agosto 23, 2008
(Aquele também conhecido como provavelmente o último) dia de praia
agosto 21, 2008
Wise words *
A lot of bad shit is gonna happen to you. People are not gonna love you back, and [...] that's the first thing you should learn.(Um dia acordas e puf!, o teu amor já não está lá. Tu não percebes como, matas-te a pensar como foi possível chegar até aqui sem reparares em nada, todos os sinais a passarem ao lado, a eternidade em que confundiste amor com compaixão. É tão simples de dizer, é só Deixei de gostar de ti e é isto mas é impossível que algum dia venhas a compreender como é que uma bomba assim te aterrou no colo. Esquece tudo o que pensaste antes, esquece as coisas ditas ao ouvido durante a noite, esquece o suor a encharcar-vos os lençóis e as pernas tremendo depois do sexo, esquece as mãos que te acordam devagar, esquece pensar que o mundo é isto. O amor que era teu, aquelas noites em que não dormiam com a excitação de estarem lado a lado, as palavras que te atordoavam os sentidos e te obrigavam a sorrir num carro em andamento - tudo, tudo mentira. Não, não mentira mas tudo esgotado, tudo transformado num desconsolo tão profundo que te encostas à parede, sentado no chão e pedes baixinho que te venham buscar. Era isto que querias dizer quando dizias para sempre? Era isto que querias mostrar-me quando te pedia para calares as promessas? Para sempre é agora e os próximos cinco minutos, se acaso o amor ainda não se esfumou. Podias ter sido mais cauteloso e ter recusado o amor e podias ter pedido que te amassem apenas na medida certa, apenas o suficiente. Inverteste a ordem das coisas quando aceitaste tudo. E, da mesma maneira que tudo é a quantidade mais vaga que há, para sempre também só durou o tempo de te quebrar. Hás-de aprender a vergar-te.)
* depois de ver este filme.
agosto 19, 2008
No trabalho, é como se tivesse só buracos negros à minha volta: sugam-me toda a energia possível durante as sete horas e meia que passamos juntos, distraem-me com erros em catadupa e com perguntas estranhas. Fecham-se na casa de banho a falar ao telefone de hora a hora, inventam esquemas para virar o horário a favor deles. A minha chefe pergunta-me cinco vezes, dez vezes antes de sair se está tudo sobre controlo. Por instantes, não sei se ela fala do trabalho que fiquei de organizar ou se de mim e hesito na resposta. Às vezes, fico tão desanimada com as pessoas em geral que tiro prazer de fazer o caminho para casa a pé, a música a isolar-me dos ruídos exteriores. Consigo fingir que há uma mão gigante que desce do céu e recolhe as pessoas (para onde não sei, uma nuvem qualquer) para um castigo qualquer, para um sítio onde se ensina o civismo.
Enquanto imagino um mundo mais vazio, enquanto atravesso um jardim da Estrela cheio de velhinhos, meninas com trotinetas, bebés estrangeiros deitados na relva, testemunhas de Jeová e turistas de meia idade, o que me vai valendo é isto. Chamam-se Bowerbirds mas também se podiam chamar só conforto.
Enquanto imagino um mundo mais vazio, enquanto atravesso um jardim da Estrela cheio de velhinhos, meninas com trotinetas, bebés estrangeiros deitados na relva, testemunhas de Jeová e turistas de meia idade, o que me vai valendo é isto. Chamam-se Bowerbirds mas também se podiam chamar só conforto.
You're in our headlights, frozen, and no, we're not stopping.
agosto 16, 2008
O boné do poder

Também conhecido como o boné mágico, já viu reconhecidas as suas propriedades indutoras da diversão por variadíssimas pessoas na casa dos vinte e qualquer coisa. Pode provocar vontades súbitas de dançar, amor incondicional pela objectiva e excesso de boa disposição. De forma a potenciar as suas muitas qualidades, é recomendável que seja usado também pelas pessoas que o acompanham. As contra-indicações referem apenas alguma falta de discernimento e ausência de sono. Seja responsável, use-o com moderação.Bonés e outros barretes podem ser apanhados aqui.
agosto 13, 2008
M. e o avanço na estrutura corporativa
O programa das festas não era nada animador. Primeiro, falou-se de dois dias inteiros, sem conhecermos o horário. Depois passou apenas a ser um dia, com um brilhante horário das nove às cinco. E melhorou muito quando chegou o dia e descobrimos que o horário afinal não excedia as três e meia da tarde. A formação ia ser dada por um colega inglês vindo expressamente para o efeito e os resultados analisados em grupo e individualmente. Não era um dia facultativo mas não senti nenhuma pressão, nenhum inconveniente em ser estudada daquela maneira.
À chegada, encontramos um (atenção: preconceito!) invulgarmente atraente formador inglês. Louro, alto, certamente mais novo que eu e com um sotaque adorável, apresentou o plano do dia. Fomos avaliados em grupo e depois individualmente por pessoas diferentes. Foram-nos dadas situações vulgarmente associadas com a gestão de orçamentos e de pessoas e todos tivemos que tomar decisões, apresentar argumentos, esgrimir opiniões apaixonadamente. Tive sorte com o resto do grupo: foi muito fácil chegar a consensos sem nenhuma batalha campal e sem que apenas uma pessoa assumisse o protagonismo. A única coisa que tornou o exercício mais intenso e algo cansativo foi o facto de tudo ser feito em inglês: os debates, o relatório sobre e-learning, a apresentação individual. De resto, senti tudo como um jogo.
Quando penso nas palavras da pessoa que coordena todos os departamentos lá do prédio, sinto-me meio desconfortável. Serviria este dia para conhecer as nossas necessidades de formação, preparar-nos para dar o passo para a posição seguinte dentro da empresa. Nunca recusaria a oportunidade de progredir e tenho a agradecer as duas oportunidades que já tive até agora. Mas, como é evidente, quanto mais alto se sobe, menos as pessoas contam. Vamos deixando de trabalhar com elas e passando a contar com elas como números numa tabela qualquer, vamos ficando cada vez mais sozinhos. Só que, sendo uma pessoa medianamente ambiciosa, percebi que se vai aprendendo esta frieza pelo caminho e que, como algumas pessoas já me mostraram, podemos manter as pessoas sempre a nosso lado. Se haverá outra promoção, não sei. Mas sei que enquanto tiver este espaço para a parte de mim que está cheia de romance e poesia e música, viagens e amigos com quem beber cerveja, desgostos e desilusões serei menos máquina e mais carne. Portanto, salvem-me enquanto puderem :)
À chegada, encontramos um (atenção: preconceito!) invulgarmente atraente formador inglês. Louro, alto, certamente mais novo que eu e com um sotaque adorável, apresentou o plano do dia. Fomos avaliados em grupo e depois individualmente por pessoas diferentes. Foram-nos dadas situações vulgarmente associadas com a gestão de orçamentos e de pessoas e todos tivemos que tomar decisões, apresentar argumentos, esgrimir opiniões apaixonadamente. Tive sorte com o resto do grupo: foi muito fácil chegar a consensos sem nenhuma batalha campal e sem que apenas uma pessoa assumisse o protagonismo. A única coisa que tornou o exercício mais intenso e algo cansativo foi o facto de tudo ser feito em inglês: os debates, o relatório sobre e-learning, a apresentação individual. De resto, senti tudo como um jogo.
