abril 24, 2019

Música para os meus ouvidos #2



Vinte anos. Em 1999, eu estava no segundo ano da faculdade, saída de uma relação absurdamente tóxica e a experimentar finalmente o que era gostar e ser gostada a sério. Há vinte anos atrás, este disco fazia a ponte entre estas duas pessoas em extremos tão longínquos: uma insistindo em manipular-me e afogar-me nas suas mentiras, não deixando mais do que dor e uma espécie de ódio; outra mostrando-me o que era a liberdade de gostar, ensinando-me a poesia e restaurando o meu amor próprio. Há vinte anos atrás, ouvi no meu voicemail alguns versos duma música deste álbum, numa tentativa desesperada de resgatar um amor que já não existia. Mas também me deitei de sorriso na boca, sentindo que talvez não merecesse um coração tão acelerado enquanto compreendia finalmente o que era isso de amar alguém. Duas décadas, ainda me custa a dizer e a pensar nisso, duas vezes dez anos a dançar pela vida fora como no tal video da Instant Street, a tentar (pelo menos) sentir realmente tudo o que faço, à procura da verdade, recebendo e aceitando prazer e dor em quantidades generosas, sem escolher. Tanto mudou desde esse ano, eu aprendi e mudei tanto, arranjei alguém com quem dançar de olhos fechados mas este álbum, estas dez canções carregam para sempre o peso dessas recordações: uma viagem de comboio a ouvir um conjunto de insultos gratuitos no meu voicemail, a súbita ideia de que talvez eu merecesse qualquer coisa diferente, o meu primeiro festival de Verão, as canções que cantei primeiro feliz e com as quais me isolei depois.

Of all of the fuckups that I do
I've saved up the best one for you
Heaven and moonshine, you gotta be kidding
You wanted to give it a try and I didn't

fevereiro 26, 2019

Quatro anos de Malinha (como ela goste que eu lhe chame)

A nossa filha faz quatro anos hoje. A esta hora, há quatro anos atrás, já a tinha há muito nos braços e estava entretida a estudar-lhe aquela carinha inchada que parecia já vir zangada com o mundo. Não imaginava quão agitada seria a nossa vida nos anos que se seguiriam mas também não imaginava como iria gostar desta miúda, mesmo nos dias em que a sua missão é apenas uma: tirar-nos do sério. E olhem que são muitos os dias assim...

Hoje, Amália celebra o seu quarto ano de vida. É valente e, apesar de falar com algum receio de fantasmas e monstros, a verdade é que não tem medo de nada. Corre para todos os cães e gatos que vê na rua, perde tempo a estudar formigas e outros insectos que tal, admira os animais mais selvagens. Salta, trepa, atira-se como se o mundo fosse todo dela e, se por um lado sei que é porque ela não tem ainda noção do perigo, por outro sei que é a natureza dela. Ela é aventureira, audaz, ela quer experimentar tudo, parece querer engolir o Mundo duma só vez. O mérito não é nosso: é claro que a encorajamos a ser destemida e independente mas só ela sabe arriscar como se não houvesse amanhã.

É a filha do meio e isso vê-se bem, todos os dias. Tão depressa quer ser uma menina crescida como quer ainda ser uma bebé. Admira tanto o irmão mais velho e inveja um bocadinho do irmão mais novo, não se sabe para que lado se inclinará hoje. É irascível e doce: tão depressa me elogia (Mãe, és tão bonita!), como me proscreve do seu círculo próximo (Já não sou tua amiga!) apenas em alguns segundos. Diz muitas vezes que quer dar maminha aos seus filhos e, se a deixasse, ainda procuraria as minhas para se confortar. Parece que tem uma vontade gigante de crescer (Mãe, quando é que vou ser uma senhora?) mas logo se comporta como a menina de quatro anos que ainda é.

Aprende as coisas à velocidade e vontade dela. Sabe contar até doze em Luxemburguês mas emperra no sete em Português. Aplica-se em tudo o que faz e é capaz de se concentrar. Infelizmente, isto significa que também se pode concentrar nas birras que faz, o que origina às vezes mais de uma hora de choro e às vezes de gritos até chegarmos ao ponto de já não sabermos porque tudo começou. Quer mandar e impôr-se na escola e por isso talvez não seja muito popular. Se por um lado isto me parte o coração, por outro alivia-me saber que tem esta personalidade forte e só me resta esperar que a utilize para o bem. 

Se antes dormia muito mal e quase me levava ao esgotamento com a privação do sono, hoje é normalmente a primeira a adormecer e não são raros os dias em que volto a entrar no quarto depois de os deitar e ela já ressona mesmo. Largou fraldas e chupetas no ano que passou, as primeiras naturalmente, as segunda fruto da falta de chupetas em boas condições em casa. Em ambas as vezes, ela provou que eu estava errada quando pensava que ia ser difícil ou que ela ia resistir: à parte de um choradinho a querer usar fralda e uma noite a choramingar pela chupeta, ela surpreendeu-me com o seu poder de encaixe e com a sua força.

Ela nasceu sem me dar a hipótese de pensar ou mesmo de uma anestesia. Ela vinha determinada, pequenina mas cheia de vida e assim continuou pelos seus primeiros quatro anos de vida. Apesar de muitas vezes eu não conseguir apreciá-la como ela merece no meio dos seus gritos e exigências, amo-a com todas as minhas forças e apenas espero estar à altura da minha missão: mostrar-lhe o caminho atribulado duma mulher nos dias que correm e fazer com que ela não se demova com nenhum obstáculo. E a continuar assim, o céu é o seu limite.

fevereiro 14, 2019

Luxemburgo - Porto - Luxemburgo, pt. I


Aeroporto do Luxemburgo, dia um, nove da manhã

Às nove da manhã estava sentada frente a um café e a um sumo de laranja, a fazer tempo para a abertura da porta de embarque. Atrás de mim, dois homens falam numa língua incompreensível para mim, talvez sejam de qualquer parte dos Balcãs. Vão olhando para os monitores sem parar de falar ao telefone, cada um com seu interlocutor. No meio do discurso percebo que vão para Munique mas não compreendo mais nenhuma palavra.

