setembro 14, 2008

27 anos de Kike *

As maravilhas de estar à mesa com amigos, poder beber cerveja fresca saída de um barril cheio de gelo, prolongar a refeição por horas a fio já aqui foram elogiadas. Ontem foi simplesmente mais um dia assim ou, melhor dito, uma noite assim. Recebidos pelo frio já outonal do Reguengo e pela família C., tivemos tempo para conversar na rua, fugir de vespas gigantes, assistir a danças de salão, viver o suspense antes da entrega dos presentes e dançar até já não restar ninguém à volta da mesa de bilhar. O clube dos vinte e sete promete grandes feitos para este ano, que eu espero que o aniversariante aproveite como nunca! Para o ano, noutro sítio à mesma hora?

* outras impressões aqui.

setembro 13, 2008

The Big Church Of Fire

Honrada de os ver começar na minha cidade, sentei-me na primeira fila para assistir à primeira actuação destes meninos (myspace aqui). Trouxeram uma imensa claque de apoio que documentou a estreia e garantiu todo o apoio de que precisavam. Quando se ouve a música deles, pensa-se em Mustangs vermelhos a rasgar o deserto, em homens sozinhos caminhando à beira da estrada, em quartos de motel com cortinas carcomidas pela solidão. Ainda há muita estrada para bater mas sinto que eles estão no bom caminho. Hei-de cruzar-me com eles mais vezes.

setembro 12, 2008

Cashback *

Partem-nos o coração tantas vezes. Como meros espectadores, olhamos, incrédulos, o momento exacto em que o amor deixa de existir. Já não há som, apenas os movimentos nervosos, irados, indiferentes da outra boca. Sabemos tudo o que vai ser dito, sabemos até como tentar impedir que o impacto seja tão brutal mas reservamo-nos o direito ao silêncio. Não dormimos à noite, não há nada que possa reparar o dano tão depressa e, por isso, passamos as noites em claro. Horas após horas de escuridão completa, horas passadas a reconstruir momentos que não sabíamos guardados, repetições desastradas dos momentos de cisão. Na nossa rua, no caminho de casa, no cinema passeiam-se os fantasmas que criamos para nos defendermos. Estamos mais sozinhos quando há alguém que não nos quer.

Reconstroem-nos o coração tantas vezes. Somos tantas vezes alheios ao instante preciso em que a vida se encarrega de nos mostrar outro caminho. Fixamos frases inteiras, memorizamos partes de um sorriso, imaginamos muito para além do permitido. À noite, as horas custam a passar. É uma desinquietação cá dentro, uma agitação nervosa sem par, o cheiro e a cor dos olhos e a maneira como apoiam a cabeça nas mãos a perturbar-nos o sono. Subitamente, a dor desaparece, dá lugar à euforia que contemos em frente a um espelho ou a ouvir aquela música. Cristalizamos na nossa memória uma maneira doce de olhar, uma perna nervosa debaixo da mesa, o respirar que sentimos mais perto. Atrapalhados, buscamos a forma mais complicada de nos beijarmos. Mas quando repetimos a sequência vezes e vezes sem conta, conseguimos a harmonia e guardamo-la até à próxima vez que nos quebrarem.

* filme que vi entre tachos e avós que nos oferecem fruta e irmãs quase a chegar.

M @ cozinha VI

Tinha prometido a mim mesma que iria apanhar amoras e cumpri. Com a ajuda do A., que falava mais do que colhia, consegui juntar uma quantidade muito considerável. A minha mãe reservou algumas para fazer um delicioso licor de amora e eu usei o resto para fazer o coulis com que servi a minha primeira panna cotta! A consistência de ambos ainda deixa muito a desejar mas o sabor resultou em cheio. Tivesse eu sempre todo este tempo livre e havia de me tornar numa cozinheira de mão cheia!

setembro 11, 2008

Alentejo, meu amor ii

No segundo dia de passeio, arriscamos ir bem mais longe para testar os limites do nosso esforço. Começamos com um dia de Sol já raro nestes últimos tempos mas acabamos, quase em casa, com o cinzento chumbo do céu. Há tempo para parar num café para comprar uma garrafa de água e para planear onde podemos, em breve, apanhar castanhas. Durante grande parte do caminho, ouvimos apenas o vento a desinquietar a copa dos eucaliptos, o ranger delicado e seco dos troncos dos pinheiros, pássaros que adivinhamos muito maiores que apenas pardais. O meu pai fala a toda a gente que encontra, mesmo aqueles que não conhece. Quer dizer a uma senhora que as romãs lhe apodrecem numa árvore mas contém-se. Um dia destes passa ali outra vez e colhe algumas para mim...

setembro 10, 2008

A saga (ainda) continua

Apesar de já haver quem duvide e diga que depressa me vou cansar, a luta para comer menos e melhor tem sido dura mas gratificante. A única coisa que realmente me tem atormentado é poder apenas comer carne e/ou peixe uma vez por dia, o que implica um esforço extra da minha imaginação para preencher a outra refeição. Ainda não segui nenhuma receita à risca mas acho que me tenho safado bem (esta é a salada de ontem, com massa, feijão verde, ameixa branca e queijo mozarella temperada com vinagrete caseiro). Ainda hoje não jantei e já tento inventar qualquer coisa para amanhã. Talvez possa convencer-me que sem esforço tudo não teria metade da piada...

Momento da Verdade

Sim, eu sei que sou culpada. De ter aguentado um programa inteiro e de, acima de tudo, ter admitido a possibilidade de isto ser real. Posso repensar a minha posição e chegar à conclusão que esta pessoa é demasiado má para ser real e que tudo não passa de uma trapaça para ganhar audiências, fidelizar um público que está sedento de traições. Só que sei, porque já o senti, que gente desta existe. Gente que está determinada a singrar pelo caminho mais fácil, gente que pensa, acima de tudo, em si, gente que não conhece limites.

Pensar que existe um público habitual para este tipo de lixo magoa-me. Porque as pessoas querem assistir ao sofrimento, porque as direcções de programas não se responsabilizam pelo esterco que passam no horário nobre, porque há gente que se sujeita a isto. Dói muito quando se vê gente desta a inaugurar uma nova espécie de celebração: a da mentira que passa por honestidade. Tenho saudades do tempo em que a televisão se limitava a dois canais. Ninguém precisa de saber o que custa resgatar a confiança, refazer o amor.

setembro 09, 2008

Alentejo, meu amor

Estar de férias desta vez tem um sabor peculiar. Cumprindo instruções pouco precisas e, finalmente, dando ouvidos àquela vozinha cá dentro, obriguei o meu pai a deixar o sofá nesta manhã pouco convidativa e fomos passear. Caminhar deve ser mais o termo, foi unir o esforço aos caminhos que nunca me tinham sido revelados. Fui ouvindo as histórias sobre o Rosal, sobre o feijão com couve e ossos da assuã que se comem por aí, sobre um homem que oferece pão a meio de caminhadas destas.

