outubro 15, 2008

Comemorar :)

Dificilmente pensamos numa comemoração apenas com três pessoas. Talvez a palavra nos leve sempre a crer que se trata duma festa em grande, com muita gente a participar. Mas a minha comemoração, tardia mas saboreada, foi feita a três. Deveria ter sido feita a cinco mas a sorte não esteve do nosso lado e houve quem perdesse um maravilhoso repasto!

Em pleno coração da capital, bebeu-se um Lambrusco fresquíssimo enquanto ouvíamos clássicos reinterpretados por uma voz cheia de doçura. Provaram-se três bruschettas de alto gabarito e terminou-se com um inesquecível chocolate fondant. Gastronomia à parte, um Obrigada sentido a quem partilhou esta ocasião comigo, a quem quis estar presente, a quem não se furtou às fotografias. É muito bom saber com quem contar :)

outubro 13, 2008

Moussaka de legumes

Foi uma ideia pilhada ao último livro de cozinha que a minha mãe me ofereceu. Digo pilhada porque a experiência mostra-me que nunca consigo seguir uma receita até ao fim e cada uma acaba por ter um toque apenas meu. Nesta troquei o iogurte natural pelo molho bechamel e acho que foi uma boa troca. Nada como cozinhar ao som de Ennio Morricone, imaginando que a minha janela tem vista sobre a Riviera francesa e que vão servir-me cocktails antes de jantar. O que a imaginação não tem feito por mim nestes últimos dias...

outubro 12, 2008

De Paço d'Arcos até Tóquio *

* ou a forma mais rápida e eficaz para ficar sem voz: queijo, muffins de feta e pimentos padrón; o sucesso das histórias dos meus avós numa varanda com a vista mais maravilhosa dos últimos tempos; a minha tosse e os rebuçados do Santo Onofre; um dos últimos comboios da linha de Cascais; as voltas que demos perdidos no Bairro Alto para beber aquele vodka com frutos silvestres; dançar três ou quatro músicas antes de soar a Janis Joplin; beber a última cerveja na roulotte do Cais do Sodré com o Júlio, que ficou nosso amigo. Por isso (hoje) falar é mentira.

Outras impressões aqui.

outubro 11, 2008

Just the (almost) perfect Saturday morning

É a primeira vez que visto o primeiro casaco que comprei este ano. Subo a rua depressa, com passos largos, ainda ressentida das corridas da última semana. Está vento mas estranhamente a temperatura não é aquilo que imaginava da janela das traseiras. Não há ainda luz suficiente para conduzir sem faróis ligados mas poucos são os carros com que me cruzo àquela hora. Nenhuma pessoa na rua. Sou só eu, a subir à pressa, o cabelo ainda molhado, pareces uma indígena*, dizia-me ele quando me via assim. Assim que me sento no carro, procuro a música mais adequada a esta manhã de Outono e arranco. A meio do caminho ouço os primeiros acordes da Hallelujah na versão que mais adoro. Não há semáforos vermelhos pelo caminho, uma feliz sequência de coincidências diz-me que vou chegar em cinco minutos. Abrando e, pela primeira vez, tento apanhar um sinal vermelho, dois sinais vermelhos para ouvir a música até ao fim. Penso em encostar o carro se avançar depressa demais, eu, a que dizem sempre cheia de pressa, eu cujo passo ninguém consegue acompanhar. É Sábado e eu vou trabalhar mas há qualquer coisa em mim que me faz querer este dia, agarrá-lo com vontade, há qualquer coisa cá dentro que me diz que estou feliz.

* e eu perguntava uma indígena como? e ele dizia que não sabia responder, enquanto acendia o isqueiro que eu lhe tinha oferecido até gastar a gasolina e olhava para mim com aqueles olhos que perfuravam, castanhos de tanta sexualidade e ciúme, olhos zelosos demais e eu perguntava porque é que olhas para mim assim? e ele fixava-me ainda mais conscientemente, sabendo que eu baixaria o meu olhar e dizia-me é porque gosto de ti, Marisol.

outubro 09, 2008

Antes, era assim.

Atravessas o separador sem pousar os pés no chão. O teu pescoço é um cachecol de lã, a tua boca termina na ponta de um cigarro que enrolaste a caminho. Essa mesma boca caminha ao teu lado, consigo vê-la de onde estou, consigo segui-la com o olhar. És um magro casaco cinzento debaixo do chumbo do céu, um tronco frágil rematado por uma cicatriz, uma mão que carrega um volume escuro que tomo por um livro, duas pernas que pairam em vez de andar. És um estranho que um dia me roubou um beijo, que noutro dia me roubou o sono e que não tardou a tirar-me tudo. Vinha exigir que me devolvesses o sossego ou que me levasses o que resta mas não é nada disso que faço. Olhos colados na tua cintura, vejo-te avançar disperso mas resoluto.

Guardo-me deste lado da rua. Deixo-te esperar. Encostas-te ao gradeamento. Troco mais meia dúzia de palavras de olhos postos em ti. Por instantes duvido que esteja realmente aqui. Se olhares bem, consegues ver o brilho dos meus olhos deste lado da rua. Não olhas. Finges que não vês. Eu finjo que não estou entupida com borboletas. Enquanto avanço, o passado transforma-se num borrão indecifrável. Eu esqueço que já não te quero e tu esqueces que ainda me queres e começamos a caminhar.

outubro 07, 2008

Sete-músicas-sete

Um desafio da Maria del Sol: escolher sete músicas que ilustrem algum momento das nossas vidas. Escusado será falar nos milhares que ficaram de fora, no difícil que foi escolher. Mas foi o melhor que se conseguiu arranjar. Nem os todos os videos são originais mas o que interessa é a música. Essa é maior do que tudo.

Jeff Buckley.Vancouver. O meu grande amor (musical). O homem que nunca poderei ver, o homem com quem já sonhei. Afogando-se com trinta e poucos anos, cantava desta maneira sobre o amor. Era de certeza o grande amor de alguém, impossível de esquecer, impossível de não amar mais e mais todos os dias.

dEUS. Roses. A melhor tarde que me lembro de ter passado. Era Verão e as persianas estavam baixas para não deixar entrar o calor. Não havia lençóis na cama e não se ouvia nada no corredor. Estava a rodar este cd na aparelhagem e era como se não existisse mais nada. Havia poucas palavras entre nós os dois mas muitas coisas se diziam em silêncio. Ou com as mãos. Nunca me consegui esquecer.
Pearl Jam. Rearview Mirror. Porque nem só de doçura se faz o caminho. As memórias estão enterradas num sítio seguro, onde só mexo deliberadamente. O trabalho que me deu a guardá-las, a transformá-las em algo bom... Era uma cassete original, a fita gasta no lado b, exactamente quando ele dizia i gather speed from you fucking with me.

