outubro 28, 2009

Sinais do tempo

Um amigo dos meus pais decidiu oferecer-me (pelos trinta que aí vêm) um daqueles seguros do banco que me ajuda nas despesas, caso perca o emprego. A oferta chegou bastante antes do tempo, o que o levou a explicar-se.

Não sei se hei-de ficar contente porque em Maio virá a ser necessário, se hei-de vibrar com a originalidade do presente ou se hei-de ficar absurdamente deprimida com a ideia de receber uma espécie de subsídio de desemprego pelos anos.

outubro 27, 2009

So you can feel the way I feel it too.



Eu é que sei o que me tinha acontecido se tivesse ouvido esta música há um ano atrás. Era coisa para me acabar de vez com a auto-estima e lembrar-me de como dói estar assim um bocado perdida. Depois, ia ouvir a música até rebentar com o sistema de som, ia engasgar-me com os soluços e ter muita pena de mim, ia repetir as histórias até conseguir perceber o que tinha feito de errado. Ia auto-flagelar-me por gostar sempre de anormais, sem perceber que era eu que estava errada all along. Pensaria que, por escolher mal, talvez não tivesse mesmo o direito de ser feliz.

Mas depois chegou Abril.

outubro 26, 2009

Correr na Estrela #5

Estar três semanas sem calçar os ténis implica, obviamente, pagar um preço muito alto. E agora, com a mudança da hora, a coisa tornou-se literalmente mais preta. Parte de mim, diz-me que não é seguro correr num jardim tão fracamente iluminado. Mas a outra parte lembra-se de alguém que dizia 'bora chegar aos trinta na melhor forma dos últimos tempos e então faço um esforço adicional. Afinal, eles chegam para a semana.

outubro 25, 2009

As minhas noites são mais belas do que os meus dias vii

Nem sempre me tem apetecido. Mas a verdade é que, depois do desenrolar das coisas, acabo sempre num (nem sempre compreensível) estado de euforia. Mesmo que me veja obrigada a fugir. Mesmo que o cansaço acumulado durante a semana me acabe por trair, mais cedo ou mais tarde.

outubro 22, 2009

Há vida para além do trabalho (e da escola) (e da casa por limpar)

Portanto, agora há mais do que cinco minutos em que consigo respirar. E eu aproveito-os para fazer o quê? Escrever, pois claro.

Tem sido mais do que difícil conjugar o trabalho com a escola. O nível de exigência agora aumentou e mesmo assim a sorte é que, sabendo que o último dia deste emprego está marcado para Maio, a minha ansiedade desceu bastante. O meu empenho não diminuiu, nem perdi a ética profissional e certamente não me espanto como acontecia antes. A empresa continua a achar que vale a pena investir em mim e hoje, numa segunda sessão de coaching com um inglês algo excêntrico que faz vida em Gibraltar, quase dei por mim deitada num divã, fazendo terapia. Disse-me que há cinco coisas que aprendemos - implicitamente- durante a nossa infância: be perfect, be strong, hurry up!, try harder e please me! Mais ou menos todos seguimos estas instruções na nossa vida: não é suposto fraquejar em público, temos sempre pressa para fazer alguma coisa, queremos sempre agradar a alguém mas o meu problema, diagnosticou-me ele, é o da perfeição e o da mania que consigo controlar todas as variáveis que podem influenciar qualquer situação. E não posso, é evidente.

É suposto eu usar estas sessões de coaching (ou treino, se preferirem) para melhorar a minha vida e diminuir os meus níveis de ansiedade, para me conhecer melhor e fazer um mais eficiente uso das minhas potencialidades. Hoje, ele passou-me um exercício muito bom para os momentos antes de uma entrevista, por exemplo. A única falha nisto é que eu, habituada a viver de coração ao pé da boca, raramente terei tempo para pensar, racionalizar e aplicar isto. E, sinceramente, não me quereria controlar totalmente porque acho alguma piada à espontaneidade e a algumas reacções que são como erupções. Portanto, e como dizem os outros I wish I was a better version of myself e enfim, não será apenas assim, mas eu chego lá.

outubro 18, 2009

Ponto Final.Parágrafo

Há coisas nas quais só mesmo nós acreditamos, mesmo sentindo que o resto do mundo é descrente e que, em último caso, vai estar contra nós. Há projectos que demoram aquilo que nos parece uma eternidade a sair do papel, travados consecutivamente por burocracias infidáveis, licenças inúteis, trâmites legais que só são pedidos a alguns. Todos nós conhecemos alguém que desistiu de um sonho porque foi incapaz de lidar com todos os entraves que em algum país, em alguma região lhe colocaram à sua iniciativa.

