junho 27, 2016

Então e a bola, pá?

Na nossa casa, não há muito o hábito de se verem jogos de futebol, excepto quando falamos dos campeonatos da Europa ou do Mundo. Por isso, desde o dia dez que temos tentado acompanhar os jogos sempre que possível (mais os rapazes que as raparigas, é um facto), seguindo mesmo os das equipas mais improváveis, como de Gales ou da Eslováquia. Assume-se que estas vinte e quatro são as melhores equipas da Europa e um bom jogo de futebol é isso mesmo, um bom jogo de futebol, não importa quem joga.

Eu cá faço já o mea culpa: sou daquelas pessoas que têm oscilado muito nos sentimentos em relação à prestação da nossa selecção. Tenho desanimado muito facilmente e quase sempre me apetece desistir de ver o jogo, tal é a frustração que sinto. Não quis ver a marcação do penalty no jogo contra a Áustria e bem, só sei que tive razão em querer perdê-lo... Mas, por outro lado, fiquei bem contente quando resolvi ficar acordada no Sábado para poder ver o final do jogo, mesmo esperando que se resolvesse apenas após o prolongamento. A minha táctica (já que se tratam de temas desportivos) é começar o jogo a esperar o pior: se o pior se confirmar, já estava à espera; se, pelo contrário, ganharmos, a surpresa e alegria são maiores! É claro que não percebo realmente de futebol mas parece-me que começámos demasiado cheios de nós mesmos, uma confiança inexplicável muito à custa da figura do Ronaldo e esquecemo-nos que há outros jogadores na equipa e que é possível que todas as promessas de um percurso longo neste campeonato europeu podem não se confirmar. Agora, já estou por tudo e quero é que ganhem o que está para vir, mesmo que marquem golos com a mão. O que interessa é seguir!

No escritório, a competição é muita mas saudável. É muito interessante acompanhar os jogos dia e a dia e preencher tudo no nosso super calendário porque há gente de todo o lado e todos torcem por equipa diferentes. É claro que existem algumas rivalidade históricas (o duelo Itália - Alemanha ia deixar muita gente de cabelo em pé) e que ninguém dá muito pela equipa portuguesa mas lá continuamos até ver. Dada a qualidade das nossas prestações até agora, eu tenho-me mantido calada para não ter que me defender de seguida mas, jogo a jogo, lá vamos estando onde os grandes também chegam.

O problema aqui é mais a prestação dos adeptos portugueses em vários sítios do Luxemburgo. Parece que se têm festejado todos os jogos como se fossem a vitória final do campeonato, fechando ruas e fazendo todo o ruído possível a horas impróprias. Isto tem despoletados muitos comentários de ódio por essas redes sociais e jornais, já que a maior parte das pessoas acha que os portugueses não têm motivos para festejar. E, caso os tivessem, deviam fazê-lo de forma ordeira e sem prejudicar o pessoal que tem de trabalhar ou quer dormir (ou seja, toda a gente...). Eu percebo quem quer descansar e acha que ainda não há absolutamente nada a festejar mas também percebo a alegria daqueles que, sem grandes exibições, vêem a equipa a avançar. Um bocadinho de contenção e bom senso não faziam mal aos dois lados: uns podiam deixar os maiores festejos para um momento em que sejam realmente justificados, outros podiam experimentar a não aproveitar uma competição desportiva para espalhar os seus pequenos ódios e tiradas racistas... 

Festejos e mesquinhices à parte, tem sido um prazer ver os pequenos a darem luta aos grandes, ver jogos com grande qualidade e adeptos com um comportamento exemplar (falo dos irlandeses, por exemplo, e não dos confrontos de Marselha). Eu sei que o futebol (e os desportos em geral) nos falam mais ao coração do que ao cérebro mas calma pessoal, são apenas jogos, nós não ganhamos nem perdemos nada com isto. Ou melhor, podemos sentir aquela alegria indescritível de batermos outras selecções ou aquela tristeza inexplicável de ficarmos pelo caminho mas no dia seguinte a nossa vida continua lá... Bottom line, que ganhe o melhor. E que o melhor seja Portugal!


junho 10, 2016

Quand il veut, il peut!


Acho que é público, uma história velha: eu sempre fui desejando que as fases do crescimento do Vicente passassem depressa. Primeiro, quis que ele pudesse dormir e que me deixasse dormir também. Depois, quis que os dentes saíssem todos o mais depressa possível para evitar ainda mais noites mal dormidas e o sofrimento que era evidente e que dificilmente podia ser evitado. A seguir, rezei para que ele não fosse tão susceptível a bronquiolites e outras ites que tal, já que fazer aerossóis a este bichinho era coisa para esgotar as forças ao pai e à mãe. Quis que a fase dos dois, três anos passasse a voar porque não havia um dia que o fosse buscar à creche que não me fizessem uma descrição pormenorizada da quantidade de asneiras que ele tinha feito durante o dia, mesmo com o maior dos carinhos que sentiam por ele. 

Muita gente me dizia (e ainda diz) que as fases nunca vão acabar e há ainda quem me lembre que a sabedoria popular é a mais fiável e certeira, atirando o provérbio Filhos criados, trabalhos dobrados. Pessoas, eu rendo-me. Eu aceito finalmente que vai sempre existir qualquer coisa que queremos ver atrás das costas, sobretudo coisas que não podemos (nem devíamos) controlar. Eu reconheço que não mais teremos descanso e que os desafios mudam apenas na sua natureza: se começamos com os desafios biológicos (a amamentação que é difícil, o cocó que não sai, o sono que tão pouco chega), logo começam os desafios comportamentais que se afiguram muito mais difíceis de superar. Reparem que não os qualifiquei como insuperáveis - mas compreendo agora como é mais duro transmitir valores e educar do que acertar com a pega da mama. E são desafios especialmente trabalhosos porque exigem que sejamos nós o modelo do comportamento que queremos ver nos nossos filhos e isso também dá muito trabalho. 

