maio 31, 2009

Ouvir * (e sentir) em repeat



Não sei se é de repente estarem trinta e tal graus sem eu ter percebido como. Não sei se são as searas já torradas, secas a perderem-se de vista, interrompidas apenas pelas sombras tímidas dos sobreiros à beira da estrada. Não sei se é por ter o peito quase a rebentar de coisas que não consigo dizer. Os meus olhos um dia rebentam com este querer tão bem, os meus olhos um dia param de conter as lágrimas e é um oceano que aí vem, um oceano de ternura, de beijos noutros olhos, um oceano cujo tamanho me ocupa toda por dentro. As minhas mãos um dia não param, procuram-lhe a pele em intervalos cada vez mais curtos, as minhas mãos um dia falam e serão elas a entregar a mensagem, serão elas a oferecer o absoluto. As minhas mãos não me traem como me traem os lábios, que querem falar, querem gritar isto que sinto. Dos meus lábios escapa a certeza a consumir-me sempre que se faz silêncio, escapa o romance que já não acreditava merecer. E quando olho para trás, quando penso em mim há cinco meses, há um ano ou há três, é como se eu tivesse sido toda uma outra pessoa, vazia de sentido, gravitando em volta de uma ideia remendada da felicidade.

Não sei se é desta tempestade de sentimentos, não sei se tudo acontece porque voltei a acreditar. Mas esta calma, esta tranquilidade natural tem o seu preço. Quando dei por mim, estava a chorar dentro do carro ou a empurrar os soluços para baixo em frente ao computador. Esta grandeza toda dá-me nós na garganta, baralha-me o discurso e faz-me estar deitada no escuro, simplesmente a sorrir com aquilo que me vai acontecendo. Já não são só borboletas na barriga, são as centelhas que me escapam dos olhos por ele me fazer assim feliz.

* o maravilhoso Sam Beam a cantar Boy with a coin.

maio 28, 2009

Não podia ser. Eu não podia ver a minha vida a dar uma gigantesca cambalhota no campo pessoal e esperar que tudo o resto na minha vida levasse o mesmo caminho. Desfio lentamente a angústia de passar os meus dias a tentar imaginar para onde caminha a minha vida profissional. Insurjo-me contra a repentina tomada de decisões e contra a ideia de que o negócio está a mudar demasiado rapidamente. Mas está tudo a caminhar para um fim. Pelo menos, para o fim daquilo que conhecemos, para um recomeço incerto.

E eu, arrependida da inércia com que tenho vivido até aqui, sei que chegou a altura. Devia ter percebido antes que o conforto engana, que nem sempre subir um degrau nos garante que a escada não termina. Por isso, arrisco agora dar um passo atrás para que possa, mais tarde, singrar como acho que sou capaz. Se pessoalmente consegui encontrar o que idealizava, sobra-me o mais fácil. Empregos há por aí aos pontapés, o nosso coração é que é só um.

maio 26, 2009

Crónicas dos Países Baixos vii *

Ao último dia, resolvo deixar a zona do BeNeLux e aventuro-me em terras germânicas, em parte porque estou demasiado perto para não aproveitar mas também porque sou mulher e há esse lado em mim que me obriga a aproveitar a oportunidade de comprar cremes a 0,85€. Era o verdadeiro último dia de férias, depois disso viria o fim de semana que nos deixa sempre aquela impressão de que Eh, amanhã já é segunda. Foram, pois, agradáveis horas de comboio, perdida entre as verdejantes colinas belgas e os intermináveis prados alemães.

De ambos os lados da fronteira, casas enormes, escondidas pela vegetação, protegidas de todas as inanidades deste Mundo assomavam para quem seguia atentamente as ligeiras variações da paisagem. Todas as casas eram construídas com aquele tijolo castanho, tristonho, mas em quase todas também descobria um quintal onde a dona de casa estava estendida numa espreguiçadeira (aproveitando o tímido Sol do Norte) ou onde se via uma criança brincando, sossegada. Só me ocorria Podíamos morar aqui e aqui também e viver sossegados aqui mas temos andado noutras direcções.

