outubro 25, 2009

As minhas noites são mais belas do que os meus dias vii

Nem sempre me tem apetecido. Mas a verdade é que, depois do desenrolar das coisas, acabo sempre num (nem sempre compreensível) estado de euforia. Mesmo que me veja obrigada a fugir. Mesmo que o cansaço acumulado durante a semana me acabe por trair, mais cedo ou mais tarde.

outubro 22, 2009

Há vida para além do trabalho (e da escola) (e da casa por limpar)

Portanto, agora há mais do que cinco minutos em que consigo respirar. E eu aproveito-os para fazer o quê? Escrever, pois claro.

Tem sido mais do que difícil conjugar o trabalho com a escola. O nível de exigência agora aumentou e mesmo assim a sorte é que, sabendo que o último dia deste emprego está marcado para Maio, a minha ansiedade desceu bastante. O meu empenho não diminuiu, nem perdi a ética profissional e certamente não me espanto como acontecia antes. A empresa continua a achar que vale a pena investir em mim e hoje, numa segunda sessão de coaching com um inglês algo excêntrico que faz vida em Gibraltar, quase dei por mim deitada num divã, fazendo terapia. Disse-me que há cinco coisas que aprendemos - implicitamente- durante a nossa infância: be perfect, be strong, hurry up!, try harder e please me! Mais ou menos todos seguimos estas instruções na nossa vida: não é suposto fraquejar em público, temos sempre pressa para fazer alguma coisa, queremos sempre agradar a alguém mas o meu problema, diagnosticou-me ele, é o da perfeição e o da mania que consigo controlar todas as variáveis que podem influenciar qualquer situação. E não posso, é evidente.

É suposto eu usar estas sessões de coaching (ou treino, se preferirem) para melhorar a minha vida e diminuir os meus níveis de ansiedade, para me conhecer melhor e fazer um mais eficiente uso das minhas potencialidades. Hoje, ele passou-me um exercício muito bom para os momentos antes de uma entrevista, por exemplo. A única falha nisto é que eu, habituada a viver de coração ao pé da boca, raramente terei tempo para pensar, racionalizar e aplicar isto. E, sinceramente, não me quereria controlar totalmente porque acho alguma piada à espontaneidade e a algumas reacções que são como erupções. Portanto, e como dizem os outros I wish I was a better version of myself e enfim, não será apenas assim, mas eu chego lá.

outubro 18, 2009

Ponto Final.Parágrafo

Há coisas nas quais só mesmo nós acreditamos, mesmo sentindo que o resto do mundo é descrente e que, em último caso, vai estar contra nós. Há projectos que demoram aquilo que nos parece uma eternidade a sair do papel, travados consecutivamente por burocracias infidáveis, licenças inúteis, trâmites legais que só são pedidos a alguns. Todos nós conhecemos alguém que desistiu de um sonho porque foi incapaz de lidar com todos os entraves que em algum país, em alguma região lhe colocaram à sua iniciativa.

Ontem tive a felicidade de poder estar presente na inauguração de um projecto que sobreviveu aos sucessivos obstáculos, à lentidão das apreciações, à recomendações que pretendem estimular a iniciativa e aos mesmo tempo a tolhem. Chama-se Livraria Cafetaria Ponto Final.Parágrafo e fica no centro de Portalegre. Para falar sobre isto, sou suspeita por várias razões: primeiro, porque acredito que não é proibido tentar realizar sonhos; segundo, porque sinto falta destes espaços na minha cidade berço; e finalmente, porque conheço o dono desde que nasceu.

Servem-se no espaço refeições ligeiras, bebe-se cerveja e chá, há sofás que convidam a ler um jornal tranquilamente, vendem-se livros para miúdos e graúdos. Se passarem por Portalegre ou se viverem por lá, procurem-nos e digam que vão daqui. Sorte e saúde para gozar o seu sonho, é o que lhe desejamos todos.

outubro 16, 2009

Zum Geburtstag viel Glück!

Ela hoje faz vinte e oito anos. Dei-lhe os parabéns em primeiríssima mão, como é hábito e dei-lhe beijinhos também. Quando penso sobre os aniversários dela, é estranho para mim pensar que ela continua a crescer, sem parar mas sem também perder a graça dos anos mais jovens. Ela vai ter sempre uns cinco anos, as bochechas mais gordas de que me lembro e vai brincar tardes inteiras na varanda da minha avó com uma velha esfregona. Não vamos jantar juntas, desta vez. Mas para o ano exijo-lhe que me leve a um sítio da moda. Gostar dos filhos deve ser parecido com isto.

A vida depois do regresso à escola

Esta semana foi como se o Mundo não existisse. Já sou uma pessoa ansiosa por natureza e o regresso ao trabalho depois das férias já era motivo suficiente para me impedir de dormir. Mas juntou-se a isso o regresso à vida de estudante, desta vez numa modalidade bem diferente que também me fez perder o sono. É que assistir a seis horas de aulas seguidas depois de já ter trabalhado oito horas é dose e, sinceramente, achei durante muito tempo que não ia aguentar. Mas aguentei, a custo mas aguentei.

Este regresso também me fez lembrar porque não gosto de trabalhos de grupo. Não voltei a estudar para provar nada a ninguém e muito menos que o meu conhecimento é maior do que o dos outros mas, se me pedem ajuda para resolver alguma coisa, é óbvio que ofereço aquilo que sei. Por isso, não tolero as pessoas que se sentem ofendidas ou atacadas quando alguém sabe mais sobre alguma coisa. Não gosto e não é do meu feitio esfregar as coisas que sei na cara de ninguém - só me meto quando mo pedem expressamente. E por isso não suporto estas pessoas mesquinhas, que acham que tudo é planeado para as deixar ficar mal. Os grupos foram feitos a custo, porque obviamente as pessoas não se conhecem e eu saí mesmo da minha zona de conforto (esperar que alguém me convidasse) e atrevi-me a oferecer-me para fechar um grupo. Mas isso não me prenuncia nada de bom e estou preparada para me isolar, caso venha a ser necessário.

Portanto, os horários são penosos e o facto de depois das nove da noite não se conseguir comprar uma garrafa de água naquela faculdade também não ajuda. Se juntarmos a isso salas minúsculas para toda a gente inscrita (com o que isso implica em calor), falta de computadores em aulas em que os mesmo são obrigatórios e o estigma de não ter cursado Comunicação Social, chega-se à pergunta: porquê, então, o entusiasmo? E eu respondo: porque é maravilhoso perceber que posso aprender mais, que quero perder-me em bibliografias, que o meu cérebro não está a definhar. É outra maneira de me sentir viva. E das polémicas brasileiras me passarem ao lado.

outubro 12, 2009

Fim de férias = recomeço do Verão?

Se hoje, em vez das calças de ganga, tivesse vestido o biquini, teria aproveitado da melhor maneira o único dia de férias. Um daqueles termómetros de rua em Sintra marcava trinta e cinco graus e eu, apesar de saber que precisamos dar-lhe desconto, acredito que sim senhor, era efectivamente essa a temperatura. Devo já dizer que fui à Piriquita e provei uma queijada e bem, que desilusão. Tinha um tamanho mínimo, servida num pires sem sequer um guardanapo - estava muito longe da experiência que há tanto tempo me andavam a vender. Sim, eu sou daquelas pessoas que, vivendo em Lisboa, nunca tinha ido a Sintra, pecado pelo qual me penitencio mas que já resolvi.

Mas agora compreendo também o fascínio que as pessoas sentem pela vila e pelos parques, pela floresta quase em estado virgem, pela nobreza da arquitectura, pela tradição do comércio. Preferia voltar lá num dia menos quente, para poder passear sem me saírem os bofes pela boca e sem suar horrores. Mas era o último dia de férias e a companhia era aquela (também conhecida como ideal) e o silêncio que se sentia entre aquelas azinhagas frondosas fez-me esquecer que amanhã volto à vida real, ao trabalho e às primeiras aulas do resto da minha vida. Sobra-me ainda um último dia destes...

outubro 08, 2009

Sem papel de embrulho

Sou bastante atenta a sugestões subliminares, aqueles recados que as pessoas nos vão deixando espalhados por aí. Não sendo propriamente um ás nos trabalhos manuais, tentei organizar um pequeno livro de instruções sobre mim, umas quantas frases sobre as coisas que me têm feito tão feliz e que devem ser repetidas até à exaustão. A ilustrar, as colagens mais trapalhonas que já se viram por aí. O resultado é um Moleskine vindo de Zaragoza, personalizado por uma amadora empenhada e oferecido num aniversário em capicua.

