outubro 03, 2010

O incrível bebé V.

Bem, na realidade não sei por onde começar. Como é que reconstituímos um acontecimento de tal maneira brutal para a nossa existência? Vamos por partes, então.

O Vicente nasceu na passada Quarta-feira por volta do meio dia. Eu tinha passado a noite anterior em claro, tentando organizar as contracções que já me prostravam bastante mas que eu ainda não identificava como sendo sinais de trabalho de parto. Sem pregar o olho e sem sucesso, eu tentava combater as dores com técnicas de respiração, episódios do Family Guy e pêssegos em calda. Na manhã seguinte, pensava que ia apenas ser reavaliada pela médica mas, para nossa surpresa, fiquei internada - gravidez de termo com trabalho de parto, chamaram-lhe eles. Desde que dei entrada no hospital até chorar descontroladamente com a primeira visão do meu filho, passaram apenas três horas. Acho que é isto que acontece quando se faz bem os trabalhos de casa! Como é óbvio, vou poupar-vos aos detalhes sórdidos da coisa e vou apenas dizer-vos que foi uma experiência absolutamente irreal e às vezes parecia que me estava a ver de fora do meu corpo.

Dei à luz um bebé perfeito, ao contrário de muitos medos que fui tendo ao longo da gravidez. Mostrou logo a goela bem forte assim que saiu da barriga da mãe e brilhou nas medições e testes que habitualmente se fazem à nascença. Foi na sala de partos que estive, pela primeira vez, rodeada pelos dois homens da minha vida, ainda totalmente atordoada e um pouco exausta enquanto o pai do Vicente lhe cortava o cordão umbilical. À parte dos normais constrangimentos fisiológicos, foi tudo perfeito, melhor do que poderia ter imaginado.

O Vicente já recebeu as visitas dos avós, tios e duns amiguinhos (vocês sabem que são!) e é, no geral, um bebé muito calmo. Confesso que alguns desequilíbrios hormonais durante a gravidez me fizeram temer que o bebé nascesse debaixo de stress ou muito nervoso mas, e apesar de ser ainda cedo para o afirmar, é um anjo que vejo deitado ao meu lado. Todos os desejos, todos os nosso planos e esperanças têm agora uma cara, um corpinho delicado, um cabelo que é basicamente a cópia do cabelo do pai e uma boquinha que às vezes também ri. É mais do que óbvio que vivemos dias intensamente felizes e de profunda mudança, testes e adaptação. Ainda lutamos com a logística e a alimentação, ainda remodelamos horários - estamos profundamente empenhados em conhecer e amar o nosso filho. Não sei se sou agora outra pessoa mas sei que a minha auto-imagem saiu profundamente mudada daquela sala de partos em Santa Maria dos Olivais: ver uma vida que carregámos durante nove meses chegar ao Mundo desta forma tão bonita faz milagres. Agora se me desculpam vou andando, que o meu maior milagre, a minha maior razão de ser feliz reclama a minha presença - está na hora do almoço.