outubro 12, 2010

A aventura continua*


Esta última semana foi (talvez) a mais difícil da minha vida. Ao escolher amamentar o meu bebé em exclusivo, aceitei (sem saber) um compromisso gigante para com a sua saúde e também com o meu bem estar psicológico. É óbvio que, apesar de nascerem já com alguns reflexos, os bebés não sabem mamar e uns precisam de mais ajuda para se iniciarem nessa aventura. Nesta última semana, tive momentos a roçar a histeria, admito, mas simplesmente por não conseguir compreender se o bebé estava bem alimentado, satisfeito ou frustrado e simultaneamente achar que eu tinha a culpa disso tudo. Muitas vezes, lamentamos que as pessoas não venham com livros de instruções e isso é especialmente grave - descubro-o agora - com bebés.

As hormonas instáveis não ajudaram particularmente e esta ideia de que sou a pessoa mais desajeitada que conheço também não melhorou o cenário de caos com que me deparava: o meu bebé podia estar subnutrido e a culpa era minha. Mas felizmente fomos a uma conferência sobre aleitamento materno, falámos com amigos mais experientes e o Vicente foi ao pediatra pela primeira vez e tudo ficou mais fácil. Quer dizer, não sei se mais fácil mas pelo menos mais leve. Experimentámos algumas alternativas e, depois de saber que o bebé já tinha ultrapassado o peso de nascença, pude finalmente respirar de alívio. A verdade é que estive quase a desistir, mesmo sabendo que a amamentação é a solução ideal para o bebé e para mim e que ele não precisa de mais nada para crescer forte e saudável.

Ter um filho é ser posto à prova a cada segundo que passa. Suprimir-lhe as necessidades, satisfazer-lhe os desejos, acalmar-lhe o choro e ver o sorriso ainda inconsequente de quem não consegue apreender o Mundo é tudo o que nos ocupa o pensamento. Não há tempo para pensar em jantares ou computadores, sobram poucos minutos para ler, o cansaço ataca cada vez mais cedo mas a simples ideia daquela cabecinha a levantar-se do meu ombro e aqueles olhos curiosos a tentarem perceber quem sou eu valem tudo. Recuperei a calma (pelo menos por agora) e encaro estas dificuldades mais tranquila e também o posso agradecer ao incansável pai do Vicente. Cada dia é um dia e com estas brincadeiras todas duas semanas já lá vão [suspiro]...

* as fotos são do postal adorável que acompanhava o sling que comprámos na loja de estar, que podem visitar aqui. Atenuadas as dificuldades iniciais da amamentação, avançamos para o próximo obstáculo: a deslocação sem ajuda do pai.

outubro 07, 2010

A primeira efeméride

 A fotografia é uma das milhentas que o pai lhe tirou.

Já passou uma semana... É incrível, a dimensão deste lugar comum mas também é absolutamente desarmante a forma como agora faz mais sentido: o tempo passa a correr. É óbvio que não me sobra muito tempo para me dedicar às coisas que gosto para que possa atender todos os desejos e caprichos do meu pequeno príncipe. Começamos a aprender os ritmos um do outro, a descobrir soluções de recurso para os obstáculos que vão surgindo e não tem sido fácil. Sou uma pessoa demasiado nervosa e impaciente para não me preocupar com todos os soluços e espirros, para conseguir adormecer sem ver umas cinquenta vezes se ele está a respirar, para não sobre-analisar tudo e mais alguma coisa. Não me canso de lhe estudar as feições e os sorrisos enquanto dorme, nem o beicinho que treme quando está mesmo muito aborrecido. Acho que ainda me custa a crer que este bebé saiu de dentro de mim com tamanha perfeição...

outubro 03, 2010

O incrível bebé V.

Bem, na realidade não sei por onde começar. Como é que reconstituímos um acontecimento de tal maneira brutal para a nossa existência? Vamos por partes, então.

O Vicente nasceu na passada Quarta-feira por volta do meio dia. Eu tinha passado a noite anterior em claro, tentando organizar as contracções que já me prostravam bastante mas que eu ainda não identificava como sendo sinais de trabalho de parto. Sem pregar o olho e sem sucesso, eu tentava combater as dores com técnicas de respiração, episódios do Family Guy e pêssegos em calda. Na manhã seguinte, pensava que ia apenas ser reavaliada pela médica mas, para nossa surpresa, fiquei internada - gravidez de termo com trabalho de parto, chamaram-lhe eles. Desde que dei entrada no hospital até chorar descontroladamente com a primeira visão do meu filho, passaram apenas três horas. Acho que é isto que acontece quando se faz bem os trabalhos de casa! Como é óbvio, vou poupar-vos aos detalhes sórdidos da coisa e vou apenas dizer-vos que foi uma experiência absolutamente irreal e às vezes parecia que me estava a ver de fora do meu corpo.

Dei à luz um bebé perfeito, ao contrário de muitos medos que fui tendo ao longo da gravidez. Mostrou logo a goela bem forte assim que saiu da barriga da mãe e brilhou nas medições e testes que habitualmente se fazem à nascença. Foi na sala de partos que estive, pela primeira vez, rodeada pelos dois homens da minha vida, ainda totalmente atordoada e um pouco exausta enquanto o pai do Vicente lhe cortava o cordão umbilical. À parte dos normais constrangimentos fisiológicos, foi tudo perfeito, melhor do que poderia ter imaginado.