(Parabéns, meu capitão.)

outubro 07, 2009

Boletim intercalar

Temos sido agraciados com chuva torrencial e relâmpagos pela noite fora. As rajadas de vento são um castigo para qualquer cabelo que se preze. Tem estado abafado, lá fora, mas hoje já sinto vontade de vestir uma malhinha. As rápidas nuvens que têm origem no mar fazem adivinhar mais chuva para os próximos dias. Se falta fizesse, temos uma lareira e alguns filmes para ver. Perfeito, portanto.

outubro 05, 2009

Elas aí estão: as férias!

As férias começaram com mais dias de Verão. Confesso que este calor tardio, esta propensão para suar desmesuradamente me têm deixado confusa e, acima de tudo, com vontade que o Outono se decida depressa. Procurámos um dos sítios mais frescos das redondezas, depois de, assustados com o caos do estacionamento e a má educação das forças de segurança, desistirmos de participar na Al Mossassa (Pedro, tenho uma taxa de duas em três!).

Tenho feito o caminho entre Portalegre e a Beirã demasiadas vezes para o meu gosto. A estrada é graciosamente acompanhada por árvores em toda a sua extensão, especialmente castanheiros, em cujos ouriços começam agora a despontar as primeiras castanhas. A palete de cores estende-se agora entre os azuis (agora tímidos) do céu alentejano e o acobreado das copas que se vergam suavemente com o vento ainda morno. Chegar à Beirã é um pouco como chegar ao fim da estrada e dar de caras com uma intransponível barreira de silêncio. À porta, enquanto esperamos para vê-lo, tento imaginar a estação de caminhos de ferro que fica em frente no auge doutros tempos. Já não sei se ele me reconhece. Para todos os efeitos, não sei se ele reconhece alguém. Mas nós fazemos a única coisa que podemos e que é dar-lhe o carinho que talvez tenhamos guardado demasiado tempo. Tenho saudades de jogar à sardinha com ele. Tenho saudades de o ver a dançar nos casamentos.

E agora vamos de viagem. Vamos para longe do desemprego, das doenças e internamentos, das crises, da mensagens da Presidência da República e da patetice dos candidatos às autárquicas, dos frascos de desinfectantes. Voltarei recuperada, talvez, com as maratonas de não fazer rigorosamente nada.

outubro 02, 2009

Feel good movie



Suponhamos que não estão nos vosso melhores dias, que sentem que fazem parte daquele tipo de anedotas em que tudo (trabalho, carro, mulher, saúde) corre mal a um tipo. Imaginemos que, como eu, passam uns dias a sentirem-se miseráveis e, em vez de conseguirem manter-se à tona dessa imensa maré negra, só conseguem afundar-se cada vez mais. Se precisam de ânimo, este filme é para vocês. É um filme sobre música, uma incrível quantidade de sorte, libertação - um coming of age tardio regado com pacotes de melhor leite com chocolate, com os mais verdes prados como cenário e a precisar de ser abalado pelo ácido do amor. Eu era essa pessoa desorientada à entrada mas foi uma versão muito mais tranquila e inspirada que saiu daquele cinema. Umas poucas de estrelas, se pontuasse como os críticos.

outubro 01, 2009

Correr na Estrela #4

Mais uma acha para a fogueira descontrolada que às vezes é a minha crença e esperança na espécie humana: hoje, enquanto corríamos na melhor e mais fácil recta do jardim, um jovem homem encostava o rabo às grades e quase ao chão e defecava em pleno jardim. Com a maior das paciências, a sua acompanhante passeava-se em frente aos bancos do jardim. É a isto que chamam uma pessoa.

setembro 29, 2009

Alguém que me dê uma dose cavalar de tranquilizantes, se faz favor.

Não tenho dormido nada de jeito, ando a sufocar com excesso de emoções e a pensar que preciso mesmo de ajuda. Respostas às minhas últimas candidaturas: zero, nem sequer um não para fazer a contagem. Acabei de arrumar o material com que vou iniciar o novo ano escolar e acho que voltar a estudar me põe para lá de aterrorizada. Tem sido difícil concentrar-me no que realmente importa. Faltam três dias para as férias e eu sonho todos os dias com o silêncio cúmplice que aí vem.

setembro 27, 2009

Então e votou bem?

Gosto que me perguntem isto, como se houvesse apenas uma maneira certa de votar e todos soubéssemos exactamente o que quer dizer votar bem. Em todo o caso, o dever cívico está já cumprido.

Pela primeira vez, votei em Lisboa e fi-lo com um certo sentimento de nostalgia porque não iria encontrar na mesa de voto nenhuma cara conhecida. A partir de hoje, sou uma eleitora mais anónima, votando na minha freguesia de residência mas, de certa forma, longe de casa. É como se agora estivesse mais desamparada e esse sentimento apenas cresceu quando disseram o meu nome em voz alta na sétima secção de voto, depois de passar pelos meninos escuteiros que tentavam vender canetas à porta. E posso assegurar que, depois aí de Braga ou Bragança, devo ter votado na freguesia mais social democrata de que há memória: o desfile de carros de alta gama à porta, as senhoras que passeavam o seu cabelo bastante armado com laca, os maridos com o elegante lencinho na lapela do casaco, os miúdos com o cabelo sempre a tapar-lhes os olhos, as moças que têm ainda o mesmo bronzeado que no pico do Verão. as urnas tão perto da rua de Buenos Aires. E então eu, no meio daquela gente toda, senti-me deslocada porque não são aquelas as minhas raízes, não é dali que eu venho e tive saudades de sentir que a maior parte das pessoas que votavam ao mesmo tempo que eu são de esquerda.

Confesso que, como tantas outras pessoas, não gosto nem percebo a política. Tenho muitas vezes a tendência a pensar que não existem nenhumas diferenças entre os que estão no poder e os que se seguirão e acho que quem ingressa na política ao mais alto nível acaba sempre corrompido. Mas nestes dias de eleições sinto-me quase comovida por fazer parte de algo muito maior do que apenas um partido político: sempre que votei senti-me com o poder de mudar o futuro, mesmo correndo o risco de escolher mal. E hoje, impressionada com a afluência a algumas mesas de voto, fico contente por ver que ainda há quem se importe.

setembro 23, 2009

As coisas boas (também) nunca vêm só

Vou lembrar o ano de 2009 como o melhor e o pior da última década, posso já afirmá-lo. Nunca estive tão em baixo, tão desamparada e perdida como neste ano. Mas, simultaneamente, nunca me senti tão empenhada, desejada, empolgada por estar a fazer coisas. Basta pensar que há seis meses atrás, a minha vida era um pouco vazia e estava completamente estagnada e tudo o que aconteceu a partir daí teve exactamente os mesmos efeitos de um tornado.

Entre mortes, doenças mais ou menos graves, internamentos e estados de saúde desconhecidos, aconteceu-me um pouco de tudo. Descobri que vou perder o emprego, que não gosto de parte daquilo que faço, que sou comunista de coração, que nunca mas nunca devo misturar amizade com trabalho, que o mundo é um imenso mar de classificados de emprego. Aprendi a relativizar, a respirar fundo, a dosear as quantidades de stress e indignação e aprendi também que, apesar de tudo, ainda me consigo enervar com facilidade. Fui convidada para projectos empolgantes, que abracei sem sequer hesitar, ultrapassei os meus próprios limites, criei os meus próprios espaços. E encontrei a mais preciosa e rara dádiva da minha vida, capaz de me elevar e surpreender sempre cada vez mais.

Devia estar a escrever este post em Dezembro, quando o ano estivesse prestes a acabar. Mas agora tenho tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo, que dei por mim perdida neste balanço. O que eu aprendi verdadeiramente é que vai ficar tudo bem, a vida vai continuar, a sorte vai virar. E então hoje soube que fui aceite naquilo que quero, ele está a fazer progressos muito pequeninos, a minha vida está (lentamente) a chegar exactamente onde sonhei. E, mesmo que amanhã esta esperança toda venha por aí abaixo, eu hei-de voltar a este post e reler tudo o que escrevi para me lembrar que sim, a gente vai continuar.

*

Também nós poderemos florescer no Outono.

