junho 20, 2010

O David tocou na Estrela!

 O meu par registou a belíssima luz de fim de tarde.

A temperatura ainda não subiu aos níveis que justificam a chegada do Verão amanhã mas temos que nos contentar com aquilo que a meteorologia nos tem para oferecer. Ontem demos um salto à Estrela, assim uma coisa rápida só para ver o showcase do David, também conhecido como Noiserv. O cenário não podia ser mais adequado para ouvir as composições intensas e melancólicas, o xilofone e a máquina fotográfica em loop, a timidez quase infantil do cantor: um fim de tarde fresco, com os raios de Sol a surgirem apenas a espaços sobre o palco inexistente e o público ainda encasacado, um espaço aberto para acolher este one man show. Estamos à espera do próximo EP, que vai estar cá fora em Julho!

junho 19, 2010

Sentir orgulho

Ontem levei o Vicente à festa de despedida da escola onde o pai trabalha e foi divertido. Apesar de todas as dificuldades, da inexistência de material escolar, de infraestruturas longe de perfeitas, das vidas difíceis dos meninos que frequentam a escola (muitos nunca viram o Tejo, apesar de viverem nos arredores de Lisboa...) e da zona problemática, é no mínimo inspirador assistir à actuação de professores e alunos juntos em palco, unidos na escassez de meios mas também na ideia de que com pouco se faz muito. Apesar das dificuldades, acho que pelo menos compensa saber que se pode fazer alguma diferença na vida daquelas crianças. E o melhor é que a minha pessoa preferida faz parte dum projecto destes, sem desistir, com determinação e vontade de fazer bem. Isto é caso para o Vicente nascer já todo inchado de orgulho! Mesmo que o pai tenha dado uns pregos no baixo...

junho 16, 2010

Ser o melhor do Mundo é simples

Basta trazer-me balões em forma de coração lá da escola. Às vezes pode não parecer mas sou uma rapariga fácil de contentar.

junho 15, 2010

Vicente: há seis meses a crescer na barriga da mãe! ☺

Esta semana, e apesar das imensas confusões entre meses e semanas que normalmente se estabelecem entre grávidas e o resto do Mundo, o Vicente completa seis meses na minha barriga. É um grandessíssimo lugar comum mas a verdade é que já senti tanta coisa desde esse dia de Fevereiro em que descobri que ia ter um filho... Confesso que os primeiros tempos foram extremamente difíceis: a juntar aos enjoos, às náuseas e à vontade incontrolável de dormir, o facto do bebé ser ainda minúsculo fazia com que muitas vezes o sentisse como um intruso. Foi difícil para mim aceitar esta mudança tão radical nas nossas vidas, mesmo sendo este um fruto do amor não planeado, tão desejado pelos dois. Vejo agora que tudo não passava da imensa algazarra hormonal que me controlava os humores e os apetites e que tornou este no Inverno mais longo e escuro dos últimos tempos.

Felizmente o primeiro trimestre acabou. Como todas as grávidas ouvi (e continuo a ouvir) de tudo: que os enjoos eram passageiros, que podiam demorar nove meses, que a barriga dizia menina, que preciso comer tudo o que me apetecer, que a barriga está pequena, que estou a rebentar... Ainda falta muito tempo até ao parto mas tenho a certeza que as pessoas ainda se vão esmerar nos palpites e mezinhas. E com o trimestre de ouro ainda a decorrer, comecei a experimentar a mais maravilhosa das sensações: sentir os movimentos do meu filho! Já se me acabou aquele medo irracional que alguma coisa errada poderia estar a acontecer porque pelo menos agora sei que ele está vivo e tenho sempre companhia a toda a hora, em todo o lado.

Começo agora a sentir os efeitos do peso a mais, da respiração cada vez mais pesada, da falta de posição para adormecer. E a minha barriga deixou finalmente de ter um tamanho e uma forma dúbia para passar a ser assumidamente de grávida. Já se abrem caixas de supermercado para eu passar e também já deixei de ter vergonha de ocupar os lugares reservados nos transportes públicos. O tempo passa depressa, eu sei, mas agora começa a crescer o desejo de ver a cara do Vicente e começar a trabalhar para fazer dele uma pessoa impecável. Esta semana lá vamos nós vê-lo mais uma vez e checkar se ele tem tudo a funcionar no sítio certo. A vida não tem sido propriamente fácil e as dificuldades prometem continuar mas que se lixe!, as férias permanentes estão quase aí para prepara a chegada do bebé. Se soubesse o que sei hoje, tinha embarcado nesta aventura mais cedo e, quem sabe, mais vezes!

junho 13, 2010

M. e os trabalhos manuais

 O pai foi responsável pelo making of.

Não sou propriamente uma pessoa com muito jeito para trabalhos manuais, é uma verdade. Isto é especialmente assim se os mesmos forem minuciosos e exigirem alguma paciência e muita atenção. Não foi exactamente o caso mas hoje vinha a caminho de Lisboa e ocorreu-me que quero fazer coisas divertidas com o meu filho, quero estimulá-lo e brincar com ele sem me lembrar que já lhe levo alguns anos de avanço. E se possível, quero fazê-lo rir, nem que seja por ter tido as ideias mais parvas e inúteis do mundo. É bem possível que, em parvoíce, eu o venha a bater aos pontos.

junho 10, 2010

O inferno são os outros

É verdade que tenho andado meio cega com esta história do Vicente: é tão maravilhoso senti-lo a mexer na minha barriga e ver que continua a crescer como manda o livro e imaginá-lo cabeludo e moreno cá fora que estava esquecida da facilidade com que me estragam um dia. Ora, se a pessoa que o fizer for ainda cobarde o suficiente para não admitir o que tem andado a esconder de mim, se preferir que seja eu a passar por incompetente e alguém mal formado, se já não lhe restar o mínimo de ética e seriedade, então é coisa para me deixar mesmo fora de mim. 

Certamente tenho muitos defeitos mas um deles não é, de certeza, ser mau carácter: com o passar do tempo, tenho aprendido a aceitar as minhas responsabilidades e assumir os meus erros sem vergonha. Agora, aquilo de que sou realmente culpada é desta infinita ingenuidade, esta vontade desmedida de acreditar que as pessoas não podem ser completamente más porque não acredito num mundo totalmente injusto. Acho triste e meio absurdo que as mesmas pessoas a quem vamos buscar algum conhecimento e até inspiração se revelem, tempos mais tarde, o exemplo mais podre da pessoa em que quem não nos queremos tornar. Sou cada vez menos uma people's person e tenho essa gente a agradecer. Mas enfim, as cambalhotas do meu  filho (caramba, dizer isto em voz alta é simultaneamente terno e assustador!) e a paciência da minha pessoa preferida não vão deixar que me torne numa pessoa amarga. É respirar fundo e colocar essa gente onde realmente merece estar: atrás das costas.

junho 06, 2010

A nossa vida enredada numa colina de Lisboa *

 Ele foi mais uma vez o repórter fotográfico de serviço.