Quando penso nas palavras da pessoa que coordena todos os departamentos lá do prédio, sinto-me meio desconfortável. Serviria este dia para conhecer as nossas necessidades de formação, preparar-nos para dar o passo para a posição seguinte dentro da empresa. Nunca recusaria a oportunidade de progredir e tenho a agradecer as duas oportunidades que já tive até agora. Mas, como é evidente, quanto mais alto se sobe, menos as pessoas contam. Vamos deixando de trabalhar com elas e passando a contar com elas como números numa tabela qualquer, vamos ficando cada vez mais sozinhos. Só que, sendo uma pessoa medianamente ambiciosa, percebi que se vai aprendendo esta frieza pelo caminho e que, como algumas pessoas já me mostraram, podemos manter as pessoas sempre a nosso lado. Se haverá outra promoção, não sei. Mas sei que enquanto tiver este espaço para a parte de mim que está cheia de romance e poesia e música, viagens e amigos com quem beber cerveja, desgostos e desilusões serei menos máquina e mais carne. Portanto, salvem-me enquanto puderem :)
agosto 09, 2008
Saturday night live
No quintal das traseiras, os meus vizinhos gritam por qualquer jogo que dá na televisão. Por momentos, fico mesmo com a sensação de que se joga qualquer coisa importante, tal é o entusiasmo com que festejam. Provavelmente, na rua corre uma brisa deliciosamente fresca que eu não sinto sentada no sofá e eles aproveitam para deslocar a televisão para o quintal minúsculo, de onde sobe também um insuportável cheiro a petróleo. No condomínio fechado não se ouve um pio e as portadas estão todas fechadas há bastante tempo.Há uma ideia que me persegue há dias: é esta ideia de que, quando falamos de esquecer, eu sou um autêntico desastre. Como o McCarthy dizia You forget what you want to remember and you remember what you want to forget e eu começo a pensar cada vez mais que este processo todo não é involuntário. Juro que me esforço para esquecer porque sei exactamente quais são as consequências desta persistência e juro que, em todos os dias que passei longe de casa, foi tudo mais fácil de ignorar. Mas é só voltar, é deitar-me uns minutos na minha cama de casal e meio e está tudo absolutamente perdido. Depois disso, segue-se o momento em que tomo o pequeno-almoço, os instantes que demoro a chegar ao carro, todas as paragens nos semáforos, a viagem de elevador do zero ao seis, os segundos que os programas demoram a abrir, o almoço sozinha, as compras no supermercado, a sesta, o parapeito da janela depois de jantar - tudo contaminado e com a minha autorização.
Já mudei a música e levei o volume àquilo que é permitido no meu condomínio minúsculo, onde sou a única pessoa que não faz parte da família. Já folheei o simpático livro oferecido com o Público mas estanquei na primeira página quando li Não posso adiar o coração. Não é a primeira vez que ouvi/li isto mas às vezes precisamos de estar preparados para receber as dádivas das palavras, estes segredos que nos rouba o poeta sem saber. É preciso crescer, amadurecer os amores e os desgostos, acumular os cabelos brancos. E se pudesse, também eu adiava esta trapalhada toda a que chamo vida e da qual me esqueço quando estou longe. Até ao momento em que fosse claro o que fazer a seguir. Porque, francamente, não sei. A não ser beber mais um copo de rosé e embriagar-me com as palavras destes poetas todos. E com as imagens que luto por exorcizar. Sem êxito, a distraírem-me uma e outra vez.
Dormir mais feliz #16
Love says goodbye
Dreams won't dream on their own
Shadows disappear
Love turns to fear
Compromises, ties and bonds
Dreams won't dream on their own
Shadows disappear
Love turns to fear
Compromises, ties and bonds
agosto 06, 2008
Fragmento (s) *
[...] Quem te dera teres-lhe este amor. Quem te dera que ele pudesse ser o homem que imaginaste sempre que não conseguias dormir – sempre. Ele é bom e é bom para ti mas, quando pensas nele, há sempre um mas. Só que ele agarra-te pela cintura e fala-te de estrelas e diz que és uma cidade com muitos corações a baterem dentro de ti, que as ruas ensolaradas de Lisboa são como os caminhos do teu afecto, que os teus cabelos negros são as amarras invisíveis que o prendem aqui, que tens nos olhos todo o encanto das tardes de Verão passadas na Sra. do Monte. [...]
[...] Querias retribuir-lhe a poesia com mais poesia mas não sabes amá-lo doutra maneira. O tempo e a tua fraca habilidade para escolher foram roubando a tua capacidade para te abandonares ao amor. Por isso, amas o facto de ele te amar tão cegamente, amas o teu próprio reflexo nos olhos dele e sofres com esta sensação profunda de egoísmo que não tem remédio. Quando escolhes a camisola menos gasta, é em ti que pensas, é naquilo que vais encontrar quando ele olhar para ti. E como não lhe podes oferecer mais que este amor refreado e parcialmente triste, és totalmente sua para que nunca o possas magoar, para que a tua dor de ser não rasgue um dia as veias dele também. [...]
* da ficção que reclamo para mim própria.
[...] Querias retribuir-lhe a poesia com mais poesia mas não sabes amá-lo doutra maneira. O tempo e a tua fraca habilidade para escolher foram roubando a tua capacidade para te abandonares ao amor. Por isso, amas o facto de ele te amar tão cegamente, amas o teu próprio reflexo nos olhos dele e sofres com esta sensação profunda de egoísmo que não tem remédio. Quando escolhes a camisola menos gasta, é em ti que pensas, é naquilo que vais encontrar quando ele olhar para ti. E como não lhe podes oferecer mais que este amor refreado e parcialmente triste, és totalmente sua para que nunca o possas magoar, para que a tua dor de ser não rasgue um dia as veias dele também. [...]
* da ficção que reclamo para mim própria.
agosto 04, 2008
Estorãos e Paredes de Coura ♥
Não sei se conseguia voltar mais contente. Foram dias tão relaxados, com uma leve rotina diária que se resumia a pequeno-almoço servido sempre a horas, a manhã na piscina que partilhávamos com dois casais ingleses e respectivos rebentos, almoço frugal e rápido, deliciosa sesta para retemperar e concertos o resto da noite. Já me tinham dito que lá em cima é que é, que o cenário é (só ele) razão para fazer estes quilómetros todos e eu venho de lá completamente rendida às evidências. Se a isto somarmos o Sol todos os dias, as pessoas bonitas, os carros dos emigrantes em todas as aldeias em festa, menos de dois minutos para pedir qualquer coisa em qualquer balcão, os sinos a tocarem a cada quinze minutos, podemos concluir que sou uma pessoa de sorte.
(Gostei tanto do concerto dos Editors e de sentir à noite aquele frio que não se faz anunciar, vai-se enrolando nos ossos até nos apercebermos que estamos gelados. Gostei do café dos emigrantes e da ponte romana de onde mergulhavam para uma ribeira. Gostei da gente que enchia as ruas de Ponte de Lima, das pessoas que estendiam a toalha à beira rio e almoçavam nas mesas de campismos. Gostei que os Lemonheads me tivessem levado a um tempo do qual pensava não ter boas recordações mas em que, afinal, também fui feliz. Gostei de poder beber uma cerveja à beira da piscina, como as vizinhas inglesas, e um Alvarinho ao almoço. Gostei de dançar, primeiro timidamente, depois absorta em mim mesma, criando uma pista imaginária onde me deslocava sozinha, onde era esmagada pela batida. Gostei de andar perdida durante duas horas enquanto não achávamos o caminho para o festival, uma da manhã, duas da manhã e ainda não se ouve nada, vê lá se não podemos virar aqui, talvez estejamos a andar na direcção contrária. É tudo tão simples quando nós deixamos. É tudo mais fácil quando evitamos que a realidade nos sabote a estadia naquele paraíso intocado, com esforço, com a estóica coragem de impedir as fantasias de avançarem e perturbarem aquele silêncio só rasgado pelo toque dos sinos. É tudo tão fácil quando eu quero, é tudo tão óbvio que empurro aquela imagem para longe, para fora, rejeitando a felicidade a acontecer à hora marcada. Foi tão, tão bom mas é pena que conjuguemos este verbo sempre no pretérito.)
julho 30, 2008
Mas, antes de ir, isto.
Porque me parece que ela também sabe que este coração está avariado, não sei se para sempre mas, de certeza, há tempo demais.
Metal heart, you're not hiding.
Metal heart, you're not worth a thing.
Agora é que é.
Metal heart, you're not hiding.
Metal heart, you're not worth a thing.
Agora é que é.
Amanhã

Estarei novamente de férias e a Norte, muito a Norte. Levo comigo seiscentas páginas que devoro a velocidade considerável, a garrafa de gin meio cheia, camisolas para o frio, um cartão de um giga de memória, a cabeça cheia e três pessoas de quem gosto muito. Não sei se me vai apetecer voltar. Liguem a vossa televisão nestes dias e pode ser que nos encontremos por lá. Até breve.julho 29, 2008
Sobre não conseguir esquecer
It's not me, I am pretending.
I'm not saved, he turned me down *.
