Eles estavam habituados a estarem sozinhos num daqueles aquários redondos, que passam bem por uma bola de cristal. O Gustavo e o Senhor Almeida já quase vêm comer à mão porque trato de os alimentar sempre à mesma hora e no mesmo sítio. Às vezes dão pulinhos dentro de água, como se estivessem na brincadeira. Hoje, juntou-se a ele o irmão mais velho e agora o ambiente está estranho: estão a conhecer-se num aquário muito maior e muitas vezes não largam o Hubble. E agora é deixá-los crescer: não posso fazer-lhes festinhas mas não me roem as tomadas.
dezembro 22, 2009
dezembro 21, 2009
Podem perguntar-me o que quiserem, é Natal.
Não tenho mais nada para vos dar, a não ser a minha sapiência. Que ainda é pouca mas não a quero menosprezar.
dezembro 20, 2009
A minha cidade é um belo milésimo post
Estes exemplares são dele.
Mil mensagens desde dois mil e quatro. Centenas, milhares de caracteres desde o mês de Fevereiro desse ano, tempo perdido a decidir o que vale ou não a pena publicar. Mil vezes sentada em sítios diferentes, teclando com diferentes computadores, indecisa e determinada, muitas vezes completamente vazia de inspiração. Mil entradas num diário que continua a crescer e a ver-me crescer durante seis anos, insensível aos meus picos emocionais. Mil vontades de falar, espaços onde tantas vezes falei das saudades que tenho de casa, da forma como olho a cidade enquanto a deixo para trás.
Aproveito a milionésima mensagem para vos convidar a (re)descobrir a minha cidade, especialmente para se enamorarem dos pormenores que, por julgarmos já sabermos tudo, deixamos fugir todos os dias. Irão ser, um dia, mil razões para sentir vontade de regressar todos os dias ao único sítio que me reconhece e me faz falta. Chama-se Portalegre em Pormenor e já conta com as participações de vários olhos com visões muito particulares, a cores e sem elas, sobre esta atípica cidade alentejana. Eu fico desejando mil céus azuis, tiritando com os zeros graus deste fim de semana - certamente se seguirão mil posts de paixão e beiço caído por esta cidade.
dezembro 14, 2009
Alerta amarelo
Eu ando duma maneira que não me posso aproximar de nenhuma loja ou local onde se possa comprar alguma coisa. Ia hoje à Baixa tratar da substituição de uma prenda (já que a original está rota mesmo antes de ser oferecida...) e acabei enfiada aqui, tentada a despachar-me rapidamente e acabando com um saco com umas cinco peças de roupa - prenda não incluída. Depois, já de volta ao trabalho, dou aqui de caras com uma mini feira do livro e, com a desculpa que tinha a prenda do amigo secreto lá do trabalho para comprar, acabei com mais cinco livros dentro da mala - e não são todos para oferecer. Quase a chegar ao meu destino, os meus olhos param num quiosque e toca de comprar esta revista, só para confirmar a polémica que se levantou blogosfera fora - e bem me arrependi, que não é propriamente reconfortante ver as fotografias das raparigas tão perfeitas e depois olhar-me ao espelho. E com isto comprometo-me a travar este frémito consumista. Alguém que me agarre se passar perto de outra montra.
(acho que se chama carência ou ausência de sentido de orientação. Como se meia dúzia de casacos de malha pudessem apagar a tristeza com que aprendo a viver todos os dias, tentando convencer-me que todos agimos pelo melhor e que um dia todas as imagens do desespero dele vão esfumar-se da minha cabeça. Já não sei o que está certo - só sei que tenho os nervos esfrangalhados e mais uns casacos no roupeiro.)
dezembro 10, 2009
Ultimamente.
Ando um bocado assim: incapaz de me focar nas coisas mais importantes, pressionada por coisas por fazer de todas as direcções, esmagada por um jantar para cento e oitenta pessoas que não estava a ser capaz de organizar. Recebi a notícia de que não passei num processo de recrutamento onde estive envolvida há pouco porque os resultados dos meus testes não eram satisfatórios. Eram testes de raciocínio numérico apoiados por tabelas e gráficos, coisas que eu já deixei para trás há uns bons quinze anos. E nem sequer fiquei triste por não ter conseguido a posição - fiquei, isso sim, envergonhada por não conseguir superar estas provas, mesmo que só eu conheça o resultado. Tenho vergonha de não ser boa assim em tudo. Também fiquei a saber que entrar nos quarenta na minha família é sinónimo de operações à cabeça ou coma induzido por problemas cardíacos desconhecidos. Acho que me fico pelos trinta.
Estamos fartos de saber que a pressão para mantermos a compostura e não cedermos à tristeza é enorme porque é suposto sermos todos fortes. Só que eu, como consequência de não ceder um bocadinho diariamente, tenho dias em que simplesmente quebro, em vez de vergar. E eu desejo apenas ser como canas ao vento.
dezembro 07, 2009
Sushi para um (a pedido!) *

* compra-se ali naquela bandeirinha, caso ainda não saibam.
dezembro 05, 2009
Tudo (muito) bons rapazes
Eu já sabia que se me chegasse perto da Fnac algo assim ia acontecer. Ia lá, inocentemente, só buscar um cabo de rede para consertar a minha ligação à internet e acabei com estes três discos (também) na mão. Portanto temos: o cavalheiro à moda antiga, cabelo preto desgrenhado, sozinho em palco com a sua guitarra, com a sua timidez e as botas que marcam o compasso; o trovador contemporâneo, fumando finíssimos cigarros de enrolar, escondido atrás dos lenços que enrola ao pescoço e dos romances falhados das suas canções; e o rei da música pop portuguesa, mestre de cerimónias da escrita, do vídeo e da fotografia, incapaz de parar de criar. Alguém ainda acha que a música portuguesa não vale nada?
dezembro 04, 2009
Sobre regressar *
* ou como tudo correu tão bem, tirando os pés dentro das botas novas, e como voltei ainda sem ter um novo emprego e com vontade de mandar o meu país às urtigas.
dezembro 02, 2009
Um chá antes de partir
E agora é hora de fechar a mala e dormir. Gostava de poder descansar mas está mau tempo para voar e a companhia é a mesma do avião misteriosamente desaparecido do radar. Tenho sempre medo de morrer, por isso olhem, foi um gosto!
novembro 30, 2009
Our time is running out
Ela conta-me muitas coisas nesta viagens outonais, rampa acima, perdidas entre os castanheiros que tombam sobre a estrada e os castelos de gelo [sic] que se formam nos pontos mais altos. E fala-me de toda a comida que tem feito nos últimos dias e de como, simultaneamente, já perdeu a vontade de comer. Ouço pormenores de frangos tostados e caldos verdes e qualquer coisa que se deixou a descongelar entretanto - tudo azedando lentamente em tachos gastos por umas dezenas de anos.
Fala-me dos medos, dos rapazes que às vezes vê dentro do quarto e de como se tapa até à cabeça, esperando ficar novamente sozinha. Vai confessando que teme que a expiem e a sigam e, acima de tudo, que seja o assunto do falatório das vizinhas entre o vento gelado e as bolsas do pão. Vou muitas vezes em silêncio, olhando para ela a espaços, tentando gravar-lhe as rugas na minha memória, tentando ignorar a pele seca das mãos e a roupa onde nada um corpo de mais de oitenta anos.
Já tentei explicar-lhe que ele não voltará a andar. E desfiz-me em detalhes para lhe mostrar que também não irá recuperar a fala. Mas como é que se mostra a alguém que a pessoa com quem viveu mais de sessenta anos é apenas uma sombra de si mesmo, três ou quatro sílabas balbuciadas sem nexo, um corpo feito de pele e osso curvado sobre si mesmo? Concentro-me nas abertas e nas árvores de folha caduca e nos prados amadurecidos pela estação. Controlo as lágrimas e é como se este fosse só mais um passeio de Domingo.
novembro 25, 2009
A dr. M. responde!
Houve alguém que chegou ao meu blog com a pesquisa "questionario como saber se gosto de um rapaz" [sic].