O Vicente já recebeu as visitas dos avós, tios e duns amiguinhos (vocês sabem que são!) e é, no geral, um bebé muito calmo. Confesso que alguns desequilíbrios hormonais durante a gravidez me fizeram temer que o bebé nascesse debaixo de stress ou muito nervoso mas, e apesar de ser ainda cedo para o afirmar, é um anjo que vejo deitado ao meu lado. Todos os desejos, todos os nosso planos e esperanças têm agora uma cara, um corpinho delicado, um cabelo que é basicamente a cópia do cabelo do pai e uma boquinha que às vezes também ri. É mais do que óbvio que vivemos dias intensamente felizes e de profunda mudança, testes e adaptação. Ainda lutamos com a logística e a alimentação, ainda remodelamos horários - estamos profundamente empenhados em conhecer e amar o nosso filho. Não sei se sou agora outra pessoa mas sei que a minha auto-imagem saiu profundamente mudada daquela sala de partos em Santa Maria dos Olivais: ver uma vida que carregámos durante nove meses chegar ao Mundo desta forma tão bonita faz milagres. Agora se me desculpam vou andando, que o meu maior milagre, a minha maior razão de ser feliz reclama a minha presença - está na hora do almoço.

setembro 29, 2010

Querido Vicente,

chegou finalmente a hora. Nem quero acreditar que está para breve o nosso encontro, depois das semanas contadas com ansiedade e das horas que já passámos a pensar em ti. Não posso, como muitas pessoas, dizer que esta gravidez passou num instante: alturas houve em que o tempo passou mais depressa, noutras parecia nunca avançar. No início tive medo, Vicente. No início, pensei muitas noites que poderia não ser uma mãe capaz e que não conseguiria estar à altura das responsabilidades. Foi um Inverno muito longo e muito chuvoso e demasiado escuro, Vicente.

Mas depois veio a Primavera e com ela também os teus primeiros pontapés e a primeira certeza de que estavas ali, ainda nadando na minha barriga e as preocupações foram passando para segundo plano. Sentia-me radiosa por te ter dentro da minha barriga, sentia-me vaidosa, sabes? Lentamente, começava a sentir que eras o maior privilégio que alguma vez tinha sentido, ia buscar forças à ideia de estares deitado ao meu lado e gostares de mim sem pedires mais do que a minha protecção em troca. O ritual de me ver ao espelho começou a ser cada vez mais importante para mim, estudando o teu crescimento, a formação da minha barriguinha, até ao momento em que me achei mesmo bonita - grávida e já a caminhar para o enorme.

Esta fase descendente da tua aproximação, este cavalgar até ao dia em que estarás cá fora foi difícil mas apenas fisicamente. Na minha cabeça, não restavam dúvidas: tu ias ser muito amado e eu, como todas as mães do Mundo, só ia fazer tudo ao meu alcance para te ver crescer muito feliz. Espera, não era só eu: o teu pai, a quem os olhos brilham desde o dia em que fiz o primeiro teste de gravidez, esteve sempre do meu lado e nunca se cansou das minhas fadigas e das minhas incertezas, das minhas frustrações e das minhas dores. Se pudesses lembrar-te dos beijinhos que te deram através da minha barriga, de certeza que saberias que o teu pai te deseja tanto quanto eu. Depois, devias vê-lo a montar os móveis do teu quarto, a escolher os teus primeiros brinquedos, a olhar para o sítio onde irás dormir: espero que consigamos mostrar-te como o nosso amor é incondicional.

Está quase na hora e eu hei-de despedir-me da minha barriga. Não terei saudades do peso que me impedia de me levantar sozinha do sofá ou da cama à noite mas de certeza vou sentir a tua falta dentro de mim, protegido de tudo, embalado pelo meu andar, um bebé que foi meu durante nove longos meses. Se tudo correr bem, dentro de pouco tempo vou saber como cheiras bem e sentir a tua pele na minha pele - não há nada que queira mais neste Mundo. O nosso Futuro começa agora ♥

setembro 26, 2010

Em absoluta contagem decrescente


O pai do Vicente lá se arriscou a balançar a cabine do teleférico.

A médica acha que afinal ele nasce esta semana. Apesar dos sinais de trabalho de parto serem quase nulos ou ainda bastante suportáveis, pareceu-lhe que estava tudo encaminhado para o bebé chegar antes das quarenta semanas e pediu-me que passe no hospital antes da última consulta, ainda assim ele não esteja já pronto. Saímos de lá felizes - eu, pelo menos, já com uma ténue sensação de alívio por imaginar que alguns desconfortos estão perto do fim. E deixou-nos uma palavra de ordem: andar! Por isso, lá fomos mais uma vez para perto do rio para poder andar bastante em terreno plano e ainda subir algumas escadas. Sim, a gravidez é um estado maravilhoso e de permanente graça e eu vou ter saudades da barriga mas agora o que eu quero mesmo é o MEU FILHO CÁ FORA!

setembro 23, 2010

Pensar no futuro


Chegou ontem o nosso kit de criopreservação das células do cordão umbilical do Vicente. Optámos por uma recolha e armazenamento num organismo público (o Lusocord) em vez dos centros privados que se estão cada vez mais a instalar no mercado e calculamos que a maior parte das pessoas que recorre a estes últimos o faz por desconhecer outras alternativas. Fizemo-lo por duas razões distintas mas complementares: em primeiro lugar, não tínhamos neste momento capacidade financeira para um investimento deste género; em segundo lugar, a probabilidade de alguma vez recorrermos a estas células ainda está calculada abaixo dos 0,1%, pelo que o investimento se torna ainda mais dispensável.

A desvantagem, se a quiserem ver como tal, é que, em caso de necessidade, o banco público não garante o acesso às mesmas células que armazenámos. Isto quer dizer que as células do Vicente estarão disponíveis para ajudar outras pessoas ou para possíveis avanços em investigação mas, ao mesmo tempo, o leque de dadores compatíveis com o Vicente também é bastante mais extenso, o que aumenta a probabilidade de encontrar uma amostra compatível. Os centros privados criaram essa sensação de que o nosso bebé se encontra muito mais protegido e é, de facto, uma óptima ideia de negócio mas passam por cima da ideia de partilha e intervenção numa comunidade onde também podemos contribuir.

Já lemos todas as instruções e os consentimentos informados e tudo e agora só nos falta uma coisa essencial: o Vicente resolver deixar a barriga da mãe. Tínhamos esperança nesta mudança da Lua mas bem, era (ou é) hoje e não se sentem aqui quaisquer sinais de trabalho de parto. Chamem-nos ansiosos e apressados e digam que ele só virá quando tiver que vir - a verdade é que (há já muito tempo) estamos em pulgas para o conhecer! Se nada mudar entretanto, faltam precisamente doze dias e daí o cachopo não passa!

setembro 20, 2010

Como destruir ilusões numa trintona com um coração adolescente:


As memórias visuais são, como de costume, da autoria deste senhor.

ir a um concerto dos Eels.

