janeiro 24, 2009

É a testosterona, estúpido!

Se alguém não se lembra do que significa o rock'n'roll, devia ter estado ontem em mais uma noite da Quina das Beatas. Os Bunnyranch vieram pela quarta vez dar um ar da sua graça e do seu suor, matar saudades do Dallas e do Alibabá. O público estava morno, só os pés marcavam o ritmo no chão, as ancas abanavam tímidas, talvez fosse o frio. Havia sósias de muita gente em palco, dizia-se entre a assistência que estava ali uma encarnação de um Dylan nos seus anos mais jovens, sentindo profundamente o baixo endiabrado. É impossível resistir ao charme, à camisa aberta e o casaco de abas largas, à pose provocadora de todos. Numa noite em que se falou tanto de hormonas, os Bunnyranch mostraram-se um concentrado de sexo e vontade de transgredir.

janeiro 22, 2009

Estado em que se encontra este blog

Numa espécie de limbo, de contornos esbatidos pelo cansaço e pela chuva. Absorto em avaliações de vinte e oito pessoas, incapaz de se alegrar com viagens de trabalho, com o dobro da cabeleira por causa desta odiosa humidade. A precisar da corrida que o mau tempo lhe tem estado a negar, planeando matar as saudades do templo de Diana, ignorando recorrentemente outras saudades. A acordar ainda é noite escura, recebendo encomendas do estrangeiro, ansioso com os prazos de testes daquela que poderá ser a primeira resolução de Ano Novo cumprida - o novo emprego. Cheio de sonhos estranhos em que nunca consigo chegar a lado nenhum, ando ando ando e há sempre qualquer coisa a prender-me, a atrasar-me, há sangue e há paredes que eu galgo como se ágil fosse o meu segundo nome. Visto por um otorrinolaringologista antigo e cavalheiro, confuso com os sinais e com uma ferida no coração a sarar baixinho. E devagar.

janeiro 21, 2009

Sobre coisas que me andam a perturbar



Disse-lhe que tinha sido uma espécie de revelação e foi exactamente assim que aconteceu. Foi uma epifania ainda sentada no sofá vermelho, depois de me mostrarem finalmente o que andava a perder. Pelo nome, pensava que ia ouvir uma coisa experimental, música arrojada e difícil de perceber. E não é que lhe falte verve, mas isto é tão bonito, soam caixas de música e aqueles brinquedos que se usa para adormecer os bebés, ouvem-se máquinas fotográficas e a voz é tão segura de si e quente, que me senti quase fragilizada. E num momento ouço a coisa mais triste dos últimos tempos e a seguir sobe-me uma alegria pelo peito acima e já tenho o rato a clicar sobre o repeat.

À cabeça vem aquela pergunta inevitável, onde é que andaste este tempo todo, e nem sei se é o alerta laranja ou vermelho em que vivemos nestes dias, nem se porque a roupa custa a secar, ou talvez porque às vezes são dez da manhã e parece que está a anoitecer - alguma coisa me prendeu à música de Noiserv, também conhecido por aí como David. É música de quem não me conhece mas que gravou, sem querer, as minhas memórias mais recentes. E, noutros quatro minutos e quarenta e seis, guardou a minha revolução interior, o meu coração a querer saltar pela boca e o meu silêncio imposto. Está frio, os dias estão escuros mas não faz mal, desde que possa continuar a ouvir isto. Vezes e vezes sem conta.

janeiro 19, 2009

A Catarina desafiou-me a que escrevesse dezasseis coisas aleatórias sobre mim. Não totalmente confiante no resultado, aqui fica a minha tentativa.

1. Se não tivesse este nome, chamar-me-ia Marcela.
2. Em casa estou quase sempre às escuras.
3. Apaixono-me em três segundos.
4. Desapaixono-me em anos.
5. Já quis ser mãe solteira.
6. Gosto de comer tangerinas gomo a gomo.
7. Comprei a minha primeira casa aos vinte e sete anos.
8. Consigo ouvir a mesma música durante dias seguidos.
9. Falo antes de pensar.
10. Tenho o desgosto de nunca conseguir ler todos os livros do mundo.
11. Chamo nomes a quem não conduz na faixa da direita.
12. Gosto de primeiros encontros.
13. Muita gente me acha antipática.
14. Falo alemão todos os dias mas gosto mais de o ouvir.
15. Finjo muitas vezes que vivo num filme.
16. Fumei durante treze anos.

Não estou certa do que isto diz sobre mim. Certamente, diz mais que esta descrição aqui. E agora gostava de ver responder não mais dezasseis pessoas mas pelo menos a Maria del Sol, a Ervilha, o João, o outro João, a Rita Maria e a mana.

janeiro 18, 2009

As minhas noites são mais belas que os meus dias vi

Primeira foto por T.

Com o avançar da noite, as coisas deixam de ser reais. Todos os momentos que passo a pensar nele, todas as tardes em que me estendo na cama e tento ouvir a chuva que cai lá fora, todas as noites em que fico desperta a ouvir as paredes centenárias e a madeira desta casa deixam de existir. As memórias gastam-se, aniquilam-se e esbatem-se quando começa a madrugada. Subitamente, sou livre. Subitamente, movo-me depressa demais, bato a porta dum carro, levanto dinheiro e evito as poças no chão, entro e a música está demasiado alta e o fumo por todo o lado. Não há mais passado ali. Não há desgosto nem vontade de deixar tudo para trás. Com o avançar da noite, sou toda sorriso e braços no ar. E por isso, quando ele me passa a mão pela cintura, eu finjo que são outros braços que me tocam em segredo, no meio da pista. Para adormecer, basta-me fechar os olhos, não dou tempo ao sonhos para deixarem a cavidade obscura onde nascem.