Sendo eu uma pessoa com tendência para paixões assolapadas, há uma ou duas dicas que posso dar, sem que alguma delas tenha algum valor científico ou tenha realmente sido comprovada. A mim acontece-me que passo o tempo todo a pensar nele: a minha chefe pode estar a pedir-me um relatório complicadíssimo ou um professor pode estar a marcar o exame final mas a única coisa que a minha cabeça regista é o nome dele e o quão incrível ele me parece. Tenho vontade de pegar no telefone a toda a hora só para lhe dizer como ele é giro e como ele cheira bem e como gostava que ele estivesse perto de mim. Depois, desmancho-me com qualquer canção de amor, mesmo aquelas de que me rio num estado normal, isto é, de não-apaixonada. E de repente, a canção que antes era pirosa passa a ser querida e, incrivelmente, eu consigo arranjar uma justificação para agora gostar dela. Quando se gosta de um rapaz, tem-se o poder de acreditar sempre nele, mesmo que ele nos esteja a contar uma mentira que vai muito para além de piedosa.
Não costumo ouvir sininhos nem ver estrelinhas. Mas garanto que fico tão nervosa que me sinto zonza e as borboletas na barriga passam a uma vontade indescritível de tomar um calmante e acho que vou morrer de taquicardia a qualquer instante. Isto longe dele, claro, porque se estiver perto sinto que vou literalmente desfalecer. Eu já me sei controlar, felizmente. É o que acontece quando gostamos tanto de um rapaz que não precisamos de nenhum questionário nem nenhuma ajuda - sabe-se e pronto. Pode ir fazendo cruzes até lá, caro/a leitor/a anónimo/a. Garanto-lhe que quando chegar a altura vai saber. Desconfie especialmente quando não se lembrar de alguma vez ter sido tão feliz.
Sendo eu uma pessoa com tendência para paixões assolapadas, há uma ou duas dicas que posso dar, sem que alguma delas tenha algum valor científico ou tenha realmente sido comprovada. A mim acontece-me que passo o tempo todo a pensar nele: a minha chefe pode estar a pedir-me um relatório complicadíssimo ou um professor pode estar a marcar o exame final mas a única coisa que a minha cabeça regista é o nome dele e o quão incrível ele me parece. Tenho vontade de pegar no telefone a toda a hora só para lhe dizer como ele é giro e como ele cheira bem e como gostava que ele estivesse perto de mim. Depois, desmancho-me com qualquer canção de amor, mesmo aquelas de que me rio num estado normal, isto é, de não-apaixonada. E de repente, a canção que antes era pirosa passa a ser querida e, incrivelmente, eu consigo arranjar uma justificação para agora gostar dela. Quando se gosta de um rapaz, tem-se o poder de acreditar sempre nele, mesmo que ele nos esteja a contar uma mentira que vai muito para além de piedosa.
Não costumo ouvir sininhos nem ver estrelinhas. Mas garanto que fico tão nervosa que me sinto zonza e as borboletas na barriga passam a uma vontade indescritível de tomar um calmante e acho que vou morrer de taquicardia a qualquer instante. Isto longe dele, claro, porque se estiver perto sinto que vou literalmente desfalecer. Eu já me sei controlar, felizmente. É o que acontece quando gostamos tanto de um rapaz que não precisamos de nenhum questionário nem nenhuma ajuda - sabe-se e pronto. Pode ir fazendo cruzes até lá, caro/a leitor/a anónimo/a. Garanto-lhe que quando chegar a altura vai saber. Desconfie especialmente quando não se lembrar de alguma vez ter sido tão feliz.
novembro 24, 2009
Rock on (se ainda conseguires manter os olhos abertos)
Isto anda de tal maneira que até as nossas capacidades anímicas andam trocadas. Eu não me poupo na noite errada, ele sente-se com energia e eu, sem lhe perceber uma subtil nota de entusiasmo na voz, prefiro recolher-me. É só mais um exemplo, eu sei, de como coadunar duas vontades, duas gargantas, quatro pés dançantes e duas vozes que se espalham pelas salas é muitas vezes um esforço ingrato e algumas vezes insuficiente. E é também uma das razões pelas quais as relações hoje em dia não funcionam: as pessoas não querem perder tempo a conhecer o outro mas não querem, acima de tudo, ter que fazer concessões, ceder naquilo que são os seus pequenos caprichos, abraçar as diferenças do outro. E eu, não me querendo armar em doutora nem em terapeuta de casais ou numa pessoa muito experiente, só acho que essa malta está a perder todo um mundo que se abre quando nos damos tempo e quando experimentamos fazer diferente. E quando nos damos a possibilidade de errar. E para a próxima, as duas da manhã serão só o começo porque a noite (como o meu amor) é apenas uma criança.
* os The Kendolls e as Baby Shakes tocaram aqui em mais uma bela noite de rock'n'roll.
* os The Kendolls e as Baby Shakes tocaram aqui em mais uma bela noite de rock'n'roll.
novembro 21, 2009
Guilty pleasure #1
You lying beside me, me full of love and filled with hope
(vivo cheia dos mais variados poemas de amor, incapaz de resistir a um one hit wonder holandês, casais perfeitos em dias perfeitos numa paisagem mediterrânica, cansada mas feliz por tudo e por nada)
novembro 19, 2009
[ela vive]
Quando cheguei a casa, a minha irmã tinha-me guardado duas fatias de pizza para o almoço de hoje. Há uns três dias que não vejo notícias, há uns quatro que não leio os meus blogs preferidos. Esta semana jantei a casa de amigos e às dez e tal da noite tinha quase mais sono que o bebé deles, que fez ontem dois meses . Ontem senti tanto stress que as minhas pernas pesavam-me uns quinhentos quilos antes de me deitar e nem a noite de sono fez desaparecer a sensação de peso. Ontem estive em duas apresentações: uma encheu-me de confiança, a outra da sensação que o meu dever ficou por cumprir. Tenho um site para montar até daqui a duas semanas e uma mini-tese para escrever até Janeiro. No trabalho, chegámos finalmente à fase em que não há gente suficiente para os malabarismos que o nosso cliente pretende e, simultaneamente, para poupar dinheiro. E muito menos para motivar pessoas a quem já foi anunciado o desemprego a partir de Maio. Vou ter que me voltar a habituar a dormir sozinha e a lembrar-me do que significa saudade. Nem sequer tenho tido tempo para escrever nos sítios onde é costume. E ler... Bem, chamo ler a passar os olhos por uma ou duas páginas do livro de cabeceira antes de cabeçear de sono. Nunca a expressão So much to do, so little time fez tanto sentido para mim.
As coisas acontecem todas a uma velocidade que não consigo controlar. É como aqueles sonhos que eu tinha antes de fazer o exame de condução, em que ia enfiada num carro, montanha abaixo, uma estrada de terra batida e nenhum pedal de travão que me valesse. Alguém me trave o Mundo, eu quero sair, já eles diziam.
novembro 16, 2009
Diário de uma jovem adulta com demasiadas coisas para fazer
A equipa a que pertenço é uma das finalistas deste concurso. Além de ser uma agradável surpresa (porque não me tinha inscrito com nenhuma expectativa), tornou-se num evento muito maior do que esperava e deixou-me a sonhar com a hipótese de arranjar um futuro melhor depois de Maio. Não seria abrindo um atelier de pastelaria, nem organizando eventos - isto é muito maior. A única desvantagem é ver-me ainda a braços com o trabalho e o mestrado e não estar a conseguir despachar tudo como gostava. Seja qual for o resultado deste concurso, a verdade é que consegui ter uma ideia bastante sucinta sobre as variáveis a ter em conta quando se pensa em montar um negócio de raíz, um mini-curso sobre iniciativa e marketing. Sweet!