Nos últimos tempos, as professoras do Vicente usaram várias vezes esta expressão. Quando il veut, il peut, asseguram-me elas e eu sei bem como isso é verdade. O comportamento dele oscila bastante, entre o miúdo super bem comportado, que só quer estar sentado imerso num livro ou num puzzle qualquer, e o pequeno diabo, que ignora todas as ordens, responde torto a todos os pedidos e provoca os colegas. Se eu não o visse mimoso em casa, enchendo-me de beijos e dizendo que sou a sua mãe preferida (sic); se não soubesse que ele nos ajuda em tudo (podes ir buscar um pacote de fraldas/pôr este prato a lavar/abrir as persianas); se não o visse deitado a brincar com o seu interminável parque de automóveis, alternando entre as três línguas que fala; se eu não o ouvisse a tentar ler o que pode e, de vez em quando, a acertar numa palavra; se eu não visse como ele gosta de nós, mesmo quando está de castigo e diz que ninguém no mundo gosta dele (sic) - eu estaria verdadeiramente preocupada! Às vezes as professoras queixam-se, dizendo que ele é muito activo e é difícil mantê-lo calmo e eu não sei se são diferenças culturais mas parece-me saudável que uma criança de cinco anos queira sair da sala e correr até aos baloiços, que queira jogar às lutas com os outros miúdos, que muitas vezes queira estar a mexer-se. Não acho que seja motivo de orgulho que ele seja uma criança activa versus os miúdos que não gostam de se mexer mas também não vejo nisso o defeito que elas parecem querer apontar. 

Quando ele quer, ele pode - ficou-me o ditado na cabeça. Conversamos muitos sobre o que se passa na escola e eu aproveito para lhe expremer toda a informação possível. Conta-me sobre os momentos em que os miúdos se riram de um outro rapaz que regressou à escola careca, depois de uma operação a um tumor e como ele não se riu. Conta-me como queria dar cinco (high five!) a um amigo e acabou por falhar a mão e dar-lhe uma chapada. Conta-me como tem jogado à bola, sem conseguir marcar golos e muitas vezes sem ser logo escolhido para as equipas. Custaram-me muito os anos em que dormiu mal mas custam-me muito mais as vezes em que me diz que ninguém quer brincar com ele (o que a professora, felizmente, desmentiu...). Tem uma necessidade de validação e uma vontade de agarrar o mundo que (possivelmente) lhe vão trazer alguns dissabores. Põe intensidade em tudo o que faz e nunca consegue empenhar-se só a meio termo, seja em fichas da escola ou escolha de amigos. E vai crescendo depressa, um homenzinho em potência que ainda ontem nem sabia andar. Quem me dera poder cristalizar a sua ingenuidade e a curiosidade com que analisa o mundo à sua volta. E quem me dera que continue pateta e divertido, como nestas fotos que o pai lhe tirou. São elas que me vão lembrar, um dia, desta força da natureza quase à porta dos seis anos.

junho 06, 2016

Até que idade pensas divertir-te? Um resumo do Primavera Sound


Nestes dias que passámos em Barcelona, eu e a minha amiga J. tentámos contar a quantos festivais já assistimos até aos dias de hoje. Ela já ia em cerca de vinte, eu não devo andar longe disso. Mas estas duas dinossauras dos festivais acham que pode ter chegado a hora de desistir...

Por onde começar? Talvez por dizer que Barcelona continua a ser aquela cidade espectacular, vibrante mistura de culturas, com uma Primavera digna desse nome, turistas em excesso, comida maravilhosa e  aquela sensação incontornável de que podia mudar-me para lá sem sequer pestanejar. Ver aquelas esplanadas cheias, música nas praças sem medo dos vizinhos, a gente que nos trata por tu e para quem está sempre tudo bem é muito mais do que uma lufada de ar fresco para quem vive mais a Norte, mais constrangida pelos horários, meteorologia e falta de espontaneidade. Pudemos ir à praia durante umas horas, perdemo-nos vezes sem conta mesmo com a ajuda do GPS e também conseguimos deixar a cidade para trás para nos embrenharmos na Espanha mais profunda. À partida, e tendo em conta o reduzido número de dias, diria que aproveitámos bem o tempo.

Depois, houve o festival. E que festival! Desde que comecei a poder ir a festivais (tinha talvez dezoito ou dezanove anos), sempre quis ir ao Primavera Sound. O hype sempre foi gigante, o cartaz quase sempre impressionante, o chamamento enorme. Só existiam dois obstáculos: a distância e o preço. Convenhamos: ir a um festival deste género sai caro. Não podemos apenas contar com o preço do bilhete: falamos também do alojamento, do transporte até lá, da alimentação. Como nos festivais em Portugal, claro, mas num outro patamar de preço. Durante uns anos, era estudante e não podia pagá-lo. Depois, ganhava pouco e não podia pagá-lo. Depois emigrei, depois tive filhos e... Agora tinha chegado a hora de poder realizar uma espécie de sonho.

