julho 23, 2008

Update *

* ou como, desta vez, fomos estender as nossas toalhas na relva do Crato, já a tarde ia longa. Tivemos direito a um concurso de saltos para a água, piscinas com água (quase) demasiado quente, um fim de tarde ventoso mas tão agradável sem que a menina anunciasse o seu final nos altifalantes. No caminho, cheira-me a campo mas faltam-me os eucaliptos antes daquele cruzamento e vejo o progresso da nova estrada que desenham até Lisboa. Passamos pela casa onde eu gostava de morar, cercada por vinhas, com um rodapé azul do mais bonito que há - sempre achei que com um computador e alguns livros podia ser feliz nestes ermos silenciosos. Aceito os conselhos generosos e deixo de sentir saudades do futuro - este presente, com planos vagos, com sandes embrulhadas à pressa e o biquini sempre estendido à janela, é mais do que podia desejar.


T., M. e eu, por ordem de aparição.

julho 22, 2008

Queria ser omnipresente.

Passam cinquenta e três minutos das nove da manhã quando os óculos de sol me tapam as olheiras da noite de ontem. Deixei-os a todos mais cedo, antes que passassem dos planos à acção e acabássemos todos mergulhados clandestinamente num tanque qualquer. Queria saltar muros ou sentar-me num sítio qualquer sem iluminação, queria continuar a dançar os êxitos dos ABBA no bar onde já somos os últimos clientes. Mas ontem impus-me a reclusão.

Passam cinquenta e seis minutos das nove da manhã quando compro o meu bilhete de dois euros e escolho uma espreguiçadeira na minha piscina favorita de todos os tempos, com vista sobre a serra e sobre os retalhos cultivados que se estendem até onde esta névoa do calor deixa ver. Hoje o céu já não está azul, está queimado pelas temperaturas altas. E, quando passam dois minutos das dez da manhã e eu mergulho pela primeira vez, estão seguramente mais de trinta graus. O calor mistura-se com a água, que está tépida ao primeiro toque. Há tantas caras conhecidas para quem me tornei uma estranha, uma visita de passagem, aquela cuja vida não passa de um enorme ponto de interrogação. Pela primeira vez, quando passam cinquenta e dois minutos das dez da manhã, ouço a expressão de pena do dia (Ah mas vieste sozinha? Pois... Que pena não teres companhia...), como se não pudesse gostar de estar sozinha.

Passam quarenta e dois minutos das sete da tarde e penso na minha casa vazia em Lisboa. Tenho saudades da Lapa mas não estou certa de já ter vontade de voltar. Está calor, tenho os meus amigos e a minha família aqui. Só não consigo evitar pensar naquele silêncio do meu corredor - estou continuamente dividida.

Guilty pleasures

É o resultado de ter visto as primeiras duas séries em menos de uma semana. Provavelmente, é preciso crescer um bocado antes de poder sequer compreender as subtilezas que sustentam cada episódio. E, como é óbvio, não me assemelho em nada a estas mulheres de Nova Iorque: tenho menos de trinta anos, não uso Gucci nem Fendi nem Prada, não frequento os melhores restaurantes da cidade e as minhas relações não têm metade do glamour das relações delas. Mas se eu considerar só o pragmatismo da advogada, a ingenuidade da galerista, a clarividência da relações públicas e o idealismo da jornalista sou um bocadinho delas todas. Mesmo sem maquilhagem, Cosmopolitans ou trezentos pares de sapatos. Mesmo neste pedaço de Alentejo a arder.

Well, I don't know how you people do it. All that emotional chow-chow. It's exhausting.

julho 20, 2008

Post com dedicatória *

De todo o mal que me fez, o que me magoa ainda hoje é a ingratidão, a incapacidade de aceitar que o que tínhamos juntos era o mais próximo que ele ia encontrar de perfeito. Passaram dez anos e a nossa vida poderá continuar mas provavelmente nunca estarei totalmente a salvo das suas tentativas reles de me magoar. E toda a dor que ele me causou apenas me deixou uma gigantesca percepção do que é o respeito por mim mesma, do que é não sucumbir à maior rede de mentiras que alguma vez me contaram, de procurar alguém verdadeiramente à minha altura. Deixá-lo foi a mais difícil e mais acertada decisão de toda a minha vida, foi acordar para um mundo em que eu era realmente uma pessoa, foi crescer e ver que a vida não precisa ser só um emaranhado de noites inquietas e dias confusos, em que nunca se sabe bem em quem confiar.

Por isso, se me perguntarem um dia qual foi o melhor momento da minha vida, eu vou responder que foi o dia em que te deixei, o dia em que encheste a minha caixa de mensagens com todos os insultos que pudeste inventar, o dia em que me perdeste para alguém incomparável e infinitamente melhor. Nada do que me possas dizer hoje ou amanhã me irá abalar porque, tanto eu como tu, sabemos que a tua vida é o castigo por tudo o que deitaste fora.

Apenas desejo não mais me cruzar com ele. Para que da minha boca não saia mais do que quero dizer.

*para mim, que um dia consegui perceber que se fazia tarde. Para mim, por ter perdido sete anos da minha vida a gostar de alguém. Para mim, no dia em que decidi que, de onde esta dor veio, não virá mais nada. Nunca mais.

julho 17, 2008

A felicidade na minha caixa de correio

Ich befinde mich im Urlaub vom 14.07 bis einschließlich 25.07. Falls nötig bitte wenden Sie sich an xxx oder yyy in diesem Zeitraum. Danke!

julho 16, 2008

Estado em que se encontra este blog

A banhos.

Balançando entre o amarelo das searas, o inigualável azul do céu e os aviões sem rasto da cidade natal e o rebuliço, as noites silenciosas e as travessias da ponte da cidade adoptiva. Entre ambas, apenas há espaço para os lanches diários nas avós, para a música que se ouve em cima de uma cadeira de massagem e para a gastronomia que senta bons amigos à mesma mesa. Tudo o resto se resume a água transparente e pele morena. Tempo para pensar, sim - mas só em coisas realmente boas.

julho 13, 2008

About yesterday (and the day before and the day before that)

Podia só dizer que foi o mais perfeito começo de férias.

(houve tempo para experimentar um festival novo, desta vez em Oeiras. O recinto é demasiado comprido para que se possa alternar confortavelmente entre os dois palcos, as casas de banhos deixaram de ser unisexo, o som da música de dança a meio do recinto prejudica o som nos palcos maiores. Mas houve The National (outra vez) que, não comparando com a Aula Magna, me fizeram fechar os olhos durante breves segundos só para sentir aquilo tudo como deve ser. E houve o regresso à minha adolescência a ouvir os Rage Against The Machine e a descoberta que ainda me apetece muito saltar ao som daquela música.)

(jantar marcado para as nove, algures em Algés. O restaurante tem a porta fechada, é obrigatório tocar à campainha para que nos façam entrar numa espécie de dimensão diferente. É como se fosse uma casa de família, as mesas impecavelmente postas, os pratos elegantemente desirmanados. Os empregados eram delicados como a etiqueta exige, a meia luz esbatia os contornos dos rostos aristocráticos que se sentavam nas outras mesas. Cinco variedades de fondue, tinto alentejano macio e uma salinha só para nós.)

(sardinhas em Setúbal e quase duas horas esperando o ferry. Fazer outra vez aquela estrada trouxe-me boas recordações - as voltas que demos em Tróia, as praias a que tentámos ir, a noite em que dormimos quase à beira mar. Acabámos na Comporta, a praia longe de estar cheia, o vento que não nos deixava estender a toalha. No topo das ondas que revolviam a areia, senti-me a controlar a minha vida e soube que o meu desejo havia de se tornar realidade.)

julho 09, 2008

I've got a thing for you

Não devia ter pegado no livro que (supostamente) disseca os signos e os seus ascendentes. Sempre que leio, sou absorvida pela quantidade absurda de generalidades e revejo-me em grande parte das coisas que eles dizem que eu sou. Mas não é que eu acredite em horóscopos nem em previsões ou cartas astrais - quando os leio, é apenas para me rir (e secretamente tentar alinhar o que me acontece com aquilo que está previsto...).