Quando saí da estação em Colónia, fiquei meio em pânico. A saída dá directamente para a catedral gótica, um monumento colossal, esmagador e negro que parece quase ameaçar-nos. E eu deixo-me facilmente intimidar por monumentos desta grandeza (já viram o Palais de Justice em Bruxelas? Tenho medo.). Depois, ao avançar pelas ruas onde se multiplicavam as lojas, continuou a ser o terror: nunca tinha visto tão grande número de turistas, tantas lojas reviradas de alto a baixo, tantas sucursais da H&M na mesma rua. Pensei que os moradores de Colónia devem ter dias próprios em que podem sair à rua, tranquilamente e sem esbarrarem em milhares de visitantes consumistas. Não cheirei a água de Colónia, como se impunha. Nem subi todos os degraus da catedral, porque sou um bocado alérgica a filas intermináveis.

Passeei, antes, pelas margens do Reno, onde outros milhares de pessoas se estendiam na relva, esperavam pelos barcos de cruzeiro ou simplesmente descansavam. Era muita gente e, acima de tudo, era muita gente a falar Alemão. Mas como há um botão na minha cabeça que me permite desligar línguas, sentei-me sossegada a ler, enquanto fazia tempo para o comboio. Já tinha as compras feitas, já tinha o peito cheio de saudades de casa, já suspirava pelo regresso. Estava em Colónia, eram cinco da tarde e eu pensava como, em turismo, partir é tão bom quanto regressar.

* a excepção a ser feita com esta visita à Alemanha.

maio 25, 2009

Crónicas dos Países Baixos vi

Depois de um dia recuperando do susto da casa violentada por estranhos, resolvi rumar um pouco mais a Norte, visitar a cidade de Antuérpia. Esta foi, posso dizê-lo, a desilusão da viagem. Primeiro, porque era feriado na Bélgica, o que implica (ao contrário de Portugal) que está tudo fechado, que há partes da cidade completamente mortas e em que o silêncio (ao contrário de Brugge) quase assusta. Esta gente do Norte leva os feriados demasiado a sério e mesmo o comércio encerra. Se fosse em Portugal, era tudo aberto e até altas horas da noite, tal é a nossa febre consumista.

Portanto, parte da cidade estava adormecida e, a parte que escapava, estava demasiado cheia de gente, restaurantes italianos com empregados do Magrebe e portugueses que discutiam os seus comprimidos e refeições frugais em cima do pontão. A outra parte era feita de catedrais que não cabem numa só fotografia, uma Grand Place (pois que as há em todo o lado, é como em Espanha mas com muito menos salero) em versão muito mais modesta e uma enorme rua cheia das melhores lojas e das marcas mais populares. Mesmo assim, o que mais me impressionou foi a estação de comboios, altiva e recuperada, a mostrar como este meio de transporte é importante para as gentes do Norte. E para mim támbém, que andei a aproveitar as tarifas reduzidas do fim de semana grande deles.

maio 24, 2009

Crónicas dos Países Baixos v

Durante o dia em que os senhores ladrões resolveram (gentilmente) visitar a nossa casa, eu tinha saído bem cedo em direcção a Brugge. E até saí a horas, digo eu, visto que me livrei de ser molestada por quem quer que seja que achou que valia a pena roubar o meu portátil. O dia, como se vê, estava tudo menos solarengo, o que não deve constituir nenhma surpresa para quem se desloca nesta zona da Europa.

Então Brugge... A Veneza do Norte, dizia o engraçado senhor que conduzia o barquinho. Primeiro, andei alguns metros um pouco desiludida com a cidade, uma vez que não encontrava quase nenhum motivo que merecesse uma visita. Já devia saber que isso pode acontecer a quem decide visitar cidades sem pedir um mapa no turismo.Mas depois de encontrar a Grand Place do sítio, mudei obviamente de ideias. Tudo melhorou ainda quando, finalmente, consegui chegar aos canais onde se concentra o maior número de turistas. À vista do guichet dos barcos, nem pensei duas vezes e fui exactamente preencher o único lugar que faltava naquela embarcação. Uma coisa um pouco improvisada, com o condutor a ter que passar por cima da minha cabeça à entrada e à saída, mas eu de vez em quando tenho boa vontade.