Também fui conhecer um sítio novo, na melhor das companhias. Comeu-se por lá uma deliciosa tosta de salmão fumado com alcaparras, um sumo Royale de chorar por mais enquanto a chuva caía lá fora. É um sítio tão bonito, daqueles que desejava abrir um dia, um espaço onde a luz não incomoda e se pode ler tranquilamente o jornal, com um terraço a fazer lembrar outras capitais europeias. Depois, foi a vez de ver esta peça, que aconselho - mas nunca de estômago vazio! O teatro é lindíssimo, os actores muito divertidos, o texto cheio de metáforas actuais. E depois casa, que me esperava uma apresentação sobre as audiências dos novos media digitais. Novidades, só mesmo nos próximos dias. Façam figas por mim!
novembro 12, 2009
novembro 07, 2009
Passamos a primeira tarde dos meus trinta à procura da fotografia perfeita para o primeiro dia de Inverno (saltei deliberadamente o Outono porque este frio, este vento gelado chegou, ignorando a ordem natural das estações). Corremos atrás das abertas que fazem derramar incipientes raios de Sol sobre os campos desordenados, criando efeitos de luz que desejamos ver repetidos. O nevoeiro desce, sem medo, cobrindo os pontos mais altos, apagando serras inteiras do mapa mas às vinhas ainda conseguimos admirar as cores.novembro 06, 2009
A borboletear desde 1979
Faz hoje trinta anos que a Casa de Saúde me viu nascer. Fui uma filha muito desejada mas aposto que os meus pais tiveram second thoughts quando perceberam que era uma chorona. Ainda sou uma chorona, na verdade. Choro por tudo e por nada, enervo-me a sério, comovo-me demasiado. Portanto, comprometi muitas horas de sono aos meus pais e esfrangalhei-lhes os nervos de vez em quando.Faz hoje trinta anos (e só eu sei como ainda me arrepia dizer isto assim, admitir que este é um estado irreversível, imaginar-me a responder a questionários e já não caber naquela categoria dos dezoito aos vinte e tal) que nasci e agora começam a contar-se as coisas em décadas, tantos anos a passarem que é impossível lembrar tudo o que é importante. Ainda tive uma esperança que este Verão continuasse colado ao Outono e pudesse usar manga curta pela primeira vez em trinta anos mas não, aqui em casa é definitivamente Outono e o nevoeiro chega até ao chão.
A minha madrinha sempre me disse que a vida começa aos trinta. Uma assistente minha dizia-me que é a década da redução de velocidade e da responsabilidade. E recebi agora uma bela SMS que dizia que trinta é uma bonita idade para se ser feliz. E tirando aquelas partidas que a saúde dos outros nos prega (e contra as quais eu aprendi que não se deve lutar), eu sou mesmo feliz: estou mais ocupada que nunca, a investir em mim e a tentar mudar a minha vida, ao lado da minha pessoa preferida, fazendo apenas aquilo que me apetece, quando me apetece. Não sei se é isto que os trinta trazem. Mas eu aceito a sua chegada, dividida entre recusar ser trintona e abraçar a nova década.
novembro 05, 2009
Relembrando os anos 90 mesmo à porta dos 30 (e pizzas e um pouco de lamúria!)
Tive direito a médico ao domicílio, jantar numa pizzaria gourmet e ele levou-me por umas horas de volta à altura em que os meus pais me abandonavam em Lisboa pelas primeiras vezes - fui ver os Skunk Anansie, pois. Estou a viver as últimas horas antes dos meus trinta anos, aquela década em que supostamente todos começamos a viver mesmo. Já me apeteceu mais, já me foi indiferente, já quis que chegasse a hora. Agora, estou a hesitar perante a ideia de ser trintona mas eles não param e não há que possa fazer para os impedir de chegar. Daqui a sete horas, dobro mais uma década. Medo.
novembro 01, 2009
Dia de Santos
A minha mãe gosta de misturar o moderno com o tradicional, por isso aos rebuçados e ovos de chocolate que compra juntas as broas de mel e de milho e os rebuçados de ovos que a minha avó faz. Em vez de cem, oferece duzentos e quatrocentos paus aos miúdos que nos têm batido à porta. Já não sei se eles trazem a bolsa do pão para levarem tudo para casa mas consigo ouvi-los, quase a guinchar de alegria quando se lhes abre a porta e eles dizem "É os Santinhos!". Carga religiosa à parte, é uma versão muito mais querida do que o Trick or treat. Aí chegam os próximos!
outubro 28, 2009
Sinais do tempo
Um amigo dos meus pais decidiu oferecer-me (pelos trinta que aí vêm) um daqueles seguros do banco que me ajuda nas despesas, caso perca o emprego. A oferta chegou bastante antes do tempo, o que o levou a explicar-se.
Não sei se hei-de ficar contente porque em Maio virá a ser necessário, se hei-de vibrar com a originalidade do presente ou se hei-de ficar absurdamente deprimida com a ideia de receber uma espécie de subsídio de desemprego pelos anos.
Não sei se hei-de ficar contente porque em Maio virá a ser necessário, se hei-de vibrar com a originalidade do presente ou se hei-de ficar absurdamente deprimida com a ideia de receber uma espécie de subsídio de desemprego pelos anos.
outubro 27, 2009
So you can feel the way I feel it too.
Eu é que sei o que me tinha acontecido se tivesse ouvido esta música há um ano atrás. Era coisa para me acabar de vez com a auto-estima e lembrar-me de como dói estar assim um bocado perdida. Depois, ia ouvir a música até rebentar com o sistema de som, ia engasgar-me com os soluços e ter muita pena de mim, ia repetir as histórias até conseguir perceber o que tinha feito de errado. Ia auto-flagelar-me por gostar sempre de anormais, sem perceber que era eu que estava errada all along. Pensaria que, por escolher mal, talvez não tivesse mesmo o direito de ser feliz.
Mas depois chegou Abril.
Mas depois chegou Abril.
outubro 26, 2009
Correr na Estrela #5
Estar três semanas sem calçar os ténis implica, obviamente, pagar um preço muito alto. E agora, com a mudança da hora, a coisa tornou-se literalmente mais preta. Parte de mim, diz-me que não é seguro correr num jardim tão fracamente iluminado. Mas a outra parte lembra-se de alguém que dizia 'bora chegar aos trinta na melhor forma dos últimos tempos e então faço um esforço adicional. Afinal, eles chegam para a semana.
outubro 25, 2009
outubro 22, 2009
Há vida para além do trabalho (e da escola) (e da casa por limpar)
Portanto, agora há mais do que cinco minutos em que consigo respirar. E eu aproveito-os para fazer o quê? Escrever, pois claro.
Tem sido mais do que difícil conjugar o trabalho com a escola. O nível de exigência agora aumentou e mesmo assim a sorte é que, sabendo que o último dia deste emprego está marcado para Maio, a minha ansiedade desceu bastante. O meu empenho não diminuiu, nem perdi a ética profissional e certamente não me espanto como acontecia antes. A empresa continua a achar que vale a pena investir em mim e hoje, numa segunda sessão de coaching com um inglês algo excêntrico que faz vida em Gibraltar, quase dei por mim deitada num divã, fazendo terapia. Disse-me que há cinco coisas que aprendemos - implicitamente- durante a nossa infância: be perfect, be strong, hurry up!, try harder e please me! Mais ou menos todos seguimos estas instruções na nossa vida: não é suposto fraquejar em público, temos sempre pressa para fazer alguma coisa, queremos sempre agradar a alguém mas o meu problema, diagnosticou-me ele, é o da perfeição e o da mania que consigo controlar todas as variáveis que podem influenciar qualquer situação. E não posso, é evidente.
É suposto eu usar estas sessões de coaching (ou treino, se preferirem) para melhorar a minha vida e diminuir os meus níveis de ansiedade, para me conhecer melhor e fazer um mais eficiente uso das minhas potencialidades. Hoje, ele passou-me um exercício muito bom para os momentos antes de uma entrevista, por exemplo. A única falha nisto é que eu, habituada a viver de coração ao pé da boca, raramente terei tempo para pensar, racionalizar e aplicar isto. E, sinceramente, não me quereria controlar totalmente porque acho alguma piada à espontaneidade e a algumas reacções que são como erupções. Portanto, e como dizem os outros I wish I was a better version of myself e enfim, não será apenas assim, mas eu chego lá.
Tem sido mais do que difícil conjugar o trabalho com a escola. O nível de exigência agora aumentou e mesmo assim a sorte é que, sabendo que o último dia deste emprego está marcado para Maio, a minha ansiedade desceu bastante. O meu empenho não diminuiu, nem perdi a ética profissional e certamente não me espanto como acontecia antes. A empresa continua a achar que vale a pena investir em mim e hoje, numa segunda sessão de coaching com um inglês algo excêntrico que faz vida em Gibraltar, quase dei por mim deitada num divã, fazendo terapia. Disse-me que há cinco coisas que aprendemos - implicitamente- durante a nossa infância: be perfect, be strong, hurry up!, try harder e please me! Mais ou menos todos seguimos estas instruções na nossa vida: não é suposto fraquejar em público, temos sempre pressa para fazer alguma coisa, queremos sempre agradar a alguém mas o meu problema, diagnosticou-me ele, é o da perfeição e o da mania que consigo controlar todas as variáveis que podem influenciar qualquer situação. E não posso, é evidente.