Ontem tive a felicidade de poder estar presente na inauguração de um projecto que sobreviveu aos sucessivos obstáculos, à lentidão das apreciações, à recomendações que pretendem estimular a iniciativa e aos mesmo tempo a tolhem. Chama-se Livraria Cafetaria Ponto Final.Parágrafo e fica no centro de Portalegre. Para falar sobre isto, sou suspeita por várias razões: primeiro, porque acredito que não é proibido tentar realizar sonhos; segundo, porque sinto falta destes espaços na minha cidade berço; e finalmente, porque conheço o dono desde que nasceu.

Servem-se no espaço refeições ligeiras, bebe-se cerveja e chá, há sofás que convidam a ler um jornal tranquilamente, vendem-se livros para miúdos e graúdos. Se passarem por Portalegre ou se viverem por lá, procurem-nos e digam que vão daqui. Sorte e saúde para gozar o seu sonho, é o que lhe desejamos todos.

outubro 16, 2009

Zum Geburtstag viel Glück!

Ela hoje faz vinte e oito anos. Dei-lhe os parabéns em primeiríssima mão, como é hábito e dei-lhe beijinhos também. Quando penso sobre os aniversários dela, é estranho para mim pensar que ela continua a crescer, sem parar mas sem também perder a graça dos anos mais jovens. Ela vai ter sempre uns cinco anos, as bochechas mais gordas de que me lembro e vai brincar tardes inteiras na varanda da minha avó com uma velha esfregona. Não vamos jantar juntas, desta vez. Mas para o ano exijo-lhe que me leve a um sítio da moda. Gostar dos filhos deve ser parecido com isto.

A vida depois do regresso à escola

Esta semana foi como se o Mundo não existisse. Já sou uma pessoa ansiosa por natureza e o regresso ao trabalho depois das férias já era motivo suficiente para me impedir de dormir. Mas juntou-se a isso o regresso à vida de estudante, desta vez numa modalidade bem diferente que também me fez perder o sono. É que assistir a seis horas de aulas seguidas depois de já ter trabalhado oito horas é dose e, sinceramente, achei durante muito tempo que não ia aguentar. Mas aguentei, a custo mas aguentei.

Este regresso também me fez lembrar porque não gosto de trabalhos de grupo. Não voltei a estudar para provar nada a ninguém e muito menos que o meu conhecimento é maior do que o dos outros mas, se me pedem ajuda para resolver alguma coisa, é óbvio que ofereço aquilo que sei. Por isso, não tolero as pessoas que se sentem ofendidas ou atacadas quando alguém sabe mais sobre alguma coisa. Não gosto e não é do meu feitio esfregar as coisas que sei na cara de ninguém - só me meto quando mo pedem expressamente. E por isso não suporto estas pessoas mesquinhas, que acham que tudo é planeado para as deixar ficar mal. Os grupos foram feitos a custo, porque obviamente as pessoas não se conhecem e eu saí mesmo da minha zona de conforto (esperar que alguém me convidasse) e atrevi-me a oferecer-me para fechar um grupo. Mas isso não me prenuncia nada de bom e estou preparada para me isolar, caso venha a ser necessário.

Portanto, os horários são penosos e o facto de depois das nove da noite não se conseguir comprar uma garrafa de água naquela faculdade também não ajuda. Se juntarmos a isso salas minúsculas para toda a gente inscrita (com o que isso implica em calor), falta de computadores em aulas em que os mesmo são obrigatórios e o estigma de não ter cursado Comunicação Social, chega-se à pergunta: porquê, então, o entusiasmo? E eu respondo: porque é maravilhoso perceber que posso aprender mais, que quero perder-me em bibliografias, que o meu cérebro não está a definhar. É outra maneira de me sentir viva. E das polémicas brasileiras me passarem ao lado.

outubro 12, 2009

Fim de férias = recomeço do Verão?

Se hoje, em vez das calças de ganga, tivesse vestido o biquini, teria aproveitado da melhor maneira o único dia de férias. Um daqueles termómetros de rua em Sintra marcava trinta e cinco graus e eu, apesar de saber que precisamos dar-lhe desconto, acredito que sim senhor, era efectivamente essa a temperatura. Devo já dizer que fui à Piriquita e provei uma queijada e bem, que desilusão. Tinha um tamanho mínimo, servida num pires sem sequer um guardanapo - estava muito longe da experiência que há tanto tempo me andavam a vender. Sim, eu sou daquelas pessoas que, vivendo em Lisboa, nunca tinha ido a Sintra, pecado pelo qual me penitencio mas que já resolvi.

