agosto 31, 2009

Delicious hospital food *

Os corredores denunciam a remodelação mas não o esmero da limpeza. Desceram o tecto poucos centímetros acima da nossa cabeça, o que contribui para aumentar a sensação de claustrofobia, apenas aliviada pela cor pastel das paredes. Quase todas as persianas estão descidas, o que, juntamente como os novos aparelhos de ar condicionado, ajudam a que se consiga respirar mesmo quando estão quarenta graus lá fora. Os elevadores ainda não foram alvo da tal remodelação e tanto cheiram a mofo e a naftalina, como à sopa que sofre da falta do sal.

O que me tem incomodado nestes últimos dias de hospital não é tanto o facto de ele estar encurralado no seu próprio corpo, sem ser capaz de se exprimir, o facto de perder constantemente a noção do sítio onde está ou de quem o visita ou a sensação de que já não nos conhece. Também não são as mãos atadas à cama ou o estado (nervosamente) estacionário que tem prolongado a sua estadia por mais tempo do que pensaríamos inicialmente. O que me tem perturbado são as outras misérias que, abandonadas no meio da renovação, esquecidas pela família ou pela previdência, respiram a custo, tentando inutilmente sobreviver. Ele esqueceu já todas as palavras mas nós estaremos sempre à cabeceira e aos pés da cama. Mesmo que à distância, ele nunca estará sozinho.

* o verso dos Eels, a lembrar-me desejo ardentemente que este 2009 acabe porque ninguém me preparou para a quantidade de quartos de hospital que já visitei até agora.

agosto 27, 2009

Não matem o mensageiro mas.

O meu posto de trabalho vai ser extinto. Quer dizer, o meu e o do resto das pessoas que trabalham comigo. Acho que agora, depois de me ver a contas com a negação e a raiva, depois de chegar ao ponto em que me consigo rir disto e de saber a data exacta do fim, posso dizer isto em voz alta. Não tem nada a ver com a crise que atravessamos há quase um ano - o modelo de negócio tornou-se simplesmente obsoleto e pouco rentável e os senhores que fazem milhões à pala disto resolveram mudar. E eu nem consigo estar triste com isto. Na verdade, acho que estou secretamente feliz por ver o final há muito anunciado deste caos da gestão e por deixar de trabalhar com algumas pessoas. Mas não consigo evitar sentir uma réstia de ingratidão para todos nós.

E hoje, um pouco como coroação deste anunciado gran finale, fui tratada (quem sabe ainda não pela última vez) como uma máquina apenas de gerar lucro, como alguém que deve dispor das vidas dos outros para o bel-prazer da empresa, enquanto tenta motivar essas mesmas pessoas. E eu, que nem preciso que me animem porque sei procurar muita da minha motivação dentro de mim, nunca recebi ou sequer poderei aspirar a receber uma palavra de motivação deste supra-sumo da economia, uma palavra apenas de apreço por aguentar inteira uma equipa depois de anunciado o seu fim. Não há tempo para insignificâncias destas nem haverá tempo para gastar um mísero Obrigada comigo.

E agora, feliz por escapar finalmente ao jugo dos números, reencontro-me com a angústia de alguém que não sabe o que o futuro lhe reserva, que se vê a braços com processos de recrutamentos e escrutínio de anúncios de emprego sem fim, mesmo não sabendo o que quer da vida. E, se por um lado o sentimento de liberdade é um alívio para mim, por outro estou aterrada com esta hipótese de não-futuro, das sucessivas rejeições, do sentimento de inutilidade. Livre mas desconfortável, portanto.

E agora estou a rever o American Splendor (o único filme que vi sozinha numa sala de cinema) e estou a ficar deprimida. Realmente deprimida, especialmente depois do Harvey se olhar ao espelho e dizer Well, there's a reliable disappointment. Pareço eu em algumas manhãs.

agosto 24, 2009

Aquele querido mês de Agosto (em diferido do interior)*

Todos sabemos que, chegado o oitavo mês do ano, regressa misteriosamente e um pouco por todo o lado um outro país. É um país invadido pelas matrículas francesas e luxemburguesas, pessoas com saudades da sua aldeia natal, anúncios de festejos pregados por essas árvores fora. Este outro país não estende as suas fronteiras além do centro do país real, em que as estradas não estão congestionadas por quem chega de longe e em que o verde foi, desde há muito, trocado pelo amarelo das searas.