Li várias vezes a parte em que eram descritos os amores das mulheres deste signo. Não foi com surpresa que li que são uma coisa quase doentia, um sentimento amarrado a pormenores, capaz de explodir a qualquer instante. Não me admirou que se falasse em lealdade cega e instinto protector quase selvagem. Se os signos têm algum fundo de verdade, esta minha impulsividade, esta incapacidade de conter as palavras e a insistência em reservar os pensamentos são a prova de que precisava. Só não li em lado nenhum que a nativa deste signo prefere esperar por um grande Amor em vez de se entreter com menoridades do género, que procura alguém que a domine com um só olhar ou uma palavra de ternura. Não encontrei referência às vezes que se engana a amar, às paixonetas que confunde com o amor, às aventuras que tenta fazer passar por começos de alguma coisa. Nem sequer li em parágrafo algum que (algum)as mulheres deste signo desejam apenas uma reciprocidade tão perfeita que se perdem em jogos de cintura inúteis, em desejos satisfeitos, em concessões desnecessárias.

E também foi omitido o profundo terror que sentem quando, nos longos momentos que passam a pensar antes de adormecer, sentem que tudo o que desejam não se vai repetir ou estar à altura daquilo que esperam. Mas, em conversa com uma velha amiga e ouvindo as palavras que eu mesma escolhi, percebi que a esperança secreta nessa outra pessoa torna a vida mais suportável, a espera menos dolorosa. É que o meu ascendente promete-me grandes conquistas e eu, desconfiando, acredito.

(e agora uma breve pausa publicitária)

A empresa onde trabalho está à procura de pessoas que queiram juntar-se a nós. Não importa se só vos apetece trabalhar no Verão ou se querem mesmo começar a trabalhar a sério, todos são considerados. Portanto, se conhecem alguém com vontade de arregaçar as mangas, o meu contacto está no perfil. Não se prometem ordenados chorudos nem regalias imediatas mas há por lá gente boa e trabalho que chegue.

(de volta à emissão normal)

julho 08, 2008

À flor da pele pt. II *


Encostado à parede, perde-se em antecipações. Já bebeu qualquer coisa forte para conseguir lidar com a pressão de ser apenas um homem. Parece meio desorientado no meio daquelas cadeiras vazias, no meio do silêncio artificial da sala. Revejo esta cena durante alguns minutos, quero decorar o ritmo com as suas pestanas descem sobre os olhos, quero poder dizer-lhe que sei como é. As luzes, a ansiedade dos olhos que pousam sobre ele, o suor que se ouve cair na sala tornam a sua voz mais triste e os seus desejos mais escuros. Puxa o microfone até à altura do coração e grita tudo o que pode. Posso sentir a intensidade mesmo em silêncio, mesmo sem cor, sem saber o que está a cantar. Um dia perguntaram-me o que tem isto de especial. Acho que não sei dizer mas sei exactamente do que se trata.

Tonight you just close your eyes/and I just watch you/slip away

*agora em versão puramente emocional. Este still é do documentário A Skin, a night, realizado por Vincent Moon e que nos mostra outros lados B dos The National.

julho 07, 2008

Som! Experiência! 1, 2!

Abre-se neste momento um novo capítulo na história deste blog e com ele a possibilidade de participação dos amigos. A partir de hoje, a Jane do Às vezes apetece, o Vodka e Valium 10 do Fantástica Gramática Automática, o Cosmonauta do Terra de Ninguém e o Ricardo do 2H têm também voz aqui. A ideia, de acordo do o mentor desta troca, é simples: se convidamos os nossos amigos para nossa casa, porque não os convidamos para outros sítios onde nos sentimos bem?

Mais desenvolvimentos nos próximos tempos. Eu cá já abri as hostilidades, só é preciso descobrir onde...

julho 06, 2008

Portalegre, 21h37m

Penso nos quilómetros que já fiz em toda a minha vida, constantemente a alternar entre a minha casa e o sítio onde escolhi viver. Todas as horas que passei dentro do carro são para chegar aqui, para sair do carro e ver anoitecer uma noite de Julho gelada, para absorver a escala de cores com que se pinta o teu céu. És a minha casa mas, corajosa, empurras a minha vida para longe. Promete-me que um dia poderei regressar.

julho 05, 2008

Sobre técnicas de relaxamento

Neste últimos tempos, o descanso tem sido pouco ou, pelo menos, pouco proveitoso. Há demasiadas horas extra a serem feitas desde há duas semanas (e para continuar), há este calor que, mesmo em Lisboa, me obriga a ligar a ventoinha assim que chego a casa. Por isso, não é de admirar que o fim de semana se divida só em três actividades: uma cervejinha com os amigos, piscina logo pela manhã e sesta a atravessar a tarde.

Junta-se os planos para esta última semana antes das férias (Alive!, jantar fondue, dançar loucamente ao som de Discotexas, apanhar amigos de quem morremos de saudades no aeroporto); os momentos de silêncio deitada numa espreguiçadeira na piscina, olhando os aviões que hoje não deixam rasto no céu, repetindo momentos bons em loop; e as horas de sono que se foram perdendo durante a semana. A continuar a este ritmo, vai ser um Verão do caraças.

julho 02, 2008

Não quero o amor/O que me entusiasma é a boa imitação.

Sentados numa esplanada do largo do Carmo. Digo-lhe que trouxe o mau tempo de longe, ele gosta do tempo assim. Cumprimenta alguém conhecido, desvia o olhar constantemente como se estudasse as pessoas que passam nas minhas costas. Subo as escadas rolantes com um passo hesitante e quebrado, um nervoso muito maior do que o meu corpo aguenta e ele ali está, de olhos semi-cerrados à minha espera. Ele à minha espera. Já não sou eu deitada no escuro a contar os minutos que já passaram, é ele sentado ali. O meu coração não sossega, sinto-me suar. Não tiro o óculos de Sol enquanto estamos juntos. Decoro-lhe os pormenores da cara, os olhos escuros, os cabelos brancos em operação de charme. Se quiser responder com honestidade à pergunta O que faço eu aqui? não posso. E, enquanto viramos costas numa esquina da rua Garrett, só me consigo lembrar de dois versos*. Disso e do dia em que me disse com aquela calma Deixa ficar o colar, deixa-o ficar...

* as palavras de m.r.t. musicadas pel'A Naifa. Outra vez.

julho 01, 2008

Dancing queen

Estou na cozinha e, quanto avanço para o corredor, as pernas fogem-me e marcam o ritmo à vez. Esqueço-me que há televisão, esqueço-me que o jantar ainda não ficou feito e danço. De manhã, atravesso o jardim da Estrela sem conseguir disfarçar o movimento dos ombros, que à entrada deixaram de me obedecer. Se olharem bem para mim, reparam no meu andar estranho, tentando submeter as ancas ao passo normal. Nas escadas rolantes da estação de metro, seguro-me para não criar uma coreografia ao som da música. Temo que a qualquer momento perca o controlo e dance ali mesmo, de olhos fechados.

A culpa é dele. Chamam-lhe Xinobi e podem ouvi-lo aqui.

junho 29, 2008

Alegres noites, quentes manhãs


Acordo e é como se estivesse ainda a sonhar. Está demasiado calor para as dez da manhã e eu estou demasiado enrolada no edredon para deixar de suar. Tento refrescar-me como posso e desfaço a cama com voltas sucessivas. Não consigo controlar a minha cabeça e deixo de tentar organizar as imagens que me perturbam o sono. Queria dormir outra vez mas as minhas fantasias estão demasiado despertas.

