agosto 04, 2010

Mudar!

Andámos (andamos?) em mudança. Aproveitaram-se os primeiros dias da tal liberdade para, com ajuda dos avós do Vicente, preparar a casa para melhor o podermos receber. É verdade que a minha condição já não me deixa ajudar como gostaria mas a verdade é que foram dias de algum cansaço e bastantes dores no final do dia, como se fosse uma velhinha com as articulações gastas pela experiência. Mas, ajudando como posso, sinto-me orgulhosa do espaço que temos vindo a tornar cada vez mais dos três, prontos para acolher o pequenino que aí vem. É verdade que algumas questões de logística ainda não nos deixaram terminar o espacinho do Vicente mas temos já as ideias formadas na cabeça, algum material comprado e, agora que vamos estar ambos de férias, é deitar mãos à obra. Dizem que esta é a altura ideal para estas actividades, bem como para a organização da mala para a maternidade, coisa de que também já tratei.  Começa a andar tudo demasiado depressa e é como se ele pudesse chegar a qualquer hora... Afinal de contas, estamos a falar de apenas 62 dias (numa data ideal) até termos nos braços o nosso bebé!

julho 29, 2010

So this is goodbye

Estou há uns três dias a arrumar a minha secretária. Já deitei os manuais e a papelada fora, já recuperei todas as variedades de chá que ficam para o Inverno, já devolvi todo o economato que não me fez falta e já deitei as guloseimas fora. Só me resta amanhã arrumar a mascote no saco e sair.

Amanhã a esta hora eu serei apenas mais uma desempregada, um fim que já se tinha anunciado há um ano mas no qual nunca quis acreditar até há uns meses atrás. Saio desta empresa de cabeça erguida, consciente de que fiz sempre o meu melhor, mesmo nos momentos mais difíceis e em todas as alturas que escolheram para me desiludir um pouco mais. Saio mais experiente mas também mais cínica e deixo para trás, quem sabe arrumada nalguma gaveta do side desk, parte da ingenuidade com que entrei aqui em 2006. Acumulei conhecimento sem preço, empinei formações em gestão, aprendi a contar com a inevitabilidade das pessoas mas nunca, nunca deixei de me surpreender. Viajei em negócios algumas vezes, vi-me obrigada a mentir e a ser mais transparente, avaliei e fui avaliada, subi a pulso numa cadeia hierárquica predominantemente horizontal. Nos últimos anos, passei indiscutivelmente mais horas com esta equipa do que com a minha família e amigos e por isso aprendi a conhecê-los e a diferenciar o trato entre eles: apanhei-lhes as manhas, adivinhava-lhe as tristezas mas nunca consegui que falassem de tudo e foi essa a minha grande derrota.

Daqui a umas horas, estarei livre mas desempregada e isso assusta-me, embora tenha passado os últimos meses a convencer-me que não. Sei que estou ansiosa porque ultimamente custa-me a respirar cada vez que atravesso a fronteira imaginária que separa este escritório do desemprego e já nem o ar condicionado me vale. No fundo, sei que, se só puder contar comigo neste futuro incerto, não estarei mal apoiada. Sei que arregaço as mangas para o que for preciso, sei que não páro de investir em mim e que, livre de toda esta pressão, serei uma mãe mais presente para o Vicente que está quase aí. Mas é duro na mesma e é, acima de tudo, muito frustrante saber que tudo o que fiz até agora não me segurou lugar nenhum. Mas se calhar não é bem desemprego, são férias. E se calhar não serão tempos mortos, que as dissertações não se escrevem sozinhas. Só que custa muito fechar esta porta e ando à procura duma maneira de não hesitar amanhã. Quando ouvir a porta bater, terei na mão uma liberdade infinita e não sei o que hei-de fazer com ela.

julho 26, 2010

O Vicente passeou pela Regaleira e banhou-se no Magoito!


O meu motorista e companheiro de passeio continua de máquina em punho.

Se há coisa que este Verão aprendi a agradecer foi o facto do meu pai ter insistido para comprar um carro com ar condicionado. Não é que o use sempre mas, em dias como o de hoje (41º na zona de Lisboa?! Mas ao que isto já chegou...), já me é completamente indispensável.

A verdade é que o nosso programa não foi grande ideia mas apenas por uma razão: eu sou uma mulher grávida de sete meses e tenho os meus meios de locomoção severamente afectados. Se me querem ver sem fôlego, é darem-me uns poucos lances de escadas ou uma subida mais acentuada e pronto, o facto de ter que respirar por dois afecta-me um bocado. Ora, posto isto, passear pela quinta da Regaleira e dar um mergulho no Magoito constituem um programa maravilhoso, especialmente quando estão uns 25º e se está no pico de forma. Adorei passar este dia fora de casa, mesmo com as temperaturas assassinas mas, chegada agora ao final do dia, estou quase incapaz de me mexer e desesperada por uma massagem na zona dos rins. O bebé Vicente porta-se muito bem nestes passeios e só dá sinais de actividade quando a mãe se senta a descansar um pouco. Acho que está crescido porque os movimentos na barriga da mãe mudaram bastante e são mais arrastados agora.

(Eu disse mesmo sete meses?! Bem, em alternativa posso pensar que faltam 71 dias. Ou até mesmo 10 semanas e um dia. Estou indecisa entre pensar que o tempo passa sem eu dar conta e lamentar-me do que ainda falta para vir...)

julho 24, 2010

Fazer ouvir a nossa voz

O meu cartão vermelho foi fotografado por ele.

Por norma, não sou mulher de fazer campanhas nem de querer impor as minhas convicções a outras pessoas. Gosto de discutir, é certo, mas normalmente fico-me por aí. Só que desta vez apetece-me mesmo falar sobre isto, nem que seja porque me parece cada vez mais absurdo que isto continue a acontecer em pleno século XXI.

Esta é a forma que encontrei para expressar a repulsa que sinto pelos casos de violência doméstica, quer se manifestem física ou apenas psicologicamente, sobre homens ou (mais frequentemente) sobre mulheres e crianças. Não há nenhuma relação nem nenhum laço de parentesco que justifique a aceitação e o encobrimento de actos de violência ou de humilhação. Nem mesmo filhos, especialmente não os filhos. Para mim, uma relação só funciona realmente quando ambas as partes se respeitam mutuamente e têm suficiente auto-estima para aceitarem (ou debaterem) as suas diferenças e trabalharem em conjunto para que elas desapareçam. Acho triste que todos nós conheçamos alguns casos destes, muitas vezes mesmo no nosso círculo de amizade mais próximo e que, de alguma forma e por variadíssimas razões, optemos por manter o silêncio.