janeiro 17, 2009

Only unfulfilled love can be romantic *

Talvez seja porque a Penelope Cruz é tão bonita que deve ser pecado, mesmo gritando irracional e encantadoramente em espanhol. Ou talvez seja a figura do Javier Bardem, a quem me apetece rasgar a roupa em todos os momentos de tanto me intrigarem aqueles olhos semi-fechados. Se calhar foi dos cenários, relembrando aquelas ruas: uma esplanada perto do MACBA, o som dos miúdos a andar de skate; a cidade a estender-se até ao mar, vista do Tibidabo; uma sugestão de calor nas ruas estreitas e sujas. Talvez até tenha vacilado com o flamenco, com a guitarra em puro jogo de sedução, comovendo-me com inversões e dedilhados. Deve-me ter atraído o castelhano escorregadio e sensual em plena Catalunha. É possível que me tenha deixado enredar pelos (muitos) copos de vinho, os jantares depois da hora, os conhaques mais impróprios. Sou uma apaixonada pelas peles morenas, pelas bocas que deixam escapar as palavras que não pensamos, pelas mãos que nos tocam mais do que devem. E sou uma apaixonada pelas palavras, pelas armadilhas lexicais com que iludimos o desejo, pelas batalhas semânticas que nos alimentam a luxúria. Estava a ficar destreinada: há muito tempo que não gostava de algo assim.


* diz o senhor Woody Allen, no seu novo Vicky Cristina Barcelona.

janeiro 15, 2009

Retrato de uma jovem mulher quando exausta

Obreira do milagre da distribuição das tarefas. Improvável corredora no escuro dum jardim lisboeta. Princesa das onze horas de trabalho diárias. Procrastinadora indefectível. Timoneira de um departamento sem rumo. Amante incondicional da comida já feita. Inspiradora de querelas e destruidora de boatos. Rainha das lágrimas a horas tardias. Romântica incurável, raiando a patetice. Capaz de adormecer no próximo segundo.

janeiro 13, 2009

They'll never take the good years

Uma destas noites, conversava com ele em surdina como é habitual.

(se algum dia conseguir explicar o que me uniu um dia a ele, todas as coisas do mundo perdem o encanto)

Ele falava-me daquela que deixara agora de ser sua namorada, de como tinha lutado para a manter consigo e de como tinha falhado. Outra vez. Dizia-me que o amor também é isto, perceber quando tudo deixou de fazer sentido, cruzar as mãos em sinal de desistência, apagar o brilho dos olhos voluntariamente. E disse-me que agora não procura nem deseja pessoa nenhuma - sente-se tranquilo por saber que existem no Mundo, vivem no Mundo pessoas que já o fizeram muito feliz.

(ele dá-me tanto à distância e sem o saber, os mimos das palavras e das pequenas massagens ao ego, as memórias)

Fico feliz quando me lembro da maneira como me agarraste na tua varanda numa noite de Verão, todos dentro de casa e nós os dois contrariando o desejo de nos despirmos só porque sim. Salta-me um sorriso de todo o tamanho quando me lembro daquela noite em que me sentia mal e tu me levaste para casa e puseste a tocar a Emiliana Torrini e te ajoelhaste à beira da cama, a tratar de mim com a doçura do teu olhar. Enche-se de calor o meu peito quando me lembro daquela vez em que te dei banho numa enorme banheira antiga, deixando a água escorrer lentamente pelas tuas costas. Marcou-me o dia em que, em pleno Terreiro do Paço, me beijaste de repente, como se a oportunidade nunca mais se repetisse, como se algum dia eu quisesse fugir. Ainda me assalta a memória a tua imagem a entrar-me porta adentro, as mãos nos bolsos, a cheirar a tabaco e caipirinhas, a sorrir desajeitadamente. Sei de cor a noite em que fiz duzentos quilómetros para te ver e, sozinhos, lutávamos contra a vontade de nos tocarmos. Pela sua proximidade, repito em silêncio o momento exacto em que senti um clique, em que os teus olhos falaram mais alto que a tua boca, em que os teus beijos eram exactamente aquilo que desejava.

Eu sou toda feita das partes destes homens. Os cheiros deles habitaram-me as mãos e a roupa durante dias a fio, todos ocuparam partes insondáveis do meu coração. Eu sou tudo aquilo que eles me ensinaram, às claras e com a luz apagada, com o seu silêncio ou as suas canções. Venha o que vier, mesmo nos dias em que me sentir mais só, eu sei que alguém já gostou de mim assim. E, mesmo andando há muito a combater esta saudade gigantesca, renova-se em mim um canto a que gostaria de chamar felicidade.

janeiro 11, 2009

Madame Godard @ CAEP

Reabrir as hostilidades, mantendo o nível das bandas convidadas - era este o desafio de mais uma noite na Quina das Beatas. A noite era a mais gelada dos últimos tempos (desta feita, sem direito a neve ou qualquer farrapo no céu a que costumamos chamar nuvens) mas os mesmos corajosos de sempre decidiram sair de casa para ouvir música. Foi a vez dos Madame Godard, que viajaram desde Viana do Castelo para nos surpreender com a sua coesão, bom gosto e, claro, com o seu theremin! Ficou-me na cabeça a maravilhosa versão de Spanish bombs (Yo te quiero infinito Yo te quiero, oh mi corazón), dos The Clash, num momento cheio de Sol que os Vampire Weekend ou Paul Simon não desdenhariam! E, num inusitado momento naquela casa, o público pediu encore! Maravilha de noite, em que as minis faziam carreirinho e se encerraram as festividades com improváveis jarros de sangria.

janeiro 10, 2009

Uma certa massa de ar polar *

Não sei se alguém se lembra exactamente quando começou. Mas, enquanto pedíamos mais quatro cervejas, começou a nevar. E toda a gente largou tudo e toda a gente correu lá para fora só para se lembrar como era. Os flocos começaram tímidos, caindo em grande quantidade com o avançar do tempo. Misteriosamente, toda a gente tirou de algum sítio qualquer coisa parecido com uma máquina fotográfica e os flashes sucederam-se. Tira-me a mim, que não tenho ainda uma fotografia a nevar, ouviu-se. Eram umas três da manhã e estávamos todos na rua: estava (outra vez) a nevar em Portalegre.