(era suposto ser tudo delicodoce, como há tantos anos atrás. O senhor E. havia de estar afogado em melancolia e tristeza, enquanto eu discutia online se o álbum era um sinal de desistência ou a pista de que nos devemos sempre recompor. Quando os Eels se tornaram numa grande coisa para mim, eu estava completamente perdida, sem qualquer hipótese de resgatar o meu sentido de orientação, entre mudança de casas e cicatrização do coração. Não percebia o que me estava a acontecer nem fazia ideia de como voltar a ser a pessoa que tinha sido até ali. A única vez em que me senti desesperada o suficiente para escrever numa parede do quarto, usei uma letra deles (Life is funny but not ha-ha funny/ Peculiar, I guess/ You think I got it all going my way/ Then why am I such a fucking mess) que ficou lá até eu deixar aquela casa. Secretamente, tinha esperança que era um bocadinho dessas ilusões que ia encontrar ontem no Coliseu mas não: todos crescemos e todos aprendemos a não sucumbir fatalmente aos males de amor. Não tenho saudades nenhumas de estar angustiada mas ontem gostava de ter ouvido mais memórias do que rock'n'roll.)

setembro 14, 2010

Esperando...

Alguns retratos da recta final por mim e pelo pai (já) babado.

Estamos, como já tínhamos dito antes, oficialmente à espera. Temos aproveitado os últimos dias para dar os últimos retoques ao quarto do Vicente e ao resto da casa para que ele tenha tudo pronto quando chegar. Para isso, contámos com a preciosa ajuda dos amigos que, entre brocas e força de braços, nos ajudaram a fazer mais coisas acontecer. Tenho tentado andar um bocado e evitar parar desnecessariamente no sofá mas enfim, com a minha caixa toráxica tão apertada e as dores nas articulações fazem com que seja mais um fardo do que outra coisa. Dormir qualquer coisa que se veja é mentira, não há posição que me alivie totalmente o peso e confesso que em algumas noites começo a pensar na responsabilidade que aí vem e, apesar de a desejar profundamente, fico assustada.

Estivemos na festa da Catalunha no Largo do Carmo, que não tinha muita gente mas estava bastante animada com um coro, histórias tradicionais e divulgação de outras iniciativas da comunidade catalã (que não imaginava tão activa) em Portugal. Também nos atrevemos a enfrentar a fila para comprar um gelado na Santini e, apesar da qualidade estar ao nível do que se ouve por aí, continuo a achar que o hype é exagerado. Espero voltar lá apenas no Inverno, na esperança de encontrar lá muito menos gente. Em todo o caso, vamos saciando a vontade de gelado nestas últimas semanas, até que o Vicente decida que chegou a hora de conhecer o Mundo.

setembro 08, 2010

Breve Declaração de Amor *


* com imagens que trouxemos desta exposição.

setembro 06, 2010

Leaning into the afternoons *

 As fotografias têm, como é hábito, a assinatura do pai do Vicente.

Ainda temos tardes em que estão trinta graus à sombra mas já corre uma espécie de brisa que agita a folhagem que vai já também cobrindo os relvados da Estrela. Levaram línguas de gato, um pudim que infelizmente não provámos e tínhamos cerveja fresca. O jardim estava cheio de outros piqueniques, outras raparigas grávidas e muitos visitantes da feira de artesanato. Vieram amigos de longe e fizemos amigos novos e gostávamos de ter continuado a conversar. Talvez haja muita gente que se esquece mas a tranquilidade e a descontracção não custam nada e são especialmente fáceis de encontrar sobre uma manta na relva.

*Leaning into the afternoons, I cast my sad nets towards your oceanic eyes. numa tradução do grande Pablo Neruda.

setembro 05, 2010

Aproveitar o que resta do Verão!


É verdade que já sinto uma pontinha daquela depressão que se abate sobre nós quando às oito da noite já não é bem de dia ou quando se sente que ir para a praia já é um bocadinho estranho. Não exactamente por esta razão, o pai do Vicente decidiu combinar um piquenique entre amigos e eu vou aproveitar para uma espécie de comemoração dupla: a (quase) chegada do Outono e a (quase) chegada do Vicente! Ontem, lá fomos pela primeira vez (sim, tenho vergonha...) ao mercado de Campo de Ourique para nos abastecermos de produtos frescos e ontem foi cozinhar até os meus rins e pernas dizerem Basta!: sopa de legumes, lasanha de salmão fumado, biscoitos da Saxónia, muffins de stracciatella e uma tarte de legumes e atum. Eu gosto bastante de cozinhar mas estas maratonas (neste momento) dão cabo de mim. Mas não interessa: estou pronta a estender a toalha na relva e fechar os olhos debaixo das copas frondosas do jardim da Estrela!

setembro 02, 2010

À noite na Lapa


Ora, por aqui temos aproveitado algumas noites de Verão para fazer coisas para as quais em breve vamos deixar de ter tempo. Não temos dado tantos passeios como gostaríamos (e deveríamos, a julgar pelos conselhos relacionados com o parto que mais ouvimos), especialmente porque à noite o cansaço e as dores em todas as articulações abaixo da cintura já são difíceis de suportar. Ontem, mesmo assim, ainda fomos até ao jardim da Estrela refrescar-nos com os maravilhosos 21º que deviam estar todos os dias.