Uma mulher pede para sentar-se na mesa onde outra espera o seu marido. Esta aceita com delicadeza e simpatia. O poder destes pequenos gestos tem ecos gigantes em mim e não posso evitar sorrir por uns momentos.

Deve ter aterrado um avião porque passam por nós pequenos grupos de homens de gravata e sobretudo. Trazem apenas o computador às costas, parecem vir só passar o dia. Às vezes parece-me absurdo mas há mesmo quem vá e venha todos os dias de Londres. Imagino que muitos devem estar a desbravar caminho para a mudança de Londres para o Luxemburgo.

É estranha a sensação de ir a Portugal e não ver os meus pais nem ir a Lisboa mas o tempo é curto e a viagem é de trabalho. Gostava de lhes dar um abraço e confortá-los um pouco. Não têm sido tempos fáceis: esta semana morreu-lhes um amigo, na semana passada uma tia. E eu aqui tão longe, a entristecer quando penso na distância. Para as coisas boas e para as coisas más, para as celebrações em vida e para as exéquias no fim.

Um hamburguer de alheira ao almoço, um polvo à lagareiro ao jantar. Se mais razões não houvesse, a comida far-me-ia sempre voltar.

Um escritório no décimo quarto andar, com vista sobre a foz do Douro. Poder trabalhar assim, em dias como estes em que não há uma única nuvem à vista, a luz sobre as secretárias, o Porto lá em baixo cheio de vida, é um autêntico luxo. Não vai haver tempo para visitas, nenhum turismo, a não ser durante o jantar. Mas nestas viagens acabo sempre a trabalhar muito mais ou pelo menos até bem mais tarde (porque não tenho ninguém à minha espera como em casa) e o dia termina sempre mais para o lado da exaustão.

Acabamos a primeira noite num Uber, sem muita vontade de falar. O carro cheira tão bem e está tão limpo e o motorista não diz uma palavra. Cada um entra no seu quarto de hotel, eu fecho as cortinas para poder dormir à vontade. E, hoje que posso dormir à vontade, rebolo na cama vezes em conta, com a sensação que pairo sobre o sono e que não estou propriamente a dormir. Já são horas de acordar?

janeiro 30, 2019

Aquela relação amor-ódio

Odeio-a. Tudo bem, não vou negar que fico sensibilizada enquanto vou a caminho do trabalho e os campos estão brancos até perder de vista e há assim um véu místico a pairar sobre a floresta que ainda fica longe da estrada. E sim, é estranhamente satisfatório ouvir aquele crunch que os nossos pés fazem sob neve acabada de cair.

Mas depois há que equipar os miúdos a rigor: tudo cheio de fatos da neve, cachecol, as luvas de lã porque nos esquecemos mais um ano de lhes comprarmos umas luvas a sério, as botas para manterem os pés secos. Há que limpar, por lei, a entrada de casa edifício e todo o passeio à sua frente para evitar que alguém escorregue e tenha um acidente num pedaço da nossa propriedade. É pegar na pá gigante e no saco de sal, trabalhar no duro mesmo antes de irmos trabalhar a sério, raspar a neve do passeio e atirá-la para onde ninguém se possa magoar e finalmente espalhar o sal por todo o lado para garantir que não sobra uma réstia de gelo. Acaba-se a limpeza suando em bica, guarda-se o material até à próxima manhã mas depois é ainda preciso limpar o carro se queremos conduzir. É preciso calçado adequado e resistente e também é preciso que nos descalcemos antes de entrar em casa, sob pena de espalhar a água e o sal por todo o lado. 

Dias de neve são dias de pegadas em todas as divisões da casa. São dias em que muitas pessoas desistem mesmo de sair de casa, embora eu nunca tenha visto nevar mais do que uns centímetros. São dias em que os engarrafamentos são intermináveis, em que se demoram horas para fazer meia dúzia de quilómetros, em que talvez tivesse mesmo sido boa ideia não sair da cama. Eu invejo o sentido prático das pessoas que vivem no Norte da Suécia ou na Finlândia ou na Sibéria: a vida tem de continuar e todas essas pessoas conseguem viver e trabalhar mesmo com temperaturas dezenas de graus abaixo de zero e nevões que realmente impactam a vida normal. Aqui, caem três centímetros de neve durante a noite e as pessoas subitamente transformam-se, como se fosse a primeira vez que conduzem com neve na vida.

É preciso dizer que, a par da paisagem silenciosa e branca, há apenas outra coisa que faz a neve valer a pena: os gritinhos de alegria dos miúdos no recreio da escola, enquanto a campaínha não se faz ouvir. A excitação era evidente e também na nossa casa se perguntou logo se não podíamos ir fazer um boneco de neve - óbvio! De resto, acordem-me quando já estivermos na Primavera.

janeiro 29, 2019

Eu e a música

Não me lembro de crescer numa casa onde se ouvisse muita música. Ainda restam alguns vinis lá em casa que provam que algumas canções se ouviram naquele gira-discos que sempre me pareceu gigante mas eu não me lembro de quais eram os cantores preferidos dos meus pais, por exemplo. Tudo o que sei sobre isso chegou mais tarde, talvez quando a música se tornou mais importante para mim e casualmente num tema de conversa lá em casa. Mas eu fazia os meus próprios concertos no quarto, usando o desodorizante (Vasenol, quem se lembra do formato?) como microfone.