É suposto eu usar estas sessões de coaching (ou treino, se preferirem) para melhorar a minha vida e diminuir os meus níveis de ansiedade, para me conhecer melhor e fazer um mais eficiente uso das minhas potencialidades. Hoje, ele passou-me um exercício muito bom para os momentos antes de uma entrevista, por exemplo. A única falha nisto é que eu, habituada a viver de coração ao pé da boca, raramente terei tempo para pensar, racionalizar e aplicar isto. E, sinceramente, não me quereria controlar totalmente porque acho alguma piada à espontaneidade e a algumas reacções que são como erupções. Portanto, e como dizem os outros I wish I was a better version of myself e enfim, não será apenas assim, mas eu chego lá.
outubro 18, 2009
Ponto Final.Parágrafo
Ontem tive a felicidade de poder estar presente na inauguração de um projecto que sobreviveu aos sucessivos obstáculos, à lentidão das apreciações, à recomendações que pretendem estimular a iniciativa e aos mesmo tempo a tolhem. Chama-se Livraria Cafetaria Ponto Final.Parágrafo e fica no centro de Portalegre. Para falar sobre isto, sou suspeita por várias razões: primeiro, porque acredito que não é proibido tentar realizar sonhos; segundo, porque sinto falta destes espaços na minha cidade berço; e finalmente, porque conheço o dono desde que nasceu.
Servem-se no espaço refeições ligeiras, bebe-se cerveja e chá, há sofás que convidam a ler um jornal tranquilamente, vendem-se livros para miúdos e graúdos. Se passarem por Portalegre ou se viverem por lá, procurem-nos e digam que vão daqui. Sorte e saúde para gozar o seu sonho, é o que lhe desejamos todos.
outubro 16, 2009
Zum Geburtstag viel Glück!
Ela hoje faz vinte e oito anos. Dei-lhe os parabéns em primeiríssima mão, como é hábito e dei-lhe beijinhos também. Quando penso sobre os aniversários dela, é estranho para mim pensar que ela continua a crescer, sem parar mas sem também perder a graça dos anos mais jovens. Ela vai ter sempre uns cinco anos, as bochechas mais gordas de que me lembro e vai brincar tardes inteiras na varanda da minha avó com uma velha esfregona. Não vamos jantar juntas, desta vez. Mas para o ano exijo-lhe que me leve a um sítio da moda. Gostar dos filhos deve ser parecido com isto.
A vida depois do regresso à escola
Esta semana foi como se o Mundo não existisse. Já sou uma pessoa ansiosa por natureza e o regresso ao trabalho depois das férias já era motivo suficiente para me impedir de dormir. Mas juntou-se a isso o regresso à vida de estudante, desta vez numa modalidade bem diferente que também me fez perder o sono. É que assistir a seis horas de aulas seguidas depois de já ter trabalhado oito horas é dose e, sinceramente, achei durante muito tempo que não ia aguentar. Mas aguentei, a custo mas aguentei.
Este regresso também me fez lembrar porque não gosto de trabalhos de grupo. Não voltei a estudar para provar nada a ninguém e muito menos que o meu conhecimento é maior do que o dos outros mas, se me pedem ajuda para resolver alguma coisa, é óbvio que ofereço aquilo que sei. Por isso, não tolero as pessoas que se sentem ofendidas ou atacadas quando alguém sabe mais sobre alguma coisa. Não gosto e não é do meu feitio esfregar as coisas que sei na cara de ninguém - só me meto quando mo pedem expressamente. E por isso não suporto estas pessoas mesquinhas, que acham que tudo é planeado para as deixar ficar mal. Os grupos foram feitos a custo, porque obviamente as pessoas não se conhecem e eu saí mesmo da minha zona de conforto (esperar que alguém me convidasse) e atrevi-me a oferecer-me para fechar um grupo. Mas isso não me prenuncia nada de bom e estou preparada para me isolar, caso venha a ser necessário.
Portanto, os horários são penosos e o facto de depois das nove da noite não se conseguir comprar uma garrafa de água naquela faculdade também não ajuda. Se juntarmos a isso salas minúsculas para toda a gente inscrita (com o que isso implica em calor), falta de computadores em aulas em que os mesmo são obrigatórios e o estigma de não ter cursado Comunicação Social, chega-se à pergunta: porquê, então, o entusiasmo? E eu respondo: porque é maravilhoso perceber que posso aprender mais, que quero perder-me em bibliografias, que o meu cérebro não está a definhar. É outra maneira de me sentir viva. E das polémicas brasileiras me passarem ao lado.
Este regresso também me fez lembrar porque não gosto de trabalhos de grupo. Não voltei a estudar para provar nada a ninguém e muito menos que o meu conhecimento é maior do que o dos outros mas, se me pedem ajuda para resolver alguma coisa, é óbvio que ofereço aquilo que sei. Por isso, não tolero as pessoas que se sentem ofendidas ou atacadas quando alguém sabe mais sobre alguma coisa. Não gosto e não é do meu feitio esfregar as coisas que sei na cara de ninguém - só me meto quando mo pedem expressamente. E por isso não suporto estas pessoas mesquinhas, que acham que tudo é planeado para as deixar ficar mal. Os grupos foram feitos a custo, porque obviamente as pessoas não se conhecem e eu saí mesmo da minha zona de conforto (esperar que alguém me convidasse) e atrevi-me a oferecer-me para fechar um grupo. Mas isso não me prenuncia nada de bom e estou preparada para me isolar, caso venha a ser necessário.
Portanto, os horários são penosos e o facto de depois das nove da noite não se conseguir comprar uma garrafa de água naquela faculdade também não ajuda. Se juntarmos a isso salas minúsculas para toda a gente inscrita (com o que isso implica em calor), falta de computadores em aulas em que os mesmo são obrigatórios e o estigma de não ter cursado Comunicação Social, chega-se à pergunta: porquê, então, o entusiasmo? E eu respondo: porque é maravilhoso perceber que posso aprender mais, que quero perder-me em bibliografias, que o meu cérebro não está a definhar. É outra maneira de me sentir viva. E das polémicas brasileiras me passarem ao lado.
outubro 12, 2009
Fim de férias = recomeço do Verão?
Mas agora compreendo também o fascínio que as pessoas sentem pela vila e pelos parques, pela floresta quase em estado virgem, pela nobreza da arquitectura, pela tradição do comércio. Preferia voltar lá num dia menos quente, para poder passear sem me saírem os bofes pela boca e sem suar horrores. Mas era o último dia de férias e a companhia era aquela (também conhecida como ideal) e o silêncio que se sentia entre aquelas azinhagas frondosas fez-me esquecer que amanhã volto à vida real, ao trabalho e às primeiras aulas do resto da minha vida. Sobra-me ainda um último dia destes...
outubro 08, 2009
Sem papel de embrulho
(Parabéns, meu capitão.)
outubro 07, 2009
Boletim intercalar
outubro 05, 2009
Elas aí estão: as férias!
Tenho feito o caminho entre Portalegre e a Beirã demasiadas vezes para o meu gosto. A estrada é graciosamente acompanhada por árvores em toda a sua extensão, especialmente castanheiros, em cujos ouriços começam agora a despontar as primeiras castanhas. A palete de cores estende-se agora entre os azuis (agora tímidos) do céu alentejano e o acobreado das copas que se vergam suavemente com o vento ainda morno. Chegar à Beirã é um pouco como chegar ao fim da estrada e dar de caras com uma intransponível barreira de silêncio. À porta, enquanto esperamos para vê-lo, tento imaginar a estação de caminhos de ferro que fica em frente no auge doutros tempos. Já não sei se ele me reconhece. Para todos os efeitos, não sei se ele reconhece alguém. Mas nós fazemos a única coisa que podemos e que é dar-lhe o carinho que talvez tenhamos guardado demasiado tempo. Tenho saudades de jogar à sardinha com ele. Tenho saudades de o ver a dançar nos casamentos.