Esta experiência do Scrabble tem sido um bocado traumática para mim porque chego à conclusão que o meu vocabulário anda pelas ruas da amargura e levo sempre grandes coças do meu companheiro de casa (também conhecido como pai do Vicente). Mas isso não me faz deixar de gostar deste conceito tão simples e, não fosse eu uma rapariga feliz e resolvida, passaria a incluir gostar de jogar Scrabble nas características do homem ideal. De resto, temos visto uns filmes, uns episódios do Allo Allo (temos planos para devorar as séries todas) e, considerando os últimos tempos, tenho lido bastante (devorei este e este em pouquíssimos dias). Com o corpo (ou os corpos, que o Vicente está a sair-nos um rapaz bem robusto) a pedir descanso, confesso que, apesar de tudo, tenho saudades duma noitada daquelas à antiga mas acalma-te cabecinha, isso ainda vai ter que esperar!

agosto 31, 2010

Reality check

Isto estava tudo muito bem até ontem. Andei a ver uns vídeos online, já consumi toda a literatura sobre o tema que consigo absorver mas ontem visitámos o bloco de partos e a unidade de cuidados ao recém nascido e bum!, caiu-me a realidade em cima: eu vou experimentar as agonias do parto! É um lugar comum falar da desconfortável luz branca do bloco de partos e das perneiras que nos supõem deitadas durante horas e da maquinaria meio assustadora para os bebés que precisam de ajuda - eu não fujo à regra. E é óbvio que já ouvi as cinquenta mil histórias de partos da praxe, cuja maior parte descai para umas dezasseis horas de sofrimento, anestesias que não pegaram, cesarianas de urgência e outros detalhes igualmente sórdidos para quem vai ser mãe. Mesmo assim, tenho esperança porque ainda ouvi quem demorasse um par de horas na marquesa, quem dispensasse calmamente a anestesia e quem tivesse a sorte de ter o trabalho de parto ideal.

Até ontem, a minha ideia do parto estava ao mesmo nível duma curta metragem: eu era uma actriz a tentar absorver as experiências de mães verdadeiras, acumulando informação e conhecimento e métodos naturais de alívio da dor para melhor desempenhar um papel. Aquela sala de partos é que quebrou este feitiço e agora, de repente, vou ser a estrela disto e sei lá se estou preparada. O meu maior medo é desistir a meio, exausta ou impotente para ajudar o Vicente a chegar. Só a inevitabilidade do parto é que me descansa mais: ele vai ter que sair, one way or the other. Até lá, vou ficando atenta e se virem por aí uma moça aflita sem saber se o que sente são os primeiros sinais de parto, abanem-me - devo ser eu!

agosto 27, 2010

Relaxar a Norte para "encostar" finalmente a Sul


O pai do Vicente foi, desta vez, também o etnógrafo de serviço!

A nossa viagem está definitivamente a chegar ao fim, ao contrário de muitas em que o fim surge sem se fazer anunciar. Para a semana, quando completar trinta e cinco semanas de Vicente na barriga, começa uma vertiginosa contagem descendente e inicia-se oficialmente o nono mês de gravidez. Há, portanto, motivos para celebrar, teorizar, tentar adivinhar e temer.

Antes de encerrar as visitas por aí, mas já a custo, passámos uns dias perto de Ponte de Lima, tentando descansar, absorver alguma da vibração local e ainda ver coisas novas. Foi assim que passeámos por Caminha e por Valença e que descobrimos, espantados, a grandeza da serra d'Arga. Infelizmente, mas como já vem sendo da praxe, há muitos hectares de floresta ardida ladeando as estradas, tornando o silêncio em algo avassalador no cimo da serra. Foram dias de regresso para muitos emigrantes e ainda tivemos a sorte de assistir e quase participar nas festas da aldeia em honra de quatro ou cinco santos.

A viagem está a acabar, comecei eu por escrever. Regressei à minha cidade pela última vez antes de ser mãe, numa espécie de despedida de barriga: quando voltar, trarei o Vicente para o apresentar ao sítio que viu a mãe nascer. É uma distância auto-imposta e agridoce: por um lado, preciso de descansar e as dores nas ancas e em quase todas as articulações já não me deixam encontrar nenhuma posição confortável; por outro, custa-me ficar longe da minha família nesta recta final. Trinta e nove dias para pensar tudo o que ainda ficou por pensar, para a aceitação final de que nada será como antes, para preparar o meu coração para a chegada do nosso filho - não vai ser fácil mas a sério, mal podemos esperar.

agosto 22, 2010

Querido Vicente,

trouxemos-te para Norte, muito para Norte para que possas respirar um pouco deste ar puro e saber o que é o silêncio. Esta é a vista da janela do nosso quarto e, apesar de inevitavelmente já haver alguma área ardida por aqui, a paisagem continua a ser deslumbrante. A ribeira corre ainda ali em baixo, serpenteando entre as árvores, acalmando perto da ponte onde rapazes e raparigas se juntam para mergulhar. Somos acordados com alvoradas festivas, morteiros e música popular aqui desta zona do Lima escolhida pelos senhores da cabine da rádio mais abaixo. Há uma piscina onde já tomaste banho e que dividimos com uma gigante família espanhola, que trouxe consigo bebezinhos, avós e moças em topless. É bom estar aqui com amigos e não ter absolutamente nada para fazer. Esperamos por ti!

agosto 18, 2010

Sobre dias que podiam ter sido perfeitos

É claro que, de todos os dias que podia ter escolhido para fazer praia um bocadinho mais longe de Lisboa, tinha logo que escolher o primeiro em que o céu estava pouco cooperativo. Tantos dias de Sol já se desperdiçaram aqui pela Lapa, entre a ventoinha, o sofá e a televisão, e ontem, decididos a gozar a calma das praias mais a Sul, apanhámos o ferry em Setúbal e descemos a península de Tróia. Na Comporta, estava tudo muito sossegadinho, o mar muito calmo e a temperatura da água tão melhor que nas praias mais a norte mas as nuvens, sim, as nuvens que não deixavam secar os fatos de banho ajudavam a criar a sensação de frio. Arrumámos a trouxa e seguimos viagem pela costa Azul em direcção a casa.