Air. Talisman. Sonhei demasiadas vezes enquanto ouvia esta música. Sonhei por escadarias de Lisboa, sextos andares nos subúrbios, com candeeiros de lava que nunca acenderam. Sonhei dentro dum carro, as borboletas cada vez mais intensas e sonhei que o impossível se podia tornar em verdade. E falhei.

Carly Comando. Everyday. Mostraram-me isto há pouco tempo (obrigada outra vez!) e não consigo parar de ouvir. Sou fácil demais, ouço meia dúzia de segundos e já estou noutro sítio qualquer, vejo a minha vida a passar-me em frente aos olhos a toda a velocidade, tento remendar os erros.

Sufjan Stevens. To be alone with you. Este homem não existe. Com ele, deixam também de existir esta candura, esta voz doce que planeia cantar todos os estados americanos, esta placidez que quase se ouve. É música que vem de algum sítio puro, intocado.

Linda Martini. A severa. Porque poucas vezes senti que o que queria dizer não estava nas palavras, mas sim neste crescendo de ruído, nesta sobreposição de guitarras, nesta impenetrável muralha de som. Quase sofro a vê-los porque me sinto sempre despida.

Gostava de ouvir o que têm a dizer a Ervilha, o Lobistico, o JC, o Vitor Hugo, o Indigente Andrajoso, o A.S. e a Luísa Cê. All done.

outubro 06, 2008

Chegou finalmente o momento em que, com alguma propriedade, me podem chamar chefe.

(ainda estou nervosa com este dia todo, os conselhos sobre as minha relações profissionais, a mudança tão profunda que isto tudo implica mas, quando penso no que já trabalhei e naquilo que ambicionei, sei que é uma mudança inteiramente merecida. tinha um concorrente à altura, uma pessoa que adoro e ficaria feliz se fosse ele o escolhido. mas a sorte quis que fosse eu e agora já arregacei as mangas e não sei onde vou parar. certamente não será aqui)

outubro 05, 2008

Épico!

Os dezasseis anos que separam o último concerto dos Avô Varejeira (myspace aqui) do concerto de ontem à noite fizeram com que este regresso fosse muito esperado e especialmente festejado. Arriscava a dizer que foi a noite com mais público na Quina das Beatas de que me lembro, tudo gente da terra, quase tudo com um enorme sentimento de nostalgia. E, não querendo retirar importância a nenhum dos membros, o Marquês é aquela estrela. Aquilo é carisma em bruto, uma estrela rock que se perdeu para o design (como me segredava alguém durante o concerto), aquilo é o suor sobre a magreza sobre os gritos sobre os olhos alucinados. Enganei-me quando pensei que provavelmente não ia gostar. Gostei e muito - por momentos, voltei a ser a miúda de pala, profundamente inadaptada e tímida de há uns anos atrás.

outubro 04, 2008

(Gastei quase todas as palavras acumuladas ontem. Gastei-as maioritariamente com a raiva de quem se sente como que traído, de quem sente que há qualquer coisa que lhe escapa subtilmente. Depois dancei tudo o que andava também a acumular. Não, não foi ainda tudo. Não me consegui esquecer de onde estava, portanto ainda não foi tudo. Fui, na mesma noite, ignorada, surpreendida, cortejada e ouvida. Senti-me desmoronar enquanto falava mas contive-me a tempo. Viver é este constante jogo de pratos chineses.)

(a primeira fotografia é do concerto dos Factor C no CAEP e o myspace deles está aqui)

outubro 03, 2008

Todas as coisas acontecem por uma razão?

No mesmo dia em que escrevi isto, percebi que não ia ser fácil mudar essa parte de mim, especialmente por ser tão mas tão escorpião, por as palavras me saírem antes de as pensar, por ceder facilmente às sensações. Ontem tive uma entrevista com a super chefe, com o topo da pirâmide daquele prédio e foi difícil. Não exactamente por ela estar nessa posição mas por ter que me ouvir numa sala silenciosa a falar de "manter o equilíbrio precário da equipa", "evitar a perda de conhecimentos" e "reduzir as despesas em 10%". Serei eu essa pessoa? Terei eu o poder de manter/evitar/reduzir isso tudo? Será essa a mesma pessoa que escreve aqui, a pessoa que anda sempre de coração nas mãos, a pessoa que fantasia mais do que é permitido por lei?

E, exactamente no mesmo dia, fui aceite aqui. E portanto será que a minha parte que preenche relatórios e dá feedbacks negativos e é controladora vai conseguir esquecer isso tudo e escrever sobre a poesia dos números e descrever magníficas e lânguidas folhas de Excel? Será que os conceitos de management e folhas de produtividade e mapas de férias não me vão contaminar a mão, a caneta, a parte do cérebro onde armazeno esta ingenuidade?

É o maior desafio dos últimos tempos. É um momento de transição. Ou não é nada de nada. Mas que me tem tirado o sono, tem. Porque razão tudo agora, tudo ao mesmo tempo? Isso não sei.

outubro 01, 2008

Ficção #7

O teu silêncio não me incomoda porque o teu olhar me enche de palavras que tento, a custo, juntar, porque a tua boca me oferece versos inteiros de poemas que ainda hei-de escrever, porque as tuas mãos escrevem em mim intermináveis linhas com a tinta do desejo. Dos meus olhos podes arrancar confissões, a história de todas as noites em que te desejei mais do que as minhas mãos te puderam mostrar, o fulgor dos teus olhos pousados sobre o meu ventre nas tardes em que não ousámos sair. Esta noite salvava-te da frivolidade para onde insistes em arrastar-me mas só durante as primeiras horas da madrugada. Depois, descíamos novamente à planície, ao quarto iluminado apenas pelas luzes lá de fora, aos lençóis que suamos noite após noite. Somos duas sombras ocupadas com a extenuante batalha do desejo, em confronto pontuado pelos gemidos que arrancamos um ao outro, esgotando forças num combate para sempre desigual.

setembro 30, 2008

Adivinha o que fiz na noite passada iii *

Nas linhas da minha mão escrevo... as gotas de sangue da resina que cobre os meus poemas. Entre as linhas, aves repentinas e caudas de cometas. Nas linhas da minha mão escrevo uma ode às praias nuas, aos banhistas selvagens imersos na quietude do mar. Há muito que nas linhas da minha mão gravei a cidade e a luz com que ela se oferece ao rio. E escrevi os desgostos a branco e enchi-a de cor quando fui mais feliz.

Nas linhas da minha mão alguém me escreveu a sina. Não a sei ler sozinha, não a quero saber senão quando a tiver cumprido. E deixar as linhas voarem como dois pássaros sem perdão.

* inspirado no poema Paisagem, de Sophia de Mello Breyner Andresen. E também a minha mão tremia quando pousei a caneta, como se fosse este o único texto que podia escrever. E tremo eu quando ouço outras palavras, quando com palavras me tocam de forma indelével e doce.

setembro 28, 2008

Late night *

Era eu no autocarro, eram pouco mais de sete da manhã e o coração saía-me pela boca. Havia quem saísse para o hospital e existias tu, dentro do meu peito, numa dimensão e proporção que nunca irei entender.