E agora vamos de viagem. Vamos para longe do desemprego, das doenças e internamentos, das crises, da mensagens da Presidência da República e da patetice dos candidatos às autárquicas, dos frascos de desinfectantes. Voltarei recuperada, talvez, com as maratonas de não fazer rigorosamente nada.
outubro 02, 2009
Feel good movie
Suponhamos que não estão nos vosso melhores dias, que sentem que fazem parte daquele tipo de anedotas em que tudo (trabalho, carro, mulher, saúde) corre mal a um tipo. Imaginemos que, como eu, passam uns dias a sentirem-se miseráveis e, em vez de conseguirem manter-se à tona dessa imensa maré negra, só conseguem afundar-se cada vez mais. Se precisam de ânimo, este filme é para vocês. É um filme sobre música, uma incrível quantidade de sorte, libertação - um coming of age tardio regado com pacotes de melhor leite com chocolate, com os mais verdes prados como cenário e a precisar de ser abalado pelo ácido do amor. Eu era essa pessoa desorientada à entrada mas foi uma versão muito mais tranquila e inspirada que saiu daquele cinema. Umas poucas de estrelas, se pontuasse como os críticos.
outubro 01, 2009
Correr na Estrela #4
Mais uma acha para a fogueira descontrolada que às vezes é a minha crença e esperança na espécie humana: hoje, enquanto corríamos na melhor e mais fácil recta do jardim, um jovem homem encostava o rabo às grades e quase ao chão e defecava em pleno jardim. Com a maior das paciências, a sua acompanhante passeava-se em frente aos bancos do jardim. É a isto que chamam uma pessoa.
setembro 29, 2009
Alguém que me dê uma dose cavalar de tranquilizantes, se faz favor.
Não tenho dormido nada de jeito, ando a sufocar com excesso de emoções e a pensar que preciso mesmo de ajuda. Respostas às minhas últimas candidaturas: zero, nem sequer um não para fazer a contagem. Acabei de arrumar o material com que vou iniciar o novo ano escolar e acho que voltar a estudar me põe para lá de aterrorizada. Tem sido difícil concentrar-me no que realmente importa. Faltam três dias para as férias e eu sonho todos os dias com o silêncio cúmplice que aí vem.
setembro 27, 2009
Então e votou bem?
Gosto que me perguntem isto, como se houvesse apenas uma maneira certa de votar e todos soubéssemos exactamente o que quer dizer votar bem. Em todo o caso, o dever cívico está já cumprido.
Pela primeira vez, votei em Lisboa e fi-lo com um certo sentimento de nostalgia porque não iria encontrar na mesa de voto nenhuma cara conhecida. A partir de hoje, sou uma eleitora mais anónima, votando na minha freguesia de residência mas, de certa forma, longe de casa. É como se agora estivesse mais desamparada e esse sentimento apenas cresceu quando disseram o meu nome em voz alta na sétima secção de voto, depois de passar pelos meninos escuteiros que tentavam vender canetas à porta. E posso assegurar que, depois aí de Braga ou Bragança, devo ter votado na freguesia mais social democrata de que há memória: o desfile de carros de alta gama à porta, as senhoras que passeavam o seu cabelo bastante armado com laca, os maridos com o elegante lencinho na lapela do casaco, os miúdos com o cabelo sempre a tapar-lhes os olhos, as moças que têm ainda o mesmo bronzeado que no pico do Verão. as urnas tão perto da rua de Buenos Aires. E então eu, no meio daquela gente toda, senti-me deslocada porque não são aquelas as minhas raízes, não é dali que eu venho e tive saudades de sentir que a maior parte das pessoas que votavam ao mesmo tempo que eu são de esquerda.
Confesso que, como tantas outras pessoas, não gosto nem percebo a política. Tenho muitas vezes a tendência a pensar que não existem nenhumas diferenças entre os que estão no poder e os que se seguirão e acho que quem ingressa na política ao mais alto nível acaba sempre corrompido. Mas nestes dias de eleições sinto-me quase comovida por fazer parte de algo muito maior do que apenas um partido político: sempre que votei senti-me com o poder de mudar o futuro, mesmo correndo o risco de escolher mal. E hoje, impressionada com a afluência a algumas mesas de voto, fico contente por ver que ainda há quem se importe.
Pela primeira vez, votei em Lisboa e fi-lo com um certo sentimento de nostalgia porque não iria encontrar na mesa de voto nenhuma cara conhecida. A partir de hoje, sou uma eleitora mais anónima, votando na minha freguesia de residência mas, de certa forma, longe de casa. É como se agora estivesse mais desamparada e esse sentimento apenas cresceu quando disseram o meu nome em voz alta na sétima secção de voto, depois de passar pelos meninos escuteiros que tentavam vender canetas à porta. E posso assegurar que, depois aí de Braga ou Bragança, devo ter votado na freguesia mais social democrata de que há memória: o desfile de carros de alta gama à porta, as senhoras que passeavam o seu cabelo bastante armado com laca, os maridos com o elegante lencinho na lapela do casaco, os miúdos com o cabelo sempre a tapar-lhes os olhos, as moças que têm ainda o mesmo bronzeado que no pico do Verão. as urnas tão perto da rua de Buenos Aires. E então eu, no meio daquela gente toda, senti-me deslocada porque não são aquelas as minhas raízes, não é dali que eu venho e tive saudades de sentir que a maior parte das pessoas que votavam ao mesmo tempo que eu são de esquerda.
Confesso que, como tantas outras pessoas, não gosto nem percebo a política. Tenho muitas vezes a tendência a pensar que não existem nenhumas diferenças entre os que estão no poder e os que se seguirão e acho que quem ingressa na política ao mais alto nível acaba sempre corrompido. Mas nestes dias de eleições sinto-me quase comovida por fazer parte de algo muito maior do que apenas um partido político: sempre que votei senti-me com o poder de mudar o futuro, mesmo correndo o risco de escolher mal. E hoje, impressionada com a afluência a algumas mesas de voto, fico contente por ver que ainda há quem se importe.
setembro 23, 2009
As coisas boas (também) nunca vêm só
Vou lembrar o ano de 2009 como o melhor e o pior da última década, posso já afirmá-lo. Nunca estive tão em baixo, tão desamparada e perdida como neste ano. Mas, simultaneamente, nunca me senti tão empenhada, desejada, empolgada por estar a fazer coisas. Basta pensar que há seis meses atrás, a minha vida era um pouco vazia e estava completamente estagnada e tudo o que aconteceu a partir daí teve exactamente os mesmos efeitos de um tornado.
Entre mortes, doenças mais ou menos graves, internamentos e estados de saúde desconhecidos, aconteceu-me um pouco de tudo. Descobri que vou perder o emprego, que não gosto de parte daquilo que faço, que sou comunista de coração, que nunca mas nunca devo misturar amizade com trabalho, que o mundo é um imenso mar de classificados de emprego. Aprendi a relativizar, a respirar fundo, a dosear as quantidades de stress e indignação e aprendi também que, apesar de tudo, ainda me consigo enervar com facilidade. Fui convidada para projectos empolgantes, que abracei sem sequer hesitar, ultrapassei os meus próprios limites, criei os meus próprios espaços. E encontrei a mais preciosa e rara dádiva da minha vida, capaz de me elevar e surpreender sempre cada vez mais.
Devia estar a escrever este post em Dezembro, quando o ano estivesse prestes a acabar. Mas agora tenho tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo, que dei por mim perdida neste balanço. O que eu aprendi verdadeiramente é que vai ficar tudo bem, a vida vai continuar, a sorte vai virar. E então hoje soube que fui aceite naquilo que quero, ele está a fazer progressos muito pequeninos, a minha vida está (lentamente) a chegar exactamente onde sonhei. E, mesmo que amanhã esta esperança toda venha por aí abaixo, eu hei-de voltar a este post e reler tudo o que escrevi para me lembrar que sim, a gente vai continuar.
Entre mortes, doenças mais ou menos graves, internamentos e estados de saúde desconhecidos, aconteceu-me um pouco de tudo. Descobri que vou perder o emprego, que não gosto de parte daquilo que faço, que sou comunista de coração, que nunca mas nunca devo misturar amizade com trabalho, que o mundo é um imenso mar de classificados de emprego. Aprendi a relativizar, a respirar fundo, a dosear as quantidades de stress e indignação e aprendi também que, apesar de tudo, ainda me consigo enervar com facilidade. Fui convidada para projectos empolgantes, que abracei sem sequer hesitar, ultrapassei os meus próprios limites, criei os meus próprios espaços. E encontrei a mais preciosa e rara dádiva da minha vida, capaz de me elevar e surpreender sempre cada vez mais.