Um dia a Caixa vem abaixo

Ontem foi noite de marcar presença em mais um concerto, desta vez num sítio que nunca tinha visitado e que devia visitar mais vezes: a Caixa Económica Operária (cujo site podem consultar aqui). Para quem conhece a Sociedade Harmonia Eborense, este espaço de Lisboa está mais ou menos nessas linhas: um prédio antigo, escadas várias e algumas divisões que se organizam em torno do palco. A noite foi organizada pela Nervo (myspace aqui) e reuniu ontem os Lobster (electrizantes!), os Pontos Negros (promissores mas que sofreram com a má qualidade do som) e os The Vicious Five (máquina bem oleada, frontman como sempre em grande estilo) - grande noite de rock, como é óbvio.

Algumas pessoas, como nós, resolveram ver os concertos da varanda. Tentávamos enganar o calor que fazia com cerveja fresca mas foi difícil ignorar a quantidade de suor que nos colava a roupa ao corpo. Houve muito humor, houve o Joaquim a cantar a Taras e Manias sozinho em palco, a cumplicidade silenciosa entre os dois membros dos Lobster, um certo nervoso miudinho dos Pontos Negros. Excelente noite de música, encerrada no Incógnito com mais música e gente chata que insiste em parar e conversar no meio da pista. A pista foi nossa, mesmo assim. Música e calor - o que eu gosto do Verão...

junho 27, 2008

Sobre convites inesperados e calor sem rival

The book of love is long and boring
And written very long ago
It's full of flowers and heart-shaped boxes
And things we're all too young to know but


Este moço, tendo dirigido o mesmo convite a quem não o aceitou, levou-me ontem à noite a ver os Magnetic Fields na Aula Magna. Foi uma bela noite, cheia de canções bambi sobre corações partidos e crimes passionais numa sala longe de estar esgotada. Apenas dois pontinhos negativos: o calor inacreditável* (passei a noite a tentar improvisar um leque) e o senhor Merritt tapando os ouvidos sempre que o público aplaudia... Agradecida, sim?

* a foto foi tirada durante o intervalo (sim, intervalo!) que a banda fez para que as pessoas pudessem refrescar-se e fumar o seu cigarrinho... Inusitado, no mínimo.

junho 25, 2008

Dormir mais feliz #15

This* is the devil's game
This is a holiday
This is the devil's game
It turns me on

* não sabendo o que pensar, invento. não há regras nem excepções mas eu sei que quero ganhar. há uma sequência de palavras a repetir-se na minha cabeça o dia inteiro, quatro palavras tão curtas e tão carregadas de ansiedade. não me chega repetir o que já sei, quero reescrevê-lo nas/com as minhas mãos. pudesse eu, quisesse eu parar. é o torpor da insinuação a manter-me na frente. é esquecer-me que sou cérebro e deixar-me comandar pelo calor.

E assim acontece

Pois é. Algo impressionada com o trailer deste filme, resolvi que estava na altura de um bocadinho de emoção numa sala de cinema. Não sou particularmente fã dos filmes de M. Night Shyamalan, é certo, mas não descartava a hipótese de mudar de ideias. E até sou uma pessoa mais ou menos crédula, se souberem como me levar. A ideia duma vingança da Natureza contra a forma como temos tratado o planeta até nem era difícil de aceitar mas a forma como tudo acontece... é demasiado má.

Portanto: eu consigo acreditar na vingança das plantas, que libertam uma toxina que inibe instinto de auto-preservação dos humanos, levando ao suicídio colectivo numa questão de minutos. O que eu não consigo engolir é que isto se passe num espaço curto de horas, sem razão aparente, sem explicação plausível que não uma hipótese lançada ao ar; que a história que liga as personagens principais se cole demasiado àquilo que aconteceu na Guerra dos Mundos (que, sendo igualmente fantasioso, era um filme que se sustentava sozinho); que os momentos de suposto terror alternem com piadas low-profile; que, intencionalmente ou não, se veja em diversos momentos do filme o microfone mesmo acima dos actores (numa cena em que uma personagem leva um tiro na cabeça, a aparição do microfone é especialmente absurda); que as personagens sobrevivam à catástrofe apenas porque se amam e estão a tentar superar uma (pouco credível) crise conjugal. Portanto, eu sabia o que dizia quando, antes do filme, sugeria vermos antes o Sexo e a Cidade - é que era trigo limpo, farinha amparo: sabia-se exactamente o mau que iria ser.

junho 22, 2008

Receita para os primeiros dias de Verão *

Depois da estreia em noites quentes, dorme-se a primeira sesta do fim de semana, em quarto com ambiente tropical e propício à preguiça. Quando o sono acaba, aproveita-se a boleia até à Portagem para um soberbo prato de caracóis, dois dedos de conversa e uns minutos de ar menos pesado e quente. Encerra-se o capítulo gastronómico do dia com umas sardinhas ( quase a chegar à dezena) e uma imperial fresquinha.

Passa-se à música, com uma noite animada pelos Yard Dogs Road Show (que podem experimentar aqui). São onze pessoas envolvidas numa mistura de cabaret, freak show e rock cuja presença em palcos portugueses já pode ser designada de frequente. Muito bons músicos, humor burlesco e dançarinas sensuais - passo o espectáculo todo de sorriso na boca, espantada com as plumas, o acordeão e com o homem que engolia facas. A fechar a noite, assiste-se pela segunda vez à actuação do Cais Sodré Cabaret (que também podem conhecer aqui), um grupo de sensuais e coquetes raparigas convenientemente vestidas a rigor (todas com o ar super-retro anos 40/50 e maravilhosos penteados a rematar) com coreografias originais mas ainda a precisarem de mais tempo em palco.

Termina-se em beleza com uma manhã na piscina. É dos meus momentos preferidos: quando finalmente seco numa espreguiçadeira e o meu pai lê o jornal à sombra. Vamos falando dentro e fora de água, ele mergulha de chapão e eu consigo fantasiar tanto de olhos abertos...

* consumir exactamente por esta ordem.

junho 20, 2008

Terapia

Dentro do carro estão seguramente quase quarenta graus. Tenho as calças coladas às pernas e as pernas coladas ao banco. O calor come as cores e passa a existir apenas o amarelo palha do chão e o cinzento sujo do céu. Na recta entre Pavia e o Vimieiro, dezassete quilómetros traçados a esquadro e régua, grito com tudo o que as minhas cordas vocais podem oferecer. Todo o amor do Mundo não foi suficiente/Porque o amor não serve de nada. Quando abrando nos semáforos do Vimieiro, sinto-me mais leve. O suor já a correr em bica mas o fardo um bocadinho aliviado.

junho 19, 2008

*

Era o desejo em ondas tímidas sempre que podia pensar nele. Era uma erupção morna, palavras deslizando sobre o calor, naufragando entre o ventre e a boca cheia de beijos. Ela encostava a cabeça ao vidro e sonhava-o durante os minutos vagos. Intencionalmente, deixava os olhos abertos enquanto a escuridão se instalava a seu lado, à sua volta e repetia a sombra dele encostada à porta, repetia o gesto casual da sua mão tocando a parede, preparando-se para lhe tocar. Era muito mais que o desejo, era o fascínio cru da carne e do suor enquanto se olhavam, como dois corpos celestes em doce colisão. Entregavam-se à ausência do amor e, em silêncio, habitavam outros corpos nesses breves instantes de abandono total. E era tudo demasiado simples para sequer ser real.