Tenho talento zero para a música. Desafino quando canto, não tenho grande coordenação motora e não sei tocar nenhum instrumento. Fascinam-me as pessoas que compõem canções porque não consigo imaginar o que é inventar música e como se poder ter dentro de nós tantas canções diferentes. Não acho que haja um estilo melhor ou pior do que outro: só consigo explicar a minha adoração através da quantidade de emoções que uma certa música/banda me podem fazer sentir.

O poder que tem uma canção é incrível e tão mais imediato que um livro e tão mais disponível que um filme. Ouve-se uma canção de três minutos e parece que se abrem as comportas da nossas tristeza. Repete-se a mesma canção durante dias a fio: antes, era a cassete que se rebobinava vezes sem conta; hoje, o loop está à distância de um repeat 1 - click e já está. Há canções eternamente ligadas a períodos específicos da minha vida. Há canções para cada desgosto amoroso e cada momento de superação. As pessoas de quem gostei têm a sua música, a pessoa que escolhi como marido tem várias. Aos meus filhos associo as músicas que ouvi quando descobri que eles estavam por nascer: não significa que fossem músicas escolhidas por mim, podia ser só aquele hit que estava a dar na rádio à saída da ginecologista. Os meus pais também têm as suas e a melhor cena é o meu pai ter como toque da minha mãe a I was born to love you dos Queen! A minha irmã vai ser para sempre as músicas que cantávamos em dueto em casa.

Já uma vez pensei que dificilmente ia ouvir mais música nova. Quando não tinha filhos, podia passar horas a pesquisar sobre novas bandas, novas canções, outros estilos. Comprei muito cds, gravaram-me outros tantos, fiz mix tapes que dei a pessoas de quem gostava muito, compus as minhas próprias cassetes de melancolia, recebi mix tapes pelo correio de pessoas que mal conhecia. Usei o Napster, o eMule, o Soulseek. Acumulei música em formato digital em quantidades industriais mas que conservo com aquele carinho de quem pensa que algum dia vai voltar a ouvir. Há anos que uso o Spotify e não consigo imaginar uma invenção maior do que ter toda a música disponível quando eu quiser. E agora, que os filhos me deixam muito lentamente voltar a ser um bocadinho da pessoa que era antes, começo a arriscar algumas coisas novas. O rádio liga-se quando se entra em casa e desliga-se quando os miúdos vão dormir. E agora que os miúdos se tornaram menos dependentes de mim, começo a nem hesitar quando anunciam os concertos aqui - é bilhete certo.

Posso não ser uma expert num determinado estilo de música ou não saber o nome de todos os membros dum banda de que até gosto muito. Mas há música para todas as ocasiões na minha vida, para todas as pessoas, para muitos dos meus sítios. Por isso, se se cruzarem comigo numa rua qualquer e eu estiver a sorrir melancolicamente, se calhar é porque uma música me apanhou de surpresa e de repente sou eu num videoclip qualquer.

janeiro 24, 2019

Música para os meus ouvidos #1

(Umas das coisas que mais tenho tido vontade de fazer é escrever sobre a música que tenho escutado ou sobre o que tenho visto ou lido. Não com a intenção de evangelizar alguém ou convencer da qualidade das minhas escolhas mas simplesmente para escrever sobre o que estas coisas me fazem sentir, pensar, imaginar. E por isso começo hoje aqui, com o álbum que mais tenho ouvido nestes últimos dois meses.)

 

Ouvir estas canções é dar comigo num carro, vidros escancarados, uma estrada interminável a meio de um estado americano, a paisagem a alternar entre os campos cultivados e aquelas formações rochosas dos filmes. Eu talvez fuja de qualquer coisa, talvez procure a cura para o coração que acabam de me partir, sem saber sequer para onde vou. O único plano é ouvir as canções delas até ao infinito. Eu sentada à janela num diner de beira de estrada, sem saber como acabar um prato de ovos mexidos sem que as lágrimas forcem a sua saída. Eu a atestar o depósito e a sentir-me mais sozinha do que nunca. Eu a trocar olhares com um estranho que acaba de deixar o motel onde hoje vou dormir. Eu a achar que sei tudo sobre a solidão. Eu a decidir que hei-de conduzir até chegar ao mar. Pequena cidade atrás de pequena cidade, manadas de vacas, cavalos selvagens, a imagem gasta do último cowboy, a imagem gasta do romance que já ninguém quer, que já ninguém procura. Talvez tenha visto demasiados filmes, talvez tenha escutado demasiada música triste, talvez, apesar de tudo, às vezes ainda viva demasiado virada para dentro. Mas depois elas cantam assim, depois elas aparecem com estas músicas que eu gostava de ter escrito e sabem tocar e parecem mais sábias do que eu. E às tantas eu só já quero prolongar a viagem e conduzir de olhos fechados.

                               We had a great day                                       I had a fever
                               Even though we forgot to eat                       Until I met you
                               And you had a bad dream                            Now you make me cool
                               Then we got no sleep                                   But sometimes I still do
                               'Cause we were kissing                                Something embarassing


(um link se quiserem também sonhar e outro link se quiserem saber mais)



janeiro 23, 2019

Viver com privação do sono

Normalmente são seis ou sete vezes. Com alguma sorte apenas duas ou três. Um que quer ir à casa de banho. Outra que quer que a tapem. Outro que nunca conseguiu dormir uma noite inteira. E quando acordo, especialmente durante o horário de Inverno, como ter energia para fazer desporto ou mesmo apenas para tomar banho?