(Às vezes tenho medo. Medo não, às vezes entro em pânico quando penso que, como todas as outras pessoas, não conseguimos sempre aquilo que desejamos. É que também eu mudo como mudam os dias nas estações e, se se levanta uma brisa inesperada antes do anoitecer, também posso esperar acordar para uma manhã radiosa e fresca. Mas basta-me a tua mão, trazendo-me de volta à terra e lembrando-me que as estações ainda se sucedem harmoniosamente.)
* a luz nas manhãs da Estrela.

setembro 22, 2009

Correr na Estrela #3

Assim que cruzamos os portões do jardim, ouvimos a agitação ao longe. São maioritariamente vozes femininas que se perdem entre gritos e cantorias. Quando estamos prestes a começar a corrida, percebemos que tudo se resume a um grupo de veteranas e caloiras da escola da minha rua. Portanto, como se não bastasse a histeria inerente às praxes, tudo piora por serem apenas raparigas. À segunda volta ao jardim, o grupo já mudou de sítio e está agora perto de um repuxo, naquilo que penso ser o baptismo. É quase noite e as luzes do jardim ainda não se acenderam; as caloiras, lembro-me enquanto corremos, devem estar exaustas, depois de se espojarem no chão, gritarem algumas inanidades e serem humilhadas publicamente durante várias horas seguidas. Não sou a favor das praxes, acho que há outras formas de integrar as pessoas: correndo, por exemplo, ou simplesmente aproveitando a benévola sombra das árvores da Estrela. Para acalmarmos os pulmões dela, paramos aos vinte e oito minutos. Os candeeiros iluminam já o caminho e os sinos da Estrela marcam a oito horas da noite.

(Dos vinte, passamos hoje aos vinte e seis graus. É aquela altura do ano em que vamos ainda alternar entre o Verão que já terminou e o Outono que já apareceu por aqui. Já se corre ao anoitecer, da mesma maneira que quando acordo ainda é noite.)

setembro 21, 2009

Prometo que é o último post sobre casamentos!

Este foi (finalmente) o último casamento do ano. A não ser, é claro, que haja aí alguém com planos maquiavélicos para me lixar o que me resta de ordenados até Dezembro. Ou haja alguma moça grávida que ache que deve casar antes do rebento chegar cá fora.

Desta vez, e para encerrar em beleza, fomos a um casamento muito do it yourself. A ideia era que cada convidado levasse algo consigo - comida ou bebida - para compor a mesa do copo de água, sendo que a cerimónia já tinha acontecido há um ano e os noivos não queriam ainda renovar os votos. Depois, assinalou-se o que cada um tinha levado numa espécie de piquenique em plena paisagem campestre e numa noite já de Outono. Outra das enormes vantagens foi o código de vestuário: casual mais casual não dava. Portanto, a ideia era reunir os convidados (em número diminuto, apenas o essencial) com comida caseira, sangria caseira, um cenário bucólico para partilhar a felicidade que já dura há uns bons anos.

Sinceramente, acho que é uma ideia a reter, mesmo para quem quer incluir a parte da cerimónia. O que se poupa em espaços, caterings e músicos contratados ganha-se em intimidade e proximidade com os convidados. Podemos escolher a nossa música, evitam-se os cardápios gastos e aborrecidos, os convidados podem participar mais dos festejos e prestar um muito esmerado serviço de bar. Compreendo perfeitamente quem deseja e sonha com outro tipo de dia para o seu próprio casamento mas já tenho visto tantas cerimónias alternativas e tantas soluções originais que me sinto cada vez mais longe das escolhas convencionais. Mas com ou sem arroz de marisco, com a presença do Mana ou de uma orquestra de cordas, aquilo que conta no final é com quem nos vamos deitar todos os dias a partir dali. E é inspirador ver que há tanta gente com certezas.

setembro 18, 2009

Cross-reference

Perto do canto inferior direito da fotografia, a mão dela, tremida, aberta, paira por cima da perna dele; a mão dele, semicerrada, está nem a um centímetro da dela. O que está nesta fotografia não é ela nem ele - é o plural.

(às vezes o mundo explode, o meu interior encolhe-se, fecha-se sobre si mesmo. às vezes sou toda agressão e as palavras falham-me. falha-me também a doçura no coração, escapam-se-me os vocábulos da ternura e é tudo amargo por dentro. tento imaginar até quando vou viver com o coração na boca, até quando serei onda de fúria irracional mas não consigo prever-lhe o fim. é uma experiência fora-de-corpo, a língua querendo furar a muralha de silêncio que também me imponho. mas, noutros dias, compreendo como tudo o que me foi dado é a maior das bençãos e que o que vejo de fora chama-se mesmo amor.)

setembro 17, 2009

Correr na Estrela #2

Ela voltou a vir comigo, depois de um intervalo de demasiados meses. Hoje não houve tempo para a bicicleta fixa mas em contrapartida os alongamentos foram bem melhores. O vento só não está demasiado frio porque estamos a fazer exercício - sente-se que o Outono está impaciente por chegar. Há dois rapazes brasileiros que não correm, apenas caminham pelo jardim, conversando calmamente. Um senhor com ancas de senhora ensaia os primeiros passos antes de atacar a corrida. Um ou dois casais de namorados resistem ainda à barreira das sete da tarde. As folhas prestes a sucumbirem à passagem das estações enchem o jardim de uma outonal melancolia.

setembro 16, 2009

All the people, so many people

A verdade é que, debaixo deste layout cor de rosa e destes sonhos todos, se esconde alguém que oscila cada vez mais nos sentimentos em relação às pessoas. Acho que nesta matéria chego a ser bipolar, tais são as variações entre os dois pólos das minhas relações com os outros.

Por um lado, ainda me consigo deslumbrar com a generosidade e princípios de algumas pessoas, com a genuína vontade de fazer bem sem esperar nada em troca. Mas por outro, e garanto que estes últimos dias não têm sido nada fáceis, há muito que sinto que a maioria das pessoas não merece a importância que me vejo obrigada a dar-lhes: as pessoas que não mexem uma palha para conseguirem o que lhes faz falta, as pessoas que cruzam os braços à menor dificuldade, as pessoas que desistem ao primeiro contratempo, as pessoas que arranjam subterfúgios e bodes expiatórios para fugirem às suas responsabilidades, as pessoas que nos descartam quando se fartam de nós ou quando já não lhes fazemos falta, as pessoas que usam outras e abusam da sua ingenuidade, as pessoas que nos tossem para cima no metro, as pessoas que não limpam os individuais depois do almoço.

Eu respiro fundo, juro que respiro, mas não tem sido fácil nestes últimos dias. Não é fácil impingir rectidão a quem não tem espinha e é impossível pedir a alguém que respeite os princípios em que não acredita. Felizmente, ainda não me conseguiram acabar com o optimismo e com a ideia de que há pessoas genuinamente boas, dificilmente corrompíveis, empenhadas em fazer deste um mundo melhor. Eu já VI estas pessoas. Falo com algumas todos os dias e sei que são muito mais do que apenas ingénuas. Mas estas pessoas são muitas vezes como as pedras naqueles jardins orientais: submersas, escondidas pelas águas paradas mas firmes na sua ligação ao outro lado. Eu batalho para estar também deste lado das trincheiras e tentar ser um exemplo de cidadania. Mesmo que me digam que o mundo é dos espertos.

setembro 15, 2009

Correr na Estrela #1

O meu pólo hoje parece especialmente imaculado. A terminar já quase depois de anoitecer, sinto que agora começou a nova época. Voltam as caras conhecidas, partem os corpos que apenas queriam estar em forma até ao Verão. A última criança no parque infantil quer sair do baloiço e chama insistentemente pela mãe, uma emigrante de Leste que fuma compulsivamente e bebe vinho de pacote num banco com uma amiga. Penso em todas as mulheres estéreis e em como a vida não devia ser uma dádiva tão aleatória. A dona do Igor, o labrador velhinho e atleta, também regressou. Respiro fundo e a tensão abrandou.

(Já faz um ano desde que comecei a correr no jardim da Estrela. Para começar, precisei da ajuda da minha irmã porque me sentia desadequada, ali meio desamparada. Depois, consegui passar a correr sozinha: chegava a casa, enfiava o equipamento, punha o cronómetro a postos e atirava-me à corrida. Hoje, depois de falhar algumas oportunidades devido ao cansaço e às férias, sei que adquiri um hábito. Ainda travo algumas batalhas interiores nos piores dias, tentando manter o mínimo dos trinta e três minutos por sessão, lutando contra a minha vontade de parar a todo o momento. Mas o que eu sei é que consegui sempre superar-me a mim própria. E isso justifica todo o suor do Mundo).

setembro 14, 2009

Viagem à cidade dos casamentos

Todas as imagens são deste fotógrafo.

Eu gosto muito de viajar mas lembrei-me nestes dias porque é que o avião se tornou num meio de transporte tão em voga. Passar dez horas (!) do meu dia dentro de um carro entre dois países que até me são queridos não é exactamente o tipo de viagem do qual gostaria de me recordar. Se a estas horas juntarmos a aridez de uma paisagem pouco atractiva (numa das raras excepções, hei-de voltar brevemente ao Monasterio de Piedra), os controlos sucessivos dos radares e a falta de música que nos apeteça ouvir, então a viagem torna-se ainda mais penosa.