*[...] o teu corpo não me serviu de resgate[...]

junho 18, 2008

Au coeur d'un Orient *

Estão os dois sentados numa boîte de péssimo gosto e partilham o mesmo maço de tabaco. Um tem o olhar perdido num passado que o faz continuar a correr, o outro abandona-se à incerteza do caminho que fez até agora. Querem ambos ser amados apesar dos seus segredos, da falta de tempo, da efemeridade das palavras com que encantam as mulheres que à noite os satisfazem.

Ele pega na máquina fotográfica e dispara incessantemente: um abraço proibido num posto fronteiriço, a força a que submete todas as mulheres que se deitam na sua cama, o homem com quem partilha o quarto e que diz mais com os olhos do que com palavras, os cabelos negros espalhados pela almofada do seu quarto de hotel. Procura em todas as mulheres pedaços que o ajudem a construir a sua amada - aprendeu-o num dizer tradicional. Os seus olhos semi-cerrados são a fonte da luxúria, a razão pela qual as mulheres terminam a noite deitadas sob a sua objectiva. É terrivelmente sexual e sabe disso.

(ou a história deste filme que, não deslumbrando, tem o mais poderoso par de olhos - como os dele - dos últimos tempos e uma banda sonora tão inesperada me ocupará o adormecer durante algumas noites...)

junho 16, 2008

A garagem da vizinha + Great DJ

Afinal, Santos também podem ser quando nós quisermos - é esta a vantagem das festas da cidade em Lisboa se arrastarem por um mês inteiro e por vários bairros simultaneamente. Portanto, eu continuo a acreditar que para tudo há uma razão e a razão pela qual eu fiquei em casa na véspera de feriado foi para me poupar para a noite de Sábado.

O que nos juntou foi essa ideia de comer sardinhas e aproveitar as noites já quentes (esqueçamos a chuva de ontem e o dia de hoje...) para bailar. Já tínhamos falado na Bica e foi exactamente aí que satisfizemos o nosso desejo de Santos. Depois de esperarmos duas horas para conseguir uma mesa para oito (e aquele casal passar à frente e os músicos passarem à frente e estas duas senhoras passarem à frente e esta malta não se levantar nem à lei da bala), lá conquistámos a simpatia da Guida (a empregada de serviço, que acabou a noite a oferecer-nos imperial) e do senhor Jaime (com a sua cara encardida de assar tanta sardinha e de voltar tanta bifana mas que fazia questão que tudo estivesse em ordem).

O baile já se ouvia onde na noite anterior se tinha reunido Portalegre A. O largo de Santo Antoninho estava longe de cheio mas era isso que tornava tudo mais agradável. As pessoas, maioritariamente moradoras na zona, dividiam-se entre o gradeamento que assomava sobre o palco e o largo propriamente dito, onde um grupo de freaks dançava efusivamente. Os músicos eram (provavelmente) os piores do Mundo mas isso tornava a noite numa ocasião irresistivelmente mais divertida. Entre nós, não se dançou muito - alguns pés guardavam-se para o que viria depois.

Já tinha perdido a conta às vezes que quis ir ao Incógnito numa noite destas. Adiei quase sempre por falta de companhia - estar sozinha numa discoteca não faz nada o meu género. Mas ontem, culpa de uma conjugação inédita de factores, lá dancei ao som dos Discos Voadores do Nuno Galopim. Sempre li os alinhamentos das edições anteriores com alguma inveja porque eram sempre demasiado perfeitos para eu não poder dançá-los. E foi perfeito na mesma: a pista mais desimpedida que o costume, o gin tónico logo à entrada, o dj de braços no ar a incentivar toda a gente à festa, a música que se ouve em casa, agora pronta para dançar.

Do que veio a seguir, guardarei apenas memória porque não me orgulho de ser irresponsável. Mas digamos que envolveu quatro sandes mistas, um biquini vestido e estender o corpo finalmente na cama às nove da manhã. E os Santos eram na quinta-feira, diziam vocês? Na.

junho 12, 2008

(E ainda) os Santos...

É quinta-feira, véspera de Santo António e a menina está onde? Em casa. Os pais saíram para uma sardinhada ainda não eram oito horas; os amigos ligaram a perguntar onde se dava o pezinho de dança; as marchas ocupam o horário nobre na televisão. Não é que eu tenha saudades de ser esmagada por uma corrente humana alcoolizada e alegre por coisa nenhuma, nem das sardinhas que nunca conseguimos comer porque não aguentamos e precisamos procurar mais uma casa de banho, nem das três horas que esperei sozinha por um táxi no ano passado.

Mas apetecia-me tanto bailar. E perder-me nas travessas que rodeiam o Castelo. E procurar transporte até a manhã começar a levantar... Acho que vou ali amuar e maldizer o dia em que resolvi trabalhar num departamento alemão - feriados? Nem vê-los.

E agora para três ou quatro coisas diferentes...

Well, it's not like you're one thing or the other, okay? There's still a kid inside but you grow up when you decide to do right, okay, and not what's right for you, what's right for everybody, even when it hurts.

Os abraços que faziam doer, o prato de comida ainda por tocar, o pânico que fazia desapertar a gravata. Ele não sabia como crescer senão inventando para si mesmo um amor incondicional, um substituto do conforto e da paixão. Vestia camadas de roupa para se proteger do toque dos outros. Espreitava atrás das cortinas a vida normal que ele não conseguia para si. Queria gostar mas isso só fazia tudo doer ainda mais. Por não ser também muito tolerante à frustração, gostei deste filme. É material para me deixar com um nó na garganta.
Não tinha assim grandes expectativas sobre o novo álbum destes moços, principalmente porque só há pouco tempo me apercebi que vinha aí qualquer coisa nova. Sei bem as opiniões contraditórias que a música deles gera por aí mas acho que não me podia importar menos com os preconceitos dos outros. Ando a ouvi-los muito (alternando com os moços do post abaixo), especialmente pela manhã, enquanto os primeiros raios de sol (já quente) furam entre as copas do jardim da Estrela.
Eu consegui resistir até aqui. Não partilho desta histeria generalizada à volta da selecção que leva as pessoas a interromperem o trânsito só porque ganhámos mais um jogo da fase de grupos. Não tenho sido adepta da bifana nem sequer da mini durante os jogos, porque jogos e trabalho são duas coisas incompatíveis. E não me incluo nos pessimistas que davam tudo como perdido antes do primeiro jogo nem aos optimistas que acham que vamos ser campeões. Mas foi a primeira vez que ouvi o relato de um jogo da selecção e a primeira vez que ouvi um golo e pude comemorar com as pessoas que encontrei a caminho de casa. Em vez de Estrela brilhante brilhante brilhante brilhante* não podíamos ter Portugal brilhante brilhante brilhante brilhante?

* se não sabem a que me refiro, experimentem a ver a Liga dos Últimos um dia destes e descobrem :)

junho 10, 2008

Dezoito segundos antes do amanhecer *

Absolutamente luminoso. As mesmas paisagens inóspitas da Islândia mas agora na Primavera. A infinita capacidade que a música tem de gerar paz. Os últimos acordes do piano a fecharem uma canção. O emaranhado de palavras que não entendemos mas que nos confortam. Os crescendos épicos a fazerem o peito inchar. A música ideal para o primeiro cruzar de olhos. Uma espécie de elevação que parece que não vou aguentar. As noites em que ainda vou adormecer ao som disto.

* em português porque o meu islandês (e o meu hopelandic) não está famoso. Eles voltaram e ainda bem. Já fazia falta esta luz.

junho 09, 2008

Visto nunca ter sido intenção deste blog denegrir a imagem de alguém e pelo menos uma pessoa ter manifestado a sua indignação, o último post foi apagado.

junho 07, 2008

2-anos-2

Dois anos. Vinte e quatro meses a dedicar-me a um projecto a que vi nascer, crescer, estagnar e desenvolver. Duas promoções depois, sinto que ainda não estou no sítio onde gostaria de estar. Não me refiro exactamente à posição na empresa, que muito me honra, mas à actividade profissional. Esta coisa de não ter escolhido nada com uma designação profissional concreta baralha-me um bocadinho. Podia ter ido para as engenharias ou para o design ou para medicina mas não - tinha que decidir-me pelo abstracto das literaturas.