* outros flocos, como sempre, aqui.

janeiro 09, 2009

Back and forth

Esta é a breve história do poster que viaja da Estrela a Bruxelas, perdendo-se entretanto nos meandros kafkianos dos correios belgas, e que regressa à Estrela são e salvo. As paredes vazias do número dezanove bê eram inspiração suficiente para procurar alguma cor que pudesse aliviar o rigor do Inverno por ali e esta ideia parecia genial - o Sol todo o ano, dans votre maison. Dizia no canudo onde viajou que não tinha sido reclamado, o pobre. Não que não o quisessem, mas o carteiro tinha (talvez) sido demasiado preguiçoso para deixar um aviso na caixa do correio. Intocado, volta à origem, onde a remetente resolve guardá-lo para si - poupando-o a futuras viagens ou a envios sem sucesso, ela trata de o afixar na parede do seu quarto. Não há frio que assuste quando se acorda e se tem le Soleil toute l'année. Mesmo que isto seja pouco parecido com a Côte d'Azur.

janeiro 08, 2009

These last few days (b/w)

tudo pela objectiva do Jer (que às vezes nem merece créditos mas pronto, eu sou uma miúda pacífica e bem formada e vai de créditos)

Uma tarde numa leitaria em plena Bica (vamos jogar ao Onde está a M?), uma noite ali para os lados do Parque das Nações. O acompanhante fotógrafo foi sempre o mesmo, a música sempre nova e portuguesa (experimentem desta vez os Iconoclasts e digam que vão daqui). Ele passa por profissional da coisa, eu passo por coisa nenhuma. Entramos, discretos e sentamo-nos ou garantimos um bom lugar na plateia. Onde há música, há necessariamente calor. Por isso, quando fechamos a porta atrás de nós, enfiamos luvas, gorros e cachecóis, como se fosse assim desde sempre. Encontram-nos por aí, na plateia de um acontecimento obscuro. Eu serei o sidekick do tipo com o corte de cabelo com mais falhas da sala.

Estado em que se encontra este blog

Com a cabeça a andar à roda. Desesperadamente desejando dormir uma noite inteira, seguida, ininterruptamente. Como um borrão sobre uma parede lisa. A necessitar preencher o mapa das férias que hoje me chegou às mãos. Em equilíbrio precário. Incapaz de não ouvir sempre a mesma coisa. Hiper-consciente de si mesmo. Desdenhando da vaga de frio que aí vem para nos lembrar como se vive noutras paragens. Cansado da corrida, da bicicleta fixa, dos saltos num step perdido no jardim. A meio caminho entre a cama e o sofá. E a meio caminho entre a alegria de olhar em frente e a tristeza intermitente de se desejar o que não se pode ter.

janeiro 05, 2009

E ao terceiro dia ela saiu de casa!

Depois de recatada no conforto do meu lar de sexta a domingo, apenas um concerto me fez mudar de ideias e interromper o modo eremita em que tinha vivido durante o fim de semana. Foi assim que, acompanhada por esta moça e este moço, estive na Leitaria Estrela da Bica a ver o concerto do excêntrico b (fachada) (fotos em breve, não é?). Entre uma torrada e um galão, ouvimos música portuguesa da boa, sem maneirismos nem artifícios, apenas um rapaz barbudo a rebentar de poesia e de uma métrica muito própria, cirandando de guitarra ao peito entre as mesas do estabelecimento e exigindo a ausência de ruído de fundo. Se querem ironia envolta em folclore, procurem-no por aí.

Não contentes, seguimos (já em modo par, apenas) para o Estádio, onde matei saudades das médias em frente à pior representação de um estádio de que há memória, enquanto os restantes clientes vibravam com o final do jogo do Porto. Decidimos procurar outro pouso para vermos o nosso Glorioso e foi assim que ainda demos um pulo ao miradouro de S. Pedro de Alcântara, com umas das vistas mais privilegiadas sobre Lisboa. Depois, arriscámos uns camarões e uma sapateira enquanto víamos mais uma desgraça servida a frio pelo clube do nosso coração. Duas imperiais apenas, que não havia motivos para comemorar e, enregelados, voltámos a casa. Dormir foi mentira, que a digestão não estava ainda feita - a noite foi passada em claro, sonhando a cada meia hora sequências demasiado bizarras, pessoas de círculos diferentes enfiadas no mesmo sonho, eu em constante corrida para apanhar um avião que nunca chegou a existir.

E puff, é Segunda-Feira e acabaram-se as semanas curtas e as pontes e os horários a meio gás. Alguém me diz quando é que se marcam férias?

janeiro 04, 2009

"Kafka, in everybody's life there's a point of no return. And in a very few cases , a point where you can't go forward any more. And when we reach that point, all we can do is quietly accept the fact. That's how we survive."

(Kafka on the Shore, by H. Murakami)

Ando com esta página marcada há tempo demais. Porque não queria perder esta passagem, marquei o livro com um gancho que tinha à mão, um daqueles ganchinhos com que prendemos (domamos) o cabelo. Sempre que pegava no livro, abria-o nesta página e lia outra vez estas quatro frases. Sei que já cheguei ao meu ponto de não retorno, sei-o há muito tempo. Houve qualquer coisa em mim que quebrou, uma espécie de estilhaço interior, uma lembrança das guerras em que me lanço cada vez que me sinto calma. Momentos de quebra houve só um; momentos de revelação, a esses já perdi a conta. Muitas vezes quis reconstruir essa parte de mim e algumas vezes ma quiseram reconstruir. Mas se hoje me sento aqui, escrevendo este texto, podem avaliar do sucesso de todas essas tentativas.