A violência verbal, as traições sucessivas nunca devem ser toleradas. Sei do que falo porque já o senti na pele. Nos padrões ditos normais, aquilo que vivi não seria considerado abuso - antes, era visto como uma prerrogativa do homem à qual a mulher comum deveria sujeitar-se. Há padrões nestes comportamentos mas o importante é que a mulher consiga isolá-los, compreender as suas implicações e compreender que a vida não precisa ser assim. Felizmente, nunca me vi envolvida em nenhuma cena de violência de qualquer tipo mas acho que hoje é seguro dizer que, a acontecer, nunca a iria tolerar uma segunda vez. Toda a gente merece melhor do que uma personalidade abusadora, sem qualquer excepção e respeito na sua relação com os outros. É por isso que acredito que as vítimas devem falar: com linhas de apoio, familiares, amigos ou profissionais de saúde - não interessa com quem, desde que compreendam que não há nada que as possa obrigar a suportar a dor. Nunca precisei deste tipo de ajuda mas posso garantir - só depois de recusar a humilhação é que comecei a viver. E desde aí... Bem, sou muito mais pessoa que até então. Se é vítima de violência doméstica ou conhece alguém que seja, por favor fale. Ninguém tem o direito de abafar a nossa voz.

julho 22, 2010

Viver a três (e não, não se fala aqui de threesomes!)

Acho que, com a idade, me tornei bastante mais observadora. Gosto de ver, gosto de assistir à vida em silêncio, mesmo que isso possa ser algumas vezes confundido com voyeurismo. E o nosso curso pré-parto é obviamente um sítio privilegiado para estes momentos de observação, especialmente no que a casais (inexperientes) diz respeito. Esta semana, falámos sobre métodos naturais de alívio da dor durante o trabalho de parto e os maridos/namorados/companheiros foram convidados a praticar massagens nas grávidas com um relaxante som ambiente, à meia luz. Foi muito bom ver os olhares embevecidos dos homens, derretendo-se com a mãe do seu filho/filha exercitando as ancas sobre uma daquelas bolas de pilates. O que realmente me comoveu foi a sensação de que há famílias efectivamente a crescer ali, que medos e responsabilidades são partilhados, que a gravidez é ali vivida como um glorioso momento a dois.

É por saber que este companheirismo e esta dedicação não são dados adquiridos que estes momentos me comovem. Imaginar que há homens que não se envolvem na gravidez das companheiras, que recusam ajudá-las e compreender as diferentes fases da gestação, que se afastam deliberadamente para evitarem chatices dói-me. Eu sei que se estivesse sozinha nunca poderia desfrutar desta fase da minha vida na sua plenitude nem muitas vezes teria força para suportar as contrariedades. E quer dizer, um filho é feito por duas pessoas. Se aconteceu na pior altura ou na altura menos esperada, acho que a única coisa a fazer é comportar-nos à altura e fazer tudo para que o bebé que aí vem nasça com saúde e possa ser feliz.

É óbvio que eu estou ansiosa por ver e tocar e cheirar o meu filho. Conto os dias e muitas vezes sei até quantas horas faltam até à data prevista para o parto. Mas a verdade é que, cada vez que penso que vamos deixar de ser apenas um casal, dá-me uma saudade profunda deste momento que ainda estamos a viver. Não me importa a relativa perda de liberdade, nem a necessária cambalhota nos nosso hábitos: fico é com saudades de vivermos apenas um para o outro, capazes de ficarmos fechados em casa, sem vermos mais ninguém porque nos bastamos. Mas sei que quando um bebé chega a uma relação que funciona não é mais do que o prolongamento destes momentos felizes vividos a dois. E para namorar, já eu decidi, hei-de arranjar sempre tempo.

julho 19, 2010

A minha inimiga nº 1: a balança

O mais-que-tudo documentou o início da refeição*.

Bem, eu gosto de comer. Aliás, desconfio sempre daquelas pessoas que não comem ou que dizem que não gostam de comer ou comem apenas por obrigação - fico sempre com a sensação de que não podem ser boas pessoas. Além disso, gosto muito do ditado que diz que Quem não é para comer não é para trabalhar, até porque já tive oportunidade de o comprovar variadíssimas vezes. Há uns anos, fui vista por uma nutricionista e só eu é que sei a disciplina que foi precisa para comer bem, satisfazer-me e ainda assim ficar em forma. 

A gravidez não estava a implicar grandes alterações nesse campo até aqui: obviamente estava mais gorda mas tinha sido uma evolução muito lenta e bem distribuída. Também ajudava o facto do bebé ainda não precisar de engordar, já que se se estava a formar lentamente. Mas agora enfim, o bebé está formado e vai começando a precisar acumular a gordura para que esteja pronto para enfrentar o mundo cá fora. E o meu apetite nem tem crescido exponencialmente, nem tenho sentido vontade de comer por dois. Mas a última visita à obstetra deixou-me bastante aborrecida (para não usar nada mais forte...) comigo mesma e com um certo receio dos meses que ainda me restam. A sete dias de trabalho de ficar finalmente livre e com demasiado tempo nas mãos, junto o meu apetite e tenho tudo para acontecer aqui outra desgraça - portanto, ainda bem que não tenho balança. Resta-me invejar aquelas grávidas quase em fim de tempo a quem cresceu apenas a barriga e maldizer o meu metabolismo lento. 

* levámos o amigo suiço e a namorada belga a comer neste restaurante e  nem o facto de ser exclusivamente vegetariano me fez cobiçar menos a comida: o serviço de buffet é maravilhoso, os sumos naturais são mesmo naturais e as sobremesas chegam para dividir por duas ou três pessoas. Peçam para ficar no terraço, se lá forem ;)

julho 14, 2010

Ser turista em Lisboa ♥

Aproveitando a visita de uns amigos suiços (e depois de experimentar as maravilhas da ineficiência da Loja do Cidadão), fizemos uma ronda por alguns sítios que estão na nossa lista dos must see. Levámo-los a beber uma ginja no Rossio, ritual que eu, pelas razões óbvias, dispensei. Passeámos pelo Chiado e subimos até ao Largo do Carmo para ver as vistas do elevador, misturados com hordas de espanhóis e alguns holandeses. Depois descemos até ao miradouro de Santa Catarina para sentir aquelas vibrações de final da tarde e terminámos a fazer metade do caminho de regresso a casa a pé e metade no 28, que isto de estar grávida não é doença mas dá cabo das articulações a uma pessoa.