Assim em jeito de compensação, fomos ao Bairro Alto reconfortar o estômago com uns belos nacos do lombo na pedra (que me fazem salivar só de pensar neles!) e nectarina grelhada com mascarpone e coulis de maracujá. Já não ia para aqueles lados há uns meses valentes e enfim, cheguei à triste mas não menos verdadeira conclusão que voltarei a abanar o capacete no espaço exíguo do Incógnito quando o Vicente for para a universidade! Já falta pouco, se pensar que daqui a uns quarenta e oito dias ele está cá fora...

agosto 14, 2010

Águas de Agosto

O silêncio apenas interrompido pelo vento a agitar pinheiros mansos e plátanos. A serra e a planície totalmente secas, amarelo a perder de vista debaixo do impiedoso calor. Ser a primeira e (algumas vezes) a única pessoa dentro de água. Saborear a leveza de nadar com o meu filho na barriga. A minha mãe ao meu lado, apanhando os seus primeiros raios de Sol do ano. Perder-me na sucessão dos dias sem conseguir criar novamente uma rotina. As saudades serenas de quem sabe exactamente (e agradece) aquilo que tem.

agosto 13, 2010

Entre Portugal e Espanha, 40º

A verdade é que sempre que, sempre que penso em Campo Maior, penso num território mais ou menos de ninguém, onde as pessoas se devem considerar mais ibéricas do que propriamente portuguesas ou espanholas. Como noutras localidades da raia, as influências de ambos os países convivem pacificamente e é assim que a rua de Portalegre pode ser paralela à rua de Badajoz ou que a arquitectura da vila permite que as tradicionais casas caiadas sejam interrompidas pelas portadas em madeira e pátios espanhóis. Aqui, já não se fala exactamente o português mas também não se adoptou o castelhano como língua oficial mas antes uma mistura muito rica que é confundida por muitos com uma espécie de cantiga. A televisão espanhola (como ainda na minha infância) vê-se melhor do que os formigueiros instáveis das emissoras portuguesas e por isso não admira que as influências da Extremadura se façam notar.

Há perspectivas antagónicas sobre a importância do Rui Nabeiro na vila: os que se opõem à sua influência dominadora e os que agradecem as constantes oportunidades de emprego que cria com as suas iniciativas. Eu sou daquelas que acha que oportunidades destas se devem agradecer e quem vê a vila à chegada, depois de rectas intermináveis ladeadas pelo feno tão seco, os rebanhos tão pachorrentos e charcas que resistem ao calor, pode admirar a forma como, ao contrário de tantas vilas e aldeias do concelho, se tem expandido pela planície partilhada com Espanha. Para o ano há promessa do regresso das festas e, para mim, a promessa de aprender a arte das flores em papel. Mas espero que esta onda de calor esteja mais branda e o ar seja um pouco mais respirável para que estar sentada numa esplanada não seja confundido com uma tortura e os termómetros de rua não avariem de vez.

agosto 10, 2010

Este país não é para honestos

Bem, então vamos lá escrever isto mais uma vez para ver se me entra finalmente na cabeça:

trabalho quatro anos na mesma empresa, sempre com boas avaliações de desempenho e com progressão vertical; a mesma empresa decide fechar um departamento inteiro para reduzir a estrutura de custos e eu descubro, de repente, que vou ficar sem emprego; são-me prometidas variadas hipóteses de reintegração na empresa, especialmente atendendo à minha corrente situação de gravidez; a empresa avança com o despedimento colectivo no final, sem apelo nem agravo; eu volto a casa com a minha consciência de contribuinte e utente de um sistema de segurança social absolutamente tranquila porque sempre cumpri com os meus deveres; esse mesmo sistema de segurança social indefere o meu pedido de prestações de desemprego porque não me encontro numa situação de desemprego involuntário. Hã?

Eu detesto aquela atitude xenófoba que mete imigrantes, ciganos e idosos todos no mesmo saco: o dos que não querem trabalhar e ainda assim têm direito a prestações sociais. Mas hoje, no dia em que recebo a carta que me nega uma forma de subsistência a mim e ao meu filho depois de obedecer, descontar e acreditar num sistema de apoio social, só me resta dizer: este país não presta. Não posso sentir-me em casa num país onde não tenho médico de família, onde o atendimento no serviço de saúde pública é mais do que deficiente, onde tudo o que já descontei não me garante qualquer tipo de apoio social. Preferia, sem qualquer tipo de pudor, lavar escadas num país qualquer do Norte da Europa mas manter os meus direitos. É nestes momentos que nem o Sol, nem a luz e as praias, nem a calma chegam: este país não nos merece.

agosto 08, 2010

Dar de comer ao cachopo

Ainda hoje se falava aqui em casa dos quilos que se ganham durante a gravidez (alguém com mais vinte aos quatro meses, OMG!) e bem, eu realmente vim desiludida comigo mesma na última consulta. Mas a verdade é que a gravidez é uma óptima altura para deixar de fazer grandes sacrifícios, sem (é óbvio) que isso signifique enfardar tudo o que nos aparece à frente e em quantidades industriais. Portanto, aqui por casa tentamos manter uma dieta equilibrada mas com espaço para ceder a estas tentações de final de tarde. É verdade que não vejo a hora de poder (ou conseguir) fazer algum exercício físico mas, até lá, vou dando ao Vicente algumas amostras das coisas que fazem salivar a mãe (não exactamente no mesmo dia nem pela mesma ordem).

agosto 05, 2010

O banho (possível)

Acho que é bem possível que já sejamos vistos como os maluquinhos lá do curso por gostarmos de arriscar, adivinhar, participar. Se vos falarem de alguém que enfiava o bebé de cabeça para baixo na banheira, era eu. Mas foi intencional, apetecia-me só brincar.

agosto 04, 2010

Mudar!

Andámos (andamos?) em mudança. Aproveitaram-se os primeiros dias da tal liberdade para, com ajuda dos avós do Vicente, preparar a casa para melhor o podermos receber. É verdade que a minha condição já não me deixa ajudar como gostaria mas a verdade é que foram dias de algum cansaço e bastantes dores no final do dia, como se fosse uma velhinha com as articulações gastas pela experiência. Mas, ajudando como posso, sinto-me orgulhosa do espaço que temos vindo a tornar cada vez mais dos três, prontos para acolher o pequenino que aí vem. É verdade que algumas questões de logística ainda não nos deixaram terminar o espacinho do Vicente mas temos já as ideias formadas na cabeça, algum material comprado e, agora que vamos estar ambos de férias, é deitar mãos à obra. Dizem que esta é a altura ideal para estas actividades, bem como para a organização da mala para a maternidade, coisa de que também já tratei.  Começa a andar tudo demasiado depressa e é como se ele pudesse chegar a qualquer hora... Afinal de contas, estamos a falar de apenas 62 dias (numa data ideal) até termos nos braços o nosso bebé!

julho 29, 2010

So this is goodbye

Estou há uns três dias a arrumar a minha secretária. Já deitei os manuais e a papelada fora, já recuperei todas as variedades de chá que ficam para o Inverno, já devolvi todo o economato que não me fez falta e já deitei as guloseimas fora. Só me resta amanhã arrumar a mascote no saco e sair.