Devia estar a escrever este post em Dezembro, quando o ano estivesse prestes a acabar. Mas agora tenho tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo, que dei por mim perdida neste balanço. O que eu aprendi verdadeiramente é que vai ficar tudo bem, a vida vai continuar, a sorte vai virar. E então hoje soube que fui aceite naquilo que quero, ele está a fazer progressos muito pequeninos, a minha vida está (lentamente) a chegar exactamente onde sonhei. E, mesmo que amanhã esta esperança toda venha por aí abaixo, eu hei-de voltar a este post e reler tudo o que escrevi para me lembrar que sim, a gente vai continuar.
*
(Às vezes tenho medo. Medo não, às vezes entro em pânico quando penso que, como todas as outras pessoas, não conseguimos sempre aquilo que desejamos. É que também eu mudo como mudam os dias nas estações e, se se levanta uma brisa inesperada antes do anoitecer, também posso esperar acordar para uma manhã radiosa e fresca. Mas basta-me a tua mão, trazendo-me de volta à terra e lembrando-me que as estações ainda se sucedem harmoniosamente.)
* a luz nas manhãs da Estrela.
setembro 22, 2009
Correr na Estrela #3
Assim que cruzamos os portões do jardim, ouvimos a agitação ao longe. São maioritariamente vozes femininas que se perdem entre gritos e cantorias. Quando estamos prestes a começar a corrida, percebemos que tudo se resume a um grupo de veteranas e caloiras da escola da minha rua. Portanto, como se não bastasse a histeria inerente às praxes, tudo piora por serem apenas raparigas. À segunda volta ao jardim, o grupo já mudou de sítio e está agora perto de um repuxo, naquilo que penso ser o baptismo. É quase noite e as luzes do jardim ainda não se acenderam; as caloiras, lembro-me enquanto corremos, devem estar exaustas, depois de se espojarem no chão, gritarem algumas inanidades e serem humilhadas publicamente durante várias horas seguidas. Não sou a favor das praxes, acho que há outras formas de integrar as pessoas: correndo, por exemplo, ou simplesmente aproveitando a benévola sombra das árvores da Estrela. Para acalmarmos os pulmões dela, paramos aos vinte e oito minutos. Os candeeiros iluminam já o caminho e os sinos da Estrela marcam a oito horas da noite.
(Dos vinte, passamos hoje aos vinte e seis graus. É aquela altura do ano em que vamos ainda alternar entre o Verão que já terminou e o Outono que já apareceu por aqui. Já se corre ao anoitecer, da mesma maneira que quando acordo ainda é noite.)
(Dos vinte, passamos hoje aos vinte e seis graus. É aquela altura do ano em que vamos ainda alternar entre o Verão que já terminou e o Outono que já apareceu por aqui. Já se corre ao anoitecer, da mesma maneira que quando acordo ainda é noite.)
setembro 21, 2009
Prometo que é o último post sobre casamentos!
Desta vez, e para encerrar em beleza, fomos a um casamento muito do it yourself. A ideia era que cada convidado levasse algo consigo - comida ou bebida - para compor a mesa do copo de água, sendo que a cerimónia já tinha acontecido há um ano e os noivos não queriam ainda renovar os votos. Depois, assinalou-se o que cada um tinha levado numa espécie de piquenique em plena paisagem campestre e numa noite já de Outono. Outra das enormes vantagens foi o código de vestuário: casual mais casual não dava. Portanto, a ideia era reunir os convidados (em número diminuto, apenas o essencial) com comida caseira, sangria caseira, um cenário bucólico para partilhar a felicidade que já dura há uns bons anos.
Sinceramente, acho que é uma ideia a reter, mesmo para quem quer incluir a parte da cerimónia. O que se poupa em espaços, caterings e músicos contratados ganha-se em intimidade e proximidade com os convidados. Podemos escolher a nossa música, evitam-se os cardápios gastos e aborrecidos, os convidados podem participar mais dos festejos e prestar um muito esmerado serviço de bar. Compreendo perfeitamente quem deseja e sonha com outro tipo de dia para o seu próprio casamento mas já tenho visto tantas cerimónias alternativas e tantas soluções originais que me sinto cada vez mais longe das escolhas convencionais. Mas com ou sem arroz de marisco, com a presença do Mana ou de uma orquestra de cordas, aquilo que conta no final é com quem nos vamos deitar todos os dias a partir dali. E é inspirador ver que há tanta gente com certezas.
setembro 18, 2009
Cross-reference
Perto do canto inferior direito da fotografia, a mão dela, tremida, aberta, paira por cima da perna dele; a mão dele, semicerrada, está nem a um centímetro da dela. O que está nesta fotografia não é ela nem ele - é o plural.
(às vezes o mundo explode, o meu interior encolhe-se, fecha-se sobre si mesmo. às vezes sou toda agressão e as palavras falham-me. falha-me também a doçura no coração, escapam-se-me os vocábulos da ternura e é tudo amargo por dentro. tento imaginar até quando vou viver com o coração na boca, até quando serei onda de fúria irracional mas não consigo prever-lhe o fim. é uma experiência fora-de-corpo, a língua querendo furar a muralha de silêncio que também me imponho. mas, noutros dias, compreendo como tudo o que me foi dado é a maior das bençãos e que o que vejo de fora chama-se mesmo amor.)
(às vezes o mundo explode, o meu interior encolhe-se, fecha-se sobre si mesmo. às vezes sou toda agressão e as palavras falham-me. falha-me também a doçura no coração, escapam-se-me os vocábulos da ternura e é tudo amargo por dentro. tento imaginar até quando vou viver com o coração na boca, até quando serei onda de fúria irracional mas não consigo prever-lhe o fim. é uma experiência fora-de-corpo, a língua querendo furar a muralha de silêncio que também me imponho. mas, noutros dias, compreendo como tudo o que me foi dado é a maior das bençãos e que o que vejo de fora chama-se mesmo amor.)
setembro 17, 2009
Correr na Estrela #2
Ela voltou a vir comigo, depois de um intervalo de demasiados meses. Hoje não houve tempo para a bicicleta fixa mas em contrapartida os alongamentos foram bem melhores. O vento só não está demasiado frio porque estamos a fazer exercício - sente-se que o Outono está impaciente por chegar. Há dois rapazes brasileiros que não correm, apenas caminham pelo jardim, conversando calmamente. Um senhor com ancas de senhora ensaia os primeiros passos antes de atacar a corrida. Um ou dois casais de namorados resistem ainda à barreira das sete da tarde. As folhas prestes a sucumbirem à passagem das estações enchem o jardim de uma outonal melancolia.
setembro 16, 2009
All the people, so many people
A verdade é que, debaixo deste layout cor de rosa e destes sonhos todos, se esconde alguém que oscila cada vez mais nos sentimentos em relação às pessoas. Acho que nesta matéria chego a ser bipolar, tais são as variações entre os dois pólos das minhas relações com os outros.
Por um lado, ainda me consigo deslumbrar com a generosidade e princípios de algumas pessoas, com a genuína vontade de fazer bem sem esperar nada em troca. Mas por outro, e garanto que estes últimos dias não têm sido nada fáceis, há muito que sinto que a maioria das pessoas não merece a importância que me vejo obrigada a dar-lhes: as pessoas que não mexem uma palha para conseguirem o que lhes faz falta, as pessoas que cruzam os braços à menor dificuldade, as pessoas que desistem ao primeiro contratempo, as pessoas que arranjam subterfúgios e bodes expiatórios para fugirem às suas responsabilidades, as pessoas que nos descartam quando se fartam de nós ou quando já não lhes fazemos falta, as pessoas que usam outras e abusam da sua ingenuidade, as pessoas que nos tossem para cima no metro, as pessoas que não limpam os individuais depois do almoço.
