novembro 28, 2008

Em jeito de telegrama mas sem poupar nas palavras!

Fotografia (descarga invulgarmente rápida, hã?) do grande JER

(Depois de um dia inteiro de formação com um simpático senhor que deixou para trás Inglaterra e assentou arraiais em Gibraltar, com quem partilhámos um dos piores almoços de sempre em que um bocado de plástico fingia ser o molho bechamel dumas migas de bacalhau; depois de correr para casa sem tempo de fazer a mala nem um lanche, apenas enfiar duas ou três tangerinas na mala e perder o eléctrico que devia levar-me ao meu destino; depois do largo de Camões estar às escuras durante mais de uma hora e nós no terceiro andar termos uma lanterna minúscula com que criámos o belíssimo ambiente da nossa conversa; depois da luz voltar e beber todo o chá que conseguia aguentar e fazer o esquema do primeiro -haverá mais?- filme que vou escrever; depois de comer uma bela bifana acompanhada de uma imperial ao balcão duma cervejaria em plena avenida da Liberdade, na bela companhia deste rapaz e ao lado de dois espanhóis que despachavam uma sapateira) fui ver os The Big Church of Fire ao Maxime.

E gostei muito do que vi mas a minha provecta idade já não me deixa aguentar espectáculos divididos em sete partes e no trabalho hoje não iam ter pena de mim. Aquelas moças que eles põem a dançar lá atrás... Que maravilha. Quero ser uma rainha da selva como elas e menear aqueles adereços todos como quem está a fazer a coisa mais natural do mundo.

E hoje queria ir dançar e beber cervejas frias na mais gelada cidade do meu coração mas a chuva lavou-me um bocadinho da vontade que tenho de conduzir no escuro e sobre lençóis de água. De maneiras que hoje descansarei, jantarei outra vez sozinha e colar-me-ei a um ecran qualquer. Exactamente a sexta-feira de que precisava.

Not.

novembro 25, 2008

I wish I was a better version of myself

Com o avançar da idade, julguei que aceitar a mudança, resignar-me a desiludir-me aos bocadinhos e resistir ao stress seriam coisas que surgiriam naturalmente. Não podia estar mais enganada. Especialmente em dias como o de hoje (em que deixo quase tudo por fazer na secretária, tento convencer pessoas a não se despedirem, tento envolver outras pessoas no trabalho para aligeirar o ambiente, passo a tarde em formação numa sala minúscula de hotel sem ar condicionado, estendo-me sobre os paralelos na rua Viriato - para prejuízo da minha perna e braço esquerdos-, volto ao escritório para resolver os pendentes, chego a casa quase duas horas depois do habitual e fico sem tempo ou vontade de correr), é muito difícil não vacilar um bocadinho.

Sou uma mulher adulta sem tolerância nenhuma à frustração. Sou fraquinha, se preferirem. E não há nenhuma formação no Mundo que me ensine a ser diferente. É só uma questão de saber disfarçar.

novembro 23, 2008

As minhas noites são mais belas que os meus dias v

Mas nem assim me consigo esquecer que estou cheia de saudades dele.

novembro 22, 2008

La frontiere de l'aube

ANTES (de me sentar no King):

Não sei olhar para ti sem me comover com a maneira como desvias o cabelo naqueles dias ventosos em que pareço distante e em que me esqueço dela. Quando estamos longe, é exactamente este o momento que repito em segredo, é com esta imagem que me convenço que afinal ainda te quero, que o Outono sem ela é uma estação cheia de folhas douradas que revolvemos com a ponta dos nossos sapatos. Fechas os olhos quase timidamente enquanto levas a mão à cabeça e é tudo tão delicado que me sinto incrédulo - esta mulher tão bonita caminha comigo, eu podia amá-la se ela me incendiasse a todas as horas, se alternasse a candura com a luxúria de uma noite em branco. Quero-te mas deixo que o vento te mantenha segura, longe de mim, longe do meu desejo de te destruir os sonhos.

DEPOIS (de me sentar no King):

Meu amor, não sei se te hei-de chamar assim. Amo-te mas não te quero, não é por ti que entro naquele estado febril que me queima desmesuradamente, que me encharca os momentos mortos. Quero dizer-te adeus mas tu olhas-me com essa doçura tão grande, olhas-me sem pressa, como se o meu castigo fosse o teu amor por mim. Quero fixar a placidez com que encostas o teu rosto à almofada e a forma como encaixamos durante o sono, tu tranquila, eu consumido pela imagem dela. Quero que sejas o meu amor, quero ouvir-te dizê-lo e prometer que estarei para sempre junto de ti mas as palavras há muito que me deixaram e só sobrou o nome dela em delírio. Quero deitar-me devagar, a rua em alvoroço lá fora e a tua luminosidade como um foco de paz dentro do quarto. Mas quando fecho os olhos, tudo o que vejo são os cabelos louros dela e tudo o que sinto é a vertigem da saudade. Salva-me, se podes. Não podes.

novembro 21, 2008

Sobre pessoas que nos conhecem bem *

Não desfazendo de outros presentes escolhidos, também eles, de forma cuidadosa, esta folha que vêem aqui em cima esteve no topo das minhas preferências deste ano. Foi-me enviada por correio azul directamente da zona de Loures e chegou mesmo, mesmo a horas. É, nada mais, nada menos, que a setlist do concerto dos Dead Combo em Portalegre, com a dedicatória dos artistas à menina aniversariante. Tirando o facto de ambos escreverem o meu nome com z, foi uma prenda mesmo bem sacada. E portanto acho que renderam todas as noites que passámos a conversar no agora moribundo IRC e todos os CD's que me levavas para ver se gostava e as conversas intermináveis à porta do Crisfal à rasquinha para ir à casa de banho. Contigo é tudo simples e a conversa nunca morre. Por isso é que são 11 years and counting, compadre.