Vi-o primeiro quando entregava as malas no check-in, não sei em que data nem para onde viajava. Os movimentos dele eram nervosos, como se o desconforto dos aeroportos o obrigasse a estar em constante deslocação. Vestia um fato escuro mas levava a gravata na mão que não segurava a leve mala de viagem. Imaginei-o diplomata, director, correspondente de um jornal mas a minha cabeça queria acreditar que era um toureiro. Tinha aquelas feições moldadas pela afronta, pela entrega diária ao prazer. Escrupulosamente escanhoado, o cabelo preto puxado para trás com uma noz de gel que já tinha preguiça, olhava vagarosamente para a fila que parecia nunca diminuir. Tinha aquele olhar vagamente triste e afectado, o olhar que se recusa a ser surpreendido, a viver ainda mais, uns olhos castanhos muito escuros e amendoados.
Da segunda vez que o vi, já estávamos dentro do autocarro que fazia a ligação do terminal ao avião: íamos fazer a mesma viagem, certamente com propósitos muito diferentes. Encostou-se a uma das portas enquanto desligava o telemóvel. Era um homem não muito alto, os ombros não tão largos como os do rapaz que se tinha encostado ao seu lado. Era muito moreno mas não tinha a cor de solário ou de férias - era simplesmente moreno. Em frente a ele, e muito diferente das mulheres que já amou, estava eu, que o estudava discretamente e imaginava, nesta viagem tão curta, como ele me convidava para beber um copo de vinho tinto e como falávamos sem precisar de palavras. Imaginava uma tarde de Verão numa cidade histórica e as suas mãos cuidadas desviando o cabelo do meu pescoço, enquanto me olhava com uma calma que me assustava, com a tranquilidade das certezas. Ambos teríamos um avião para apanhar e, quando nos separássemos a caminho do aeroporto, saberíamos que era aquela falta de voz que nos ligava.
Subiu rapidamente as escadas para o avião, enquanto consultava o relógio uma última vez. Eu guardei a minha bagagem e, enquanto apertava o cinto, pensei que, mesmo querendo, nunca poderia esquecer uns olhos assim.
* a render-me, finalmente, aos encantos da menina Chan.
I'm not saved, he turned me down *.
Vi-o primeiro quando entregava as malas no check-in, não sei em que data nem para onde viajava. Os movimentos dele eram nervosos, como se o desconforto dos aeroportos o obrigasse a estar em constante deslocação. Vestia um fato escuro mas levava a gravata na mão que não segurava a leve mala de viagem. Imaginei-o diplomata, director, correspondente de um jornal mas a minha cabeça queria acreditar que era um toureiro. Tinha aquelas feições moldadas pela afronta, pela entrega diária ao prazer. Escrupulosamente escanhoado, o cabelo preto puxado para trás com uma noz de gel que já tinha preguiça, olhava vagarosamente para a fila que parecia nunca diminuir. Tinha aquele olhar vagamente triste e afectado, o olhar que se recusa a ser surpreendido, a viver ainda mais, uns olhos castanhos muito escuros e amendoados.
Da segunda vez que o vi, já estávamos dentro do autocarro que fazia a ligação do terminal ao avião: íamos fazer a mesma viagem, certamente com propósitos muito diferentes. Encostou-se a uma das portas enquanto desligava o telemóvel. Era um homem não muito alto, os ombros não tão largos como os do rapaz que se tinha encostado ao seu lado. Era muito moreno mas não tinha a cor de solário ou de férias - era simplesmente moreno. Em frente a ele, e muito diferente das mulheres que já amou, estava eu, que o estudava discretamente e imaginava, nesta viagem tão curta, como ele me convidava para beber um copo de vinho tinto e como falávamos sem precisar de palavras. Imaginava uma tarde de Verão numa cidade histórica e as suas mãos cuidadas desviando o cabelo do meu pescoço, enquanto me olhava com uma calma que me assustava, com a tranquilidade das certezas. Ambos teríamos um avião para apanhar e, quando nos separássemos a caminho do aeroporto, saberíamos que era aquela falta de voz que nos ligava.
Subiu rapidamente as escadas para o avião, enquanto consultava o relógio uma última vez. Eu guardei a minha bagagem e, enquanto apertava o cinto, pensei que, mesmo querendo, nunca poderia esquecer uns olhos assim.
* a render-me, finalmente, aos encantos da menina Chan.
julho 28, 2008
Síndrome do Regresso *
É precisamente uma da manhã. Não tenho um relógio com mostrador digital mas consigo sentir o tempo a não avançar, estancado neste quarto emprestado. Revolvi a cama demasiadas vezes para conseguir manter-me deitada e concentrada no sono. Sentei-me no puff preto, que nunca encontrou o seu lugar nesta casa, e deixo que o fresco da noite de Lisboa me torne menos ansiosa. Nunca sei exactamente onde me encontro quando regresso para ficar. Quanto mais penso que devo parar e esvaziar o reservatório de lembranças, mais desperta me sinto e tudo corre a maior velocidade. Conto as horas que faltam até me levantar e sei que o dia amanhã será uma tortura. Talvez não tão grande quanto esta de não saber onde estou.*o meu auto-diagnóstico, a minha contribuição para a Ciência.
julho 27, 2008
Acabar em beleza, vol. II

Há uma quinta bem perto do coração da cidade. Juntamo-nos perto das quatro da tarde para começarmos a cozinhar e decidir o que falta comprar. Em vez das tradicionais febras grelhadas, decidimos arriscar e optamos pelas saladas frias - uma escolha muito acertada. Há cerveja dividida entre dois frigoríficos e bebidas mais fortes para os adeptos de misturas estranhas. Enquanto jantamos, ouvimos Johnny Cash, Amy Winehouse, A Naifa (quantas mais vezes vão irromper pela minha vida e afastar-me do que me rodeia, obrigar-me a concentrar nesta voz, a criar cinema na minha cabeça). Acabamos a noite com uma partida de lerpa, com direito a fichas de casino para não complicar as contas.Arrepio-me quando penso que amanhã estou de volta à realidade. Podem não ter sido as férias que idealizei mas foram, de certeza, as mais tranquilas dos últimos tempos. Tenho quatro dias de trabalho antes das próximas férias - não vou conseguir trabalhar, é evidente. Vou antes pairar por ali.
julho 26, 2008
Acabar em beleza, vol. I
Já passava das nove e meia quando nos fizemos à estrada. São uns setenta quilómetros até atravessarmos a fronteira com Badajoz, entre estradas sem marcação e o troço da auto-estrada mesmo no final. Sabemos que estamos em Espanha porque é quase meia noite e as esplanadas dos restaurantes ainda estão cheias e há gente a atravessar a ponte sobre o Guadiana. Meio perdidos na zona comercial, cheia de lojas de roupa de cerimónia, brinquedos, de chineses, de tatuagens e tapas perguntamos o caminho até ao bar.No bar (site aqui) encontramos toda a gente que costuma estar aqui e que veio dar força aos moços. Chamam-se Magnetic Roll Bar e mostraram aos (não muitos) espanhóis como se faz rock descomplicado, quase divertido e que faz ter vontade de dançar. Conquistaram algumas fãs espanholas, deram espectáculo em cima do balcão e acabaram completamente suados, como é costume. Ainda houve tempo para pôr a conversa em dia com amigos do outro lado da fronteira e para beber cervejas ao escandaloso preço de dois euros e meio. Espanha é realmente outra coisa.
julho 25, 2008
Lembro-me daquele dia em partilhámos o táxi até casa. Lembro-me de como, pela primeira vez, tomei a liberdade de te dizer exactamente o que me apetecia fazer e de como me obrigaste a tomar uma decisão. Tenho a cabeça a andar à roda, pensava, enquanto tentava chamar um táxi mas era muito mais que isso - era o corpo inteiro, era o mundo a querer fugir-me dos pés, era esta sensação tóxica de possibilidade. Sabia que me ias fugir, que eu ia querer que fugisses. Nunca ficas muito tempo, apenas o suficiente para me poderes marcar outra vez e desaparecer. Lembro-me da tua camisa e do gin quase tónico que preparei à pressa. Pegaste num livro da minha prateleira, num que te chamava a atenção e, às seis e tal da manhã, leste-me excertos ao acaso enquanto eu tentava perceber, cansada, se aquilo não era apenas o produto da minha persistente imaginação. É tudo demasiado rápido, contigo mas eu lembro-me em câmara lenta para preencher os espaços. Porque, na minha cabeça, cada uma é sempre a última vez.
julho 23, 2008
Update *


* ou como, desta vez, fomos estender as nossas toalhas na relva do Crato, já a tarde ia longa. Tivemos direito a um concurso de saltos para a água, piscinas com água (quase) demasiado quente, um fim de tarde ventoso mas tão agradável sem que a menina anunciasse o seu final nos altifalantes. No caminho, cheira-me a campo mas faltam-me os eucaliptos antes daquele cruzamento e vejo o progresso da nova estrada que desenham até Lisboa. Passamos pela casa onde eu gostava de morar, cercada por vinhas, com um rodapé azul do mais bonito que há - sempre achei que com um computador e alguns livros podia ser feliz nestes ermos silenciosos. Aceito os conselhos generosos e deixo de sentir saudades do futuro - este presente, com planos vagos, com sandes embrulhadas à pressa e o biquini sempre estendido à janela, é mais do que podia desejar.T., M. e eu, por ordem de aparição.
julho 22, 2008
Queria ser omnipresente.