Mas agora compreendo também o fascínio que as pessoas sentem pela vila e pelos parques, pela floresta quase em estado virgem, pela nobreza da arquitectura, pela tradição do comércio. Preferia voltar lá num dia menos quente, para poder passear sem me saírem os bofes pela boca e sem suar horrores. Mas era o último dia de férias e a companhia era aquela (também conhecida como ideal) e o silêncio que se sentia entre aquelas azinhagas frondosas fez-me esquecer que amanhã volto à vida real, ao trabalho e às primeiras aulas do resto da minha vida. Sobra-me ainda um último dia destes...

outubro 08, 2009

Sem papel de embrulho

Sou bastante atenta a sugestões subliminares, aqueles recados que as pessoas nos vão deixando espalhados por aí. Não sendo propriamente um ás nos trabalhos manuais, tentei organizar um pequeno livro de instruções sobre mim, umas quantas frases sobre as coisas que me têm feito tão feliz e que devem ser repetidas até à exaustão. A ilustrar, as colagens mais trapalhonas que já se viram por aí. O resultado é um Moleskine vindo de Zaragoza, personalizado por uma amadora empenhada e oferecido num aniversário em capicua.

(Parabéns, meu capitão.)

outubro 07, 2009

Boletim intercalar

Temos sido agraciados com chuva torrencial e relâmpagos pela noite fora. As rajadas de vento são um castigo para qualquer cabelo que se preze. Tem estado abafado, lá fora, mas hoje já sinto vontade de vestir uma malhinha. As rápidas nuvens que têm origem no mar fazem adivinhar mais chuva para os próximos dias. Se falta fizesse, temos uma lareira e alguns filmes para ver. Perfeito, portanto.

outubro 05, 2009

Elas aí estão: as férias!

As férias começaram com mais dias de Verão. Confesso que este calor tardio, esta propensão para suar desmesuradamente me têm deixado confusa e, acima de tudo, com vontade que o Outono se decida depressa. Procurámos um dos sítios mais frescos das redondezas, depois de, assustados com o caos do estacionamento e a má educação das forças de segurança, desistirmos de participar na Al Mossassa (Pedro, tenho uma taxa de duas em três!).

Tenho feito o caminho entre Portalegre e a Beirã demasiadas vezes para o meu gosto. A estrada é graciosamente acompanhada por árvores em toda a sua extensão, especialmente castanheiros, em cujos ouriços começam agora a despontar as primeiras castanhas. A palete de cores estende-se agora entre os azuis (agora tímidos) do céu alentejano e o acobreado das copas que se vergam suavemente com o vento ainda morno. Chegar à Beirã é um pouco como chegar ao fim da estrada e dar de caras com uma intransponível barreira de silêncio. À porta, enquanto esperamos para vê-lo, tento imaginar a estação de caminhos de ferro que fica em frente no auge doutros tempos. Já não sei se ele me reconhece. Para todos os efeitos, não sei se ele reconhece alguém. Mas nós fazemos a única coisa que podemos e que é dar-lhe o carinho que talvez tenhamos guardado demasiado tempo. Tenho saudades de jogar à sardinha com ele. Tenho saudades de o ver a dançar nos casamentos.

E agora vamos de viagem. Vamos para longe do desemprego, das doenças e internamentos, das crises, da mensagens da Presidência da República e da patetice dos candidatos às autárquicas, dos frascos de desinfectantes. Voltarei recuperada, talvez, com as maratonas de não fazer rigorosamente nada.

outubro 02, 2009

Feel good movie



Suponhamos que não estão nos vosso melhores dias, que sentem que fazem parte daquele tipo de anedotas em que tudo (trabalho, carro, mulher, saúde) corre mal a um tipo. Imaginemos que, como eu, passam uns dias a sentirem-se miseráveis e, em vez de conseguirem manter-se à tona dessa imensa maré negra, só conseguem afundar-se cada vez mais. Se precisam de ânimo, este filme é para vocês. É um filme sobre música, uma incrível quantidade de sorte, libertação - um coming of age tardio regado com pacotes de melhor leite com chocolate, com os mais verdes prados como cenário e a precisar de ser abalado pelo ácido do amor. Eu era essa pessoa desorientada à entrada mas foi uma versão muito mais tranquila e inspirada que saiu daquele cinema. Umas poucas de estrelas, se pontuasse como os críticos.

outubro 01, 2009

Correr na Estrela #4

Mais uma acha para a fogueira descontrolada que às vezes é a minha crença e esperança na espécie humana: hoje, enquanto corríamos na melhor e mais fácil recta do jardim, um jovem homem encostava o rabo às grades e quase ao chão e defecava em pleno jardim. Com a maior das paciências, a sua acompanhante passeava-se em frente aos bancos do jardim. É a isto que chamam uma pessoa.

setembro 29, 2009

Alguém que me dê uma dose cavalar de tranquilizantes, se faz favor.