Quando sabemos que a nossa ausência será curta, as despedidas são sempre menos dolorosas. Suportamos melhor os momentos finais, não tentamos prolongá-los além do emocionalmente aconselhável e confiamos mais no poder das nossas recordações. A noite de ontem foi especial porque não lhes dissemos propriamente Adeus, apenas um Até já que se espera mesmo breve.

Ainda não tenho propriamente o estatuto de groupie mas apenas porque o meu tempo não o permite. Gosto d'A Naifa o suficiente para ver o mesmo alinhamento todas as noites, plateia após plateia, com públicos entusiasmados e turistas que não sabem ao que vão, puristas do fado que talvez se deixem surpreender pelo Destino menos convencional de uma Mitó sem xaile negro ou uma guitarra portuguesa mais electrónica do que achavam possível. Sou suspeita por estas e por tantas outras razões: por achar aqueles pinheiros mansos da Praça d'Armas um cenário desarmante, por ignorar deliberadamente a noite fria de Junho, por ter ficado contente com um lugar mais atrás, por achar que talvez A Naifa estivesse já um pouco esgotada pelas emoções deste regresso e no final ter ficado, mesmo assim, deliciada com o último concerto da digressão. A Libertação, cantada a meias com Celeste Rodrigues, foi um momento absolutamente impagável de perfeita simbiose entre tradição e contemporaneidade. E perceber, no momento da despedida, que todos se abraçavam com o que parecia ser alívio e a sensação de que uma nova porta se abrira deixa-me tranquila porque a memória, essa, subsiste.

* A Naifa tocou ontem à noite na Festa do Fado no Castelo de São Jorge

Querido Vicente,

 Ele fotografa a nossa pausa sobre uma Lisboa de arraiais.

nunca hei-de conseguir esgotar os sítios e as vistas que te quero mostrar. Tenho muita vontade de vejas o Mundo com olhos de ver e que fiques tão esmagado pela beleza dos sítios como eu costumo ficar. Ainda tens a minha barriga entre ti e o Mundo mas eu tento levar-te pelo menos a sentir a paisagem. Ontem, levei-te (levámos-te) para os lados de Santa Luzia e estava um dia muito fresquinho de Junho. Os turistas apareciam de todas as vielas vindas do Castelo, demoravam-se pelos miradouros e faziam fila nas paragens do eléctrico. Era já o fim do dia Vicente, e apesar de algum cansaço, subi (subimos) contigo ao Castelo para ouvires mais música e não me admiro se um dia chegares a ser tão fã como a mãe. Fazer tudo contigo dá um sentido completamente diferente às coisas e faz-me sentir como se finalmente houvesse um propósito. Se continuares a ser um bom rapazinho, vemo-nos dentro de cento e vinte e um dias!

junho 05, 2010

Gostar do Verão *

 
Ele fez uma pausa para poder registar a minha satisfação.

Já andava (não andamos todos?) há uns tempos à espera disto. Com um Inverno rigoroso e longo como o último, é óbvio que o desejo de caracóis e sardinhas estava prestes a ultrapassar os limites do suportável. A desvantagem é apenas que nada disto pode ser acompanhado por uma mini bem fresca ou um copo de vinho verde - é que o Vicente ainda não bebe e assim continuará pelos próximos dezoito anos (!). Já tinha provado caracóis mas neste feriado aproveitei para juntar-lhes uma mão cheia de sardinhas que não me podiam ter sabido melhor. Pelo menos o peixe não me dá que pensar, já que a grelha já se encarrega de eliminar os potenciais inimigos.

O único problema deste Verão é que, exactamente quando chega o tempo em que as mulheres (e os homens, eu sei, mas com menos dramatismo) mais desejam estar em forma, as formas do meu corpo estão a mudar drasticamente. Antes, estava grávida, sim senhor, mas a barriga era discreta, muitas vezes imperceptível. Neste momento, a minha felicidade está à vista de todos, o que torna as idas à praia numa verdadeira luta entre o dispo e o não dispo. Não nego que é uma altura maravilhosa, especialmente agora que as cambalhotas do Vicente já são visíveis e pronunciadas mas também não posso ignorar que é necessário algum tempo, alguma paciência para tolerar estas mudanças e relativizar o que vejo no espelho. Impedida de correr e com apenas uma leve sessão de hidroginástica por semana, a única coisa que posso prometer é tratar bem de nós. As gorduras localizadas têm que se haver comigo no Outono.

* ou porque é que ultimamente há muitos posts sobre comida

maio 31, 2010

Coisas que me alegraram os últimos dias de férias

O olho dele segue-me para todo o lado.

Vá, tirando o pequeno pormenor (enorme para mim, é a verdade) da total proibição de comer morangos e do regime ditarorial que me queriam impor (apenas três peças de fruta por dia e não pode comer fruta que não se possa contar...), tenho sido abençoada com um fim de Primavera tão rico em boa fruta que me cresce água na boca só de pensar. Espero estar já a contribuir para a educação da criança, para que ela cá fora lamba os beiços de satisfação sempre que a mãe lhe apresentar uma frutinha cozida.

(Entretanto, regressei ao trabalho para os últimos sessenta dias antes do apocalipse final. Esta semana de férias foi uma belíssima amostra do que serão os meus dias antes do Vicente nascer. Até me deu para passar a ferro (umas três máquinas de roupa!), motivo pelo qual a minha mãe ia chorando de alegria e eu ia morrendo de tédio. Já preparei o meu calendário para ir riscando os dias que faltam até se fechar este capítulo da minha vida, que, a avaliar pelo primeiro dia, vai ser mais longo do que eu desejava. Há poucas coisas a ocupar-me o pensamento - sardinhas, caracóis, dias de praia, a barriga cada vez maior, a minha pessoa preferida. E eu fujo de quem me quer desafiar a falar de contratos de trabalho e indemnizações e injustiças sociais porque, para me deprimir, basta ligar a televisão. E neste momento eu quero é ser positiva e acreditar que, como o Earl, o karma se encarregará de me devolver o que mereço. Se calhar já começou mesmo a devolver...)

maio 26, 2010

O Vicente vai à Aula Magna pela segunda vez!