Passam cinquenta e três minutos das nove da manhã quando os óculos de sol me tapam as olheiras da noite de ontem. Deixei-os a todos mais cedo, antes que passassem dos planos à acção e acabássemos todos mergulhados clandestinamente num tanque qualquer. Queria saltar muros ou sentar-me num sítio qualquer sem iluminação, queria continuar a dançar os êxitos dos ABBA no bar onde já somos os últimos clientes. Mas ontem impus-me a reclusão.
Passam cinquenta e seis minutos das nove da manhã quando compro o meu bilhete de dois euros e escolho uma espreguiçadeira na minha piscina favorita de todos os tempos, com vista sobre a serra e sobre os retalhos cultivados que se estendem até onde esta névoa do calor deixa ver. Hoje o céu já não está azul, está queimado pelas temperaturas altas. E, quando passam dois minutos das dez da manhã e eu mergulho pela primeira vez, estão seguramente mais de trinta graus. O calor mistura-se com a água, que está tépida ao primeiro toque. Há tantas caras conhecidas para quem me tornei uma estranha, uma visita de passagem, aquela cuja vida não passa de um enorme ponto de interrogação. Pela primeira vez, quando passam cinquenta e dois minutos das dez da manhã, ouço a expressão de pena do dia (Ah mas vieste sozinha? Pois... Que pena não teres companhia...), como se não pudesse gostar de estar sozinha.
Passam quarenta e dois minutos das sete da tarde e penso na minha casa vazia em Lisboa. Tenho saudades da Lapa mas não estou certa de já ter vontade de voltar. Está calor, tenho os meus amigos e a minha família aqui. Só não consigo evitar pensar naquele silêncio do meu corredor - estou continuamente dividida.
Passam cinquenta e seis minutos das nove da manhã quando compro o meu bilhete de dois euros e escolho uma espreguiçadeira na minha piscina favorita de todos os tempos, com vista sobre a serra e sobre os retalhos cultivados que se estendem até onde esta névoa do calor deixa ver. Hoje o céu já não está azul, está queimado pelas temperaturas altas. E, quando passam dois minutos das dez da manhã e eu mergulho pela primeira vez, estão seguramente mais de trinta graus. O calor mistura-se com a água, que está tépida ao primeiro toque. Há tantas caras conhecidas para quem me tornei uma estranha, uma visita de passagem, aquela cuja vida não passa de um enorme ponto de interrogação. Pela primeira vez, quando passam cinquenta e dois minutos das dez da manhã, ouço a expressão de pena do dia (Ah mas vieste sozinha? Pois... Que pena não teres companhia...), como se não pudesse gostar de estar sozinha.
Passam quarenta e dois minutos das sete da tarde e penso na minha casa vazia em Lisboa. Tenho saudades da Lapa mas não estou certa de já ter vontade de voltar. Está calor, tenho os meus amigos e a minha família aqui. Só não consigo evitar pensar naquele silêncio do meu corredor - estou continuamente dividida.
Guilty pleasures
É o resultado de ter visto as primeiras duas séries em menos de uma semana. Provavelmente, é preciso crescer um bocado antes de poder sequer compreender as subtilezas que sustentam cada episódio. E, como é óbvio, não me assemelho em nada a estas mulheres de Nova Iorque: tenho menos de trinta anos, não uso Gucci nem Fendi nem Prada, não frequento os melhores restaurantes da cidade e as minhas relações não têm metade do glamour das relações delas. Mas se eu considerar só o pragmatismo da advogada, a ingenuidade da galerista, a clarividência da relações públicas e o idealismo da jornalista sou um bocadinho delas todas. Mesmo sem maquilhagem, Cosmopolitans ou trezentos pares de sapatos. Mesmo neste pedaço de Alentejo a arder.Well, I don't know how you people do it. All that emotional chow-chow. It's exhausting.
julho 20, 2008
Post com dedicatória *
De todo o mal que me fez, o que me magoa ainda hoje é a ingratidão, a incapacidade de aceitar que o que tínhamos juntos era o mais próximo que ele ia encontrar de perfeito. Passaram dez anos e a nossa vida poderá continuar mas provavelmente nunca estarei totalmente a salvo das suas tentativas reles de me magoar. E toda a dor que ele me causou apenas me deixou uma gigantesca percepção do que é o respeito por mim mesma, do que é não sucumbir à maior rede de mentiras que alguma vez me contaram, de procurar alguém verdadeiramente à minha altura. Deixá-lo foi a mais difícil e mais acertada decisão de toda a minha vida, foi acordar para um mundo em que eu era realmente uma pessoa, foi crescer e ver que a vida não precisa ser só um emaranhado de noites inquietas e dias confusos, em que nunca se sabe bem em quem confiar.
Por isso, se me perguntarem um dia qual foi o melhor momento da minha vida, eu vou responder que foi o dia em que te deixei, o dia em que encheste a minha caixa de mensagens com todos os insultos que pudeste inventar, o dia em que me perdeste para alguém incomparável e infinitamente melhor. Nada do que me possas dizer hoje ou amanhã me irá abalar porque, tanto eu como tu, sabemos que a tua vida é o castigo por tudo o que deitaste fora.
Apenas desejo não mais me cruzar com ele. Para que da minha boca não saia mais do que quero dizer.
*para mim, que um dia consegui perceber que se fazia tarde. Para mim, por ter perdido sete anos da minha vida a gostar de alguém. Para mim, no dia em que decidi que, de onde esta dor veio, não virá mais nada. Nunca mais.
Por isso, se me perguntarem um dia qual foi o melhor momento da minha vida, eu vou responder que foi o dia em que te deixei, o dia em que encheste a minha caixa de mensagens com todos os insultos que pudeste inventar, o dia em que me perdeste para alguém incomparável e infinitamente melhor. Nada do que me possas dizer hoje ou amanhã me irá abalar porque, tanto eu como tu, sabemos que a tua vida é o castigo por tudo o que deitaste fora.
Apenas desejo não mais me cruzar com ele. Para que da minha boca não saia mais do que quero dizer.
*para mim, que um dia consegui perceber que se fazia tarde. Para mim, por ter perdido sete anos da minha vida a gostar de alguém. Para mim, no dia em que decidi que, de onde esta dor veio, não virá mais nada. Nunca mais.
julho 17, 2008
A felicidade na minha caixa de correio
Ich befinde mich im Urlaub vom 14.07 bis einschließlich 25.07. Falls nötig bitte wenden Sie sich an xxx oder yyy in diesem Zeitraum. Danke!
julho 16, 2008
Estado em que se encontra este blog
Balançando entre o amarelo das searas, o inigualável azul do céu e os aviões sem rasto da cidade natal e o rebuliço, as noites silenciosas e as travessias da ponte da cidade adoptiva. Entre ambas, apenas há espaço para os lanches diários nas avós, para a música que se ouve em cima de uma cadeira de massagem e para a gastronomia que senta bons amigos à mesma mesa. Tudo o resto se resume a água transparente e pele morena. Tempo para pensar, sim - mas só em coisas realmente boas.
julho 13, 2008
About yesterday (and the day before and the day before that)
(houve tempo para experimentar um festival novo, desta vez em Oeiras. O recinto é demasiado comprido para que se possa alternar confortavelmente entre os dois palcos, as casas de banhos deixaram de ser unisexo, o som da música de dança a meio do recinto prejudica o som nos palcos maiores. Mas houve The National (outra vez) que, não comparando com a Aula Magna, me fizeram fechar os olhos durante breves segundos só para sentir aquilo tudo como deve ser. E houve o regresso à minha adolescência a ouvir os Rage Against The Machine e a descoberta que ainda me apetece muito saltar ao som daquela música.)