A organização foi incrível: desde a fila gigante para trocar o bilhete por pulseira que nunca parou de avançar, a diversidade e número de palcos, o (importante) número de casas de banho, a vista maravilhosa sobre o porto de Barcelona, os impecáveis serviços de limpeza que nunca deixaram lixo acumular. Havia marcas, havia merchandisingm claro, mas nunca se sobrepuseram ao propósito principal do festival: ouvir música excelente. Pena é que fossem as próprias pessoas que se esquecessem do que estavam lá a fazer: durante muitos concertos, o desrespeito para com os outros espectadores e, pior, para com os músicos foi gritante. Literalmente falando, já que um sem número de espectadores passou todo o tempo de costas para o palco, falando/gritando (conforme o nível de substâncias proibidas consumido), ignorando os artistas e impedindo as pessoas à volta de desfrutarem plenamente da experiência. Mas, fora isso: a incrível máquina dançante chamada LCD Soundsystem, a ferocidade das Savages, a doçura dos Daughter, a explosão (passe o pleonasmo) dos Explosions in the Sky, o cavalheirismo dos Deerhunter ou a elegância dos Air ficaram-me na memória para todo o sempre. Isso e o concerto emocionante dos Radiohead, pelo qual esperei tantos anos e que se ia tornando num pesadelo pelo som que não chegava a quem estava mais atrás.

Mas há uma pergunta que se impõe. Então ainda tens pedalada para estes festivais, Marisa? E eu respondo que não, já não tenho. No primeiro dia chegámos a casa às três e meia da manhã, as duas com viagens de avião no lombo, sem sequer tempo para parar a pensar. Na segunda noite, chegámos às três e já tínhamos dificuldade em manter os olhos abertos no restaurante mexicano onde procurámos a ceia. Na última noite, chegámos perto da uma e já éramos mais zombies que outra coisa. O corpo já reclama por mais descanso e, pelo menos no meu caso, ter filhos que não dormem bem há anos traduz-se em ritmos de sono completamente estraçalhados. Mas sobrevivemos e até já pensámos onde mais gostaríamos de ir para o ano! Só não me dêem campismo, cerveja que parece água, pessoas a gritar, pó em vez de relva, tanta escolha no cartaz que é impossível não nos sentirmos culpados por não vermos tudo o que queremos. Quero ser aquela quarentona enxuta que ainda consegue papar um ou outro festival sem parecer totalmente deslocada!

junho 01, 2016

Dia dos pequenos badjecas *

É difícil garantir mas eu acho que os meus dois filhos são crianças felizes. Mesmo quando se deitam no chão, a espernear e a chorar desalmadamente porque não lhe demos uma bolacha inteira. Ou porque, surpresa!, precisamos de tomar banho todos os dias.

Com quase seis anos, o Vicente acalmou. Não significa que deixou de fazer parvoíces ou que já não faz birras ou que se comporta sempre de maneira exemplar. Mas (geralmente) já ouve o que nós lhe dizemos e os nossos argumentos já vão fazendo mais sentido e compreende a cadeia acção-consequência. Gosta de dinossauros, cromos do Europeu, bonecos animados (praticamente todos os que conseguir ver). Os seus alimentos preferidos são o arroz, a massa, o camarão e as bananas. E o chocolate, claro. Odeia tomar banho, lavar a cara e os dentes, comer salmão e ficar em casa. Se o queremos ver feliz, é levá-lo à escola de trotinete ou deixá-lo ver a Porquinha Peppa no computador ou jogar Uno (mas só se ele ganhar!). Tem muitas perguntas dentro dele (O que há dentro da terra? Onde estão os dinossauros? Posso comer um chocolate?) e não pára de falar. Ou de cantar canções de Natal, mesmo em Junho. Brinca muito bem sozinho e também adora estar deitado com a irmã na sua cama de bebé.

A Amália está a caminho do ano e meio de idade. Já anda, tenta correr (para não a apanharmos) mas não diz quase nada. Na prática, diz mama para tudo, especialmente aquilo a que não consegue chegar. Fica sossegada quando lhe fazemos os sons dos animais e ultimamente o preferido é o porco, que ela não consegue (naturalmente) imitar. Não aceita bolachas partidas mas de resto come tudo o que lhe aparecer à frente. Mesmo bocados de esferovite que às vezes arranca da porta. Se não a pararmos, pode estar sempre ocupada a mastigar. Tenta sentar-se sempre que pode, agora que descobriu esta sua habilidade. Fica muito atenta aos sons que as pessoas fazem e tenta ler os lábios para determinar como pode repeti-los. É divertida: gosta de rir com os outros e repete muitas vezes as coisas a que achamos graça. Não gosta de dormir, embora adormeça sozinha na sua cama enquanto fala.

Eu acho que os meus filhos sentem que há muita gente que os ama. Nós certamente os afogamos com beijos e estrafegamos com abraços. Dizemos-lhes frequentemente como gostamos deles e elogiamos as suas novas capacidades e habilidades. Às vezes gritamos porque estamos cansados ou atrasados ou a perder a paciência mas não há nada que um abraço não cure. Conversamos muito e rimo-nos da maneira pura e descomplicada como vêem as coisas. Achamos que o importante é serem curiosos, tolerantes, que respeitem os outros e as suas diferenças, que gostem de aprender e de brincar, que possam estar preparados para enfrentar o Mundo. E ficamos felizes quando eles se riem às gargalhadas ou quando têm aquela tirada ingénua mas genial. Vamos abraçá-los ainda com mais força hoje, em que se celebram as pessoas pequeninas e cheias de vida.