O pai do Vicente tem um olho que só ele.

Ontem lá fomos nós, já uma família inteira composta por pai, mãe, filho, tia e tia postiça, até à Aula Magna para ver os The xx. A minha logística de concertos agora é bastante mais específica: já não me chega ficar longe das multidões e das confusões. Agora, preciso de estar perto das casas de banho dos sítios, pronta para voar se necessário for. E bem, também já não me vejo naquele sufoco da toda a gente à minha volta, portanto lugares sentados são a minha cena.

O concerto... Nós adorámos. O jogo de luzes estava impecável e criava a atmosfera certa para esta espécie de soturnidade dos The xx. Tocaram versões mais dançáveis e potentes das músicas do único álbum, num som mais cru e com graves que me fizeram temer pelo descanso do Vicente. Pareciam genuinamente surpreendidos pela recepção calorosa do público e agradeceram timidamente os aplausos e o entusiasmo entre músicas. Acho que resultam bastante bem como trio, mesmo estando à espera de ver pelo menos quatro pessoas em palco. O Vicente também deve ter gostado porque dormiu muito sossegadinho!

maio 23, 2010

Nem sim nem sopas

É dele, o olho atrás deste diafragma.

Esta coisa de estar grávida é muito gira, sim senhor, mas torna-se um bocado complicada se surgirem alguns problemas de saúde. Como estou proibida de fazer qualquer tipo de medicação sem consultar a médica (e mesmo consultando-a, que medicamentos e gravidez não combinam), ando há uma semana a gastar lenços de papel em menos de duas assoadelas, a tentar dormir completamente entupida e com os olhos pequeninos que dói. Esperava que a praia tivesse algum efeito benéfico mas a verdade é que, à parte de estar um pouco menos congestionada, continua tudo na mesma. Hoje fomos apanhar ar para a Baixa e para a Estrela mas até a meteorologia parece estar contra mim: depois do calor dos últimos dias, uma descida brusca das temperaturas lembrou-me outra vez do que é ter frio. E já não sei o que quero: se estar imobilizada, a bufar com o calor, se voltar a recorrer ao casaquinho de malha.

maio 22, 2010

Querido Vicente,

talvez tenhas sentido a minha enorme satisfação quando ontem comecei esta semana de férias. Neste estádio, em que já estás mais crescido, em que fazes umas acrobacias na barriga da mãe e em que já ultrapassámos a metade do tempo, saber-te sempre comigo deixa-me serena e tranquila porque sei que nunca, nunca mais estarei só. O pai saiu para trabalhar e é verdade que lhe sentimos a falta mas mesmo assim levei-te à praia. Bem cedinho, conseguimos fintar filas de trânsito e multidões e foi assim que tomaste o teu primeiro banho de mar antes das nove da manhã. Talvez a água esteja fria e eu ainda não saiba como evitar as ondas na perfeição mas antes só tinha que me preocupar comigo e agora existes tu e preciso aprender muitas coisas novas. Bem gostava de te ter nos meus braços mas contento-me com uma barriguinha que cresce a olhos vistos. Vamos descansar muito esta semana e tratar das coisas para que sejas bem recebido e amanhã levamos o pai à praia também!

maio 19, 2010

Hoje é o primeiro dia... blá blá blá

Bem, hoje é realmente o primeiro dia não do resto da minha vida, mas do meu percurso profissional nesta empresa. Ontem foi a comunicação oficial da data do fim e também o dia em que fiquei familiarizada com a figura jurídica do despedimento colectivo. O acontecimento foi essencialmente pacífico porque já era conhecido de todos, se bem que a data ainda estava no segredo dos deuses. E desde então me sinto dividida entre dois sentimentos radicalmente opostos: por um lado, uma incrível sensação de alívio por não ter que demorar muito mais tempo aqui, a ideia de dois meses de Verão plenos para disfrutar o meu filho às voltas na minha barriga, as primeiras férias a três antes de o ter cá fora; por outro lado, a incerteza gigante de não saber o que me espera, o facto de estar prestes a tornar-me mãe e desempregada ao mesmo tempo, o afastamento involuntário do mundo do trabalho.

Para mim, é evidente que não quero reter um posto de trabalho apenas por estar grávida: gostava de ser apreciada pelo meu esforço, por tudo o que aprendi nestes quatro anos, pela diplomacia e força de vontade, pela entrega mesmo quando me apetecia desistir. Não é exactamente a ideia de uma indemnização (que será mínima) que me está a seduzir nem também a ideia de castigar a empresa por uma alteração de mercado e negócio impossível de controlar. É que acho que, no meio disto tudo, há aqui uma grande falta de gratidão e de reconhecimento que eu pensava que merecia. Só que o mundo é mesmo assim e agora já não pessoas insubstituíveis: há apenas pessoas mais baratas e mais maleáveis, capazes de acrobacias incríveis para manter um posto de trabalho mal pago. Compreendem se disser que não tenho podido aguentar o noticiário nos últimos dias: a crise e o desemprego e a gritante e crescente falta de oportunidades, um mercado de trabalho em permanente sufoco não me fariam levantar da cama. Para isso, olho literalmente para o umbigo e penso neste Vicente sempre a crescer - havemos de ser os três muito felizes, no resto da nossa vida.

maio 16, 2010

A Naifa (uma e outra vez)

As fotos (nem precisava dizê-lo) são dele.

Este namoro já vai muito longo. São cinco anos a musicar-me os desgostos, os Sábados cheios de Sol na Estrela, os dias de folga durante a semana, as viagens diárias para o trabalho, as alturas em que mais precisei de esperança. E esta paixão não esmoreceu nem arrefeceu com o passar dos anos, antes foi sendo cada vez mais definitiva, mais madura. Cada música carrega já memória sobre memória, cada música já foi cantada por mim como se algum dia pudesse emular a entrega e o calor da Mitó, cada poema foi já admirado pela forma certeira como me falou ao ouvido. E só não continuo tão apaixonada como na primeira vez porque abro sempre o coração para me deixar conquistar de raíz.