*e sim, juro que agora acabou a graxa. Definitivamente.

novembro 19, 2008

Tenho andado a deitar-me com estes dois.

You'll have to forgive him. He's from Barcelona.

São bons no sofá mas são ainda melhores na cama. É que parece-me que o meu riso assim faz menos eco e o meu sono, ainda que velado pelo irascível Basil, tem chegado de mansinho.

novembro 18, 2008

Estado em que se encontra este blog *

[...]

But
if each day,
each hour,
you feel that you are destined for me
with implacable sweetness,
if each day a flower
climbs up to your lips to seek me,
ah my love, ah my own,
in me all that fire is repeated,
in me nothing is extinguished or forgotten

[...]

* imerso em trabalho durante o dia, afogado na poesia de Neruda durante a noite. Se me dão cinco segundos em que não tenho que me concentrar, perco-me indefinidamente em recordações. Ainda me custa o silêncio e a semana anterior não é muitas vezes mais que um borrão que tento (à força) resgatar das garras de memória que a insiste em ignorar. Mas resisto e assim travo todos os suspiros que sinto formarem-se no meu peito.

novembro 16, 2008

Jana Hunter + Beach House @ CAEP

(Não há grande coisa a dizer. Apenas que foi a última noite antes de voltar à vida, depois de andar mais de uma semana completamente afastada do mundo real, abrigada pelas asas dos pais e presa por um país inteiro. Talvez seja disto que preciso, de acordar sempre à mesma hora, de não conseguir ordenar as minhas prioridades diariamente, de não ter tempo. Os dias livres trouxeram-me a calma mas agudizaram-me a melancolia. Não há nada que me arranque aquelas imagens da cabeça.)

novembro 15, 2008

I'd rather be dancing with you

Precisava definitivamente de me distrair e consegui da forma mais simples que conheço: música. Primeiro, música para ver; depois, música para conversar e, finalmente, música para dançar. Enquanto o som está alto, tenho menos espaço na cabeça para pensar e liberto o resto do corpo para a dança. Numa discoteca quase vazia, fui rainha da pista ao som dos Metallica e dos AC/DC - era como se tivesse catorze anos de novo. Aliviada pelo som, deitei-me pela primeira vez em dias sem pensar em nada. Deitei-me e dormi. Não quer dizer que doa menos, só significa que hei-de conseguir manipular a dor.

(na foto, a Digei Nossa Senhora, responsável por parte deste alívio)

novembro 13, 2008

Ver nacer el dia en Bruselas *

Sem esforço, consigo ainda ouvir o som do teu riso ou perceber que tentas inventar qualquer coisa para me fazer rir. Insistes que podia cantar jazz, enquanto eu desminto e digo que não sei cantar nada mas tu achas que nunca experimentei e dizes que gostas da minha voz, gostas da música que faço quando falo. As nossas conversas são cascatas de curiosidade que correm sobre olhos que fazem perguntas em silêncio, que dizem tudo o que só conseguimos dizer quando estamos sós. Respondo a todas as tuas perguntas sem sequer pensar no que digo, só para te satisfazer, só para falar em círculos, só para evitar que as coisas se precipitem.

Há um mapa-mundi que me mostra a distância que sempre nos separou e aquela que se colocou entre nós agora. Eu olho seriamente para ele, como se pudesse antecipar esta sensação de abismo em que nos envolvemos. Mas logo o teu cabelo preto me prende a atenção e logo as tuas mãos ossudas e pequenas me distraem e logo os teus olhos se prendem nos meus tão demoradamente e está calor enquanto o vento uiva e abre repentinamente a janela. As horas parecem intermináveis enquanto me abraças com tanta força e te levantas e pegas na tua caneca de chá e matas a sede, são infinitos minutos a saber o que estamos a perder, uma pequena eternidade tentando gravar todas as memórias em que nos enrolamos devagar. Fingimos que amanhã vai ser igual e depois de amanhã vamos estar no mesmo sítio para aliviar o sufoco da saudade que já ataca mas sem grande sucesso. Enquanto o dia nasce, enquanto a claridade transforma os nosso olhos em pequenas pérolas negras, despedimo-nos o mais serenamente que conseguimos. Sem olhar para trás uma única vez, sob pena de nunca mais conseguir ir embora.

Não me interessa o que fazemos a seguir. Eu não vou esquecer.

*ou carta a J., mi estrella invisible

novembro 12, 2008

Lisboa-Bruxelas-Gent-Lisboa *

Preparo a menor mala que consigo para não me atrapalhar e deixo uma Lisboa chuvosa para trás. É uma eternidade que demoro até chegar ao meu destino, horas perdidas num aeroporto cuidadosamente desenhado e assustadoramente silencioso em que quase consigo ler um livro duma assentada só.

Bruxelas espera-me com o seu tempo instável e frio, a lembrar-me que aqui o Sol é realmente uma preciosidade. Pouso as malas e levam-me a jantar a um restaurante português feio e mal decorado mas com o melhor e mais original bitoque de que há memória. Atravessamos a Grand Place toda iluminada. A noite passa-se entre este sítio aqui e uma discoteca com os piores êxitos dos últimos tempos, onde nem a cerveja pesada faz esquecer a fraca performance do DJ. Conheço pessoas novas, tanta gente do Mediterrâneo e revejo caras conhecidas, sempre a oscilar entre duas ou três línguas diferentes.