Mas, mesmo tendo começado este relato com a única coisa realmente negativa ou pouco satisfatória destes dias, não posso dizer que não tenha adorado toda a sequência de eventos que se foram transformando em memórias muito rapidamente, tão rápido como as horas que voaram entre quinta-feira à tarde e domingo à noite. A logística de viajar com mais cinco pessoas revelou-se fácil de dominar em algumas alturas e menos boa de aturar noutras. Foi impressionante a velocidade com que se montou e desmontou um quarto em Madrid e agradável a articulação que permitiu que as refeições não se tornassem em momentos de ansiosa espera. Mas os banhos e as toilletes e as vontades de uns e de outros foram o mais difícil de conjugar.

O casamento foi bonito. Eu mal contive a emoção de ver a noiva entrar pelo braço do pai e de me aperceber dos nervos do noivo já no altar. É-me difícil explicar o que sinto quando vejo duas pessoas que realmente gostam uma da outra, mesmo com todas as teimosias e desentendimentos naturais a duas diferentes personalidades. Por isso, a emoção foi redobrada porque, além de enamorados, os noivos são bons amigos e merecem toda a felicidade do Mundo. Pela primeira vez, cheguei a um casamento pelo meu próprio pé, desfilando o meu modelito (ainda esperando fotografias à altura) pelas ruas abafadas e apinhadas de Zaragoza e à mercê das sandálias herdadas da minha mãe. Levados ao restaurante por um pequeno comboio, houve tempo para belíssimos copos de vinho branco, pão coberto com tomate e presunto, relva fresca e uma temperatura amena. Depois do jantar, foi dançar tanto quanto as sandálias permitiam, aproveitar a barra livre para pouco esmerados gins tónicos, recordar esta coreografia.

Zaragoza é uma cidade muito bonita mas eu sou suspeita porque também sou apaixonada pelas cidades espanholas. Fiquei impressionada com o cuidado com que estão tratados os marcos arquitectónicos da cidade (alguns pareciam acabados de construir!), com a imponente Plaza del Pilar e pelas várias pontes sobre o Ebro. É uma cidade muito viva, pulsante, com sessões de tango em pequenas praças e uma zona em requalificação depois da Expo do ano passado. E - confirma-o quem esteve lá comigo - é a cidade das noivas e dos casamentos. Havia noivas por todo o lado: cafés, encostadas a montras, a chegar à recepção dos hotéis, sobre as pontes e nos ancoradouros do Ebro. Com elas, os noivos, passeando a pé pela cidade e acompanhados pelos fotógrafos de serviço. É como se a vontade de casar ali fosse contagiosa. Voltei solteira, caso queiram saber.

setembro 10, 2009

Mini Vacaciones

Não tenho ainda a mala feita mas parto para Madrid dentro de algumas horas. E amanhã, por estas horas, estarei em Zaragoza para celebrar mais um casamento daqueles amigos de sempre. Posso desde já confirmar-vos que aquele ditado De Espanha nem bom vento, nem bom casamento é uma grandessíssima treta. E além de estar felicíssima pelos noivos, estou encantada por conhecer outra cidade espanhola e, quem sabe, ainda ir a tempo de beber um tinto de Verano.

Hoje relembrei como gosto da minha cidade durante as manhãs. Gosto de senti-la a acordar, ver como timidamente as pessoas se atrevem a enfrentar o calor que já faz às nove da manhã, tomar o pequeno-almoço numa esplanada pouco abrigada do Sol. É como se, estando longe, não pudesse imaginar como pulsam estas ruas, como se formam as filas a chegar ao Rossio, como se descobrem hábitos sem esforço. E depois entrar em casa das minhas avós (cada vez mais só mulheres, não quero lembrar-me mais disto) e ver como evitam o calor e lembrar também que o único barulho que vem da rua são as vozes das vizinhas que se demoram a conversar por ali. E também tive mais uma prova de que não devemos perder a fé na humanidade e humildade dos outros, na capacidade de aceitar uma vocação mas disto também não queria lembrar-me mais. Tudo depois de dar uns 400ml de sangue, depois de alguns anos de pausa e continuando com a tradição do meu avô. Talvez ele se sinta orgulhoso de mim noutro sítio qualquer.

E escrevo agora noutro sítio, mais precisamente aqui. É um trabalho feito a dois, em plena construção, recém-nascido de tantas tardes de Verão. Espalho a minha verborreia por todo o lado. Por falar nisso, vou agora tratar de a acomodar na mala. Madrid e a paella deste menino já me esperam. Hasta luego!

setembro 07, 2009

Este não é um post sobre moda.

Portanto, ainda não sou aquilo que se pode chamar de "senhora". Acabei de me sentar no sofá vinda da casa de banho e posso assegurar-vos de que isto não correu nada bem: confundi sombra dos olhos com baton... Portanto, tinha baton nas pálpebras, um risco preto completamente desregrado, só as pestanas é que se safaram. Mais do que não ter jeito, acho que não tenho gosto. Não faço a menor ideia do que me fica bem e acho, no geral, que acabo sempre parecida com uma estrela de filmes de qualidade duvidosa de cada vez que me tento maquilhar. Sempre que me vejo numa fotografia maquilhada, sou como um pequeno peixe dourado, que constantemente renova as suas memórias e pergunta Quem é esta?

A minha falta de habilidade não se fica por aqui: há os saltos, por exemplo. Já usei saltos altos (aí no meu primeiro ano de faculdade, há... [tosse] doze anos) mas foi uma escolha passageira. Tenho tentado arriscar mas só eu sei como me sinto desadequada em cima das cunhas, do salto mais moderado ou dum agulha mais atrevido. O mundo das entrevistas de emprego vive das aparências dos candidatos, que muitas vezes não são avaliados pelo currículo ou experiência profissional, mas sim pelo que aparentam ser. Não é necessário dizer como me senti fora da minha zona de conforto ao ser conduzida por corredores estranhos e sentada em escritórios pouco familiares sem estar confortável. Eu gosto da simplicidade e chinelos Birkenstock para poder palmilhar as ruas de Lisboa. Aliás, se pudesse andava sempre descalça.

Tenho um casamento na sexta. Tenho tudo pronto a usar, a vestir, a estrear. Na minha cabeça, começam a fervilhar as ideias de desconforto, de estranheza em frente ao espelho. Quase a chegar aos trinta, devia também chegar a essa idade adulta?

setembro 03, 2009

Como rebolar a rua Domingos Sequeira numa noite (quase de fim) de Verão

(Se um dia me dissessem o que havia de gostar de sushi, provavelmente não iria acreditar e iria falar do prazer que é comer um bife grelhado na pedra, mal passado, ainda escorrendo um pouco de sangue. Já pensei algumas vezes em ser vegetariana mas nada de muito sério e acabo sempre por voltar à cena omnívora sem grandes contemplações. E também já pensei em deixar só de comer carne vermelha mas desisti, comer é bom demais para fazer escolhas dessas. Hoje foi noite de muito camarão e rebentos de soja, salmão e abacate, lulas e ananás e uma pequena garrafa de saké quente para ajudar a fazer a digestão. Resultado? As minhas capacidades de locomoção ficaram severamente afectadas mas em contrapartida o fresco da noite soube-me pela vida.)

setembro 02, 2009

Guilty pleasure

Ter quase trinta anos e namorar como se tivesse catorze.

agosto 31, 2009

Delicious hospital food *

Os corredores denunciam a remodelação mas não o esmero da limpeza. Desceram o tecto poucos centímetros acima da nossa cabeça, o que contribui para aumentar a sensação de claustrofobia, apenas aliviada pela cor pastel das paredes. Quase todas as persianas estão descidas, o que, juntamente como os novos aparelhos de ar condicionado, ajudam a que se consiga respirar mesmo quando estão quarenta graus lá fora. Os elevadores ainda não foram alvo da tal remodelação e tanto cheiram a mofo e a naftalina, como à sopa que sofre da falta do sal.

O que me tem incomodado nestes últimos dias de hospital não é tanto o facto de ele estar encurralado no seu próprio corpo, sem ser capaz de se exprimir, o facto de perder constantemente a noção do sítio onde está ou de quem o visita ou a sensação de que já não nos conhece. Também não são as mãos atadas à cama ou o estado (nervosamente) estacionário que tem prolongado a sua estadia por mais tempo do que pensaríamos inicialmente. O que me tem perturbado são as outras misérias que, abandonadas no meio da renovação, esquecidas pela família ou pela previdência, respiram a custo, tentando inutilmente sobreviver. Ele esqueceu já todas as palavras mas nós estaremos sempre à cabeceira e aos pés da cama. Mesmo que à distância, ele nunca estará sozinho.

* o verso dos Eels, a lembrar-me desejo ardentemente que este 2009 acabe porque ninguém me preparou para a quantidade de quartos de hospital que já visitei até agora.

agosto 27, 2009

Não matem o mensageiro mas.