Esta sexta-feira foi noite de os ver uma vez mais, agora sem João mas com a Sandra e foi um reconforto ver a música d'A Naifa a erguer-se novamente em cima dum palco, primeiro tímida, depois segura de si mesma. Gostei dos três momentos do espectáculo que entendi como o luto inicial, o regresso à vida a e a homenagem ao João, merecida e muito sentida por todos quantos estavam naquela sala. A Naifa resiste porque é uma personalidade com direito próprio, alimentada pelo espírito dos que a idealizaram tão única e tão especial, imune à passagem do tempo. Com a belíssima oportunidade de falar um pouco com o Luís Varatojo, fiquei rendida à simplicidade com que se cria por aqueles lados e muito descansada porque sei que A Naifa, como a gente, vai continuar.

maio 12, 2010

O Vicente foi a banhos

Ontem fui à minha primeira aula de hidroginástica para mamãs (sim, ouvi tantas vezes esta palavra ontem que acho que não consigo designar-me de outra forma), só para experimentar. Já que não me convém correr na Estrela como era costume e eu preciso mesmo de alguma disciplina e exercício, tentei esta modalidade e acho que até gostei. A desvantagem é ser uma aula de grupo (não muito grande, é certo) e como tal promove-se aquele tipo de convívio um pouco artificial sob o pretexto de que temos todas algo em comum: sermos futuras mamãs (cá está!). O instrutor é muito simpático e preocupado com as condições em que decorre a aula e gosta de fazer as alunas rir, o que só abona a favor da experiência.

Agora, a parte que verdadeiramente me incomoda é o pós-aula, nos balneários. Eu sou pouco social mas sou ainda menos social quando estou despida, é compreensível. Agora, se acrescentarmos a isto o facto de estarmos todas grávidas e os nossos corpos se comportarem de acordo com isso... Bem, you get the picture. Eu tento, porque tento, parecer natural e despreocupada mas a barriga e as imperfeições fazem-me ser demasiado auto-consciente. É claro que isto se supera e, acima de tudo, se ignora, caso contrário estaria a vedar a mim mesma este tipo de actividades sociais. Mas enfim, se os senhores da piscina pudessem pensar em compartimentos individuais para as mamãs (argh!) poderem trocar de roupa e poderem tomar banho a sós, aqui ficava uma barriga imensamente agradecida. Enquanto isso, eu lá vou sendo púdica para outro lado.

maio 10, 2010

Sobre a noite de ontem (ou a forma dissimulada de mostrar como me sinto orgulhosa)

Ao Vicente já prometemos dar total liberdade religiosa e clubística, especialmente tendo em conta as diferenças que conseguimos reunir cá em casa. Assusta-me a ideia de inscrever o pequeno na catequese e muito mais depois dos episódios de escândalos e de hipocrisia que se sucedem na Igreja Católica, apenas para falar na religião em que fui acolhida. Mas uma coisa não podemos ignorar: ele vai nascer no ano em que o Benfica volta a ser campeão e, apesar de estar longe de um facto cientificamente comprovado, costumamos simpatizar com o clube em maior maré de sorte enquanto crescemos.

[é agora que o pai da criança vai aos arames, depois de ontem ter - a custo e de modo pouco efusivo - celebrado a minha felicidade!]

maio 08, 2010

Subir às árvores

Até agora (e sublinho que é apenas até agora, visto que a gravidez se encontra exactamente a meio), ainda não senti nenhum desejo especial (bem, talvez por um bom frango assado) nem me apeteceu nenhum capricho a altas horas da madrugada (o que o pai da criança deve certamente agradecer). Mas tenho uma espécie de fixação com quase todo o género de fruta, mesmo tendo sido aconselhada por uma enfermeira do tempo da outra senhora a nunca comer mais do que três peças por dia (!). Ele é bananas, mangas, meloas cantaloupe, kiwis a monte, sumo de laranja todas as manhãs e, no outro dia, nêsperas.

É mais ou menos por isto que, quando espreito para os quintais nas traseiras da nossa casa, fico meio nervosa por ver aquelas árvores carregadinhas de frutos aparentemente maduros e com vontade de trepar árvore acima para encher os bolsos de nêsperas. E quem diz estas árvores diz as laranjeiras nos quintais à beira do nosso caminho para Lisboa, diz os morangos que ficam por apanhar, as cerejeiras que começam agora a florir. Consolo-me a pensar que podia ser pior: podia apetecer-me batatas fritas a toda a hora ou algo inusitado a altas horas da manhã. E vivo a pensar no dia em que poderei voltar a comer morangos. E sushi. E também já bebia uma mini, vá. Mas descasquem-me uma manga e uns dois kiwis e eu já fico contente.

maio 06, 2010

Chama-se Vicente

 
Tem dezoito semanas e um coração de cavalinho que bate a 152bpm. E sinceramente, depois de o ver hoje, tudo, tudo o resto me pareceu trivial.

maio 04, 2010

Nota 10

Acontece que chegou aquela altura do trimestre em que é suposto eu avaliar e discutir os desempenhos das pessoas da minha equipa. Há um formato criado internamente para que todos possam ser avaliados segundo os mesmos critérios e para que assim seja mais fácil e mais justo pontuar aquilo que consideramos importante. Não vem ao caso o facto destas avaliações (descobri nos últimos tempos) não terem quase nenhuma repercussão em recrutamentos internos - alguém tem que as fazer e esse alguém sou eu.

Se antes, apesar de um pouco contrariada pelo número de colaboradores ou pelos prazos apertados, me dava algum gozo a pô-las de pé, neste momento elas assumem verdadeiramente o carácter de inutilidade sobre o qual já antes me tinham avisado. Não tenho nenhum caso especialmente grave a nível disciplinar e as avaliações são, no geral, até bastante boas. A única coisa que me está a custar é que não servem absolutamente para nada: não posso ajudar ninguém a progredir, a crescer dentro da empresa simplesmente porque esse futuro não nos está reservado. E então escrevo uma série de palavras ocas, ocasionalmente de louvor, noutras vezes sobre áreas a desenvolver, avalio o trimestre inteiro de pessoas que não sabem, na verdade, o que lhes vai acontecer. Que reacção espero eu delas? Pois que se estejam nas tintas para aquela hora de conversa e que queiram saber quando é que o fim é o fim.

