abril 09, 2015

(um momento de catarse)

(melhores dias virão, repito comigo mesma)

As raras vezes em que me permito ler os blogues onde tudo é perfeito, onde os filhos são crianças perfeitas, onde as casas estão sempre limpas, organizadas e cheias de flores dão-me cabo da cabeça. Ou melhor, eu é que me dou cabo da cabeça porque não entendo onde é que eu estou a falhar.

Eu nunca fui uma rapariga de seguir as tendências, nunca usei maquilhagem e acho que não tenho nenhuma peça de bijuteria e, quanto mais tempo passa, mais me sinto uma freak no meio das outras mulheres que são o meu padrão de normalidade. Para piorar as coisas, desde a primeira gravidez que a minha auto-estima praticamente desapareceu e sou quase incapaz de olhar para mim como uma mulher (passo os dias a pensar que sou apenas uma mãe). Estava quase, quase a recuperar quando se anunciou a segunda gravidez. E voltou tudo à estaca zero.

Todos os dias me olho ao espelho com uma mistura de pena e espanto, porque as sequelas de dois filhos podiam ser muito mais visíveis mas há muito tempo que não reconheço o corpo que está diante de mim. Às vezes até me penteio de olhos fechados apenas porque não suporto olhar para mim. E o que realmente custa nisto tudo é que ninguém me pode ajudar. Ninguém a não ser eu, claro. E por muito que dê voltas à cabeça, por muito que leia ou me inspire nas histórias dos outros, por muito que pesquise, não estou a ser capaz de sair desta espiral de auto-desprezo. Para dizer a verdade, não é um sentimento de agora e sempre me senti tão longe dos padrões de beleza e de feminilidade das pessoas ditas normais mas com o tempo fui aprendendo a aceitar-me como sou. Só que não quero aceitar-me como sou agora, não posso. Mas todos os dias vou adiando um corte de cabelo pelo qual já desespero, os exercícios que toda a gente diz que se podem fazer em casa, uma pedicure, uma manicure, os números a descerem na balança, deitar fora a roupa que me faz sentir estranha. Sinto que me estou a adiar todos os dias mas às vezes é muito difícil não me sentir perdida num mundo de fraldas, sestas mal dormidas, dores de barriga, filhos que mordem a língua e caem e aproveitam todos os instantes para chamar a atenção, a casa que não se limpa a si mesma e a roupa que cresce num monte que espera aqueles momentos livres, um marido que também precisa de atenção. Às vezes, simplesmente parece que não há espaço para mim, nem um milímetro livre para eu apenas ser, quanto mais para me preocupar com as futilidades femininas. E pergunto-me todos os dias como raio me deixei chegar aqui.

Leio os blogues das pessoas perfeitas, daquelas que dizem que não há desculpas para não estarmos sempre no nosso melhor, que têm tempo e paciência para tratamentos de beleza, que correm e vão ao ginásio e que separam tão bem ser mãe de ser mulher e volto a pensar: que raio estou eu a fazer mal? Não sei onde ir buscar esse instinto de protecção da minha imagem, nem a força de vontade para sair da minha zona de conforto, nem a capacidade de organização de super-mulher. Se calhar estou a culpar-me demais, se calhar não estou a culpar-me o suficiente - é mesmo difícil para mim verbalizar em que é que estou a falhar. Gostava de não me sentir anulada como indivíduo, gostava de estar sempre impecável (versus pijama, cabelo apanhado e fralda ao ombro, ainda assim a miúda não vomite), gostava de me ver ao espelho sem este sentimento gigante de falhanço e espero que reconhecer tudo isto, dizê-lo em voz alta me possa ajudar a pegar nas rédeas outra vez em vez de me deixar conduzir. Faço figas mas preparo-me para uma viagem bem longa de volta aos dias em que tratava melhor dessa parte de mim.