(jantar marcado para as nove, algures em Algés. O restaurante tem a porta fechada, é obrigatório tocar à campainha para que nos façam entrar numa espécie de dimensão diferente. É como se fosse uma casa de família, as mesas impecavelmente postas, os pratos elegantemente desirmanados. Os empregados eram delicados como a etiqueta exige, a meia luz esbatia os contornos dos rostos aristocráticos que se sentavam nas outras mesas. Cinco variedades de fondue, tinto alentejano macio e uma salinha só para nós.)
(sardinhas em Setúbal e quase duas horas esperando o ferry. Fazer outra vez aquela estrada trouxe-me boas recordações - as voltas que demos em Tróia, as praias a que tentámos ir, a noite em que dormimos quase à beira mar. Acabámos na Comporta, a praia longe de estar cheia, o vento que não nos deixava estender a toalha. No topo das ondas que revolviam a areia, senti-me a controlar a minha vida e soube que o meu desejo havia de se tornar realidade.)
(jantar marcado para as nove, algures em Algés. O restaurante tem a porta fechada, é obrigatório tocar à campainha para que nos façam entrar numa espécie de dimensão diferente. É como se fosse uma casa de família, as mesas impecavelmente postas, os pratos elegantemente desirmanados. Os empregados eram delicados como a etiqueta exige, a meia luz esbatia os contornos dos rostos aristocráticos que se sentavam nas outras mesas. Cinco variedades de fondue, tinto alentejano macio e uma salinha só para nós.)
(sardinhas em Setúbal e quase duas horas esperando o ferry. Fazer outra vez aquela estrada trouxe-me boas recordações - as voltas que demos em Tróia, as praias a que tentámos ir, a noite em que dormimos quase à beira mar. Acabámos na Comporta, a praia longe de estar cheia, o vento que não nos deixava estender a toalha. No topo das ondas que revolviam a areia, senti-me a controlar a minha vida e soube que o meu desejo havia de se tornar realidade.)
julho 09, 2008
I've got a thing for you
Não devia ter pegado no livro que (supostamente) disseca os signos e os seus ascendentes. Sempre que leio, sou absorvida pela quantidade absurda de generalidades e revejo-me em grande parte das coisas que eles dizem que eu sou. Mas não é que eu acredite em horóscopos nem em previsões ou cartas astrais - quando os leio, é apenas para me rir (e secretamente tentar alinhar o que me acontece com aquilo que está previsto...).
Li várias vezes a parte em que eram descritos os amores das mulheres deste signo. Não foi com surpresa que li que são uma coisa quase doentia, um sentimento amarrado a pormenores, capaz de explodir a qualquer instante. Não me admirou que se falasse em lealdade cega e instinto protector quase selvagem. Se os signos têm algum fundo de verdade, esta minha impulsividade, esta incapacidade de conter as palavras e a insistência em reservar os pensamentos são a prova de que precisava. Só não li em lado nenhum que a nativa deste signo prefere esperar por um grande Amor em vez de se entreter com menoridades do género, que procura alguém que a domine com um só olhar ou uma palavra de ternura. Não encontrei referência às vezes que se engana a amar, às paixonetas que confunde com o amor, às aventuras que tenta fazer passar por começos de alguma coisa. Nem sequer li em parágrafo algum que (algum)as mulheres deste signo desejam apenas uma reciprocidade tão perfeita que se perdem em jogos de cintura inúteis, em desejos satisfeitos, em concessões desnecessárias.
E também foi omitido o profundo terror que sentem quando, nos longos momentos que passam a pensar antes de adormecer, sentem que tudo o que desejam não se vai repetir ou estar à altura daquilo que esperam. Mas, em conversa com uma velha amiga e ouvindo as palavras que eu mesma escolhi, percebi que a esperança secreta nessa outra pessoa torna a vida mais suportável, a espera menos dolorosa. É que o meu ascendente promete-me grandes conquistas e eu, desconfiando, acredito.
Li várias vezes a parte em que eram descritos os amores das mulheres deste signo. Não foi com surpresa que li que são uma coisa quase doentia, um sentimento amarrado a pormenores, capaz de explodir a qualquer instante. Não me admirou que se falasse em lealdade cega e instinto protector quase selvagem. Se os signos têm algum fundo de verdade, esta minha impulsividade, esta incapacidade de conter as palavras e a insistência em reservar os pensamentos são a prova de que precisava. Só não li em lado nenhum que a nativa deste signo prefere esperar por um grande Amor em vez de se entreter com menoridades do género, que procura alguém que a domine com um só olhar ou uma palavra de ternura. Não encontrei referência às vezes que se engana a amar, às paixonetas que confunde com o amor, às aventuras que tenta fazer passar por começos de alguma coisa. Nem sequer li em parágrafo algum que (algum)as mulheres deste signo desejam apenas uma reciprocidade tão perfeita que se perdem em jogos de cintura inúteis, em desejos satisfeitos, em concessões desnecessárias.
E também foi omitido o profundo terror que sentem quando, nos longos momentos que passam a pensar antes de adormecer, sentem que tudo o que desejam não se vai repetir ou estar à altura daquilo que esperam. Mas, em conversa com uma velha amiga e ouvindo as palavras que eu mesma escolhi, percebi que a esperança secreta nessa outra pessoa torna a vida mais suportável, a espera menos dolorosa. É que o meu ascendente promete-me grandes conquistas e eu, desconfiando, acredito.
(e agora uma breve pausa publicitária)
A empresa onde trabalho está à procura de pessoas que queiram juntar-se a nós. Não importa se só vos apetece trabalhar no Verão ou se querem mesmo começar a trabalhar a sério, todos são considerados. Portanto, se conhecem alguém com vontade de arregaçar as mangas, o meu contacto está no perfil. Não se prometem ordenados chorudos nem regalias imediatas mas há por lá gente boa e trabalho que chegue.
(de volta à emissão normal)
(de volta à emissão normal)
julho 08, 2008
À flor da pele pt. II *

Encostado à parede, perde-se em antecipações. Já bebeu qualquer coisa forte para conseguir lidar com a pressão de ser apenas um homem. Parece meio desorientado no meio daquelas cadeiras vazias, no meio do silêncio artificial da sala. Revejo esta cena durante alguns minutos, quero decorar o ritmo com as suas pestanas descem sobre os olhos, quero poder dizer-lhe que sei como é. As luzes, a ansiedade dos olhos que pousam sobre ele, o suor que se ouve cair na sala tornam a sua voz mais triste e os seus desejos mais escuros. Puxa o microfone até à altura do coração e grita tudo o que pode. Posso sentir a intensidade mesmo em silêncio, mesmo sem cor, sem saber o que está a cantar. Um dia perguntaram-me o que tem isto de especial. Acho que não sei dizer mas sei exactamente do que se trata.
Tonight you just close your eyes/and I just watch you/slip away
*agora em versão puramente emocional. Este still é do documentário A Skin, a night, realizado por Vincent Moon e que nos mostra outros lados B dos The National.
Tonight you just close your eyes/and I just watch you/slip away
*agora em versão puramente emocional. Este still é do documentário A Skin, a night, realizado por Vincent Moon e que nos mostra outros lados B dos The National.
julho 07, 2008
Som! Experiência! 1, 2!
Abre-se neste momento um novo capítulo na história deste blog e com ele a possibilidade de participação dos amigos. A partir de hoje, a Jane do Às vezes apetece, o Vodka e Valium 10 do Fantástica Gramática Automática, o Cosmonauta do Terra de Ninguém e o Ricardo do 2H têm também voz aqui. A ideia, de acordo do o mentor desta troca, é simples: se convidamos os nossos amigos para nossa casa, porque não os convidamos para outros sítios onde nos sentimos bem?
Mais desenvolvimentos nos próximos tempos. Eu cá já abri as hostilidades, só é preciso descobrir onde...
Mais desenvolvimentos nos próximos tempos. Eu cá já abri as hostilidades, só é preciso descobrir onde...
julho 06, 2008
Portalegre, 21h37m
julho 05, 2008
Sobre técnicas de relaxamento
Junta-se os planos para esta última semana antes das férias (Alive!, jantar fondue, dançar loucamente ao som de Discotexas, apanhar amigos de quem morremos de saudades no aeroporto); os momentos de silêncio deitada numa espreguiçadeira na piscina, olhando os aviões que hoje não deixam rasto no céu, repetindo momentos bons em loop; e as horas de sono que se foram perdendo durante a semana. A continuar a este ritmo, vai ser um Verão do caraças.
julho 02, 2008
Não quero o amor/O que me entusiasma é a boa imitação.