O meu posto de trabalho vai ser extinto. Quer dizer, o meu e o do resto das pessoas que trabalham comigo. Acho que agora, depois de me ver a contas com a negação e a raiva, depois de chegar ao ponto em que me consigo rir disto e de saber a data exacta do fim, posso dizer isto em voz alta. Não tem nada a ver com a crise que atravessamos há quase um ano - o modelo de negócio tornou-se simplesmente obsoleto e pouco rentável e os senhores que fazem milhões à pala disto resolveram mudar. E eu nem consigo estar triste com isto. Na verdade, acho que estou secretamente feliz por ver o final há muito anunciado deste caos da gestão e por deixar de trabalhar com algumas pessoas. Mas não consigo evitar sentir uma réstia de ingratidão para todos nós.

E hoje, um pouco como coroação deste anunciado gran finale, fui tratada (quem sabe ainda não pela última vez) como uma máquina apenas de gerar lucro, como alguém que deve dispor das vidas dos outros para o bel-prazer da empresa, enquanto tenta motivar essas mesmas pessoas. E eu, que nem preciso que me animem porque sei procurar muita da minha motivação dentro de mim, nunca recebi ou sequer poderei aspirar a receber uma palavra de motivação deste supra-sumo da economia, uma palavra apenas de apreço por aguentar inteira uma equipa depois de anunciado o seu fim. Não há tempo para insignificâncias destas nem haverá tempo para gastar um mísero Obrigada comigo.

E agora, feliz por escapar finalmente ao jugo dos números, reencontro-me com a angústia de alguém que não sabe o que o futuro lhe reserva, que se vê a braços com processos de recrutamentos e escrutínio de anúncios de emprego sem fim, mesmo não sabendo o que quer da vida. E, se por um lado o sentimento de liberdade é um alívio para mim, por outro estou aterrada com esta hipótese de não-futuro, das sucessivas rejeições, do sentimento de inutilidade. Livre mas desconfortável, portanto.

E agora estou a rever o American Splendor (o único filme que vi sozinha numa sala de cinema) e estou a ficar deprimida. Realmente deprimida, especialmente depois do Harvey se olhar ao espelho e dizer Well, there's a reliable disappointment. Pareço eu em algumas manhãs.

agosto 24, 2009

Aquele querido mês de Agosto (em diferido do interior)*

Todos sabemos que, chegado o oitavo mês do ano, regressa misteriosamente e um pouco por todo o lado um outro país. É um país invadido pelas matrículas francesas e luxemburguesas, pessoas com saudades da sua aldeia natal, anúncios de festejos pregados por essas árvores fora. Este outro país não estende as suas fronteiras além do centro do país real, em que as estradas não estão congestionadas por quem chega de longe e em que o verde foi, desde há muito, trocado pelo amarelo das searas.

Tentando escapar à onda de saudosismo desses Mercedes tão bem estimados e à vontade de carregar com o andor na procissão e à profusão de penteados muito devedores da estética dos anos oitenta, deixei-me ficar pela beira da piscina, lendo todos os suplementos que tinha em atraso mas não ainda capaz de despachar o livro de uma vez por todas. Subimos ao Caramulinho e estavam certamente entre trinta e quarenta graus centígrados e nós suávamos enquanto dizíamos que caminhadas daquelas devem ser guardadas para outras estações. Ainda não foi desta que consegui acabar com a fobia dos eólitos. À hora do jantar, conseguimos desencantar os sítios mais encantadores para se comer boa alheira e para se beber Cabriz. O tempo, sabemos todos também, não chega para tudo mas chegou para dar um pulo a Viseu e a Aveiro, a tempo de chegar a Lisboa para descansar... do fim de semana.

*com outros postais ilustrados aqui.

agosto 19, 2009

Agosto na Lapa*, 35 ℃


Eu, admiradora incondicional do Verão, me confesso: tenho tido muitos sentimentos contraditórios acerca desta estação, especialmente na zona onde moro. É muito bom, este silêncio que sempre se ouve pela manhã, os pássaros que cantam nas árvores que separam o condomínio dos quintais ranhoso deste lado da rua, os autocarros a passar (aparentemente) com menos frequência. Os cafés a caminho de casa estão quase todos fechados, com letreiros de férias em todas as montras, uns desenhados com palmeiras e malta deitada na praia, outros mais secos e improvisados.

À porta do liceu, não há sinal das meninas que vestem roupa de Verão todo o ano, encostadas à parede, fumando languidamente ou provocando os miúdos que afastam, a custo, o cabelo dos olhos. Não há algazarra junto da escola e as folhas dos plátanos que acompanham as suas grades formam já um tímido tapete, secas pelas temperaturas finalmente altas, revoltas pelos chinelos que caminham em direcção à Estrela. O jardim é agora trilhado por casais gays e heterosexuais, turistas espanhóis muito bem compostos, grupos de rapazes de rastas que depois se deitam pela relva, senhoras bem casadas à espera do segundo filho, os mesmo três senhores de sempre correndo juntos, o mesmo rapaz com cabelos de Cristo sentado em pose depressiva, bebés de colo por todo o lado.

A atmosfera abafada chegou à Estrela e, sendo Agosto, o trânsito nas artérias que circundam o jardim abrandou também, como se agora os automobilistas estivessem demasiado ocupados a escolher o próximo destino de férias. Quase estaciono longe da porta simplesmente porque nestes dias há tantos lugares livres que me posso dar ao luxo de escolher. Ainda não moram estudantes das janelas da frente, nem as alunas da escola gritam à hora de saída.

Sinto a falta destas palpitações. Sinto falta da movida e das buzinas no cruzamento, mesmo que seja muito bom passear por uma Lisboa vazia. Sinto falta duma cidade em marcha mas Setembro já está quase aí.

* com uma fotografia daqui.

agosto 16, 2009

Gustavo, o peixe

Eu não sou propriamente aquilo a que se pode chamar uma animal person. Gosto dos bichos, sim senhor, mas, por alguma razão que o meu inconsciente esconde, não sou de fazer festinhas nem de rebolar com eles e dar beijinhos e essas coisas. Tenho, aliás, um pavor irracional de ser mordida por qualquer animal, especialmente nos casos em que se junta um grande número de exemplares caninos.

Por estas razões, o Gustavo é o animal ideal para mim. Está sossegado no seu aquário, não tem uma dentadura que me possa assustar, não pode esboçar um plano com outras criaturas para me atacar, não ladra nem faz qualquer outro tipo de som, não reclama atenção nem exige muitos cuidados especiais. Não posso evitar conversar com ele, nem ficar vidrada nos seus movimentos fugidios e nervosos, nem rir-me quando ele faz aquela boquinha de peixe enquanto olha para mim atrás do vidro. Nem sequer preciso de falar sobre o significado que ele tem para mim. É o Gustavinho e eu penso se ele estará bem quando estou longe dele.

agosto 14, 2009

Chick flicks *

(Eu até posso armar-me em forte e posso fingir que não sou nada dada a romantismos. Posso ter medo das certezas, mesmo que as sinta profundamente. Posso fingir que as cenas melosas não me dizem nada e o que quero ver são coisas bonitas, que me façam pensar. Eu posso tentar evitar mas não consigo não me imaginar na pele da rapariga rejeitada, da rapariga mais sortuda do Mundo, da insatisfeita e da céptica. Eu posso tentar resistir e ver o filme em metades desiguais, completamente bêbada de sono, agarrada às duas almofadas que me fazem companhia diariamente. Mas disto é que eu gosto. Daquele nó na garganta quando o filme está prestes a chegar ao fim, das lágrimas que me caem por imaginar que aquela podia ser eu, da emoção de imaginar que um dia aquilo também me há-de acontecer. Com direito a música melosa e tudo. Porque não existe nada que me importe mais do que ter um coração que palpite e faça palpitar.)

* o desta semana.

agosto 11, 2009

Um pouco de Primavera *

.


Ter a certeza é assim daquelas coisas lixadas. Porque (normalmente) vem alguém no final que nos acaba com tudo, que nos desfere o golpe de misericórdia, ao qual pensávamos ter escapado logo no início. Ter certezas depois de muitos destes golpes já não é lixado, é apenas uma imensa prova de fé, deixa de ser uma escolha para passar a ser uma obrigação. Ter a certeza alivia-nos do absurdo que é acordar todos os dias sem saber como tomar decisões, alimenta-nos todos instantes em que nos permitimos distrair, povoa-nos as fantasias de uma vida mais livre noutro sítio qualquer. Ter a certeza demora. Saber que sim senhor, é isto mesmo, não é coisa para acontecer em meia dúzia de dias mas, com sorte, pode acontecer num só beijo. Quando se tem a certeza, tudo o resto passa a ser secundário. Deixa de interessar se há correio ou não, se a máquina do café funciona, se a ventoinha está em falta.

