março 22, 2010

O Nico foi à tosquia!

Digamos que o senhor que nos vendeu o Nico se esqueceu de um pormenor muito importante: Ah, pois foi... Esqueci-me de vos dizer que devem escovar-lhe o pelo umas duas vezes por semana... Que até podia ser uma coisa menor não fosse o desgraçado do coelho ter ficado com rastas e nós gigantes no pelo a acumular durante três meses. Eu nem podia olhar para ele, tal era o emaranhado de pelo cinzento que ali ia.

Mas no Sábado o Nico encontrou um veterinário que o tosquiou e deu banhinho e lhe cortou as unhas. E de repente eu tinha um coelho totalmente diferente em casa, mais limpo e cheiroso, mais parecido com um coelho. E agora eu quero uma tosquia destas com frequência, para gostar sempre mais dele!

março 17, 2010

M. e alguns medos inexplicáveis

Bem, há muitas coisas que me assustam. Não gosto de muitos cães juntos, por exemplo. Fico nervosa só de pensar que me podem ferrar os dentes numa perna e depois apanho raiva e depois sangro até morrer... Não gosto de andar de avião nem de barco: eu sei que as probabilidades de morrer num acidente de viação são infinitamente maiores mas não consigo fazer nada. Tenho sempre medo de não ser a melhor em tudo o que faço e isto, não é difícil imaginar, tem-me valido valentes desilusões nos últimos tempos. Tremo quando estou nas passadeiras das Avenidas Novas e há gente que espera pelo sinal verde com a cabeça pronta a ser levada pelo 738 ou pelo 44 (já perdi a conta às vezes que pensei que ia ficar com a cabeça de alguém nas mãos...).

 Recentemente, sofri do medo de não me vir a tornar numa mãe como sempre imaginei. A má disposição era tanta, a minha debilidade tão grande, a ausência de forças tal que imaginei que talvez pudesse sentir algum tipo de ressentimento contra a pulguinha que aí vem. Só que os dias passam e a disposição melhora a olhos vistos, que é também como cresce a minha barriga. Já me pedem para lhe tocar e, apesar de discreta, já a sinto a desenvolver-se todos os dias. Este medo, por muito inexplicável que fosse, acabou porque a cada dia que passa o amor incondicional cresce e com ele a certeza que eu serei tudo o que conseguir. Continuo a achar que ter a cabeça arrancada por um autocarro não deve ser muito bom e os meus pesadelos ainda me dão algumas dores de cabeça. Preferia não precisar de andar de avião mas pelo menos já sei que o amor, mesmo que adormecido pelos enjoos e pelas náuseas, é gigante e não pára de crescer.

março 14, 2010

M. na cozinha VI

Agora que toda a gente fala das novas cozinheiras e nas iguarias que nos andam a empatar as dietas (não a mim, que a criança quer comer tudo a que tem direito), trago aqui umas fotos do improviso do jantar de hoje. Ora portanto, temos na imagem uma bela tarte com atum, uma daquelas misturas de legumes pré-feitas, molho bechamel e ovos patrocinados pela minha avozinha. O único problema é que eu tenho um bocado a mania quando estou na cozinha e sou incapaz de seguir uma receita à letra. Não gosto de seguir as quantidades e muito menos faço questão de usar todos os ingredientes. Não me tenho saído mal, é uma verdade, mas não perdia nada em ser um pouco mais disciplinada... É ir experimentando até que me saia o €milhões e possa abrir o meu próprio espaço de refeições ligeiras. Falei e disse.

março 13, 2010

Aos Sábados ao Sol iii

Desta vez, demos um salto ao Paço d'Arcos, depois de trabalhar umas três horas de manhã, para aproveitar o quê? o terceiro dia de Sol consecutivo? Depois de uma bela açorda de marisco, fomos os cinco caminhar um pouco no novíssimo passeio marítimo quase até Oeiras, abrindo caminho entre patins em linha, bicicletas com rodinhas e carros de bebés. Havia quem já tomasse banho nas praias da linha mas eu não arriscaria tanto: o Sol soube maravilhosamente mas ainda está longe daquele calor estival.

Agora que parece que os enjoos abrandaram definitivamente, sinto-me bastante mais optimista e feliz, especialmente quando posso passar os dias livres na lagartagem. Os meus pais medem-me o estado de saúde pela minha voz ao telefone e realmente tenho andado muito bem disposta. Uma das explicações é, obviamente, a reposição dos níveis de serotonina, ainda que ainda de forma insuficiente. Outra explicação será talvez o facto de ter ouvido pela primeira vez o coração da minha borboletinha de 3cm a bater. A bater não, a cavalgar, talvez por saber que estava a ser observada. Já tenho também as suas primeiras fotografias mas não sei, parece-me que só eu sei exactamente onde está ela/e, porque as imagens são sempre demasiado abstractas. Mas primeira lágrima (de alegria) já cá canta...

março 09, 2010

As Vicentinas

Foi com prazer e muita curiosidade que fomos (em bela companhia) hoje experimentar o bolo de chocolate destas irmãs (não sei se ainda se mantém a ordem religiosa) ali mesmo na rua de São Bento. Olhando a montra, certamente não me passaria pela cabeça tratar-se de uma casa de chá, já que o que se destaca são as velharias à espera de serem recuperadas por um qualquer coleccionador. Acho que iniciámos, talvez inconscientemente, uma demanda pelo melhor bolo de chocolate lisboeta e até agora temos bons candidatos (o do Vertigo também foi digno de memória!). Venha o próximo que a criança parece estar a gostar!

março 08, 2010

M. ainda numa espécie de limbo

Não é que tenha decidido emigrar ou hibernar de vez até que as baixas pressões e os sistemas frontais nos possam dar tréguas. Não, não me enfiei debaixo de cobertores a lamentar profundamente a duração e gravidade deste Inverno, cheia de saudades dos Marços em que já podíamos usar uma t-shirt ou ir até à praia em Carcavelos.