Fazemos um piquenique no parque, apenas interrompido pelo vento gelado que estragava aquele dia de Sol. Levam-me a um vigésimo primeiro andar com a vista mais maravilhosa da cidade e eu tremo com as vertigens antes de dormir a sesta numa cama até agora desconhecida. Janto pela primeira vez num restaurante africano, onde como as mais deliciosas asas de frango de todo o sempre e onde quase acabamos a dançar. Festejo os anos de alguém que não conheço e somos nós, os portugueses, que vamos tomando conta da música, alternando entre a playlist da anfitriã e as recordações de outras décadas.

Apanhamos um comboio e, meia hora depois, chegamos a uma Gent aparentemente abandonada e demasiado fria. Andamos, andamos e andamos, às vezes debaixo de uma chuva nervosa, da qual fugimos para uma cerveja e um capuccino que demoram a chegar. Fazemos concursos para ver quem consegue fazer a cara mais séria e eu perco sem apelo. Baptizamo-nos de Toppo Giggio e o Coco Pops depois de fazermos mais concursos absurdos.

Posso ser analfabeta funcional porque não saber ler uma reserva de voo acabou a custar-me muito dinheiro. Corro, quase desfalecendo, entre terminais no aeroporto de Madrid, certa de que o pesadelo ainda estava longe de acabar. Mas tudo o que quero mesmo recordar está guardado, trancado dentro da sua própria impossibilidade, condenado a nunca se repetir. Quando pouso as malas em casa, enfio-me de imediato debaixo do chuveiro e, ao contrário de todos os outros regressos, não é alívio aquilo que sinto hoje.

*mais fotos, como sempre, aqui.

novembro 11, 2008

Regresso quatrocentos e setenta euros mais leve e completamente desorientada. Não foi à procura deste desconsolo que dói que levantei voo em primeiro lugar, não foi buscando esta dor. A vida insiste em tornar-me pequena, em impedir-me que me sinta completa. Em vez de histórias para contar, hoje enterrei-me em silêncio, apenas com a esperança de poder ver o mundo novamente, amanhã.

Dói.

novembro 07, 2008

Então,

até já.

novembro 06, 2008

Trinta menos um

Vinte e cinco mais quatro. Dezoito mais onze. Nem por isso tenho menos medo do escuro ou choro menos quando vejo uma boa história de amor. Não sei onde se meteram os outros anos todos nem o juízo que supostamente já devia ter chegado. Chegou o momento de cruzar a última fronteira. São vinte e nove anos de alguma desorientação, certezas abaladas, vontade de arriscar e muitas descobertas. Que seja um ano para nunca mais esquecer.

novembro 05, 2008

verb pronominal empanturrar-se [ẽpɐ̃tu'ʀarsə] comer muito

Da maneira que as coisas andam por aqui, esta é a única forma de me empanturrar que posso permitir. Não é que a disciplina seja espartana mas subsiste o respeito por uma ou duas regras do regime alimentar, que, genericamente, dizem que devo comer melhor. E bem, peixe, fruta e arroz parece-me a combinação perfeita. Além disso, a casa ficou às minhas ordens e as férias começaram há coisa de umas quatro horas, o que quer dizer que não faço mais do que o essencial. E isso implica, por agora, não mexer uma palha na cozinha - só destapar e voltar a tapar as caixas onde o sushi vem. Nem os pauzinhos uso, que a minha coordenação motora não vale nada. E agora ficar a gozar esta sensação de que o estômago vai alargar a qualquer momento, deitada no sofá vermelho, numa noite sem nada para fazer - só curar esta sensação de enfartamento. E rir-me quando vejo um monstrinho a espreitar ali em cima.

Entre os dedos *


É um filme feito de olhos escuros que se interrogam mutuamente, que se esquivam às perguntas e que se acusam em surdina. Estes rostos gastos, as olheiras não disfarçadas e as mãos nervosas valem mais do que qualquer diálogo no filme, contam-nos mais sobre quem fala. Estamos condenados aos formigueiros dos subúrbios, aos medicamentos que conseguimos desviar e ao silêncio sobre todas as coisas. Quando quisermos falar, gritamos. Quando quisermos calar, deixamos as lágrimas cair.

*um filme a evitar em alturas menos felizes. Para que o nó no estômago não aperte ainda mais.

novembro 03, 2008

(...)


Bon Iver, Flume

Não sei porquê. Talvez seja de me ter, finalmente, apercebido que o frio está aí e que as nuvens em casa parecem carregadas de neve em vez de chuva. Talvez esteja relacionado com o facto de ter calçado meias para dormir pela primeira vez e já me apetecer uma braseira. Talvez não me apeteça fazer anos se não me sinto com esta idade, se não sei que idade tenho. Talvez me falem às vezes das pessoas que não têm mais ninguém e do marasmo em que se afundam e eu não acredite ser imune. Talvez dançar não chegue. Talvez um chá não aqueça. Talvez tenha demasiadas saudades de quem não devo. Talvez as pessoas nunca sejam mesmo aquilo que parecem. Talvez precisasse de travar abruptamente o rumo das coisas. A nossa tristeza nasce onde? Faz-se de quê?

novembro 02, 2008

Eléctrica Cadente

Dois homens contrariam a imensa escuridão do palco. Um não tira os óculos escuros, o outro esconde-se debaixo de uma velha cartola. Quando tenta explicar o que o fez escrever uma música, atrapalha-se docemente. Bate-se o pé sobre o estrado, sobe o pó da alcatifa debaixo dos projectores e um prato vibra fora de ritmo. O jogo de luz é sublime, cobre-os de sangue e de luar à vez, dá-lhes a nitidez da luz de Lisboa enquanto se desce uma calçada, esconde-os numa travessa de onde se vê o Tejo. São só dois homens e oscilam entre desamparados e donos de tudo. A música diz muito mas está cheia de espaços que preenchemos com as imagens que temos dentro: uma janela para o rio, miradouros mal tratados, o cheiro das primeiras flores e da roupa lavada, um salão de baile onde só dança um par, dois homens que posam num porto abandonado.