Tentando escapar à onda de saudosismo desses Mercedes tão bem estimados e à vontade de carregar com o andor na procissão e à profusão de penteados muito devedores da estética dos anos oitenta, deixei-me ficar pela beira da piscina, lendo todos os suplementos que tinha em atraso mas não ainda capaz de despachar o livro de uma vez por todas. Subimos ao Caramulinho e estavam certamente entre trinta e quarenta graus centígrados e nós suávamos enquanto dizíamos que caminhadas daquelas devem ser guardadas para outras estações. Ainda não foi desta que consegui acabar com a fobia dos eólitos. À hora do jantar, conseguimos desencantar os sítios mais encantadores para se comer boa alheira e para se beber Cabriz. O tempo, sabemos todos também, não chega para tudo mas chegou para dar um pulo a Viseu e a Aveiro, a tempo de chegar a Lisboa para descansar... do fim de semana.

*com outros postais ilustrados aqui.

agosto 19, 2009

Agosto na Lapa*, 35 ℃


Eu, admiradora incondicional do Verão, me confesso: tenho tido muitos sentimentos contraditórios acerca desta estação, especialmente na zona onde moro. É muito bom, este silêncio que sempre se ouve pela manhã, os pássaros que cantam nas árvores que separam o condomínio dos quintais ranhoso deste lado da rua, os autocarros a passar (aparentemente) com menos frequência. Os cafés a caminho de casa estão quase todos fechados, com letreiros de férias em todas as montras, uns desenhados com palmeiras e malta deitada na praia, outros mais secos e improvisados.

À porta do liceu, não há sinal das meninas que vestem roupa de Verão todo o ano, encostadas à parede, fumando languidamente ou provocando os miúdos que afastam, a custo, o cabelo dos olhos. Não há algazarra junto da escola e as folhas dos plátanos que acompanham as suas grades formam já um tímido tapete, secas pelas temperaturas finalmente altas, revoltas pelos chinelos que caminham em direcção à Estrela. O jardim é agora trilhado por casais gays e heterosexuais, turistas espanhóis muito bem compostos, grupos de rapazes de rastas que depois se deitam pela relva, senhoras bem casadas à espera do segundo filho, os mesmo três senhores de sempre correndo juntos, o mesmo rapaz com cabelos de Cristo sentado em pose depressiva, bebés de colo por todo o lado.

A atmosfera abafada chegou à Estrela e, sendo Agosto, o trânsito nas artérias que circundam o jardim abrandou também, como se agora os automobilistas estivessem demasiado ocupados a escolher o próximo destino de férias. Quase estaciono longe da porta simplesmente porque nestes dias há tantos lugares livres que me posso dar ao luxo de escolher. Ainda não moram estudantes das janelas da frente, nem as alunas da escola gritam à hora de saída.

Sinto a falta destas palpitações. Sinto falta da movida e das buzinas no cruzamento, mesmo que seja muito bom passear por uma Lisboa vazia. Sinto falta duma cidade em marcha mas Setembro já está quase aí.

* com uma fotografia daqui.

agosto 16, 2009

Gustavo, o peixe

Eu não sou propriamente aquilo a que se pode chamar uma animal person. Gosto dos bichos, sim senhor, mas, por alguma razão que o meu inconsciente esconde, não sou de fazer festinhas nem de rebolar com eles e dar beijinhos e essas coisas. Tenho, aliás, um pavor irracional de ser mordida por qualquer animal, especialmente nos casos em que se junta um grande número de exemplares caninos.

Por estas razões, o Gustavo é o animal ideal para mim. Está sossegado no seu aquário, não tem uma dentadura que me possa assustar, não pode esboçar um plano com outras criaturas para me atacar, não ladra nem faz qualquer outro tipo de som, não reclama atenção nem exige muitos cuidados especiais. Não posso evitar conversar com ele, nem ficar vidrada nos seus movimentos fugidios e nervosos, nem rir-me quando ele faz aquela boquinha de peixe enquanto olha para mim atrás do vidro. Nem sequer preciso de falar sobre o significado que ele tem para mim. É o Gustavinho e eu penso se ele estará bem quando estou longe dele.

agosto 14, 2009

Chick flicks *

(Eu até posso armar-me em forte e posso fingir que não sou nada dada a romantismos. Posso ter medo das certezas, mesmo que as sinta profundamente. Posso fingir que as cenas melosas não me dizem nada e o que quero ver são coisas bonitas, que me façam pensar. Eu posso tentar evitar mas não consigo não me imaginar na pele da rapariga rejeitada, da rapariga mais sortuda do Mundo, da insatisfeita e da céptica. Eu posso tentar resistir e ver o filme em metades desiguais, completamente bêbada de sono, agarrada às duas almofadas que me fazem companhia diariamente. Mas disto é que eu gosto. Daquele nó na garganta quando o filme está prestes a chegar ao fim, das lágrimas que me caem por imaginar que aquela podia ser eu, da emoção de imaginar que um dia aquilo também me há-de acontecer. Com direito a música melosa e tudo. Porque não existe nada que me importe mais do que ter um coração que palpite e faça palpitar.)