Tenho muita, muita pena que o estado de graça da minha gravidez tenha que ser partilhado com o absoluto desastre da minha vida profissional do momento. Tenho medo que, quando um dia voltar a olhar para trás, as desilusões constantes desta recta final, o estado de apatia do qual não posso fugir possam manchar aquela que é muitas vezes descrita como a melhor altura da vida de uma mulher. Tenho medo de confundir as coisas e não recordar a felicidade extrema que sinto quando vejo a minha barriga a crescer, a ansiedade de ver esta pulguinha e ouvir o seu coração de cavalinho - tudo em troca de ter sido apanhada nesta trapalhada a que chamam mundos dos negócios. Eu sei que, quando se fecham portas, abrem-se janelas. Mas abrem-se exactamente para o quê?

abril 30, 2010

Aos Sábados ao Sol iv

Os fins de semana em que ficamos por cá têm sido muito bons, especialmente porque podemos dispensar os quatrocentos quilómetros das viagens. É claro que não matamos saudades da família mas acabamos por descansar bastante mais e aproveitar melhor o tempo. Tem dado para ver algumas das exposições aconselhadas por todo o lado (este Sábado foi esta), almoçar, passear e mesmo dormir a sesta com os amigos com uma das mais maravilhosas vistas do momento e relaxar o suficiente para começar a perceber que isto já é uma barriga de grávida! Saudades das noitadas? Nem por isso, especialmente quando penso na maravilha que vai ser ter a Pulguinha cá fora!

abril 29, 2010

Correr na Estrela #6

Bem, agora já não é propriamente correr. Não é que seja totalmente contra-indicado mas prefiro ser uma mulher prevenida e não arriscar demasiado no exercício. Vamos andar durante os habituais trinta e três minutos (este número pegou, já nem sei bem porquê) e a verdade é que já me custa um pouco a respirar e sinto-me necessariamente mais pesada. Esta semana, com o regresso do bom tempo, o jardim estava apinhado de crianças - de carrinho, de colo, com triciclos e bicicletas, com os pais, irmãos e os avós, endiabradas e sossegadinhas - e de pais (presumivelmente) partilhando experiências e tropelias. Agora que já tenho companhia e que os dias são substancialmente mais longos, sabe mil vezes melhor andar por lá e seguir o conselho da moça brasileira que dizia que andar é que é.

abril 27, 2010

Preparem a estatísticas: aqui vou eu!

Desde a manhã de ontem que estou obcecada com uma palavrinha bastante vulgar mas não menos importante: desemprego. A verdade é que eu já conheço este desfecho quase há um ano mas também é certo que, até há umas duas semanas atrás, eu acreditei piamente que a empresa seria inteligente o suficiente para rentabilizar o potencial humano e aplicá-lo noutras áreas com necessidades. Isso não irá acontecer, já o sei desde esta mesma altura. A empresa prefere recorrer a outros métodos (transparentes na sua essência mas obscuros nos seus resultados) para preencher vagas existentes, mesmo quando os candidatos internos já deram inúmeras provas das suas capacidades.

Bem, a esta embrulhada toda acresce que estou, como é público, grávida. E, se por um lado não gostaria de ser vista como a desgraçada que vai ficar desempregada e com um filho nos braços, por outro também sei que tenho direitos e que legalmente a decisão do meu despedimento poderá ser controversa. Mas não é a legalidade ou a ausência dela que me estão a preocupar (estou a tratar de reunir informação suficiente para contestar essa decisão): é a forma absolutamente desinteressada e glaciar como o futuro de todas estas pessoas está a ser tratado. Não se trata, obviamente, de um fenómeno em larga escala porque não estamos a falar de milhares de pessoas. Mas, exactamente por isso, sempre tive uma esperança (muito ténue, muito lá no fundo) que toda esta situação pudesse ser tratada de uma forma mais humana, mais ponderada e sobretudo mais orientada para uma esperada reordenação dos recursos. Saber que defendi as políticas da empresa durante todo este tempo, saber que dei a cara e a minha palavra, garantindo que o futuro passaria certamente por outro lugar aqui dentro faz-me sentir nauseada. Ser a face da máquina que mastiga as pessoas e as cospe quando já está farta não estava, decididamente, nos meus planos.

E portanto fui apanhada num nó cego: se sair voluntariamente perco subsídio de emprego e indemnização; se ficar até ao final e assistir aos últimos momentos de um departamento em agonia, recebo uma indemnização e um chuto no rabo; se me candidato a outros empregos e, honestamente, explico a minha condição actual, sou rejeitada nos primeiros segundos. Portanto, e agora deixem que suspire um bocadinho, é assim que estamos ou vamos estar - livre para gozar a minha pulguinha, entregue involuntariamente às prestações sociais. Pelo menos já não chove.

abril 23, 2010

A Pulguinha foi ao Coliseu

As fotos são dele, como sempre.

Resolvemos ver o concerto das galerias porque eu não posso estar demasiado apertada, sufocada por multidões e porque preciso ter um acesso privilegiado a uma casa de banho. Gosto de estar lá em cima porque consigo ver tudo sem ter que me esticar, o que, tendo em conta a minha altura, acontecia em todos os concertos. Já ouvi malta a dizer que a noite de ontem foi como uma reunião de velhas guardas e eu acho que confirmo: lá do alto, era impressionante o número de carecas na plateia e à saída também não era de desprezar a quantidade de cabelos brancos por degrau.

Eu gostei do concerto e acho que a Pulguinha também. Digo isto porque as vibrações não foram tão potentes como esperava e o som talvez um pouco menos brutal. Mas ontem descobri que não estou pronta para os festivais de Verão: as constantes idas à casa de banho e o desconforto de estar em pé já é grande aos quatro meses, nem quero imaginar o que vai acontecer daqui para a frente. A barriga parece crescer diariamente e à noite está especialmente grande e em actividade. Dizem que nos próximos tempos bebé e barriga darão um salto e eu já só ando a contar o tempo que falta para a próxima ecografia e para saber se é menino ou menina. São só mais treze dias! Concerto agora? Sim mas sentada!

abril 22, 2010

Entre trabalho, concertos e a escola...

... só tenho a dizer que o Mundo se divide em dois tipos de pessoas: as normais e as que usam chinelos mal vêem um raio de Sol ou sobretudo quando caem uns pingos de chuva.

[dedicado à senhora do metro hoje de manhã que calçava umas belas Havaianas e cujo chapéu de chuva ainda pingava]

abril 19, 2010

Sobre o cansaço

Eu admiro verdadeiramente as pessoas que fazem uma licenciatura inteira a trabalhar ao mesmo tempo. Imagino o que são cinco anos (ou três anos, agora) acordando cedo, lutando pela produtividade do país, aturando colegas chatos e rindo com os mais bem dispostos para depois ainda ter umas seis horas de aulas. Não interessa que quem faça este sacrifício o faça por mera realização pessoal ou por exigências profissionais: interessa é que resista.

Sonhei pela primeira vez com o mestrado ainda o meu emprego estava certinho, garantido, no mesmo sítio de sempre. Sabia que o poderia pagar e conclui-lo sem grandes implicações para o meu desempenho profissional. Depois de o começar, descubro que ainfal não, que afinal tudo tem um fim e o deste emprego seria em Maio deste ano. Fiz as contas à vida e concluí que sim senhor, ainda era possível e que, ficando desempregada na pior das hipóteses, sempre tinha tempo para a tese.