Amanhã a esta hora eu serei apenas mais uma desempregada, um fim que já se tinha anunciado há um ano mas no qual nunca quis acreditar até há uns meses atrás. Saio desta empresa de cabeça erguida, consciente de que fiz sempre o meu melhor, mesmo nos momentos mais difíceis e em todas as alturas que escolheram para me desiludir um pouco mais. Saio mais experiente mas também mais cínica e deixo para trás, quem sabe arrumada nalguma gaveta do side desk, parte da ingenuidade com que entrei aqui em 2006. Acumulei conhecimento sem preço, empinei formações em gestão, aprendi a contar com a inevitabilidade das pessoas mas nunca, nunca deixei de me surpreender. Viajei em negócios algumas vezes, vi-me obrigada a mentir e a ser mais transparente, avaliei e fui avaliada, subi a pulso numa cadeia hierárquica predominantemente horizontal. Nos últimos anos, passei indiscutivelmente mais horas com esta equipa do que com a minha família e amigos e por isso aprendi a conhecê-los e a diferenciar o trato entre eles: apanhei-lhes as manhas, adivinhava-lhe as tristezas mas nunca consegui que falassem de tudo e foi essa a minha grande derrota.

Daqui a umas horas, estarei livre mas desempregada e isso assusta-me, embora tenha passado os últimos meses a convencer-me que não. Sei que estou ansiosa porque ultimamente custa-me a respirar cada vez que atravesso a fronteira imaginária que separa este escritório do desemprego e já nem o ar condicionado me vale. No fundo, sei que, se só puder contar comigo neste futuro incerto, não estarei mal apoiada. Sei que arregaço as mangas para o que for preciso, sei que não páro de investir em mim e que, livre de toda esta pressão, serei uma mãe mais presente para o Vicente que está quase aí. Mas é duro na mesma e é, acima de tudo, muito frustrante saber que tudo o que fiz até agora não me segurou lugar nenhum. Mas se calhar não é bem desemprego, são férias. E se calhar não serão tempos mortos, que as dissertações não se escrevem sozinhas. Só que custa muito fechar esta porta e ando à procura duma maneira de não hesitar amanhã. Quando ouvir a porta bater, terei na mão uma liberdade infinita e não sei o que hei-de fazer com ela.

julho 26, 2010

O Vicente passeou pela Regaleira e banhou-se no Magoito!


O meu motorista e companheiro de passeio continua de máquina em punho.

Se há coisa que este Verão aprendi a agradecer foi o facto do meu pai ter insistido para comprar um carro com ar condicionado. Não é que o use sempre mas, em dias como o de hoje (41º na zona de Lisboa?! Mas ao que isto já chegou...), já me é completamente indispensável.

A verdade é que o nosso programa não foi grande ideia mas apenas por uma razão: eu sou uma mulher grávida de sete meses e tenho os meus meios de locomoção severamente afectados. Se me querem ver sem fôlego, é darem-me uns poucos lances de escadas ou uma subida mais acentuada e pronto, o facto de ter que respirar por dois afecta-me um bocado. Ora, posto isto, passear pela quinta da Regaleira e dar um mergulho no Magoito constituem um programa maravilhoso, especialmente quando estão uns 25º e se está no pico de forma. Adorei passar este dia fora de casa, mesmo com as temperaturas assassinas mas, chegada agora ao final do dia, estou quase incapaz de me mexer e desesperada por uma massagem na zona dos rins. O bebé Vicente porta-se muito bem nestes passeios e só dá sinais de actividade quando a mãe se senta a descansar um pouco. Acho que está crescido porque os movimentos na barriga da mãe mudaram bastante e são mais arrastados agora.

(Eu disse mesmo sete meses?! Bem, em alternativa posso pensar que faltam 71 dias. Ou até mesmo 10 semanas e um dia. Estou indecisa entre pensar que o tempo passa sem eu dar conta e lamentar-me do que ainda falta para vir...)

julho 24, 2010

Fazer ouvir a nossa voz

O meu cartão vermelho foi fotografado por ele.

Por norma, não sou mulher de fazer campanhas nem de querer impor as minhas convicções a outras pessoas. Gosto de discutir, é certo, mas normalmente fico-me por aí. Só que desta vez apetece-me mesmo falar sobre isto, nem que seja porque me parece cada vez mais absurdo que isto continue a acontecer em pleno século XXI.

Esta é a forma que encontrei para expressar a repulsa que sinto pelos casos de violência doméstica, quer se manifestem física ou apenas psicologicamente, sobre homens ou (mais frequentemente) sobre mulheres e crianças. Não há nenhuma relação nem nenhum laço de parentesco que justifique a aceitação e o encobrimento de actos de violência ou de humilhação. Nem mesmo filhos, especialmente não os filhos. Para mim, uma relação só funciona realmente quando ambas as partes se respeitam mutuamente e têm suficiente auto-estima para aceitarem (ou debaterem) as suas diferenças e trabalharem em conjunto para que elas desapareçam. Acho triste que todos nós conheçamos alguns casos destes, muitas vezes mesmo no nosso círculo de amizade mais próximo e que, de alguma forma e por variadíssimas razões, optemos por manter o silêncio.