Não tenho ligado o computador, é apenas isso. Eu, que passava dias a fio com ele ligado, ora pirateando coisas, ora estando apenas ausente, nem sequer tenho usado o botão on/off. Também nem sequer tenho saído, já que raramente ultrapasso as dez da noite ainda de olhos abertos, capaz de raciocinar ou apenas ver os Cops. Não há nada a fazer senão aceitar este descanso auto-imposto, esta moleza absolutamente incapacitante agravada pelas drogas que me impedem de vomitar. Não é animador, eu sei, mas posso jurar que hoje me aguento melhor do que há umas duas semanas atrás. As minhas actividades de lazer têm-se resumido a duas ou três páginas do livro nas salas de espera dos hospitais ou da biblioteca da faculdade que me vai obrigar ao maior esforço de que há memória, prolongando as aulas até à meia-noite.


O meu útero anda de candeias às avessas com a minha bexiga e portam-se muito mal os dois - tão mal que nem sequer me deixam dormir e há muito que já desisti de prender o edredon debaixo do colchão porque as voltas que dou na cama desfazem toda a obra de que antes me poderia orgulhar. Já não sei se estou a criar uma borboleta ou um morceguinho mas amanhã vou espreitá-lo outra vez e a verdade é esta - mal posso esperar!

fevereiro 27, 2010

Constatação de facto

Ele é o melhor do mundo e tudo o que possa dizer mais não passaria de uma redundância.

fevereiro 26, 2010

M. vai acordando do torpor

Cada vez mais caio em mim e compreendo que há uma vida a desenvolver-se cá dentro. Primeiro, foi contar à família e amigos - tornou a coisa um pouco mais real. Depois, espalhou-se também a novidade pelo local de trabalho e as reacções foram bastante entusiastas. Tanto que inclusivamente hoje ganhei um vale para um SPA na nossa reunião mensal. Agora, forçosamente afastada da minha mãe, ganhei um coro de recomendações e horas para comer e proibições na forma das mais variadas mulheres que, com ou sem experiência, me querem ajudar.

Mas a prova de fogo, aquele momento em que tudo se tornou verdadeiro, foi na ecografia precoce, em que a médica me assegurou que o rebento está confortavelmente instalado no saco gestacional, com um coraçãozinho que já bate no seu centrímetro e meio de comprimento! Não foi propriamente um momento de muita comoção - acho que ainda estou demasiado atordoada para chorar de alegria ou sentir verdadeiramente esta ternura de mãe. Mas a verdade é que foi um banho de realidade tão grande que agora estou a tentar fazer tudo em pés de lã para não incomodar a sementinha que ainda dorme.

E todos os dias me questiono se o meu instinto maternal vai ser tão protector e desinteressado como os melhores exemplos de mãe que conheço (a minha e assim). E também me pergunto a toda a hora se estou a fazer tudo bem, se me permito ou não algum excesso, se estou a tomar o cuidado necessário - sou perfeccionista até para a minha sementinha. Agora que lentamente (espero que não seja passageiro!) deixo de me sentir esgotada pelas náuseas e enjoos, espero ansiosa por ver a minha barriga a crescer!

fevereiro 24, 2010

Música para a borboletinha

Sempre imaginei como iria mostrar aos meus filhos tudo aquilo de que gosto - livros, canções, receitas, fotografias - não para os moldar, mas antes para lhes abrir os horizontes para que possam procurar por eles próprios. Para começar, vou levar a borboletinha a (pelo menos) estes três concertos e, mesmo que ela ainda não possa ouvir, espero um dia ouvi-la dizer "Oh eu já vi Sonic Youth e foi na barriga da minha mãe...". Enquanto isso, vou continuar a construir-lhe o legado em forma de pastas de mp3, fotografias tiradas pelo pai e livros que se acumulam nas prateleiras. Assim, ela lembrar-se-à sempre de quem fomos um dia.

fevereiro 22, 2010

[modo:pausa]

Aproveitando que a criança hoje me deixou literalmente de rastos, passo o tempo entre a cama e o sofá vermelho, sem conseguir notar quaisquer melhoras no meu estado. Há quem diga que vem lá uma criança cabeluda (o que, a acreditar no pai e na mãe, teria a sua razão de ser), outros falam do carácter temperamental do rebento. Seja lá o que for, a única coisa que eu peço é que deixe a mãe descansar um pouco, sem passar a maior parte dos dias na cama, completamente impaciente e intolerante a qualquer estímulo. Felizmente, amanhã teremos finalmente a primeira consulta, depois do Serviço Nacional de Saúde me ter cancelado uma e adiado para daqui a um mês. Sendo que ainda não fui vista por nenhum médico, pareceu-me uma falta de consideração e a senhora que me atendeu teve também a delicadeza de me informar que sem médico de família também pouco mais poderia fazer - portanto, a culpa de eu não ter médico de família há três anos é totalmente minha e não de um sistema sobrecarregado e mal organizado. Enfim, valham-nos os seguros de saúde.

Na semana passada, e aproveitando umas tréguas que a criança me deu, fui usar a prenda de aniversário da mana três meses depois. Tinha marcado, portanto, uma aula de auto-maquilhagem, esquecendo-me que ia estar num sítio público, com as pessoas a passarem enquanto eu expunha a minha falta de jeito. Foi muito interessante para mim mas não tanto para a maquilhadora que me acompanhou, que resolveu, a meio do fracasso, que iríamos apenas ficar pelos movimentos e produtos básicos. Assegurou-me que, quando os dominar, posso voltar para mais dicas. Acho que isto fala pelo meu jeito atrapalhado de quem muitas vezes não usa sequer hidratante e muito menos se maquilha sozinha. Só não preciso daquele olhar de piedade de quem o faz diariamente, como se eu fosse um bicho raro - cresci ao natural e nunca senti necessidade de me pintar todos os dias.

E agora vou tentar retomar um pouco da realidade caseira, nomeadamente tentando manter-me em pé para lavar a louça. Sim, é a isto que tem chegado a minha rotina. Se houver aí alguém com uma mezinha na manga, que não seja comer a bolacha ainda na cama (já tentei, falhou), eu e as pessoas que tenho maltratado ultimamente agradecemos muito.

fevereiro 17, 2010

Ainda sobre estados de graça

Eu gostava de escrever sobre outra coisa que não a gravidez mas ultimamente é como se só isso fosse verdadeiro no Mundo e tudo o resto não passasse de uma realidade paralela, turva e distante. Já se começam a ouvir os primeiros conselhos de mães já experientes que, bem intencionadas, me tentam mostrar as várias soluções para os vários problemas que ainda não existem: a distribuição da licença de maternidade, os alimentos a evitar, as tácticas falhadas de tentar enganar o sono que não me larga.