Mas, e há sempre um mas, afinal tenho uma pulguinha dentro de mim. E a verdade é que, durante os primeiros meses da gravidez, foi muito difícil encontrar as forças e a motivação para continuar. Trabalhar oito horas e depois ainda contar com seis horas de aulas seguidas, ainda que só dois dias por semana, foi coisa para me desanimar logo à partida. E isto era nos dias bons, em que as náuseas não deixavam o ser racional que há em mim funcionar em condições. Era um cansaço tal, uma má disposição que me obrigou a escolher sempre os lugares mais perto da porta (para fugir para a casa de banho, se acontecesse um desastre), a vontade quase sobrenatural de me enfiar num quarto escuro. Mas pronto, tive sempre a felicidade de ter quem me empurrasse para a frente (quase literalmente!) e a coisa lá se foi levando.

A verdade é que na semana passada, regressada de umas férias tranquilas e de um Sábado passado na praia, não me sentia preparada para retomar o ritmo trabalho + aulas e isso deu cabo do resto: das caminhadas que não fiz, das noites em que devia ter dormido, de tudo aquilo que não escrevi, das noites em que devia ter saído, do livro que está quase quase a terminar. Resta-me acreditar que à segunda semana as coisas se compõem ou que já não falta quase nada para chegar Junho. Eu sei que dizem que quem corre por gosto não cansa mas eu confesso, tenho andado a sucumbir ao cansaço.

abril 13, 2010

Ain't it the life

Se eu pudesse escolher, a minha rotina diária a partir de agora seria pouco diferente deste dia. Acordaria cedo, teria boleia com amigos, apanhava os últimos raios de Sol da manhã, faria uma dieta de apenas peixe e frutos do mar, refrescava a garganta com sangria de espumante (talvez daqui a um ano...), voltaria para os últimos raios da tarde até que a brisa já fresca nos mandasse embora e fecharia o dia com mais peixe e frutos do mar. A barriga ainda não pesa mas já é (um pouco) proeminente e, apesar da pressão sobre a bexiga da menina, não incomoda muito nem impede que se passe o dia inteirinho fora de casa. Foi outra barriguinha amiga que nos levou mas no caso dela já não se fala de pulguinhas mas de um bebé quase inteiro e é bom fantasiar sobre como vão os dois crescer juntos. Já sei que a chuva vai voltar mas não faz mal, já consegui um cheirinho do que vai ser o meu Verão :)

abril 05, 2010

Levar a pulguinha a conhecer sítios bonitos


Ela poderá ainda não se aperceber mas certamente sente a satisfação da mãe quando vai a sítios que lhe enchem a alma. Um desses sítios fica bem no alto, um castelo que às vezes se esconde entre as nuvens, espalhando a magia entre Portugal e Espanha. É uma incrível sensação de elevação (e não pela óbvia altitude), os olhos a perderem-se entre a planície e a Estrela ainda com neve num céu tão limpo, o Sol do final de tarde ainda sobre a vila. Pulguinha, não nascerás aqui mas será sempre esta a tua terra.

abril 04, 2010

Sobre crescer *

No ano em que faço trinta e um anos e vou ter um filho, acho que tenho já alguma autoridade para falar sobre o crescimento. E sei que ele não é medido pelo número de casamentos, responsabilidades profissionais ou aumento da prole. Durante muito tempo recusei-me a crescer, ou pensava eu. Até a assinatura do cheque que pagou a minha casa me provocou alguma urticária, um marco colossal do momento em que se fechavam as portas da minha adolescência e se iniciava a descida ao inferno dos adultos. Mas enganei-me e depois desse dia, depois de me sentar numa sala com notários, advogados, proprietários e os meus pais fiadores, depois de ouvir a leitura de um contrato de que não entendi mais do que duas ou três palavras e olhar sobre a paisagem cinzentamente urbana da Praça de Espanha, fiz muita asneira. E, consequentemente, não cresci. Não como estava pré-estabelecido, não como se esperava de mim, não como via os outros crescerem e fiquei pensando que talvez isso não me estivesse destinado.

Não me casei, não me tornei amarga e cinzenta, quis criar os meus próprios rituais. Não engravidei, não chegava cedo a casa e não respeitava os ideais do mundo dos negócios. Não tinha um relacionamento feliz (aliás, sempre fui exímia a escolher as pessoas mais erradas), não me tinha tornado numa dona de casa exemplar e continuava a não querer crescer. Mas a verdade é que toda essa viagem, todo esse trajecto de vazio em vazio, todos os dias em que cheguei a casa e ouvia o eco dos meus próprios passos me estavam a transformar radicalmente. Já tinha deixado de estar triste para estar apenas conformada com a ideia determinista que uma vida normal não era para mim. E via os meus amigos a casarem e a terem filhos e a mudarem de casa e a investirem no seu futuro e eu nada, nicles, continuava no (des)conforto da Lapa.

Aquilo que me fez crescer foi eu desejar o melhor para mim. Foi começar a pensar se era assim que eu queria continuar e tornar-me daquelas pessoas que não são ilhas mas antes icebergues à deriva, incapazes de controlar o seu rumo e prestes a chocarem contra a costa. Foi começar a perceber que eu podia efectivamente mudar a minha vida, eu é que tinha o poder de alterar as coisas, de me envolver em actividades que me davam prazer, de abrir-me mais ao Mundo. E quando fiz isso, quando resolvi que quem manda aqui sou eu e dei esse metafórico murro na mesa, cresci. A questão não é ter dinheiro nem é ter status nem sequer é encontrar quem nos preencha: é mudarmos a nossa vida com as nossas mãos, sem esperar que nos ajudem, nos aconselhem, nos incentivem. Tudo o resto muda a partir daí. Crescer é ter a vida em marcha, é perguntar a nós mesmos se é isto que queremos, é não ter medo de admitir que fizemos mal. E para este crescimento não são precisos aumentos nem viagens nem apartamentos novos. É só não acreditarmos que fomos destinados a ser um falhanço, especialmente quando há cinquenta mil pessoas a quererem provar-nos o contrário.

