
Não sei exactamente quando me chegou a vontade pela primeira vez. Não sei se houve sequer alguma razão para ela aparecer mas sei que na altura não a saberia vocalizar. Eu tinha que sair de Portalegre.
Apercebi-me esta semana, enquanto parava no miradouro por breves instantes, que tenho uma relação de amor ódio com a minha cidade. Eu tinha dezassete anos e podia ter escolhido ficar mas nunca quis - precisava ir embora. Felizmente, os meus pais (à custa sei lá de que sacrifícios) deram-me a possibilidade de escolha, que muita gente não tem. Quis ir para Coimbra durante algum tempo mas, talvez assustada com toda a (para mim exagerada) tradição académica, acabei em Lisboa com apenas dezassete anos. Lá vivi quase tantos anos como em Portalegre e, apesar de não ter lá nascido, é sempre lá que sonho voltar. A Portalegre quero apenas regressar pela família que deixámos para trás.
Também percebi que me defino mais como alentejana do que como portalegrense e de maneira nenhuma me vejo como alfacinha, embora sonhe com Lisboa todos os dias. Admiro muito as pessoas que escolheram ficar aqui e outras que, não sendo portalegrenses ou sequer alentejanas, assentaram aqui arraiais. Algumas fazem pela cidade muito mais do que eu alguma vez fiz mas a vontade de sair, de me perder fora daqui falou sempre mais alto. Mesmo assim, continuo a achar que para vencer nesta cidade são precisos demasiados empurrões e conhecer as pessoas certas é absolutamente essencial. Acontece que nunca nos movemos nesses círculos. Não tenho pena, talvez apenas alguma mágoa por ver como toda a vida as coisas funcionaram aqui.
Hoje olho para a minha cidade, vejo as mudanças radicais desde que daqui saí, perco-me em memórias daquilo que um dia aqui vivi, penso na tranquilidade que seria ver os nossos filhos crescer aqui mas sei que nunca poderia ficar. Sentir-me-ia asfixiada, sem possibilidade de ver mais mundo com os meus olhos e de o dar também a ver aos miúdos. Este ano concretizei o sonho de pisar outro continente e sei que só o pude fazer porque um dia saí.
Espero que a minha cidade me perdoe. Voltarei enquanto os nossos estiverem vivos e, num mundo ideal, escolheria ficar aqui descansada. Mas o mundo é grande demais para este meu coração e preciso de sentir que posso ir sempre mais longe. Com ela no coração, sempre.