Depois, há toda a questão material. Não tenho nenhum desejo secreto de ser milionária mas não posso dizer que não sonho ganhar mais dinheiro. Faço planos com todo este dinheiro que não ganho. Porque nunca se sabe e um dia isto pode dar uma cambalhota grande e eu, quando menos espero, estou noutro sítio qualquer. Não me parece, em todo o caso. Mas como eu até sou uma pessoa crente (vulgo, patinho que acredita em tudo)...

Os dois anos neste emprego ensinaram-me muita coisa. Maioritariamente, ensinaram-me coisas más e digo isto sem qualquer amargo de boca: simplesmente ensinaram-me diferentes formas de sermos lixados por diferentes pessoas. Ensinaram-me a trabalhar sem os recursos necessários e, mesmo assim, conseguir atingir os objectivos a que eu mesma me propus. Mas também fizeram maravilhas pela minha paciência, pelas minhas capacidades de formação, pela vontade de unir as pessoas em torno de uma mesma coisa. Tudo isto me será útil no futuro, tenho a certeza. Mas fico sempre um bocadinho desconsolada por ter que aprender estas coisas todas à força, sem ter tempo para as digerir logo. Aqui, não há tempo para pensar em nada, nenhum segundo para contemplações. E esta segunda promoção amainou o meu desejo de procurar uma experiência nova. Mas, com esta gente por lá, é até ver.

(ou estou a enganar-me a mim própria?)

junho 04, 2008

Dormir mais feliz #14

diz-me o porquê dessa canção tão triste
me fazer sentir tão bem
decerto alguma coisa mais te disse a mesma voz
que tu não dizes a ninguém

junho 03, 2008

(Porto) After hours



Imagens minhas, música Eu tentei dizer do Manel Cruz

Todos os dias foram curtos para nós. Por isso, vi nascer duas manhãs no Porto. Tentámos apanhar gaivotas, conhecemos as faculdades todas e tomámos o pequeno-almoço onde, há menos de doze horas, tínhamos jantado também. Às memórias, junto aquilo que a minha máquina também viu e brinco aos vídeos caseiros. Como se nos pudéssemos esquecer.

junho 02, 2008

Porto ♥

Por ordem de chegada: C., A. e eu (sete da manhã, perto dos Aliados); Casa da Música♥ pós-concertos; Serralves toda para nós *

Se eu quiser dizer a verdade verdadinha, só existia uma razão para eu ainda não conhecer o Porto: não tinha ainda calhado. E lá por ser a única razão não quer dizer que seja boa ou válida ou compreensível até. O que interessa é que agora essa razão deixou de existir e eu regressei de um fim de semana (quase) perfeito, com mais uma cidade a juntar às que outras das quais gostei à primeira.

Há muitas razões para uma pessoa se enamorar do Porto. Temos a esplanada do Piolho às sete da tarde, enquanto os indies lêm o Y; temos a Ribeira completamente formatada para turista ver; as francesinhas verdadeiras e gigantes; temos a forma atrevida com que os empregados topam os não-portuenses à distância; a cor das fachadas dos prédios mais velhos; o bom gosto dos bares e discotecas; e temos o tempo que muda quando nos sente chegar à cidade. A isto tudo, eu ainda juntei boa companhia e um melhor guia. Quero voltar lá. E quero voltar depressa.

* estas e outras impressões visuais sobre os concertos aqui.

maio 30, 2008

This state I'm in

Exausta. As pernas são dois autómatos, fielmente treinados para me levarem de casa até à estação do Rato. A casa arrumada à espera dos pais que chegam amanhã. Há quatro ou cinco dias que ouço apenas uma canção (podem ouvir aqui, sendo que a qualidade do video é inversamente proporcional à da música...) e apenas essa. Foi o terceiro encontro de King e finalmente a minha sorte mudou. Estou em pulgas para hoje à noite mas receio que o sono tome conta de mim. Agora, se me desculpam, vou só ali trabalhar cinco horas e pronto. Depois disso, o Porto há-de ser meu.

maio 28, 2008

O segredo de um cuscuz *

Ela tem o cabelo negro a cobrir-lhe as costas, um perfeito instrumento de sedução. Faz-lhe o café sem o questionar, come do mesmo prato quando ele a chama para se sentar junto de si. Tem consciência da sua determinação mas não da sua sensualidade, o que a torna ainda mais intrigante. Por ele, pelo homem a quem chama pai, inventa as mentiras necessárias para ver os seus sonhos a erguerem-se. Está ao lado dele. Mesmo quando ele a magoa com o seu silêncio, mesmo quando ele não lhe promete que vai ficar.

Ele tem os vincos do trabalho e do sacrifício desenhados na expressão cerrada. É um homem fechado dentro de si mesmo, é o par de mãos com que remenda um casco de um barco velho. Não sabendo oferecer nada de si, carrega consigo uma caixa de peixe que se multiplica pelas suas várias famílias. Sentado, a janela aberta de par em par, contempla o cais vazio enquanto acende outro cigarro. Por ter trabalhado toda a vida num estaleiro, é uma traineira abatida que quer ainda fazer-se ao mar alto. Têm amor, aqueles olhos lentos e escuros. Mesmo que o amor não se mostre nunca através da ternura - ele faz, simplesmente, aquilo que tem a fazer.

* ou deslumbrada com a autenticidade, humor e surpresas deste filme.

maio 26, 2008

Desafio pt. 2

Aquela manhã de nevoeiro disperso estava a acordar aos poucos. Tal como aqueles olhos que iam abrindo de mansinho, a medo, e ficaram focados na janela gigante que dava para a praceta onde permanecia uma estátua de um qualquer marquês. Pôs-se de joelhos, com as mãos amarradas atrás das costas, e levantou um pouco a cabeça. Torceu todo o corpo para a esquerda e só então conseguiu lembrar-se do que tinha acontecido.

(ÿpslon, www.vitaminaY.blogspot.com)

A memória chegava-lhe em imagens difusas, ele sabia que situação onde se encontrava era mais do que uma manhã embaraçosa depois de uma noite que não quis passar sozinho. A cada expiração, a dor lembra-lhe da posição do seu corpo contorcido... os olhos a custo procuravam alguma familiaridade naquele quarto-jaula, param no preciso instante em que o pé toca em algo, foca uma mulher, leonor, uma imagem difusa da noite anterior, também atada, contorcida, de olhos fechados, a começar a murmurar repetidamente… - “como fomos capazes…como fomos capazes…”

(indigente andrajoso, www.indigenteandrajoso.blogspot.com)

As lágrimas não demoraram a jorrar-lhe dos olhos. A disposição de todos os objectos naquele quarto fazia prova do caos da noite anterior: o cinzeiro que não chegava para tantas beatas, as lâminas de barbear usadas e dispostas numa fila metodicamente organizada, os restos do sangue debaixo do abajour carcomido pelo cortejo de lâmpadas acesas nos últimos dias. Ele tentava aligeirar o nó que feria os seus pulsos em vão e as cordas marcavam cada vez mais as veias onde o sangue corria descontroladamente. Cheio de culpa e náuseas, ele não conseguia parar de imaginar como seria possuí-la neste cenário desolador. Uma e mais outra vez.

(M., www.borboletasnabarriga.blogspot.com)

O mote estava dado pelo

Desafio pt. 1

o rádio sempre a tocar
um coração avariado
que não posso desligar *.