Eu, uma pessoa susceptível à ansiedade e naturalmente nervosa, estou a tentar o melhor que posso não ceder aos enjoos contínuos, já que a única forma de os aliviar é estar deitada. Só que estar deitada é obviamente incompatível com aquilo a que vulgarmente chamamos trabalhar e começo mesmo a recear que este estado de azoamento tenha mais impacto na minha vida profissional do que inicialmente previa ou desejava. Depois esta má disposição também contagia os que estão à minha volta, porque, mesmo querendo ajudar, nada podem contra um corpo que se habitua lentamente ao novo inquilino. Estou até prestes da largar os comprimidos contras as náuses, visto serem manifestamente ineficazes e assim sempre poupo nos químicos.

Lentamente, a ideia de que vou ser mãe ganha contornos reais e mentiria de dissesse que não me estou a preocupar com nada. Agora espero ansiosamente por Segunda-feira, quando, vista pela primeira vez por um médico, vou poder colocar todas as questões que agora me afligem (os alimentos, o exercício, as análises, as mudanças, as fases, os cuidados...). Depois disso não duvido que arranjarei outra ansiedade qualquer. Vou ser mãe, caraças!

fevereiro 14, 2010

Now that the cat's out of the bag... *

Não foi exactamente como tínhamos planeado. Era suposto ficar tudo no segredo dos deuses (ou da família, neste caso) até que as coisas fossem suficientemente sólidas e tranquilas. Mas não quis o destino que as bocas ficassem sossegadas e, quando demos por nós, já a notícia corria por aí fora. Decidimos dar nós as novidades a quem nos está mais perto antes que soubessem por outras pessoas que não nós.

Vem aí uma criança e nós, como não podia deixar de ser, estamos radiantes. A juntar a isso, há também a alegria das nossas famílias, as mensagens entusiastas dos amigos, os encontros que se vão marcando para pôr as novidades em dia. A única coisa que ensombra este momento é a minha constante má disposição, os enjoos de manhã à noite e um sono incontrolável que podem ser confundidos com falta de vontade de trazer uma vida ao Mundo. É verdade que só eu é que sei o que me tem passado pela cabeça nestes últimos dias: a educação de quem aí vem, as noites sem dormir, as responsabilidades que nunca mais vão acabar, a papelada a tratar, todas as coisas que podem correr mal... É natural, dirão muitos. Eu sei que sim e sei reconhecer que esta sou eu em pânico. Vou lendo e aprendendo com a experiências dos outros, na esperança de também eu vir a ser uma boa mãe.

* não admira, portanto, eu andar a ler os últimos posts do Pedro com uma alegria que não conseguia disfarçar, emocionada por mais uma experiência na primeira pessoa.

fevereiro 08, 2010

Darker side of me


Gostava de vos poder demonstrar a confusão que vai na minha cabeça neste momento. Mas o máximo que consigo é ilustrar o meu estado de espírito com esta música porque, apesar dos dias estarem mais curtos e às vezes mais claros, acho que ainda estou a sofrer com a falta de serotonina. Tenho tantas perguntas sem resposta na minha cabeça, tantos medos a quererem ver a luz do dia, quando o que mais normal seria estar radiante e tranquila por ver a vida finalmente a correr bem. Eu sei que não sou uma pessoa fácil mas este último ano tem sido uma provação pegada. Vou tentar respirar fundo e pensar em branco. Inspira, expira.

fevereiro 03, 2010

Já me esquecia...

... que este blog comemora este mês e este ano o seu sexto aniversário! Nem sei bem o que pensar, isto é realmente muito tempo, especialmente se tivermos em conta o tempo médio que é frequente os blogs durarem - a maior parte é abandonada no primeiro ou segundo mês.

Ainda hoje não sei porque continuo a manter este blog depois de tanto tempo. O que começou por ser apenas um contentor de desabafos mais ou menos infantis tornou-se num vício difícil de controlar. Já vi muita gente a acabar um blog, a regressar, a perder-se para sempre na blogosfera mas eu nunca me imaginei a deixar de escrever aqui, mesmo podendo passar por períodos de menos actividade e criatividade. Não sei se este blog é uma declaração ao meu futuro Eu ou se é um recado aos meus filhos. Não sei realmente o que é mas sinto que faz parte de uma História que se está a escrever agora, ao ritmo das teclas que nos fogem debaixo dos dedos e, sinceramente, acho a ideia muito estimulante. Mas tudo só resulta porque sei que existe alguém desse lado, a verdade é essa. Não sei se Obrigada é a palavra certa mas gostava de vos continuar a ter por aí :)

Ano (já não muito) novo, vida nova!

Chegou finalmente o dia em que apenas uma mesa de cabeceira deixou de chegar. A minha roupa foi cuidadosamente escrutinada, de forma a poder ser dada ou deitada fora, dependendo do seu estado. A arrumação já começou mas não chegou ainda ao armário dos cremes e outras tralhas exclusivamente femininas. É preciso abrir espaço para a roupa dele, para que se possa instalar e sentir que esta é também a sua casa. Algumas das minhas coisas vão recambiadas para Portalegre, para o armazém em que se tornou o meu quarto.

Não preciso dizer como me sinto feliz. Também seria uma redundância explicar porque é que, aos trinta, uma relação à distância deixa de fazer muito sentido. Mas nós tivemos paciência, muita paciência para enfrentar todas as incertezas e recusas e respostas que nunca chegaram e o extremo desconforto de estarmos separados por duzentos e doze quilómetros de distância. Nós só não gastámos fortunas em chamadas telefónicas porque somos da época do fale tudo o que puder por meia dúzia de cêntimos e temos a Internet mas tenho a sensação de que, caso pertencêssemos a outro tempo, teríamos antes gasto fortunas em selos. Sobrevivemos a horários trocados, a jantares sozinhos, a noitadas separadas, a férias que nunca passaram de planos. Não foi uma eternidade, eu sei. Mas conheço pouca gente que esteja disposta a lutar mesmo por aquilo que quer.