(Os Dead Combo estiveram ontem no CAEP e, dois anos depois, voltei a vê-los. Num momento ou outro, contive tímidas lágrimas de alegria. É deles tanta da minha inspiração, foi da música deles que nasceram tantos dos meus caracteres. Duma guitarra e dum contrabaixo se faz a beleza de Lisboa numa vagarosa tarde de Verão.)

novembro 01, 2008

é-lou-ine

foto minha e foto da T.

e depois ele disse-me que eu sou demasiado complicada e eu disse que ele já sabia, já me conhece há onze anos e ele acrescentou que me tornava mais complicada a cada dia que passa e que a minha sorte era ele gostar de mim assim e eu insistia que vejo através das pessoas, que sou medium, que quero que me contratem por isso e ele riu-se, olhou para mim para tentar descobrir se eu falava a sério e, quando viu que sim, riu ainda mais e mudou de assunto para me dizer que sou conservadora, ele acha-me conservadora, ela acha-me conservadora e não devia ser assim, disse-me que os homens gostam de ser seduzidos e pronto, e depois quem se riu fui eu porque sei que os homens gostam de ser seduzidos, só que gostam de o ser por várias pessoas ao mesmo tempo, não têm noção nenhuma de exclusividade e quando o puxaram pelo braço, era tarde demais para eu ir dançar e fui para casa, a tentar imaginar a quem podia enviar uma mensagem inconsequente depois das quatro da manhã

outubro 31, 2008

Rai di sabi *

Hoje almocei num sítio onde se pode dançar. Melhor do que isso: há pessoas que têm tempo e vontade de dançar durante a sua hora de almoço e que interrompem tudo para se colarem durante alguns minutos. Há tanta gente ali perto que come de pé, que espera demasiado tempo por uma mesa, que come os mesmos pratos dias a fio. Isto foi uma espécie de revelação, um testemunho apenas passado a quem realmente o merece. Eu achei fabuloso. Nem mesmo a cachupa fria sabe mal quando se tem tempo para uma morna.

(foi na Associação Caboverdeana, ali na Duque de Palmela. É um oitavo andar com uma das vistas mais deslumbrantes sobre Lisboa, discreto e bem aproveitado e muito muito concorrido. Tem música ao vivo às terças e quintas. É para experimentar e repetir com dançarinos à altura!)

* muito gostoso

outubro 29, 2008

Ficção #9

Terias o cinzeiro preso quase debaixo do teu queixo e terias um olhar pensativo, como que perguntando como é que se chega aqui. E eu estaria aflita, sem saber como prender-te naquela posição até que te cansasses, a tentar imaginar o que estarias a imaginar. E depois viria o silêncio que nos impomos após os beijos e viria o desconforto provocado pela saciedade dos corpos. Os teus olhos repousariam no tecto e os meus perder-se-iam na tua nudez, dois corpos resgatados dum naufrágio de prazer, tentando recuperar forças e fôlego e evitar a mácula que este desejo derrama (constantemente) sobre nós.



[Sei que, brevemente, toda esta poesia está condenada a morrer. Enquanto não destruímos isso também, limito-me a perder-me em fantasias contínuas e a sentir esta desconcertante revolução interior. Se o fim já tem data marcada, quero-o absoluto dentro de mim.]

outubro 28, 2008

E agora, se me dão licença.



[Update: não gostei. Hoje é tão simples quanto isto. O Coliseu estava demasiado vazio, não se sentia aquele ambiente de festa no ar e o concerto não foi muito entusiasmante. O Lux é definitivamente o sítio para as CSS fazerem a festa e, por isso, vou riscar da memória a noite de ontem e lembrar-me só do concerto do ano passado. Foi pena, especialmente por causa daquela bola de espelhos com um efeito estrondoso sobre o público. Havia ali material para festa, só não me (lhes) apetecia muito festejar.]

outubro 26, 2008

Janela indiscreta

Quando tento perceber que tempo faz lá fora, vejo um rapaz de tronco nu, encostado ao vidro. Tem um ar distraído e uma fita a prender-lhe os caracóis. Parece estar ainda a acordar, mesmo às duas da tarde. É a mesma casa onde costumo ver duas mulheres de meia idade fumarem, antes mesmo das sete, de robe apertado e encolhidas pelo frio da manhã. Pergunto-me se é filho ou talvez amante de uma delas. Queria mostrar-lhe a minha curiosidade mas não consigo mais do que espreitar pela fresta da janela minúscula. Há metade dum romance a nascer-me na cabeça e eu sem paciência para me sentar a escrevê-lo.