* não me perguntem de onde veio este raio de nome mas ele existe, ele instalou-se e ele designa ainda hoje os nossos filhos.

maio 31, 2016

Falar menos e melhor

O meu desencanto crescente com as redes sociais levou-me recentemente a concluir que tudo o que eu quero ser, neste momento, é neutra. Por um lado, temos as pessoas que se indignam com as coisas mais absurdas (José Cid e Trás-os-Montes, Henrique Raposo e o Alentejo, o gorila abatido para salvar uma criança... and so on, and so on), partindo mesmo para os insultos e até para as ameaças de ofensas corporais. Parece que vivem para estes momentos, para cuspir todo o fel que vão acumulando sabe-se lá como, para demonstrar uma superioridade virtual sem qualquer valor, para exorcizarem os demónios do seu quotidiano. Imagino a raiva que lhes corre nas veias enquanto escrevem os comentários agressivos, desprovidos de qualquer bom senso, convencidos de que agora vale tudo e tudo implica ameaçar de morte até a família dos implicados e todo o tipo de impropérios em nome da liberdade de expressão. Não há qualquer discussão construtiva, pensada e repensada, não existe consideração pelos interlocutores, não há civismo nem respeito pela ortografia: há apenas a agressão gratuita, o sangue que ferve por tudo e por nada, o tempo perdido com fait divers, enquanto o Mundo continua a acontecer lá fora. Toda a gente sabe que as caixas de comentários internet fora são um caso de estudo, tal é o tamanho do ódio, do desprezo e da falta de empatia de quem por lá paira. Muitas vezes, preciso de deixar de ler comentários para acabar com o mal-estar que a falta de humanidade me provoca.

Mas também há o lado oposto, o lados dos yes-men e yes-women. Aquelas pessoas que concordam com tudo e que precisam comentar a dizer que têm a mesma peça de roupa ou que já foram ao mesmo restaurante, como se isso fosse importante para a sua validação. Quero acreditar que não escrevo para gerar esse tipo de consenso oco, fabricado - antes, quero apenas partilhar ideias, materializar o que me muitas vezes me atormenta/alegra, cristalizar momentos tão diversos da minha vida. De qualquer maneira, não tenho esse público e não sou esse modelo de pessoa. E não aguento tanta gente a perguntar de onde é o casaco e onde é que se comprou a louça e onde é que podem encontrar o mesmo papel de parede. Parece que hoje algumas pessoas perderam a capacidade de pensar por si, de partir à descoberta das coisas que os fazem felizes, de procurar lojas de decoração e vagas de emprego, de arriscarem a ter gosto pessoal.

Tenho cada vez menos vontade de opinar sobre qualquer coisa. Por um lado, não quero reagir intempestivamente, acusar e esquecer-me de que nem sempre conhecemos as razões dos outros. Quero pensar e ponderar as minhas reacções, quero trabalhar na minha empatia e lembrar-me que um dia também me pode acontecer a mim. Não quero ser injusta nem arrastar outras pessoas para o lamaçal das críticas sem fundamento. Também não quero saber onde compraram a saia, a mala e o caderno - posso apreciá-los, elogiá-los mas não preciso que sejam meus. É claro que meço as minhas palavras e muitas vezes não escrevo tão livremente porque sei que há um público que me lê mas também não quero ser escrava desse público. Não quero ser exemplo para ninguém (bem, talvez para os meus filhos) nem quero precisar dos outros para me sentir válida. Sinto-me num momento importante das redes sociais, num cruzamento em que devo escolher entre partilhar abertamente e limitar essa partilha e cada vez pendo mais para esse encerramento sobre mim mesma. Porque estou cansada dos justiceiros sociais que não lutam pelas causas fora da internet e se indignam azedos, com a sua falta de humor. E também dos seguidores cegos, para quem um estranho é um modelo de virtudes e de perfeição. Dá para criarmos a Suiça da internet?

maio 30, 2016

Luxemburgo-Lisboa-Portalegre-Lisboa-Luxemburgo


É muito mais fácil queixarmo-nos, eu sei. É tão mais fácil sucumbir à crítica pela crítica, deixarmo-nos afogar num mar de pessimismo, esquecimento e ingratidão. Deixei de comer na cozinha com outros colegas exactamente para não ser arrastada para esta espiral de queixumes em que se tinham tornado os meus almoços. Não sou pela corrente de optimismo e crença profunda no karma mas a experiência tem-me ensinado que mais vale apreciarmos o que temos, mudar quando não nos sentimos confortáveis, agir sempre que for necessário - em vez de chorar a falta de mudança. Mesmo este ano, quando estive menos certa daquilo que estava a fazer, comecei a mover-me para encontrar uma alternativa que, no fim, não foi necessária. Mas procurá-la era fundamental para sentir que estou no controlo da minha vida. Não sou cega nem sou tão facilmente influenciável que chegue a pensar que trabalho na empresa ideal. 

Trabalho aqui há quase quatro anos e vi muitas coisas a acontecerem, outras tantas a mudarem - muitas drasticamente. Pessoas entraram e saíram, o negócio deu uma cambalhota ou duas mas a essência dos seus princípios e, acima de tudo, a competência e humanidade dos seus funcionários raramente foram abalados. Muitas vezes desejei não trabalhar com certas pessoas ou achei que a estratégia não seria a mais acertada mas se fiquei, foi porque acredito neste projecto e porque, uns dias mais, noutros menos, sinto-me em casa. Posso vir trabalhar descansada porque o ambiente não é hostil, porque a competitividade pouco saudável não existe, porque entendem que às vezes a família fala mais alto, porque há quem acredite em mim. Deixar tudo isto só para ir procurar mais dinheiro ou um status social diferente seria um erro. Ainda bem que parei a tempo. E depois há sempre aquela coisa espectacular de ter de viajar em trabalho... para Portugal. Ser responsável por um mercado que coincide com o meu país de origem é mais do que podia pedir num emprego no estrangeiro. Poder falar a minha língua, conhecer bem a realidade do país, orgulhar-me do que já conseguimos fazer in loco - isto não tem preço. 