A noite está incrivelmente quente e, se eu me encostar às grades secas da varanda, consigo sentir uma brisa tímida a tentar desalinhar o que resta de um rabo de cavalo mal conseguido. O som da porta do carro a bater é, ao mesmo tempo, uma incómoda despedida e uma promessa de regresso. E ter a certeza é começar a contar os minutos que faltam.

*pela mão dos Noah and the Whale, agora que chegou o Verão.

agosto 09, 2009

Blank *



Este é seguramente um dos períodos descendentes da minha vida. Acho que, depois disto, fica provado para mim que o que temos hoje pode perfeitamente voar amanhã. Descobri há pouco tempo que não tenho andando a cultivar as relações familiares como devia e, em vez de tentar remendar isso da melhor maneira, levantei uma sombra que se instalou quase definitivamente.

Depois, a saúde de outro dos homens da minha vida anda a ameaçar degradar-se definitivamente e a certeza de que as mulheres são mais resistentes cresce em mim. São as mulheres que engolem as lágrimas porque sabem que a vida tem que continuar, são elas que ficam com as decisões e que nunca deixam de dar tudo o que têm, são elas que (apesar de serem chamadas de sexo fraco) nunca se deixam consumir pelo desgosto. A minha família é assumidamente matriarcal, com mulheres que nunca param, nunca deixam de sair, de coser mesmo quando a dor quer falar mais alto. E os homens, gastos pelo trabalho e debilitados pela velhice, começam a despedir-se cedo, deixam os corpos para trás e fogem pelos olhos vítreos, esquecem-se lentamente de quem estão a deixar em terra. Não tem sido fácil assistir a estes pequenos declínios, que levam com eles as pessoas que me ensinaram a crescer.

E finalmente, essa coisa a que convencionaram chamar emprego... Estou aprisionada por uma posição que me é cada vez mais estranha e por um mercado estrangulador para quem não quer viver dos números. A natureza do negócio mudou e tudo caminha claramente para um fim, um fim que eu já adivinhava há algum tempo mas tinha sempre recusado a aceitar. E, se parte de mim exulta com a possibilidade de voltar a ser livre, a minha metade racional lembra-me que, querendo construir uma coisa parecida com uma vida, há uma atitude mais séria que devo tomar. Já tinha dado cambalhotas antes, daquelas que não se sabe muito bem de onde se parte mas nada como aquela que - parece-me - aí vem. Não tenho medo por mim. Nem tenho pena de mim. Mas gostava que, com apenas uma decisão minha, pudesse resolver a vida e pudesse devolver a paz de espírito aos que se preocupam com ela.

* uma música velha dos Failure, que ilustra muito bem o estado em que às vezes me obrigava a estar durante a semana que passou: em branco, vazia de memórias, imune a certos estímulos exteriores. Para ouvi-la em repeat, com a certeza de que a convulsão maior passou e eu, ainda não renovada, estou de volta.

agosto 06, 2009

Esta é a (belíssima) capa da Pormenores deste mês onde, para além do relato ingénuo sobre algumas das memórias de infância desta que vos escreve, podem ainda ler sobre um sítio paradisíaco para passarem férias, sobre mais uma receita com história ou simplesmente maravilharem-se com outras fotografias sobre o Alentejo. Não sei o que estão a fazer aí parados em vez de correrem para as bancas e fazerem com isto esgote num instante...

(um momento de publicidade para fugir ao descarrilar das coisas, à passagem abrupta dum estado de graça para um estado de desgraça, apenas salva - uma e outra vez - pela linha do amor. Sou um desastre com as palavras faladas, sou um desastre a explicar-me, sou uma catástrofe em potência sempre que me puxam pela língua. Preciso urgentemente de me calar.)

agosto 04, 2009

2009 (so far) *


Para verem como às vezes sou uma pessoa bastante desocupada e como a profissão que nunca escolhi já fez das suas no meu cérebro, criei um gráfico com as coisas que me têm acontecido até agora. Como é meu apanágio, isto não tem qualquer valor científico, é apenas uma fantasia absurda mas acho que ilustra bem os tropeções que tenho dado desde o início do ano. Na minha cabeça, já há muito que se formou a teoria da impossibilidade: as linhas todas não podem estar acima da normalidade simultaneamente. Isto é empírico, largamente comprovado pela minha experiência. E eu preciso mesmo de me rir disto, caso contrário nunca mais ponho o pezinho fora de casa com o tamanho das minhas tristezas.


* porque as desgraças estão muito longe de virem sós.

agosto 02, 2009

Fim de tarde na Quinta Formosa

Uma das coisas que mais me agrada em vir a casa é a simplicidade com que se fazem as coisas. Deixamos de exigir, de nos preocuparmos com coisas supérfluas e passamos a concentrar-nos na essência das actividades, da comida, da conversa. Uns bancos de plástico podem parecer sofás (mesmo que sejam pouco resistentes), uma velha secretária faz as vezes da mesa no quintal, os garfos são a dividir por todos. Faltava muita gente, é um facto, mas continua a ser bom conversar na rua, casaco vestido que isto já não parecem noites de Agosto, entre dois copos de cerveja e um molho de convites de casamento.

Em casa, deixamos de ser preguiçoso e ajudamos a fazer caipirinhas numa cozinha emprestada, o gelo a ser esmagado por um tacho em cima do balcão. E em casa podemos, interiormente, parar o tempo e lembrar-nos de tudo o que aconteceu naquelas velhas garagens, das pequenas mas profundas cicatrizes que nos fizeram empinar para, do alto dos nossos bicos dos pés, podermos dizer que conseguimos sobreviver. Em casa, somos os futuros daqueles adolescentes que jogavam às tardes durante um fim de semana inteiro, inconscientes daquilo a que o Mundo os iria sujeitar e somos o passado desta gente quase nos trinta que, mesmo assim, ainda ousa sonhar.

agosto 01, 2009

As minhas noites são mais belas que os meus dias vi

Não foi a despedida por que esperávamos mas era o último dia e todos queriam estar presentes. Houve tempo para frango assado e batatas fritas no canto do balcão durante parte da noite. Eu e esta menina fomos as responsáveis atrás dos pratos (vivam os leitores de mp3!) mas não existia gente suficiente para animar. A noite acabou com apenas três horas de sono e as saudades antecipadas a apertarem o peito. O Verão continua hoje, num quintal perto de mim.

* outros disparos, como sempre, aqui.

julho 29, 2009

Postais do fim de semana #3

Não nasci numa aldeia mas foi como se tivesse nascido. As pessoas conhecem-se todas umas às outras, as minhas avós param em tudo o quanto é lado para conversar com quem se cruzam, os ciganos sempre venderam a mesma roupa contrafeita à porta do mesmo supermercado onde as minhas avós foram toda a vida. Já percebi que os velhos da minha infância estão todos a definhar ou a morrer e em breve não vai sobrar-me nenhuma recordação do género.

Mas, indiferentes à modernidade ou ao progresso, as festas do meu bairro continuam. E é como se fossem as festas da aldeia: tocam os sinos, a procissão dá uma volta pela rua principal, as pessoas têm certamente guardada roupa para esta ocasião, os homens bebem demais e as mulheres dançam umas com as outras, quando não estão sentada com um cobertor sobre as pernas. Estava demasiado frio para uma noite de fim de Julho, estava vento mas havia ainda quem empinasse umas cervejas ou corresse atrás dum reguila qualquer. À tarde, formou-se fila para os carros serem benzidos (pelo patrono dos viajantes) mas não antes de estenderem o braço e pagarem (literalmente) a sua promessa.

Antes, eu esperava ansiosamente que estes dias chegassem e que pudessem romper o torpor das férias de Verão. Depois da solenidade do momento, era a hora do orgão e do acordeão. Disso e das estrelas vistas de São Cristovão, quando as noites ainda eram de calor.

julho 27, 2009

Postais do fim de semana #2


Eu diria que estavam mais que trinta e cinco graus mas nunca fui muito boa a avaliar distâncias ou temperaturas. A diferença entre o nosso país e Espanha começa logo no alcatrão, que passa de uma largura de um carro para duas largas faixas de rodagem mas o Sol queima exactamente da mesma maneira. À volta do pequeno cruzamento, reuniram-se em tempos umas dez casas, agora acompanhadas por um restaurante moderno e muito frequentado. Se arriscarmos um pouco mais dentro da aldeia, longe da estrada principal, conseguimos ouvir mesmo o calor e é como se o pasto seco entrasse a qualquer momento em combustão espontânea.