Sentados numa esplanada do largo do Carmo. Digo-lhe que trouxe o mau tempo de longe, ele gosta do tempo assim. Cumprimenta alguém conhecido, desvia o olhar constantemente como se estudasse as pessoas que passam nas minhas costas. Subo as escadas rolantes com um passo hesitante e quebrado, um nervoso muito maior do que o meu corpo aguenta e ele ali está, de olhos semi-cerrados à minha espera. Ele à minha espera. Já não sou eu deitada no escuro a contar os minutos que já passaram, é ele sentado ali. O meu coração não sossega, sinto-me suar. Não tiro o óculos de Sol enquanto estamos juntos. Decoro-lhe os pormenores da cara, os olhos escuros, os cabelos brancos em operação de charme. Se quiser responder com honestidade à pergunta O que faço eu aqui? não posso. E, enquanto viramos costas numa esquina da rua Garrett, só me consigo lembrar de dois versos*. Disso e do dia em que me disse com aquela calma Deixa ficar o colar, deixa-o ficar...
* as palavras de m.r.t. musicadas pel'A Naifa. Outra vez.
* as palavras de m.r.t. musicadas pel'A Naifa. Outra vez.
julho 01, 2008
Dancing queen
Estou na cozinha e, quanto avanço para o corredor, as pernas fogem-me e marcam o ritmo à vez. Esqueço-me que há televisão, esqueço-me que o jantar ainda não ficou feito e danço. De manhã, atravesso o jardim da Estrela sem conseguir disfarçar o movimento dos ombros, que à entrada deixaram de me obedecer. Se olharem bem para mim, reparam no meu andar estranho, tentando submeter as ancas ao passo normal. Nas escadas rolantes da estação de metro, seguro-me para não criar uma coreografia ao som da música. Temo que a qualquer momento perca o controlo e dance ali mesmo, de olhos fechados.A culpa é dele. Chamam-lhe Xinobi e podem ouvi-lo aqui.
junho 29, 2008
Alegres noites, quentes manhãs
Acordo e é como se estivesse ainda a sonhar. Está demasiado calor para as dez da manhã e eu estou demasiado enrolada no edredon para deixar de suar. Tento refrescar-me como posso e desfaço a cama com voltas sucessivas. Não consigo controlar a minha cabeça e deixo de tentar organizar as imagens que me perturbam o sono. Queria dormir outra vez mas as minhas fantasias estão demasiado despertas.
Um dia a Caixa vem abaixo

Ontem foi noite de marcar presença em mais um concerto, desta vez num sítio que nunca tinha visitado e que devia visitar mais vezes: a Caixa Económica Operária (cujo site podem consultar aqui). Para quem conhece a Sociedade Harmonia Eborense, este espaço de Lisboa está mais ou menos nessas linhas: um prédio antigo, escadas várias e algumas divisões que se organizam em torno do palco. A noite foi organizada pela Nervo (myspace aqui) e reuniu ontem os Lobster (electrizantes!), os Pontos Negros (promissores mas que sofreram com a má qualidade do som) e os The Vicious Five (máquina bem oleada, frontman como sempre em grande estilo) - grande noite de rock, como é óbvio.Algumas pessoas, como nós, resolveram ver os concertos da varanda. Tentávamos enganar o calor que fazia com cerveja fresca mas foi difícil ignorar a quantidade de suor que nos colava a roupa ao corpo. Houve muito humor, houve o Joaquim a cantar a Taras e Manias sozinho em palco, a cumplicidade silenciosa entre os dois membros dos Lobster, um certo nervoso miudinho dos Pontos Negros. Excelente noite de música, encerrada no Incógnito com mais música e gente chata que insiste em parar e conversar no meio da pista. A pista foi nossa, mesmo assim. Música e calor - o que eu gosto do Verão...
junho 27, 2008
Sobre convites inesperados e calor sem rival
And written very long ago
It's full of flowers and heart-shaped boxes
And things we're all too young to know but
It's full of flowers and heart-shaped boxes
And things we're all too young to know but
Este moço, tendo dirigido o mesmo convite a quem não o aceitou, levou-me ontem à noite a ver os Magnetic Fields na Aula Magna. Foi uma bela noite, cheia de canções bambi sobre corações partidos e crimes passionais numa sala longe de estar esgotada. Apenas dois pontinhos negativos: o calor inacreditável* (passei a noite a tentar improvisar um leque) e o senhor Merritt tapando os ouvidos sempre que o público aplaudia... Agradecida, sim?
* a foto foi tirada durante o intervalo (sim, intervalo!) que a banda fez para que as pessoas pudessem refrescar-se e fumar o seu cigarrinho... Inusitado, no mínimo.
* a foto foi tirada durante o intervalo (sim, intervalo!) que a banda fez para que as pessoas pudessem refrescar-se e fumar o seu cigarrinho... Inusitado, no mínimo.
junho 25, 2008
Dormir mais feliz #15
This is a holiday
This is the devil's game
It turns me on
* não sabendo o que pensar, invento. não há regras nem excepções mas eu sei que quero ganhar. há uma sequência de palavras a repetir-se na minha cabeça o dia inteiro, quatro palavras tão curtas e tão carregadas de ansiedade. não me chega repetir o que já sei, quero reescrevê-lo nas/com as minhas mãos. pudesse eu, quisesse eu parar. é o torpor da insinuação a manter-me na frente. é esquecer-me que sou cérebro e deixar-me comandar pelo calor.
E assim acontece
Pois é. Algo impressionada com o trailer deste filme, resolvi que estava na altura de um bocadinho de emoção numa sala de cinema. Não sou particularmente fã dos filmes de M. Night Shyamalan, é certo, mas não descartava a hipótese de mudar de ideias. E até sou uma pessoa mais ou menos crédula, se souberem como me levar. A ideia duma vingança da Natureza contra a forma como temos tratado o planeta até nem era difícil de aceitar mas a forma como tudo acontece... é demasiado má.Portanto: eu consigo acreditar na vingança das plantas, que libertam uma toxina que inibe instinto de auto-preservação dos humanos, levando ao suicídio colectivo numa questão de minutos. O que eu não consigo engolir é que isto se passe num espaço curto de horas, sem razão aparente, sem explicação plausível que não uma hipótese lançada ao ar; que a história que liga as personagens principais se cole demasiado àquilo que aconteceu na Guerra dos Mundos (que, sendo igualmente fantasioso, era um filme que se sustentava sozinho); que os momentos de suposto terror alternem com piadas low-profile; que, intencionalmente ou não, se veja em diversos momentos do filme o microfone mesmo acima dos actores (numa cena em que uma personagem leva um tiro na cabeça, a aparição do microfone é especialmente absurda); que as personagens sobrevivam à catástrofe apenas porque se amam e estão a tentar superar uma (pouco credível) crise conjugal. Portanto, eu sabia o que dizia quando, antes do filme, sugeria vermos antes o Sexo e a Cidade - é que era trigo limpo, farinha amparo: sabia-se exactamente o mau que iria ser.
junho 22, 2008
Receita para os primeiros dias de Verão *


Depois da estreia em noites quentes, dorme-se a primeira sesta do fim de semana, em quarto com ambiente tropical e propício à preguiça. Quando o sono acaba, aproveita-se a boleia até à Portagem para um soberbo prato de caracóis, dois dedos de conversa e uns minutos de ar menos pesado e quente. Encerra-se o capítulo gastronómico do dia com umas sardinhas ( quase a chegar à dezena) e uma imperial fresquinha.Passa-se à música, com uma noite animada pelos Yard Dogs Road Show (que podem experimentar aqui). São onze pessoas envolvidas numa mistura de cabaret, freak show e rock cuja presença em palcos portugueses já pode ser designada de frequente. Muito bons músicos, humor burlesco e dançarinas sensuais - passo o espectáculo todo de sorriso na boca, espantada com as plumas, o acordeão e com o homem que engolia facas. A fechar a noite, assiste-se pela segunda vez à actuação do Cais Sodré Cabaret (que também podem conhecer aqui), um grupo de sensuais e coquetes raparigas convenientemente vestidas a rigor (todas com o ar super-retro anos 40/50 e maravilhosos penteados a rematar) com coreografias originais mas ainda a precisarem de mais tempo em palco.