* o desta semana.

agosto 11, 2009

Um pouco de Primavera *

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Ter a certeza é assim daquelas coisas lixadas. Porque (normalmente) vem alguém no final que nos acaba com tudo, que nos desfere o golpe de misericórdia, ao qual pensávamos ter escapado logo no início. Ter certezas depois de muitos destes golpes já não é lixado, é apenas uma imensa prova de fé, deixa de ser uma escolha para passar a ser uma obrigação. Ter a certeza alivia-nos do absurdo que é acordar todos os dias sem saber como tomar decisões, alimenta-nos todos instantes em que nos permitimos distrair, povoa-nos as fantasias de uma vida mais livre noutro sítio qualquer. Ter a certeza demora. Saber que sim senhor, é isto mesmo, não é coisa para acontecer em meia dúzia de dias mas, com sorte, pode acontecer num só beijo. Quando se tem a certeza, tudo o resto passa a ser secundário. Deixa de interessar se há correio ou não, se a máquina do café funciona, se a ventoinha está em falta.

A noite está incrivelmente quente e, se eu me encostar às grades secas da varanda, consigo sentir uma brisa tímida a tentar desalinhar o que resta de um rabo de cavalo mal conseguido. O som da porta do carro a bater é, ao mesmo tempo, uma incómoda despedida e uma promessa de regresso. E ter a certeza é começar a contar os minutos que faltam.

*pela mão dos Noah and the Whale, agora que chegou o Verão.

agosto 09, 2009

Blank *



Este é seguramente um dos períodos descendentes da minha vida. Acho que, depois disto, fica provado para mim que o que temos hoje pode perfeitamente voar amanhã. Descobri há pouco tempo que não tenho andando a cultivar as relações familiares como devia e, em vez de tentar remendar isso da melhor maneira, levantei uma sombra que se instalou quase definitivamente.

Depois, a saúde de outro dos homens da minha vida anda a ameaçar degradar-se definitivamente e a certeza de que as mulheres são mais resistentes cresce em mim. São as mulheres que engolem as lágrimas porque sabem que a vida tem que continuar, são elas que ficam com as decisões e que nunca deixam de dar tudo o que têm, são elas que (apesar de serem chamadas de sexo fraco) nunca se deixam consumir pelo desgosto. A minha família é assumidamente matriarcal, com mulheres que nunca param, nunca deixam de sair, de coser mesmo quando a dor quer falar mais alto. E os homens, gastos pelo trabalho e debilitados pela velhice, começam a despedir-se cedo, deixam os corpos para trás e fogem pelos olhos vítreos, esquecem-se lentamente de quem estão a deixar em terra. Não tem sido fácil assistir a estes pequenos declínios, que levam com eles as pessoas que me ensinaram a crescer.

E finalmente, essa coisa a que convencionaram chamar emprego... Estou aprisionada por uma posição que me é cada vez mais estranha e por um mercado estrangulador para quem não quer viver dos números. A natureza do negócio mudou e tudo caminha claramente para um fim, um fim que eu já adivinhava há algum tempo mas tinha sempre recusado a aceitar. E, se parte de mim exulta com a possibilidade de voltar a ser livre, a minha metade racional lembra-me que, querendo construir uma coisa parecida com uma vida, há uma atitude mais séria que devo tomar. Já tinha dado cambalhotas antes, daquelas que não se sabe muito bem de onde se parte mas nada como aquela que - parece-me - aí vem. Não tenho medo por mim. Nem tenho pena de mim. Mas gostava que, com apenas uma decisão minha, pudesse resolver a vida e pudesse devolver a paz de espírito aos que se preocupam com ela.