Prometi a mim mesma que voltava a este caminho para apanhar amoras, tão maduras naquelas silvas, tão entregues a si mesmas neste resto de calçada. Há coisas que resistiram ao tempo, muros que se mantiveram de pé, um menino de olhos grandes numa casa no meio do nada. Chegamos a casa suados e um vizinho diz que se tem que caminhar assim mais vezes. Habituava-me a estes gafanhotos imprevisíveis, às moscas por todo o lado, aos figos a largarem vagarosamente as figueiras. Houve um tempo em que não existia mais nada. Regresso a esse tempo enquanto caminho e acabo deitada debaixo de uma figueira, o eco do poço como única companhia. É o único sítio do Mundo onde o tempo teima insistentemente em não passar.

setembro 07, 2008

Super Panda (2001 - 2008)

Não é que me tenhas morrido nos braços, ou melhor, nos pés. Continuas pronto para, a custo, completares mais uma viagem. Mas as tuas necessidades dos últimos tempos levaram-me mais do que posso investir. É com muita pena que desisto de ti, que te entrego a outras mãos menos exigentes que as minhas mas espero que faças outra pessoa feliz como me fizeste a mim. Comigo, fica a lembrança do dia em que te fui buscar à oficina e olhei para ti sem saber muito bem o que fazer contigo, o volante em ferro que tivemos que mandar forrar para conseguir conduzir. Juntos trilhámos umas quantas voltas à Terra, de vidro aberto e distorção no rádio.

Fica descansado, Super Panda: o outro já cá está mas não há nunca amor como o primeiro.

setembro 06, 2008

M. @ cozinha V

A minha primeira experiência com massa folhada não me deixou propriamente maravilhada. A massa estava um bocado seca, a contrastar com o recheio que me saiu, sem modéstia, muito bem. Mas, e apesar de jantar sozinha, levei as palavras da senhora doutora muito a sério e tentei inventar uma refeição designada de decente. Palpita-me que vai sair daqui um combate desigual entre mim e todas as coisas que tenho vontade de comer. Em todo o caso, vou (espero eu) sair vencedora.

setembro 05, 2008

( este é um parêntesis gigante de alívio por ter entrado de férias oficialmente há quatro horas atrás. toda a gente me pergunta quantos dias de férias tenho e eu respondo a essa gente toda que tenho exactamente os mesmo dias que toda a gente, só que gosto de os espalhar pelos doze meses do ano em vez de os esgotar no pico do mês de Agosto. ninguém acredita nisso, facto de onde retiro ainda mais gozo.

o lobo mau levou-me ontem ao festival de cinema de terror. vimos um filme do zé do caixão depois de uma pita shoarma no chiado. ainda estou a tentar decidir se dou algum crédito ao filme ou se me fico pelo grande momento de comédia que foi aquilo tudo. especialmente porque o realizador estava mesmo na cadeira atrás da minha e achava que o som não estava suficientemente alto. vestido de capa preta, era acompanhado pela filha vamp que apresentou uma curta metragem sofrível no início e pelo filho agente que filmava toda a gente a aplaudir.

a senhora doutora disse-me que não posso comer mais chocapic, passe a publicidade. e passou-me alguns trabalhos de casa, que realizei, aplicadamente, depois do jantar. vou dizer-lhe que vou correr na Estrela, primeiro devagarinho, depois a aguentar estoicamente o aumento da batida cardíaca. a senhora dos recursos humanos também me disse que estou no bom caminho mas pediu-me para exercitar a minha assertividade (cujo significado nunca hei-de realmente descortinar) e a minha liderança. foram ambas simpaticamente desagradáveis, levemente paternalistas mas necessárias. convenceram-me de que estou a andar bem.

agora vou ali começar as férias, passando a noite de sexta-feira em casa. chove torrencialmente mas a casa ainda está abafada. até bebia um copo de vinho mas a garrafa já está cheia de borras. o que é que ocupa a televisão numa sexta à noite?)

Ficção #5

Tens uma nodoazinha no peito a querer gritar mas abafas o grito que já quiseste dar tantas vezes. Teres estas fachadas aos teus pés é o suficiente para te comover, para te marejar os olhos, para agradeceres todas as infelicidades da tua vida porque afinal, dentro de cada janela daquelas, há verdadeiras histórias de dor e de perdição para contar. Há misérias escondidas, desgostos tratados à lei da navalha, submissões caladas com dois ou três copos de vinho. Os teus desencontros são pequenos e mesquinhos quando os vês sobre o contorno entardecido da cidade, as tuas saudades esbatem-se sobre a ausência de nuvens no céu. Por momentos, não te lembras que não nasceste aqui e amas, com tristeza, a cidade que te abriga.

setembro 03, 2008

Um cavalo de Tróia (dentro de mim)

No outro dia, enquanto tentávamos preencher os duzentos quilómetros com palavras, fiquei ligeiramente desapontada com uma frase que me escapou a meio da conversa. Falando de talentos, eu disse que acho que tenho jeito é para trabalhar. Não sou como os meus amigos que são barras a desenhar pontes, a investigar ratinhos, a programar, a projectar prédios e praças, a criar todo um negócio de raiz. Ser boa a ler conta? E a ouvir música? Pois, também não me pareceu. É um bocado triste ser realmente bom numa coisa que não resulta necessariamente numa profissão. Depois, pensei que sou muito boa nas primeiras impressões que tenho das pessoas: consigo, mais ou menos, perceber qual vai ser a natureza da nossa relação, antever o comportamento da pessoa. Mas, que eu saiba, as empresas ainda não contratam mediums para assistir às entrevistas e eliminar possíveis candidatos inadequados.

Estou farta disto e por isso fiz-me à vida. Vou começar a investir na minha formação, mesmo que isso seja um processo lento, mesmo que seja difícil pegar outra vez nos livros. Vou tentar descobrir o que valho. A sério. É o Setembro de todas as mudanças, das novidades inesperadas as contrastarem com a traição que o meu corpo guarda dentro de si, com a biologia a levar a melhor. Estou finalmente acordada.

setembro 01, 2008

Heartbeat *

Se os electrocardiogramas (adiantes também designados como ECG) fossem suficientemente completos e detalhados, esta não seria a imagem do meu. Estas são linhas perfeitinhas, as batidas apenas afectadas pelo ligeiro rubor que sentia enquanto despia a camisola, os olhos abertos intencionalmente para evitar descontrolar o ritmo certinho do peito. Se os ECG conseguissem registar os desgostos naquela tira de papel milimétrico, se as ventosas pudessem destapar uma ponta do caos em que encontra o lado esquerdo do meu peito, o gráfico seria bem menos harmonioso e os resultados mais verdadeiros. Enquanto a tecnologia não avança, guardo as irregularidades debaixo da pele.