Dizia eu à nossa amiga que muitas vezes tenho pena de não ser turista em Lisboa, especialmente nesta época do ano. É incrível a luz, o calor temperado com a brisa que sobe do Tejo, os dias que parecem nunca acabar, os petiscos para descobrir esplanadas fora, as ruas que vibram com as diferentes línguas dos turistas e os hotéis a doze euros por noite (!). Passamos os dias entre casa e trabalho, de metro, autocarro ou eléctrico sem prestar atenção, sem nos deixarmos maravilhar com os pormenores desta cidade. Mas pelo menos conseguimos passar algum do nosso fascínio a outros e pode ser que eles, como nós um dia, queiram muito voltar.

julho 08, 2010

Aprender a ser mãe (?)

Iniciámos ontem o nosso curso pré-parto neste centro aqui. Uma das primeiras coisas que me marcou foi o facto de, à excepção de um pai de vinte e nove anos, os restantes casais estavam todos pela casa dos trinta. Esta ideia de que cada vez somos jovens até mais tarde ou de que adiamos as responsabilidades até podermos está a atrasar-nos a parentalidade, as descobertas, as famílias. Eu não sou propriamente uma rapariga com pressa e nunca me passaria pela cabeça formar família só porque sim, mas vejo que temos andado a perder uma grande coisa!

Descobrimos durante a apresentação que fizemos e parece que alguém não ficou muito contente por nós também irmos ter um Vicente [vá lá, pessoas que não nos conhecem de parte nenhuma, com as quais muito provavelmente nunca nos iremos cruzar, qual é o problema de gostarmos do mesmo nome?]. De resto, foi relativamente interessante partilhar as nossas expectativas com pessoas na mesma situação, embora o sentimento de ansiedade fosse geral. E, como se eu não tivesse já uma dissertação de mestrado em que pensar, ainda temos umas duzentas páginas de material para acompanhar o curso. Planeio ler tudo mas não consigo evitar pensar que no tempo da minha mãe este tipo de acompanhamento tão próximo não se fazia e os bebés nasciam na mesma. Parece que se perde um pouco da magia quando se quer saber tudo e estar preparado para tudo, como se um bebé não fosse em si uma absoluta surpresa.

A parte alta da noite foi a sala escura onde nos iniciámos nas virtudes da correcta respiração e das suas vantagens para o parto. Guiados pela enfermeira, mães e pais relaxavam, tentando visualizar o seu bebé quando o estômago do pai do Vicente resolveu acabar-nos com o que existia de concentração! Havemos de treinar mais em casa, a ver se conseguimos também controlar-lhe as entranhas!

julho 05, 2010

Sabem aquela coisa dele ser o melhor do Mundo?

É igualmente válida para o exagero. A vontade de agradar e de me encher de melancia tem destas coisas. Eu adoro, é óbvio.

julho 04, 2010

Fazer pelos outros

Na passada Sexta-feira fomos jantar com mais umas oitenta pessoas que são, no mínimo, inspiradoras. A ideia é convivermos um bocado e, simultaneamente, ajudar uma instituição que se encontre com mais dificuldades. Esta foi a primeira acção do RT Action e a instituição escolhida foi a Ajuda de Berço, para a qual os comensais eram convidados a levar comida, produtos de higiene e limpeza ou produtos farmacêuticos. A ideia é levar um pouco mais além os peditórios nacionais ou a boa vontade espontânea e conhecer pessoas empenhadas e determinadas em fazer a diferença. Muitas destas pessoas estão presentes em várias redes sociais e houve inclusivamente figuras públicas que se quiseram juntar ao evento. Ficamos à espera de um novo evento e aproveitamos para espalhar a notícia: ajudar enquanto convivemos nunca é demais!

julho 02, 2010

Com licença, que se vai desabafar.

Eu hoje vinha aqui escrever um post inteiro dedicado à forma como odeio pessoas no geral. Acho que a culpada é esta minha situação no trabalho: apenas obrigada a trabalhar três dias por semana (obrigada pelo crédito de horas, pessoas que inventaram os despedimentos colectivos!) mas cansada de vir apenas por obrigação, tendo que fazer as mesmas recomendações todos os dias, lembrando as pessoas das mesmas responsabilidades todas as santas manhãs. Estou incrivelmente farta das pessoas que me tentam fazer passar por parva, especialmente depois de quatro anos de percurso profissional lado a lado, sem respeitarem hierarquias nem colegas. E eu sei que toda a gente está cansada e apenas deseja que chegue depressa o dia trinta e um para se poder fazer à vida mas caramba, era preciso dificultar as coisas até no final? Depois de terminar a escola e eu não ter rigorosamente mais nenhuma obrigação pendente, pensei que fosse possível relaxar e levar estes últimos dias com tranquilidade mas não, parece que ainda não é desta.

E depois, que dizer das pessoas nos transportes públicos que reclamam comigo porque eu não pedi o lugar das grávidas? E tentam que as restantes passageiras condenem com esta barbaridade e me passem na hora um atestado de negligência? Ou o que fazer com as pessoas que tentam passar-me à frente nas caixas de supermercado, mesmo quando não existe nenhuma caixa prioritária e depois conseguem fingir que não me viram? Caramba, eu estou grande! E também gostava de saber o que dizer quando a pedicure a acabar o seu curso faz questão de me contar daquela vez em que estava na sanita a fazer um teste de gravidez, enquanto o marido a pressionava ao telefone.