* porque preciso de escrever, empresta-me essa caneta. E papel, arranja-me um pedaço de papel. Pode ser do livro onde guardas as contas, escrevo um segredo no mesmo papel em que rabiscas os teus. Preciso de escrever. Amanhã quando voltar a ler isto vou achar-me pateta, sou uma drama queen. Mas agora deixa-me escrever que me rebenta o peito. Deixa que a enxurrada de palavras que não me ouves dizer seja imortalizada com a tinta. Meto o papel à pressa dentro da mala e escondo subtilmente as mágoas dentro da carteira. Serve-me mais uma cerveja. Mais uma, antes que comece a falar.

setembro 27, 2008

As minhas noites * são mais belas que os meus dias ii

Duas fotos da autoria de P.

Quando venho cá é como se entrasse directamente para outra dimensão: a das conversas boas, das cervejas que nunca pedi e vieram ter à minha mão, a da televisão em altos berros até pedirmos para mudar de canal, dos cd's que gravamos para podermos ouvir a música de que gostamos. É a dimensão em que me esqueço do trabalho e das candidaturas e da limpeza que me falta fazer à casa, das mentiras piedosas e dos transportes públicos cheios, dos quilos que ainda me faltam perder. Aqui não há nada disso. Só há bancos altos, vizinhos que não nos reconhecem e uma dona do bar que se diverte com a minha máquina. Diz que é bom, isto.

setembro 26, 2008

Ficção #6

Mostraste-me como seria ver-te naufragar noutros braços, fizeste-me entender a facilidade com que te fazes seduzir por outra boca, ensinaste-me o que é o pânico. E eu, que me julgava imune e que me achava pouco ingénua, soçobrei às queimaduras dos passos em falso que ecoavam pelo meu corredor. Devia ter-te adivinhado no banco de trás daquele táxi, devia ter pressentido a velocidade com que iria desfazer-me mas não – era tudo estranhamente perfeito, era muito mais do que a minha realidade reclamava, era ficção em bruto a acontecer naquela madrugada de sábado.

setembro 25, 2008

E a declaração de amor que me apetecia fazer agora



It might have been a while
Since you've been loved
Like you should be loved

It might have been a while
Since you've been kissed
Like you should be kissed

In tender loving arms
Might be something you miss

No trabalho como na vida *

A M. tem algumas dificuldades em gerir as suas emoções.

* eu sempre desejei ser uma pessoa constante e coerente.

setembro 22, 2008

Adivinha o que fiz na noite passada ii *

Ainda não tinha tido coragem para lhe visitar a campa. Ele, tão dedicado às amizades, jazia agora entre os seus amigos eternos numa esquina de onde conseguiria, se pudesse, ouvir o eléctrico. Foi numa noite em que caminhava meio absorta até ao momento em que julguei ver o nome dele escrito a neon sobre uma montra desactualizada. Mais acima, duma janela aberta num terceiro andar, fixava-me uma rapariga de vestido amarelo e cabelo curto que parecia dizer o seu nome. Xavier, dizia ela baixinho.

Enquanto avançava entre os jazigos de família, sob os candeeiros de ferro forjado que ornavam o caminho, ouvi o sotaque francês de um casal de meia idade. Ela vestia vermelho e ele dizia-lhe que odiava o cheiro a caril que se sentia por toda a parte. Abrandei o passo quando cheguei aos mosaicos gastos e ouvi a gargalhada fresca de uma rapariga. Ele gostava de me ver rir, pensei eu. Mas a minha cara não correspondeu a este pensamento porque reparei na expressão de pena de um rapaz sem braço que também caminhava por ali.

À porta do cemitério, nada mais que uma fila ordeira de carros, a fachada impecável do hotel e o grafiti espalhado por todo o lado. Podia estar triste mas sei que ele não me queria assim.

* de caneta em punho, em plena praça, a tentar absorvê-la. Confundida com a polícia, tento demonstrar a minha habilidade em trabalhos manuais, criando uma flor cubista. As horas ali não passam, é como se ainda fosse pedir para ficar mais um pouco, só mais dois ou três momentos de total distracção, de total fantasia. Deixo a vida à porta e recrio-me outra vez.

setembro 21, 2008

As minhas noites * são mais belas que os meus dias

Não sei exactamente como o apago da memória em noites assim. De repente, corre tudo a uma velocidade que não esperava, as recordações são pequenas dores liquefeitas. Brinco com as palhinhas da caipirinha, encosto-me à parede grafitada mas já não espero. Já não quero nada. Desdobro-me em pequenas conversas, transformo as minhas tristezas em anedotas triviais, hoje é tudo possível. Enquanto suo, purgo. O suor cola-me a camisola ao corpo, o decote já não me perturba, a música foi feita a pensar em mim. Mas ainda o imagino a descer aquelas escadas, embriagado pela sua própria imagem, o ego em modo bomba relógio. Fixo o chão enquanto danço para me castigar e quando levanto a cabeça não consigo evitar sorrir. À noite acontecem coisas demais na minha cabeça.

*diferentes impressões da mesma noite aqui.

setembro 20, 2008

Dormir mais feliz #17

Slow, you kept me in that storm
You showed me things galore
Made me want much more

setembro 18, 2008

Adivinha o que fiz na noite passada *

Senti sobre mim o peso dos lençóis de veludo. Há três noites que não consigo dormir, repetindo em silêncio a imagem da estrela do mar que ela deixara na soleira. À esquerda do quarto, o irrequieto cardume embate, como que embriagado, contra as paredes do aquário. Sou como todos os homens que deixam que os amores os consumam.

Levantei a cabeça da almofada, o corpo da cama e encostei o sono no parapeito da janela. Nada mais que silêncio, nem mesmo o carrossel da praça conseguia ouvir. Na cozinha, senti o cheiro do ramo que jaz naquele jarro velho e que nunca consegui entregar-lhe, não depois de os saber enamorados, crescendo como um par. E naquela noite, com a cabeça debaixo das estrelas, chorei outra vez.

* era um terceiro andar com vista para uma nesga de Tejo, onde se chega num elevador que só transporta duas pessoas. Demasiado perto uma da outra. Sete cadeiras ocupadas, dezenas de post-it nas paredes, um bule quente com chá. Um sofá apenas, iluminado propositadamente com um candeeiro de leitura. Centenas de palavras bailando na minha cabeça e o pior dia do Mundo acabava da única maneira que sei ser feliz.

setembro 16, 2008

(...)

[Foi dos dias mais difíceis da minha vida mas dificilmente me lembro de ter chegado tão contente ao trabalho. Nunca tive tanto medo, em dia nenhum, em ocasião alguma, escrevi ainda hoje num papel. A hereditariedade e a biologia deixaram-me escapar. Pelo menos hoje, posso dormir a saber como vai ser amanhã. Vai ser bom. E amanhã vamos correr outra vez no final do dia. O cansaço faz-me sentir mais viva. Obrigada por torcerem por mim - juro que precisei muito.]