Há oito anos que deixei de dormir como uma pessoa normal. Era rapariga para dormir até ao meio dia na minha existência pré-filhos e apreciava bem uma sesta a meio da tarde. Ainda hoje aprecio, só não consigo é dormir. Há oito anos nasceu o nosso primeiro filho, o primeiro a não saber nem gostar de dormir. Só o pai é que o conseguia deitar quando era apenas um bebé, enquanto eu chorava de desespero por não conseguir acalmá-lo, por um lado, nem conseguir dormir pelo outro. Li tudo o que havia para ler sobre o sono dos bebés, especialmente aqueles fórums de mães onde se encontram muitas soluções estapafúrdias mas também muita compreensão sobre o que é viver sem dormir. Nada funcionou com o nosso primeiro filho mas um dia foi ele a pedir-nos para ir dormir. Com quase três anos, e depois de muito sofrer com este hábito, acabámos com o leite durante a noite e ele acabou por começar a dormir bem. Mas nessa altura em que as noites começavam a ser mais calmas, nasceu ela.

Ela dormia muito pouco de dia e fazia-me desesperar porque eu nem podia tratar de coisas em casa nem podia dormir: tinha que tratar dela o tempo T-O-D-O. À noite, a coisa também não ia melhor mas o leite lá a ia acalmando. E acalmou até que a antiga pediatra me fez sentir como uma mãe quase negligente e ordenou que a menina não bebesse mais leite à noite. Foram precisas algumas noites de muito choro, de muitos gritos, da dor que é sentir que um filho está a sentir-se como se o tivessemos abandonado mas o milagre deu-se e ela começou a dormir. Só que exactamente nessa altura, pouco antes de ela comemorar os dois anos, nasceu o terceiro filho e aquele que pior noites dá.

Aos dois, ainda sou culpada de lhe dar leite durante a noite. Quem, como eu, vive com a privação do sono sabe que se faz o que for preciso para podermos voltar a dormir. A única coisa que evito é trazê-lo para a nossa cama - guardamos essas ocasiões para quando estão doentes. E portanto, aos dois anos de idade acabados de fazer, este menino ainda acorda de duas em duas ou de três em três horas. Agora somem-lhe outros dois filhos com as suas necessidades e façam as contas a quantas horas eu durmo por noite. Há oito anos, até me custa pensar.

Há dias em que me sento em frente ao computador, no trabalho, e nem sei o que estou a fazer. O despertador toca muitas vezes alguns minutos depois de ter conseguido voltar a adormecer, o que é claramente a pior sensação do mundo. Esqueço-me muitas vezes do que ia fazer a seguir, de preparar lanches nos dias de escola ou de fazer os sacos para a natação. Suporto dias inteiros de reuniões a baldes de café e a um esforço hercúleo para não cabeçear uma vez sequer. Estou sempre mas sempre cansada, não tenho vontade de sair de casa. Quero ler muito, ver muitas séries, tricotar até mais não mas acabo muitas vezes enfiada na cama logo depois do jantar, à espera do primeiro que irá acordar. Sinto muitas vezes, como na semana que passou, que mais dia, menos dia eu vou sucumbir a esta deficiência de descanso. Sinto que o meu corpo vai entrar em shutdown a qualquer momento. Tenho medo do que a falta de sono está a fazer à minha saúde em geral. Sonho as coisas mais bizarras quando finalmente consigo adormecer. E, sobretudo, entristece-me não ser capaz de estar mais presente ou de ter mais paciência quando estou com os meus carrascos do sono.

Às vezes, nos dias bons, consigo levantar a cabeça e imaginar que um dia os três vão dormir bem e que já nem deve faltar muito para que isso aconteça. Mas depois pergunto-me se alguma vez mais vou conseguir dormir como antes (e temo saber a resposta...). Nos dias normais, arrasto-me para o carro, multiplico-me em esforços para que o trabalho saia bem feito, às vezes consigo ver um episódio ou ler duas páginas depois do jantar. Já há muito tempo que desisti de tentar entender porque não dormem/dormiam eles mas juro que quando forem adolescentes sentirão o amargo gosto da vingança.

(muitas vezes tenho vontade de escrever qualquer coisa por aqui. Às vezes são ideias minhas, outras o resultado de pessoas inspiradoras, a vontade de regressar à ficção sem deixar de escrever as crónicas sobre o que conheço. E a verdade é que não é só a falta de sono que me impede mas o facto  do meu tempo livre ser ocupado a tentar dormir ou a tentar fazer alguém dormir também ajuda. Este blog comemorará quinze anos em breve! Quinze anos é demasiado tempo para que eu simplesmente feche a porta sem olhar para trás. E é precisamente por de vez em quando eu espreitar este sítio onde a minha vida se fez palavras que não posso simplesmente dizer adeus. Estou a fazer figas para poder ouvi-los ressonar em uníssono e conseguir finalmente voltar a viver um bocadinho.)

outubro 10, 2018

Twickenham, TW1 3QS

Um esquilo entre árvores e os miúdos de uniforme a correrem no intervalo. O esquilo a passar sem que ninguém o ouvisse e os miúdos a distribuírem pontapés nos outros e no ar. Quando é que aprendemos a ser tão violentos, é a pergunta que se repete na minha cabeça enquanto os sigo do alto dum oitavo andar em Twickenham.

Gosto de apanhar o autocarro para o aeroporto de manhã. O som da mala a arrastar-se pelo passeio ecoa pelas ruas vazias do bairro. Espreito os quintais bem arranjados enquanto não chego à paragem do autocarro, com aquela inveja inofensiva de quem não tem tempo (nem jeito) para ter um quintal assim. Se o dia estiver bom, ouço o pequenino a brincar no jardim da creche, digo-lhe adeus baixinho como se ele me pudesse ouvir. De há uns anos para cá, custam-me sempre a despedidas. Não passa um dia sem ouvirmos histórias de quem saiu e nunca mais regressou. Nestes dias, penso sempre que posso ser a próxima.