Não, peço desculpa, mas não gosto de pessoas. Não sou eremita porque não me deixam e lido muito bem com as pessoas que me designam de anti-social. E todos os dias é mais difícil acreditar nessa treta de que sou muito boa a trabalhar em equipa porque neste momento já não tenho pachorra para a equipa que me calhou em sorte e, depois de quatro anos, quero apenas um pouco de distância. Provavelmente, isto passa-me assim que soarem as seis horas e eu puder pensar em mais quatro dias longe desta secretária. Mas, até lá, eu odeio pessoas. Espero que o gaiato seja imune à minha má disposição.

junho 29, 2010

Sobre o cansaço

De autocarro da Estrela ao Saldanha. De metro do Saldanha à estação do Oriente. De shuttle da estação do Oriente ao hospital. De shuttle do hospital à estação do Oriente. De metro do Oriente ao Saldanha. De autocarro do Saldanha à Avenida de Berna. A pé da Avenida de Berna ao Campo Pequeno. De autocarro do Campo Pequeno a Campo de Ourique. De Campo de Ourique a pé para casa.

Acontece que me canso muito. Canso-me até a tomar banho ou a tentar fechar umas sandálias. Canso-me a estender a roupa e a fazer compras. Lavar a louça implica necessariamente uma dorzinha de rins. Dormir de lado há mais de seis meses é o suficiente para me dar cabo do sistema nervoso, especialmente agora que o bebé está grande o suficiente para também não me poder deitar de costas. Falta-me o ar em casa e no escritório e estou a contar que o leque me vá ainda safando de algumas. Ainda quase não há sinal de inchaço no pés ou nas mãos mas temo que seja coisa para ainda vir. Dizem «escadas» e eu ouço «pesadelo», só de pensar em chegar ao topo a deitar os bofes pela boca. Já não posso fazer nada à pressa simplesmente porque não consigo (se não acordar a tempo, chego atrasada ao trabalho porque não me consigo apressar) e começo já a considerar usar mais o carro. E bem, nem quero imaginar os três meses que faltam...

Mas, se é este o preço a pagar por sentir o meu filho em constante actividade na barriga, por senti-lo crescer e ao tempo a passar cada vez mais depressa, então eu alinho. Também só já faltam umas 2352 horas para poder cheirar o meu bebé e depois volto a dormir de barriga para baixo!

junho 27, 2010

Há festa no meu bairro!

O mundo, como sempre, é visto por ele.

Há rituais que se perdem mas, de tempos em tempos, há rituais que se tentam recuperar, com maior ou menos taxa de sucesso. É o caso ali do bairro, onde, se bem me lembro, anos houve em que não se passou rigorosamente nada nos meses de Verão, a não ser algumas iniciativas de rua (ou seja, da autoria dos moradores de algumas ruas em particular). Ultimamente, e a bem duma tradição comunitária, têm-se resgatado festas, passeios e bençãos bastante participados e que eu vejo como um pouco de cimento, solidificando as relações dentro da comunidade. Isto ainda me faz sentir mais contente porque o meu pai é também uma peça deste movimento e, quanto mais não seja, encontra ali algumas actividades que o mantém ocupado e integrado.

Long story short, já é suficientemente bom estar grávida para ter desculpa para comer tudo e mais alguma coisa que me apeteça. Agora, se acrescentarmos as festas com as açordas e as sardinhas,a s máquinas de gelados e os sacos de algodão doce, bem... Vocês percebem.

(ainda hei-de voltar à minha terra, não só para comer e beber, mas para sentir que contribuo e faço parte de algo importante. Adoro Lisboa, com todo o coração, mas há dias em que me cansa ser apenas mais uma cara desconhecida, incapaz de fazer a diferença e com tanta vontade de ver a minha terra não morrer)

junho 23, 2010

Não sei se já vos disse mas adoro recados!

(e se por acaso pessoas felizes e tranquilas vos aborrecerem, que eu sei que há muita gente que se enfada com a felicidade dos outros, é capaz de ser melhor não passarem por aqui nos próximos anos ♥)

junho 22, 2010

Cine-Lapa

Este fim de semana, em menos de 24h, vimos mais filmes do que nos últimos meses juntos. Quem ler isto, poderia até pensar que o bebé já tinha nascido e que as oportunidades já escasseavam mas não, ainda faltam uns meses até o Vicente nos deixar de castigo em casa! A verdade é que temos descurado esse hábito e agora, que o tempo melhora, já não temos muita vontade de nos enfiarmos numa sala de cinema durante horas. 

Vimos então (e por ordem): o 2012, sobre o qual me apraz dizer que já sonhei variados fins do Mundo com melhores efeitos especiais e com mais realismo do que aquilo e que aquela história de reconciliação familiar foi do mais previsível e menos credível a que pude assistir; o She's out of my league, que escolhi depois de ler a sinopse no blog do Pedro Mexia e pensar que corria o risco de ver uma versão do (500) days of Summer mas que acabou por me surpreender, cumprindo na perfeição os requisitos de filme de Sábado à tarde; e finalmente o novo Shrek, cuja saga continua a valer pelo Gato das Botas e pelo maluco do Burro, já que aquelas mensagens e fábulas subliminares me passam um pouco ao lado.

E enfim, não me agrada a ideia de ser pirata mas, tendo em conta o tempo livre que em breve vou ter nas mãos - totalmente patrocinado pelo Estado, portanto todos podemos imaginar a fartura que dali virá -, terei mais uma alternativa aos livros em espera, aos passeios pela Estrela, às manhãs de praia e às sestas que aí vêm. E, em a minha musa querendo, hei-de escrever um bom bocado - como nos velhos tempos. A não ser que a minha mãe tenha razão e o bebé me esgote o tempo para as palavras - not.

junho 20, 2010

O David tocou na Estrela!

 O meu par registou a belíssima luz de fim de tarde.