Eu respiro fundo, juro que respiro, mas não tem sido fácil nestes últimos dias. Não é fácil impingir rectidão a quem não tem espinha e é impossível pedir a alguém que respeite os princípios em que não acredita. Felizmente, ainda não me conseguiram acabar com o optimismo e com a ideia de que há pessoas genuinamente boas, dificilmente corrompíveis, empenhadas em fazer deste um mundo melhor. Eu já VI estas pessoas. Falo com algumas todos os dias e sei que são muito mais do que apenas ingénuas. Mas estas pessoas são muitas vezes como as pedras naqueles jardins orientais: submersas, escondidas pelas águas paradas mas firmes na sua ligação ao outro lado. Eu batalho para estar também deste lado das trincheiras e tentar ser um exemplo de cidadania. Mesmo que me digam que o mundo é dos espertos.
Por um lado, ainda me consigo deslumbrar com a generosidade e princípios de algumas pessoas, com a genuína vontade de fazer bem sem esperar nada em troca. Mas por outro, e garanto que estes últimos dias não têm sido nada fáceis, há muito que sinto que a maioria das pessoas não merece a importância que me vejo obrigada a dar-lhes: as pessoas que não mexem uma palha para conseguirem o que lhes faz falta, as pessoas que cruzam os braços à menor dificuldade, as pessoas que desistem ao primeiro contratempo, as pessoas que arranjam subterfúgios e bodes expiatórios para fugirem às suas responsabilidades, as pessoas que nos descartam quando se fartam de nós ou quando já não lhes fazemos falta, as pessoas que usam outras e abusam da sua ingenuidade, as pessoas que nos tossem para cima no metro, as pessoas que não limpam os individuais depois do almoço.
Eu respiro fundo, juro que respiro, mas não tem sido fácil nestes últimos dias. Não é fácil impingir rectidão a quem não tem espinha e é impossível pedir a alguém que respeite os princípios em que não acredita. Felizmente, ainda não me conseguiram acabar com o optimismo e com a ideia de que há pessoas genuinamente boas, dificilmente corrompíveis, empenhadas em fazer deste um mundo melhor. Eu já VI estas pessoas. Falo com algumas todos os dias e sei que são muito mais do que apenas ingénuas. Mas estas pessoas são muitas vezes como as pedras naqueles jardins orientais: submersas, escondidas pelas águas paradas mas firmes na sua ligação ao outro lado. Eu batalho para estar também deste lado das trincheiras e tentar ser um exemplo de cidadania. Mesmo que me digam que o mundo é dos espertos.
setembro 15, 2009
Correr na Estrela #1
O meu pólo hoje parece especialmente imaculado. A terminar já quase depois de anoitecer, sinto que agora começou a nova época. Voltam as caras conhecidas, partem os corpos que apenas queriam estar em forma até ao Verão. A última criança no parque infantil quer sair do baloiço e chama insistentemente pela mãe, uma emigrante de Leste que fuma compulsivamente e bebe vinho de pacote num banco com uma amiga. Penso em todas as mulheres estéreis e em como a vida não devia ser uma dádiva tão aleatória. A dona do Igor, o labrador velhinho e atleta, também regressou. Respiro fundo e a tensão abrandou.
(Já faz um ano desde que comecei a correr no jardim da Estrela. Para começar, precisei da ajuda da minha irmã porque me sentia desadequada, ali meio desamparada. Depois, consegui passar a correr sozinha: chegava a casa, enfiava o equipamento, punha o cronómetro a postos e atirava-me à corrida. Hoje, depois de falhar algumas oportunidades devido ao cansaço e às férias, sei que adquiri um hábito. Ainda travo algumas batalhas interiores nos piores dias, tentando manter o mínimo dos trinta e três minutos por sessão, lutando contra a minha vontade de parar a todo o momento. Mas o que eu sei é que consegui sempre superar-me a mim própria. E isso justifica todo o suor do Mundo).
(Já faz um ano desde que comecei a correr no jardim da Estrela. Para começar, precisei da ajuda da minha irmã porque me sentia desadequada, ali meio desamparada. Depois, consegui passar a correr sozinha: chegava a casa, enfiava o equipamento, punha o cronómetro a postos e atirava-me à corrida. Hoje, depois de falhar algumas oportunidades devido ao cansaço e às férias, sei que adquiri um hábito. Ainda travo algumas batalhas interiores nos piores dias, tentando manter o mínimo dos trinta e três minutos por sessão, lutando contra a minha vontade de parar a todo o momento. Mas o que eu sei é que consegui sempre superar-me a mim própria. E isso justifica todo o suor do Mundo).
setembro 14, 2009
Viagem à cidade dos casamentos
Eu gosto muito de viajar mas lembrei-me nestes dias porque é que o avião se tornou num meio de transporte tão em voga. Passar dez horas (!) do meu dia dentro de um carro entre dois países que até me são queridos não é exactamente o tipo de viagem do qual gostaria de me recordar. Se a estas horas juntarmos a aridez de uma paisagem pouco atractiva (numa das raras excepções, hei-de voltar brevemente ao Monasterio de Piedra), os controlos sucessivos dos radares e a falta de música que nos apeteça ouvir, então a viagem torna-se ainda mais penosa.
Mas, mesmo tendo começado este relato com a única coisa realmente negativa ou pouco satisfatória destes dias, não posso dizer que não tenha adorado toda a sequência de eventos que se foram transformando em memórias muito rapidamente, tão rápido como as horas que voaram entre quinta-feira à tarde e domingo à noite. A logística de viajar com mais cinco pessoas revelou-se fácil de dominar em algumas alturas e menos boa de aturar noutras. Foi impressionante a velocidade com que se montou e desmontou um quarto em Madrid e agradável a articulação que permitiu que as refeições não se tornassem em momentos de ansiosa espera. Mas os banhos e as toilletes e as vontades de uns e de outros foram o mais difícil de conjugar.
O casamento foi bonito. Eu mal contive a emoção de ver a noiva entrar pelo braço do pai e de me aperceber dos nervos do noivo já no altar. É-me difícil explicar o que sinto quando vejo duas pessoas que realmente gostam uma da outra, mesmo com todas as teimosias e desentendimentos naturais a duas diferentes personalidades. Por isso, a emoção foi redobrada porque, além de enamorados, os noivos são bons amigos e merecem toda a felicidade do Mundo. Pela primeira vez, cheguei a um casamento pelo meu próprio pé, desfilando o meu modelito (ainda esperando fotografias à altura) pelas ruas abafadas e apinhadas de Zaragoza e à mercê das sandálias herdadas da minha mãe. Levados ao restaurante por um pequeno comboio, houve tempo para belíssimos copos de vinho branco, pão coberto com tomate e presunto, relva fresca e uma temperatura amena. Depois do jantar, foi dançar tanto quanto as sandálias permitiam, aproveitar a barra livre para pouco esmerados gins tónicos, recordar esta coreografia.
Zaragoza é uma cidade muito bonita mas eu sou suspeita porque também sou apaixonada pelas cidades espanholas. Fiquei impressionada com o cuidado com que estão tratados os marcos arquitectónicos da cidade (alguns pareciam acabados de construir!), com a imponente Plaza del Pilar e pelas várias pontes sobre o Ebro. É uma cidade muito viva, pulsante, com sessões de tango em pequenas praças e uma zona em requalificação depois da Expo do ano passado. E - confirma-o quem esteve lá comigo - é a cidade das noivas e dos casamentos. Havia noivas por todo o lado: cafés, encostadas a montras, a chegar à recepção dos hotéis, sobre as pontes e nos ancoradouros do Ebro. Com elas, os noivos, passeando a pé pela cidade e acompanhados pelos fotógrafos de serviço. É como se a vontade de casar ali fosse contagiosa. Voltei solteira, caso queiram saber.
Mas, mesmo tendo começado este relato com a única coisa realmente negativa ou pouco satisfatória destes dias, não posso dizer que não tenha adorado toda a sequência de eventos que se foram transformando em memórias muito rapidamente, tão rápido como as horas que voaram entre quinta-feira à tarde e domingo à noite. A logística de viajar com mais cinco pessoas revelou-se fácil de dominar em algumas alturas e menos boa de aturar noutras. Foi impressionante a velocidade com que se montou e desmontou um quarto em Madrid e agradável a articulação que permitiu que as refeições não se tornassem em momentos de ansiosa espera. Mas os banhos e as toilletes e as vontades de uns e de outros foram o mais difícil de conjugar.