Foi uma viagem pelas estreitas estradas do Parque Natural da Serra de São Mamede, alternando o falso fresco do ar condicionado com as baforadas de calor que fugiam à desordem dos pinheiros. Foram alguns quilómetros pouco antes do almoço para testemunhar a gratidão e a humildade de quem foi salvo dos grandes fogos de 2003 e foi a maneira de regressar com uma maceta de manjerico para casa. No final do dia, podia encher o meu peito com o orgulho que sentia e relaxar depois de um mergulho nas águas da Portagem. É muito fácil viver feliz, com um pé em ambos os lados da fronteira. É o lema de há muito - um pé em Portalegre, outro no Mundo.

Postais do fim de semana #1

As fotos são dele.

São graus a mais para conseguir estar apenas na rua e o resultado foram dois dias de piscina, com o Sol em modo hardcore. Acho que já tinha saudades deste calor à séria, que torna insuportável mesmo uma esplanada debaixo de gigantes chapéus de Sol. A sorte de se morar neste canto do país é que quase todas as piscinas aqui à volta têm aquilo a que se chama uma vista: ou a imponência de Marvão ou a serra de São Mamede ou mesmo a planície a estender os braços em direcção a capital. Foram momentos de pausa mas com pouco silêncio, que as piscinas foram invadidas por malta com menos de doze anos ou simplesmente por espanhóis. Às vezes, pergunto-me onde anda a promoção turística duma região tão rica em património humano e natural... Vamos a mais um mergulho, que aqui está a ficar muito calor.

julho 23, 2009

Tenho medo de histórias de amor perfeitas.

julho 22, 2009

Back to school (we are the leaders)

É verdade, decidi que me apetece estudar outra vez. Comecei a olhar à minha volta e a perceber que os estímulos a que estou sujeita agora não são propriamente interessantes e muitos nem sequer se podem chamar estímulos. De há três anos para cá, tenho aprendido imensas coisas novas mas quase nada do que aprendi serviu para me realizar pessoalmente ou para me estimular intelectualmente. A cabeça, mesmo assim, ainda não está parada.

Sou candidata a uma licenciatura e a um mestrado, o que, apesar se serem graus diferentes, tem a sua razão de ser. São talvez as duas áreas onde gostava mais de trabalhar e sobre as quais me imagino a pensar. E ontem, quando voltei a entrar na faculdade, senti o formigueiro de quem se está a meter numa nova aventura. Eu, que pensei nunca mais pôr os pés naquela escola, dei por mim entusiasmada por poder outra vez sentar-me naqueles anfiteatros, fotocopiar livros inteiros, sentar-me a estudar na esplanada. Acho que foi a melhor maneira de confirmar que é isto que eu quero para mim. Não tenho a ilusão de que é isto que me vai salvar de um trabalho estéril, descaracterizado ou inútil - as alternativas, infelizmente, não são muitas. Mas é certamente isto que me vai enriquecer e aproximar-me da pessoa que eu gostava de ser.

Agora só falta saber se sou aceite ou não. No melhor dos cenários, vai ser um prazer tem cartão de estudante outra vez.

julho 19, 2009

Andei por aí! *

As fotos são minhas e do meu capitão

A minha noção de fim de semana muda radicalmente sempre que não estou sozinha. Conseguimos fazer o que queremos e ainda ficamos com tempo para fazer ronha no sofá. Damos um pulo à LX Factory depois de comer caracóis e aquele pica-pau. Entre a Ler Devagar, onde fico fascinada pela prateleiras infinitas e pelas rotativas gigantes, e outro armazém decorre este festival, onde tenho o prazer de assistir ao concerto de Dobet Gnahore. Chegada da Costa do Marfim, é uma espécie de Lisa Gerrard negra com que me faz arrepiar sempre que canta sem rede, sem banda, sem medo. Canta sobre a família, a desflorestação, a farsa da política e surpreende todos com a sua elasticidade e coreografias. Todo um deleite para os sentidos, este concerto.

Passamos o Sábado entre sítios que eu gostava de conhecer, não sem antes eu gastar uma quantia absurda de dinheiro na minha primeira consola. Eu bem quis ter uma Mega Drive e anos mais tarde apetecia-me ter um PS mas pronto, como sou rapariga, deixei conquistar pela Wii com aquele tapete para fazer exercício e tudo. Ainda me parece tão esquisito, jogar quando me apetece, agora aos vinte e nove anos! Ainda me lembro de ter pedido uma consola aos meus pais e eles me darem como escolha a consola ou uma televisão no quarto... Adivinhem o que ganhou. Estão, portanto, prometidas algumas horas a fazer figuras tristes, da quais a minha irmã também terá certamente a sua quota parte!

E depois o jantar, o sushi que guardamos para as ocasiões que merecem comemoraração, aqui para os lados de Campo de Ourique. Até pode não existir nada para festejar porque os dias assim são literalmente perfeitos e eu não me importo de os acabar no sofá a ver uma tontice qualquer e tudo o resto perde a importância porque não me falta nada. Só pedia que pudesse repetir a felicidade em dias consecutivos, sem ter que esperar outra vez.

* e o meu nome escreve-se com S mas não tive tempo de o explicar ao senhor do café.

julho 17, 2009

Boletim clínico

Obrigada a visitar mais uma vez o serviço de atendimento permanente de um hospital (leia-se urgência), não posso deixar de sentir o gosto acre de poder pagar cuidados de saúde muito acima da média. Desta vez foi no hospital da Luz, um sítio tão agradável, limpo e silencioso que uma pessoa nem se lembra ao que foi. Tendo saído sem preocupações de maior, também constato que o que me levou lá já se arrasta há um ano, o que é no mínimo incómodo e faz-me duvidar da seriedade de médicos cujos honorários se inclinam para a centena de euro.

Não tem sido um ano fácil, em termos de saúde. Às vezes, sinto que há qualquer coisa muito errada dentro de mim, uma conspiração que, ora esconde a verdade, ora deixa os sinais serem demasiado evidentes. E eu, com uma cabeça dada a fazer filmes e a pensar demais, não sei muito bem o que fazer com esta história toda. Tenho tentado sempre ouvir as vozes que me dizem que vai ficar tudo bem mas a verdade é que este tudo bem dura sempre muito pouco tempo. Aconselhada a ser vista por um especialista, eis que estarei em Coimbra na Segunda à noite para expor o meu caso. Pela trilionésima vez, parece-me. A única coisa que queria era saber exactamente o que fazer, mesmo que a reposta fosse qualquer coisa dolorosa. Até lá, a minha saúde continua a ser uma telenovela mexicana de mau gosto, o sítio mais pantanoso por onde já me movi.

julho 14, 2009

Há um colega meu que vive imaginando teorias da conspiração. Passou grande parte das férias a pensar nisso, quando a pessoa normal normalmente aproveita para se afastar um pouco do Mundo ou simplesmente para não pensar em nada. Diz que o Obama ganhou pela sua cor da pele porque os Estados Unidos querem conquistar África, que o chip nas matrículas servirá para criar um imposto sobre o CO2, que o Hugo Chávez vai ser assassinado porque é essa a maneira de funcionar dos Estados Unidos, que Portugal é um (ainda assim gigante) tubo de ensaio para outras democracias. Ele discute sobre os ingredientes proibidos na nossa comida, sobre a película que colaram no vidro do juíz, sobre o papel do Al Gore na luta pelo meio ambiente. Viver no mesmo Mundo em que ele vive deve ser a coisa mais alucinante que existe. E não é que eu acredite em tudo o que os orgãos de comunicação nos querem impingir mas, se fosse como ele, perdia a minha sanidade mental.

Estou mesmo empenhada em salvar o que me resta de ingenuidade.

julho 12, 2009

Breves (e as férias a acabarem...)

É Sábado à noite e eu ainda estou no escuro do meu quarto. Aproximo-me perigosamente do regresso à realidade (aka Lisboa ou o trabalho) e sinto que há um desconforto neste avançar das horas. Já sei que amanhã não conseguirei dormir, como em todos os regressos, mas sinto que desta vez a coisa se complicou: já não é só querer estar eternamente de férias. Agora, agudizou-se esta sensação de inutilidade, esta vontade de fazer algo de melhor pelo Mundo sem ter que sofrer as pressões dos orçamentos ou do cumprimento de objectivos. Estas férias deram-me tempo demais para pensar, para sentir lentamente que o que eu tenho é uma necessidade de me humanizar, de trabalhar para pessoas e para me realizar pessoalmente. Não sei muito bem com resolver esta embrulhada mas sei que, antes de mais, o que me falta é rever a minha lista de prioridades e tentar perceber de que maneira me sentiria mais feliz.

O meu próprio corpo anda a trair-me. A minha carne continua a ameaçar boicotar os meus planos de futuro e é tudo tão incerto que a preocupação me chega numa espécie de convulsões. O meu corpo quer passar-me uma rasteira e nem tenta esconder as suas intenções. Tento respirar fundo e relativizar, engendro planos alternativos, antecipo hipotéticas dores futuras. Quando a ameaça vem de dentro, sentimo-nos ainda mais ultrajados.