* saudável, no primeiro dia de consultas desta semana.

agosto 31, 2008

Não descansar quando realmente é preciso

Do alto daquele terraço, podia ver-se a serra de São Mamede e o castelo de Marvão mas eu preferia estar sentada debaixo da copa imensa daquela figueira. É verdade que o Verão abrandou e que as noites há muito que gelaram por aqui mas não há nada que um par de colunas e electro muito alto não possam aquecer. O desconforto de dormir numa tenda está a tornar-se clara e rapidamente numa fobia que não estou a conseguir enfrentar e que me obrigou a procurar a minha cama todas as noites. Os meus amigos tratam-me bem e lembram-me de como é difícil estarmos longe e termos projectos tão diferentes. E agora é recuperar o sono antes do trabalho recomeçar amanhã. Um fim de semana a tocar bateria, a perder a voz antes do jogo do Glorioso, a ouvir os bailes das festas de Verão ao longe e a comer febras saídas directamente da grelha é tudo o que precisava para descansar. Da monotonia, pelo menos.

agosto 30, 2008

Ainda sobre o mês que amanhã acaba *

Sempre me lembro daquele mundo de bailaricos populares com aparelhagens manhosas, de procissões sonolentas, de praias fluviais, de emigrantes em visita, de crimes sanguinolentos que rasgam o «idílio» campestre, de incêndios brutais que mudam a cor do céu.

* porque ele o diz infinitamente melhor do que eu.

agosto 28, 2008

Destilar (ou a violência começa aos 4m40s)



Cansada de me importar, hoje quero a violência de que fujo nos outros dias. Preciso desta tensão a impedir-me de respirar, de dançar desajeitadamente no meu corredor, de suar o que me faz mal, de acabar deitada no soalho, o cabelo escuro a contrastar com a madeira, eu completamente espalhada pelo chão. Acontece que me canso, como dizia o poeta. Acontece que os dias não são todos iguais e tenho dentro uma revolução em curso, tenho coisas para dizer mas não ouso dizê-las, sinto-me vacilar. Preciso de violência, de me esquecer do que sinto, de me afogar em esquecimento. Divido-me entre a varanda e o sofá, ensaio os passos junto à parede, preparo-me para sacudir as coisas belas. Sinto-me urgente, envenenada pela minha própria vontade, traída pela minha absurda capacidade de acreditar. Quero a cabeça cheia de ruído e o coração arrumado.

agosto 27, 2008

Aquele querido mês de Agosto *


Há uma parte de mim que se desliga constantemente e, contrariando a minha vontade, está lentamente a desaparecer. É a parte de mim que viveu numa capital de distrito no interior, a maior parte das vezes mais parecida com uma aldeia do que com uma cidade. A minha declaração de amor ao sítio em que nasci é conhecida e há-de ser repetida mais vezes mas a verdade é que me vou esquecendo da miúda que já fui lá.

Honestamente, só consigo olhar para trás quando a isso sou obrigada. É, talvez, a minha forma recalcada de fugir às dificuldades que tive em crescer, em amadurecer e deixar de ser uma criança, a marca indelével que é ter sido a única rapariga da minha rua (da minha idade) em plena adolescência. Por isso, quando às vezes olho para trás, parece que só me vejo a partir de mil novecentos e noventa e sete, o ano da minha reinvenção. E ontem, com um deslumbramento envergonhado, voltei à altura em que era um bocadinho menos sociável e em que sofria os desaires do meu corpo se recusar a crescer.

Lembrei-me de repente dos bailes em frente à pastelaria sem nenhum grupo, só uma aparelhagem a tocar e a esperança infantil de que ele ainda aparecesse ali. Lembrei-me do acontecimento que era a benção dos carros em São Cristovão e da confraria e de como tudo isso significava poder desaparecer do baile sem ninguém notar. Lembrei-me de como assistia à procissão do senhor dos Passos sempre da mesma janela e sempre com o mesmo saco de torrão nas mãos. Lembrei-me dos domingos à noite em que, depois de jantar no Leitão em Caia, ouvia os discos pedidos com um pequeno transístor vermelho debaixo dos lençóis. Lembrei-me do cheiro às omeletes que a minha mãe fritava para o meu pai levar para o trabalho ainda a luz do Sol não rasgava aquelas persianas. Lembrei-me dos sofás de veludo cor de vinho e das tardes de Domingo, tentando dormir a sesta ao som do campeonato de fórmula 1. Lembrei-me de comunicar por sinais com a minha vizinha da frente e lembrei-me de brincar à Pedra sobre Pedra no prédio do lado. Lembro-me dos almoços no senhor dos Aflitos, das grades de minis dentro dos tanques, o Tó Miguel a apanhar beatas por todo o lado e os amigos do meu pai a cantarem o Perompompero. O mundo acabava na placa onde acabava a cidade e aquelas ruas eram minhas e da bicicleta em que caía sempre que tentava um cavalinho.

O que este filme me deu foi uma enorme sensação de simplicidade. Ver aquelas pessoas a discorrerem umas sobre as outras, sentir a tensão entre o rapaz e a rapariga, descobrir a estranha tradição que consiste em pregar pregos num tronco(enquanto se bebem minis), acompanhá-los por aquela serra acima - foi estar perto dessa pessoa que fui. E foi bonito ouvir só as copas das árvores revolvidas pelo vento e foi bonito assistir ao momento exacto em que começa a anoitecer ao lado daquele marco geodésico. Um céu daqueles não deve ter sido fácil de encontrar.

* site oficial aqui.

agosto 25, 2008

Ficção #4

Perguntas-te se a isto que vês se chama felicidade, se é assim que os teus olhos brilham quando cais a seu lado na cama, desfeito em suor, as forças esgotadas pelo desejo que não consegues conter, os lábios dormentes de tantos beijos. Não sabes com certeza se foi ela a conservar-te este sorriso mas é como se estivesses deitado e ela rolasse sobre ti e os cabelos longos te caíssem sobre o pescoço. Ela diz qualquer coisa que não consegues decifrar, é um poema em segredo feito de três palavras e das mãos com que te desenha de luz acesa. Estás suspenso no tempo e no calor húmido deste sótão onde acendes mais um cigarro que sorves como se dele pudesses extrair o sabor dela quando te provoca cautelosamente, como se ela mesmo tivesse na boca esse cigarro instantes antes e pudesses ainda resgatar o gosto a mulher deitada numa praia selvagem.

agosto 23, 2008

(Aquele também conhecido como provavelmente o último) dia de praia

Eram milhares de gaivotas à beira-mar por alguma razão que não consegui descortinar. A manhã estava muito fresca, corria um vento que chegava a ser desagradável mas estava um dia de Sol lindo. Não havia tanta gente na praia como esperava para este final de Agosto mas uma família muito chata escolheu ignorar todo o areal livre e montar o estaminé quase em cima de nós. A água fazia doer os ossos mas isto sabia estranhamente bem. Não sei quando vou voltar a estar assim estendida ao Sol. Pelo sim, pelo não disse Até para o ano.

agosto 21, 2008

São as vantagens de a ter outra vez perto de mim. Num dia, prepara uma entrada para tornar o jantar numa coisa mais especial; noutro dia, leva-me ao take away, onde enchemos três embalagens de sushi para comermos em frente à televisão. Também podia falar da maravilhosa sensação que é ter alguém à nossa espera depois de um dia de trabalho e da maneira como ela cuida de mim. Depois de dois anos sozinha, admito que foi estranho voltar a partilhar a casa. Mas a sensação durou apenas dois minutos, os mesmos que ela demorou a instalar-se. Não é, mana?