O que ando a tentar evitar a todo custo é esse ponto em que, silenciosamente, aceitamos. O meu esforço, mais do que para me reparar, é para continuar em frente. Hoje, mais do que nunca, esgoto todas as possibilidades, calculo todas as alternativas, invento novas formas de conseguir o que quero. Sei que um dia escrevi que me sinto emotionally crippled, uma aleijada sentimental e emocional - não o nego. Mas conheci alguém que me fez levantar desse pântano de emoções, dessas areias movediças da auto-comiseração e que me fez ver como é estar novamente deste lado. Por isso, eu não quero aceitar. Eu quero-o. O desejo é tão grande que chego a sentir náuseas. E se ele não me quer, eu quero-o na mesma, porque ele me mostrou tudo o que interessa. E por isso posso passar longas horas pensando nele e na ironia e desafio do seu olhar, imaginando-o sozinho ou acompanhado, testando a minha resistência à distância. O que não vou fazer é aceitar e sobreviver. Não me conhecia assim mas está ainda longe o momento em que vou desistir.

janeiro 03, 2009

Feliz primeiro Sábado do ano! *

Trancada em casa de livre vontade, o mínimo que podia fazer era comprar mantimentos que me aguentassem pelo fim de semana fora. Hoje dormi dez horas, coisa de que já não me lembrava, e gostei. Tinha dormido mais se a minha vizinha não andasse de salto alto para trás e para a frente àquela hora. Quando acordei fiquei muuuuuuito tempo na cama, às voltas no quentinho, só olhando para o tecto, a pensar. E depois, quando me decidi levantar, preparei o super-pequeno-almoço-da-Lapa, que supostamente durará no meu estômago até às três, quatro horas da tarde. E hoje vou passar o dia todo mas todo a ler. É só acabar as tarefas de limpeza que eu já vos digo.

*sim, eventualmente vou deixar de comemorar tudo e mais alguma coisa.

janeiro 02, 2009

Finalmente, 2009!

Primeira foto da S., restantes são minhas

Não sendo daquelas pessoas fundamentalistas que acha que 2008 foi o pior ano de sempre, estava já um pouco ansiosa para que acabasse. É como se os erros e as coisas por resolver desaparecessem para sempre assim que o ano desse a volta, como se imediatamente se me acabassem as tristezas e os arrependimentos. Mas, na manhã seguinte, examinei o coração e ainda cá continuava tudo.

Mas, sentimentalismos à parte, foi uma noite à maneira *(não para todos mas isto é assim, não se agrada a gregos e troianos). Estava com gente de quem gosto, havia música daquela que não me lembra ninguém, uma muy apreciada reprodução da Mona Lisa, tanta bebida, uma feijoada de chocos deliciosa e a chuva conteve-se. Pelo meio ainda ouvi dizer que não tenho arranjo, que estou condenada à solidão, ideia que limpei como água do capote. E houve amigos que fugiram, outros que dormiram cedo mas ficou sempre gente boa com quem conversar. Não pedi nada à passagem da hora, nem para mim, nem para ninguém. Em podendo, é cumprir as resoluções.

Feliz Ano Novo!

* outras impressões aqui.

dezembro 31, 2008

New Year's resolutions

Vou dizer mais vezes aquilo que sinto no momento certo. Vou correr mais, suar mais, resistir ao cansaço cada vez mais e gostar do que vejo no espelho. Vou arranjar outro emprego. Vou cozinhar só para uma pessoa. Vou tentar cozinhar sempre para duas pessoas. Não vou desistir do que acho que me faz feliz. Vou tirar mais fotografias. Vou continuar a usar ténis. Vou escrever mais e muito melhor. Vou dançar todos os dias no meu corredor. Vou estimar mais a minha família. Vou à praia nos fins de semana. Vou descer outra vez a costa alentejana. Vou voltar onde já fui feliz. Vou ter menos preguiça de ir ao cinema. Vou despachar livros de uma assentada. Vou apaixonar-me. Vou dormir menos e sonhar mais. Vou mandar o ipod à fava. Vou rir-me à brava. Vou conhecer gente nova. Vou comer fondue de chocolate. Vou mudar de perfume. Vou conseguir poupar dinheiro. Espero voltar a amar.

E vou desejar a todos o dobro da felicidade que querem para mim. Um ano de 2009 muito feliz, difícil mas feliz. Que vos esperem 365 dias de vitórias, desafios constantes e boa companhia. Chega a hora de arrumar este passado - vou, confiante, fazer-me à vida.

dezembro 30, 2008

Dormir mais feliz #18


I was lying in my bed last night staring
At a ceiling full of stars
When it suddenly hit me
I just have to let you know how I feel
We live together in a photograph of time
I look into your eyes
And the seas open up to me

Dei férias à tristeza


Buraka Som Sistema, Kalemba (wegue wegue)

E decidi que até chegar 2009 só vou ouvir música que me faça suar. De tanto dançar, claro. O meu corredor é a pista de dança até me cansar e preparo tudo para amanhã estar a postos. Tristeza, até quinta-feira!

dezembro 28, 2008

2008 *

1. Bruxelas ou como podemos dar por nós no centro duma avalanche de sentimentos que põe em causa tudo aquilo em que acreditamos. Encontrar um sentido. Deixar de me sentir vazia para passar a sentir-me só. Falar em voz baixa durante uma série de manhãs. Deixar as mãos dizerem por mim. Reaprender a serenidade.

2. Passar os meus finais de tarde no Jardim da Estrela. Ler nos dias frios de Sol, partilhando um banco com uma velhinha que se protegia com uma revista. Correr, já noite escura, e sorrir aos outros corredores. Esvaziar a cabeça de todos os males e fazer planos, preparar discursos e repetir coisas que nos fazem sentir bem.