Estando longe dos sessenta anos mas sentido que a sabedoria começa agora a brotar, eu digo: os amores não nascem perfeitos. É preciso muito esforço e noites em que duvidamos muito das nossas capacidades e sermos mais ouvidos que boca. É preciso exigirmos e pedirmos - é preciso falar. E quando se encontra a pessoa com quem as nossas palavras deixam de ser tímidas, então sabe-se. E até pode ser que esta sorte nos caia no colo, sem precisarmos procurar muito. Mas aproveitar essa sorte... isso são outros quinhentos. A mim apareceu-me sem avisar e eu aqui estou, a arregaçar as mangas para a nova vida que aí vem. Ainda não tenho livro de instruções para o que vem aí a seguir mas estou feliz. A minha nova família começa a construir-se Segunda-feira.

janeiro 30, 2010


Hoje é Sábado e eu, depois de ter os últimos dois dias livres, fui trabalhar. Continuo a comportar-me como uma ursa e a tentar preencher os horários vazios, as pessoas que não vêm, só porque me está no sangue. Foi um dia muito escuro e cinzento e do alto daquele sexto piso eu só esperava as primeiras pingas. Depois, quando vinha para casa, reparei da rotunda do Marquês e parece que há papoilas semeadas num dos canteiros. Está frio e eu tenho estado sozinha. Três ou quatro papoilas que sobrevivem à poluição são o suficiente para sorrir (pateta) no autocarro. E também existe a voz do Mark Kozelek a cantar sem pressa. Quem me dera perceber o que estou realmente a fazer.

janeiro 28, 2010

Estrela, 15h49, 11 °C


Eu sou perita em procrastinar. Hoje, a desculpa foi que não estava preparada para começar a escrever, que estava Sol e era um desperdício ficar em casa e afinal até os prazos foram esticados mesmo à medida. Na realidade, não estava preparada para escrever, sinto-me assim desde as dez da manhã e não sei muito bem como contornar esta falta de inspiração. À tarde, resolvi apanhar Sol e comprar algumas gulodices mas a saída não teve os resultados que esperava porque não havia aqueles crepes de chocolate maravilhosos do PD. Queria ter tudo pronto amanhã mas só se acontecesse um milagre e o resto do trabalho me aparecesse aqui feito durante a noite (há alguma fadinha para isto?). Cada vez mais me convenço que preciso arranjar uma profissão liberal ou ser patroa de mim mesma: deixar o Nico à solta durante a manhã, ouvir a minha rua durante o dia, sair para as compras depois do almoço - que sensação de tranquilidade.

Zero


Depois da parafernália de fios e eléctrodos colados à minha cabeça, depois de dormir com um gravador debaixo da almofada e sair do consultório a parecer um bicho, depois de andar a tentar arrancar os restos do exame do cabelo durante mais de uma semana, descobri há dois dias que, neurologicamente falando, não tenho nada. Sim, tenho um sono agitado e frequentemente interrompido e as minhas pernas mexem-se muito e revolvo a cama toda e levanto-me umas três a quatro vezes por noite mas o meu cérebro está a funcionar bem. Sabem aquele episódio do doente que sai do consultório do médico chateado porque não tem nada? Eu agora percebo melhor. E lá se vai a minha esperança de voltar a dormir uma noite inteira, voltei à estaca zero.

janeiro 25, 2010

Uma experiência (quase) maternal

Mesmo correndo o risco de ser mal entendida pelas mamãs aí fora, eu vou dizer.

Ter animais de estimação é quase como ter filhos.

Ora, primeiro é um que me muda de sexo dentro do aquário, assim mesmo, sem mais nem menos. Num dia chama-se Gustavo, no outro dia está grávido e a fazer a desova como se não existisse amanhã. Acho que ainda tem mais filhotes para dar à luz, parece-me um bocadinho gordo mas eu já não sei o que fazer. Os outros meninos dentro do aquário metem-se com ele, ele foge, fica agitado e lá vêm mais uns bebés por aí fora. Não me apetecia encher o aquário com mais umas centenas de peixes mas enfim, eu sei lá o que fazer com aquilo tudo.

Depois é o outro menino, o de quatro patas. Ontem mandou-se dum banco abaixo, levando consigo a caixa cheia de água, ração, palha e xixi. Parecia um croquete, todo coberto pelos restos da comida e a palha já desfeita. Ainda pensei em metê-lo no banho mas achei que talvez fosse melhor deixar a natureza seguir o seu curso e deixar o bicho lavar-se sozinho.

Hoje lá fui à loja aqui da rua para me abastecer de coisas para os meninos: a ração, a palha e os flocos e o senhor ainda me explica que as bolinhas de madeira são melhores, absorvem os líquidos e promete-me menos limpezas durante a semana. Lá vim eu rua abaixo, com as mercearias para a semana, carregada com o material para estes quatro meninos do meu coração para depois perder uma hora e meia a deixar tudo a brilhar. Se isto é assim com a bicharada, então quando falarmos de crianças... ui! Tenho que começar a lançar o charme e valer-me dos avós :)

janeiro 22, 2010

Última tarde de férias


Estou a esforçar-me por passar a última tarde das férias na Biblioteca Municipal da minha cidade. E digo esforçar não porque aqui faltem condições, ou porque seja um espaço desconfortável mas porque as próprias funcionárias ignoram (ou parecem ter esquecido) que este é o lugar do silêncio e de um certo recolhimento. Daí até perguntarem, gritando, quantas horas deve carregar um telemóvel novo ou rirem-se espalhafatosamente duma piada contada ao almoço é um pequeno salto.