Wise words *

A lot of bad shit is gonna happen to you. People are not gonna love you back, and [...] that's the first thing you should learn.

(Um dia acordas e puf!, o teu amor já não está lá. Tu não percebes como, matas-te a pensar como foi possível chegar até aqui sem reparares em nada, todos os sinais a passarem ao lado, a eternidade em que confundiste amor com compaixão. É tão simples de dizer, é só Deixei de gostar de ti e é isto mas é impossível que algum dia venhas a compreender como é que uma bomba assim te aterrou no colo. Esquece tudo o que pensaste antes, esquece as coisas ditas ao ouvido durante a noite, esquece o suor a encharcar-vos os lençóis e as pernas tremendo depois do sexo, esquece as mãos que te acordam devagar, esquece pensar que o mundo é isto. O amor que era teu, aquelas noites em que não dormiam com a excitação de estarem lado a lado, as palavras que te atordoavam os sentidos e te obrigavam a sorrir num carro em andamento - tudo, tudo mentira. Não, não mentira mas tudo esgotado, tudo transformado num desconsolo tão profundo que te encostas à parede, sentado no chão e pedes baixinho que te venham buscar. Era isto que querias dizer quando dizias para sempre? Era isto que querias mostrar-me quando te pedia para calares as promessas? Para sempre é agora e os próximos cinco minutos, se acaso o amor ainda não se esfumou. Podias ter sido mais cauteloso e ter recusado o amor e podias ter pedido que te amassem apenas na medida certa, apenas o suficiente. Inverteste a ordem das coisas quando aceitaste tudo. E, da mesma maneira que tudo é a quantidade mais vaga que há, para sempre também só durou o tempo de te quebrar. Hás-de aprender a vergar-te.)

* depois de ver este filme.

agosto 19, 2008

No trabalho, é como se tivesse só buracos negros à minha volta: sugam-me toda a energia possível durante as sete horas e meia que passamos juntos, distraem-me com erros em catadupa e com perguntas estranhas. Fecham-se na casa de banho a falar ao telefone de hora a hora, inventam esquemas para virar o horário a favor deles. A minha chefe pergunta-me cinco vezes, dez vezes antes de sair se está tudo sobre controlo. Por instantes, não sei se ela fala do trabalho que fiquei de organizar ou se de mim e hesito na resposta. Às vezes, fico tão desanimada com as pessoas em geral que tiro prazer de fazer o caminho para casa a pé, a música a isolar-me dos ruídos exteriores. Consigo fingir que há uma mão gigante que desce do céu e recolhe as pessoas (para onde não sei, uma nuvem qualquer) para um castigo qualquer, para um sítio onde se ensina o civismo.

Enquanto imagino um mundo mais vazio, enquanto atravesso um jardim da Estrela cheio de velhinhos, meninas com trotinetas, bebés estrangeiros deitados na relva, testemunhas de Jeová e turistas de meia idade, o que me vai valendo é isto. Chamam-se Bowerbirds mas também se podiam chamar só conforto.



You're in our headlights, frozen, and no, we're not stopping.

agosto 16, 2008

O boné do poder

Também conhecido como o boné mágico, já viu reconhecidas as suas propriedades indutoras da diversão por variadíssimas pessoas na casa dos vinte e qualquer coisa. Pode provocar vontades súbitas de dançar, amor incondicional pela objectiva e excesso de boa disposição. De forma a potenciar as suas muitas qualidades, é recomendável que seja usado também pelas pessoas que o acompanham. As contra-indicações referem apenas alguma falta de discernimento e ausência de sono. Seja responsável, use-o com moderação.

Bonés e outros barretes podem ser apanhados aqui.

agosto 13, 2008

M. e o avanço na estrutura corporativa

O programa das festas não era nada animador. Primeiro, falou-se de dois dias inteiros, sem conhecermos o horário. Depois passou apenas a ser um dia, com um brilhante horário das nove às cinco. E melhorou muito quando chegou o dia e descobrimos que o horário afinal não excedia as três e meia da tarde. A formação ia ser dada por um colega inglês vindo expressamente para o efeito e os resultados analisados em grupo e individualmente. Não era um dia facultativo mas não senti nenhuma pressão, nenhum inconveniente em ser estudada daquela maneira.

À chegada, encontramos um (atenção: preconceito!) invulgarmente atraente formador inglês. Louro, alto, certamente mais novo que eu e com um sotaque adorável, apresentou o plano do dia. Fomos avaliados em grupo e depois individualmente por pessoas diferentes. Foram-nos dadas situações vulgarmente associadas com a gestão de orçamentos e de pessoas e todos tivemos que tomar decisões, apresentar argumentos, esgrimir opiniões apaixonadamente. Tive sorte com o resto do grupo: foi muito fácil chegar a consensos sem nenhuma batalha campal e sem que apenas uma pessoa assumisse o protagonismo. A única coisa que tornou o exercício mais intenso e algo cansativo foi o facto de tudo ser feito em inglês: os debates, o relatório sobre e-learning, a apresentação individual. De resto, senti tudo como um jogo.

Quando penso nas palavras da pessoa que coordena todos os departamentos lá do prédio, sinto-me meio desconfortável. Serviria este dia para conhecer as nossas necessidades de formação, preparar-nos para dar o passo para a posição seguinte dentro da empresa. Nunca recusaria a oportunidade de progredir e tenho a agradecer as duas oportunidades que já tive até agora. Mas, como é evidente, quanto mais alto se sobe, menos as pessoas contam. Vamos deixando de trabalhar com elas e passando a contar com elas como números numa tabela qualquer, vamos ficando cada vez mais sozinhos. Só que, sendo uma pessoa medianamente ambiciosa, percebi que se vai aprendendo esta frieza pelo caminho e que, como algumas pessoas já me mostraram, podemos manter as pessoas sempre a nosso lado. Se haverá outra promoção, não sei. Mas sei que enquanto tiver este espaço para a parte de mim que está cheia de romance e poesia e música, viagens e amigos com quem beber cerveja, desgostos e desilusões serei menos máquina e mais carne. Portanto, salvem-me enquanto puderem :)

agosto 09, 2008

Saturday night live

No quintal das traseiras, os meus vizinhos gritam por qualquer jogo que dá na televisão. Por momentos, fico mesmo com a sensação de que se joga qualquer coisa importante, tal é o entusiasmo com que festejam. Provavelmente, na rua corre uma brisa deliciosamente fresca que eu não sinto sentada no sofá e eles aproveitam para deslocar a televisão para o quintal minúsculo, de onde sobe também um insuportável cheiro a petróleo. No condomínio fechado não se ouve um pio e as portadas estão todas fechadas há bastante tempo.