Brugge é uma cidade para ser vista a dois, para se passear romanticamente de barco pelos canais e debaixo das pontes onde suspeitamos perder a cabeça, para se provar tudo no canto do chocolate. Havia partes de Brugge docemente abandonadas pelos turistas, onde a vida não parecia conseguir tocar, como a estação de comboios onde só eu com a minha caixinha de frites, uma miúda que fumava tabaco de enrolar e um senhor deficiente esperávamos pelo sinal. Se soubesse para o que ia voltar, talvez me tivesse demorado ali, a esquecer-me de que, exactamente à mesma hora que eu fechava os olhos, aproveitando o silêncio que subia dos carris, alguém destruía o que restava da nossa fechadura.

maio 23, 2009

Crónicas dos Países Baixos iv

Por força das circunstâncias, tenho aí umas três crónicas atrasadas. Porque isso da internet estar em todo o lado e disponível para todos continua ainda a ser um mito. E, sejamos francos, quem quer sentar-se em frente a um computador quando tem a Europa Central aos seus pés? Ninguém, eu sei.

Cheguei ao último dia das férias. Apesar de ser um lugar comum, vou dizê-lo: as férias são muito curtas. Não tive tempo de ver tudo o que queria nem de esgotar as pernas em passeios intermináveis (embora estivesse lá quase). E fiz quase tudo sozinha, o que, apesar de já ser um hábito para mim, este ano não me soube tão bem. Levo grandes memórias comigo, é um facto. E levo também menos um computador portátil e mais um coração apertado pelas saudades e pelos assaltantes.

Enquanto vos escrevo, tento, inutilmente, sintonizar uma estação de rádio aceitável. Mas já percebi que em Bruxelas, ou ouvimos o reggaeton pelas colunas roufenhas dos nosso telemóveis em pleno Metro ou estamos tranquilamente sentados no nosso terrasse, a beber Prosecco e a ouvir um compositor clássico. Desisti de procurar e agora, em forma de Até breve a esta bela cidade, vou passear pela última vez pelas ruas do centro. Aproveito para confirmar se este céu é verdadeiro - é que a combinação Bruxelas e céu azul sempre me pareceu uma contradição. Volto já.

maio 20, 2009

Crónica dos Países Baixos iii

Estava eu a pensar como é que podia tornar tudo ainda mais interessante. Não era suficiente ter uma semana de férias, nem poder conhecer várias cidades europeias ao mesmo tempo, nem ter o alojamento garantido por tempo indeterminado - faltava qualquer coisa. E foi assim que nos resolveram assaltar a casa.

O produto do roubo foi fraco, mesmo assim. Até agora, apenas damos por falta de dois portáteis, o meu incluído, claro está. Cheguei a casa vinda da encantadora Brugge e fiquei imediatamente com a fechadura na mão, o que me levou a achar tudo muito estranho. Depois, foi só entrar e ver um espaço vazio onde antes estava o computador, os quartos revolvidos mesmo à filme, uma preciosidade. Mas, para tornar as coisas ainda mais emocionantes, um dos donos da casa tinha partido para Seattle horas antes e o outro estava há mais de 24h em parte incerta e incontactável. Portanto, e recapitulando: eu, sozinha na Bélgica, sem falar mais que duas palavrinhas de Francês e com uma casa roubada para vigiar. Eu esmero-me, eu sei.

Valeram os contactos que sempre se guardam por aí, portugueses e franceses, incansáveis fazendo a tradução simultânea com a Polícia, tentando encontrar uma fechadura nova, dando um novo tecto a esta que vos escreve. Mas mesmo mais calma, nada me impediu de acordar hoje e pensar que tudo não tinha passado de um pesadelo. De proporções gigantes, tal é a minha capacidade de me atemorizar. Mas hoje é outro dia nos Países Baixos e, curiosamente, está um Sol inacreditável. Deve ser o Universo a tentar equilibrar.

maio 18, 2009

Crónicas dos Países Baixos ii

As fotos foram tiradas pelo meu fotógrafo preferido.