Na semana passada, pude passar quatro dias em Portugal, em que dois foram turismo puro, porque coincidiram com o fim de semana. Abracei a minha família, vi alguns amigos, comi bem e até quase não aguentar mais, trabalhei sempre que pude e trouxe boas notícias para casa. Só não trouxe o bom tempo, o peixe fresco, as festas de Lisboa, as festas de Portalegre, os filhos dos meus amigos, a minha irmã e os meus pais, a minha rua e os meus vizinhos que, depois de dez anos, ainda são capazes de não me conhecer quando nos cruzamos na rua. Não trouxe o silêncio de Portalegre, o humidade de Lisboa, os turistas a perder de vista e as esplanadas onde apetecia estar - em troca, voltei para as trovoadas, a chuva forte, a Primavera que teimou em não aparecer e o Verão que parece ainda estar longe. Mas voltei para os braços da minha pequena família, que já sentia a minha falta. E voltei para o escritório onde, uns dias mais, outros menos, a gente me quer bem. 

Há-de haver mais viagens, mais negócios à minha espera, hei-de poder juntar mais vezes o útil ao agradável. E agradecerei, sem floreados e crenças no destino, poder continuar assim a trabalhar. Porque às vezes é preciso estar no sítio certo à hora certa. E noutras há que trabalhar para agarrar essa fortuna.

maio 20, 2016

Filhos, filhos... Filhos por todo o lado!

Três cromos do Euro 2016 entre os tapetes do carro. Um boletim de vacinas e uma bola de borracha dentro da mala. O desenho tosco de um tubarão a sorrir como protecção de ecran. A trotinete quase à porta da rua. A árvore genealógica com colagens e fotografias mal cortadas à porta de casa.

Há uns tempos atrás (o que me parece hoje uma eternidade, diga-se de passagem), fui criticada porque o meu blog tinha deixado de falar sobre aventuras, dores do coração, amores não correspondidos para me dedicar mais ao filho que me tinha acabado de nascer. Na altura, fiquei triste porque queria continuar a ser a mesma rapariga livre que podia sair para concertos ou encerrar-se em casa, podia viajar sozinha, sofrendo ou florescendo de amor. Fiquei triste porque alguém me estava simplesmente a fazer ver que eu tinha mudado, uma ideia a que eu parecia simplesmente estar a resistir.

De há uns tempos para cá, aceitei finalmente que não posso (nem quero) ser a mesma pessoa que começou a escrever este blogue. Detesto a ideia de me tornar apenas numa mãe mas acho que é saudável admitir que os meus filhos são uma parte (muito, muito) importante da minha vida sem que isso anule a pessoa que eu quero ser e para a qual tenho trabalhado muito. Não quero ser a mulher que se deixa atropelar pelos caprichos dos meus filhos: quero poder fazer-lhes muitas vontades, ao mesmo tempo que quero fazer o mesmo por mim. E pelo meu marido, claro. Quero ter tempo para brincar deitada no chão e para beber um copo de vinho, para pintar páginas intermináveis de livros de colorir e acompanhar as séries de que mais gosto, levá-los aos aniversários dos amigos e levá-los a ver o Mundo, inventar jogos infantis e conversar com outros adultos. Não quero que um dia os meus filhos saiam de casa e eu fique mais vazia do que é suposto ficar.

Eu tenho lutado por manter este equilíbrio, embora já tenha percebido que enquanto os filhos forem pequenos, ele será mais ténue. Mas não posso evitar vê-los em todo o lado porque eles têm esta maneira subtil de se insinuar em todas as coisas, de deixar pequenas lembranças nos sítios mais inusitados, de ter conversas de que me lembro e vou rindo ao longo do dia. No outro dia, começou uma trovoada e a primeira coisa em que pensei foi que o Vicente tem medo e em como gostava de estar com ele para o tranquilizar. Uma pessoa pode lá escolher quando não quer ser Mãe ou quando precisa de tempo sozinha - os filhos estão em todo o lado e sempre quando menos se espera.

E é quando penso que, daqui a não muito tempo, eles não vão querer estar tanto conosco (como todas as crianças, diria eu) que decido: abraçá-los é aqui e agora, fazer-lhe cócegas não pode esperar, as suas ideias inocentes mas criativas transformam-se na melhor conversa. Temos todos tempo de nos voltarmos para dentro à procura de quem somos. Por isso, permito-me que eles invadam a minha vida, todas as assolhadas da nossa casa, os meus pensamentos, o carro e mais a mala. Um dia volto a ser só eu mas há-de ser sem me arrepender de ter sido mãe a toda a hora.

maio 06, 2016

Nem só de chuva se faz a nossa Primavera


Um dia de férias só para mim. Eu sei que podia ter ficado, pelo menos, com a miúda mas decidi levá-la para a creche na mesma. Um dia só para mim, sem estar doente ou ter qualquer responsabilidade a cumprir. Ainda mais incrível, se pensar no tempo que faz hoje.
 
Saí de casa às nove da manhã. Ir a pé para o centro da cidade estava fora de questão porque ainda é um bocadinho longe mas decidi deixar o carro em casa e pus-me a caminho do autocarro. Headphones na cabeça, uma playlist das minhas e aquela disposição que só um dia de Sol traz. Meti uma carta no correio, passei pela escola do miúdo onde ainda havia silêncio. Quinze minutos de autocarro e estava no centro da cidade do Luxemburgo. Havia gente por todo o lado, pessoas a caminho dos intermináveis escritório, turistas, sem abrigo que se têm multiplicado por aqui nos últimos tempos. Obras por todo o lado, limpeza de ruas, fornecedores a descarregar mercadorias, montras a serem compostas - esta cidade está viva!
 
