Recebi hoje uma mensagem (muito simpática e elogiosa, mesmo) em que a pessoa escrevia que o meu blogue tinha perdido o "encanto existencial de outros tempos", estando agora completamente imerso na maternidade. Sem saber, esta pessoa fez-me corar, fez-me pensar e fez, acima de tudo, com que eu olhasse de frente para o que já há mais de um ano vem acontecendo por aqui.
No dia em que descobri que estava grávida, houve inconscientemente uma mudança em mim. A ideia de ir gerar vida, as preocupações naturais da gravidez, os desconfortos habituais da gravidez (e foram muitos) fizeram que deixasse de olhar tanto para o meu umbigo e passasse a pensar mais na vida que aí vinha. Estava, como todas as grávidas (acho eu), maravilhada com a sensação única de carregar um ser dentro de mim, de o ver desenvolver e tentando construir uma imagem do filho que gostaria de ter. Depois do bebé nascer, as coisas mudaram novamente: foram demasiadas noites mal dormidas, cólicas e demais trapalhadas que fazem parte dessa actividade estranha e maravilhosa que é ser Mãe. Faltou-me sempre muito tempo, embora estivesse em casa durante cinco meses, para me aventurar lá fora. E depois chegou o emprego novo, que a juntar à nova condição de progenitora, contribuiu ainda mais para que me sobrasse pouco tempo e paciência para escrever. E chegámos aqui, em que tenho um post sobre o dia da Mãe para escrever mas não encontro tempo nem vontade de o passar à prática.
Tudo isto não significa que me esteja a desculpar por ter deixado a maternidade invadir este espaço: era inevitável que isso viesse a ocupar um grande espaço na minha cabeça. Mas a verdade é que eu nunca quis que este blog se tornasse num dos tão criticados baby blogs, onde só as gracinhas e os cocozinhos do bebé têm graça. Eu sempre quis continuar no mesmo ritmo, no mesmo registo mas o problema é que eu ainda não consegui encontrar o meu espaço no meio de uma relação a três. Ainda me deixo absorver demasiado pelas exigências que acarreta o facto de eu ser uma mãe trabalhadora e não fui capaz de me reconciliar com a forma como antes via e escrevia o Mundo. É verdade que hoje sou ainda muito Mãe e menos Mulher e a responsabilidade é minha, que ainda não consegui encontrar o equilíbrio de que tanto sinto falta. E já uma vez aqui escrevi que sabia que ia perdendo leitores mas que pensei que talvez fosse esse o curso natural das coisas.
Não gosto de fazer promessas mas gostava de conseguir separar as águas e olhar outra vez o Mundo como antes. Só que a maternidade é um acontecimento tão brutalmente fracturante que não sei se um dia conseguirei voltar. Gostava de ser Mulher e Mãe à vez, para não confundir as matérias mas ainda não sou capaz. O dia há-de chegar, eu espero por ele.