Meia hora de autocarro, atravessando a cidade. O entra e sai de gente normal: os senhores de gravata que saem nas instituições europeias, as senhoras da limpeza que já vão no segundo ou terceiro cliente do dia, os fumadores inveterados que apagam o cigarro quase já dentro do autocarro, os outros viajantes que tentam enfiar as malas onde incomodem o menor número de pessoas, mães que eu imagino em licença de maternidade tentando regressar à vida normal com o bebé pendurado no marsúpio.

No aeroporto, chego a tempo de entregar a mala, comprar uma revista e passar tranquilamente pelo controlo de segurança. É o aeroporto mais pequeno de onde já viajei e é fácil calcular chegar perto da hora de partida. Como uma sandes de queijo com tomate que fiz à pressa em casa. É a minha nova cena, sandes de queijo com tomate. Faltava a alface mas em casa ninguém quer comer alface. Sento-me e momentos depois sou rodeada por um grupos de pessoas que parece ir em turismo para Londres. Aparentemente são franceses e falam muito alto. Estão excitados com a viagem, dá para sentir.

Escolhi a fila número quatro, um lugar à janela. Sou uma pessoa ansiosa e quero sair depressa do avião. Um lugar vago entre mim e o outro passageiro, um daqueles golpes de sorte.Ele não tenta meter conversa (felizmente, é que sou péssima a fazer conversa de circunstância e às tantas fico demasiado auto-consciente e sem saber o que dizer). Uma hora e poucos minutos de voo e aterramos em Heathrow. Pego nas minhas coisas e saio em direcção à recolha de bagagens. Preciso levantar dinheiro e páro num multibanco antes de chegar à passadeira onde as malas do voo do Luxemburgo ainda não começaram a desfilar. Espero uns dez minutos e dirijo-me à saída, onde alguém me espera com um cartaz com o meu nome. É a segunda vez que me acontece e não posso evitar sentir-me uma pessoa importante, mesmo sabendo que não é o caso e que o motorista não tem outra maneira de saber quem eu sou.

Todos os motoristas que me conduziram em Londres nestes últimos tempos eram indianos ou, pelo menos, originários das ex-colónias do Reino Unido. Dois não me dirigiram palavra (além de confirmarem a morada de destino), um mal sabia falar Inglês mas ainda ensaiou umas perguntas sobre o Luxemburgo, a única mulher falou o caminho todo entre o escritório e o aeroporto. TODO o caminho. Contou-me sobre a escola dos filhos, sobre como é ser mãe solteira, como está cansada mas precisa de trabalhar para ir ver a mãe à India. Parece que vai adormecer a qualquer momento e está claramente deprimida. Penso como deve ser difícil viver aqui, correr para todo o lado, as filas de trânsito que nunca mais acabam e parecem avançar a conta gotas, contas para pagar, um mercado imobiliário à espera de colapsar.

Nos tempos livres do trabalho (hora de almoço e depois das seis) passeio por Twickenham. Descubro o rio ali mesmo ao lado, barcos cheios de alunos em escolas de remos, uma turista iraniana que me toma por espanhola assim do nada, céus azuis e temperaturas que habitualmente não associamos com o Reino Unido. Um hamburger num pub conhecido pelos adeptos do rugby, um jantar num italiano, sozinha à luz de uma pequenina vela, um almoço no Nandos a matar saudades do frango assado, uma bento box num japonês discreto, o meu fascínio parolo pelos supermercados dos outros países.

Gosto do silêncio das viagens de trabalho. Gosto de observar as pessoas no seu ritmo diário, correndo da estação de comboio para o trabalho, fazendo Facetime pela rua fora, de chinelos e gabardine, de todos os cantos do mundo. Gosto do silêncio do quarto do hotel, mesmo que ligue a televisão por uns minutos até sentir os olhos pesados e vá mudando de canal até me cansar. Adoro as pestes lá de casa mas é relaxante poder sentar-me para jantar sem dois deles berrarem como loucos e o terceiro continuar a provocá-los com parvoíces. Sinto saudades mas não há nada como aquele duche cedinho mas poder aproveitar o pequeno-almoço de hotel tranquilamente. Parece que trabalho mais quando mudo de escritório porque não há rotinas a cumprir depois ou antes do trabalho. Na próxima, se calhar apanho um comboio para o centro de Londres para matar saudades. E depois volto para Twickenham, onde apesar de ter anotecido, a vida parece nunca abrandar.

setembro 29, 2018

Ao Vicente, que fez de mim mãe há oito anos atrás

Há oito anos atrás, neste dia, nascia o bebé Vicente. Eu tinha feito uma carrada de testes de gravidez para ter a certeza de que vinha mesmo aí um bebé, estava a rebentar de felicidade e de pânico simultaneamente. Tantas fantasias e expectativas, tanto tempo para fotografar a barriga que crescia e pensar em nomes e adivinhar-lhe as feições. Era meio dia e quatro do dia vinte e nove de Setembro de dois mil e dez e numa sala de partos no hospital CUF Descobertas chegava ao mundo Vicente Mauricio Tavares, puxado por um par de ventosas e já a dar provas das sua teimosia.

O Vicente foi filho único durante quase cinco anos. Nesse período, vivemos os dois (pai e mãe) centrados nesta pessoa pequenina que não gostava de dormir, que fazia as maiores birras (mal sabíamos o que o futuro nos reservava...) mas que era doce e mimoso, que brincava tão bem sozinho, enfileirando os carrinhos casa fora, que coloria com entusiasmo e fora das linhas, que gritava quando via tractores e moto-quatros, que já gostava de livros e detestava trovoadas. Durante cinco anos, todo o nosso afecto era dele, a nossa atenção não era dividida, estávamos ali ininterruptamente mas apoiar nas noites em que não dormia, quando estava doente, quando mudou de escola. Por ele chorei quando me soube à espera do segundo bebé: então e se não fosse capaz de sentir o mesmo amor? E como se sentiria o meu menino, a dividir o seu espaço com um outro bebé, sem que a nossa atenção fosse toda dele?