Termina-se em beleza com uma manhã na piscina. É dos meus momentos preferidos: quando finalmente seco numa espreguiçadeira e o meu pai lê o jornal à sombra. Vamos falando dentro e fora de água, ele mergulha de chapão e eu consigo fantasiar tanto de olhos abertos...
* consumir exactamente por esta ordem.
junho 20, 2008
Terapia
Dentro do carro estão seguramente quase quarenta graus. Tenho as calças coladas às pernas e as pernas coladas ao banco. O calor come as cores e passa a existir apenas o amarelo palha do chão e o cinzento sujo do céu. Na recta entre Pavia e o Vimieiro, dezassete quilómetros traçados a esquadro e régua, grito com tudo o que as minhas cordas vocais podem oferecer. Todo o amor do Mundo não foi suficiente/Porque o amor não serve de nada. Quando abrando nos semáforos do Vimieiro, sinto-me mais leve. O suor já a correr em bica mas o fardo um bocadinho aliviado.
junho 19, 2008
*
Era o desejo em ondas tímidas sempre que podia pensar nele. Era uma erupção morna, palavras deslizando sobre o calor, naufragando entre o ventre e a boca cheia de beijos. Ela encostava a cabeça ao vidro e sonhava-o durante os minutos vagos. Intencionalmente, deixava os olhos abertos enquanto a escuridão se instalava a seu lado, à sua volta e repetia a sombra dele encostada à porta, repetia o gesto casual da sua mão tocando a parede, preparando-se para lhe tocar. Era muito mais que o desejo, era o fascínio cru da carne e do suor enquanto se olhavam, como dois corpos celestes em doce colisão. Entregavam-se à ausência do amor e, em silêncio, habitavam outros corpos nesses breves instantes de abandono total. E era tudo demasiado simples para sequer ser real.
*[...] o teu corpo não me serviu de resgate[...]
*[...] o teu corpo não me serviu de resgate[...]
junho 18, 2008
Au coeur d'un Orient *
Estão os dois sentados numa boîte de péssimo gosto e partilham o mesmo maço de tabaco. Um tem o olhar perdido num passado que o faz continuar a correr, o outro abandona-se à incerteza do caminho que fez até agora. Querem ambos ser amados apesar dos seus segredos, da falta de tempo, da efemeridade das palavras com que encantam as mulheres que à noite os satisfazem.Ele pega na máquina fotográfica e dispara incessantemente: um abraço proibido num posto fronteiriço, a força a que submete todas as mulheres que se deitam na sua cama, o homem com quem partilha o quarto e que diz mais com os olhos do que com palavras, os cabelos negros espalhados pela almofada do seu quarto de hotel. Procura em todas as mulheres pedaços que o ajudem a construir a sua amada - aprendeu-o num dizer tradicional. Os seus olhos semi-cerrados são a fonte da luxúria, a razão pela qual as mulheres terminam a noite deitadas sob a sua objectiva. É terrivelmente sexual e sabe disso.
(ou a história deste filme que, não deslumbrando, tem o mais poderoso par de olhos - como os dele - dos últimos tempos e uma banda sonora tão inesperada me ocupará o adormecer durante algumas noites...)
junho 16, 2008
A garagem da vizinha + Great DJ
Afinal, Santos também podem ser quando nós quisermos - é esta a vantagem das festas da cidade em Lisboa se arrastarem por um mês inteiro e por vários bairros simultaneamente. Portanto, eu continuo a acreditar que para tudo há uma razão e a razão pela qual eu fiquei em casa na véspera de feriado foi para me poupar para a noite de Sábado.
O que nos juntou foi essa ideia de comer sardinhas e aproveitar as noites já quentes (esqueçamos a chuva de ontem e o dia de hoje...) para bailar. Já tínhamos falado na Bica e foi exactamente aí que satisfizemos o nosso desejo de Santos. Depois de esperarmos duas horas para conseguir uma mesa para oito (e aquele casal passar à frente e os músicos passarem à frente e estas duas senhoras passarem à frente e esta malta não se levantar nem à lei da bala), lá conquistámos a simpatia da Guida (a empregada de serviço, que acabou a noite a oferecer-nos imperial) e do senhor Jaime (com a sua cara encardida de assar tanta sardinha e de voltar tanta bifana mas que fazia questão que tudo estivesse em ordem).
O baile já se ouvia onde na noite anterior se tinha reunido Portalegre A. O largo de Santo Antoninho estava longe de cheio mas era isso que tornava tudo mais agradável. As pessoas, maioritariamente moradoras na zona, dividiam-se entre o gradeamento que assomava sobre o palco e o largo propriamente dito, onde um grupo de freaks dançava efusivamente. Os músicos eram (provavelmente) os piores do Mundo mas isso tornava a noite numa ocasião irresistivelmente mais divertida. Entre nós, não se dançou muito - alguns pés guardavam-se para o que viria depois.
Já tinha perdido a conta às vezes que quis ir ao Incógnito numa noite destas. Adiei quase sempre por falta de companhia - estar sozinha numa discoteca não faz nada o meu género. Mas ontem, culpa de uma conjugação inédita de factores, lá dancei ao som dos Discos Voadores do Nuno Galopim. Sempre li os alinhamentos das edições anteriores com alguma inveja porque eram sempre demasiado perfeitos para eu não poder dançá-los. E foi perfeito na mesma: a pista mais desimpedida que o costume, o gin tónico logo à entrada, o dj de braços no ar a incentivar toda a gente à festa, a música que se ouve em casa, agora pronta para dançar.
Do que veio a seguir, guardarei apenas memória porque não me orgulho de ser irresponsável. Mas digamos que envolveu quatro sandes mistas, um biquini vestido e estender o corpo finalmente na cama às nove da manhã. E os Santos eram na quinta-feira, diziam vocês? Na.
O que nos juntou foi essa ideia de comer sardinhas e aproveitar as noites já quentes (esqueçamos a chuva de ontem e o dia de hoje...) para bailar. Já tínhamos falado na Bica e foi exactamente aí que satisfizemos o nosso desejo de Santos. Depois de esperarmos duas horas para conseguir uma mesa para oito (e aquele casal passar à frente e os músicos passarem à frente e estas duas senhoras passarem à frente e esta malta não se levantar nem à lei da bala), lá conquistámos a simpatia da Guida (a empregada de serviço, que acabou a noite a oferecer-nos imperial) e do senhor Jaime (com a sua cara encardida de assar tanta sardinha e de voltar tanta bifana mas que fazia questão que tudo estivesse em ordem).
O baile já se ouvia onde na noite anterior se tinha reunido Portalegre A. O largo de Santo Antoninho estava longe de cheio mas era isso que tornava tudo mais agradável. As pessoas, maioritariamente moradoras na zona, dividiam-se entre o gradeamento que assomava sobre o palco e o largo propriamente dito, onde um grupo de freaks dançava efusivamente. Os músicos eram (provavelmente) os piores do Mundo mas isso tornava a noite numa ocasião irresistivelmente mais divertida. Entre nós, não se dançou muito - alguns pés guardavam-se para o que viria depois.
Já tinha perdido a conta às vezes que quis ir ao Incógnito numa noite destas. Adiei quase sempre por falta de companhia - estar sozinha numa discoteca não faz nada o meu género. Mas ontem, culpa de uma conjugação inédita de factores, lá dancei ao som dos Discos Voadores do Nuno Galopim. Sempre li os alinhamentos das edições anteriores com alguma inveja porque eram sempre demasiado perfeitos para eu não poder dançá-los. E foi perfeito na mesma: a pista mais desimpedida que o costume, o gin tónico logo à entrada, o dj de braços no ar a incentivar toda a gente à festa, a música que se ouve em casa, agora pronta para dançar.
Do que veio a seguir, guardarei apenas memória porque não me orgulho de ser irresponsável. Mas digamos que envolveu quatro sandes mistas, um biquini vestido e estender o corpo finalmente na cama às nove da manhã. E os Santos eram na quinta-feira, diziam vocês? Na.
junho 12, 2008
(E ainda) os Santos...
Mas apetecia-me tanto bailar. E perder-me nas travessas que rodeiam o Castelo. E procurar transporte até a manhã começar a levantar... Acho que vou ali amuar e maldizer o dia em que resolvi trabalhar num departamento alemão - feriados? Nem vê-los.
E agora para três ou quatro coisas diferentes...