(sabes, habituava-me a isto
habituavas-te a quê?, pergunta ela
a acordar aqui e a ver-te dormir enquanto desfazes o que resta da cama
e depois?
e depois bebia o café aqui mesmo, encostado ao vidro, enquanto pensava em ti
e o que é que os vizinhos iam pensar?
que, para acordar assim, me deitava com a mulher mais maravilhosa que existe)

Alegres noches, tristes mañanas

Não gosto de Domingos depois de Sábados eufóricos. Não gosto que esteja Sol e eu esteja sozinha. Não gosto de casais disfuncionais que resolvem separações aos gritos em pleno jardim e em frente aos filhos. Não gosto que a sesta me pareça uma boa maneira de fazer avançar as horas. Não gosto de Domingos mesmo quando não tenho que viajar. Não gosto desta espécie de vazio que me consome no silêncio. Ouço a mesma música vezes sem conta porque é a única que parece ter este dia lá dentro. Gosto muito de estar sozinha, não gosto de estar só.

As minhas noites * são mais belas que os meus dias iv

Jantamos os três onde só deviam sentar-se dois mas já sabemos organizar o nosso espaço assim. Procuramos a cerveja no mesmo sítio de sempre porque é ali que nos habituámos a estar, encostados àquela porta, sempre à espera que passe mais uma cara conhecida. Deixam-me levá-los a um sítio onde, prometo, não somos esmagados pela metade de Lisboa que enche estas ruas ao fim de semana. Sossegados, vamos à vez buscar a cerveja e voltamos ao nosso posto de vigia. A luz é de um amarelo doentio e a conversa resvala quase sempre para a palhaçada. Pela primeira vez, cedemos os três e admitimos o nosso sono quase em uníssono. Mesmo com uma hora a mais, por hoje já chega.

* as minhas e as dos outros que vão a casamentos finíssimos que começam às quatro da tarde num cenário de sonho e que têm que beber os maravilhoso cocktails que são servidos enquanto conversam com pessoas interessantíssimas. As nossas vidas são horríveis :)

outubro 25, 2008

Aos Sábados ao Sol ii

Procuramos o caminho mais curto para podermos aproveitar este dia maravilhoso. Há uma fila interminável de pessoas que querem chegar ao mar, por isso contentamo-nos com o rio. É Outono mas continua a parecer Verão. Provavelmente alguém trouxe o bom tempo de longe... E este céu azul pode ser breve mas é muito bom poder andar ao Sol quase em Novembro.

outubro 24, 2008

Mulher

Hoje, numa simpática oferta deste sítio onde já me sinto em casa, fui até ao Doc Lisboa, ver o documentário brasileiro Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho. A ideia era que mulheres comuns contassem a sua história e depois que essa mesma história fosse interpretada por actrizes profissionais. Gera-se, durante o filme, alguma confusão sobre quem são as mulheres comuns e quem são as intérpretes. Confunde-se a dor real com a dor que se vai buscar a um lugar muito escondido da nossa memória e às tantas não sabemos se são lágrimas reais aquilo que vemos.

São histórias interessantíssimas e impregnadas de vida contadas na primeira pessoa. Muitas delas são tristes e envolvem a morte ou o abandono. Outras são de uma vivacidade impressionante, uma espécie de graça própria das mulheres que nasce da facilidade com que nos equilibramos entre tantos sentimentos. Curiosamente, quase todas falam de sonhos e das revelações que esses sonhos trazem consigo, criando à volta destas mulheres uma aura mística profunda. Todas (os) nós temos histórias para contar, quer sejam de vida ou episódios (aparentemente) banais. É esta riqueza que me faz (ainda) não desistir das pessoas.

outubro 22, 2008

Direito de resposta

uma fotografia do Jer

Para o D., um instantâneo do momento em que lhe lia as palavras numa varanda sobre telhados tranquilos e de onde se podia ouvir o mar

Os dias às vezes trazem três estações *

Exausta da tosse que não me larga há duas semanas, chego a casa e a minha única vontade é esconder-me debaixo dos lençóis. A minha parceira da corrida ainda tarda e eu quero estes momentos sozinha. Esta tosse é a mesma que me mantém acordada, altas horas da madrugada. Contorço-me na cama, levanto-me à pressa para juntar mel e limão mas quando o despertador toca já eu estou acordada há muito. Enquanto desperdiço o meu sono, não consigo parar de pensar nas mudanças no trabalho, no exame que falta, nos abraços que invento. Lentamente, descubro-me a sucumbir ao mais básico truque de ilusionismo que conheço, sem vontade nem força para parar. No fundo, queria que fosse tudo mentira. E assim poderia dizer que, mais uma vez, eu tinha razão. Mas o meu coração não é feito dessa matéria, tenho um coração sonhador. É por isso (talvez) que tento descobrir o truque mas acabo sempre a deslumbrar-me. Acho que sinto (muita) falta da magia.

* a amanhecer Outono, dar ares de Verão e terminar invernoso. Mais ou menos como o que se passou dentro de mim.

outubro 20, 2008

Ficção #8

Dás a ti mesmo mais uns momentos de reserva para que possas decorar as linhas imperfeitas daquele corpo e para que possas imaginá-la na tua cama sempre que o desejo falar mais alto. Queres cobrir aquela pele de beijos mas são as tuas mãos que avançam primeiro, respondendo apenas ao teu instinto. A expressão dela está escondida atrás dos olhos que fechou ao sentir a tua pele, é um estado feito de arrepios e de língua humedecendo os lábios copiosamente, é um dedo levado à boca para refrear o prazer. Com a boca quase colada à dela, dizes-lhe qualquer coisa de que já não guardas nenhuma recordação mas é a preparação, é o ensaio para o momento em que acaba toda a encenação e os dois corpos já não se conseguem distinguir debaixo da luz fraca daquele abajour deformado pelo calor.