Senti uma ponta de orgulho quando vi a bandeira do Luxemburgo a ondear debaixo deste incrível céu azul. Pensei no que sentem os Luxemburgueses pelo seu país, pela sua cultura e, culpada, percebi que também já vou partilhando um pouco deste mal do coração. Quanto tempo precisamos de viver num sítio até que ele se torne também nosso? Quatro anos são suficientes, vai-me parecendo. Esta cidade não é nenhuma Lisboa (nenhuma cidade se lhe compara!) e este país também não é nenhum Portugal mas é difícil combater o efeito da Primavera que já vai tardando: agradeço poder estar aqui, estável e segura, espalhando o meu amor aos quatro ventos e guardando este país pra sempre no meu coração.

maio 04, 2016

O futebol também ensina!


Nunca tinha pensado nisto até que estive com ele sentada, a colar cromos: uma caderneta é uma óptima maneira de aprender coisas!

Compramos-lhe cadernetas mais pelo prazer de as completar e de abrir as carteirinhas e ver se tivemos sorte ou, se pelo contrário, só nos saem cromos repetidos. Não é exactamente pelo nosso grande amor ao futebol: aqui em casa, vêem-se de vez em quando os jogos grandes mas nunca organizamos a nossa vida em função do futebol. (Quando vejo a doença com que os meus colegas gostam de bola, agradeço aos céus ter um marido totalmente neutro e ponderado mas isso já foi assunto de outro post!). Mas a verdade é que é giro completar as equipas e saber um pouco mais dos grandes campeonatos (do Mundo ou da Europa) que já passaram e dos que estão prestes a começar.

Então, esta semana levei umas carteirinhas para casa e sentei-me com o miúdo a colar cromos antes de jantar. Organizei-os primeiro e ia-lhe passando um a um para que os colasse e foi aí que percebi que é uma tarefa que obriga ao desenvolvimento de umas quantas competências: primeiro, os números - é preciso saber a ordem em que aparecem as equipas, entender números com um, dois e três dígitos, separar os que já são repetidos. De seguida, temos as bandeiras que ele adora decorar, juntamente com as pequenas fotografias sobre os monumentos mais famosos de cada país, que ele assume que já visitámos. Depois, vêm os nomes - não só ele tenta identificar a posição dos cromos pelos números mas também pelos nomes dos jogadores, comparando o que está no cromo com a caderneta e tentando, à maneira ingénua e atabalhoada dele, ler o que lá está escrito. Mesmo em albanês. E a verdade é que, à custa de tanta tentativa, já percebe algumas combinações de letras e consegue descobrir outras. E finalmente, ainda pode treinar a motricidade fina, enquanto descola os autocolantes e os cola o mais correctamente possível na caderneta.

O bom disto tudo é que, se ele realmente está a aprender alguma coisa, é unica e exclusivamente por sua própria iniciativa. Eu cheguei a estas conclusões por acaso, não tinha nenhum plano mirabolante para que ele retirasse isto tudo duma actividade tão banal. E esta sua curiosidade, sei-o hoje mais do que nunca, é o que realmente quero que ele nunca perca. Porque ser curioso e aberto ao mundo é meio caminho andado para o seu desenvolvimento saudável e para ir sempre mais longe. De certeza que aprender mais e mais lhe custará menos se ele mesmo quiser sempre saber mais.

abril 28, 2016

Uns são mais iguais do que outros

Trabalho numa equipa onde sou a única mulher. É verdade que a minha empresa é maioritariamente masculina, dada a natureza do negócio, mas a minha equipa é das mais afectadas pelo desequilíbrio de género. Dela faziam parte no passado outras duas mulheres mas, como trabalhavam a partir do escritório de Londres, eram como que invisíveis para mim.

Sempre gostei de trabalhar com homens. São, no geral (e sublinho no geral, porque sei perfeitamente que existem as excepções à regra), menos complicados, mais focados no trabalho e menos distraídos com os fait-divers pessoais e profissionais. Nos meus dez anos de trabalho, a competição menos saudável a que pude assistir teve sempre origem em mulheres mas se calhar tive azar. Ou sorte, depende da perspectiva.

Mas cheguei ao ponto em que tenho uma ponta de saudades de trabalhar com mulheres. Tenho saudades da sensibilidade e ponderação, tenho saudades da humanização dos números e gostava de não ser a única mulher da equipa. Ser uma mulher numa área comercial que se especializa em hardware e, especialmente, em software é extremamente difícil. Entra-se para reuniões e é preciso combater os olhares que desconfiam que sejamos competentes para a posição com a única postura possível: a de que somos as melhores, de que não existem dúvidas que nos atormentem, que somos profissionais capazes, mesmo quando a coisa se torna tecnicamente mais complicada. Na minha responsabilidade geográfica (a Península Ibérica), os clientes que participam nas reuniões são também eles maioritariamente homens, directores de finanças ou de informática, gente que também já viu muito mundo mas que nem assim se consegue livrar da ideia de que a mulher é um bocadinho menos capaz do que o homem e que pede a presença de um técnico da reunião porque se sente "mais reconfortado". Mesmo que eu lhe pudesse explicar exactamente o mesmo.