Ando por esta cidade cada vez mais com a sensação de que a conheço muito bem. Talvez ainda tenha alguma dificuldade em ler os organigramas dos transportes e perceber o que apanhar para onde e talvez ainda me confunda a omnipresença do francês e do flamengo. É possível que continue a achar que os habitantes de Bruxelas não são os mais simpáticos que conheço ou que há turistas a mais quando se começa a chegar à Grand Place ou que o tempo é ainda mais instável do que em Lisboa. Mas gosto dos parques de vegetação muito densa e verde, gosto das carrinhas que vendem gelados e gauffres, gosto dos restaurantes portugueses por todo o lado, gosto desta centralidade toda que faz com a cidade esteja constantemente a mudar. E, mesmo achando que as ruas estão demasiado sujas, que o lixo está espalhado um pouco por todo o lado ou que o céu é demasiadas vezes cinzento para alguém que, como eu, vem do Sul, imagino que, com a companhia certa e o apartamento certo, era rapariga para ser feliz aqui.

Amanhã, as borboletas voam até Brugge.

maio 15, 2009

Crónicas dos Países Baixos i

Volto a um sítio onde fui feliz para descobrir que estava redondamente enganada. E agora que levantei os meus padrões de felicidade, agora que não me contento com qualquer coisa, vejo que este é um bom sítio para se estar. Voei de Lisboa a Bruxelas para começar a visita com uma refeição tipicamente portuguesa e o tempo tipicamente belga. Férias são férias são férias e agora só penso em conquistar uma festa caseira de malta do Mundo com o som que vem de Portugal. Se não me conhecesse melhor, diria até ao meu regresso. Digo apenas até breve!

maio 13, 2009

Só tenho tido tempo para ser feliz

Não durmo nada. Há quase uma semana que prego olho apenas por um par de horas ou nem isso, tudo a bem da felicidade. Depois, durante o dia, vejo-me envolvida na luta desleal entre mim e o sono gigantesco com que entro na primeira carruagem do metro e com que me sento em frente ao computador. Pela hora de almoço, estou novamente fresca mas, se deixo que a tarde me apanhe desprevenida, é ver-me outra vez com a cabeça trôpega.

Quando as pessoas estão ocupadas a serem felizes, relembro-o agora, não têm tempo para outras coisas. Não lhes apetece limpar, não se imaginam na cozinha, esquivam-se a todos os deveres com a pressa de chegarem onde estão bem. Ser feliz é um posto a tempo inteiro e as pessoas que têm a sorte de o ser só se conseguem ocupar com o sorriso parvo todo o dia, com os pensamentos a voarem pela janela de um sexto andar, com as memórias a serem mais fortes do que qualquer reunião de gente séria. Mas dá trabalho, isto de ser feliz. Demora até se perceber que a batalha é constante, que, uma vez começada, a felicidade vai ocupar-nos tudo o que temos.

Tenho a casa por limpar. E tenho uma mala por fazer porque, apesar de ainda estar a desconfiar disso, as férias chegam daqui a umas vinte e quatro horas. E tenho a máquina cheia de roupa por lavar porque a felicidade ainda não conhece os programas de lavagem. Se me consigo concentrar nas coisas sérias, logo vem a felicidade lembrar-me de que o mundo é lá fora, é lá em casa, é à porta do trabalho. E, se no dia que hoje passa, podia achar que a felicidade é também um milagre, já me desenganei. Às vezes, ela é-nos servida de bandeja. E se há coisa que eu já aprendi com as asneiras todas que fiz é que nunca devemos recusar ser felizes. E eu sou, enormemente.

maio 10, 2009

M.

A felicidade é quase partir uma perna para me mostrar as estrelas.

(Tenho-lhe visto a felicidade nos olhos algumas vezes. Tenho-me comovido com a maneira como olha para mim. E a única coisa que me passa pela cabeça é que quero ver (sentir) estes momentos a multiplicarem-se até ao infinito...)
Podem encontrar-me agora também aqui. Primeiro os blogues e a internet, depois o Mundo.