* uma música velha dos Failure, que ilustra muito bem o estado em que às vezes me obrigava a estar durante a semana que passou: em branco, vazia de memórias, imune a certos estímulos exteriores. Para ouvi-la em repeat, com a certeza de que a convulsão maior passou e eu, ainda não renovada, estou de volta.

agosto 06, 2009

Esta é a (belíssima) capa da Pormenores deste mês onde, para além do relato ingénuo sobre algumas das memórias de infância desta que vos escreve, podem ainda ler sobre um sítio paradisíaco para passarem férias, sobre mais uma receita com história ou simplesmente maravilharem-se com outras fotografias sobre o Alentejo. Não sei o que estão a fazer aí parados em vez de correrem para as bancas e fazerem com isto esgote num instante...

(um momento de publicidade para fugir ao descarrilar das coisas, à passagem abrupta dum estado de graça para um estado de desgraça, apenas salva - uma e outra vez - pela linha do amor. Sou um desastre com as palavras faladas, sou um desastre a explicar-me, sou uma catástrofe em potência sempre que me puxam pela língua. Preciso urgentemente de me calar.)

agosto 04, 2009

2009 (so far) *


Para verem como às vezes sou uma pessoa bastante desocupada e como a profissão que nunca escolhi já fez das suas no meu cérebro, criei um gráfico com as coisas que me têm acontecido até agora. Como é meu apanágio, isto não tem qualquer valor científico, é apenas uma fantasia absurda mas acho que ilustra bem os tropeções que tenho dado desde o início do ano. Na minha cabeça, já há muito que se formou a teoria da impossibilidade: as linhas todas não podem estar acima da normalidade simultaneamente. Isto é empírico, largamente comprovado pela minha experiência. E eu preciso mesmo de me rir disto, caso contrário nunca mais ponho o pezinho fora de casa com o tamanho das minhas tristezas.


* porque as desgraças estão muito longe de virem sós.

agosto 02, 2009

Fim de tarde na Quinta Formosa

Uma das coisas que mais me agrada em vir a casa é a simplicidade com que se fazem as coisas. Deixamos de exigir, de nos preocuparmos com coisas supérfluas e passamos a concentrar-nos na essência das actividades, da comida, da conversa. Uns bancos de plástico podem parecer sofás (mesmo que sejam pouco resistentes), uma velha secretária faz as vezes da mesa no quintal, os garfos são a dividir por todos. Faltava muita gente, é um facto, mas continua a ser bom conversar na rua, casaco vestido que isto já não parecem noites de Agosto, entre dois copos de cerveja e um molho de convites de casamento.

Em casa, deixamos de ser preguiçoso e ajudamos a fazer caipirinhas numa cozinha emprestada, o gelo a ser esmagado por um tacho em cima do balcão. E em casa podemos, interiormente, parar o tempo e lembrar-nos de tudo o que aconteceu naquelas velhas garagens, das pequenas mas profundas cicatrizes que nos fizeram empinar para, do alto dos nossos bicos dos pés, podermos dizer que conseguimos sobreviver. Em casa, somos os futuros daqueles adolescentes que jogavam às tardes durante um fim de semana inteiro, inconscientes daquilo a que o Mundo os iria sujeitar e somos o passado desta gente quase nos trinta que, mesmo assim, ainda ousa sonhar.

agosto 01, 2009

As minhas noites são mais belas que os meus dias vi

Não foi a despedida por que esperávamos mas era o último dia e todos queriam estar presentes. Houve tempo para frango assado e batatas fritas no canto do balcão durante parte da noite. Eu e esta menina fomos as responsáveis atrás dos pratos (vivam os leitores de mp3!) mas não existia gente suficiente para animar. A noite acabou com apenas três horas de sono e as saudades antecipadas a apertarem o peito. O Verão continua hoje, num quintal perto de mim.

* outros disparos, como sempre, aqui.

julho 29, 2009

Postais do fim de semana #3

Não nasci numa aldeia mas foi como se tivesse nascido. As pessoas conhecem-se todas umas às outras, as minhas avós param em tudo o quanto é lado para conversar com quem se cruzam, os ciganos sempre venderam a mesma roupa contrafeita à porta do mesmo supermercado onde as minhas avós foram toda a vida. Já percebi que os velhos da minha infância estão todos a definhar ou a morrer e em breve não vai sobrar-me nenhuma recordação do género.

Mas, indiferentes à modernidade ou ao progresso, as festas do meu bairro continuam. E é como se fossem as festas da aldeia: tocam os sinos, a procissão dá uma volta pela rua principal, as pessoas têm certamente guardada roupa para esta ocasião, os homens bebem demais e as mulheres dançam umas com as outras, quando não estão sentada com um cobertor sobre as pernas. Estava demasiado frio para uma noite de fim de Julho, estava vento mas havia ainda quem empinasse umas cervejas ou corresse atrás dum reguila qualquer. À tarde, formou-se fila para os carros serem benzidos (pelo patrono dos viajantes) mas não antes de estenderem o braço e pagarem (literalmente) a sua promessa.