Não tenho dormido nada de jeito, ando a sufocar com excesso de emoções e a pensar que preciso mesmo de ajuda. Respostas às minhas últimas candidaturas: zero, nem sequer um não para fazer a contagem. Acabei de arrumar o material com que vou iniciar o novo ano escolar e acho que voltar a estudar me põe para lá de aterrorizada. Tem sido difícil concentrar-me no que realmente importa. Faltam três dias para as férias e eu sonho todos os dias com o silêncio cúmplice que aí vem.

setembro 27, 2009

Então e votou bem?

Gosto que me perguntem isto, como se houvesse apenas uma maneira certa de votar e todos soubéssemos exactamente o que quer dizer votar bem. Em todo o caso, o dever cívico está já cumprido.

Pela primeira vez, votei em Lisboa e fi-lo com um certo sentimento de nostalgia porque não iria encontrar na mesa de voto nenhuma cara conhecida. A partir de hoje, sou uma eleitora mais anónima, votando na minha freguesia de residência mas, de certa forma, longe de casa. É como se agora estivesse mais desamparada e esse sentimento apenas cresceu quando disseram o meu nome em voz alta na sétima secção de voto, depois de passar pelos meninos escuteiros que tentavam vender canetas à porta. E posso assegurar que, depois aí de Braga ou Bragança, devo ter votado na freguesia mais social democrata de que há memória: o desfile de carros de alta gama à porta, as senhoras que passeavam o seu cabelo bastante armado com laca, os maridos com o elegante lencinho na lapela do casaco, os miúdos com o cabelo sempre a tapar-lhes os olhos, as moças que têm ainda o mesmo bronzeado que no pico do Verão. as urnas tão perto da rua de Buenos Aires. E então eu, no meio daquela gente toda, senti-me deslocada porque não são aquelas as minhas raízes, não é dali que eu venho e tive saudades de sentir que a maior parte das pessoas que votavam ao mesmo tempo que eu são de esquerda.

Confesso que, como tantas outras pessoas, não gosto nem percebo a política. Tenho muitas vezes a tendência a pensar que não existem nenhumas diferenças entre os que estão no poder e os que se seguirão e acho que quem ingressa na política ao mais alto nível acaba sempre corrompido. Mas nestes dias de eleições sinto-me quase comovida por fazer parte de algo muito maior do que apenas um partido político: sempre que votei senti-me com o poder de mudar o futuro, mesmo correndo o risco de escolher mal. E hoje, impressionada com a afluência a algumas mesas de voto, fico contente por ver que ainda há quem se importe.

setembro 23, 2009

As coisas boas (também) nunca vêm só

Vou lembrar o ano de 2009 como o melhor e o pior da última década, posso já afirmá-lo. Nunca estive tão em baixo, tão desamparada e perdida como neste ano. Mas, simultaneamente, nunca me senti tão empenhada, desejada, empolgada por estar a fazer coisas. Basta pensar que há seis meses atrás, a minha vida era um pouco vazia e estava completamente estagnada e tudo o que aconteceu a partir daí teve exactamente os mesmos efeitos de um tornado.

Entre mortes, doenças mais ou menos graves, internamentos e estados de saúde desconhecidos, aconteceu-me um pouco de tudo. Descobri que vou perder o emprego, que não gosto de parte daquilo que faço, que sou comunista de coração, que nunca mas nunca devo misturar amizade com trabalho, que o mundo é um imenso mar de classificados de emprego. Aprendi a relativizar, a respirar fundo, a dosear as quantidades de stress e indignação e aprendi também que, apesar de tudo, ainda me consigo enervar com facilidade. Fui convidada para projectos empolgantes, que abracei sem sequer hesitar, ultrapassei os meus próprios limites, criei os meus próprios espaços. E encontrei a mais preciosa e rara dádiva da minha vida, capaz de me elevar e surpreender sempre cada vez mais.