Mas enfim, incidentes à parte, estou verdadeiramente feliz por ter regressado à faculdade três anos apenas depois de ter terminado o meu curso, um percurso demasiado acidentado para me orgulhar disso. Mas agora que encontrei algo que quero mesmo fazer, um objecto de estudo que me interessa, que me estimula, as coisas sabem-me muito melhor. Mesmo que não esteja a contribuir para nenhuns avanços médicos ou tecnológicos, mas apenas a contribuir para aumentar um corpo de conhecimento ainda incipiente. E agora (algum) silêncio que se vai investigar um pouco.

janeiro 21, 2010

Always already gone

Não sei como é que acontece. Faço a viagem de volta a casa e o coração começa-me a ficar cada vez mais apertado dentro do peito, a respiração cada vez mais custosa. E é quando chego a Montemor-o-Novo e me enfio pelas ruas de paralelos para tentar fugir aos semáforos e aos camiões e de repente dou de caras com um funeral acabado do sair da capela e não consigo aguentar mais os soluços que vêm sabe-se lá de onde e só a custo os travo à pressa. Depois há aqueles altares na berma da estrada, símbolos macabros de alguém que perdeu a vida naquela curva e, em chegando a casa, ligo a televisão e continua a saga do Haiti e começo a chorar à mesa com a minha mãe.

Estar longe de casa tem-me mantido na linha: acumulo o stress das aulas com a falta de entusiasmo e motivação no trabalho, o trânsito no cruzamento da Estrela, os autocarros cheios de gente e de humidade, as calçadas escorregadias onde hei-de cair, mais cedo ou mais tarde, os carros mal estacionados à porta de casa, a televisão velha do vizinho que não cabe nas escadas, as compras que não fiz por esquecimento. Vale tudo para não me lembrar da tristeza de já não os ter por cá, de saber que com eles morreram velhos hábitos e se calaram anedotas, de saber que agora só os confundo com outros velhos que caminham no jardim. E vale tudo para me esquecer a miséria desse povo abandonado, as crianças de olhos arregalados com o medo, a falta de coordenação. Mas, no momento em que vacilo, lembro-me do conselho que ando a repetir há duas semanas à minha avó e respiro fundo. Lembremo-nos de quem fica.

janeiro 20, 2010

Acordar com o coração nas mãos



Ou, pelo menos, com o coração a querer romper o peito. Se calhar é porque hoje está Sol pela primeira vez desde... Não sei desde quando porque me perdi na sucessão de dias cinzentos, por dentro e por fora. E quanto mais tempo passa, mais eu redefino o meu conceito de saudade, que se agudiza e se transforma nesta muralha que julgo ser intransponível alguns dias e inexistente noutros. Estou de férias mas passo doze horas em frente ao computador e mal sinto o ar fresco lá fora. E depois é isto, sentir-me só em vez de me sentir apenas sozinha e os abraços que ficam por dar.

janeiro 17, 2010

La Femme d'Argent


Acho que a última música da noite, a mesma que dá título a este post, resume o sentimento que me ficou do concerto: épico! Podia ter sido melhor, se a música estivesse um nadinha mais alta e eles se aventurassem mais nestas cavalgadas electrónicas. Tocaram a minha música preferida e só por isso já valeu a pena. Já nem falo da companhia perfeita e da melhor irmã do Mundo, que fez o favor de nos mandar ao Coliseu. Podia-se era ter evitado a multa de estacionamento no Largo da Anunciada mas enfim, quase que se esquecia: saímos nas nuvens.

janeiro 16, 2010

(500) days of Summer


Tom: I love how she makes me feel, like anything's possible, or like life is worth it.

Se eu tivesse visto este há filmes há um ano atrás, teria certamente sido uma noite daquelas: acabaria de ver o filme e, depois de lamentar estar sozinha, enfiava-me debaixo dos cobertores e ficava indecisa entre chorar ou ser mais forte que isso. Mas a verdade é que este filme está cheio destas verdades e desencantos de que também é feito o amor. A reciprocidade é uma cabra e às vezes penso nas probabilidades de encontrarmos uma pessoa que queira exactamente o mesmo que nós, também exactamente no mesmo espaço de tempo. E bem, se não fosse eu ter sido agraciada com essa possibilidade, é de loucos. Mas eu acredito em tudo que vi neste filme: as noites psicóticas sem certezas, as indefinições dos primeiros tempos, a vontade de abraçarmos uma pessoa controlada pelo nosso medo de nos magoarmos. E acredito na música e em sítios especiais, em alinhamentos de planetas, nos defeitos que se adoram, no apesar de tudo. E até pode ser coisa de filme mas quem é que nos disse que uma tarde chuvosa não estamos no Vertigo a ler o resto dum McCarthy qualquer e não passa pela montra a pessoa da nossa vida? Acreditar é a única coisa que nos mantém vivos. Até que ela finalmente chega e acaba-se a ansiedade toda. Toda.

janeiro 12, 2010

Neuro-coisas

Depois de dormir mal durante demasiados meses, resolvi fazer qualquer coisa por mim e aproveitar que o trabalho ainda me facilita no seguro de saúde. Comecei a achar que levantar-me umas três ou quatro vezes numa noite de sono de sete horas já se estava a tornar demasiado cansativo. Primeiro, achava que era apenas uma fase mas, depois de sentir as coisas arrastarem-se para lá do suportável, decidi que preciso voltar a dormir uma noite completa.

Só me arrependi um pouco quando saí da sala onde me ligaram todos os eléctrodos e cabos ao gravador que vai registar o sono e a minha irmã foi incapaz de conter as gargalhadas sonoras dela. E também entendi a insistência das senhoras, quando me diziam que, depois de colocar todo o material, não poderia conduzir ou andar de transportes públicos: acho que muita gente iria desmaiar de susto! Já estou a preparar-me para ligar os fiozinhos todos debaixo da almofada e estar descansada às onze da noite, hora em que os aparelhómetros começam a funcionar. Não sei como é que esperam que eu durma com estes adesivos todos e aquele aparelho para medir o que não ressono. De dormir não sei nada - só quero arrancar isto tudo quando chegarem as primeiras horas do dia...

janeiro 10, 2010

1924

Sabes avô, vinha no caminho já a pensar como gostava te dizer tudo o que se passa no Mundo e que tu não podes saber. Já em Abril, tinha vontade de mostrar a cidade mais uma vez ao outro avô, mesmo estando tudo na mesma, mesmo a vista sendo sempre igual. Não vim a tempo, avô. E tu também já não foste a tempo de ver que, depois do gelo que sentimos durante estes dois dias, começou a nevar tão cedo e quase fico contente, porque em vez de chuva, ficas agora debaixo desta mantinha branca.