Enorme ♥


Is it bad that you're good for me


Did I love you just randomly

I'm caught in the flow of sounds

And you're just some melody





(os dEUS tocaram esta noite na Aula Magna de Lisboa e eu estive presente outra vez: a suar, a cantar de olhos fechados, a enamorar-me ainda mais do Barman)

outubro 19, 2008

As minhas noites* são mais belas que os meus dias iii

Million Dollar Lips (myspace aqui). CAEP. Numa sala pouco composta, conseguem terminar o concerto com as pessoas a dançar mais perto deles. Nada neles é deixado ao acaso: as plumas que se enrolam no pescoço, o eyeliner muito preto, a gravata impecável debaixo do colete. Fazem uma versão surpreendente da Let's Dance do Bowie, a quem (aparentemente) vão buscar muita inspiração. Os sintetizadores chegam directamente dos anos oitenta, tudo o resto é negro glamour.
Jay-Jay Johanson (myspace aqui). CAEP. Um homem muito magro e muito alto entra timidamente em palco. Traz um casaco de malha preto e calça sapatos brancos de verniz. Há uma certa excitação na sala, como que um sorriso conjunto quando se ouve a voz dele. Encostado ao microfone, sentindo a música transportá-lo para outros sítios, ele transforma com delicadeza a melancolia num sentimento doce. Acompanhado muitas vezes apenas pelo piano, canta There was a time when I was playing rough/But nowadays I take it sort of cool/Why do I feel this way/I don't wanna be alone/She's mine but I'm not hers e eu sorrio. É bela, esta doçura que vem do frio.

* outras impressões (como sempre) aqui.

outubro 18, 2008

Para um Verão que já acabou

Summerbreeze is blowing through your window
And summerbreeze is blowing through your hair
Something in your eyes that took me by surprise
Don't tell me that it ain't there


Volto a esta música sem compreender muito bem porquê. O Verão há muito que acabou mas é como se ainda estendesse os seus braços sobre mim. E ontem subia a rua à pressa, já a noite ia longa e apertava o casaco porque o Verão foge sempre antes de eu conseguir fechar os meus olhos.

estou cansada mas tão eufórica, perco as preocupações no caminho do carro até ali, danço sem me envergonhar, passeio-me entre fantasmas que já fiz desaparecer. já não tenho medo nem sequer dúvidas, aceito o Mundo inteiro sem perguntar porquê, sei que me vou levantar da próxima vez que cair. sorrio tantas vezes sem saber porquê, comovo-me com um homem que escreve sozinho numa mesa, quero acreditar que me dedica aquele poema de amor, quero chamá-lo para dançar. mas, perdida no meio disto tudo, das coisas que vejo e das coisas que imagino, limito-me a dançar. e o Mundo naquele momento é perfeito.

O Verão fez-se para isto. Para sentir o coração a palpitar, para sorrisos inconsequentes, para nos entregarmos sem medo nem hesitação, para ser livre. As primeiras folhas já caíram, é o Outono a fazer-se notar. Mas eu tenho Verão cá dentro e tudo em mim é feito desse calor.

outubro 15, 2008

Mas este é, afinal, um blog de culinária?

Perguntam vocês e com toda a razão. Não é. Mas tenho as horas do dia contadas para fazer as coisas de que mais gosto e não me chegam para muito mais. A minha sorte é que ainda podemos pensar enquanto fazemos outra coisa qualquer. E eu tenho pensado enquanto dou formação, enquanto estou em reuniões chatíssimas, enquanto corro e, finalmente, enquanto cozinho. Talvez por isso ultimamente me tenha saído tão bem na cozinha* : penso em muitas coisas boas, numa espécie de poesia que não se diz, a minha imaginação a chegar sempre primeiro que eu. Não sei quanto tempo vai durar esta minha incursão pela cozinha mas, enquanto durar, será de comer e chorar por mais.

* hoje numa salada com frango grelhado, sementes de sésamo e tudo o que encontrei fresco no meu frigorífico.

Comemorar :)

Dificilmente pensamos numa comemoração apenas com três pessoas. Talvez a palavra nos leve sempre a crer que se trata duma festa em grande, com muita gente a participar. Mas a minha comemoração, tardia mas saboreada, foi feita a três. Deveria ter sido feita a cinco mas a sorte não esteve do nosso lado e houve quem perdesse um maravilhoso repasto!

Em pleno coração da capital, bebeu-se um Lambrusco fresquíssimo enquanto ouvíamos clássicos reinterpretados por uma voz cheia de doçura. Provaram-se três bruschettas de alto gabarito e terminou-se com um inesquecível chocolate fondant. Gastronomia à parte, um Obrigada sentido a quem partilhou esta ocasião comigo, a quem quis estar presente, a quem não se furtou às fotografias. É muito bom saber com quem contar :)

outubro 13, 2008

Moussaka de legumes

Foi uma ideia pilhada ao último livro de cozinha que a minha mãe me ofereceu. Digo pilhada porque a experiência mostra-me que nunca consigo seguir uma receita até ao fim e cada uma acaba por ter um toque apenas meu. Nesta troquei o iogurte natural pelo molho bechamel e acho que foi uma boa troca. Nada como cozinhar ao som de Ennio Morricone, imaginando que a minha janela tem vista sobre a Riviera francesa e que vão servir-me cocktails antes de jantar. O que a imaginação não tem feito por mim nestes últimos dias...

outubro 12, 2008

De Paço d'Arcos até Tóquio *

* ou a forma mais rápida e eficaz para ficar sem voz: queijo, muffins de feta e pimentos padrón; o sucesso das histórias dos meus avós numa varanda com a vista mais maravilhosa dos últimos tempos; a minha tosse e os rebuçados do Santo Onofre; um dos últimos comboios da linha de Cascais; as voltas que demos perdidos no Bairro Alto para beber aquele vodka com frutos silvestres; dançar três ou quatro músicas antes de soar a Janis Joplin; beber a última cerveja na roulotte do Cais do Sodré com o Júlio, que ficou nosso amigo. Por isso (hoje) falar é mentira.