É verdade que há aquele momento em que sinto a satisfação de poder levar o processo do início ao fim sem precisar de uma benção masculina e a euforia de ser tratada de igual para igual. Eu não devia sentir isto em 2016. Eu devia apenas ficar feliz quando cumpro as minhas funções como esperado e eufórica quando supero as minhas expectativas. Mas nem tudo é mau e é claro que muita gente me considera suficientemente competente na minha área. Só que às vezes ponho-me a pensar que, se para mim é difícil vingar numa posição privilegiada num país de primeiro mundo, para mulheres em situações verdadeiramente desfavorecidas deve ser o pesadelo total. Faço o que posso para lutar contra este estigma: preparo-me bem, admito quando tenho dúvidas, procuro respostas, raramente vacilo. Mas há dias em que uma mão feminina me fazia muita, muita falta. Nem que seja para falar da filharada mas para sobretudo eu sentir que não estou sozinha entre as feras.

abril 20, 2016

Primavera, és tu?


Eu sei que é parvo mas vocês entenderão. Caramba, foi a primeira vez que saí de casa sem casaco nuns bons sete, oito meses! Dei-me ao luxo de ir buscar os miúdos a pé, ele de trotinete, ela no seu carrinho, todos a carregarmos as baterias de vitamina D. Se eu vos disser que ainda há dois dias se previa neve para todo o fim de semana, vocês perdoam-me o histerismo? Lembrem-se que estamos quase em Maio e as temperaturas mínimas ainda são negativas. Pensem em mim, carregada com as coisas do dia, uma miúda ao colo, um gaiato pela mão, a chegar ao carro quase em Maio e ainda ter que raspar o gelo de todos os vidros do carro. Imaginem que ainda não tive coragem de guardar aquecedores e desligar o aquecimento central porque tenho tido tanto frio nos últimos dias. A alegria desmedida é justificada. Mesmo que amanhã já não haja Sol. Ou que caiam mesmo uns flocos de neve. O que importa é que hoje o dia trouxe Primavera!

abril 13, 2016

Sete anos de muita coisa

Faz hoje sete anos que começámos a namorar. Acho que não o sabia muito bem nessa altura mas já estava a acontecer. O meu avô paterno fazia oitenta e muitos anos neste dia mas já não estava em condições de celebrar. O meu avô materno havia de morrer dois dias mais tarde e nunca me hei-de esquecer de como aquele que é hoje o meu marido tentou amparar-me a queda e prepara-me para o que estava a acontecer. Enviou-me uma mensagem, com todo o amor e carinho que sempre lhe conheci, dizendo que me devia preparar e que a partida do meu avô estava para breve. Um mês antes disso, a sua mãe tinha também partido.

Comemorar o nosso dia nesta data traz-me mixed feelings. Por um lado, a alegria serena de saber que estou com a minha pessoa, a mesma que nunca desistiu de mim, que insistiu e peserverou até roçar o chato, que decidiu que iríamos ter filhos juntos (mesmo quando eu gritava Que horror!), que sempre gostou de mim de uma forma desinteressada e aberta, que nunca desapareceu. Por outro lado, é impossível esquecer a atmosfera em que vivemos este começo: tanto luto, eu e ele, o meu avô materno quase a morrer, o avô paterno debilitado por acidentes vasculares cerebrais consecutivos, a mãe dele já a olhar por nós noutro sítio melhor, as igrejas frias, a comida que os amigos nos levaram a casa como conforto, a chegada a casa noite cerrada e toda a gente à nossa espera para podermos chorar abraçados.

Foi difícil não confundir o princípio da nossa relação com a profunda carência afectiva de que sofríamos os dois naquela altura. Foi difícil distinguir o que era o abraço amigo e o sólido apoio moral do que era o romance que se insinuava entre nós há algum tempo. Mas a verdade é que passaram sete anos e nós continuamos aqui, enquanto os meus avôs e a sua mãe nos espiam lá de cima. Eu não quero misturar as coisas, nem quero tirar importância a tudo o que vivemos naquela altura mas a verdade é que, no meio do nosso bem querer, havia muita dor.

Nunca tive uma relação tão longa. Sete anos impressionam-me, especialmente se prestar atenção ao padrão do que são as relações hoje em dia. Sete anos passaram num instante, mesmo que nos dias maus o tempo pareça não se mover. Sete anos, dois filhos, uma mudança de país, uma nova casa, muitas viagens - talvez o meu marido seja mesmo a minha maior riqueza. É a pessoa mais lúcida e justa que conheço (pai e mãe, vocês não contam, tá?), é o marido mais realista. É engraçado mesmo quando não tem graça nenhuma e a isso devo não ficar zangada com ele por longos períodos de tempo. Quando éramos amigos, muita gente não o entendia e eu ficava triste. Agora, se alguém não o entender, não me importo porque eu sei exactamente como ele é e acho que quem não o compreender é que perde. Tem os seus defeitos (olá, divisão igualitária das tarefas domésticas!) mas nós divertimo-nos tantos com as pequenas estupidezes do dia a dia que nos vamos arranjando como podemos. Às vezes ele quer estar sozinho e nós perseguimo-lo porque gostamos muito de estar com ele - ele chateia-se um bocado mas logo se desfaz em graças para a pequena e em desafios para o mais velho.

Não sei se vamos estar casados para sempre mas gosto de pensar que sim. Não sei se a vida nos vai mudar, se vamos deixar de querer fazer planos a dois, se vamos continuar a rir das mesmas coisas mas espero que estejamos juntos por muitos e longos anos. Porque eu acho que só eu é que aturava um chato destes e só ele é que podia aguentar com a montanha russa de emoções que foram este sete anos para mim. E por isso, sinto que estamos feitos um para o outro, mesmo nos dias em perco um pouco a fé no amor. Não no nosso, mas no que vejo por aí. Pelo sim, pelo não abrimos hoje uma garrafa de vinho e celebramos as bodas de lã :)

abril 07, 2016

A música acaba mesmo aos 33?