A violência verbal, as traições sucessivas nunca devem ser toleradas. Sei do que falo porque já o senti na pele. Nos padrões ditos normais, aquilo que vivi não seria considerado abuso - antes, era visto como uma prerrogativa do homem à qual a mulher comum deveria sujeitar-se. Há padrões nestes comportamentos mas o importante é que a mulher consiga isolá-los, compreender as suas implicações e compreender que a vida não precisa ser assim. Felizmente, nunca me vi envolvida em nenhuma cena de violência de qualquer tipo mas acho que hoje é seguro dizer que, a acontecer, nunca a iria tolerar uma segunda vez. Toda a gente merece melhor do que uma personalidade abusadora, sem qualquer excepção e respeito na sua relação com os outros. É por isso que acredito que as vítimas devem falar: com linhas de apoio, familiares, amigos ou profissionais de saúde - não interessa com quem, desde que compreendam que não há nada que as possa obrigar a suportar a dor. Nunca precisei deste tipo de ajuda mas posso garantir - só depois de recusar a humilhação é que comecei a viver. E desde aí... Bem, sou muito mais pessoa que até então. Se é vítima de violência doméstica ou conhece alguém que seja, por favor fale. Ninguém tem o direito de abafar a nossa voz.

julho 22, 2010

Viver a três (e não, não se fala aqui de threesomes!)

Acho que, com a idade, me tornei bastante mais observadora. Gosto de ver, gosto de assistir à vida em silêncio, mesmo que isso possa ser algumas vezes confundido com voyeurismo. E o nosso curso pré-parto é obviamente um sítio privilegiado para estes momentos de observação, especialmente no que a casais (inexperientes) diz respeito. Esta semana, falámos sobre métodos naturais de alívio da dor durante o trabalho de parto e os maridos/namorados/companheiros foram convidados a praticar massagens nas grávidas com um relaxante som ambiente, à meia luz. Foi muito bom ver os olhares embevecidos dos homens, derretendo-se com a mãe do seu filho/filha exercitando as ancas sobre uma daquelas bolas de pilates. O que realmente me comoveu foi a sensação de que há famílias efectivamente a crescer ali, que medos e responsabilidades são partilhados, que a gravidez é ali vivida como um glorioso momento a dois.

É por saber que este companheirismo e esta dedicação não são dados adquiridos que estes momentos me comovem. Imaginar que há homens que não se envolvem na gravidez das companheiras, que recusam ajudá-las e compreender as diferentes fases da gestação, que se afastam deliberadamente para evitarem chatices dói-me. Eu sei que se estivesse sozinha nunca poderia desfrutar desta fase da minha vida na sua plenitude nem muitas vezes teria força para suportar as contrariedades. E quer dizer, um filho é feito por duas pessoas. Se aconteceu na pior altura ou na altura menos esperada, acho que a única coisa a fazer é comportar-nos à altura e fazer tudo para que o bebé que aí vem nasça com saúde e possa ser feliz.

É óbvio que eu estou ansiosa por ver e tocar e cheirar o meu filho. Conto os dias e muitas vezes sei até quantas horas faltam até à data prevista para o parto. Mas a verdade é que, cada vez que penso que vamos deixar de ser apenas um casal, dá-me uma saudade profunda deste momento que ainda estamos a viver. Não me importa a relativa perda de liberdade, nem a necessária cambalhota nos nosso hábitos: fico é com saudades de vivermos apenas um para o outro, capazes de ficarmos fechados em casa, sem vermos mais ninguém porque nos bastamos. Mas sei que quando um bebé chega a uma relação que funciona não é mais do que o prolongamento destes momentos felizes vividos a dois. E para namorar, já eu decidi, hei-de arranjar sempre tempo.

julho 19, 2010

A minha inimiga nº 1: a balança

O mais-que-tudo documentou o início da refeição*.

Bem, eu gosto de comer. Aliás, desconfio sempre daquelas pessoas que não comem ou que dizem que não gostam de comer ou comem apenas por obrigação - fico sempre com a sensação de que não podem ser boas pessoas. Além disso, gosto muito do ditado que diz que Quem não é para comer não é para trabalhar, até porque já tive oportunidade de o comprovar variadíssimas vezes. Há uns anos, fui vista por uma nutricionista e só eu é que sei a disciplina que foi precisa para comer bem, satisfazer-me e ainda assim ficar em forma. 

A gravidez não estava a implicar grandes alterações nesse campo até aqui: obviamente estava mais gorda mas tinha sido uma evolução muito lenta e bem distribuída. Também ajudava o facto do bebé ainda não precisar de engordar, já que se se estava a formar lentamente. Mas agora enfim, o bebé está formado e vai começando a precisar acumular a gordura para que esteja pronto para enfrentar o mundo cá fora. E o meu apetite nem tem crescido exponencialmente, nem tenho sentido vontade de comer por dois. Mas a última visita à obstetra deixou-me bastante aborrecida (para não usar nada mais forte...) comigo mesma e com um certo receio dos meses que ainda me restam. A sete dias de trabalho de ficar finalmente livre e com demasiado tempo nas mãos, junto o meu apetite e tenho tudo para acontecer aqui outra desgraça - portanto, ainda bem que não tenho balança. Resta-me invejar aquelas grávidas quase em fim de tempo a quem cresceu apenas a barriga e maldizer o meu metabolismo lento. 

* levámos o amigo suiço e a namorada belga a comer neste restaurante e  nem o facto de ser exclusivamente vegetariano me fez cobiçar menos a comida: o serviço de buffet é maravilhoso, os sumos naturais são mesmo naturais e as sobremesas chegam para dividir por duas ou três pessoas. Peçam para ficar no terraço, se lá forem ;)

julho 14, 2010

Ser turista em Lisboa ♥

Aproveitando a visita de uns amigos suiços (e depois de experimentar as maravilhas da ineficiência da Loja do Cidadão), fizemos uma ronda por alguns sítios que estão na nossa lista dos must see. Levámo-los a beber uma ginja no Rossio, ritual que eu, pelas razões óbvias, dispensei. Passeámos pelo Chiado e subimos até ao Largo do Carmo para ver as vistas do elevador, misturados com hordas de espanhóis e alguns holandeses. Depois descemos até ao miradouro de Santa Catarina para sentir aquelas vibrações de final da tarde e terminámos a fazer metade do caminho de regresso a casa a pé e metade no 28, que isto de estar grávida não é doença mas dá cabo das articulações a uma pessoa.