Em aproximadamente dezanove horas. Estou a contar o tempo e quase disposta a pedir a alguém uma daquelas pulseiras contra o mau olhado. Estou desconfiada que vai ser difícil dormir mas não antevejo nenhuma noite em claro. E sei, claro, que o mais provável é a genética levar o melhor desta situação toda. Tenho muito medo do que vou ouvir, do que vão ver, da cambalhota que pode ser o dia de amanhã. Estou apavorada mas não consigo dizê-lo em voz alta.

setembro 14, 2008

27 anos de Kike *

As maravilhas de estar à mesa com amigos, poder beber cerveja fresca saída de um barril cheio de gelo, prolongar a refeição por horas a fio já aqui foram elogiadas. Ontem foi simplesmente mais um dia assim ou, melhor dito, uma noite assim. Recebidos pelo frio já outonal do Reguengo e pela família C., tivemos tempo para conversar na rua, fugir de vespas gigantes, assistir a danças de salão, viver o suspense antes da entrega dos presentes e dançar até já não restar ninguém à volta da mesa de bilhar. O clube dos vinte e sete promete grandes feitos para este ano, que eu espero que o aniversariante aproveite como nunca! Para o ano, noutro sítio à mesma hora?

* outras impressões aqui.

setembro 13, 2008

The Big Church Of Fire

Honrada de os ver começar na minha cidade, sentei-me na primeira fila para assistir à primeira actuação destes meninos (myspace aqui). Trouxeram uma imensa claque de apoio que documentou a estreia e garantiu todo o apoio de que precisavam. Quando se ouve a música deles, pensa-se em Mustangs vermelhos a rasgar o deserto, em homens sozinhos caminhando à beira da estrada, em quartos de motel com cortinas carcomidas pela solidão. Ainda há muita estrada para bater mas sinto que eles estão no bom caminho. Hei-de cruzar-me com eles mais vezes.

setembro 12, 2008

Cashback *

Partem-nos o coração tantas vezes. Como meros espectadores, olhamos, incrédulos, o momento exacto em que o amor deixa de existir. Já não há som, apenas os movimentos nervosos, irados, indiferentes da outra boca. Sabemos tudo o que vai ser dito, sabemos até como tentar impedir que o impacto seja tão brutal mas reservamo-nos o direito ao silêncio. Não dormimos à noite, não há nada que possa reparar o dano tão depressa e, por isso, passamos as noites em claro. Horas após horas de escuridão completa, horas passadas a reconstruir momentos que não sabíamos guardados, repetições desastradas dos momentos de cisão. Na nossa rua, no caminho de casa, no cinema passeiam-se os fantasmas que criamos para nos defendermos. Estamos mais sozinhos quando há alguém que não nos quer.

Reconstroem-nos o coração tantas vezes. Somos tantas vezes alheios ao instante preciso em que a vida se encarrega de nos mostrar outro caminho. Fixamos frases inteiras, memorizamos partes de um sorriso, imaginamos muito para além do permitido. À noite, as horas custam a passar. É uma desinquietação cá dentro, uma agitação nervosa sem par, o cheiro e a cor dos olhos e a maneira como apoiam a cabeça nas mãos a perturbar-nos o sono. Subitamente, a dor desaparece, dá lugar à euforia que contemos em frente a um espelho ou a ouvir aquela música. Cristalizamos na nossa memória uma maneira doce de olhar, uma perna nervosa debaixo da mesa, o respirar que sentimos mais perto. Atrapalhados, buscamos a forma mais complicada de nos beijarmos. Mas quando repetimos a sequência vezes e vezes sem conta, conseguimos a harmonia e guardamo-la até à próxima vez que nos quebrarem.

* filme que vi entre tachos e avós que nos oferecem fruta e irmãs quase a chegar.

M @ cozinha VI

Tinha prometido a mim mesma que iria apanhar amoras e cumpri. Com a ajuda do A., que falava mais do que colhia, consegui juntar uma quantidade muito considerável. A minha mãe reservou algumas para fazer um delicioso licor de amora e eu usei o resto para fazer o coulis com que servi a minha primeira panna cotta! A consistência de ambos ainda deixa muito a desejar mas o sabor resultou em cheio. Tivesse eu sempre todo este tempo livre e havia de me tornar numa cozinheira de mão cheia!

setembro 11, 2008

Alentejo, meu amor ii

No segundo dia de passeio, arriscamos ir bem mais longe para testar os limites do nosso esforço. Começamos com um dia de Sol já raro nestes últimos tempos mas acabamos, quase em casa, com o cinzento chumbo do céu. Há tempo para parar num café para comprar uma garrafa de água e para planear onde podemos, em breve, apanhar castanhas. Durante grande parte do caminho, ouvimos apenas o vento a desinquietar a copa dos eucaliptos, o ranger delicado e seco dos troncos dos pinheiros, pássaros que adivinhamos muito maiores que apenas pardais. O meu pai fala a toda a gente que encontra, mesmo aqueles que não conhece. Quer dizer a uma senhora que as romãs lhe apodrecem numa árvore mas contém-se. Um dia destes passa ali outra vez e colhe algumas para mim...

setembro 10, 2008

A saga (ainda) continua

Apesar de já haver quem duvide e diga que depressa me vou cansar, a luta para comer menos e melhor tem sido dura mas gratificante. A única coisa que realmente me tem atormentado é poder apenas comer carne e/ou peixe uma vez por dia, o que implica um esforço extra da minha imaginação para preencher a outra refeição. Ainda não segui nenhuma receita à risca mas acho que me tenho safado bem (esta é a salada de ontem, com massa, feijão verde, ameixa branca e queijo mozarella temperada com vinagrete caseiro). Ainda hoje não jantei e já tento inventar qualquer coisa para amanhã. Talvez possa convencer-me que sem esforço tudo não teria metade da piada...

Momento da Verdade

Sim, eu sei que sou culpada. De ter aguentado um programa inteiro e de, acima de tudo, ter admitido a possibilidade de isto ser real. Posso repensar a minha posição e chegar à conclusão que esta pessoa é demasiado má para ser real e que tudo não passa de uma trapaça para ganhar audiências, fidelizar um público que está sedento de traições. Só que sei, porque já o senti, que gente desta existe. Gente que está determinada a singrar pelo caminho mais fácil, gente que pensa, acima de tudo, em si, gente que não conhece limites.