Antes, eu esperava ansiosamente que estes dias chegassem e que pudessem romper o torpor das férias de Verão. Depois da solenidade do momento, era a hora do orgão e do acordeão. Disso e das estrelas vistas de São Cristovão, quando as noites ainda eram de calor.

julho 27, 2009

Postais do fim de semana #2


Eu diria que estavam mais que trinta e cinco graus mas nunca fui muito boa a avaliar distâncias ou temperaturas. A diferença entre o nosso país e Espanha começa logo no alcatrão, que passa de uma largura de um carro para duas largas faixas de rodagem mas o Sol queima exactamente da mesma maneira. À volta do pequeno cruzamento, reuniram-se em tempos umas dez casas, agora acompanhadas por um restaurante moderno e muito frequentado. Se arriscarmos um pouco mais dentro da aldeia, longe da estrada principal, conseguimos ouvir mesmo o calor e é como se o pasto seco entrasse a qualquer momento em combustão espontânea.

Foi uma viagem pelas estreitas estradas do Parque Natural da Serra de São Mamede, alternando o falso fresco do ar condicionado com as baforadas de calor que fugiam à desordem dos pinheiros. Foram alguns quilómetros pouco antes do almoço para testemunhar a gratidão e a humildade de quem foi salvo dos grandes fogos de 2003 e foi a maneira de regressar com uma maceta de manjerico para casa. No final do dia, podia encher o meu peito com o orgulho que sentia e relaxar depois de um mergulho nas águas da Portagem. É muito fácil viver feliz, com um pé em ambos os lados da fronteira. É o lema de há muito - um pé em Portalegre, outro no Mundo.

Postais do fim de semana #1

As fotos são dele.

São graus a mais para conseguir estar apenas na rua e o resultado foram dois dias de piscina, com o Sol em modo hardcore. Acho que já tinha saudades deste calor à séria, que torna insuportável mesmo uma esplanada debaixo de gigantes chapéus de Sol. A sorte de se morar neste canto do país é que quase todas as piscinas aqui à volta têm aquilo a que se chama uma vista: ou a imponência de Marvão ou a serra de São Mamede ou mesmo a planície a estender os braços em direcção a capital. Foram momentos de pausa mas com pouco silêncio, que as piscinas foram invadidas por malta com menos de doze anos ou simplesmente por espanhóis. Às vezes, pergunto-me onde anda a promoção turística duma região tão rica em património humano e natural... Vamos a mais um mergulho, que aqui está a ficar muito calor.

julho 23, 2009

Tenho medo de histórias de amor perfeitas.

julho 22, 2009

Back to school (we are the leaders)

É verdade, decidi que me apetece estudar outra vez. Comecei a olhar à minha volta e a perceber que os estímulos a que estou sujeita agora não são propriamente interessantes e muitos nem sequer se podem chamar estímulos. De há três anos para cá, tenho aprendido imensas coisas novas mas quase nada do que aprendi serviu para me realizar pessoalmente ou para me estimular intelectualmente. A cabeça, mesmo assim, ainda não está parada.

Sou candidata a uma licenciatura e a um mestrado, o que, apesar se serem graus diferentes, tem a sua razão de ser. São talvez as duas áreas onde gostava mais de trabalhar e sobre as quais me imagino a pensar. E ontem, quando voltei a entrar na faculdade, senti o formigueiro de quem se está a meter numa nova aventura. Eu, que pensei nunca mais pôr os pés naquela escola, dei por mim entusiasmada por poder outra vez sentar-me naqueles anfiteatros, fotocopiar livros inteiros, sentar-me a estudar na esplanada. Acho que foi a melhor maneira de confirmar que é isto que eu quero para mim. Não tenho a ilusão de que é isto que me vai salvar de um trabalho estéril, descaracterizado ou inútil - as alternativas, infelizmente, não são muitas. Mas é certamente isto que me vai enriquecer e aproximar-me da pessoa que eu gostava de ser.