A temperatura ainda não subiu aos níveis que justificam a chegada do Verão amanhã mas temos que nos contentar com aquilo que a meteorologia nos tem para oferecer. Ontem demos um salto à Estrela, assim uma coisa rápida só para ver o showcase do David, também conhecido como Noiserv. O cenário não podia ser mais adequado para ouvir as composições intensas e melancólicas, o xilofone e a máquina fotográfica em loop, a timidez quase infantil do cantor: um fim de tarde fresco, com os raios de Sol a surgirem apenas a espaços sobre o palco inexistente e o público ainda encasacado, um espaço aberto para acolher este one man show. Estamos à espera do próximo EP, que vai estar cá fora em Julho!

junho 19, 2010

Sentir orgulho

Ontem levei o Vicente à festa de despedida da escola onde o pai trabalha e foi divertido. Apesar de todas as dificuldades, da inexistência de material escolar, de infraestruturas longe de perfeitas, das vidas difíceis dos meninos que frequentam a escola (muitos nunca viram o Tejo, apesar de viverem nos arredores de Lisboa...) e da zona problemática, é no mínimo inspirador assistir à actuação de professores e alunos juntos em palco, unidos na escassez de meios mas também na ideia de que com pouco se faz muito. Apesar das dificuldades, acho que pelo menos compensa saber que se pode fazer alguma diferença na vida daquelas crianças. E o melhor é que a minha pessoa preferida faz parte dum projecto destes, sem desistir, com determinação e vontade de fazer bem. Isto é caso para o Vicente nascer já todo inchado de orgulho! Mesmo que o pai tenha dado uns pregos no baixo...

junho 16, 2010

Ser o melhor do Mundo é simples

Basta trazer-me balões em forma de coração lá da escola. Às vezes pode não parecer mas sou uma rapariga fácil de contentar.

junho 15, 2010

Vicente: há seis meses a crescer na barriga da mãe! ☺

Esta semana, e apesar das imensas confusões entre meses e semanas que normalmente se estabelecem entre grávidas e o resto do Mundo, o Vicente completa seis meses na minha barriga. É um grandessíssimo lugar comum mas a verdade é que já senti tanta coisa desde esse dia de Fevereiro em que descobri que ia ter um filho... Confesso que os primeiros tempos foram extremamente difíceis: a juntar aos enjoos, às náuseas e à vontade incontrolável de dormir, o facto do bebé ser ainda minúsculo fazia com que muitas vezes o sentisse como um intruso. Foi difícil para mim aceitar esta mudança tão radical nas nossas vidas, mesmo sendo este um fruto do amor não planeado, tão desejado pelos dois. Vejo agora que tudo não passava da imensa algazarra hormonal que me controlava os humores e os apetites e que tornou este no Inverno mais longo e escuro dos últimos tempos.

Felizmente o primeiro trimestre acabou. Como todas as grávidas ouvi (e continuo a ouvir) de tudo: que os enjoos eram passageiros, que podiam demorar nove meses, que a barriga dizia menina, que preciso comer tudo o que me apetecer, que a barriga está pequena, que estou a rebentar... Ainda falta muito tempo até ao parto mas tenho a certeza que as pessoas ainda se vão esmerar nos palpites e mezinhas. E com o trimestre de ouro ainda a decorrer, comecei a experimentar a mais maravilhosa das sensações: sentir os movimentos do meu filho! Já se me acabou aquele medo irracional que alguma coisa errada poderia estar a acontecer porque pelo menos agora sei que ele está vivo e tenho sempre companhia a toda a hora, em todo o lado.

Começo agora a sentir os efeitos do peso a mais, da respiração cada vez mais pesada, da falta de posição para adormecer. E a minha barriga deixou finalmente de ter um tamanho e uma forma dúbia para passar a ser assumidamente de grávida. Já se abrem caixas de supermercado para eu passar e também já deixei de ter vergonha de ocupar os lugares reservados nos transportes públicos. O tempo passa depressa, eu sei, mas agora começa a crescer o desejo de ver a cara do Vicente e começar a trabalhar para fazer dele uma pessoa impecável. Esta semana lá vamos nós vê-lo mais uma vez e checkar se ele tem tudo a funcionar no sítio certo. A vida não tem sido propriamente fácil e as dificuldades prometem continuar mas que se lixe!, as férias permanentes estão quase aí para prepara a chegada do bebé. Se soubesse o que sei hoje, tinha embarcado nesta aventura mais cedo e, quem sabe, mais vezes!

junho 13, 2010

M. e os trabalhos manuais

 O pai foi responsável pelo making of.

Não sou propriamente uma pessoa com muito jeito para trabalhos manuais, é uma verdade. Isto é especialmente assim se os mesmos forem minuciosos e exigirem alguma paciência e muita atenção. Não foi exactamente o caso mas hoje vinha a caminho de Lisboa e ocorreu-me que quero fazer coisas divertidas com o meu filho, quero estimulá-lo e brincar com ele sem me lembrar que já lhe levo alguns anos de avanço. E se possível, quero fazê-lo rir, nem que seja por ter tido as ideias mais parvas e inúteis do mundo. É bem possível que, em parvoíce, eu o venha a bater aos pontos.

junho 10, 2010

O inferno são os outros

É verdade que tenho andado meio cega com esta história do Vicente: é tão maravilhoso senti-lo a mexer na minha barriga e ver que continua a crescer como manda o livro e imaginá-lo cabeludo e moreno cá fora que estava esquecida da facilidade com que me estragam um dia. Ora, se a pessoa que o fizer for ainda cobarde o suficiente para não admitir o que tem andado a esconder de mim, se preferir que seja eu a passar por incompetente e alguém mal formado, se já não lhe restar o mínimo de ética e seriedade, então é coisa para me deixar mesmo fora de mim. 

Certamente tenho muitos defeitos mas um deles não é, de certeza, ser mau carácter: com o passar do tempo, tenho aprendido a aceitar as minhas responsabilidades e assumir os meus erros sem vergonha. Agora, aquilo de que sou realmente culpada é desta infinita ingenuidade, esta vontade desmedida de acreditar que as pessoas não podem ser completamente más porque não acredito num mundo totalmente injusto. Acho triste e meio absurdo que as mesmas pessoas a quem vamos buscar algum conhecimento e até inspiração se revelem, tempos mais tarde, o exemplo mais podre da pessoa em que quem não nos queremos tornar. Sou cada vez menos uma people's person e tenho essa gente a agradecer. Mas enfim, as cambalhotas do meu  filho (caramba, dizer isto em voz alta é simultaneamente terno e assustador!) e a paciência da minha pessoa preferida não vão deixar que me torne numa pessoa amarga. É respirar fundo e colocar essa gente onde realmente merece estar: atrás das costas.

junho 06, 2010

A nossa vida enredada numa colina de Lisboa *

 Ele foi mais uma vez o repórter fotográfico de serviço.

Quando sabemos que a nossa ausência será curta, as despedidas são sempre menos dolorosas. Suportamos melhor os momentos finais, não tentamos prolongá-los além do emocionalmente aconselhável e confiamos mais no poder das nossas recordações. A noite de ontem foi especial porque não lhes dissemos propriamente Adeus, apenas um Até já que se espera mesmo breve.