Pensar que existe um público habitual para este tipo de lixo magoa-me. Porque as pessoas querem assistir ao sofrimento, porque as direcções de programas não se responsabilizam pelo esterco que passam no horário nobre, porque há gente que se sujeita a isto. Dói muito quando se vê gente desta a inaugurar uma nova espécie de celebração: a da mentira que passa por honestidade. Tenho saudades do tempo em que a televisão se limitava a dois canais. Ninguém precisa de saber o que custa resgatar a confiança, refazer o amor.

setembro 09, 2008

Alentejo, meu amor

Estar de férias desta vez tem um sabor peculiar. Cumprindo instruções pouco precisas e, finalmente, dando ouvidos àquela vozinha cá dentro, obriguei o meu pai a deixar o sofá nesta manhã pouco convidativa e fomos passear. Caminhar deve ser mais o termo, foi unir o esforço aos caminhos que nunca me tinham sido revelados. Fui ouvindo as histórias sobre o Rosal, sobre o feijão com couve e ossos da assuã que se comem por aí, sobre um homem que oferece pão a meio de caminhadas destas.

Prometi a mim mesma que voltava a este caminho para apanhar amoras, tão maduras naquelas silvas, tão entregues a si mesmas neste resto de calçada. Há coisas que resistiram ao tempo, muros que se mantiveram de pé, um menino de olhos grandes numa casa no meio do nada. Chegamos a casa suados e um vizinho diz que se tem que caminhar assim mais vezes. Habituava-me a estes gafanhotos imprevisíveis, às moscas por todo o lado, aos figos a largarem vagarosamente as figueiras. Houve um tempo em que não existia mais nada. Regresso a esse tempo enquanto caminho e acabo deitada debaixo de uma figueira, o eco do poço como única companhia. É o único sítio do Mundo onde o tempo teima insistentemente em não passar.

setembro 07, 2008

Super Panda (2001 - 2008)

Não é que me tenhas morrido nos braços, ou melhor, nos pés. Continuas pronto para, a custo, completares mais uma viagem. Mas as tuas necessidades dos últimos tempos levaram-me mais do que posso investir. É com muita pena que desisto de ti, que te entrego a outras mãos menos exigentes que as minhas mas espero que faças outra pessoa feliz como me fizeste a mim. Comigo, fica a lembrança do dia em que te fui buscar à oficina e olhei para ti sem saber muito bem o que fazer contigo, o volante em ferro que tivemos que mandar forrar para conseguir conduzir. Juntos trilhámos umas quantas voltas à Terra, de vidro aberto e distorção no rádio.

Fica descansado, Super Panda: o outro já cá está mas não há nunca amor como o primeiro.

setembro 06, 2008

M. @ cozinha V

A minha primeira experiência com massa folhada não me deixou propriamente maravilhada. A massa estava um bocado seca, a contrastar com o recheio que me saiu, sem modéstia, muito bem. Mas, e apesar de jantar sozinha, levei as palavras da senhora doutora muito a sério e tentei inventar uma refeição designada de decente. Palpita-me que vai sair daqui um combate desigual entre mim e todas as coisas que tenho vontade de comer. Em todo o caso, vou (espero eu) sair vencedora.

setembro 05, 2008

( este é um parêntesis gigante de alívio por ter entrado de férias oficialmente há quatro horas atrás. toda a gente me pergunta quantos dias de férias tenho e eu respondo a essa gente toda que tenho exactamente os mesmo dias que toda a gente, só que gosto de os espalhar pelos doze meses do ano em vez de os esgotar no pico do mês de Agosto. ninguém acredita nisso, facto de onde retiro ainda mais gozo.

o lobo mau levou-me ontem ao festival de cinema de terror. vimos um filme do zé do caixão depois de uma pita shoarma no chiado. ainda estou a tentar decidir se dou algum crédito ao filme ou se me fico pelo grande momento de comédia que foi aquilo tudo. especialmente porque o realizador estava mesmo na cadeira atrás da minha e achava que o som não estava suficientemente alto. vestido de capa preta, era acompanhado pela filha vamp que apresentou uma curta metragem sofrível no início e pelo filho agente que filmava toda a gente a aplaudir.

a senhora doutora disse-me que não posso comer mais chocapic, passe a publicidade. e passou-me alguns trabalhos de casa, que realizei, aplicadamente, depois do jantar. vou dizer-lhe que vou correr na Estrela, primeiro devagarinho, depois a aguentar estoicamente o aumento da batida cardíaca. a senhora dos recursos humanos também me disse que estou no bom caminho mas pediu-me para exercitar a minha assertividade (cujo significado nunca hei-de realmente descortinar) e a minha liderança. foram ambas simpaticamente desagradáveis, levemente paternalistas mas necessárias. convenceram-me de que estou a andar bem.

agora vou ali começar as férias, passando a noite de sexta-feira em casa. chove torrencialmente mas a casa ainda está abafada. até bebia um copo de vinho mas a garrafa já está cheia de borras. o que é que ocupa a televisão numa sexta à noite?)

Ficção #5

Tens uma nodoazinha no peito a querer gritar mas abafas o grito que já quiseste dar tantas vezes. Teres estas fachadas aos teus pés é o suficiente para te comover, para te marejar os olhos, para agradeceres todas as infelicidades da tua vida porque afinal, dentro de cada janela daquelas, há verdadeiras histórias de dor e de perdição para contar. Há misérias escondidas, desgostos tratados à lei da navalha, submissões caladas com dois ou três copos de vinho. Os teus desencontros são pequenos e mesquinhos quando os vês sobre o contorno entardecido da cidade, as tuas saudades esbatem-se sobre a ausência de nuvens no céu. Por momentos, não te lembras que não nasceste aqui e amas, com tristeza, a cidade que te abriga.

setembro 03, 2008

Um cavalo de Tróia (dentro de mim)

No outro dia, enquanto tentávamos preencher os duzentos quilómetros com palavras, fiquei ligeiramente desapontada com uma frase que me escapou a meio da conversa. Falando de talentos, eu disse que acho que tenho jeito é para trabalhar. Não sou como os meus amigos que são barras a desenhar pontes, a investigar ratinhos, a programar, a projectar prédios e praças, a criar todo um negócio de raiz. Ser boa a ler conta? E a ouvir música? Pois, também não me pareceu. É um bocado triste ser realmente bom numa coisa que não resulta necessariamente numa profissão. Depois, pensei que sou muito boa nas primeiras impressões que tenho das pessoas: consigo, mais ou menos, perceber qual vai ser a natureza da nossa relação, antever o comportamento da pessoa. Mas, que eu saiba, as empresas ainda não contratam mediums para assistir às entrevistas e eliminar possíveis candidatos inadequados.