Sabes avô, o meu pai disse que o 2009 ainda não tinha acabado e que só agora se fechava o ciclo e eu quero acreditar nele. Vamos ter saudades tuas mas o que tu tinhas agora já não se chamava vida e feria-nos tanto não te poder ajudar. Falei contigo em pensamento porque tenho a esperança secreta que, algures, ainda nos possas ouvir. Já não sei dizer se isto foi tudo de repente ou de demorou tempo demais mas sei dizer que isto foi a repetição exacta dum pesadelo que já tínhamos vivido há nove meses: as mesmas pessoas à volta da mesa, o mesmo bacalhau ao almoço, os mesmos acordares para um dia que desejávamos não existir. Só está é tanto frio, avô e é como se a neve estivesse cá para marcar o dia - como se pudéssemos esquecer.

Vou ter saudades tuas, avô e não quero aqui falar das coisas tão boas de que me lembro porque o mais certo é regressarem as lágrimas. E se me contenho, e se agora me acalmo, é porque desde há nove meses atrás que acredito que vocês se escondem num sítio secreto, onde vão ficar para sempre, esperando também por nós.

janeiro 08, 2010

Del todo nos vamos y desaparecemos en su casa

 

Tantas vezes preciso de música para escrever. Confesso que muitas, muitas vezes não teria escrito sem a ajuda da música e isto sabe a batota, como se estivesse a roubar a inspiração de alguém. Mas também sabe um pouco a sinestesia e a esta afinidade da música com as palavras, com a emoções, com os cenários que se vão desenhando na nossa cabeça. E preciso de música para perdoar, para me convencer de que não devo deixar o sangue quente reinar sobre mim, para compreender minúscula importância da minha vida. E preciso de música para viajar, mesmo sentada numa cadeira de escritório, e para silenciosamente exaltar este meu bem querer e troçar dos fantasmas dos tempos já idos. E se tiver música posso reinventar-me e multiplicar as minhas declarações de amor.

E posso ser uma mulher descalça em pleno deserto, um xaile apenas pelos ombros descobertos, com um brilho que nem o pó consegue cobrir, suando os meus amores impossíveis e começando a ceder à vertigem voluntariamente. Choram guitarras e baila-se à vez. Acho que se chama a isto ser livre.

[chego muitas vezes tarde, já o disse antes, mas o que conta é chegar lá. E tu já foste mas deixaste tantos mundos cá em baixo.]

janeiro 06, 2010

I'm so disappointed I could cry

Como sempre, as pessoas continuam a fazer das suas. Insistem em segredar e em especular em vez de perguntar directamente, preferem ser medíocres do que brilhar e isso é uma coisa que não consigo aceitar em ninguém. Tenho uma bateria de análises marcadas para a semana que vem e nem conduzir vou poder. Voltei a correr, depois de uns dois meses de pausas forçadas pelas ausências e pela metereologia e agora é como se tivesse que começar tudo de novo. Respondo esporadicamente a anúncios de emprego só para não receber respostas e acabar com o que resta da minha auto-estima. Ainda não me consegui organizar para ter os trabalhos do mestrado prontos a tempo.

Comprei duas tabletes de chocolate, pelo sim pelo não.

janeiro 03, 2010

2010


 A partir de fotos dele, uma montagem minha.

Quero dançar muito em 2010. Quero poder fechar os olhos e esquecer-me das dores, das incertezas, dos despedimentos e  das ausências. Não me importo que esteja sozinha numa sala nem que me estejam a observar ou que cheire demasiado a tabaco. Quero poder dançar a dois, bem coladinha, com ou sem música romântica. Quero deixar de sentir os pés, que as pernas se movam em piloto automático, dançar com os braços e o corpo todo, soltar o cabelo e os maus olhados porque tenho a certeza que me lançaram um olho gordo. Quero mexer-me dentro e fora de tempo, batendo o pé, marcando o ritmo, fazendo a vontade às ancas e cedendo à cintura. Quero ter razões para dançar e fazer finalmente da rua Viriato a minha pista de dança.

dezembro 31, 2009

2009, esse ano bastardo



Desenganem-se: 2009 foi o ano da Morte. É assim que me vou lembrar dele daqui para a frente, sempre que estiver prestes a dobrar uma década ou  apenas frente a um ano novo. Só tinha ouvido falar da Morte: infelizmente tinha já visto o sofrimento no rosto de outros mas tinha ainda sido poupada ao natural curso das coisas. Este ano chegou a minha vez e foi exactamente como muitos descrevem, foi uma espécie de tontura da qual despertamos lentamente, foi lidar com a saudade que nunca mais irá desaparecer. Aqueles dias de Abril vão ficar para sempre gravados na minha memória pelos melhores e piores motivos. Além disso, este ano passei mais tempo em hospitais e unidades de recuperação do que alguma vez poderia esperar e do que desejo a alguém. Estou saturada dos cheiros, do chão em linóleo e de grades nas camas, salas de espera e segundas opiniões, do silêncio.

1. Foi o ano em que chegaram alguns anjos e outros continuaram a crescer, símbolos maiores do amor a deixar o relógio biológico ainda mais descontrolado 2. Voltei a Bruxelas na Primavera só para confirmar que estava enganada e que podemos ser realmente felizes onde julgávamos termos sido felizes um dia e que, voluntaria ou involuntariamente, tinha acabado a época de me enganar a mim mesma 3. Estive em três casamentos, entre os quais o de um enorme amigo de infância, onde me comovi uma vez mais no momento do Sim e onde partilhei verdadeira felicidade 4. Foi um bom ano gastronomicamente falando: entre muitas noites de sushi, petiscos da Tasca da Esquina, sardinhadas, caracóis e picapaus no café da rua... comi tão bem 5. Tive uma semana de férias exclusivamente no feminino, que posso resumir com horas estendida na areia, hotel à beira da praia e pescaditos fritos com limão 6. Foi o nosso ano, o princípio desta imensa sensação de tranquilidade quando ele está perto e de inquietação profunda quando os quilómetros nos separam, saber que é isto, deixar de esperar, sentir finalmente de forma incondicional 7. Foi o ano do empreendedorismo, com o amigo a ver finalmente o sonho a tomar forma e a minha curiosidade a levar-me por formação nesse campo, antecipando já o final do meu emprego em Maio e tentando perceber que portas se vão abrindo por aí 8. E é o ano dos bichos, já a somarem quatro neste apartamento da Estrela, enchendo os meus dias e fazendo-me sentir menos só.