Ainda não tenho propriamente o estatuto de groupie mas apenas porque o meu tempo não o permite. Gosto d'A Naifa o suficiente para ver o mesmo alinhamento todas as noites, plateia após plateia, com públicos entusiasmados e turistas que não sabem ao que vão, puristas do fado que talvez se deixem surpreender pelo Destino menos convencional de uma Mitó sem xaile negro ou uma guitarra portuguesa mais electrónica do que achavam possível. Sou suspeita por estas e por tantas outras razões: por achar aqueles pinheiros mansos da Praça d'Armas um cenário desarmante, por ignorar deliberadamente a noite fria de Junho, por ter ficado contente com um lugar mais atrás, por achar que talvez A Naifa estivesse já um pouco esgotada pelas emoções deste regresso e no final ter ficado, mesmo assim, deliciada com o último concerto da digressão. A Libertação, cantada a meias com Celeste Rodrigues, foi um momento absolutamente impagável de perfeita simbiose entre tradição e contemporaneidade. E perceber, no momento da despedida, que todos se abraçavam com o que parecia ser alívio e a sensação de que uma nova porta se abrira deixa-me tranquila porque a memória, essa, subsiste.

* A Naifa tocou ontem à noite na Festa do Fado no Castelo de São Jorge

Querido Vicente,

 Ele fotografa a nossa pausa sobre uma Lisboa de arraiais.

nunca hei-de conseguir esgotar os sítios e as vistas que te quero mostrar. Tenho muita vontade de vejas o Mundo com olhos de ver e que fiques tão esmagado pela beleza dos sítios como eu costumo ficar. Ainda tens a minha barriga entre ti e o Mundo mas eu tento levar-te pelo menos a sentir a paisagem. Ontem, levei-te (levámos-te) para os lados de Santa Luzia e estava um dia muito fresquinho de Junho. Os turistas apareciam de todas as vielas vindas do Castelo, demoravam-se pelos miradouros e faziam fila nas paragens do eléctrico. Era já o fim do dia Vicente, e apesar de algum cansaço, subi (subimos) contigo ao Castelo para ouvires mais música e não me admiro se um dia chegares a ser tão fã como a mãe. Fazer tudo contigo dá um sentido completamente diferente às coisas e faz-me sentir como se finalmente houvesse um propósito. Se continuares a ser um bom rapazinho, vemo-nos dentro de cento e vinte e um dias!

junho 05, 2010

Gostar do Verão *

 
Ele fez uma pausa para poder registar a minha satisfação.

Já andava (não andamos todos?) há uns tempos à espera disto. Com um Inverno rigoroso e longo como o último, é óbvio que o desejo de caracóis e sardinhas estava prestes a ultrapassar os limites do suportável. A desvantagem é apenas que nada disto pode ser acompanhado por uma mini bem fresca ou um copo de vinho verde - é que o Vicente ainda não bebe e assim continuará pelos próximos dezoito anos (!). Já tinha provado caracóis mas neste feriado aproveitei para juntar-lhes uma mão cheia de sardinhas que não me podiam ter sabido melhor. Pelo menos o peixe não me dá que pensar, já que a grelha já se encarrega de eliminar os potenciais inimigos.

O único problema deste Verão é que, exactamente quando chega o tempo em que as mulheres (e os homens, eu sei, mas com menos dramatismo) mais desejam estar em forma, as formas do meu corpo estão a mudar drasticamente. Antes, estava grávida, sim senhor, mas a barriga era discreta, muitas vezes imperceptível. Neste momento, a minha felicidade está à vista de todos, o que torna as idas à praia numa verdadeira luta entre o dispo e o não dispo. Não nego que é uma altura maravilhosa, especialmente agora que as cambalhotas do Vicente já são visíveis e pronunciadas mas também não posso ignorar que é necessário algum tempo, alguma paciência para tolerar estas mudanças e relativizar o que vejo no espelho. Impedida de correr e com apenas uma leve sessão de hidroginástica por semana, a única coisa que posso prometer é tratar bem de nós. As gorduras localizadas têm que se haver comigo no Outono.

* ou porque é que ultimamente há muitos posts sobre comida

maio 31, 2010

Coisas que me alegraram os últimos dias de férias

O olho dele segue-me para todo o lado.

Vá, tirando o pequeno pormenor (enorme para mim, é a verdade) da total proibição de comer morangos e do regime ditarorial que me queriam impor (apenas três peças de fruta por dia e não pode comer fruta que não se possa contar...), tenho sido abençoada com um fim de Primavera tão rico em boa fruta que me cresce água na boca só de pensar. Espero estar já a contribuir para a educação da criança, para que ela cá fora lamba os beiços de satisfação sempre que a mãe lhe apresentar uma frutinha cozida.

(Entretanto, regressei ao trabalho para os últimos sessenta dias antes do apocalipse final. Esta semana de férias foi uma belíssima amostra do que serão os meus dias antes do Vicente nascer. Até me deu para passar a ferro (umas três máquinas de roupa!), motivo pelo qual a minha mãe ia chorando de alegria e eu ia morrendo de tédio. Já preparei o meu calendário para ir riscando os dias que faltam até se fechar este capítulo da minha vida, que, a avaliar pelo primeiro dia, vai ser mais longo do que eu desejava. Há poucas coisas a ocupar-me o pensamento - sardinhas, caracóis, dias de praia, a barriga cada vez maior, a minha pessoa preferida. E eu fujo de quem me quer desafiar a falar de contratos de trabalho e indemnizações e injustiças sociais porque, para me deprimir, basta ligar a televisão. E neste momento eu quero é ser positiva e acreditar que, como o Earl, o karma se encarregará de me devolver o que mereço. Se calhar já começou mesmo a devolver...)

maio 26, 2010

O Vicente vai à Aula Magna pela segunda vez!

O pai do Vicente tem um olho que só ele.

Ontem lá fomos nós, já uma família inteira composta por pai, mãe, filho, tia e tia postiça, até à Aula Magna para ver os The xx. A minha logística de concertos agora é bastante mais específica: já não me chega ficar longe das multidões e das confusões. Agora, preciso de estar perto das casas de banho dos sítios, pronta para voar se necessário for. E bem, também já não me vejo naquele sufoco da toda a gente à minha volta, portanto lugares sentados são a minha cena.