Há uma ideia que me persegue há dias: é esta ideia de que, quando falamos de esquecer, eu sou um autêntico desastre. Como o McCarthy dizia You forget what you want to remember and you remember what you want to forget e eu começo a pensar cada vez mais que este processo todo não é involuntário. Juro que me esforço para esquecer porque sei exactamente quais são as consequências desta persistência e juro que, em todos os dias que passei longe de casa, foi tudo mais fácil de ignorar. Mas é só voltar, é deitar-me uns minutos na minha cama de casal e meio e está tudo absolutamente perdido. Depois disso, segue-se o momento em que tomo o pequeno-almoço, os instantes que demoro a chegar ao carro, todas as paragens nos semáforos, a viagem de elevador do zero ao seis, os segundos que os programas demoram a abrir, o almoço sozinha, as compras no supermercado, a sesta, o parapeito da janela depois de jantar - tudo contaminado e com a minha autorização.

Já mudei a música e levei o volume àquilo que é permitido no meu condomínio minúsculo, onde sou a única pessoa que não faz parte da família. Já folheei o simpático livro oferecido com o Público mas estanquei na primeira página quando li Não posso adiar o coração. Não é a primeira vez que ouvi/li isto mas às vezes precisamos de estar preparados para receber as dádivas das palavras, estes segredos que nos rouba o poeta sem saber. É preciso crescer, amadurecer os amores e os desgostos, acumular os cabelos brancos. E se pudesse, também eu adiava esta trapalhada toda a que chamo vida e da qual me esqueço quando estou longe. Até ao momento em que fosse claro o que fazer a seguir. Porque, francamente, não sei. A não ser beber mais um copo de rosé e embriagar-me com as palavras destes poetas todos. E com as imagens que luto por exorcizar. Sem êxito, a distraírem-me uma e outra vez.

Dormir mais feliz #16

Truth telling lies
Love says goodbye
Dreams won't dream on their own
Shadows disappear
Love turns to fear
Compromises, ties and bonds

agosto 06, 2008

Fragmento (s) *

[...] Quem te dera teres-lhe este amor. Quem te dera que ele pudesse ser o homem que imaginaste sempre que não conseguias dormir – sempre. Ele é bom e é bom para ti mas, quando pensas nele, há sempre um mas. Só que ele agarra-te pela cintura e fala-te de estrelas e diz que és uma cidade com muitos corações a baterem dentro de ti, que as ruas ensolaradas de Lisboa são como os caminhos do teu afecto, que os teus cabelos negros são as amarras invisíveis que o prendem aqui, que tens nos olhos todo o encanto das tardes de Verão passadas na Sra. do Monte. [...]

[...] Querias retribuir-lhe a poesia com mais poesia mas não sabes amá-lo doutra maneira. O tempo e a tua fraca habilidade para escolher foram roubando a tua capacidade para te abandonares ao amor. Por isso, amas o facto de ele te amar tão cegamente, amas o teu próprio reflexo nos olhos dele e sofres com esta sensação profunda de egoísmo que não tem remédio. Quando escolhes a camisola menos gasta, é em ti que pensas, é naquilo que vais encontrar quando ele olhar para ti. E como não lhe podes oferecer mais que este amor refreado e parcialmente triste, és totalmente sua para que nunca o possas magoar, para que a tua dor de ser não rasgue um dia as veias dele também. [...]

* da ficção que reclamo para mim própria.

agosto 04, 2008

Estorãos e Paredes de Coura ♥

Outros recuerdos aqui :)

Não sei se conseguia voltar mais contente. Foram dias tão relaxados, com uma leve rotina diária que se resumia a pequeno-almoço servido sempre a horas, a manhã na piscina que partilhávamos com dois casais ingleses e respectivos rebentos, almoço frugal e rápido, deliciosa sesta para retemperar e concertos o resto da noite. Já me tinham dito que lá em cima é que é, que o cenário é (só ele) razão para fazer estes quilómetros todos e eu venho de lá completamente rendida às evidências. Se a isto somarmos o Sol todos os dias, as pessoas bonitas, os carros dos emigrantes em todas as aldeias em festa, menos de dois minutos para pedir qualquer coisa em qualquer balcão, os sinos a tocarem a cada quinze minutos, podemos concluir que sou uma pessoa de sorte.

(Gostei tanto do concerto dos Editors e de sentir à noite aquele frio que não se faz anunciar, vai-se enrolando nos ossos até nos apercebermos que estamos gelados. Gostei do café dos emigrantes e da ponte romana de onde mergulhavam para uma ribeira. Gostei da gente que enchia as ruas de Ponte de Lima, das pessoas que estendiam a toalha à beira rio e almoçavam nas mesas de campismos. Gostei que os Lemonheads me tivessem levado a um tempo do qual pensava não ter boas recordações mas em que, afinal, também fui feliz. Gostei de poder beber uma cerveja à beira da piscina, como as vizinhas inglesas, e um Alvarinho ao almoço. Gostei de dançar, primeiro timidamente, depois absorta em mim mesma, criando uma pista imaginária onde me deslocava sozinha, onde era esmagada pela batida. Gostei de andar perdida durante duas horas enquanto não achávamos o caminho para o festival, uma da manhã, duas da manhã e ainda não se ouve nada, vê lá se não podemos virar aqui, talvez estejamos a andar na direcção contrária. É tudo tão simples quando nós deixamos. É tudo mais fácil quando evitamos que a realidade nos sabote a estadia naquele paraíso intocado, com esforço, com a estóica coragem de impedir as fantasias de avançarem e perturbarem aquele silêncio só rasgado pelo toque dos sinos. É tudo tão fácil quando eu quero, é tudo tão óbvio que empurro aquela imagem para longe, para fora, rejeitando a felicidade a acontecer à hora marcada. Foi tão, tão bom mas é pena que conjuguemos este verbo sempre no pretérito.)

julho 30, 2008

Mas, antes de ir, isto.



Porque me parece que ela também sabe que este coração está avariado, não sei se para sempre mas, de certeza, há tempo demais.

Metal heart, you're not hiding.
Metal heart, you're not worth a thing.

Agora é que é.

Amanhã

Estarei novamente de férias e a Norte, muito a Norte. Levo comigo seiscentas páginas que devoro a velocidade considerável, a garrafa de gin meio cheia, camisolas para o frio, um cartão de um giga de memória, a cabeça cheia e três pessoas de quem gosto muito. Não sei se me vai apetecer voltar. Liguem a vossa televisão nestes dias e pode ser que nos encontremos por lá. Até breve.

julho 29, 2008

Sobre não conseguir esquecer

It's not me, I am pretending.
I'm not saved, he turned me down *.


Vi-o primeiro quando entregava as malas no check-in, não sei em que data nem para onde viajava. Os movimentos dele eram nervosos, como se o desconforto dos aeroportos o obrigasse a estar em constante deslocação. Vestia um fato escuro mas levava a gravata na mão que não segurava a leve mala de viagem. Imaginei-o diplomata, director, correspondente de um jornal mas a minha cabeça queria acreditar que era um toureiro. Tinha aquelas feições moldadas pela afronta, pela entrega diária ao prazer. Escrupulosamente escanhoado, o cabelo preto puxado para trás com uma noz de gel que já tinha preguiça, olhava vagarosamente para a fila que parecia nunca diminuir. Tinha aquele olhar vagamente triste e afectado, o olhar que se recusa a ser surpreendido, a viver ainda mais, uns olhos castanhos muito escuros e amendoados.