Desejo a todos um são e feliz ano de 2010. Se a saúde não vos trocar as voltas, espero só que possam (pelo menos) ser tão feliz como eu em tudo o resto. E para o ano há mais :)

dezembro 30, 2009

Um cavalheiro tímido e uma starlett sem brilho


O seu a seu dono: as fotos são dele, como sempre.

Samuel Úria e Nereida Gallardo sentados no mesmo sofá... As probabilidades de alguém pensar em ou mesmo conseguir juntá-los era remota até ontem, quando os dois participaram no programa 5 para a meia noite. Ele apresentou-se distinto, esguio numas slim fit, t-shirt da sua Flor Caveira e sapatos brancos, a estender-se muito para além do sofá. Ela não conseguiu deslumbrar, apesar dos longos cabelos negros e do bling bling dos acessórios, sendo cuidadosamente observada pelo namorado e evitando falar sobre aquele-cujo-nome-não-devemos-pronunciar. Ele cantou uma deliciosa versão da Quinta Sinfonia do Paco Bandeira e conquistou-nos definitivamente quando disse Agora que sou alentejano... ou quando aconselhou Tondela à sua companheira de sofá. Ela teve algumas dificuldades de tradução (ou não fosse o castelhano do Alvim não mais que sofrível, embora esforçado) e pareceu perdida muitas vezes, nunca conseguindo descolar do estigma de uma certa vulgaridade.

Valeu pela boa disposição. E porque o Alvim conseguiu juntar a simplicidade e timidez de Úria e a disponibilidade (de aparecer, porque não passou disso) de Nereida para manter uma conversa sobre rissóis, sexo dentro do carro (e outras óbvias referências sexuais) e futebol durante uns quarenta minutos. Não é para todos, o equilíbrio entre ter graça e ser (positivamente) o perfeito anormal.

dezembro 25, 2009

Sobrevivemos (?)

A minha família cometeu o prodígio de aguentar firmemente a primeira noite de Consoada sem eles. Contrariando o que eu temia já há muitas semanas, foi uma noite tranquila mas aposto que todos pensávamos no mesmo: na maneira como um era sempre servido em primeiro lugar e como achava que nunca ia comer mais nada e na forma como o outro passava a quadra, sentado no seu cantinho, aceitando tudo o que lhe davam e já sem falar. Ainda hoje, o arroz de cabidela lembra-me um e o sumo de ananás o outro. Um já foi, outro ainda não mas já não está entre nós. Eu sei que é suposto esta ser uma época de esperança e de união mas sabem, este foi o primeiro sem eles e riscar os lugares da mesa, à razão de um por festividade, doeu-nos muito. Agora, há dois lugares livres, que acabam ocupados pela saudade.

Ninguém nos ensina a não sofrer e eu cá precisava de um curso intensivo. Mas, em contrapartida, a minha mãe deu-me Tupperwares™ e toalhas novas, a minha irmã quer que eu vá ver os Air e ainda não comi muita porcaria. Estou farta de lhes dizer que, apesar deles terem partido, devemos nós continuar a viver. Mas é engraçado, nem sempre acredito nisso.

dezembro 23, 2009

Chama-se Nico


E é bem capaz de ter abalado as minhas relações familiares mas é fofo, este meu pequeno explorador. Prometo que fechei o zoo cá de casa.

dezembro 22, 2009

Trigémeos


Eles estavam habituados a estarem sozinhos num daqueles aquários redondos, que passam bem por uma bola de cristal. O Gustavo e o Senhor Almeida já quase vêm comer à mão porque trato de os alimentar sempre à mesma hora e no mesmo sítio. Às vezes dão pulinhos dentro de água, como se estivessem na brincadeira. Hoje, juntou-se a ele o irmão mais velho e agora o ambiente está estranho: estão a conhecer-se num aquário muito maior e muitas vezes não largam o Hubble. E agora é deixá-los crescer: não posso fazer-lhes festinhas mas não me roem as tomadas.

dezembro 21, 2009

Podem perguntar-me o que quiserem, é Natal.



Não tenho mais nada para vos dar, a não ser a minha sapiência. Que ainda é pouca mas não a quero menosprezar.

dezembro 20, 2009

A minha cidade é um belo milésimo post


 Estes exemplares são dele.

Mil mensagens desde dois mil e quatro. Centenas, milhares de caracteres desde o mês de Fevereiro desse ano, tempo perdido a decidir o que vale ou não a pena publicar. Mil vezes sentada em sítios diferentes, teclando com diferentes computadores, indecisa e determinada, muitas vezes completamente vazia de inspiração. Mil entradas num diário que continua a crescer e a ver-me crescer durante seis anos, insensível aos meus picos emocionais. Mil vontades de falar, espaços onde tantas vezes falei das saudades que tenho de casa, da forma como olho a cidade enquanto a deixo para trás.