3. Percorrer as ruas de Barcelona até os pés não aguentarem mais, sem mapa na mão e de mochila às costas. Dormir num pequeno quarto dum terceiro ou quarto andar no Raval, rodeado de turcos e magrebinos, indigentes e prostitutas. Encher os ouvidos de flamengo e comer patatas bravas num restaurante qualquer. Deixar partir um pouco da magia com que me enganava há muito tempo.

4. Ouvir toda a música que consigo aguentar. Ver todos os concertos que consigo financiar e ainda mais alguns. Suar entre a multidão ou sentar-me calmamente debaixo de luzes vermelhas, encher uma caixa de bilhetes para reconstruir depois a memória.

5. Ver nascer o dia nascer enquanto passava pelo Piolho, no Porto. Fazer uma visita rápida pela cidade num carrancudo dia cinzento. Beber um café em Serralves, dançar na Casa da Música, deslumbrar-me com o trash do Plano B. Madrugar nos Aliados e perder a oportunidade de ver o mar. Prometer voltar.

6. Gozar todo o Sol que me tinha escapado no ano anterior. Apanhar o ferry até Tróia e descer mais a Sul. Boiar sobre as ondas sem preocupações, apenas guiada por desejos. Pegar no carro às sete da manhã e chegar à praia completamente deserta. Dormir na Fonte da Telha depois duma madrugada de Incógnito. Bronzear-me.

7. Conhecer finalmente Paredes de Coura. Deixar-me contagiar pelo boné do poder. Conseguir um fim de semana de Sol e silêncio que há muito precisava. Tomar longos pequenos-almoços de porta aberta e almoçar à beira do Lima. Torrar à beira da piscina depois de ler o jornal. Libertar o resto da (falsa) magia, para sempre, de uma vez por todas.

* numa ideia emprestada daqui.

dezembro 27, 2008

Farra pós-Natal

Primeira e última foto por MT

Com alguns motivos para não festejarmos, decidimos arriscar. Dançando com P., a brasileira do Bangladesh, tentámos combater o frio. Nesta altura, revemos sempre as pessoas que andam longe o resto do ano. Esperamos que o caminho esteja livre para regressar a casa mas há quem ainda queira dançar mais. Estavam graus negativos na rua mas a minha memória está longe de congelar.

dezembro 26, 2008

Música para dias de Inverno e corações remendados


William Fitzsimmons, I don't fell it anymore

Está Sol mas o termómetro avisa que estão quatro graus lá fora. Não pode ser, penso eu, enquanto me deixo encandear com a luz mas, assim que abro a janela, sinto o frio nas maçãs do rosto. Há qualquer coisa de sagrado no frio que faz na minha terra: talvez seja por vir sempre acompanhado de um cão a ladrar ou dos pássaros que ainda resistem no quintal atrás da minha casa. Ou talvez seja das ruas estarem vazias - nem gaiatos a subirem a rua, vindos da escola, nem as velhas que vão ao pão com a bolsa debaixo do braço. Quando regresso à cama, puxo o edredon até ao pescoço e encolho-me o mais que posso. Está frio e eu quero repetir em silêncio as noites em que ardia debaixo dos cobertores.

dezembro 24, 2008

Seasons Greetings

Depois de enchermos a barriga, chegou o momento. Desejo a todos um bom Natal, juntos ou longe da vossa família, com polvo, perú ou bacalhau, quer gostem ou (como eu) tenham sentimentos mistos sobre a quadra. Que esta noite traga a todos, pelo menos, paz de espírito - são os votos das irmãs M.

dezembro 22, 2008

Das Weihnachtsfest

O Natal no trabalho acabou. Foi dia de fatias douradas, pensamentos positivos e Natal dos hospitais; foi dia de karaoke, Berliner Brot e concursos; foi dia de nunca parar quieta, biscoitos com sementes de papoila e clássicos de Natal por toda a parte. Agora, se faz favor, que chegue também a noite do bacalhau e das couves, com a televisão ligada numa sopa dos pobres qualquer e a família à volta da mesa, a discutir quem já morreu este ano. Acho que percebem o meu entusiasmo...
Cada um é tão infeliz quanto acredita sê-lo.

(o que me saiu em sorte nos nossos fortune cookies. Estou numa fase em que acredito muito na minha infelicidade, apesar da saúde e dos amigos e da família e de tudo. E, apesar de saber que não passa disso mesmo, duma fase, tem sido difícil acordar todos os dias com vontade de fazer as coisas acontecerem. Ando à espera que isto me passe, a dizer que preciso de tempo, a ver até onde pode ir esta tristeza. E os dias demoram cada vez mais a passar e eu preciso de alguém que me ponha a mão sobre a cabeça e me diga o que preciso de ouvir agora. Lembro-me de uma coisa que me escreveram há muito tempo - Para a M., como canas ao vento - e espero que, como elas, eu vergue mas não quebre.)

dezembro 21, 2008

M. vai a um spa

Domingo de manhã. Peguei no fato de banho e fui finalmente usar a prenda que a mana me tinha oferecido pelos temidos vinte e nove anos. Nunca tinha entrado num spa nem sequer pensado seriamente em usar um mas parecia-me uma ideia excelente e não me lembro de uma altura em que tenha precisado mais. Um spa, ria-me eu a caminho, não sabendo muito bem o que ia encontrar.