Outras impressões aqui.

outubro 11, 2008

Just the (almost) perfect Saturday morning

É a primeira vez que visto o primeiro casaco que comprei este ano. Subo a rua depressa, com passos largos, ainda ressentida das corridas da última semana. Está vento mas estranhamente a temperatura não é aquilo que imaginava da janela das traseiras. Não há ainda luz suficiente para conduzir sem faróis ligados mas poucos são os carros com que me cruzo àquela hora. Nenhuma pessoa na rua. Sou só eu, a subir à pressa, o cabelo ainda molhado, pareces uma indígena*, dizia-me ele quando me via assim. Assim que me sento no carro, procuro a música mais adequada a esta manhã de Outono e arranco. A meio do caminho ouço os primeiros acordes da Hallelujah na versão que mais adoro. Não há semáforos vermelhos pelo caminho, uma feliz sequência de coincidências diz-me que vou chegar em cinco minutos. Abrando e, pela primeira vez, tento apanhar um sinal vermelho, dois sinais vermelhos para ouvir a música até ao fim. Penso em encostar o carro se avançar depressa demais, eu, a que dizem sempre cheia de pressa, eu cujo passo ninguém consegue acompanhar. É Sábado e eu vou trabalhar mas há qualquer coisa em mim que me faz querer este dia, agarrá-lo com vontade, há qualquer coisa cá dentro que me diz que estou feliz.

* e eu perguntava uma indígena como? e ele dizia que não sabia responder, enquanto acendia o isqueiro que eu lhe tinha oferecido até gastar a gasolina e olhava para mim com aqueles olhos que perfuravam, castanhos de tanta sexualidade e ciúme, olhos zelosos demais e eu perguntava porque é que olhas para mim assim? e ele fixava-me ainda mais conscientemente, sabendo que eu baixaria o meu olhar e dizia-me é porque gosto de ti, Marisol.

outubro 09, 2008

Antes, era assim.

Atravessas o separador sem pousar os pés no chão. O teu pescoço é um cachecol de lã, a tua boca termina na ponta de um cigarro que enrolaste a caminho. Essa mesma boca caminha ao teu lado, consigo vê-la de onde estou, consigo segui-la com o olhar. És um magro casaco cinzento debaixo do chumbo do céu, um tronco frágil rematado por uma cicatriz, uma mão que carrega um volume escuro que tomo por um livro, duas pernas que pairam em vez de andar. És um estranho que um dia me roubou um beijo, que noutro dia me roubou o sono e que não tardou a tirar-me tudo. Vinha exigir que me devolvesses o sossego ou que me levasses o que resta mas não é nada disso que faço. Olhos colados na tua cintura, vejo-te avançar disperso mas resoluto.

Guardo-me deste lado da rua. Deixo-te esperar. Encostas-te ao gradeamento. Troco mais meia dúzia de palavras de olhos postos em ti. Por instantes duvido que esteja realmente aqui. Se olhares bem, consegues ver o brilho dos meus olhos deste lado da rua. Não olhas. Finges que não vês. Eu finjo que não estou entupida com borboletas. Enquanto avanço, o passado transforma-se num borrão indecifrável. Eu esqueço que já não te quero e tu esqueces que ainda me queres e começamos a caminhar.

outubro 07, 2008

Sete-músicas-sete

Um desafio da Maria del Sol: escolher sete músicas que ilustrem algum momento das nossas vidas. Escusado será falar nos milhares que ficaram de fora, no difícil que foi escolher. Mas foi o melhor que se conseguiu arranjar. Nem os todos os videos são originais mas o que interessa é a música. Essa é maior do que tudo.

Jeff Buckley.Vancouver. O meu grande amor (musical). O homem que nunca poderei ver, o homem com quem já sonhei. Afogando-se com trinta e poucos anos, cantava desta maneira sobre o amor. Era de certeza o grande amor de alguém, impossível de esquecer, impossível de não amar mais e mais todos os dias.

dEUS. Roses. A melhor tarde que me lembro de ter passado. Era Verão e as persianas estavam baixas para não deixar entrar o calor. Não havia lençóis na cama e não se ouvia nada no corredor. Estava a rodar este cd na aparelhagem e era como se não existisse mais nada. Havia poucas palavras entre nós os dois mas muitas coisas se diziam em silêncio. Ou com as mãos. Nunca me consegui esquecer.
Pearl Jam. Rearview Mirror. Porque nem só de doçura se faz o caminho. As memórias estão enterradas num sítio seguro, onde só mexo deliberadamente. O trabalho que me deu a guardá-las, a transformá-las em algo bom... Era uma cassete original, a fita gasta no lado b, exactamente quando ele dizia i gather speed from you fucking with me.

Air. Talisman. Sonhei demasiadas vezes enquanto ouvia esta música. Sonhei por escadarias de Lisboa, sextos andares nos subúrbios, com candeeiros de lava que nunca acenderam. Sonhei dentro dum carro, as borboletas cada vez mais intensas e sonhei que o impossível se podia tornar em verdade. E falhei.