O casamento foi bonito. Eu mal contive a emoção de ver a noiva entrar pelo braço do pai e de me aperceber dos nervos do noivo já no altar. É-me difícil explicar o que sinto quando vejo duas pessoas que realmente gostam uma da outra, mesmo com todas as teimosias e desentendimentos naturais a duas diferentes personalidades. Por isso, a emoção foi redobrada porque, além de enamorados, os noivos são bons amigos e merecem toda a felicidade do Mundo. Pela primeira vez, cheguei a um casamento pelo meu próprio pé, desfilando o meu modelito (ainda esperando fotografias à altura) pelas ruas abafadas e apinhadas de Zaragoza e à mercê das sandálias herdadas da minha mãe. Levados ao restaurante por um pequeno comboio, houve tempo para belíssimos copos de vinho branco, pão coberto com tomate e presunto, relva fresca e uma temperatura amena. Depois do jantar, foi dançar tanto quanto as sandálias permitiam, aproveitar a barra livre para pouco esmerados gins tónicos, recordar esta coreografia.
Zaragoza é uma cidade muito bonita mas eu sou suspeita porque também sou apaixonada pelas cidades espanholas. Fiquei impressionada com o cuidado com que estão tratados os marcos arquitectónicos da cidade (alguns pareciam acabados de construir!), com a imponente Plaza del Pilar e pelas várias pontes sobre o Ebro. É uma cidade muito viva, pulsante, com sessões de tango em pequenas praças e uma zona em requalificação depois da Expo do ano passado. E - confirma-o quem esteve lá comigo - é a cidade das noivas e dos casamentos. Havia noivas por todo o lado: cafés, encostadas a montras, a chegar à recepção dos hotéis, sobre as pontes e nos ancoradouros do Ebro. Com elas, os noivos, passeando a pé pela cidade e acompanhados pelos fotógrafos de serviço. É como se a vontade de casar ali fosse contagiosa. Voltei solteira, caso queiram saber.
setembro 10, 2009
Mini Vacaciones
Não tenho ainda a mala feita mas parto para Madrid dentro de algumas horas. E amanhã, por estas horas, estarei em Zaragoza para celebrar mais um casamento daqueles amigos de sempre. Posso desde já confirmar-vos que aquele ditado De Espanha nem bom vento, nem bom casamento é uma grandessíssima treta. E além de estar felicíssima pelos noivos, estou encantada por conhecer outra cidade espanhola e, quem sabe, ainda ir a tempo de beber um tinto de Verano.
Hoje relembrei como gosto da minha cidade durante as manhãs. Gosto de senti-la a acordar, ver como timidamente as pessoas se atrevem a enfrentar o calor que já faz às nove da manhã, tomar o pequeno-almoço numa esplanada pouco abrigada do Sol. É como se, estando longe, não pudesse imaginar como pulsam estas ruas, como se formam as filas a chegar ao Rossio, como se descobrem hábitos sem esforço. E depois entrar em casa das minhas avós (cada vez mais só mulheres, não quero lembrar-me mais disto) e ver como evitam o calor e lembrar também que o único barulho que vem da rua são as vozes das vizinhas que se demoram a conversar por ali. E também tive mais uma prova de que não devemos perder a fé na humanidade e humildade dos outros, na capacidade de aceitar uma vocação mas disto também não queria lembrar-me mais. Tudo depois de dar uns 400ml de sangue, depois de alguns anos de pausa e continuando com a tradição do meu avô. Talvez ele se sinta orgulhoso de mim noutro sítio qualquer.
E escrevo agora noutro sítio, mais precisamente aqui. É um trabalho feito a dois, em plena construção, recém-nascido de tantas tardes de Verão. Espalho a minha verborreia por todo o lado. Por falar nisso, vou agora tratar de a acomodar na mala. Madrid e a paella deste menino já me esperam. Hasta luego!
Hoje relembrei como gosto da minha cidade durante as manhãs. Gosto de senti-la a acordar, ver como timidamente as pessoas se atrevem a enfrentar o calor que já faz às nove da manhã, tomar o pequeno-almoço numa esplanada pouco abrigada do Sol. É como se, estando longe, não pudesse imaginar como pulsam estas ruas, como se formam as filas a chegar ao Rossio, como se descobrem hábitos sem esforço. E depois entrar em casa das minhas avós (cada vez mais só mulheres, não quero lembrar-me mais disto) e ver como evitam o calor e lembrar também que o único barulho que vem da rua são as vozes das vizinhas que se demoram a conversar por ali. E também tive mais uma prova de que não devemos perder a fé na humanidade e humildade dos outros, na capacidade de aceitar uma vocação mas disto também não queria lembrar-me mais. Tudo depois de dar uns 400ml de sangue, depois de alguns anos de pausa e continuando com a tradição do meu avô. Talvez ele se sinta orgulhoso de mim noutro sítio qualquer.
E escrevo agora noutro sítio, mais precisamente aqui. É um trabalho feito a dois, em plena construção, recém-nascido de tantas tardes de Verão. Espalho a minha verborreia por todo o lado. Por falar nisso, vou agora tratar de a acomodar na mala. Madrid e a paella deste menino já me esperam. Hasta luego!
setembro 07, 2009
Este não é um post sobre moda.
Portanto, ainda não sou aquilo que se pode chamar de "senhora". Acabei de me sentar no sofá vinda da casa de banho e posso assegurar-vos de que isto não correu nada bem: confundi sombra dos olhos com baton... Portanto, tinha baton nas pálpebras, um risco preto completamente desregrado, só as pestanas é que se safaram. Mais do que não ter jeito, acho que não tenho gosto. Não faço a menor ideia do que me fica bem e acho, no geral, que acabo sempre parecida com uma estrela de filmes de qualidade duvidosa de cada vez que me tento maquilhar. Sempre que me vejo numa fotografia maquilhada, sou como um pequeno peixe dourado, que constantemente renova as suas memórias e pergunta Quem é esta?
A minha falta de habilidade não se fica por aqui: há os saltos, por exemplo. Já usei saltos altos (aí no meu primeiro ano de faculdade, há... [tosse] doze anos) mas foi uma escolha passageira. Tenho tentado arriscar mas só eu sei como me sinto desadequada em cima das cunhas, do salto mais moderado ou dum agulha mais atrevido. O mundo das entrevistas de emprego vive das aparências dos candidatos, que muitas vezes não são avaliados pelo currículo ou experiência profissional, mas sim pelo que aparentam ser. Não é necessário dizer como me senti fora da minha zona de conforto ao ser conduzida por corredores estranhos e sentada em escritórios pouco familiares sem estar confortável. Eu gosto da simplicidade e chinelos Birkenstock para poder palmilhar as ruas de Lisboa. Aliás, se pudesse andava sempre descalça.
Tenho um casamento na sexta. Tenho tudo pronto a usar, a vestir, a estrear. Na minha cabeça, começam a fervilhar as ideias de desconforto, de estranheza em frente ao espelho. Quase a chegar aos trinta, devia também chegar a essa idade adulta?
A minha falta de habilidade não se fica por aqui: há os saltos, por exemplo. Já usei saltos altos (aí no meu primeiro ano de faculdade, há... [tosse] doze anos) mas foi uma escolha passageira. Tenho tentado arriscar mas só eu sei como me sinto desadequada em cima das cunhas, do salto mais moderado ou dum agulha mais atrevido. O mundo das entrevistas de emprego vive das aparências dos candidatos, que muitas vezes não são avaliados pelo currículo ou experiência profissional, mas sim pelo que aparentam ser. Não é necessário dizer como me senti fora da minha zona de conforto ao ser conduzida por corredores estranhos e sentada em escritórios pouco familiares sem estar confortável. Eu gosto da simplicidade e chinelos Birkenstock para poder palmilhar as ruas de Lisboa. Aliás, se pudesse andava sempre descalça.
Tenho um casamento na sexta. Tenho tudo pronto a usar, a vestir, a estrear. Na minha cabeça, começam a fervilhar as ideias de desconforto, de estranheza em frente ao espelho. Quase a chegar aos trinta, devia também chegar a essa idade adulta?
setembro 03, 2009
Como rebolar a rua Domingos Sequeira numa noite (quase de fim) de Verão
setembro 02, 2009
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