O atendimento foi super atencioso e formal e fui acompanhada por uma assistente que me mostrou as instalações e me explicou brevemente o partido que podia tirar da primeira metade do tratamento. Foi assim que entrei pela primeira vez num banho turco, numa divisão onde mal conseguia respirar, tal era a humidade. Não conseguia ver mais do que dez centímetros à minha frente mas senti imediatamente o corpo a libertar as toxinas do crepe da noite anterior e deixei-me ficar em silêncio no meio de todo aquele vapor. Depois, logo à saída, contrariei aquele calor com um duche gelado para estimular os músculos. Passei a uma piscina cheia de jactos de água e com uma cascata para massagens lombares onde passei longos minutos mais em jeito de brincadeira do que de terapia. Depois de me refrescar numa fonte de gelo, foi a vez de caminhar sobre seixos, enquanto jactos de água activavam a circulação nas pernas. E finalmente, a terminar o aquecimento, boiei mais de 10 minutos numa piscina com água do Mar Morto (dizem...), o que equivale a duas horas de sono.

Depois era a vez da massagem. Quando me veio chamar, estranhei ver um homem na casa dos trinta anos, cabelo comprido apanhado atrás, alto e com uns olhos rasgados e intensos dizer que era o meu terapeuta. Eu esperava uma mulher mas em vez disso, e como num cliché cinematográfico, estava entregue a um terapeuta sexy. Falava muito baixinho, como para me acalmar e assegurar de que estava num ambiente sério, era bastante educado e delicado, o que me deixou desde logo à vontade. Na sala da massagem, pediu-me que me despisse enquanto ele esperava lá fora e eu quase entrei em pânico: despida num sítio desconhecido, na companhia de um homem desconhecido. Mas o ambiente era tão calmante, o incenso queimava tão lentamente que me abandonei às mãos daquele homem. Explicou antes o que faria e as suas mãos eram firmes, experientes. Nunca o ouvi deslocar-se naquela sala, tal era o nível de subtileza e agilidade dele. A única coisa que lhe sentia eram as mãos, os braços e a respiração, já que nunca falou durante a massagem, apenas para assegurar-se de que eu estava a gostar. Eu sei que era apenas mais uma cliente nas suas mãos mas, sem saber exactamente como, ele fez-me sentir importante, como se fosse aquela a sua primeira massagem. No final, convidou-me para um chá, que recusei delicadamente, com medo de estragar aquele ambiente com alguma trivialidade ou timidez. Despediu-se de mim com um aperto de mão, um sorriso misterioso e um olhar tão tranquilizante como as suas mãos sobre mim.

Escusado será dizer que terei que voltar. Nem que seja para gozar aquele imenso silêncio dentro de água, nem máquinas, nem música, e eu a perder cada vez mais a consciência de onde estou. Ou para me encostar à parede durante o banho turco e ver as impurezas deixarem o meu corpo. E, enquanto me divirto sozinha na piscina, vê-lo passar no corredor e acenar-me calmamente. Agora, isto é tudo o que eu precisava.

É Inverno, finalmente *

E da janela da minha casa é esta a vista sobre o Inverno em Lisboa: um dia absolutamente radioso e frio, as ruas vazias de pegadas e vozes, a calma de um Domingo na cidade. É um bom dia para regressos, para cozinhar e para domar inquietações no peito.

* porque assim chega o Verão mais depressa.

dezembro 20, 2008

Songs for a sleepless girl

Ando novamente na fase de privação do sono. Mas entro no metro, encosto-me perto da porta e é como se os meus olhos não pudessem estar abertos. Chego a casa e sou toda planos para dormir, para evitar televisões e computadores mas nunca consigo. No trabalho, faço um sacrifício para me manter desperta e atenta, especialmente depois do almoço. Vou correr para cansar o corpo, quero saber se aquela sensação de estar em branco durante o exercício é mesmo verdade. Mas depois chega a noite e eu sinto as horas e vejo os minutos a sucederem-se tão devagar e faço contas a quantas horas ainda poderei dormir - poucas. Essa coisa de ser a rapariga sem sono um dia havia de voltar e eu havia de voltar a não saber o que fazer com ela. E aposto que agora desligo isto e apago imediatamente o candeeiro de cabeceira e tento que os meus olhos pesados descansem no silêncio das paredes centenárias desta casa e não consigo. Ou então consigo e daqui a duas horas estou olhando para o tecto, pensando em assuntos de trabalho. O corrector de olheiras está na minha lista de desejos para este Natal. Ou isso ou adormecer hoje e acordar já num ano melhor que este.

dezembro 18, 2008

Natal corporativo

Este ano ainda não me tinha chegado nada parecido ao espírito natalício. Sim, eu vejo as luzes por aí e as lojas com as suas montras aprumadas e os anúncios a cinquenta mil brinquedos diferentes mas não podia dizer que alguma dessas coisas me tivesse realmente tocado. Quando saí para o jantar de Natal da empresa, não pensei na ocasião, só no lombo com farinheira que ia comer.

A escolha do sítio não me podia deixar mais feliz: a Casa do Alentejo, que além de ser um espaço lindíssimo, fala-me ao coração. O jantar foi animado, porque ninguém foi obrigado a sentar-se entre desconhecidos (como é hábito). Perdi a conta aos brindes com tintos alentejanos e aos empregados que eram castiços mas pouco delicados. Depois chegou a vez do karaoke, dominado sempre pelas mesmas pessoas, os mesmos heróis de algibeira e em que eu tive o prazer de não participar. Finalmente, foram entregues os prémios a quem se distinguiu na empresa neste último ano. Et voilá, por este ano estamos conversados.

