê?

Em resposta ao desafio que a Sónia me lançou aqui, fica a explicação.

Nas primeiras vezes, escrevi num blog (que já não existe) em forma de diário. Tendo perdido a password para aceder ao mesmo, copiei os textos que tinha lá e foi assim que comecei este. Naquela altura, pensei que era uma maneira mais ou menos segura de manter um diário, sem os constrangimentos de alguém o poder ler. Já tinha experimentado a versão papel mas uma vergonha constante de ser descoberta fez-me desistir.

Depois de colados os textos neste blog, comecei a perceber que havia mais coisas sobre as quais podia escrever. E a verdade é que, ao longo dos tempos, a escrita adensou-se e foi acompanhando os meus (inúmeros) picos de humor. No início, ninguém sabia da existência do blog mas sabia que, por ser um local público, era provável que alguém lesse o que escrevia. Lembro-me que um amigo o descobriu, acidentalmente, em 2004, o que provocou uma mini-revolução na minha maneira de escrever porque sabia que estavam de olhos postos em mim.

Quando estive em Berlim, tinha a intenção de usar o espaço para mostrar como se vivia por lá. Mas a preguiça e a dificuldade no acesso à internet não me motivaram e só sobraram meia dúzia de posts errantes. Só depois de voltar consegui manter uma frequência digna desse nome - e aí já mais gente sabia que escrevia. Daí até chegar ao ponto onde estamos hoje foi um salto.

Continuo a escrever porque é, talvez, aquilo que me dá mais prazer. Sem talento para trabalhos manuais ou para tocar qualquer instrumento, sobra-me a escrita. Também não vou negar que a esperança de existir gente desse lado me faz continuar: é muito reconfortante essa sensação de feedback, de partilha - de público, enfim. Mas provavelmente continuaria a escrever se tudo isso não passasse de uma esperança porque preciso. Nem que seja meia dúzia de palavras. E a vocês, o que vos move? Ao Pedro, ao Cosmonauta, à Catita, à SuperM. e à Berlinerin.

abril 07, 2008

Uma cidade adormecida

Era Domingo de manhã e eu precisava sair de casa com urgência, depois de um Sábado passado a contorcer-me ora no sofá, ora na cama. A minha mãe tinha-me dito que o melhor era vestir umas calças e ir para a rua andar um bocado. Não saí de casa antes de procurar um boné. Estava tanto calor para um Domingo de Abril mas nada que possamos realmente estranhar porque agora quase só temos duas estações. Havia mais pessoas a subirem a serra, devagar, conversando sobre coisas que a música não me deixava ouvir, suando debaixo do mesmo Sol que fazia com que destilasse todos os meus excessos.

Quando desliguei a música dei-me conta da ausência de sons, à excepção talvez das cigarras e do crepitar das ervas secas. Portalegre ainda estava a dormir ou a espreguiçar-se pelas altitudes que (dizem) já não deviam ser alentejanas. Evaporavam-se os meus males com a caminhada e encontrava finalmente a tranquilidade de que andava à procura.

abril 06, 2008

Wraygunn

Dificilmente podia ter um melhor começo de férias. Um concerto no sítio do costume e uma noitada à moda antiga, com direito a discoteca e tudo. Desta vez, os Wraygunn tocaram no Grande Auditório, que infelizmente estava muito longe de esgotado. Mas se calhar essa mesma ausência de público tornou o concerto num acontecimento muito mais espontâneo e ajudou a que pouca gente fizesse a festa em grande. Todos foram convidados a estar perto do palco e, no momento mais surrealista da noite, dada a possibilidade de alguns motores serem danificados (quando se falou nisso houve uma gargalhada geral na sala porque ninguém entendeu do que se falava), todos foram convidados a subir ao palco.

Não contente apenas com o público a partilhar os holofotes, o homem tigre ainda montou o microfone na primeira fila da plateia e tocou entre um público impressionado com a sua espontaneidade. Galgou todas as filas da plateia de microfone em punho, demonstrou o seu sentido de humor com um casal de holandeses que também se encontrava no concerto e acabou a noite a passar discos no bar do café-concerto. É por isto que é tão bom ouvir e ver música aqui - porque a certa altura artista e público tornam-se num só e, de copo na mão, é muito difícil distinguir quem é quem.

* uma nota breve sobre o encontro de blogues que este concerto proporcionou. Pedro, espero que a tua princesa tenha gostado das Princesas no Gelo

abril 03, 2008

Return to sender

Mala feita. Livros, máquina fotográfica, jornais em atraso, disco externo num saco. Não tenho planos nenhuns para a próxima semana, que será de férias em casa. Também podia ficar em Lisboa para acordar cedo todos os dias e pensar, aliviada, que não preciso ir trabalhar. E podia aproveitar este tempo desregrado para dar um salto a uma praia qualquer.

Faz por esta altura um ano que estava aqui e não conseguia encontrar melhor sítio para estar. Apetecia-me repetir estes dias todos que passei sozinha a conduzir quase sempre à beira-mar, a comer peixe fresco em restaurantes em que era a única cliente, a estrear a roupa de Verão, a passar a manhã inteira na Zambujeira com um pequeno-almoço daqueles enquanto lia o jornal e gozava o silêncio, a fazer uma espécie de viagem de reconhecimento dentro de mim. Quase nunca conduzi a mais do que setenta quilómetros por hora, descobri praias escondidas por caminhos de terra batida e comi o primeiro gelado do ano enquanto ia a pé para a praia de Almograve.

Como ainda não sou milionária, não posso seguir à letra essa ideia das férias fora de época. Trabalha-se em Agosto, enquanto toda a gente esgota as praias e os sítios giros de se visitar, e gozam-se as férias num mês improvável, quando a possibilidade de encontrar mais gente na mesma situação diminui drasticamente. Resta-me saber que no meu destino vou encontrar desse silêncio. Mais familiar, é certo, mas igualmente bom para pensar. Faltam dezasseis horas e meia e eu sinto o tempo a passar devagar. Quando voltar, estarei já em modo férias.

abril 02, 2008

Idiossincrasia

Enquanto aspirava o quarto e a cozinha dei comigo a pensar que umas vezes quase me emociono quando encontro pessoas parecidas comigo (os mesmos gostos, as mesmas ambições, as mesmas maneiras de encarar as dificuldades). Noutras vezes, apenas sinto um esboço de tédio. Às vezes, sinto-me a pessoa mais cruel que existe.

(E, nem a propósito, preparo-me para ver o There will be blood, onde (parece) vou encontrar uma personagem que vai mudar a minha definição de crueldade. Para me lembrar que não sou assim todos os dias.)