Agora só falta saber se sou aceite ou não. No melhor dos cenários, vai ser um prazer tem cartão de estudante outra vez.

julho 19, 2009

Andei por aí! *

As fotos são minhas e do meu capitão

A minha noção de fim de semana muda radicalmente sempre que não estou sozinha. Conseguimos fazer o que queremos e ainda ficamos com tempo para fazer ronha no sofá. Damos um pulo à LX Factory depois de comer caracóis e aquele pica-pau. Entre a Ler Devagar, onde fico fascinada pela prateleiras infinitas e pelas rotativas gigantes, e outro armazém decorre este festival, onde tenho o prazer de assistir ao concerto de Dobet Gnahore. Chegada da Costa do Marfim, é uma espécie de Lisa Gerrard negra com que me faz arrepiar sempre que canta sem rede, sem banda, sem medo. Canta sobre a família, a desflorestação, a farsa da política e surpreende todos com a sua elasticidade e coreografias. Todo um deleite para os sentidos, este concerto.

Passamos o Sábado entre sítios que eu gostava de conhecer, não sem antes eu gastar uma quantia absurda de dinheiro na minha primeira consola. Eu bem quis ter uma Mega Drive e anos mais tarde apetecia-me ter um PS mas pronto, como sou rapariga, deixei conquistar pela Wii com aquele tapete para fazer exercício e tudo. Ainda me parece tão esquisito, jogar quando me apetece, agora aos vinte e nove anos! Ainda me lembro de ter pedido uma consola aos meus pais e eles me darem como escolha a consola ou uma televisão no quarto... Adivinhem o que ganhou. Estão, portanto, prometidas algumas horas a fazer figuras tristes, da quais a minha irmã também terá certamente a sua quota parte!

E depois o jantar, o sushi que guardamos para as ocasiões que merecem comemoraração, aqui para os lados de Campo de Ourique. Até pode não existir nada para festejar porque os dias assim são literalmente perfeitos e eu não me importo de os acabar no sofá a ver uma tontice qualquer e tudo o resto perde a importância porque não me falta nada. Só pedia que pudesse repetir a felicidade em dias consecutivos, sem ter que esperar outra vez.

* e o meu nome escreve-se com S mas não tive tempo de o explicar ao senhor do café.

julho 17, 2009

Boletim clínico

Obrigada a visitar mais uma vez o serviço de atendimento permanente de um hospital (leia-se urgência), não posso deixar de sentir o gosto acre de poder pagar cuidados de saúde muito acima da média. Desta vez foi no hospital da Luz, um sítio tão agradável, limpo e silencioso que uma pessoa nem se lembra ao que foi. Tendo saído sem preocupações de maior, também constato que o que me levou lá já se arrasta há um ano, o que é no mínimo incómodo e faz-me duvidar da seriedade de médicos cujos honorários se inclinam para a centena de euro.

Não tem sido um ano fácil, em termos de saúde. Às vezes, sinto que há qualquer coisa muito errada dentro de mim, uma conspiração que, ora esconde a verdade, ora deixa os sinais serem demasiado evidentes. E eu, com uma cabeça dada a fazer filmes e a pensar demais, não sei muito bem o que fazer com esta história toda. Tenho tentado sempre ouvir as vozes que me dizem que vai ficar tudo bem mas a verdade é que este tudo bem dura sempre muito pouco tempo. Aconselhada a ser vista por um especialista, eis que estarei em Coimbra na Segunda à noite para expor o meu caso. Pela trilionésima vez, parece-me. A única coisa que queria era saber exactamente o que fazer, mesmo que a reposta fosse qualquer coisa dolorosa. Até lá, a minha saúde continua a ser uma telenovela mexicana de mau gosto, o sítio mais pantanoso por onde já me movi.

julho 14, 2009

Há um colega meu que vive imaginando teorias da conspiração. Passou grande parte das férias a pensar nisso, quando a pessoa normal normalmente aproveita para se afastar um pouco do Mundo ou simplesmente para não pensar em nada. Diz que o Obama ganhou pela sua cor da pele porque os Estados Unidos querem conquistar África, que o chip nas matrículas servirá para criar um imposto sobre o CO2, que o Hugo Chávez vai ser assassinado porque é essa a maneira de funcionar dos Estados Unidos, que Portugal é um (ainda assim gigante) tubo de ensaio para outras democracias. Ele discute sobre os ingredientes proibidos na nossa comida, sobre a película que colaram no vidro do juíz, sobre o papel do Al Gore na luta pelo meio ambiente. Viver no mesmo Mundo em que ele vive deve ser a coisa mais alucinante que existe. E não é que eu acredite em tudo o que os orgãos de comunicação nos querem impingir mas, se fosse como ele, perdia a minha sanidade mental.

Estou mesmo empenhada em salvar o que me resta de ingenuidade.