Hoje (ou ontem) saiu o terceiro número desta revista. Paralelamente, aconteceu finalmente o lançamento oficial, na mesma altura em que se comemora a distribuição em todo o país. Estive presente, com todo o gosto, para poder testemunhar o sucesso que uma estrutura tão leve e independente já conseguiu até aqui. Orgulho-me de fazer parte, ainda que distante, desta equipa e de poder contribuir para mudar a imagem que muita gente ainda tem do Alentejo, dando a mostrar o talento de que nasceu abaixo do Tejo ou de quem, apaixonado, se fixou por aqui.

Sinto-me terrivelmente confusa sobre qual é o meu papel no Mundo. Sei que não pertenço ao mundo dos relatórios semanais, das estratégias de liderança e dos resultados líquidos mas ainda não consegui relocalizar-me. Queria apenas estar mais próxima das pessoas, sem que isso implicasse necessariamente avaliá-las, admoestá-las ou dirigi-las - a única coisa que desejo é estar em pé de igualdade com elas e poder absorver também as suas histórias de vida. Já pensei muitas vezes em largar tudo e começar do zero noutro sítio qualquer. Mas a ideia de deixar a minha família para trás tem-me demovido de tomar uma decisão mais impensada. Mas não se enganem, que sou uma pessoa feliz. Tenho as oportunidades de mudar, o Mundo à distância de um qualquer bilhete de avião, as pessoas que me querem bem, a metade que me faltava. Não estou só e isso é tudo. Resta-me só enterrar* esta minha insatisfação num sítio qualquer.

* leia-se resolver.

julho 09, 2009

The dog days are over *

Se eu quisesse, não poderia enumerar o número de vezes em que me surpreendi nos últimos tempos. Podia querer contar estas vezes mas é tudo tão rápido e eu não estou realmente a tomar nota, por isso vai-me tudo passando ao lado. Não as surpresas, mas a sua contagem.

Tenho lido alguns posts nos últimos tempos sobre o facto de se ser muito selectivo ou esquisito com aquilo que nos faz feliz. Tenho lido sobre pessoas que acham que já não merecem ser felizes ou que acham que não voltarão a sentir-se completas. Tenho encolhido os ombros quando leio sobre pessoas que buscam a felicidade, comparando o que têm agora com aquilo que um dia tiveram. Pessoas bonitas, inteligentes e independentes não deviam duvidar das suas qualidades e, muito menos, do seu direito a ser feliz.

Procurem menos. Olhem para quem está à vossa volta, a resposta costuma estar subtilmente escondida por aí. Não escolham, deixem-se levar. Deixem-se convencer de que o que estão a fazer é uma loucura saudável. Não procurem, de todo. Deixem de idealizar. Deixem que vos amem e que vos adorem sem qualquer razão especial. Dêem tempo a tudo: às interrogações que vos vão assaltando, às fantasias e ao desejo se o sentirem a crescer, à vontade de mudar, à misteriosa sensação de que tudo pode estar a mudar. Enviem sms longas, percam a mania (como eu) de que não gostam de falar ao telefone, mandem mails com coisas que encontraram por aí. Não rejeitem o carinho de ninguém. Deixem-se apoiar. Aceitem convites para lanches, piscinas, fins de semana. Passem ao espelho o tempo suficiente para se sentirem radiosos. Não estranhem o brilho do vosso olhar. Convençam-se que as borboletas na barriga vieram para ficar. Suspirem o tempo todo. Ouçam a minha avó quando ela diz que, o que é nosso, às nossas mãos virá. Se tiverem vontade de dançar, pulem. Não se sintam esquisitos quando tiverem vontade de beijos o tempo todo. Tenham catorze anos aos trinta. Não contem o tempo que demorou até serem felizes mas o que ainda têm à vossa frente. Arrepiem-se com a música. Descubram poemas na vossa cabeça. Não estranhem se chorarem de alegria. Às vezes, o amor chega e nós, destreinados e incrédulos, não percebemos.

Ser feliz também é deixar que nos amem. É arriscar mais um falhanço para descobrir o que nos faltava. E dizer sempre, sem pensar no que isso quererá dizer amanhã. O amor é e sempre foi aqui e agora.

* uma música sobre o instante em que a felicidade nos acerta em cheio.

julho 07, 2009

M de mar, mergulho e moleza

O porto estava cuidadosamente arrumado entre praias de areia muito escura e grossa. Nunca espreitámos os barcos atracados por lá mas ainda vimos passar alguns navios de cruzeiro pela costa, quem sabe lotados por velhinhos que gostam de dançar o foxtrot sem riscos e casais para quem a lua de mel se resume a uma mão cheia de dias entre as paredes de uma cabine. A água era escandalosamente fria, especialmente se pensarmos nas nossas praias banhadas pelo Atlântico. Esperando a temperatura da água quase idêntica à temperatura do ar, muitas foram as vezes em que as dores nos ossos não nos deixaram estar na água mais do que o tempo estritamente necessário para refrescar.

Se alguma vez buscámos sossego, devíamos saber que não era aqui que o íamos encontrar. É claro que os espanhóis falam alto, é claro que são festivos e emotivos mas aquilo a que assistimos diariamente é talvez um bocadinho demais. As discussões sobre a educação dos filhos, as cadeiras disponíveis, os colegas de trabalho - tudo quase gritado, para que toda a praia não se sentisse excluída e pudesse também comentar. Se a isto acrescentarmos que os espanhóis gostam ainda mais de se amontoarem, de estenderem arraiais em cima de outras pessoas que nós, a coisa ainda piora. Mas tudo se compensava com a visão de bebés por todo o lado, pela mão dos pais ou na barriga das mães, nus e de boné na cabeça, gatinhando na areia ou recusando-se a pisá-la. Se isto pudesse ser uma amostra da natalidade, então podíamos também concluir que a população espanhola se está a rejuvenescer sem problemas. Depois podemos somar ainda os vendedores de malas (imitações grosseiras de Prada e Gucci e Channel), de relógios e óculos de Sol, os rapazes que carregavam as túnicas marroquinas ainda em cruzetas, os apregoadores de bebidas frescas e gelados, o rapaz das tatuagens e a trupe das massagens - vale tudo para vender mais.

A piscina coroava o hotel no nono andar, o restaurante esperava-nos no primeiro. Em algumas alturas, éramos as únicas portuguesas do hotel e o caixa já nos agradecia na nossa língua. Perdemos a conta às excursões de velhos que entravam e saiam às horas das refeições, garrafa de vinho, água e gasosa. O horário da sesta foi cumprido religiosamente por quem consegue adormecer em cinco segundos, intermitentemente para quem se deixa comandar pela bexiga. Beberam-se três ou quatro gins tónicos preparados no quarto, com uma faca desviada subtilmente do restaurante. Fizemos muito com pouco. Em havendo Sol e um pedacinho de areia para estender a toalha, a malta esquece-se que trabalha e que muitas vezes detesta o que faz. Depois, é mergulhar no Mediterrâneo, preparar-se para boiar e, quando finalmente descansamos a cabeça dentro de água, só ouvimos a imensa pressão de um mar inteiro e a nossa própria respiração. Se fecharmos os olhos, tudo o resto deixa realmente de existir. Apenas as boas recordações se mantém à tona connosco, evitando outros banhistas, borboletas na barriga também em estado líquido.

julho 05, 2009

Já tinha saudades, confesso.

Regresso de férias com a sensação de que agora preciso descansar destes dias sem fazer absolutamente nada. Não é bem um regresso, se pensar que há ainda mais uma semana de férias à minha frente. Foram oito dias num sítio com gente muito estranha, staff de hotel que se sentia intrigado, alguma paella e horas intermináveis de Sol (da qual me protegi devidamente com os factores recomendados, que eu não sou a favor de descuidos desse género). Não li tanto como idealizara, não ouvi tanta música como seria costume e escrevi muito menos do que seria desejável - quase todos os objectivos cumpridos, portanto. Sobrou-me o tempo para pensar, ter saudades e imaginar cenários, decisões e mudanças enquanto me voltava vezes sem conta na toalha ou nos momentos que antecediam a obrigatória siesta. Vou ter saudades dos banhos na água gelada (sim, até fazia doer os ossos) do Mediterrâneo e do céu insistentemente azul. Mas agora voltei, o Mundo também voltou a existir e ainda me sobra tempo livre. Depois da auto-estrada da prata, de nos perdermos em Sevilha debaixo de 42º e de sevilhanas cantadas às cinco da manhã a plenos pulmões, voltei a casa. E pelas razões óbvias, é muito muito bom regressar.