Estou farta disto e por isso fiz-me à vida. Vou começar a investir na minha formação, mesmo que isso seja um processo lento, mesmo que seja difícil pegar outra vez nos livros. Vou tentar descobrir o que valho. A sério. É o Setembro de todas as mudanças, das novidades inesperadas as contrastarem com a traição que o meu corpo guarda dentro de si, com a biologia a levar a melhor. Estou finalmente acordada.

setembro 01, 2008

Heartbeat *

Se os electrocardiogramas (adiantes também designados como ECG) fossem suficientemente completos e detalhados, esta não seria a imagem do meu. Estas são linhas perfeitinhas, as batidas apenas afectadas pelo ligeiro rubor que sentia enquanto despia a camisola, os olhos abertos intencionalmente para evitar descontrolar o ritmo certinho do peito. Se os ECG conseguissem registar os desgostos naquela tira de papel milimétrico, se as ventosas pudessem destapar uma ponta do caos em que encontra o lado esquerdo do meu peito, o gráfico seria bem menos harmonioso e os resultados mais verdadeiros. Enquanto a tecnologia não avança, guardo as irregularidades debaixo da pele.

* saudável, no primeiro dia de consultas desta semana.

agosto 31, 2008

Não descansar quando realmente é preciso

Do alto daquele terraço, podia ver-se a serra de São Mamede e o castelo de Marvão mas eu preferia estar sentada debaixo da copa imensa daquela figueira. É verdade que o Verão abrandou e que as noites há muito que gelaram por aqui mas não há nada que um par de colunas e electro muito alto não possam aquecer. O desconforto de dormir numa tenda está a tornar-se clara e rapidamente numa fobia que não estou a conseguir enfrentar e que me obrigou a procurar a minha cama todas as noites. Os meus amigos tratam-me bem e lembram-me de como é difícil estarmos longe e termos projectos tão diferentes. E agora é recuperar o sono antes do trabalho recomeçar amanhã. Um fim de semana a tocar bateria, a perder a voz antes do jogo do Glorioso, a ouvir os bailes das festas de Verão ao longe e a comer febras saídas directamente da grelha é tudo o que precisava para descansar. Da monotonia, pelo menos.

agosto 30, 2008

Ainda sobre o mês que amanhã acaba *

Sempre me lembro daquele mundo de bailaricos populares com aparelhagens manhosas, de procissões sonolentas, de praias fluviais, de emigrantes em visita, de crimes sanguinolentos que rasgam o «idílio» campestre, de incêndios brutais que mudam a cor do céu.

* porque ele o diz infinitamente melhor do que eu.

agosto 28, 2008

Destilar (ou a violência começa aos 4m40s)



Cansada de me importar, hoje quero a violência de que fujo nos outros dias. Preciso desta tensão a impedir-me de respirar, de dançar desajeitadamente no meu corredor, de suar o que me faz mal, de acabar deitada no soalho, o cabelo escuro a contrastar com a madeira, eu completamente espalhada pelo chão. Acontece que me canso, como dizia o poeta. Acontece que os dias não são todos iguais e tenho dentro uma revolução em curso, tenho coisas para dizer mas não ouso dizê-las, sinto-me vacilar. Preciso de violência, de me esquecer do que sinto, de me afogar em esquecimento. Divido-me entre a varanda e o sofá, ensaio os passos junto à parede, preparo-me para sacudir as coisas belas. Sinto-me urgente, envenenada pela minha própria vontade, traída pela minha absurda capacidade de acreditar. Quero a cabeça cheia de ruído e o coração arrumado.

agosto 27, 2008

Aquele querido mês de Agosto *


Há uma parte de mim que se desliga constantemente e, contrariando a minha vontade, está lentamente a desaparecer. É a parte de mim que viveu numa capital de distrito no interior, a maior parte das vezes mais parecida com uma aldeia do que com uma cidade. A minha declaração de amor ao sítio em que nasci é conhecida e há-de ser repetida mais vezes mas a verdade é que me vou esquecendo da miúda que já fui lá.

Honestamente, só consigo olhar para trás quando a isso sou obrigada. É, talvez, a minha forma recalcada de fugir às dificuldades que tive em crescer, em amadurecer e deixar de ser uma criança, a marca indelével que é ter sido a única rapariga da minha rua (da minha idade) em plena adolescência. Por isso, quando às vezes olho para trás, parece que só me vejo a partir de mil novecentos e noventa e sete, o ano da minha reinvenção. E ontem, com um deslumbramento envergonhado, voltei à altura em que era um bocadinho menos sociável e em que sofria os desaires do meu corpo se recusar a crescer.

Lembrei-me de repente dos bailes em frente à pastelaria sem nenhum grupo, só uma aparelhagem a tocar e a esperança infantil de que ele ainda aparecesse ali. Lembrei-me do acontecimento que era a benção dos carros em São Cristovão e da confraria e de como tudo isso significava poder desaparecer do baile sem ninguém notar. Lembrei-me de como assistia à procissão do senhor dos Passos sempre da mesma janela e sempre com o mesmo saco de torrão nas mãos. Lembrei-me dos domingos à noite em que, depois de jantar no Leitão em Caia, ouvia os discos pedidos com um pequeno transístor vermelho debaixo dos lençóis. Lembrei-me do cheiro às omeletes que a minha mãe fritava para o meu pai levar para o trabalho ainda a luz do Sol não rasgava aquelas persianas. Lembrei-me dos sofás de veludo cor de vinho e das tardes de Domingo, tentando dormir a sesta ao som do campeonato de fórmula 1. Lembrei-me de comunicar por sinais com a minha vizinha da frente e lembrei-me de brincar à Pedra sobre Pedra no prédio do lado. Lembro-me dos almoços no senhor dos Aflitos, das grades de minis dentro dos tanques, o Tó Miguel a apanhar beatas por todo o lado e os amigos do meu pai a cantarem o Perompompero. O mundo acabava na placa onde acabava a cidade e aquelas ruas eram minhas e da bicicleta em que caía sempre que tentava um cavalinho.

O que este filme me deu foi uma enorme sensação de simplicidade. Ver aquelas pessoas a discorrerem umas sobre as outras, sentir a tensão entre o rapaz e a rapariga, descobrir a estranha tradição que consiste em pregar pregos num tronco(enquanto se bebem minis), acompanhá-los por aquela serra acima - foi estar perto dessa pessoa que fui. E foi bonito ouvir só as copas das árvores revolvidas pelo vento e foi bonito assistir ao momento exacto em que começa a anoitecer ao lado daquele marco geodésico. Um céu daqueles não deve ter sido fácil de encontrar.