Aproveito a milionésima mensagem para vos convidar a (re)descobrir a minha cidade, especialmente para se enamorarem dos pormenores que, por julgarmos já sabermos tudo, deixamos fugir todos os dias. Irão ser, um dia, mil razões para sentir vontade de regressar todos os dias ao único sítio que me reconhece e me faz falta. Chama-se Portalegre em Pormenor e já conta com as participações de vários olhos com visões muito particulares, a cores e sem elas, sobre esta atípica cidade alentejana. Eu fico desejando mil céus azuis, tiritando com os zeros graus deste fim de semana - certamente se seguirão mil posts de paixão e beiço caído por esta cidade.

dezembro 14, 2009

Alerta amarelo

Eu ando duma maneira que não me posso aproximar de nenhuma loja ou local onde se possa comprar alguma coisa. Ia hoje à Baixa tratar da substituição de uma prenda (já que a original está rota mesmo antes de ser oferecida...) e acabei enfiada aqui, tentada a despachar-me rapidamente e acabando com um saco com umas cinco peças de roupa - prenda não incluída. Depois, já de volta ao trabalho, dou aqui de caras com uma mini feira do livro e, com a desculpa que tinha a prenda do amigo secreto lá do trabalho para comprar, acabei com mais cinco livros dentro da mala - e não são todos para oferecer. Quase a chegar ao meu destino, os meus olhos param num quiosque e toca de comprar esta revista, só para confirmar a polémica que se levantou blogosfera fora - e bem me arrependi, que não é propriamente reconfortante ver as fotografias das raparigas tão perfeitas e depois olhar-me ao espelho. E com isto comprometo-me a travar este frémito consumista. Alguém que me agarre se passar perto de outra montra.

(acho que se chama carência ou ausência de sentido de orientação. Como se meia dúzia de casacos de malha pudessem apagar a tristeza com que aprendo a viver todos os dias, tentando convencer-me que todos agimos pelo melhor e que um dia todas as imagens do desespero dele vão esfumar-se da minha cabeça. Já não sei o que está certo -  só sei que tenho os nervos esfrangalhados e mais uns casacos no roupeiro.)

dezembro 10, 2009

Ultimamente.


Ando um bocado assim: incapaz de me focar nas coisas mais importantes, pressionada por coisas por fazer de todas as direcções, esmagada por um jantar para cento e oitenta pessoas que não estava a ser capaz de organizar. Recebi a notícia de que não passei num processo de recrutamento onde estive envolvida há pouco porque os resultados dos meus testes não eram satisfatórios. Eram testes de raciocínio numérico apoiados por tabelas e gráficos, coisas que eu já deixei para trás há uns bons quinze anos. E nem sequer fiquei triste por não ter conseguido a posição - fiquei, isso sim, envergonhada por não conseguir superar estas provas, mesmo que só eu conheça o resultado. Tenho vergonha de não ser boa assim em tudo. Também fiquei a saber que entrar nos quarenta na minha família é sinónimo de operações à cabeça ou coma induzido por problemas cardíacos desconhecidos. Acho que me fico pelos trinta.

Estamos fartos de saber que a pressão para mantermos a compostura e não cedermos à tristeza é enorme porque é suposto sermos todos fortes. Só que eu, como consequência de não ceder um bocadinho diariamente, tenho dias em que simplesmente quebro, em vez de vergar. E eu desejo apenas ser como canas ao vento.

dezembro 07, 2009

Sushi para um (a pedido!) *

Era este o aspecto da minha mesa nesta véspera de feriado e antes da bateria da máquina me morrer nas mãos. Estou um bocadinho cansada de estar sozinha e o eco aqui em casa já tem feito das suas com o meu humor. Estou, inclusivamente, naqueles dias em que só me apetece enfiar a cabeça debaixo do edredon e ficar só em silêncio. Comer sushi a dois ou a três é seguramente mais divertido. E sobrava-me menos.

* compra-se ali naquela bandeirinha, caso ainda não saibam.

dezembro 05, 2009

Tudo (muito) bons rapazes



Eu já sabia que se me chegasse perto da Fnac algo assim ia acontecer. Ia lá, inocentemente, só buscar um cabo de rede para consertar a minha ligação à internet e acabei com estes três discos (também) na mão. Portanto temos: o cavalheiro à moda antiga, cabelo preto desgrenhado, sozinho em palco com a sua guitarra, com a sua timidez e as botas que marcam o compasso; o trovador contemporâneo, fumando finíssimos cigarros de enrolar, escondido atrás dos lenços que enrola ao pescoço e dos romances falhados das suas canções; e o rei da música pop portuguesa, mestre de cerimónias da escrita, do vídeo e da fotografia, incapaz de parar de criar. Alguém ainda acha que a música portuguesa não vale nada?

dezembro 04, 2009

Sobre regressar *

Muitas vezes não sei o que me impede de chegar a casa, fazermos as malas e apanharmos o primeiro avião para sair daqui definitivamente. Depois era arranjar uma daquelas casinhas de um só piso, com um jardim onde colocaríamos o gnomo com que todas as donas de casa sonham, com o habitual aquecimento central e beliches de madeira para os gaiatos. No Natal, beberíamos vinho quente acompanhado por amêndoas cobertas de açúcar e dormiríamos cedo. Aprenderíamos a gostar do frio e das tardes no escuro e séries dobradas. Teríamos tempo para experimentar todas as cervejas, especialmente as variedades com fruta. Não conseguiríamos decidir entre tanta variedade de pão e havíamos de habituar os nosso amigos a abraçarem-se muitas vezes. Eu viveria maravilhada num mundo de cremes a 0,85€, ele teria os Toblerones gigantes à mão. E um dia haveríamos de querer voltar.

* ou como tudo correu tão bem, tirando os pés dentro das botas novas, e como voltei ainda sem ter um novo emprego e com vontade de mandar o meu país às urtigas.

dezembro 02, 2009

Um chá antes de partir

Amanhã é dia de viajar mais uma vez até à fria (duplo sentido, pois) Alemanha, naquela que poderá ser a minha última viagem de trabalho nesta empresa. O nervoso desta noite já não é com as reuniões lá ou os assuntos delicados que precisamos de resolver, mas apenas a habitual sensação de que me esqueço de qualquer coisa imprescindível aqui... A última surpresa antes da viagem ficou reservada para a minha primeira visita ao Pavilhão Chinês (sim, ainda vou fazer uma lista das coisas escandalosas que ainda não fiz em Lisboa) para um chá de cerejas silvestres e umas horas fascinada com a exuberante decoração.

E agora é hora de fechar a mala e dormir. Gostava de poder descansar mas está mau tempo para voar e a companhia é a mesma do avião misteriosamente desaparecido do radar. Tenho sempre medo de morrer, por isso olhem, foi um gosto!