Carly Comando. Everyday. Mostraram-me isto há pouco tempo (obrigada outra vez!) e não consigo parar de ouvir. Sou fácil demais, ouço meia dúzia de segundos e já estou noutro sítio qualquer, vejo a minha vida a passar-me em frente aos olhos a toda a velocidade, tento remendar os erros.

Sufjan Stevens. To be alone with you. Este homem não existe. Com ele, deixam também de existir esta candura, esta voz doce que planeia cantar todos os estados americanos, esta placidez que quase se ouve. É música que vem de algum sítio puro, intocado.

Linda Martini. A severa. Porque poucas vezes senti que o que queria dizer não estava nas palavras, mas sim neste crescendo de ruído, nesta sobreposição de guitarras, nesta impenetrável muralha de som. Quase sofro a vê-los porque me sinto sempre despida.

Gostava de ouvir o que têm a dizer a Ervilha, o Lobistico, o JC, o Vitor Hugo, o Indigente Andrajoso, o A.S. e a Luísa Cê. All done.

outubro 06, 2008

Chegou finalmente o momento em que, com alguma propriedade, me podem chamar chefe.

(ainda estou nervosa com este dia todo, os conselhos sobre as minha relações profissionais, a mudança tão profunda que isto tudo implica mas, quando penso no que já trabalhei e naquilo que ambicionei, sei que é uma mudança inteiramente merecida. tinha um concorrente à altura, uma pessoa que adoro e ficaria feliz se fosse ele o escolhido. mas a sorte quis que fosse eu e agora já arregacei as mangas e não sei onde vou parar. certamente não será aqui)

outubro 05, 2008

Épico!

Os dezasseis anos que separam o último concerto dos Avô Varejeira (myspace aqui) do concerto de ontem à noite fizeram com que este regresso fosse muito esperado e especialmente festejado. Arriscava a dizer que foi a noite com mais público na Quina das Beatas de que me lembro, tudo gente da terra, quase tudo com um enorme sentimento de nostalgia. E, não querendo retirar importância a nenhum dos membros, o Marquês é aquela estrela. Aquilo é carisma em bruto, uma estrela rock que se perdeu para o design (como me segredava alguém durante o concerto), aquilo é o suor sobre a magreza sobre os gritos sobre os olhos alucinados. Enganei-me quando pensei que provavelmente não ia gostar. Gostei e muito - por momentos, voltei a ser a miúda de pala, profundamente inadaptada e tímida de há uns anos atrás.

outubro 04, 2008

(Gastei quase todas as palavras acumuladas ontem. Gastei-as maioritariamente com a raiva de quem se sente como que traído, de quem sente que há qualquer coisa que lhe escapa subtilmente. Depois dancei tudo o que andava também a acumular. Não, não foi ainda tudo. Não me consegui esquecer de onde estava, portanto ainda não foi tudo. Fui, na mesma noite, ignorada, surpreendida, cortejada e ouvida. Senti-me desmoronar enquanto falava mas contive-me a tempo. Viver é este constante jogo de pratos chineses.)

(a primeira fotografia é do concerto dos Factor C no CAEP e o myspace deles está aqui)

outubro 03, 2008

Todas as coisas acontecem por uma razão?

No mesmo dia em que escrevi isto, percebi que não ia ser fácil mudar essa parte de mim, especialmente por ser tão mas tão escorpião, por as palavras me saírem antes de as pensar, por ceder facilmente às sensações. Ontem tive uma entrevista com a super chefe, com o topo da pirâmide daquele prédio e foi difícil. Não exactamente por ela estar nessa posição mas por ter que me ouvir numa sala silenciosa a falar de "manter o equilíbrio precário da equipa", "evitar a perda de conhecimentos" e "reduzir as despesas em 10%". Serei eu essa pessoa? Terei eu o poder de manter/evitar/reduzir isso tudo? Será essa a mesma pessoa que escreve aqui, a pessoa que anda sempre de coração nas mãos, a pessoa que fantasia mais do que é permitido por lei?

E, exactamente no mesmo dia, fui aceite aqui. E portanto será que a minha parte que preenche relatórios e dá feedbacks negativos e é controladora vai conseguir esquecer isso tudo e escrever sobre a poesia dos números e descrever magníficas e lânguidas folhas de Excel? Será que os conceitos de management e folhas de produtividade e mapas de férias não me vão contaminar a mão, a caneta, a parte do cérebro onde armazeno esta ingenuidade?

É o maior desafio dos últimos tempos. É um momento de transição. Ou não é nada de nada. Mas que me tem tirado o sono, tem. Porque razão tudo agora, tudo ao mesmo tempo? Isso não sei.

outubro 01, 2008

Ficção #7

O teu silêncio não me incomoda porque o teu olhar me enche de palavras que tento, a custo, juntar, porque a tua boca me oferece versos inteiros de poemas que ainda hei-de escrever, porque as tuas mãos escrevem em mim intermináveis linhas com a tinta do desejo. Dos meus olhos podes arrancar confissões, a história de todas as noites em que te desejei mais do que as minhas mãos te puderam mostrar, o fulgor dos teus olhos pousados sobre o meu ventre nas tardes em que não ousámos sair. Esta noite salvava-te da frivolidade para onde insistes em arrastar-me mas só durante as primeiras horas da madrugada. Depois, descíamos novamente à planície, ao quarto iluminado apenas pelas luzes lá de fora, aos lençóis que suamos noite após noite. Somos duas sombras ocupadas com a extenuante batalha do desejo, em confronto pontuado pelos gemidos que arrancamos um ao outro, esgotando forças num combate para sempre desigual.