Fast forward para os dias de hoje: Vicente tem uma irmã e um irmão que olham para ele com muito amor e admiração. É teimoso como a mãe e só descansa quando consegue o que quer (ou quase, que nem sempre se pode ceder às vontades deles). Chora quando lhe passa pela cabeça que vamos morrer (já disse que não queria morrer porque deixaria de jogar futebol, deixaria de poder comer gelados ou deixaria de poder fazer cocó...) e acha que nunca vai querer sair da casa dos pais (Mãe, quero viver com vocês para sempre!, diz ele, ainda desconhecendo as mudanças que chegarão com quinze, dezasseis, dezoito anos...). Está indeciso entre ser futebolista e piloto (de qualquer coisa, o veículo ainda não está definido mas talvez seja um avião, para que possamos viajar com ele e onde nos vai preparar refeições especiais, segundo ele). Quer começar a falar Alemão comigo em casa, fala Luxemburguês perfeitamente, vai retomar agora o Francês e percebe a maior parte do Inglês que ouve por aí. Tem uma grande necessidade de aceitação e, por isso, nunca quer ter caracóis porque esse não é o cabelo fixe. Quer pertencer a alguma coisa e por isso diz Bom dia! a viva voz a todas as crianças que encontra no caminho da escola. Sabe o nome de todas, mesmo que elas nem desviem o olhar do caminho. O que mais o aborrece são as coisas previsíveis e que deve fazer todos os dias: lavar os dentes, tomar banho, arrumar a mochila. Quer participar nas tarefas da casa: quer lavar a louça, faz birra para cozinhar, gosta de arrancar ervas daninhas ou tratar da relva, limpa a mesa depois do jantar.

Às vezes dá-me vontade de gritar, como quando exclui um dos irmãos das brincadeiras ou quando deixa o saco do futebol cheio de roupa suja no meio do corredor. Às vezes dá-me vontade de chorar de tristeza, como quando nos contou que muitos meninos lhe bateram ao mesmo tempo ou como não compreende só ser violento não é compatível com ser amigo. Mas na maior parte das vezes só me enche o peito de Amor, como quando me olha nos olhos e eu me lembro que ele foi o meu primeiro bebé, quando repete que me adora, quando quis casar comigo, quando o vejo a aprender tanto e a ter ainda mais vontade de aprender. O meu menino faz oito anos e daqui a bocadinho tem barba e bigode mas há-de ser sempre a minha primeira pulguinha.



(porra, como é que já tenho um filho de oito anos?! Aaaahhhhh...)

julho 20, 2018

O ano escolar está quase morto. Viva o ano escolar!

Não vou esconder o alívio quando, no próximo dia 10 de Agosto, terminar oficialmente o ano escolar lá em casa. O mais velho já terminou as aulas na semana passada mas os outros dois continuam, como de costume, na creche e só darei as hostilidades terminadas quando forem cinco da tarde do dia 10 e entrarmos finalmente em férias.

Vamos então por partes e comecemos pelo mais novo elemento da família. O Augusto começou na mesma creche da irmã em Setembro do ano passado. Naturalmente, e como é o terceiro filho, foi talvez a separação que menos me custou, embora tenha sido difícil na mesma. Afinal, ele é o nosso último bebé e deixá-lo numa creche foi reconhecer oficialmente que os primeiros meses estavam decididamente para trás. Como estava com a irmã, a adaptação foi menos penosa - para mim, claro, porque acho que ele não reparou em nada. Desde essa altura, acho que os dedos de uma mão chegam para contar as vezes que chorou quando lá o deixei. Normalmente corre para o colo de alguém, empina-se em cadeiras ou bancos ou sai disparado para explorar a casa de banho. É verdade que começa agora a demonstrar um pequeno mau feitio em potência mas foi sempre um bebé tranquilo e muito mimado pelas educadoras. Zero problemas durante o ano escolar.

Saltemos para o irmão mais velho. Terminou há uma semana a sua primeira classe. As notas aqui vão do A+ ao D e o menino Vicente terminou o ano na sua onda positiva, com um A como a nota mais baixa! Foi muito interessado,  aborreceu-se umas vezes um bocadinho porque sentia que podia aprender mais coisas e que a escola não ia à velocidade dele. Como diria a professora, academicamente falando um ás, o pior é o comportamento. Provocou muitas vezes os colegas, talvez porque ter demasiado tempo nas mãos. Chorou umas vezes desconsoladamente e deixou a professora sem saber como o fazer regressar à realidade. Trouxe alguns recados para casa ("O Vicente não obedece e não ouve a professora", "O Vicente baixou as calças ao Leo", "O Vicente não queria trabalhar"). Levou raspanetes mas e eu o pai rimo-nos das coisas que escreviam porque também não esperamos que ele seja uma criança sem sentido de humor ou sem vontade própria. Preocupámo-nos com a possibilidade de estar a sofrer bullying, explicámos-lhe que os meninos que lhe batem dificilmente podem ser chamados de amigos, pedimos que também ele não se comportasse assim. Acabou o ano a saber ler e escrever em Alemão, a ler apenas em Português e algum Inglês, a saber contar o dinheiro e a ver as horas. Às vezes pergunta-me se eu acredito em Deus e como é que Deus conseguiu criar isto tudo e eu não sei muito bem como lhe acabar com essa inocência e como lhe dizer que não, não acredito. O meu primeiro bebé faz perguntas e pensa sobre o Mundo, não há muito mais que queira para ele.