[riso cavernoso]

maio 06, 2009

Como (quase) pegar fogo a uma cozinha: guia rápido

Chega-se a casa com dois pares de sapatos encomendados e finalmente disponíveis num sítio altamente improvável. Pousa-se tudo e vai-se directo ao frigorífico tirar o frango para depois barrá-lo com uma mistura bombástica de picantes e salpicá-lo de sal, antes de o enfiar no forno.

Volta-se à sala para ligar o computador e ver se os sapatos servem. Já de olho no teclado, idealiza-se um artigo sobre coisas que se conhecem relativamente bem numa primeira incursão mais próxima do jornalismo do que a escrita de coração na boca. Adere-se, nos entretantos, àqueles tarifários de falar tudo o que se quiser por nada, venham ver!, é mesmo tudo à borla, para minimizar os impactos de longos minutos ao telefone e para descansar o coração. Sente-se o primeiro cheiro a queimado mas pensa-se que é a vizinha de trás a preparar o lume para assar peixe.

Escrevem-se as primeiras palavras, de sobrancelha empinada, com a vaga sensação de algo ali não está a correr bem. Mas, de repente, ocorre-nos que o que não corre bem é o intenso cheiro a queimado e vai-se à janela da cozinha espreitar. A caminho, repara-se que o forno deita fumo por todos os lados e soa o alarme! Abre-se o forno e repara-se que, colado às resistências, arde não mais do que... o livro de instruções do forno. Abre-se também um parêntesis para os auto-insultos enquanto se tenta apaziguar tudo com água. Convencida de que está tudo sobre controlo, volta-se ao lugar. Continua-se a despejar caracteres sobre a folha branca do processador de texto mas o fumo não abranda. Volta-se à cozinha e verifica-se que o livro continua a arder, em lume brando.

Já quase em modo de histeria, jogam-se canecas de água para cima das brasas e tenta-se respirar entre o fumo. Liga-se a ventoinha para tentar ventilar a casa inteira, sem sucesso. Ao telefone, ouve-se a voz que mais desejamos ouvir (especialmente em aflição) e sai-se de casa para evitar o monóxido de carbono. Explica-se à vizinha a imprudência. Volta-se, depois de muita conversa e sorrisos arrancados sem esforço. Maldize-se o dia em que se desejou frango assado.

Caramba. O livro de instruções do forno...

maio 05, 2009

Party people @ Coimbra

Era a oportunidade de fazer outra vez o caminho no Intercidades e conseguir ler um Y de há três semanas atrás e quem sabe voltar a pegar no livro e ouvir música, musicando a paisagem desordenada que se vê entre Lisboa e Coimbra. E claro, mesmo sabendo que corria o risco de encontrar demasiada progesterona junta, tentar a diversão acima do Tejo.

Dividi-me entre uma vista deslumbrante sobre o Mondego e os telhados encavalitados da cidade, as Monumentais às cinco e tal da manhã (antes dos desejados ovos mexidos), a hortelã dos mojitos a 1,90€, a esplanada num Sábado estranhamente quente, as partidas da regata anunciadas com disparos, os ténis que me pediram para serem meus, o abismo de dez anos que se começa a alargar entre mim e os caloiros de agora. E depois tive tantas saudades (mal habituada por um coração livre), dei vivas à vodka preta, comprei cigarros de chocolate e sentei-me com frio na praça da Portagem, evitei grupos de gente bêbada e abracei o Kaló à porta do Noites Longas (já a desinibição o permitia).

Fiz tudo em boa companhia: com moças que ressonavam, levavam horas a colocar os seus cremes, gostavam de preguiçar até às quatro da tarde, jogavam com duas moedas destemidamente e que me fizeram rir o tempo todo. Las chicas me matan, não importa a geografia.

maio 04, 2009

A senhora M.

Passam hoje cinquenta e cinco anos desde o dia em que nasceu. Este ano foi por pouco que não acumulou os festejos com o dia da Mãe, como costuma ser hábito.

A minha mãe tem muito medo que eu me magoe, que me desiludam, que me faltem ao que me prometeram. Deixa-me viver mas se pudesse levava-me enroscada debaixo das suas saias para garantir que o mundo não me leva a melhor. Foi da minha mãe que nasceu o meu idealismo, mesmo que ela agora tenha deixado de acreditar em muitas coisas. Houve alturas em que tive medo que a minha mãe tivesse desistido de mim, que tivesse definitivamente deixado de acreditar ou que não me perdoasse mais. Mas ela, que não sabe ser de outra maneira, sempre me amparou os golpes, mesmo que fingindo ignorá-los.