Devia estar a escrever este post em Dezembro, quando o ano estivesse prestes a acabar. Mas agora tenho tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo, que dei por mim perdida neste balanço. O que eu aprendi verdadeiramente é que vai ficar tudo bem, a vida vai continuar, a sorte vai virar. E então hoje soube que fui aceite naquilo que quero, ele está a fazer progressos muito pequeninos, a minha vida está (lentamente) a chegar exactamente onde sonhei. E, mesmo que amanhã esta esperança toda venha por aí abaixo, eu hei-de voltar a este post e reler tudo o que escrevi para me lembrar que sim, a gente vai continuar.

*

Também nós poderemos florescer no Outono.

(Às vezes tenho medo. Medo não, às vezes entro em pânico quando penso que, como todas as outras pessoas, não conseguimos sempre aquilo que desejamos. É que também eu mudo como mudam os dias nas estações e, se se levanta uma brisa inesperada antes do anoitecer, também posso esperar acordar para uma manhã radiosa e fresca. Mas basta-me a tua mão, trazendo-me de volta à terra e lembrando-me que as estações ainda se sucedem harmoniosamente.)
* a luz nas manhãs da Estrela.

setembro 22, 2009

Correr na Estrela #3

Assim que cruzamos os portões do jardim, ouvimos a agitação ao longe. São maioritariamente vozes femininas que se perdem entre gritos e cantorias. Quando estamos prestes a começar a corrida, percebemos que tudo se resume a um grupo de veteranas e caloiras da escola da minha rua. Portanto, como se não bastasse a histeria inerente às praxes, tudo piora por serem apenas raparigas. À segunda volta ao jardim, o grupo já mudou de sítio e está agora perto de um repuxo, naquilo que penso ser o baptismo. É quase noite e as luzes do jardim ainda não se acenderam; as caloiras, lembro-me enquanto corremos, devem estar exaustas, depois de se espojarem no chão, gritarem algumas inanidades e serem humilhadas publicamente durante várias horas seguidas. Não sou a favor das praxes, acho que há outras formas de integrar as pessoas: correndo, por exemplo, ou simplesmente aproveitando a benévola sombra das árvores da Estrela. Para acalmarmos os pulmões dela, paramos aos vinte e oito minutos. Os candeeiros iluminam já o caminho e os sinos da Estrela marcam a oito horas da noite.

(Dos vinte, passamos hoje aos vinte e seis graus. É aquela altura do ano em que vamos ainda alternar entre o Verão que já terminou e o Outono que já apareceu por aqui. Já se corre ao anoitecer, da mesma maneira que quando acordo ainda é noite.)

setembro 21, 2009

Prometo que é o último post sobre casamentos!

Este foi (finalmente) o último casamento do ano. A não ser, é claro, que haja aí alguém com planos maquiavélicos para me lixar o que me resta de ordenados até Dezembro. Ou haja alguma moça grávida que ache que deve casar antes do rebento chegar cá fora.

Desta vez, e para encerrar em beleza, fomos a um casamento muito do it yourself. A ideia era que cada convidado levasse algo consigo - comida ou bebida - para compor a mesa do copo de água, sendo que a cerimónia já tinha acontecido há um ano e os noivos não queriam ainda renovar os votos. Depois, assinalou-se o que cada um tinha levado numa espécie de piquenique em plena paisagem campestre e numa noite já de Outono. Outra das enormes vantagens foi o código de vestuário: casual mais casual não dava. Portanto, a ideia era reunir os convidados (em número diminuto, apenas o essencial) com comida caseira, sangria caseira, um cenário bucólico para partilhar a felicidade que já dura há uns bons anos.

Sinceramente, acho que é uma ideia a reter, mesmo para quem quer incluir a parte da cerimónia. O que se poupa em espaços, caterings e músicos contratados ganha-se em intimidade e proximidade com os convidados. Podemos escolher a nossa música, evitam-se os cardápios gastos e aborrecidos, os convidados podem participar mais dos festejos e prestar um muito esmerado serviço de bar. Compreendo perfeitamente quem deseja e sonha com outro tipo de dia para o seu próprio casamento mas já tenho visto tantas cerimónias alternativas e tantas soluções originais que me sinto cada vez mais longe das escolhas convencionais. Mas com ou sem arroz de marisco, com a presença do Mana ou de uma orquestra de cordas, aquilo que conta no final é com quem nos vamos deitar todos os dias a partir dali. E é inspirador ver que há tanta gente com certezas.