E terminamos com a pequena mademoiselle, com o terror e a doçura lá de casa. Prepara-se para entrar em Setembro para a escola, para o que aqui chamam Prècoce (ou pré-pré-primária) com o seu feitio e atitudes peculiares. Fez-me sofrer grande parte do ano: todos os dias, quando os ia buscar, as educadoras desfiavam o rol de maldades que tinha feito às crianças da sala (e até mesmo ao irmão), como tinha deitado a comida para o chão, entornado a água sobre a sua cabeça, passado mais tempo na cadeira do castigo do que a brincar. OK, talvez não tenha sido assim todos os dias, mas certamente a maior parte deles. E nessa maior parte deles estava eu, cansada do trabalho, das noites sem dormir decentemente, com um bebé ainda a precisar tanto de mim, a tentar perceber o que raio estávamos nós a fazer mal e a pensar que ela tinha realmente um problema. Depois, como se tudo isto não chegasse, soubemos pelas educadoras que alguns pais, preocupados com os seus filhos, pensavam mudá-los de creche para estarem longe da Amália. Creio que não consigo descrever realmente como isso me fez sentir: posso, ainda assim, dizer que me senti uma nulidade como mãe. Que, mesmo amando profundamente a nossa filha, não conseguia encontrar desculpas ou motivos para o comportamento dela. Que fiz todos os esforços para compreendê-la melhor e amá-la ainda mais, porque era isso de que ela precisava. Que baixei a cabeça de cada vez que me cruzei com outros pais porque não sabia se eram eles os queixosos. Que os compreendo também e não posso ignorar como se deviam sentir magoados pelos seus filhos. No fim, foi o pai da Amália a deitar água na fervura como sempre faz e a fazer-me relativizar (sem nunca esquecer ou menosprezar a situação) toda esta angústia.

O ano escolar está quase a chegar ao fim e eu estou quase a respirar de profundo alívio. O mais velho avança, destemido, para a segunda classe. O mais pequeno liberta-se da sombra (mas também de uma certa protecção da irmã) e avança na creche. Ela começa a escola a sério, a escola em que os educadores não simpatizam muito com crianças muito activas, quanto mais com crianças teimosas, provocadoras e irascíveis. A educadora dela será a mesma que recebeu o irmão, há cinco anos atrás e que me disse algumas vezes que era muito duro lidar com ele. Agora, só tenho de me rir interiormente: ela não sabe o que a espera!

julho 04, 2018

Cucu!

Ainda aqui estou. Parece mentira, passaram três meses desde a minha última publicação e pensei neste blog muitas vezes. Nunca estive tanto tempo sem escrever mas também nunca consegui decidir-me a acabar com este espaço que existe já há 14 (!!!) anos.

São três as razões que me afastaram do blogue. A primeira, e a mais óbvia também, são os meus filhos. Nós bem tentamos acreditar nessa de que quem trata de dois, também trata de três mas a verdade é que cada vez que adicionamos mais um filho à conta adicionamos também o tempo que passamos a tratar dele. São três banhos e três jantares, são horas de deitar diferentes entre eles, são uns menos birrentos e outros mais birrentos que não querem dormir/lavar os dentes/jantar no geral/vestir o pijama/mudar a fralda. Depois de deitados, ainda há os que cantam para acordar os que já dormem, os que batem com os pés na cama dos outros também para os acordar, o que não encontram posição, os que ainda querem mais um copo de água, os que dormem às mijinhas. Praticamente todo o tempo que tenho desde que chego a casa até que me posso sentar no sofá é dedicado a eles. E por isso muitas vezes nem vou ao sofá, passo directamente à cama...

A segunda razão para o meu afastamento chama-se trabalho. Veio disfarçado de promoção no mês de Março e deixou-me muito feliz porque foi o reconhecimento de algum esforço sem que eu precisasse de ter pedido alguma coisa. Não posso dizer que tenha exactamente sido surpresa, talvez apenas a posição em si ou uma ou outra condição mas senti que era o culminar de muito trabalho. Às vezes penso naquelas pessoas que trabalham mais de dez, quinze, vinte anos numa empresa e pergunto-me se alguma vez eu ia aguentar tal coisa. E de repente lembro-me que já trabalho aqui há seis anos, tantos quanto tenho de Luxemburgo também e que não penso mudar. Sinto que finalmente estou no meio de uma família, uma empresa que tem crescido a um ritmo alucinante mas em que as pessoas ainda se conhecem e sinto-me agradecida por todas as oportunidades que já me foram dadas aqui. Então, esta promoção trouxe esse reconhecimento mas também trouxe muito, muito trabalho. Sozinha durante quatro meses e agora finalmente acompanhada pela colega que voltou de licença de maternidade, vi-me a braços com todas as tarefas e todos os novos pedidos e a responsabilidade de montar um departamento do zero. Aqueles bocadinhos que tinha livres durante o dia e em que podia escrever aqui meia dúzia de palavras desapareceram: passei a ter apenas olhos para os meus ficheiros de Excel, a sentar-me nesta e naquela reunião, a pensar e repensar coisas novas.

Finalmente, os outros hobbies. Depois de passar todo o dia no computador, não tenho vontade de fazer o mesmo nos meus tempos livres e normalmente acabo o dia tão cansada que ligar o computador é coisa que nem me passa pela cabeça. Com a consciência de que não consigo chegar a tudo, comecei a preferir ler umas páginas antes de dormir. Ou fazer umas malhas em silêncio na sala. Ou ver algum episódio das séries que seguimos religiosamente. Ou a ouvir um dos podcasts que tanto me têm trazido. O ideal seria poder ditar o post e ele materializar-se aqui nem necessidade de escrever nem editar e por isso não se prevêem muitos posts para os próximos tempos.