O concerto... Nós adorámos. O jogo de luzes estava impecável e criava a atmosfera certa para esta espécie de soturnidade dos The xx. Tocaram versões mais dançáveis e potentes das músicas do único álbum, num som mais cru e com graves que me fizeram temer pelo descanso do Vicente. Pareciam genuinamente surpreendidos pela recepção calorosa do público e agradeceram timidamente os aplausos e o entusiasmo entre músicas. Acho que resultam bastante bem como trio, mesmo estando à espera de ver pelo menos quatro pessoas em palco. O Vicente também deve ter gostado porque dormiu muito sossegadinho!

maio 23, 2010

Nem sim nem sopas

É dele, o olho atrás deste diafragma.

Esta coisa de estar grávida é muito gira, sim senhor, mas torna-se um bocado complicada se surgirem alguns problemas de saúde. Como estou proibida de fazer qualquer tipo de medicação sem consultar a médica (e mesmo consultando-a, que medicamentos e gravidez não combinam), ando há uma semana a gastar lenços de papel em menos de duas assoadelas, a tentar dormir completamente entupida e com os olhos pequeninos que dói. Esperava que a praia tivesse algum efeito benéfico mas a verdade é que, à parte de estar um pouco menos congestionada, continua tudo na mesma. Hoje fomos apanhar ar para a Baixa e para a Estrela mas até a meteorologia parece estar contra mim: depois do calor dos últimos dias, uma descida brusca das temperaturas lembrou-me outra vez do que é ter frio. E já não sei o que quero: se estar imobilizada, a bufar com o calor, se voltar a recorrer ao casaquinho de malha.

maio 22, 2010

Querido Vicente,

talvez tenhas sentido a minha enorme satisfação quando ontem comecei esta semana de férias. Neste estádio, em que já estás mais crescido, em que fazes umas acrobacias na barriga da mãe e em que já ultrapassámos a metade do tempo, saber-te sempre comigo deixa-me serena e tranquila porque sei que nunca, nunca mais estarei só. O pai saiu para trabalhar e é verdade que lhe sentimos a falta mas mesmo assim levei-te à praia. Bem cedinho, conseguimos fintar filas de trânsito e multidões e foi assim que tomaste o teu primeiro banho de mar antes das nove da manhã. Talvez a água esteja fria e eu ainda não saiba como evitar as ondas na perfeição mas antes só tinha que me preocupar comigo e agora existes tu e preciso aprender muitas coisas novas. Bem gostava de te ter nos meus braços mas contento-me com uma barriguinha que cresce a olhos vistos. Vamos descansar muito esta semana e tratar das coisas para que sejas bem recebido e amanhã levamos o pai à praia também!

maio 19, 2010

Hoje é o primeiro dia... blá blá blá

Bem, hoje é realmente o primeiro dia não do resto da minha vida, mas do meu percurso profissional nesta empresa. Ontem foi a comunicação oficial da data do fim e também o dia em que fiquei familiarizada com a figura jurídica do despedimento colectivo. O acontecimento foi essencialmente pacífico porque já era conhecido de todos, se bem que a data ainda estava no segredo dos deuses. E desde então me sinto dividida entre dois sentimentos radicalmente opostos: por um lado, uma incrível sensação de alívio por não ter que demorar muito mais tempo aqui, a ideia de dois meses de Verão plenos para disfrutar o meu filho às voltas na minha barriga, as primeiras férias a três antes de o ter cá fora; por outro lado, a incerteza gigante de não saber o que me espera, o facto de estar prestes a tornar-me mãe e desempregada ao mesmo tempo, o afastamento involuntário do mundo do trabalho.

Para mim, é evidente que não quero reter um posto de trabalho apenas por estar grávida: gostava de ser apreciada pelo meu esforço, por tudo o que aprendi nestes quatro anos, pela diplomacia e força de vontade, pela entrega mesmo quando me apetecia desistir. Não é exactamente a ideia de uma indemnização (que será mínima) que me está a seduzir nem também a ideia de castigar a empresa por uma alteração de mercado e negócio impossível de controlar. É que acho que, no meio disto tudo, há aqui uma grande falta de gratidão e de reconhecimento que eu pensava que merecia. Só que o mundo é mesmo assim e agora já não pessoas insubstituíveis: há apenas pessoas mais baratas e mais maleáveis, capazes de acrobacias incríveis para manter um posto de trabalho mal pago. Compreendem se disser que não tenho podido aguentar o noticiário nos últimos dias: a crise e o desemprego e a gritante e crescente falta de oportunidades, um mercado de trabalho em permanente sufoco não me fariam levantar da cama. Para isso, olho literalmente para o umbigo e penso neste Vicente sempre a crescer - havemos de ser os três muito felizes, no resto da nossa vida.

maio 16, 2010

A Naifa (uma e outra vez)

As fotos (nem precisava dizê-lo) são dele.

Este namoro já vai muito longo. São cinco anos a musicar-me os desgostos, os Sábados cheios de Sol na Estrela, os dias de folga durante a semana, as viagens diárias para o trabalho, as alturas em que mais precisei de esperança. E esta paixão não esmoreceu nem arrefeceu com o passar dos anos, antes foi sendo cada vez mais definitiva, mais madura. Cada música carrega já memória sobre memória, cada música já foi cantada por mim como se algum dia pudesse emular a entrega e o calor da Mitó, cada poema foi já admirado pela forma certeira como me falou ao ouvido. E só não continuo tão apaixonada como na primeira vez porque abro sempre o coração para me deixar conquistar de raíz.