Tinha ouvido falar disto há uns tempos mas nunca me tinha debruçado muito sobre o assunto. Acho que nunca quis pensar muito nisso porque, no fundo, sei que é verdade. Há um estudo que conclui que deixamos de ouvir música nova aos 33 anos (encontram o link aqui). A caminho dos 37, não sei muito bem o que pensar.

Um dos factores que contribui para esta diminuição da procura pelo novo são os filhos, claro, mas o autor do estudo sugere que isto acontece porque começamos a ouvir mais músicas infantis (para lhes fazermos as vontades). Ora, aqui em casa, não é essa a razão para não conhecermos o último êxito ou a banda mais indie de todo o sempre. A verdade é só uma: não há tempo para música nova, quando se tem dois filhos, um emprego e nenhuma ajuda por perto.

Eu explico a minha perspectiva. Quando andava na universidade e não tinha gravador de cds, confiava num colega meu que me gravava cds mas sem me perguntar o que eu queria ouvir: ele decidia se era qualquer coisa que eu ia gostar e gravava na mesma, eu que me desenrascasse. Depois, quando eu ainda era solteira e uma miúda sem filhos, chegava a casa depois do trabalho e esticava-me no sofá. Muitas vezes ali ficava até serem horas de dormir mas tinha o computador no colo e saltava de site em site, de comentário em comentário, de sugestão em sugestão até encontrar a última novidade. Muita música nova me aparecia no computador porque tinha apenas gostado da capa do cd ou porque saía uma crítica porreira nas páginas do Ipsilon e, mais tarde, porque apareceram serviços como o Last.fm, que fazia o favor de analisar o que andávamos a ouvir e nos sugeria música parecida. Conheci muitas pessoas com base na música nova que sempre procurei e a todas elas agradeço o facto de me terem ajudado a ver/ouvir/sentir mais coisas.

Mas chegou o primeiro filho e os meus tempos livres passaram a depender dele, não apenas de mim. As minhas noites mudaram também desde há cinco anos e meio: não dormir uma noite seguida desde aí fez com que, na maioria dos dias que se seguiram, eu tivesse pouca ou nenhuma paciência para procurar o Novo. E depois chegou o segundo filho e as coisas complicaram-se ainda mais. O tempo precisa de estar de tal maneira compartimentalizado agora que me sobra pouco tempo para as velhas coisas que me faziam mais feliz. Acho que já aproveito bastante bem o tempo e tento perder o menos possível em frente à televisão sem propósito definido mas não dá para me sentar e navegar sem destino no mar de bandas novas e da moda como antes fazia.

É por isto que não queria admitir mas, musicalmente falando, estou velha e a agarrar-me mais e mais à música que, no passado, já me fez feliz. Não tem mal nenhum, eu continuo a achar que é música boa e muita dele nem sequer envelheceu por aí além mas tenho pena de estar a perder esse combóio - o puro e simples Fear Of Missing Out. Aposto que muita gente acha que é perfeitamente possível manter tudo ao mesmo tempo - casa, filhos, trabalho, maridos e mulheres, últimas tendências da moda/dos livros/da música/das séries/dos filmes. Para mim, infelizmente, não dá e, tendo precisado de escolher, escolhi estar presente no aqui e agora, escolhi tentar manter o ténue equilíbrio entre ser uma pessoa e ser uma mãe e tem resultado mais ou menos. E só por isso, deixo aqui três das minhas músicas preferidas de todo o sempre, mesmo que todas tenham sido gravadas antes do ano 2000. Que se lixem as the next big things




março 29, 2016

Segundo Capítulo


Para mim, era mais ou menos inevitável. Só me faltava entender como podia materializar-se a nossa colaboração, em que formato ou em que meio mas sabia que havia de chegar.

O Mário é aquela pessoa que olha para o Mundo já à procura da fotografia ideal. Vê beleza escondida em tantas coisas que não posso deixar de me sentir espantada sempre que me mostra uma fotografia sua. Tem um estilo, tem um olhar que eu posso claramente identificar como seu. Procura o indizível, o intocável com cada disparo seu. Colecciona material analógico, revela ele mesmo as suas fotografias e nem por isso deixa de apreciar o conforto de ter um smartphone na mão. Ele pensa mesmo a fotografia, ao contrário de mim, por exemplo, que tento apenas registar o meu dia a dia - ele faz o mesmo mas sobe sempre a parada e mostra-me a melhor composição, o melhor enquadramento. Quando vejo as minhas fotografias, fico sempre ligeiramente frustrada porque tendo a comparar-me com ele. E para mim ele não tem comparação.

Quando namorávamos e vivíamos longe um do outro, tentámos um blogue que durou pouco tempo porque, felizmente, acabámos a viver juntos mais depressa do que esperávamos. Ele fotografava e eu escrevia curtas histórias com base nas suas imagens. O blogue que nasceu agora não é muito diferente, salvo que eu não conto histórias mas antes falo um pouco sobre o que é a nossa vida (não quero dizer aqui, quero antes dizer pelo Mundo). Não sei o que é que este novo sítio vai fazer pelo meu velho blogue, não quero deixar um em detrimento do outro. Vou deixar só que as coisas aconteçam e é tudo.

Para conhecer este novo capítulo na nossa história, podem clicar aqui. Temos todo o gosto em que nos visitem na nossa nova casa.