(a propósito desta notícia)
O nosso filho é Português e Português é também a língua que falamos com ele em casa. Às vezes fazemos excepções para ver como vai o Francês e agora somos surpreendidos com as suas tiradas no Luxemburguês rudimentar que já traz da escola mas, no essencial, queremos expressar-nos com ele na língua do nosso país. A não ser que ele possa entrar de futuro na Escola Europeia, não vejo outra maneira de ele poder continuar a falar a sua língua (nem falemos de aprendê-la verdadeiramente).
Leio alguns comentários à notícia e fico incomodada. Aparentemente, aos pais que emigram não é permitido continuar a desejar que os filhos guardem alguma da sua herança cultural - apenas podemos postrar-nos agradecidos por este país ter sido tão generoso em acolher-nos e mandar Portugal às urtigas. Eu cá tenho uma ideia um bocadinho diferente: quero que o meu filho se possa integrar totalmente no país onde escolhemos viver, o que significa que talvez vá ter que dominar o Luxemburguês, o Francês e o Alemão; mas também quero que o meu filho não se esqueça nunca do sítio onde nasceu, com as suas virtudes e defeitos e, quem sabe, possa ainda conhecer a sua história, geografia, tradições. Ter vindo para aqui não implica que cortámos definitivamente relações com o sítio onde nascemos nem ter que assumir uma posição submissa face à comunidade onde nos inserimos agora. Podemos continuar a pensar por nós, parece-me.
A situação que se vive aqui no Luxemburgo é, de facto, complicada, com o Português a ser a segunda língua mais falada nas escolas, à frente de duas das línguas oficiais do país. É o resultado da emigração em massa, talvez um pouco assustadora mas mesmo assim necessária: o Luxemburgo precisava, pelo menos até há uns anos atrás, da mão de obra que este emigrantes portugueses puderam trazer. Vivermos fechados numa comunidade artificial, baseada no simples facto de que somos Portugueses, parece-me absurdo. Mas também me parece absurdo que tenhamos que renunciar às nossas origens, à nossa língua, aos nossos costumes só porque decidimos construir uma vida noutro país. É preciso equilíbrio. É preciso entender que existem momentos para tudo e que não é punindo as crianças que se vão conseguir melhores resultados na sua integração. Muitas delas vieram de Portugal já com oito, nove anos, o que dificulta ainda mais a aprendizagem do Luxemburguês.
Se por um lado nunca me senti verdadeiramente mal tratada aqui, também é verdade que há sempre um véu de suspeição e de algum desapontamento que se levanta quando mencionamos que somos Portugueses. Às vezes nem o Francês é suficiente, apesar de ser também língua oficial, e fica claro que falar Luxembuguês é uma marca distintiva para quem nasceu aqui. Eu consigo compreender que os Luxemburgueses queiram defender aquilo que é seu - afinal, é uma tarefa hercúlea se pensarmos na percentagem de estrangeiros face à de nativos - mas não me parece que castigar crianças que falem outra língua seja o caminho a seguir. Que o miúdo saiba sempre quando é tempo de falar o quê, é o que desejo.