E crescer é não recusar desafios. Se vem aí um filho, há melhor coisa a fazer que desejá-lo como loucos e sonhar com o dia em que o vamos abraçar? Mesmo sabendo dos cocós que aí vêm e das saídas à noite e de todas as vezes em que não nos vamos entender e as noites velando-lhe o sono? Crescer também é abraçar aquilo que a vida nos dá e usá-lo o melhor que podemos. Quem se preocupa com os terríveis trinta quando, por dentro, ainda nos sentimos com os saudosos dezoito? Mesmo que o corpo já não o confirme... ;)

* para ti, que ainda não sabes quem és

abril 03, 2010

Em Sexta-feira Santa vimos o Diabo na Cruz

Fotos dele

Foi o dia em que retomei alguns hábitos antigos em Portalegre. Já há muito tempo que não me sentia em condições de sair para um concerto, ver gente (a mesma de sempre, na verdade, porque aos concertos vamos sempre os mesmos), chegar a casa depois da uma da manhã. Estes primeiros três meses de gravidez deixaram-me debilitada o suficiente para não querer ver nem falar com ninguém, enfiada no meu casulo e guardada pelo aquecedor. Mas, agora que a curva é ascendente, tudo mudou e de repente aguento estar a pé até mais tarde e ver gente e foi maravilhoso (a sério!) o número de felicitações que recebi ontem.

Fomos os três (eu, ela e ele) ver os Diabo na Cruz, uma daquelas super bandas que só conhecia de nome e de single na rádio, apesar de conhecer o trabalho a solo de alguns membros. Tinha lido a entrevista do Jorge Cruz ao Ipsílon e lembro-me de ele dizer que, no fim, a História estará ao lado daqueles que celebram a língua portuguesa (mais coisa, menos coisa). E ontem se provou que se calhar isso até é verdade e assistimos nos dias que correm à História a ser escrita em directo com esta recuperação das raízes populares da música, sem cedências nem contrafacções, modernizando-as apenas no sentido em que as tornam novamente actuais. Para mim foi um regalo ouvir alguns ritmos já ancestrais ou as lendas cantadas num Português impecável e sentir vontade de dançar. Agora, estou ansiosa por ouvir as versões de estúdio e tenho a certeza que serão bela companhia nas viagens de Primavera que aí vêm.

março 31, 2010

U-a-u!

Uma das coisas mais engraçadas da gravidez é a maneira como o simples facto de estar grávida emociona e entusiasma as outras pessoas. Ainda ontem estava prestes a cortar o cabelo e tratar das minhas unhas quando, questionada sobre coloração de cabelo, mencionei que não seria muito seguro porque estou grávida. Nem imaginam os gritinhos histéricos das três empregadas do salão, todas elas mães e todas elas felizes por verem mais uma a juntar-se às suas fileiras. Um delas, brasileira com tudo no sítio, deu-me o segredo da gravidez e da dilatação perfeitas (!): dormir bem, comer de três em três horas, beber muita água e andar uns dois quilómetros por dia. Confesso que, inicialmente, isto me pareceu mais uma receita de dieta do que propriamente conselhos para uma gravidez saudável. Mas, pensando bem, faz muito sentido e vai especialmente de encontro a esta ideia de tranquilidade como que (ainda) espero viver este estado.

Depois, e já mais no campo da palhaçada, temos o dia-a-dia no escritório. Não há uma jornada que passe sem ouvir 784 sugestões de nomes para a criança, que vão surgindo conforme se vai tratando dos casos dos clientes. Gostei especialmente de Ulfo (que obviamente não deve ser permitido nos nossos registos) e de Baudolina, que por acaso consta numa das listas de nomes que já consultei. Isto anima-me os dias que, caso contrário, estariam completamente à mercê das miseráveis condições metereológicas desde Novembro. Bem isso e o facto de daqui a pouco mais de 24h estar de férias e poder, finalmente, apenas dormir e curtir a minha barriga a crescer em câmara lenta juntamente com o senhor que contribuiu para a geração desta pulguinha. Vamos passear e ele quer que o fato de banho vá na mala mas eu já lhe expliquei que o mais provável é eu não caber mais nele. E além disso, se o tempo se mantiver assim inconstante, a semana há-de ser mais chuvosa do que em Outubro. A única diferença é que desta vez seremos três a dominar a gloriosa arte de não fazer nada...

março 28, 2010

O ponto alto da minha semana

Os dias têm corrido sem darmos por isso. No trabalho, e com as coisas a aproximarem-se (demasiado) lentamente do fim, escasseiam as tarefas verdadeiramente importantes e, acima de tudo, que me garantam ainda alguma motivação. Das duas entrevistas a que fui nos últimos tempos, nem sinal. É claro que nenhuma empresa no seu perfeito juízo quer contratar uma grávida. Não consigo deixar de pensar que, apesar de ser uma discriminação filha da mãe, é a atitude mais lógica e enfim, acho que já me habituei à ideia de que, neste momento, ninguém me quer.

Mas a quem é que isto interessa quando se pode comer uma fatia deste bolo? E não interessa especialmente a ninguém quando o mesmo é acompanhado de um copo de leite gelado num final de tarde que quase soube a Primavera. Se antes já tentava viver desta maneira, agora estou ainda mais fã de apreciar as pequenas e simples coisas da vida: as calças que deixaram de me servir, a única pessoa que quero ao meu lado, o sumo de tangerina da minha mãe logo pela manhã, a maravilhosa mudança da hora, o meu diário de grávida, quatro dias de trabalho antes das férias. A minha vida agora mede-se em semanas e esta é a décima terceira do resto da minha vida.

março 23, 2010

Gravidez 101 - Habituar-me à roupa

Só foi preciso a minha madrinha aventurar-se a dar o primeiro presente (no caso, foram dois: uma mantinha para embrulhar a pulguinha e o primeiro babygrow!). Depois veio a bisavó, que deu o babygrow fofíssimo. Depois a tia presenteou a pulguinha com uns sets de babetes que vão ser (de certeza) muito úteis e outro babygrow já maior. Eu ontem encontrei este conjunto e não resisti, trouxe para casa. Agora começo a deparar-me com a natural evolução das coisas e voilá: as calças começam a deixar de me servir. Hoje já tratei de arranjar umas que possam suportar a barriga que aí vem e me deixem mais confortável. A volta na montanha russa continua...

março 22, 2010

O Nico foi à tosquia!

Digamos que o senhor que nos vendeu o Nico se esqueceu de um pormenor muito importante: Ah, pois foi... Esqueci-me de vos dizer que devem escovar-lhe o pelo umas duas vezes por semana... Que até podia ser uma coisa menor não fosse o desgraçado do coelho ter ficado com rastas e nós gigantes no pelo a acumular durante três meses. Eu nem podia olhar para ele, tal era o emaranhado de pelo cinzento que ali ia.