Esta sexta-feira foi noite de os ver uma vez mais, agora sem João mas com a Sandra e foi um reconforto ver a música d'A Naifa a erguer-se novamente em cima dum palco, primeiro tímida, depois segura de si mesma. Gostei dos três momentos do espectáculo que entendi como o luto inicial, o regresso à vida a e a homenagem ao João, merecida e muito sentida por todos quantos estavam naquela sala. A Naifa resiste porque é uma personalidade com direito próprio, alimentada pelo espírito dos que a idealizaram tão única e tão especial, imune à passagem do tempo. Com a belíssima oportunidade de falar um pouco com o Luís Varatojo, fiquei rendida à simplicidade com que se cria por aqueles lados e muito descansada porque sei que A Naifa, como a gente, vai continuar.

maio 12, 2010

O Vicente foi a banhos

Ontem fui à minha primeira aula de hidroginástica para mamãs (sim, ouvi tantas vezes esta palavra ontem que acho que não consigo designar-me de outra forma), só para experimentar. Já que não me convém correr na Estrela como era costume e eu preciso mesmo de alguma disciplina e exercício, tentei esta modalidade e acho que até gostei. A desvantagem é ser uma aula de grupo (não muito grande, é certo) e como tal promove-se aquele tipo de convívio um pouco artificial sob o pretexto de que temos todas algo em comum: sermos futuras mamãs (cá está!). O instrutor é muito simpático e preocupado com as condições em que decorre a aula e gosta de fazer as alunas rir, o que só abona a favor da experiência.

Agora, a parte que verdadeiramente me incomoda é o pós-aula, nos balneários. Eu sou pouco social mas sou ainda menos social quando estou despida, é compreensível. Agora, se acrescentarmos a isto o facto de estarmos todas grávidas e os nossos corpos se comportarem de acordo com isso... Bem, you get the picture. Eu tento, porque tento, parecer natural e despreocupada mas a barriga e as imperfeições fazem-me ser demasiado auto-consciente. É claro que isto se supera e, acima de tudo, se ignora, caso contrário estaria a vedar a mim mesma este tipo de actividades sociais. Mas enfim, se os senhores da piscina pudessem pensar em compartimentos individuais para as mamãs (argh!) poderem trocar de roupa e poderem tomar banho a sós, aqui ficava uma barriga imensamente agradecida. Enquanto isso, eu lá vou sendo púdica para outro lado.

maio 10, 2010

Sobre a noite de ontem (ou a forma dissimulada de mostrar como me sinto orgulhosa)

Ao Vicente já prometemos dar total liberdade religiosa e clubística, especialmente tendo em conta as diferenças que conseguimos reunir cá em casa. Assusta-me a ideia de inscrever o pequeno na catequese e muito mais depois dos episódios de escândalos e de hipocrisia que se sucedem na Igreja Católica, apenas para falar na religião em que fui acolhida. Mas uma coisa não podemos ignorar: ele vai nascer no ano em que o Benfica volta a ser campeão e, apesar de estar longe de um facto cientificamente comprovado, costumamos simpatizar com o clube em maior maré de sorte enquanto crescemos.

[é agora que o pai da criança vai aos arames, depois de ontem ter - a custo e de modo pouco efusivo - celebrado a minha felicidade!]

maio 08, 2010

Subir às árvores

Até agora (e sublinho que é apenas até agora, visto que a gravidez se encontra exactamente a meio), ainda não senti nenhum desejo especial (bem, talvez por um bom frango assado) nem me apeteceu nenhum capricho a altas horas da madrugada (o que o pai da criança deve certamente agradecer). Mas tenho uma espécie de fixação com quase todo o género de fruta, mesmo tendo sido aconselhada por uma enfermeira do tempo da outra senhora a nunca comer mais do que três peças por dia (!). Ele é bananas, mangas, meloas cantaloupe, kiwis a monte, sumo de laranja todas as manhãs e, no outro dia, nêsperas.

É mais ou menos por isto que, quando espreito para os quintais nas traseiras da nossa casa, fico meio nervosa por ver aquelas árvores carregadinhas de frutos aparentemente maduros e com vontade de trepar árvore acima para encher os bolsos de nêsperas. E quem diz estas árvores diz as laranjeiras nos quintais à beira do nosso caminho para Lisboa, diz os morangos que ficam por apanhar, as cerejeiras que começam agora a florir. Consolo-me a pensar que podia ser pior: podia apetecer-me batatas fritas a toda a hora ou algo inusitado a altas horas da manhã. E vivo a pensar no dia em que poderei voltar a comer morangos. E sushi. E também já bebia uma mini, vá. Mas descasquem-me uma manga e uns dois kiwis e eu já fico contente.

maio 06, 2010

Chama-se Vicente

 
Tem dezoito semanas e um coração de cavalinho que bate a 152bpm. E sinceramente, depois de o ver hoje, tudo, tudo o resto me pareceu trivial.

maio 04, 2010

Nota 10

Acontece que chegou aquela altura do trimestre em que é suposto eu avaliar e discutir os desempenhos das pessoas da minha equipa. Há um formato criado internamente para que todos possam ser avaliados segundo os mesmos critérios e para que assim seja mais fácil e mais justo pontuar aquilo que consideramos importante. Não vem ao caso o facto destas avaliações (descobri nos últimos tempos) não terem quase nenhuma repercussão em recrutamentos internos - alguém tem que as fazer e esse alguém sou eu.

Se antes, apesar de um pouco contrariada pelo número de colaboradores ou pelos prazos apertados, me dava algum gozo a pô-las de pé, neste momento elas assumem verdadeiramente o carácter de inutilidade sobre o qual já antes me tinham avisado. Não tenho nenhum caso especialmente grave a nível disciplinar e as avaliações são, no geral, até bastante boas. A única coisa que me está a custar é que não servem absolutamente para nada: não posso ajudar ninguém a progredir, a crescer dentro da empresa simplesmente porque esse futuro não nos está reservado. E então escrevo uma série de palavras ocas, ocasionalmente de louvor, noutras vezes sobre áreas a desenvolver, avalio o trimestre inteiro de pessoas que não sabem, na verdade, o que lhes vai acontecer. Que reacção espero eu delas? Pois que se estejam nas tintas para aquela hora de conversa e que queiram saber quando é que o fim é o fim.

Tenho muita, muita pena que o estado de graça da minha gravidez tenha que ser partilhado com o absoluto desastre da minha vida profissional do momento. Tenho medo que, quando um dia voltar a olhar para trás, as desilusões constantes desta recta final, o estado de apatia do qual não posso fugir possam manchar aquela que é muitas vezes descrita como a melhor altura da vida de uma mulher. Tenho medo de confundir as coisas e não recordar a felicidade extrema que sinto quando vejo a minha barriga a crescer, a ansiedade de ver esta pulguinha e ouvir o seu coração de cavalinho - tudo em troca de ter sido apanhada nesta trapalhada a que chamam mundos dos negócios. Eu sei que, quando se fecham portas, abrem-se janelas. Mas abrem-se exactamente para o quê?