Da segunda vez que o vi, já estávamos dentro do autocarro que fazia a ligação do terminal ao avião: íamos fazer a mesma viagem, certamente com propósitos muito diferentes. Encostou-se a uma das portas enquanto desligava o telemóvel. Era um homem não muito alto, os ombros não tão largos como os do rapaz que se tinha encostado ao seu lado. Era muito moreno mas não tinha a cor de solário ou de férias - era simplesmente moreno. Em frente a ele, e muito diferente das mulheres que já amou, estava eu, que o estudava discretamente e imaginava, nesta viagem tão curta, como ele me convidava para beber um copo de vinho tinto e como falávamos sem precisar de palavras. Imaginava uma tarde de Verão numa cidade histórica e as suas mãos cuidadas desviando o cabelo do meu pescoço, enquanto me olhava com uma calma que me assustava, com a tranquilidade das certezas. Ambos teríamos um avião para apanhar e, quando nos separássemos a caminho do aeroporto, saberíamos que era aquela falta de voz que nos ligava.

Subiu rapidamente as escadas para o avião, enquanto consultava o relógio uma última vez. Eu guardei a minha bagagem e, enquanto apertava o cinto, pensei que, mesmo querendo, nunca poderia esquecer uns olhos assim.

* a render-me, finalmente, aos encantos da menina Chan.

julho 28, 2008

Síndrome do Regresso *

É precisamente uma da manhã. Não tenho um relógio com mostrador digital mas consigo sentir o tempo a não avançar, estancado neste quarto emprestado. Revolvi a cama demasiadas vezes para conseguir manter-me deitada e concentrada no sono. Sentei-me no puff preto, que nunca encontrou o seu lugar nesta casa, e deixo que o fresco da noite de Lisboa me torne menos ansiosa. Nunca sei exactamente onde me encontro quando regresso para ficar. Quanto mais penso que devo parar e esvaziar o reservatório de lembranças, mais desperta me sinto e tudo corre a maior velocidade. Conto as horas que faltam até me levantar e sei que o dia amanhã será uma tortura. Talvez não tão grande quanto esta de não saber onde estou.

*o meu auto-diagnóstico, a minha contribuição para a Ciência.

julho 27, 2008

Acabar em beleza, vol. II

Há uma quinta bem perto do coração da cidade. Juntamo-nos perto das quatro da tarde para começarmos a cozinhar e decidir o que falta comprar. Em vez das tradicionais febras grelhadas, decidimos arriscar e optamos pelas saladas frias - uma escolha muito acertada. Há cerveja dividida entre dois frigoríficos e bebidas mais fortes para os adeptos de misturas estranhas. Enquanto jantamos, ouvimos Johnny Cash, Amy Winehouse, A Naifa (quantas mais vezes vão irromper pela minha vida e afastar-me do que me rodeia, obrigar-me a concentrar nesta voz, a criar cinema na minha cabeça). Acabamos a noite com uma partida de lerpa, com direito a fichas de casino para não complicar as contas.

Arrepio-me quando penso que amanhã estou de volta à realidade. Podem não ter sido as férias que idealizei mas foram, de certeza, as mais tranquilas dos últimos tempos. Tenho quatro dias de trabalho antes das próximas férias - não vou conseguir trabalhar, é evidente. Vou antes pairar por ali.

julho 26, 2008

Acabar em beleza, vol. I

Já passava das nove e meia quando nos fizemos à estrada. São uns setenta quilómetros até atravessarmos a fronteira com Badajoz, entre estradas sem marcação e o troço da auto-estrada mesmo no final. Sabemos que estamos em Espanha porque é quase meia noite e as esplanadas dos restaurantes ainda estão cheias e há gente a atravessar a ponte sobre o Guadiana. Meio perdidos na zona comercial, cheia de lojas de roupa de cerimónia, brinquedos, de chineses, de tatuagens e tapas perguntamos o caminho até ao bar.

No bar (site aqui) encontramos toda a gente que costuma estar aqui e que veio dar força aos moços. Chamam-se Magnetic Roll Bar e mostraram aos (não muitos) espanhóis como se faz rock descomplicado, quase divertido e que faz ter vontade de dançar. Conquistaram algumas fãs espanholas, deram espectáculo em cima do balcão e acabaram completamente suados, como é costume. Ainda houve tempo para pôr a conversa em dia com amigos do outro lado da fronteira e para beber cervejas ao escandaloso preço de dois euros e meio. Espanha é realmente outra coisa.

julho 25, 2008

Lembro-me daquele dia em partilhámos o táxi até casa. Lembro-me de como, pela primeira vez, tomei a liberdade de te dizer exactamente o que me apetecia fazer e de como me obrigaste a tomar uma decisão. Tenho a cabeça a andar à roda, pensava, enquanto tentava chamar um táxi mas era muito mais que isso - era o corpo inteiro, era o mundo a querer fugir-me dos pés, era esta sensação tóxica de possibilidade. Sabia que me ias fugir, que eu ia querer que fugisses. Nunca ficas muito tempo, apenas o suficiente para me poderes marcar outra vez e desaparecer. Lembro-me da tua camisa e do gin quase tónico que preparei à pressa. Pegaste num livro da minha prateleira, num que te chamava a atenção e, às seis e tal da manhã, leste-me excertos ao acaso enquanto eu tentava perceber, cansada, se aquilo não era apenas o produto da minha persistente imaginação. É tudo demasiado rápido, contigo mas eu lembro-me em câmara lenta para preencher os espaços. Porque, na minha cabeça, cada uma é sempre a última vez.

julho 23, 2008

Update *

* ou como, desta vez, fomos estender as nossas toalhas na relva do Crato, já a tarde ia longa. Tivemos direito a um concurso de saltos para a água, piscinas com água (quase) demasiado quente, um fim de tarde ventoso mas tão agradável sem que a menina anunciasse o seu final nos altifalantes. No caminho, cheira-me a campo mas faltam-me os eucaliptos antes daquele cruzamento e vejo o progresso da nova estrada que desenham até Lisboa. Passamos pela casa onde eu gostava de morar, cercada por vinhas, com um rodapé azul do mais bonito que há - sempre achei que com um computador e alguns livros podia ser feliz nestes ermos silenciosos. Aceito os conselhos generosos e deixo de sentir saudades do futuro - este presente, com planos vagos, com sandes embrulhadas à pressa e o biquini sempre estendido à janela, é mais do que podia desejar.


T., M. e eu, por ordem de aparição.

julho 22, 2008

Queria ser omnipresente.