Desafiada pela SuperM., aqui fica a minha biografia na versão mais curta possível. São-nos pedidas seis palavras (uma frase pequenina, minúscula mesmo... eu sei que uso quase o dobro das palavras pedidas mas seis palavrinhas é muito pouco!) para uma muito curta biografia (há quem opte por um conceito) e podemos dar-lhes ênfase com uma imagem. Devemos colocar um link para quem nos desafiou e por nossa vez desafiar cinco blogs, avisando-os deste mesmo convite. Considerem-se desafiados: Curse of Millhaven, Catarina, JC, Mafaldinha e Rita Maria.

* e um desenho deste moço que já tinha mostrado aqui.

Silver lining *

Seguia no carro à minha frente, depois de me ter ultrapassado mesmo no início do caminho. Marcava o ritmo do que estava a ouvir com as mãos no volante. Eu não conhecia o carro nem a matrícula nem o condutor. Eu cantava em altos berros as músicas que saiam das colunas em modo aleatório. Estava indecisa entre usar óculos escuros ou conduzir sem eles. Ele ajeitou o espelho duas ou três vezes para se assegurar que os nossos olhares se cruzavam. Ele ultrapassava, eu ultrapassava. Quando fiz pisca para me desviar da estrada principal e seguir o meu caminho, ele olhou fixamente pelo espelho e, por fim, acenou-me longamente. Envergonhada, demorei algum tempo a reagir mas acenei-lhe de volta. Soube tão bem.

* ou sorrir mesmo num dia escuro, de nuvens baixas e aguaceiros indecisos

maio 25, 2008

Micro Audio Waves

Este foi o segundo aniversário da Quina das Beatas. Há dois anos atrás, as hostilidades abriam com um concerto intimista de JP Simões, ainda com poucas mesas na sala e muita gente sentada no chão. Entretanto, já vi mais concertos do que aqueles que poderia imaginar e de bandas que provavelmente nunca iria conhecer. Vimos concertos em pé e sentados, encostados ao balcão, com a sala vazia e com a sala composta, dançámos tanto quanto pudemos, bebemos cervejas juntamente com as bandas, comprámos CDs e EPs. Eu gosto das noites de sexta-feira por serem noites de CAEP, é como se se tivesse criado uma espécie de ritual e o cumpríssemos naturalmente sem perguntar quem vai estar lá. Espero que a boa música continue presente por ali por muito mais tempo e que as pessoas despertem para este lugar e possam aproveitar esta janela de oportunidades. Parabéns ao Centro de Artes do Espectáculo!

A escolha da banda para este segundo aniversário foi muito feliz. Ontem, os Micro Audio Waves deram uma lição de electrónica, rock e de sensualidade a uma audiência que não demorou muito a render-se. Cláudia Efe é uma diva moderna, concentra em si (e na forma como susurra os seus segredos ao público) todas as atenções. Seduz-nos com um olhar às vezes provocador, às vezes vago. Dança como quem sente a música como uma força imparável e impressiona com a leveza dos seus movimentos. Esta música dos MAW está carregada de promessas, de encontros secretos com estranhos, do prazer pelo prazer e dá vontade de transgredir, de pisar o risco. Há uma expressão que me vem à mente quando penso neles: pure pleasure seeker. Ontem foi um bocado assim e o prazer chegou pela música e pela liberdade dos movimentos.

maio 24, 2008

Karseron + Wintermoon

Ontem foi a noite mais estranha a que assisti até hoje no espaço da Quina das Beatas. É uma fotografia intencionalmente negra, como que a espelhar a música que ouvimos ali (e que podem experimentar aqui e aqui) e ir de encontro à sequência das projecções que a acompanhava. Eu não sou uma pessoa negra: o máximo que consigo é ouvir algumas coisas com as quais cresci mas das quais me libertei assim que me abriram outros mundos. Talvez por isso, a música de ontem não me deixou nenhuma memória especialmente relevante - ouvi-la era andar quinze anos para trás, quando os cabelos eram muito compridos, as calças muito apertadas, as vozes guturais e esta era a música da rebelião. Acho, em todo o caso, que uma noite destas já merecia ter acontecido e, quem diz deste género, diz de outros que possam agradar apenas a faixas muito específicas de assistência. Assistência (aparentemente) acima da média na noite de comemoração do feriado municipal, portanto terá sido uma aposta ganha.

maio 21, 2008

P.

Tantas tantas saudades de a ter perto de mim.

M. @ cozinha IV

Antes


Depois

Foi a segunda vez que me dediquei aos canelones (a primeira experiência está há muito perdida da memória). O recheio saiu inteiramente da minha imaginação e posso confidenciar que inclui espinafres, azeitonas e cogumelos. O que também posso afiançar é que está de comer e chorar por mais! É uma pena que, vivendo sozinha, não tenha mais vontade de me aplicar mas cozinhar para uma pessoa é uma seca. Em todo o caso, há mais alguém a prová-los porque amanhã vou fazer um colega de trabalho mais feliz.

maio 20, 2008

Do the right thing *

Parece que ultimamente há qualquer coisa que pretende testar os meus limites, julgar as minhas decisões. Vejo-me obrigada a decidir vezes demais se aquilo que estou a fazer é a coisa certa, aquilo que considero mais justo.

Depois de procurar um objecto que alguém perdeu (e por se tratar de algo com valor afectivo), descubro finalmente o seu paradeiro. O problema é que a pessoa que o tem já disse a quem o perdeu que não sabe dele e eu não posso provar o contrário. Portanto, se falo corro o risco de passar por parva, não conseguir provar nada e ainda tornar-me persona non grata. Só que, se não falo, fico a bater-me com a minha consciência, que me diz claramente que isto tudo é injusto e indigno mesmo. Será assim tão difícil as pessoas, por uma vez na vida, portarem-se como adultas e reconhecerem que cometeram um erro? Já errei muito e já vi errar e nunca me pareceu que a capacidade de admitir um erro fosse alguma coisa de que devemos ter vergonha. E isto nem se trata de eu sofrer de uma espécie de excesso de princípios: simplesmente mantenho-me com aquilo que me parece importante e a honestidade (valor que em tempos desprezei) está no topo da minha lista.

Depois, há o trabalho com disputas infantis, suspeitas infundadas, pessoas que acham que nos tomam por parvos, pessoas que realmente têm razão em tomar-nos como parvos, um diz-que-disse constante nas nossas costas. Importam-se de não complicar, só durante um bocado? Obrigada.

* como em We own the night, com o grande Joaquin Phoenix a estender a mão ao irmão Mark Wahlberg.

maio 18, 2008

Banda sonora do fim de semana *



Ideal para fins de semana de um só dia, em que a moleza é tão grande que parece que nunca mais vamos conseguir sair da cama (e, mesmo quando conseguimos, fazemos imediatamente planos para voltar). Também muito indicado para preparar jantares de aniversário (mais um trigésimo, o medo a instalar-se), criando o ambiente necessário ao ensaio do pé de dança. É também recomendado para a roupa que se planeia passar o ferro (pela terceira vez na nossa vida), ainda que em frente à televisão.

* Paper planes da M.I.A

maio 16, 2008

Sentir dor é quando temos que empurrar para outros aquilo que queremos guardar só para nós. Silenciosa e abnegadamente.

Being bad feels pretty good

Tendo alguma tendência para ser uma pessoa conflituosa, é com muito desconforto que me vejo no centro de um conflito entre pessoas da mesma equipa. Tenho mais ou menos jeito para ser a parte ofendida e bastante queda para ser a parte que despoleta o conflito. Mas esta posição, esta neutralidade forçada e necessária fazem com que dê comigo imersa em palavras de apaziguamento e conselhos sobre contenção - o que tem a sua piada ou não fosse eu do género primeiro falar, depois pensar.