Well, it's not like you're one thing or the other, okay? There's still a kid inside but you grow up when you decide to do right, okay, and not what's right for you, what's right for everybody, even when it hurts.Os abraços que faziam doer, o prato de comida ainda por tocar, o pânico que fazia desapertar a gravata. Ele não sabia como crescer senão inventando para si mesmo um amor incondicional, um substituto do conforto e da paixão. Vestia camadas de roupa para se proteger do toque dos outros. Espreitava atrás das cortinas a vida normal que ele não conseguia para si. Queria gostar mas isso só fazia tudo doer ainda mais. Por não ser também muito tolerante à frustração, gostei deste filme. É material para me deixar com um nó na garganta.
Não tinha assim grandes expectativas sobre o novo álbum destes moços, principalmente porque só há pouco tempo me apercebi que vinha aí qualquer coisa nova. Sei bem as opiniões contraditórias que a música deles gera por aí mas acho que não me podia importar menos com os preconceitos dos outros. Ando a ouvi-los muito (alternando com os moços do post abaixo), especialmente pela manhã, enquanto os primeiros raios de sol (já quente) furam entre as copas do jardim da Estrela.
Eu consegui resistir até aqui. Não partilho desta histeria generalizada à volta da selecção que leva as pessoas a interromperem o trânsito só porque ganhámos mais um jogo da fase de grupos. Não tenho sido adepta da bifana nem sequer da mini durante os jogos, porque jogos e trabalho são duas coisas incompatíveis. E não me incluo nos pessimistas que davam tudo como perdido antes do primeiro jogo nem aos optimistas que acham que vamos ser campeões. Mas foi a primeira vez que ouvi o relato de um jogo da selecção e a primeira vez que ouvi um golo e pude comemorar com as pessoas que encontrei a caminho de casa. Em vez de Estrela brilhante brilhante brilhante brilhante* não podíamos ter Portugal brilhante brilhante brilhante brilhante?* se não sabem a que me refiro, experimentem a ver a Liga dos Últimos um dia destes e descobrem :)
junho 10, 2008
Dezoito segundos antes do amanhecer *
Absolutamente luminoso. As mesmas paisagens inóspitas da Islândia mas agora na Primavera. A infinita capacidade que a música tem de gerar paz. Os últimos acordes do piano a fecharem uma canção. O emaranhado de palavras que não entendemos mas que nos confortam. Os crescendos épicos a fazerem o peito inchar. A música ideal para o primeiro cruzar de olhos. Uma espécie de elevação que parece que não vou aguentar. As noites em que ainda vou adormecer ao som disto.* em português porque o meu islandês (e o meu hopelandic) não está famoso. Eles voltaram e ainda bem. Já fazia falta esta luz.
junho 09, 2008
junho 07, 2008
2-anos-2
Dois anos. Vinte e quatro meses a dedicar-me a um projecto a que vi nascer, crescer, estagnar e desenvolver. Duas promoções depois, sinto que ainda não estou no sítio onde gostaria de estar. Não me refiro exactamente à posição na empresa, que muito me honra, mas à actividade profissional. Esta coisa de não ter escolhido nada com uma designação profissional concreta baralha-me um bocadinho. Podia ter ido para as engenharias ou para o design ou para medicina mas não - tinha que decidir-me pelo abstracto das literaturas.
Depois, há toda a questão material. Não tenho nenhum desejo secreto de ser milionária mas não posso dizer que não sonho ganhar mais dinheiro. Faço planos com todo este dinheiro que não ganho. Porque nunca se sabe e um dia isto pode dar uma cambalhota grande e eu, quando menos espero, estou noutro sítio qualquer. Não me parece, em todo o caso. Mas como eu até sou uma pessoa crente (vulgo, patinho que acredita em tudo)...
Os dois anos neste emprego ensinaram-me muita coisa. Maioritariamente, ensinaram-me coisas más e digo isto sem qualquer amargo de boca: simplesmente ensinaram-me diferentes formas de sermos lixados por diferentes pessoas. Ensinaram-me a trabalhar sem os recursos necessários e, mesmo assim, conseguir atingir os objectivos a que eu mesma me propus. Mas também fizeram maravilhas pela minha paciência, pelas minhas capacidades de formação, pela vontade de unir as pessoas em torno de uma mesma coisa. Tudo isto me será útil no futuro, tenho a certeza. Mas fico sempre um bocadinho desconsolada por ter que aprender estas coisas todas à força, sem ter tempo para as digerir logo. Aqui, não há tempo para pensar em nada, nenhum segundo para contemplações. E esta segunda promoção amainou o meu desejo de procurar uma experiência nova. Mas, com esta gente por lá, é até ver.
(ou estou a enganar-me a mim própria?)
Depois, há toda a questão material. Não tenho nenhum desejo secreto de ser milionária mas não posso dizer que não sonho ganhar mais dinheiro. Faço planos com todo este dinheiro que não ganho. Porque nunca se sabe e um dia isto pode dar uma cambalhota grande e eu, quando menos espero, estou noutro sítio qualquer. Não me parece, em todo o caso. Mas como eu até sou uma pessoa crente (vulgo, patinho que acredita em tudo)...
Os dois anos neste emprego ensinaram-me muita coisa. Maioritariamente, ensinaram-me coisas más e digo isto sem qualquer amargo de boca: simplesmente ensinaram-me diferentes formas de sermos lixados por diferentes pessoas. Ensinaram-me a trabalhar sem os recursos necessários e, mesmo assim, conseguir atingir os objectivos a que eu mesma me propus. Mas também fizeram maravilhas pela minha paciência, pelas minhas capacidades de formação, pela vontade de unir as pessoas em torno de uma mesma coisa. Tudo isto me será útil no futuro, tenho a certeza. Mas fico sempre um bocadinho desconsolada por ter que aprender estas coisas todas à força, sem ter tempo para as digerir logo. Aqui, não há tempo para pensar em nada, nenhum segundo para contemplações. E esta segunda promoção amainou o meu desejo de procurar uma experiência nova. Mas, com esta gente por lá, é até ver.
(ou estou a enganar-me a mim própria?)
junho 04, 2008
Dormir mais feliz #14
me fazer sentir tão bem
decerto alguma coisa mais te disse a mesma voz
que tu não dizes a ninguém
decerto alguma coisa mais te disse a mesma voz
que tu não dizes a ninguém
junho 03, 2008
(Porto) After hours
Imagens minhas, música Eu tentei dizer do Manel Cruz
Todos os dias foram curtos para nós. Por isso, vi nascer duas manhãs no Porto. Tentámos apanhar gaivotas, conhecemos as faculdades todas e tomámos o pequeno-almoço onde, há menos de doze horas, tínhamos jantado também. Às memórias, junto aquilo que a minha máquina também viu e brinco aos vídeos caseiros. Como se nos pudéssemos esquecer.
junho 02, 2008
Porto ♥
Se eu quiser dizer a verdade verdadinha, só existia uma razão para eu ainda não conhecer o Porto: não tinha ainda calhado. E lá por ser a única razão não quer dizer que seja boa ou válida ou compreensível até. O que interessa é que agora essa razão deixou de existir e eu regressei de um fim de semana (quase) perfeito, com mais uma cidade a juntar às que outras das quais gostei à primeira.
Há muitas razões para uma pessoa se enamorar do Porto. Temos a esplanada do Piolho às sete da tarde, enquanto os indies lêm o Y; temos a Ribeira completamente formatada para turista ver; as francesinhas verdadeiras e gigantes; temos a forma atrevida com que os empregados topam os não-portuenses à distância; a cor das fachadas dos prédios mais velhos; o bom gosto dos bares e discotecas; e temos o tempo que muda quando nos sente chegar à cidade. A isto tudo, eu ainda juntei boa companhia e um melhor guia. Quero voltar lá. E quero voltar depressa.
* estas e outras impressões visuais sobre os concertos aqui.
Há muitas razões para uma pessoa se enamorar do Porto. Temos a esplanada do Piolho às sete da tarde, enquanto os indies lêm o Y; temos a Ribeira completamente formatada para turista ver; as francesinhas verdadeiras e gigantes; temos a forma atrevida com que os empregados topam os não-portuenses à distância; a cor das fachadas dos prédios mais velhos; o bom gosto dos bares e discotecas; e temos o tempo que muda quando nos sente chegar à cidade. A isto tudo, eu ainda juntei boa companhia e um melhor guia. Quero voltar lá. E quero voltar depressa.
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