A minha mãe copiou uma composição minha (Um dia como uma bola de sabão) e levou para o trabalho. Queria mostrá-la a toda a gente porque tinha chorado quando a leu. Se calhar, gosto de escrever porque a minha mãe me animou sempre, mesmo quando acha que são tristes as coisas que eu escrevo. Da minha mãe também herdei uma espécie de costela anti-social: não dou confianças a desconhecidos, gosto de me meter na minha vida, exijo reciprocidade nas minhas relações. E não me importo, como ela, que me achem antipática - importante é conhecermos os nossos próprios limites.

Talvez por não ter sido sempre assim, a minha mãe não entende sempre que procuro a sua aprovação para tudo o que faço - tudo. Mesmo que sejam coisas insignificantes ou grandes acontecimentos (como os últimos, que me deixaram com a cabeça a andar à roda e o coração apertado), é importante, pelo menos, que ela saiba. E se aprovar, se achar que é uma boa decisão, se ficar (mesmo que) disfarçadamente feliz por mim, sinto-me muito melhor. Portanto, ela acumula muitas vezes o aniversário e o dia das Mães. Dois presentes não serão suficientes para todas as noites que a deixei sem dormir.

abril 30, 2009

A paisagem não tem dono*

Seriam umas cinco da tarde quando deixámos de pisar terra e se soltaram as amarras do veleiro. Éramos feitos de óculos de Sol e de cabelos desalinhados violentamente pelo vento, éramos casacos que começaram abertos e depressa se enroscaram nos nossos troncos fustigados pelo cheiro a rio. Falavam-se umas três línguas naquele barco mas era o espanhol que estava por todo o lado. Rio abaixo e rio acima, o estádio do Belenenses e o Cristo Rei, o Ginjal e a simetria da Praça do Comércio miravam-nos tranquilamente sem nos acenarem como os passageiros de outros barcos com que nos cruzávamos. Fazia-se música dos disparos da máquinas, da rotação das objectivas, da rouquidão do veleiro sobre o Tejo. Tomei nota de todos os sítios que quero ver, invejei as vistas de tantas águas furtadas e namorei a cidade ao longe. Ainda se sente a Primavera ao longe mas velejar ao Sol quase faz esquecer o frio.

* escrito num armazém nas margens do Tejo. M. e Jer viajaram a convite da Rua de Baixo, numa organização do Indie Lisboa.

abril 29, 2009

E agora, para uma surpresa alentejana...

Aceitei o convite muito amável e algo inesperado do Paulo para escrever numa publicação que estava a nascer. Apesar de não ter acompanhado este nascimento, senti-lhe o entusiasmo e a excitação com que falava do projecto e essa foi razão mais do que suficiente para aceitar. Além disso, como se o convite por si não fosse aliciante, este é um projecto em que acredito: uma revista sobre o Alentejo, feita por alentejanos, para ser lida por todos. Para quem perdeu a esperança, algum dia, de que há vida atrás da silenciosa planície ou debaixo do opressor calor estival ou para quem quer acabar com o mito da preguiça alentejana - esta é a revista Pormenores.

As borboletas na barriga voam agora um pouco mais longe e espalham-se também por delicadas folhas de papel. Estou imensamente grata pelo convite (a sensação de imaginar as minhas palavras estendidas por cinco mil encadernações é muito mais intensa do que poderia imaginar) e espero que este projecto se venha a tornar num sinónimo de sucesso. E agora ide a correr para as bancas e façam esgotar o número um. Ofereçam aos amigos, àqueles colegas irritantes que insistem que têm uma costela alentejana, aos estrangeiros que vos perguntarem o que devem ver! Agora, é tempo de escrever. Com um enorme e pateta sorriso enquanto procuro a palavra certa...