Passam cinquenta e três minutos das nove da manhã quando os óculos de sol me tapam as olheiras da noite de ontem. Deixei-os a todos mais cedo, antes que passassem dos planos à acção e acabássemos todos mergulhados clandestinamente num tanque qualquer. Queria saltar muros ou sentar-me num sítio qualquer sem iluminação, queria continuar a dançar os êxitos dos ABBA no bar onde já somos os últimos clientes. Mas ontem impus-me a reclusão.

Passam cinquenta e seis minutos das nove da manhã quando compro o meu bilhete de dois euros e escolho uma espreguiçadeira na minha piscina favorita de todos os tempos, com vista sobre a serra e sobre os retalhos cultivados que se estendem até onde esta névoa do calor deixa ver. Hoje o céu já não está azul, está queimado pelas temperaturas altas. E, quando passam dois minutos das dez da manhã e eu mergulho pela primeira vez, estão seguramente mais de trinta graus. O calor mistura-se com a água, que está tépida ao primeiro toque. Há tantas caras conhecidas para quem me tornei uma estranha, uma visita de passagem, aquela cuja vida não passa de um enorme ponto de interrogação. Pela primeira vez, quando passam cinquenta e dois minutos das dez da manhã, ouço a expressão de pena do dia (Ah mas vieste sozinha? Pois... Que pena não teres companhia...), como se não pudesse gostar de estar sozinha.

Passam quarenta e dois minutos das sete da tarde e penso na minha casa vazia em Lisboa. Tenho saudades da Lapa mas não estou certa de já ter vontade de voltar. Está calor, tenho os meus amigos e a minha família aqui. Só não consigo evitar pensar naquele silêncio do meu corredor - estou continuamente dividida.

Guilty pleasures

É o resultado de ter visto as primeiras duas séries em menos de uma semana. Provavelmente, é preciso crescer um bocado antes de poder sequer compreender as subtilezas que sustentam cada episódio. E, como é óbvio, não me assemelho em nada a estas mulheres de Nova Iorque: tenho menos de trinta anos, não uso Gucci nem Fendi nem Prada, não frequento os melhores restaurantes da cidade e as minhas relações não têm metade do glamour das relações delas. Mas se eu considerar só o pragmatismo da advogada, a ingenuidade da galerista, a clarividência da relações públicas e o idealismo da jornalista sou um bocadinho delas todas. Mesmo sem maquilhagem, Cosmopolitans ou trezentos pares de sapatos. Mesmo neste pedaço de Alentejo a arder.

Well, I don't know how you people do it. All that emotional chow-chow. It's exhausting.

julho 20, 2008

Post com dedicatória *

De todo o mal que me fez, o que me magoa ainda hoje é a ingratidão, a incapacidade de aceitar que o que tínhamos juntos era o mais próximo que ele ia encontrar de perfeito. Passaram dez anos e a nossa vida poderá continuar mas provavelmente nunca estarei totalmente a salvo das suas tentativas reles de me magoar. E toda a dor que ele me causou apenas me deixou uma gigantesca percepção do que é o respeito por mim mesma, do que é não sucumbir à maior rede de mentiras que alguma vez me contaram, de procurar alguém verdadeiramente à minha altura. Deixá-lo foi a mais difícil e mais acertada decisão de toda a minha vida, foi acordar para um mundo em que eu era realmente uma pessoa, foi crescer e ver que a vida não precisa ser só um emaranhado de noites inquietas e dias confusos, em que nunca se sabe bem em quem confiar.

Por isso, se me perguntarem um dia qual foi o melhor momento da minha vida, eu vou responder que foi o dia em que te deixei, o dia em que encheste a minha caixa de mensagens com todos os insultos que pudeste inventar, o dia em que me perdeste para alguém incomparável e infinitamente melhor. Nada do que me possas dizer hoje ou amanhã me irá abalar porque, tanto eu como tu, sabemos que a tua vida é o castigo por tudo o que deitaste fora.

Apenas desejo não mais me cruzar com ele. Para que da minha boca não saia mais do que quero dizer.

*para mim, que um dia consegui perceber que se fazia tarde. Para mim, por ter perdido sete anos da minha vida a gostar de alguém. Para mim, no dia em que decidi que, de onde esta dor veio, não virá mais nada. Nunca mais.

julho 17, 2008

A felicidade na minha caixa de correio

Ich befinde mich im Urlaub vom 14.07 bis einschließlich 25.07. Falls nötig bitte wenden Sie sich an xxx oder yyy in diesem Zeitraum. Danke!

julho 16, 2008

Estado em que se encontra este blog

A banhos.

Balançando entre o amarelo das searas, o inigualável azul do céu e os aviões sem rasto da cidade natal e o rebuliço, as noites silenciosas e as travessias da ponte da cidade adoptiva. Entre ambas, apenas há espaço para os lanches diários nas avós, para a música que se ouve em cima de uma cadeira de massagem e para a gastronomia que senta bons amigos à mesma mesa. Tudo o resto se resume a água transparente e pele morena. Tempo para pensar, sim - mas só em coisas realmente boas.

julho 13, 2008

About yesterday (and the day before and the day before that)

Podia só dizer que foi o mais perfeito começo de férias.

(houve tempo para experimentar um festival novo, desta vez em Oeiras. O recinto é demasiado comprido para que se possa alternar confortavelmente entre os dois palcos, as casas de banhos deixaram de ser unisexo, o som da música de dança a meio do recinto prejudica o som nos palcos maiores. Mas houve The National (outra vez) que, não comparando com a Aula Magna, me fizeram fechar os olhos durante breves segundos só para sentir aquilo tudo como deve ser. E houve o regresso à minha adolescência a ouvir os Rage Against The Machine e a descoberta que ainda me apetece muito saltar ao som daquela música.)

(jantar marcado para as nove, algures em Algés. O restaurante tem a porta fechada, é obrigatório tocar à campainha para que nos façam entrar numa espécie de dimensão diferente. É como se fosse uma casa de família, as mesas impecavelmente postas, os pratos elegantemente desirmanados. Os empregados eram delicados como a etiqueta exige, a meia luz esbatia os contornos dos rostos aristocráticos que se sentavam nas outras mesas. Cinco variedades de fondue, tinto alentejano macio e uma salinha só para nós.)

(sardinhas em Setúbal e quase duas horas esperando o ferry. Fazer outra vez aquela estrada trouxe-me boas recordações - as voltas que demos em Tróia, as praias a que tentámos ir, a noite em que dormimos quase à beira mar. Acabámos na Comporta, a praia longe de estar cheia, o vento que não nos deixava estender a toalha. No topo das ondas que revolviam a areia, senti-me a controlar a minha vida e soube que o meu desejo havia de se tornar realidade.)

julho 09, 2008

I've got a thing for you

Não devia ter pegado no livro que (supostamente) disseca os signos e os seus ascendentes. Sempre que leio, sou absorvida pela quantidade absurda de generalidades e revejo-me em grande parte das coisas que eles dizem que eu sou. Mas não é que eu acredite em horóscopos nem em previsões ou cartas astrais - quando os leio, é apenas para me rir (e secretamente tentar alinhar o que me acontece com aquilo que está previsto...).