Mas no Sábado o Nico encontrou um veterinário que o tosquiou e deu banhinho e lhe cortou as unhas. E de repente eu tinha um coelho totalmente diferente em casa, mais limpo e cheiroso, mais parecido com um coelho. E agora eu quero uma tosquia destas com frequência, para gostar sempre mais dele!

março 17, 2010

M. e alguns medos inexplicáveis

Bem, há muitas coisas que me assustam. Não gosto de muitos cães juntos, por exemplo. Fico nervosa só de pensar que me podem ferrar os dentes numa perna e depois apanho raiva e depois sangro até morrer... Não gosto de andar de avião nem de barco: eu sei que as probabilidades de morrer num acidente de viação são infinitamente maiores mas não consigo fazer nada. Tenho sempre medo de não ser a melhor em tudo o que faço e isto, não é difícil imaginar, tem-me valido valentes desilusões nos últimos tempos. Tremo quando estou nas passadeiras das Avenidas Novas e há gente que espera pelo sinal verde com a cabeça pronta a ser levada pelo 738 ou pelo 44 (já perdi a conta às vezes que pensei que ia ficar com a cabeça de alguém nas mãos...).

 Recentemente, sofri do medo de não me vir a tornar numa mãe como sempre imaginei. A má disposição era tanta, a minha debilidade tão grande, a ausência de forças tal que imaginei que talvez pudesse sentir algum tipo de ressentimento contra a pulguinha que aí vem. Só que os dias passam e a disposição melhora a olhos vistos, que é também como cresce a minha barriga. Já me pedem para lhe tocar e, apesar de discreta, já a sinto a desenvolver-se todos os dias. Este medo, por muito inexplicável que fosse, acabou porque a cada dia que passa o amor incondicional cresce e com ele a certeza que eu serei tudo o que conseguir. Continuo a achar que ter a cabeça arrancada por um autocarro não deve ser muito bom e os meus pesadelos ainda me dão algumas dores de cabeça. Preferia não precisar de andar de avião mas pelo menos já sei que o amor, mesmo que adormecido pelos enjoos e pelas náuseas, é gigante e não pára de crescer.

março 14, 2010

M. na cozinha VI

Agora que toda a gente fala das novas cozinheiras e nas iguarias que nos andam a empatar as dietas (não a mim, que a criança quer comer tudo a que tem direito), trago aqui umas fotos do improviso do jantar de hoje. Ora portanto, temos na imagem uma bela tarte com atum, uma daquelas misturas de legumes pré-feitas, molho bechamel e ovos patrocinados pela minha avozinha. O único problema é que eu tenho um bocado a mania quando estou na cozinha e sou incapaz de seguir uma receita à letra. Não gosto de seguir as quantidades e muito menos faço questão de usar todos os ingredientes. Não me tenho saído mal, é uma verdade, mas não perdia nada em ser um pouco mais disciplinada... É ir experimentando até que me saia o €milhões e possa abrir o meu próprio espaço de refeições ligeiras. Falei e disse.

março 13, 2010

Aos Sábados ao Sol iii

Desta vez, demos um salto ao Paço d'Arcos, depois de trabalhar umas três horas de manhã, para aproveitar o quê? o terceiro dia de Sol consecutivo? Depois de uma bela açorda de marisco, fomos os cinco caminhar um pouco no novíssimo passeio marítimo quase até Oeiras, abrindo caminho entre patins em linha, bicicletas com rodinhas e carros de bebés. Havia quem já tomasse banho nas praias da linha mas eu não arriscaria tanto: o Sol soube maravilhosamente mas ainda está longe daquele calor estival.

Agora que parece que os enjoos abrandaram definitivamente, sinto-me bastante mais optimista e feliz, especialmente quando posso passar os dias livres na lagartagem. Os meus pais medem-me o estado de saúde pela minha voz ao telefone e realmente tenho andado muito bem disposta. Uma das explicações é, obviamente, a reposição dos níveis de serotonina, ainda que ainda de forma insuficiente. Outra explicação será talvez o facto de ter ouvido pela primeira vez o coração da minha borboletinha de 3cm a bater. A bater não, a cavalgar, talvez por saber que estava a ser observada. Já tenho também as suas primeiras fotografias mas não sei, parece-me que só eu sei exactamente onde está ela/e, porque as imagens são sempre demasiado abstractas. Mas primeira lágrima (de alegria) já cá canta...

março 09, 2010

As Vicentinas

Foi com prazer e muita curiosidade que fomos (em bela companhia) hoje experimentar o bolo de chocolate destas irmãs (não sei se ainda se mantém a ordem religiosa) ali mesmo na rua de São Bento. Olhando a montra, certamente não me passaria pela cabeça tratar-se de uma casa de chá, já que o que se destaca são as velharias à espera de serem recuperadas por um qualquer coleccionador. Acho que iniciámos, talvez inconscientemente, uma demanda pelo melhor bolo de chocolate lisboeta e até agora temos bons candidatos (o do Vertigo também foi digno de memória!). Venha o próximo que a criança parece estar a gostar!

março 08, 2010

M. ainda numa espécie de limbo

Não é que tenha decidido emigrar ou hibernar de vez até que as baixas pressões e os sistemas frontais nos possam dar tréguas. Não, não me enfiei debaixo de cobertores a lamentar profundamente a duração e gravidade deste Inverno, cheia de saudades dos Marços em que já podíamos usar uma t-shirt ou ir até à praia em Carcavelos.


Não tenho ligado o computador, é apenas isso. Eu, que passava dias a fio com ele ligado, ora pirateando coisas, ora estando apenas ausente, nem sequer tenho usado o botão on/off. Também nem sequer tenho saído, já que raramente ultrapasso as dez da noite ainda de olhos abertos, capaz de raciocinar ou apenas ver os Cops. Não há nada a fazer senão aceitar este descanso auto-imposto, esta moleza absolutamente incapacitante agravada pelas drogas que me impedem de vomitar. Não é animador, eu sei, mas posso jurar que hoje me aguento melhor do que há umas duas semanas atrás. As minhas actividades de lazer têm-se resumido a duas ou três páginas do livro nas salas de espera dos hospitais ou da biblioteca da faculdade que me vai obrigar ao maior esforço de que há memória, prolongando as aulas até à meia-noite.


O meu útero anda de candeias às avessas com a minha bexiga e portam-se muito mal os dois - tão mal que nem sequer me deixam dormir e há muito que já desisti de prender o edredon debaixo do colchão porque as voltas que dou na cama desfazem toda a obra de que antes me poderia orgulhar. Já não sei se estou a criar uma borboleta ou um morceguinho mas amanhã vou espreitá-lo outra vez e a verdade é esta - mal posso esperar!