abril 26, 2009

Um homem* ama a sua guitarra

E, como a uma mulher, toca-a com os olhos fechados. Encosta o rosto às suas curvas em adoração involuntária, procurando decorar-lhe o cheiro natural. As mãos perdem-se nos pormenores do seu corpo, param admirando os defeitos mais intrigantes e fazem-na soltar as mais belas linhas de amor. Um homem baixa os olhos, envergonhado pela sua simplicidade e troca de guitarra para mais uns minutos em que o público sustém a respiração para não impedir a música de viajar bem longe. Com uma delicadeza ímpar, um homem presta apenas atenção aos sons que consegue arrancar de seis cordas, doze cordas, muitas cordas como se fossem sussurros de uma mulher estendida numa cama ao amanhecer. É-lhe natural, esta grandiosidade. Este homem de barba comprida e olhos agradecidos deixa-nos, não sei se involuntariamente, olhar-lhe para dentro. E é extremamente belo aquilo que consigo ver.

* o Norberto Lobo actuou ontem no CAEP.

abril 25, 2009

Febre de Sábado à tarde

Bocejo insistentemente depois de acordar do torpor em que se transformou esta tarde. Sou devolvida a esta luz frouxa de um dia gelado ainda debaixo do véu pernicioso dos gins tónicos de ontem. À memória, saltam-me o final de noite com o coração a duzentas e quarenta batidas por minuto num largo deserto e obviamente silencioso e o banco tardio onde repousamos o pequeno-almoço, pouco abrigados do frio mas ainda sob os efeitos do Sol. Ainda ensonada, experimento um vestido doze quilos depois e experimento também uma inevitável sensação de triunfo em frente ao espelho, desfilando para a minha mãe. Estou dividida entre o calor dos aquecedores e o frio da tijoleira do meu quarto, alternando as cavas da camisola com as mangas dum casaco preto.

É o dia em que comemoramos a liberdade mas também o dia em que sinto o gosto indescritível de já não ser livre. E é noite de música mas tarda a companhia. Voltei a contar as horas para o coração acelerar.

abril 22, 2009

Wishful thinking

Uma coisa que tem preocupado esta cabecinha (que se tem entretido ainda com outras coisas que a seu tempo verão a luz do dia também) é o futuro, no sentido profissional da coisa. Há três anos a trabalhar no mesmo sítio, sinto que a minha relação com este sítio está muito desgastada. E, confesso, estou cansada de correr atrás de banalidades. Impedida por alguma inabilidade de fazer só e apenas o que gosto de fazer (escrever), mato o tempo que resta com a gestão de pessoas e tudo o que isso tem de memorável e irritante. E até sou boa a fazer isso. E provavelmente mudo-me apenas de empresa e fico exactamente na área onde estou. E acho isso parvo.

E se não fosse escrever, gostava de estar à frente de um turismo rural. Receber pessoas, organizar actividades, cozinhar... e ter tempo para escrever o livro que às vezes sinto que está dentro de mim. Mas o investimento é qualquer coisa de impensável agora e o livro atrasado por achar que só consigo escrever sobre o que conheço. Gostava de tudo menos estar onde estou. Sou bem tratada mas mal paga, especialmente se pensar em tudo o que tenho que fazer todos os dias. Só que o bom ambiente por si não paga as minhas contas e também não promete um futuro assim tão auspicioso.

Portanto, uma unidade de turismo rural, com um alpendre enorme onde eu penduraria a minha rede para as sestas e com uns canteiros onde daria os primeiros passos na jardinagem e onde faria deliciosas tartes de maçã e frutos silvestres está para nascer. Mas a planta já está na minha cabeça e já vejo um cantinho com uma secretária virada para uma seara qualquer e uma daquelas gaiolinhas para grilos com um esfregando as asas de contente, enquanto os meus hóspedes mergulham na piscina para escapar ao Suão e da cozinha chega um cheiro a pimentos frescos e a hortelã. E darei a todas as palavras que carrego dentro liberdade de construírem mundos e de fazerem outros falar e terei ideias para tantas folhas em branco que uma sala deixará de ser suficiente. E não estarei sozinha porque levo deste tempo quem me tomou o coração.

Mas amanhã estarei ainda na capital e terei que falar sobre estilos de liderança. A tarte e as novidades ainda terão que esperar.