Li várias vezes a parte em que eram descritos os amores das mulheres deste signo. Não foi com surpresa que li que são uma coisa quase doentia, um sentimento amarrado a pormenores, capaz de explodir a qualquer instante. Não me admirou que se falasse em lealdade cega e instinto protector quase selvagem. Se os signos têm algum fundo de verdade, esta minha impulsividade, esta incapacidade de conter as palavras e a insistência em reservar os pensamentos são a prova de que precisava. Só não li em lado nenhum que a nativa deste signo prefere esperar por um grande Amor em vez de se entreter com menoridades do género, que procura alguém que a domine com um só olhar ou uma palavra de ternura. Não encontrei referência às vezes que se engana a amar, às paixonetas que confunde com o amor, às aventuras que tenta fazer passar por começos de alguma coisa. Nem sequer li em parágrafo algum que (algum)as mulheres deste signo desejam apenas uma reciprocidade tão perfeita que se perdem em jogos de cintura inúteis, em desejos satisfeitos, em concessões desnecessárias.

E também foi omitido o profundo terror que sentem quando, nos longos momentos que passam a pensar antes de adormecer, sentem que tudo o que desejam não se vai repetir ou estar à altura daquilo que esperam. Mas, em conversa com uma velha amiga e ouvindo as palavras que eu mesma escolhi, percebi que a esperança secreta nessa outra pessoa torna a vida mais suportável, a espera menos dolorosa. É que o meu ascendente promete-me grandes conquistas e eu, desconfiando, acredito.

(e agora uma breve pausa publicitária)

A empresa onde trabalho está à procura de pessoas que queiram juntar-se a nós. Não importa se só vos apetece trabalhar no Verão ou se querem mesmo começar a trabalhar a sério, todos são considerados. Portanto, se conhecem alguém com vontade de arregaçar as mangas, o meu contacto está no perfil. Não se prometem ordenados chorudos nem regalias imediatas mas há por lá gente boa e trabalho que chegue.

(de volta à emissão normal)

julho 08, 2008

À flor da pele pt. II *


Encostado à parede, perde-se em antecipações. Já bebeu qualquer coisa forte para conseguir lidar com a pressão de ser apenas um homem. Parece meio desorientado no meio daquelas cadeiras vazias, no meio do silêncio artificial da sala. Revejo esta cena durante alguns minutos, quero decorar o ritmo com as suas pestanas descem sobre os olhos, quero poder dizer-lhe que sei como é. As luzes, a ansiedade dos olhos que pousam sobre ele, o suor que se ouve cair na sala tornam a sua voz mais triste e os seus desejos mais escuros. Puxa o microfone até à altura do coração e grita tudo o que pode. Posso sentir a intensidade mesmo em silêncio, mesmo sem cor, sem saber o que está a cantar. Um dia perguntaram-me o que tem isto de especial. Acho que não sei dizer mas sei exactamente do que se trata.

Tonight you just close your eyes/and I just watch you/slip away

*agora em versão puramente emocional. Este still é do documentário A Skin, a night, realizado por Vincent Moon e que nos mostra outros lados B dos The National.

julho 07, 2008

Som! Experiência! 1, 2!

Abre-se neste momento um novo capítulo na história deste blog e com ele a possibilidade de participação dos amigos. A partir de hoje, a Jane do Às vezes apetece, o Vodka e Valium 10 do Fantástica Gramática Automática, o Cosmonauta do Terra de Ninguém e o Ricardo do 2H têm também voz aqui. A ideia, de acordo do o mentor desta troca, é simples: se convidamos os nossos amigos para nossa casa, porque não os convidamos para outros sítios onde nos sentimos bem?

Mais desenvolvimentos nos próximos tempos. Eu cá já abri as hostilidades, só é preciso descobrir onde...

julho 06, 2008

Portalegre, 21h37m

Penso nos quilómetros que já fiz em toda a minha vida, constantemente a alternar entre a minha casa e o sítio onde escolhi viver. Todas as horas que passei dentro do carro são para chegar aqui, para sair do carro e ver anoitecer uma noite de Julho gelada, para absorver a escala de cores com que se pinta o teu céu. És a minha casa mas, corajosa, empurras a minha vida para longe. Promete-me que um dia poderei regressar.

julho 05, 2008

Sobre técnicas de relaxamento

Neste últimos tempos, o descanso tem sido pouco ou, pelo menos, pouco proveitoso. Há demasiadas horas extra a serem feitas desde há duas semanas (e para continuar), há este calor que, mesmo em Lisboa, me obriga a ligar a ventoinha assim que chego a casa. Por isso, não é de admirar que o fim de semana se divida só em três actividades: uma cervejinha com os amigos, piscina logo pela manhã e sesta a atravessar a tarde.

Junta-se os planos para esta última semana antes das férias (Alive!, jantar fondue, dançar loucamente ao som de Discotexas, apanhar amigos de quem morremos de saudades no aeroporto); os momentos de silêncio deitada numa espreguiçadeira na piscina, olhando os aviões que hoje não deixam rasto no céu, repetindo momentos bons em loop; e as horas de sono que se foram perdendo durante a semana. A continuar a este ritmo, vai ser um Verão do caraças.

julho 02, 2008

Não quero o amor/O que me entusiasma é a boa imitação.

Sentados numa esplanada do largo do Carmo. Digo-lhe que trouxe o mau tempo de longe, ele gosta do tempo assim. Cumprimenta alguém conhecido, desvia o olhar constantemente como se estudasse as pessoas que passam nas minhas costas. Subo as escadas rolantes com um passo hesitante e quebrado, um nervoso muito maior do que o meu corpo aguenta e ele ali está, de olhos semi-cerrados à minha espera. Ele à minha espera. Já não sou eu deitada no escuro a contar os minutos que já passaram, é ele sentado ali. O meu coração não sossega, sinto-me suar. Não tiro o óculos de Sol enquanto estamos juntos. Decoro-lhe os pormenores da cara, os olhos escuros, os cabelos brancos em operação de charme. Se quiser responder com honestidade à pergunta O que faço eu aqui? não posso. E, enquanto viramos costas numa esquina da rua Garrett, só me consigo lembrar de dois versos*. Disso e do dia em que me disse com aquela calma Deixa ficar o colar, deixa-o ficar...

* as palavras de m.r.t. musicadas pel'A Naifa. Outra vez.

julho 01, 2008

Dancing queen

Estou na cozinha e, quanto avanço para o corredor, as pernas fogem-me e marcam o ritmo à vez. Esqueço-me que há televisão, esqueço-me que o jantar ainda não ficou feito e danço. De manhã, atravesso o jardim da Estrela sem conseguir disfarçar o movimento dos ombros, que à entrada deixaram de me obedecer. Se olharem bem para mim, reparam no meu andar estranho, tentando submeter as ancas ao passo normal. Nas escadas rolantes da estação de metro, seguro-me para não criar uma coreografia ao som da música. Temo que a qualquer momento perca o controlo e dance ali mesmo, de olhos fechados.

A culpa é dele. Chamam-lhe Xinobi e podem ouvi-lo aqui.