* site oficial aqui.

agosto 25, 2008

Ficção #4

Perguntas-te se a isto que vês se chama felicidade, se é assim que os teus olhos brilham quando cais a seu lado na cama, desfeito em suor, as forças esgotadas pelo desejo que não consegues conter, os lábios dormentes de tantos beijos. Não sabes com certeza se foi ela a conservar-te este sorriso mas é como se estivesses deitado e ela rolasse sobre ti e os cabelos longos te caíssem sobre o pescoço. Ela diz qualquer coisa que não consegues decifrar, é um poema em segredo feito de três palavras e das mãos com que te desenha de luz acesa. Estás suspenso no tempo e no calor húmido deste sótão onde acendes mais um cigarro que sorves como se dele pudesses extrair o sabor dela quando te provoca cautelosamente, como se ela mesmo tivesse na boca esse cigarro instantes antes e pudesses ainda resgatar o gosto a mulher deitada numa praia selvagem.

agosto 23, 2008

(Aquele também conhecido como provavelmente o último) dia de praia

Eram milhares de gaivotas à beira-mar por alguma razão que não consegui descortinar. A manhã estava muito fresca, corria um vento que chegava a ser desagradável mas estava um dia de Sol lindo. Não havia tanta gente na praia como esperava para este final de Agosto mas uma família muito chata escolheu ignorar todo o areal livre e montar o estaminé quase em cima de nós. A água fazia doer os ossos mas isto sabia estranhamente bem. Não sei quando vou voltar a estar assim estendida ao Sol. Pelo sim, pelo não disse Até para o ano.

agosto 21, 2008

São as vantagens de a ter outra vez perto de mim. Num dia, prepara uma entrada para tornar o jantar numa coisa mais especial; noutro dia, leva-me ao take away, onde enchemos três embalagens de sushi para comermos em frente à televisão. Também podia falar da maravilhosa sensação que é ter alguém à nossa espera depois de um dia de trabalho e da maneira como ela cuida de mim. Depois de dois anos sozinha, admito que foi estranho voltar a partilhar a casa. Mas a sensação durou apenas dois minutos, os mesmos que ela demorou a instalar-se. Não é, mana?

Wise words *

A lot of bad shit is gonna happen to you. People are not gonna love you back, and [...] that's the first thing you should learn.

(Um dia acordas e puf!, o teu amor já não está lá. Tu não percebes como, matas-te a pensar como foi possível chegar até aqui sem reparares em nada, todos os sinais a passarem ao lado, a eternidade em que confundiste amor com compaixão. É tão simples de dizer, é só Deixei de gostar de ti e é isto mas é impossível que algum dia venhas a compreender como é que uma bomba assim te aterrou no colo. Esquece tudo o que pensaste antes, esquece as coisas ditas ao ouvido durante a noite, esquece o suor a encharcar-vos os lençóis e as pernas tremendo depois do sexo, esquece as mãos que te acordam devagar, esquece pensar que o mundo é isto. O amor que era teu, aquelas noites em que não dormiam com a excitação de estarem lado a lado, as palavras que te atordoavam os sentidos e te obrigavam a sorrir num carro em andamento - tudo, tudo mentira. Não, não mentira mas tudo esgotado, tudo transformado num desconsolo tão profundo que te encostas à parede, sentado no chão e pedes baixinho que te venham buscar. Era isto que querias dizer quando dizias para sempre? Era isto que querias mostrar-me quando te pedia para calares as promessas? Para sempre é agora e os próximos cinco minutos, se acaso o amor ainda não se esfumou. Podias ter sido mais cauteloso e ter recusado o amor e podias ter pedido que te amassem apenas na medida certa, apenas o suficiente. Inverteste a ordem das coisas quando aceitaste tudo. E, da mesma maneira que tudo é a quantidade mais vaga que há, para sempre também só durou o tempo de te quebrar. Hás-de aprender a vergar-te.)

* depois de ver este filme.

agosto 19, 2008

No trabalho, é como se tivesse só buracos negros à minha volta: sugam-me toda a energia possível durante as sete horas e meia que passamos juntos, distraem-me com erros em catadupa e com perguntas estranhas. Fecham-se na casa de banho a falar ao telefone de hora a hora, inventam esquemas para virar o horário a favor deles. A minha chefe pergunta-me cinco vezes, dez vezes antes de sair se está tudo sobre controlo. Por instantes, não sei se ela fala do trabalho que fiquei de organizar ou se de mim e hesito na resposta. Às vezes, fico tão desanimada com as pessoas em geral que tiro prazer de fazer o caminho para casa a pé, a música a isolar-me dos ruídos exteriores. Consigo fingir que há uma mão gigante que desce do céu e recolhe as pessoas (para onde não sei, uma nuvem qualquer) para um castigo qualquer, para um sítio onde se ensina o civismo.

Enquanto imagino um mundo mais vazio, enquanto atravesso um jardim da Estrela cheio de velhinhos, meninas com trotinetas, bebés estrangeiros deitados na relva, testemunhas de Jeová e turistas de meia idade, o que me vai valendo é isto. Chamam-se Bowerbirds mas também se podiam chamar só conforto.



You're in our headlights, frozen, and no, we're not stopping.

agosto 16, 2008

O boné do poder

Também conhecido como o boné mágico, já viu reconhecidas as suas propriedades indutoras da diversão por variadíssimas pessoas na casa dos vinte e qualquer coisa. Pode provocar vontades súbitas de dançar, amor incondicional pela objectiva e excesso de boa disposição. De forma a potenciar as suas muitas qualidades, é recomendável que seja usado também pelas pessoas que o acompanham. As contra-indicações referem apenas alguma falta de discernimento e ausência de sono. Seja responsável, use-o com moderação.

Bonés e outros barretes podem ser apanhados aqui.

agosto 13, 2008

M. e o avanço na estrutura corporativa

O programa das festas não era nada animador. Primeiro, falou-se de dois dias inteiros, sem conhecermos o horário. Depois passou apenas a ser um dia, com um brilhante horário das nove às cinco. E melhorou muito quando chegou o dia e descobrimos que o horário afinal não excedia as três e meia da tarde. A formação ia ser dada por um colega inglês vindo expressamente para o efeito e os resultados analisados em grupo e individualmente. Não era um dia facultativo mas não senti nenhuma pressão, nenhum inconveniente em ser estudada daquela maneira.

À chegada, encontramos um (atenção: preconceito!) invulgarmente atraente formador inglês. Louro, alto, certamente mais novo que eu e com um sotaque adorável, apresentou o plano do dia. Fomos avaliados em grupo e depois individualmente por pessoas diferentes. Foram-nos dadas situações vulgarmente associadas com a gestão de orçamentos e de pessoas e todos tivemos que tomar decisões, apresentar argumentos, esgrimir opiniões apaixonadamente. Tive sorte com o resto do grupo: foi muito fácil chegar a consensos sem nenhuma batalha campal e sem que apenas uma pessoa assumisse o protagonismo. A única coisa que tornou o exercício mais intenso e algo cansativo foi o facto de tudo ser feito em inglês: os debates, o relatório sobre e-learning, a apresentação individual. De resto, senti tudo como um jogo.