Dizia eu à nossa amiga que muitas vezes tenho pena de não ser turista em Lisboa, especialmente nesta época do ano. É incrível a luz, o calor temperado com a brisa que sobe do Tejo, os dias que parecem nunca acabar, os petiscos para descobrir esplanadas fora, as ruas que vibram com as diferentes línguas dos turistas e os hotéis a doze euros por noite (!). Passamos os dias entre casa e trabalho, de metro, autocarro ou eléctrico sem prestar atenção, sem nos deixarmos maravilhar com os pormenores desta cidade. Mas pelo menos conseguimos passar algum do nosso fascínio a outros e pode ser que eles, como nós um dia, queiram muito voltar.

julho 08, 2010

Aprender a ser mãe (?)

Iniciámos ontem o nosso curso pré-parto neste centro aqui. Uma das primeiras coisas que me marcou foi o facto de, à excepção de um pai de vinte e nove anos, os restantes casais estavam todos pela casa dos trinta. Esta ideia de que cada vez somos jovens até mais tarde ou de que adiamos as responsabilidades até podermos está a atrasar-nos a parentalidade, as descobertas, as famílias. Eu não sou propriamente uma rapariga com pressa e nunca me passaria pela cabeça formar família só porque sim, mas vejo que temos andado a perder uma grande coisa!

Descobrimos durante a apresentação que fizemos e parece que alguém não ficou muito contente por nós também irmos ter um Vicente [vá lá, pessoas que não nos conhecem de parte nenhuma, com as quais muito provavelmente nunca nos iremos cruzar, qual é o problema de gostarmos do mesmo nome?]. De resto, foi relativamente interessante partilhar as nossas expectativas com pessoas na mesma situação, embora o sentimento de ansiedade fosse geral. E, como se eu não tivesse já uma dissertação de mestrado em que pensar, ainda temos umas duzentas páginas de material para acompanhar o curso. Planeio ler tudo mas não consigo evitar pensar que no tempo da minha mãe este tipo de acompanhamento tão próximo não se fazia e os bebés nasciam na mesma. Parece que se perde um pouco da magia quando se quer saber tudo e estar preparado para tudo, como se um bebé não fosse em si uma absoluta surpresa.

A parte alta da noite foi a sala escura onde nos iniciámos nas virtudes da correcta respiração e das suas vantagens para o parto. Guiados pela enfermeira, mães e pais relaxavam, tentando visualizar o seu bebé quando o estômago do pai do Vicente resolveu acabar-nos com o que existia de concentração! Havemos de treinar mais em casa, a ver se conseguimos também controlar-lhe as entranhas!

julho 05, 2010

Sabem aquela coisa dele ser o melhor do Mundo?

É igualmente válida para o exagero. A vontade de agradar e de me encher de melancia tem destas coisas. Eu adoro, é óbvio.

julho 04, 2010

Fazer pelos outros

Na passada Sexta-feira fomos jantar com mais umas oitenta pessoas que são, no mínimo, inspiradoras. A ideia é convivermos um bocado e, simultaneamente, ajudar uma instituição que se encontre com mais dificuldades. Esta foi a primeira acção do RT Action e a instituição escolhida foi a Ajuda de Berço, para a qual os comensais eram convidados a levar comida, produtos de higiene e limpeza ou produtos farmacêuticos. A ideia é levar um pouco mais além os peditórios nacionais ou a boa vontade espontânea e conhecer pessoas empenhadas e determinadas em fazer a diferença. Muitas destas pessoas estão presentes em várias redes sociais e houve inclusivamente figuras públicas que se quiseram juntar ao evento. Ficamos à espera de um novo evento e aproveitamos para espalhar a notícia: ajudar enquanto convivemos nunca é demais!

julho 02, 2010

Com licença, que se vai desabafar.

Eu hoje vinha aqui escrever um post inteiro dedicado à forma como odeio pessoas no geral. Acho que a culpada é esta minha situação no trabalho: apenas obrigada a trabalhar três dias por semana (obrigada pelo crédito de horas, pessoas que inventaram os despedimentos colectivos!) mas cansada de vir apenas por obrigação, tendo que fazer as mesmas recomendações todos os dias, lembrando as pessoas das mesmas responsabilidades todas as santas manhãs. Estou incrivelmente farta das pessoas que me tentam fazer passar por parva, especialmente depois de quatro anos de percurso profissional lado a lado, sem respeitarem hierarquias nem colegas. E eu sei que toda a gente está cansada e apenas deseja que chegue depressa o dia trinta e um para se poder fazer à vida mas caramba, era preciso dificultar as coisas até no final? Depois de terminar a escola e eu não ter rigorosamente mais nenhuma obrigação pendente, pensei que fosse possível relaxar e levar estes últimos dias com tranquilidade mas não, parece que ainda não é desta.

E depois, que dizer das pessoas nos transportes públicos que reclamam comigo porque eu não pedi o lugar das grávidas? E tentam que as restantes passageiras condenem com esta barbaridade e me passem na hora um atestado de negligência? Ou o que fazer com as pessoas que tentam passar-me à frente nas caixas de supermercado, mesmo quando não existe nenhuma caixa prioritária e depois conseguem fingir que não me viram? Caramba, eu estou grande! E também gostava de saber o que dizer quando a pedicure a acabar o seu curso faz questão de me contar daquela vez em que estava na sanita a fazer um teste de gravidez, enquanto o marido a pressionava ao telefone.

Não, peço desculpa, mas não gosto de pessoas. Não sou eremita porque não me deixam e lido muito bem com as pessoas que me designam de anti-social. E todos os dias é mais difícil acreditar nessa treta de que sou muito boa a trabalhar em equipa porque neste momento já não tenho pachorra para a equipa que me calhou em sorte e, depois de quatro anos, quero apenas um pouco de distância. Provavelmente, isto passa-me assim que soarem as seis horas e eu puder pensar em mais quatro dias longe desta secretária. Mas, até lá, eu odeio pessoas. Espero que o gaiato seja imune à minha má disposição.