O regresso a casa foi um momento solitário. Esperei um autocarro que nunca chegou, enquanto as ruas eram lavadas ou alagadas e os últimos indigentes se passeavam pela praça. Eu fechava o casaco e encolhia-me dentro do vestido que o vento agitava, o cabelo cobrindo-me os olhos, impedindo que alguma lágrima escapasse. Ainda há minutos era a funcionária exemplar, risonha e resistente e agora não passava de uma mulher sozinha, enregelada e profundamente vazia que caminhava em direcção a um táxi. Enquanto via a avenida desfilar pela janela, pensava que a única coisa que me resta é esperar que isto me passe. E para este Natal eu pedi apenas tempo para me ajudar a remendar o coração.

dezembro 16, 2008

Procurar(-te)

De tantas vezes fazer o caminho, já o sei de cor. Sei o tempo que me leva a chegar ao centro, sair no Midi e carregar a mala comigo até aí. Posso não saber quantos degraus preciso subir mas conheço o barulho da tua porta a abrir e a maneira como afundas a tua cabeça no meu colo, enrolado como um embrião. De tantas vezes o repetir enquanto vou de casa para o metro e do metro para o trabalho, sei o teu riso de cor, a maneira como os teus olhos fechados o denunciam, a tua expressão a rasgar-se num sorriso à minha frente. Somos dois inadaptados que não sabem dizer nem fazer, que trocam os nervos por gargalhadas matinais quando faltam apenas cinco minutos.

São horas, digo-te eu. E tu, como que antecipando o vazio que aí vem, puxas-me para ti e esmagas-me contra o teu corpo ainda dentro da cama. Mas antes é tão cedo e podes sentar-te no cadeirão debaixo da imensa janela e tocares, tão apaixonado pela guitarra e com esse olhar tão intenso que pousas sobre mim a espaços. E ainda me podes tentar mostrar a tua vida antes de mim, em minutos escassos, atravessados pelas tuas pausas e pela maneira como tudo faz sentido.

É contigo que isto me acontece, esta sensação de flutuar sobre todas as coisas supérfluas, esta vontade de devorar o Mundo, esta sensação de que não existe mais nada a seguir. Só que, tendo procurado, ainda não sei onde estás. Mas tu sabes onde eu estou e isso, de alguma maneira, sossega-me. Aqui.

dezembro 15, 2008

Voltar onde já se foi feliz

Não acredito na teoria de que não se deve voltar onde já se foi feliz. Por mim, e para alimentar o meu masoquismo, devemos regressar vezes sem conta, desprezando as consequências e os contratempos, o vazio que se instala logo de seguida. As consequências ficam para amanhã. E, quando chegar amanhã, fechamos os olhos com força e conseguimos aguentar. Foram tantas horas em trânsito, habitando as desconfortáveis cadeiras dos aeroportos e os partilhados bancos dos comboios. Mas foram também os camarões que passavam por nós no centro cultural espanhol e a miúda de óculos que me levou a dançar no Le Bazaar. Foi bater àquela porta às quatro da manhã, quando já não se ouvia nada na rua, senão o frio a subir pelas paredes. Foi andar na roda gigante e entrar em pânico exactamente no topo, temendo não aguentar a vertigem, como quando não conseguimos conter outras emoções. Foi dançar quase às escuras, ser comparada à Selma Hayek (sim, há quem precise de um oftalmologista, eu sei) e quase não conter a gargalhada, foi bom ser vista e ver.

Não sei melhor. E regressava outra vez, de olhos fechados. Mesmo sabendo como é voltar.

dezembro 13, 2008

Um post para o futuro

A esta hora será tarde demais. Não haverá mais regresso. Serão onze horas da noite de sexta e eu provavelmente terei feito apenas a próxima asneira da minha vida. A esta hora voltarei a ser inocente, como num ciclo que conheço de cor. De nada vão valer os conselhos, os que me queriam sossegada e os que desejavam que fosse. De nada vão valer as noites que passei a antecipar todos os cenários, todas as possibilidades, todas as falhas no meu plano. Para o meu eu de sexta-feira, para o corpo que se passeará outra vez pelo frio eu digo hoje

Espero que saibas o que estás a fazer.

dezembro 11, 2008

Ficção #11

Olhas para o cabelo dela, em constante desalinho, deixas os olhos descerem até ao peito onde tantas vezes recuperaste o fôlego que ela te roubava, reinando sobre ti. Se pudesses, tomava-la ali mesmo, sobre aquele banco, debaixo dos olhares inquisidores dos turistas que caminham ofegantes debaixo das oliveiras que resistem ao capricho do sol mediterrâneo. Ela seria tua e toda a gente poderia sabê-lo, poderias anunciar ao mundo a tua vitória sobre mais uma ninfa, poderias encher o peito deste sucedâneo do amor com que brindas as tuas conquistas. Ris-te só para lhe arrancares outro sorriso, só para sentires como lhe brilham os olhos, para te veres reflectido naqueles espelhos castanhos. Quando os olhares se cruzam mais do que breves segundos, param ambos de sorrir e deixam-se tomar pela electricidade que sentem na pele do outro. Sabes que serão sempre instinto, sabes que fechados numa sala ou num quarto nada vos poderá impedir de se despirem sem palavras e se abandonarem à forma como o desejo impera sobre tudo.

dezembro 09, 2008

Tot *

Das nove da manhã às dez da noite com três alemães e uma inglesa. Apresentações sobre os resultados do ano que acaba agora, planos e orçamentos futuros, três línguas a enrolarem-se na minha cabeça. Um almoço num espanhol e um jantar num italiano. Às vezes não sei se fui talhada para isto ou se devia antes ter um monte afastado da estrada, uma cadeira de baloiço debaixo de um alpendre voltado para uma seara, três ou quatro pés de qualquer coisa semeados ali e um livro debaixo do braço. Imagino o silêncio de uma vinha a perder de vista, imagino só o crepitar das espigas no Verão, as cigarras que dormem de dia e acordam à noite. E acho que era mais feliz a caçar grilos, a deitar-me debaixo de figueiras, a cavar pequenos regos para a água chegar a todo o lado. E a comer fruta das árvores, a ouvir as histórias de quem sabe e a querer acordar de madrugada.

Mas temos que ganhar dinheiro. Or so they say.