Quando penso nas palavras da pessoa que coordena todos os departamentos lá do prédio, sinto-me meio desconfortável. Serviria este dia para conhecer as nossas necessidades de formação, preparar-nos para dar o passo para a posição seguinte dentro da empresa. Nunca recusaria a oportunidade de progredir e tenho a agradecer as duas oportunidades que já tive até agora. Mas, como é evidente, quanto mais alto se sobe, menos as pessoas contam. Vamos deixando de trabalhar com elas e passando a contar com elas como números numa tabela qualquer, vamos ficando cada vez mais sozinhos. Só que, sendo uma pessoa medianamente ambiciosa, percebi que se vai aprendendo esta frieza pelo caminho e que, como algumas pessoas já me mostraram, podemos manter as pessoas sempre a nosso lado. Se haverá outra promoção, não sei. Mas sei que enquanto tiver este espaço para a parte de mim que está cheia de romance e poesia e música, viagens e amigos com quem beber cerveja, desgostos e desilusões serei menos máquina e mais carne. Portanto, salvem-me enquanto puderem :)

agosto 09, 2008

Saturday night live

No quintal das traseiras, os meus vizinhos gritam por qualquer jogo que dá na televisão. Por momentos, fico mesmo com a sensação de que se joga qualquer coisa importante, tal é o entusiasmo com que festejam. Provavelmente, na rua corre uma brisa deliciosamente fresca que eu não sinto sentada no sofá e eles aproveitam para deslocar a televisão para o quintal minúsculo, de onde sobe também um insuportável cheiro a petróleo. No condomínio fechado não se ouve um pio e as portadas estão todas fechadas há bastante tempo.

Há uma ideia que me persegue há dias: é esta ideia de que, quando falamos de esquecer, eu sou um autêntico desastre. Como o McCarthy dizia You forget what you want to remember and you remember what you want to forget e eu começo a pensar cada vez mais que este processo todo não é involuntário. Juro que me esforço para esquecer porque sei exactamente quais são as consequências desta persistência e juro que, em todos os dias que passei longe de casa, foi tudo mais fácil de ignorar. Mas é só voltar, é deitar-me uns minutos na minha cama de casal e meio e está tudo absolutamente perdido. Depois disso, segue-se o momento em que tomo o pequeno-almoço, os instantes que demoro a chegar ao carro, todas as paragens nos semáforos, a viagem de elevador do zero ao seis, os segundos que os programas demoram a abrir, o almoço sozinha, as compras no supermercado, a sesta, o parapeito da janela depois de jantar - tudo contaminado e com a minha autorização.

Já mudei a música e levei o volume àquilo que é permitido no meu condomínio minúsculo, onde sou a única pessoa que não faz parte da família. Já folheei o simpático livro oferecido com o Público mas estanquei na primeira página quando li Não posso adiar o coração. Não é a primeira vez que ouvi/li isto mas às vezes precisamos de estar preparados para receber as dádivas das palavras, estes segredos que nos rouba o poeta sem saber. É preciso crescer, amadurecer os amores e os desgostos, acumular os cabelos brancos. E se pudesse, também eu adiava esta trapalhada toda a que chamo vida e da qual me esqueço quando estou longe. Até ao momento em que fosse claro o que fazer a seguir. Porque, francamente, não sei. A não ser beber mais um copo de rosé e embriagar-me com as palavras destes poetas todos. E com as imagens que luto por exorcizar. Sem êxito, a distraírem-me uma e outra vez.

Dormir mais feliz #16

Truth telling lies
Love says goodbye
Dreams won't dream on their own
Shadows disappear
Love turns to fear
Compromises, ties and bonds

agosto 06, 2008

Fragmento (s) *

[...] Quem te dera teres-lhe este amor. Quem te dera que ele pudesse ser o homem que imaginaste sempre que não conseguias dormir – sempre. Ele é bom e é bom para ti mas, quando pensas nele, há sempre um mas. Só que ele agarra-te pela cintura e fala-te de estrelas e diz que és uma cidade com muitos corações a baterem dentro de ti, que as ruas ensolaradas de Lisboa são como os caminhos do teu afecto, que os teus cabelos negros são as amarras invisíveis que o prendem aqui, que tens nos olhos todo o encanto das tardes de Verão passadas na Sra. do Monte. [...]

[...] Querias retribuir-lhe a poesia com mais poesia mas não sabes amá-lo doutra maneira. O tempo e a tua fraca habilidade para escolher foram roubando a tua capacidade para te abandonares ao amor. Por isso, amas o facto de ele te amar tão cegamente, amas o teu próprio reflexo nos olhos dele e sofres com esta sensação profunda de egoísmo que não tem remédio. Quando escolhes a camisola menos gasta, é em ti que pensas, é naquilo que vais encontrar quando ele olhar para ti. E como não lhe podes oferecer mais que este amor refreado e parcialmente triste, és totalmente sua para que nunca o possas magoar, para que a tua dor de ser não rasgue um dia as veias dele também. [...]

* da ficção que reclamo para mim própria.

agosto 04, 2008

Estorãos e Paredes de Coura ♥

Outros recuerdos aqui :)

Não sei se conseguia voltar mais contente. Foram dias tão relaxados, com uma leve rotina diária que se resumia a pequeno-almoço servido sempre a horas, a manhã na piscina que partilhávamos com dois casais ingleses e respectivos rebentos, almoço frugal e rápido, deliciosa sesta para retemperar e concertos o resto da noite. Já me tinham dito que lá em cima é que é, que o cenário é (só ele) razão para fazer estes quilómetros todos e eu venho de lá completamente rendida às evidências. Se a isto somarmos o Sol todos os dias, as pessoas bonitas, os carros dos emigrantes em todas as aldeias em festa, menos de dois minutos para pedir qualquer coisa em qualquer balcão, os sinos a tocarem a cada quinze minutos, podemos concluir que sou uma pessoa de sorte.

(Gostei tanto do concerto dos Editors e de sentir à noite aquele frio que não se faz anunciar, vai-se enrolando nos ossos até nos apercebermos que estamos gelados. Gostei do café dos emigrantes e da ponte romana de onde mergulhavam para uma ribeira. Gostei da gente que enchia as ruas de Ponte de Lima, das pessoas que estendiam a toalha à beira rio e almoçavam nas mesas de campismos. Gostei que os Lemonheads me tivessem levado a um tempo do qual pensava não ter boas recordações mas em que, afinal, também fui feliz. Gostei de poder beber uma cerveja à beira da piscina, como as vizinhas inglesas, e um Alvarinho ao almoço. Gostei de dançar, primeiro timidamente, depois absorta em mim mesma, criando uma pista imaginária onde me deslocava sozinha, onde era esmagada pela batida. Gostei de andar perdida durante duas horas enquanto não achávamos o caminho para o festival, uma da manhã, duas da manhã e ainda não se ouve nada, vê lá se não podemos virar aqui, talvez estejamos a andar na direcção contrária. É tudo tão simples quando nós deixamos. É tudo mais fácil quando evitamos que a realidade nos sabote a estadia naquele paraíso intocado, com esforço, com a estóica coragem de impedir as fantasias de avançarem e perturbarem aquele silêncio só rasgado pelo toque dos sinos. É tudo tão fácil quando eu quero, é tudo tão óbvio que empurro aquela imagem para longe, para fora, rejeitando a felicidade a acontecer à hora marcada. Foi tão, tão bom mas é pena que conjuguemos este verbo sempre no pretérito.)