É daqueles casos em que não interessa saber quem tem razão. Tudo assenta no tom ou na forma como se escolhe encarar o que divide as partes. Por muito que seja amiga de uma das pessoas, não é isso que me paga os ordenados no final do mês. E é exactamente isso que me coloca numa posição ingrata: eu não posso fazer o que acho porque sou obrigada a fazer o que é melhor. E quem diz fazer, diz pensar ou mesmo falar. É por essa razão que, apesar de concordar com quem me está mais perto, admito que essa pessoa está errada na colocação das premissas. Baralhados? Eu também.

Saí do trabalho e, até este momento em que escrevo, isto já me assaltou os pensamentos umas vezes valentes. Não me cabe a mim nenhuma decisão, apenas tentar manter a cordialidade, união da equipa e tentar chamar as pessoas à razão. Mas esta trivialidade faz-me pensar como é difícil fazer o que está certo. Aliás, mais do que isso, faz-me pensar como custa saber o que está certo. Como é que posso ter a certeza que não estou a ser injusta? Como é que posso pesar os argumentos de ambas as partes de forma igual se uma das pessoas é mais do que colega de trabalho? Como é que posso convencer ambas as partes a aceitarem-se e a prometerem fazer mais cedências? Estou a dar demasiada importância a uma disputa mesquinha ou estou a tocar o fundo de algo realmente importante? Se há coisa que eu gostava que dissessem de mim era 'Oh ela é uma pessoa muito justa'. Muito mais do que 'Ela é muito boa onda' ou 'É uma pessoa muito divertida'. O senão disto tudo é que a justiça não traz manual de instruções. E eu, inventando pelo caminho, não tenho a certeza de estar a acertar em coisa alguma.

maio 15, 2008

Sexo *

This was sex. They'd wallk down a street together and see themselves in a dusty window. A flight of stairs was sex, the way she moved close to the wall with him just behind, to touch or not, brush lightly or press tight, feeling him crowd her from below, his hand moving around her tight, stopping her, the way he eased up and around, the way she gripped his wrist.

*
ou a vontade de devorar livros que regressou onde antes eu pensava, alarmada, que não existia mais. Ler só mais um bocadinho, só mais esta página, nesta não posso parar que não acaba em ponto final, só mesmo até ao fim do capítulo. A vontade de ler voltou como uma febre, uma inquietação mansinha que cresce conforme a noite avança e domina mesmo que o corpo já peça descanso. Afinal, tudo não tinha passado de um susto e eu ainda gosto de ler como antes e ainda consigo emocionar-me e sentir náusea e sonhar com um livro, não era tudo uma mentira. Na prateleira, começa a diminuir a fila dos livros que esperam para ser lidos e a aumentar a secção dos que já foram folheados. Não posso dizer que os livros me salvaram a vida. Mas posso dizer que animaram tempos mortos em consultórios, fizeram esquecer as viagens intermináveis de carro-autocarro-avião, sábados em que almocei sozinha no trabalho, noites em que o sono teimava em tardar. Continuo a emocionar-me e a escolher a personagem que quero ser e a inventar-lhes rostos e corpos, a adivinhar-lhe as virtudes e a maldizer os seus defeitos, tomando partido silenciosamente. Chegou a vez de Falling man, do Don DeLillo e os parágrafos iniciais, como podem ler, prometem.

Across the sea

Quando um dia a Caras me pedir para abrir as portas da minha casa, prometo que é esta edição maravilhosa chegada directamente de NY que vai estar na minha mesa da sala. Não há calhamaços de arquitectura ou de design para me armar em esperta, só esta mega-edição que vou passar ao meu primogénito como um tesouro.

(obrigada a este moço pela compra e a este pelo transporte)

maio 13, 2008

Cortar (outr)o cordão umbilical

Já estava mais do que na altura e o meu pai começava a insistir nisso. Que já tinham passado dois anos, que precisava tratar das coisas, que provavelmente me ia esquecer. Não me esqueci (seria difícil com tantos lembretes...) e lá fui eu - o diploma já está aqui pronto para que os meus pais possam servir-se dele à vontade.

Foi uma sensação muito, muito estranha. Voltar à universidade, depois destes anos todos, causou-me um certo mau estar. Entrei e nenhuma das caras me era familiar, a esplanada continua cheia de alunos que preferem passar o seu tempo ao Sol em vez de encerrados numa sala da torre velha, há um pavilhão novo, pré-fabricado que alberga qualquer coisa que se parece com um café. A secretaria estava vazia: ninguém à espera, nenhuma senha para ser chamada, nenhum funcionário a atender. Depois de uns minutos de espera (em que tentava chamar a atenção para a minha presença), chegou uma moça nova que franziu o olho quando ouviu ao que eu vinha. Talvez pensasse que o diploma tivesse sido pedido há meia dúzia de dias, talvez pensasse que eu não sabia ao que ia. Trouxe-me aquela solitária folha, rabiscada por três ou quatro pessoas, carimbada e numerada e plim, cortou-se este cordão umbilical.

Quando vi o meu reflexo nos vidros da repartição académica, reparei que estava a sorrir. De alívio, acho eu. Não é que os meus anos na faculdade tenham sido, na sua essência, maus. Mas a quantidade de escolhas absurdas e pobres decisões que fiz nos primeiros tempos não me deixou saudades nenhumas. Quando olho para trás, o que vejo é um caminho tão mas tão incerto, tão intermitente que me apetece apagar tudo e voltar ao início. Não é bem arrependimento: de certa forma, tudo o que fiz serviu para me trazer até aqui. Mas saber que podia ter feito muito melhor é um grande castigo e uma coisa difícil de admitir. E depois há a questão da inutilidade do curso. Entrei na minha primeira opção, na faculdade que queria - fui eu que escolhi esta inutilidade. Nem o facto de ter completado o curso com um minor na área da comunicação mudou alguma coisa.

A inocência de quem entra para o ensino superior chega a ser comovente: as ilusões todas que temos, o desejo de ser diferente, a vontade de ser o melhor. Quase tudo para chegar ao fim e nos dizerem que temos excesso de qualificações ou que o que estudámos não tem qualquer serventia profissional. E eu sei que o que é preciso é não cruzar os braços e continuar a tentar por outros meios, eu sei. Mas é complicado não pensar O que é que eu andei a fazer estes anos todos?. Em todo o caso, eu acho que encontrei a resposta a isto. Estive a crescer.

maio 12, 2008

Do amor (perdido, sem salvação e sem futuro) *

He rose and walked out and stood barefoot in the sand and watched the pale surf appear all down the shore and roll and crash and darken again. When he went back to the fire he knelt and smoothed her hair as she slept and he said if he were God he would have made the world just so and no different.

* outra vez o sr. McCarthy em The Road.

We're the heirs to the glimmering world

Foi assim... como direi?

Perfeito.

(a vontade de saltar da cadeira. o suor provocado por tanta gente a gostar de uma coisa ao mesmo tempo. os gritos descontrolados na Squalor Victoria. uma espécie de nervoso sempre antes de começar uma música. toda a gente a gritar I won't fuck us over e eu a perguntar-me a mim mesma quantas vezes já o fiz. o Matt a subir pelos bancos das doutorais, amparado pelo público, em êxtase. mesmo a The Geese of Beverly Road que não tocaram, we'll run like we're awesome. pessoas que queria ver e pessoas que não queria mesmo ver. quero mais)

maio 11, 2008

E agora, se me dão licença, ...