*morta, em alemão.

dezembro 08, 2008

Já não estou.



E era mesmo isto * que eu lhe queria dizer agora. De tantas outras coisas que me ocorrem, dos meus desejos e das minhas saudades, queria falar-lhe da minha partida e de como respirei fundo para parecer imune. Queria explicar-lhe que sempre quis dizer sim, mesmo quando era não o que ele ouvia. Mostrava-lhe a luz de Lisboa, as estradas intermináveis e vazias, o silêncio das tardes passadas em casa. Nunca soube fazê-lo a tempo, nunca. Para mim é sempre tarde demais.

I don't know if you'll even notice at all because I was real quiet when I closed the door.

*as palavras do Fink.

dezembro 07, 2008

Em trânsito


Conduzi durante mais de seiscentos quilómetros em menos de vinte e quatro horas. Dividi as minhas horas entre Lisboa, Portalegre e um apartamento novo algures em Odivelas. Vi um concerto dos Deolinda, descansei uns vinte minutos sobre a minha cama gigante e vi-me perdida no meio de Loures. Neste momento, sinto que sei de cor todas as placas do eixo Norte-Sul, todas as saídas e bifurcações, faixas de aceleração, sinais luminosos e falhas no pavimento. Dancei sozinha e a três, falei demais e calei-me fora de tempo, acordei todos os dias a pensar na mesma coisa e deixei-me ficar a repetir essas imagens até serem horas de almoçar. Joguei consola, pesei-me e fiz girar um hula hoop imaginário na minha cintura, senti outra vez que a vida me tem trocado as voltas e senti-me grata por isso. A casa está vazia, o tempo tão cinzento e eu não planeio articular uma palavra que seja no dia de hoje. A não ser com os meus pais, para descansá-los e dizer que sim, que estou exausta desta correria toda mas está tudo bem.

dezembro 03, 2008

Ficção #10

Deixas a porta entreaberta enquanto afastas toda a roupa que tinhas espalhado pela cama e a tentas dobrar com a maior rapidez possível. De frente para a porta, espreito pela fresta mas não vejo mais do que o teu vulto entre a cama e a cadeira e fico inquieta. Não sei se me vais chamar ou levar-me pela mão a descobrir a que cheiram os teus lençóis. Ensaio o meu melhor olhar de sedução sem qualquer sucesso porque demoras a sair do quarto. Quando chegas, é interrogação aquilo que vês. E respondes sem sequer abrires a boca, apenas fazendo-me sentir que me esperas. Hesitante, vejo-me à tua frente, os teus olhos buscando os meus, as tuas mãos ossudas e pequenas na direcção da minha cintura. Somos a reprodução de um par dançante, dois amantes imobilizados pela ausência de lógica, a imagem cristalizada da impossibilidade prestes a ser quebrada por um beijo. Promete-me noites acordados sem cessar. Promete-me fazer disto um sonho. Promete-me tudo.

Socorro, tornei-me numa senhora de 60 e tal anos!

Hoje já pensei duas vezes nisto. Parte da minha hora de almoço foi passada a destilar esta insatisfação com uma colega de trabalho, que me ouviu pacientemente, que partilhou das minhas dores sem sequer fazer cara feia. Depois estive vinte e dois minutos ao telefone com o meu pai a falar disto. Vinte e dois! Quem me conhece bem, sabe o quanto odeio falar ao telefone mas mesmo assim isso não me impediu.

Não quero repetir a proeza aqui. A única coisa que desejava era ser como a maior parte das pessoas que trabalha comigo e habituar-me, encostar-me, ignorar-me, escolher viver sem desafio nem motivação, esquecer-me da cenoura que nos colocam à frente. Muito terás ainda que aprender, dizem muitos e dizem muito bem. Muitas vezes terei que reconhecer que isto se calhar não vale a pena, que há pessoas que aos vinte e sete anos estão cansadas de trabalhar e outras que aos setenta e tal ainda se levantam às cinco da manhã para conseguir garantir a sua sobrevivência. O mundo é, francamente, uma coisa maluca. E ainda o é mais para pessoas que têm orgulho em fazer a coisa certa no momento certo. Se cedo, volto-me contra mim. Se bato o pé, não duro muito mais. Alguém que me acabe com as chatices e me dê já também a reforma.

dezembro 01, 2008

M. Pictures presents...


Daqui, deste cartaz rabiscado a marcadores e a lápis (só eu sei há quanto tempo não usava um lápis de carvão...) está a nascer um filme. Se quiser ser mais precisa, daqui está a nascer uma curta-metragem que nunca antes me tinha passado pela cabeça. O processo de escrita é muito pouco romântico, apoiado mais na objectividade e no efeito que se pode provocar no espectador do que na literatura, na escrita livre e apaixonada. Escusado será dizer que há quem tenha escolhido o reconhecimento, a crise de valores ou o ritual de iniciação como tema mas eu tinha que me ficar pelo romance.

Vi no outro dia numa série qualquer um escritor que dizia que só escrevemos sobre aquilo que conhecemos mas eu recuso-me a aceitar que é só isso que existe cá dentro. Só que, e apesar de querer sair desta minha comfort zone, não me saía mais nada. Não me apetece uma sequência de imagens sobre a integridade do herói ou a constante busca pelo pai ou sobre o eterno combate entre o Bem e o Mal. Portanto, e como todos escrevemos um bocadinho sobre aquilo que somos, é um filme sobre um desencontro amoroso que apenas o espectador conseguirá resolver. Eu acho que tudo acaba bem mas conheço-me bem demais para não desconfiar da minha intuição...

Só me falta um título. Há um provisório mas queria qualquer coisa mais sólida. Por isso, se alguém tiver aí à mão uma grande tirada sobre duas pessoas que se repelem mas que se desejam encontrar, é dizer. Dou créditos, prometo.