... vou só ali deslumbrar-me mais um bocadinho e já venho.

maio 10, 2008

Dormir mais feliz #13

no teu corpo adormecido
imóvel e silencioso
desenho um mapa
do nosso grande amor

La traversée *

Ele leva o cigarro à boca enquanto a câmara segue atrás dele. O vento forte na escarpa deixa-lhe o cabelo em desalinho. Sobe sozinho pelo caminho já marcado, como se soubesse exactamente onde tem que chegar. Bebe um café e ri-se, as mãos dele tremem, são incertas porque querem ser perfeitas. Encosta a cabeça ao vidro da carruagem do comboio que rasga a paisagem urbana feita de ferro e vidro em repetição monótona. Quando sorri, brilham-lhe os olhos, ilumina-se-lhe o rosto e, por instantes, não é mais tímido. Está sentado em frente a um piano e é como se começasse lentamente a esquecer-se de quem é para nos devolver qualquer coisa mais pura. Tem duas argolas na orelha e deixa os cigarros arderem enquanto traz a sua fantasia ao mundo. É muito bonito e a música que faz, sem que ele saiba, encerra muitas das coisas que um dia eu já quis dizer. Chama-se Yann Tiersen.

* ou este documentário, onde me apaixonei ainda mais.

(O primeiro de mais) três dias inteiros sem trabalhar

Significa que os dias podem começar assim. E que posso saltar refeições e passar a ferro porque realmente me apetece (ok, isso nunca vai acontecer) e que posso ler o jornais atrasados e ver filmes que já me emprestaram há uma porrada de tempo. Posso simplesmente ficar à espera da chuva que ainda vai cair porque só já volto a trabalhar na terça-feira de manhã. Vou só ali preguiçar mais um bocado.

maio 08, 2008

I ♥ Lisboa

Já há muito tempo que sinto que a música tem um grande ascendente sobre a minha escrita. Não exactamente no facto de escrever sobre concertos ou sobre a música de que gosto, mas na sua influência determinante quando me sento a escrever qualquer coisa. Em alturas de maior melancolia, é quase assustador o fluxo de palavras quando escolho a música que vai bem com o meu estado de espírito.

Ontem à noite, enquanto folheava um dos jornais que tenho atrasados, descobri um concurso de escrita. Chama-se Lisboa à letra (podem consultar aqui) e convida jovens até aos trinta anos a escreverem sobre a cidade. Basta para isso que tenham nascido, trabalhem ou estudem aqui. Partindo de uma ideia que já tinha há bastante tempo, deixei que a música dos Dead Combo me conduzisse a mão e escrevi mais de duas mil e quinhentas palavras sobre a minha cidade adoptiva. Era giro ganhar qualquer coisa, pois claro que sim. Mas a sensação de escrever sem amarras e de saber exactamente o que escrever foi muito, muito boa. Se, como eu, aprenderam a amar esta cidade, é experimentar!

maio 07, 2008

Post das Lamentações

O tratamento (cujo preço quase me garantia uma apoplexia em plena farmácia e me arrancou uma nervosa gargalhada quando a farmacêutica me perguntou Mais alguma coisa?, sendo que a minha vontade era responder Sim, já agora aproveite e leve mesmo tudo o que me resta...) começou na segunda-feira, para que me consiga orientar facilmente. Eu, que sou um bocado distraída, dou por mim a ser muito metódica e organizada com os comprimidos e os cinquenta cremes (vá, cinco, mas que têm que ser usados por ordem ou o balúrdio que me custaram não vai definitivamente compensar). Só ainda não consegui decorar mesmo a sequência mas acho que dezasseis dias de antibióticos mais vinte de vitaminas (vezes dois, que isto quando se faz é a sério) se vão encarregar de a inscrever na minha cabeça.

Então, além de andar sempre com a cara muito cremosa, há o antibiótico. Que é muito fácil de tomar depois de jantar mas que significa que não há álcool para ninguém. Por isso, não é assim muito giro quando se marca um jogo de cartas em casa de amigos, chegam oito pessoas e há aperitivos espalhados pelas mesas e me perguntam O que é que bebes?, ao que eu respondo... Sumo? Tens? e a pessoa me atira um Ora, deixa-te de coisas... Uma mini? e eu me vejo forçada a repetir, envergonhada, ... um sumo?. Isto de beber é muito social, é para fazer companhia e eu ontem não fiz grande companhia à malta do Carolands nem do Porto Ferreira e muito menos do whisky. Se calhar posso explicar a minha derrota em dois jogos de King assim, calha bem.

A juntar a isto tudo, já o suficiente para me deixar nervosa, acontece que resolvi andar muito. Deixei o autocarro de lado e passei a andar só de metro, o que me obriga a uma caminhada bem mais longa até à estação do Rato. De manhã, nem preciso dizer o agradável que é atravessar o jardim da Estrela pela fresca, ainda só frequentado pela malta que corre no circuito e um ou dois velhotes. Mas, com esta temperatura meio tropical e a chuva que cai-ora-não-cai, o regresso à tarde é sempre demasiado suado para esta altura do ano. Depois, chego a casa e faço umas séries de abdominais mesmo antes de me enfiar no banho. Não sei se já está a dar resultado mas faz-me sofrer um bocado. Isso já deve ser bom sinal. Ai.

maio 04, 2008

Razões (realmente muito) boas para se voltar a casa

As favas com morcela e salada de alface migada da minha avó. Andar treze quilómetros até ao Senhor dos Aflitos entre as sete e as nove e meia da manhã, respirando o cheiro a giestas e rasgando o nevoeiro matinal. A minha outra avó a dizer empalangosa*, referindo-se a uma vizinha que costuma visitá-la durante tempo demais.

*apenas um dos inumeráveis neologismos com que ela constrói diariamente o seu discurso!

maio 03, 2008

The Allstar Project

Os The Allstar Project e a varanda pró-cigarros pós-concertos

[As encostas despidas de um desfiladeiro. A violência de um motim. Os corredores de umas ruínas abandonadas. Uma viagem pelo espaço. Toda a vida a passar à nossa frente em câmara lenta. Tenho a certeza que se a bolha da minha tristeza algum dia rebentasse era este o som que iria sair lá de dentro.]

Ontem, mais uma (e outra) vez, foi dia de pensar que não presto a devida atenção ao que se faz por cá. É claro que vamos ouvindo bandas que têm mais projecção nas rádios ou noutros meios de comunicação mas cada vez mais penso que as escolhas editoriais que se fazem são demasiado orientadas para um público que quer ouvir coisas simples, sem analisar ou comprometer gostos. Aqui têm os The Allstar Project, que fazem música violentamente bonita, que têm a escola das bandas que ouvia enquanto me tornava numa adolescente impossível e que dão um espectáculo intenso, quase espesso. Se eu tivesse que escolher só um género de música acho que escolhia este: é música boa para sonhar, ouvir sossegada com o volume no máximo, para ler, para domar os sentimentos, para expulsar demónios, fazer planos e suposições, para fazer viagens no Verão com a janela escancarada, à procura duma réstia de fresco.

maio 01, 2008

Lido por aí

(sem direito a link, desta vez)

Um rapaz mal desenhado *

Vive na minha cabeça

Um rapaz sem contornos.

Tem olhos grandes

Castanhos

E transbordantes de desejo.

Não lhe conheço os lábios

Mas adivinho-os macios

E molhados.

Olham-me com paixão

Aqueles olhos grandes.

Sofre com o desprezo

De uma mulher distante

E repousa os olhos

No meu colo quente.

O rapaz de olhos enormes

Sente dor

E eu sinto com ele

Tudo o que negam

Aos seus olhos castanhos.

Imagino

Beijar-lhe os olhos

Devagarinho

Enquanto lhe procuro os lábios.

Amarga-me a tristeza

Que jorra

Daqueles olhos grandes.

Quando o nosso olhar se cruzar,

Um dia,

Os meus olhos castanhos

Vão beijar

Os olhos grandes dele

E o desejo tomará conta

Do resto do nosso corpo.

*título gentilmente emprestado de uma das novas músicas d'A Naifa