E há ainda outra razão, que já confessei aqui noutras ocasiões: sinto que a minha opinião sobre coisas não interessa a ninguém. Não quero julgar decisões de outros pais, não quero falar de publicidade, muitas vezes esforço-me por me afastar da realidade feia e dolorosa lá fora e concentro-me no nosso pequeno e barulhento núcleo familiar. É tão fácil, hoje em dia toda a gente tem uma opinião sobre tudo, há especialistas em baixo de cada pedra, há quem tenha todas as soluções, há quem descreva com detalhe toda a sua vida. Eu aceito e até celebro a liberdade de expressão mas não quero fazer parte. E, como acho que a nossa vida não tem particularmente interesse, remeto-me muitas vezes ao silêncio. Partilho apenas fotos (onde entram os miúdos também, claro) com alguma frequência porque quero cristalizar esses momentos mas sem grandes histórias por trás ou sem extensas explicações. 

Continuo a ler o que escrevem os outros, continuo a seguir famílias que conheço apenas virtualmente quando sinto que são partilhas genuínas, não encenadas. E tenho muitas, muitas saudades de escrever mas de certa maneira não sei sobre o que hei-de escrever. Não quero ser mais uma, não quero pertencer a nenhuma corrente, não quero criar uma realidade alternativa - apenas quero viver confortável na nossa realidade, ouvindo/lendo/vendo sobre outras famílias/pessoas que tentam fazer o mesmo, lendo livros em papel e em digital, procurando ouvir música nova aqui e ali, fazendo o jantar todos os dias ao som da Radar, não me deixando assustar pela quantidade de séries que há para ver, tentando ser positiva e não acreditando em tudo o que vejo/leio/ouço. E, talvez com um bocadinho de sorte, recuperando a musa e a vontade de escrever - noutro registo, quem sabe mas não perdendo a coisa que mais gosto de fazer na vida.

abril 09, 2018

FEM (Fiz Eu Mesma)


Não fiz nenhuma resolução de Ano Novo mas se tivesse feito seria simplesmente esta: aprender a fazer alguma coisa com as minhas próprias mãos. E, mesmo não tendo pensado nisso enquanto começava mais um ano, isso acabou por acontecer e eu comecei a aprender a tricotar.

Já tinha tido muita vontade no ano passado e até mesmo antes do Augusto nascer. Tinha comprado um kit (lãs, agulhas, instruções) para lhe tricotar um pequeno cobertor. Ia ser O cobertor do novo bebé, amarelo porque não sabíamos ainda o sexo e ele havia de se apegar ao dito cobertor e não poderia dormir sem ele. Mas entretanto aconteceu a vida e, mais do que isso, aconteceu que ele quis nascer um mês antes do tempo e eu não tive tempo de pegar nas agulhas. No Verão, ainda comprei mais material e esperava poder aprender com a minha avó mas não houve tempo para nos sentarmos com calma e para que ela me passasse esse conhecimento milenar. Voltei ao Luxemburgo desiludida comigo por não conseguir aprender sozinha e por deixar que o tempo leve sempre a melhor sobre todas as coisas que quero fazer. 

Mas no princípio deste ano descobri esta associação (de que já falei aqui) e deu-se finalmente o click. Encontrei-me com a Miriam, uma americana que tem pouco de avozinha mas que tricota muito e bem, no café da Ouni (a primeira mercearia orgânica e sem embalagens do Luxemburgo). Começámos a sessão em Francês mas depressa mudámos para o Inglês em que ambas estávamos mais confortáveis. Partilhámos um pouco das nossas vidas (eu, três filhos e o caos que se conhecer; ela, sem filhos para poder viajar e fazer todas as asneiras do mundo) enquanto ela me ensinava o ponto mais simples do tricot (o point mousse ou garter stitch, em português não sei como se chama). Explicou-me o básico com muita calma, mesmo quando eu insistia em repetir o mesmo erro uma e outra vez, mostrou-me outros pontos, garantiu-me que mais mês menos mês estaria eu a tricotar sem ver, assegurou-me que o que era preciso era calma. 

E foi mesmo assim. Fiz muitas provas, fui tricotando amostras depois de jantar, quando o cansaço não era tanto. Depois aventurei-me na primeira peça a sério: um cachecol para o Vicente. Saiu horrivelmente mal (comecei com quinze malhas, acabou com vinte e três!) mas a minha primeira peça completa existia e o meu filho podia sair à rua com ela! Depois vieram os cachecóis para a Amália, Augusto, Mário e esta semana acabei o meu, o último da saga dos cachecóis. Pude treinar o mesmo ponto, aprender com alguns erros. Percebi que ainda preciso de olhar muito para as mãos enquanto estou a tricotar para não me esquecer de malhas ou fazer malhas a mais mas de cada vez que acabei uma peça enchi-me também de orgulho. 

Nos entretantos, fui aprendendo coisas sobre a lã (a espessura, os banhos, o peso, a matéria prima), sobre as agulhas (circulares, direitas, gigantes para as camisolas, minúsculas para as meias), sobre os erros mais comuns,  sobre os diferentes usos para os diferentes pontos. Depois de compreender alguns conceitos base, abriu-se-me o mundo do tricot sem que esperasse. É que há muitos termos que não se usam em mais lado nenhum e isso fazia com que eu sentisse que nunca iria perceber nada daquilo. Não percebo tudo, não percebo muito mas já percebo qualquer coisa!

Por enquanto não sou perfeitinha e todas as peças que fiz denunciam ter saído das mãos de uma principiante. Mas o entusiasmo cresceu e muito. Eu finalmente percebi que não se pode tricotar bem à primeira, só com um par de meses de experiência. As pessoas que vejo tricotar bem fazem-no há anos e provavelmente com mais tempo para se dedicar a isso. Eu só tenho podido tricotar ao serão, quando as três pessoas pequeninas cá de casa já se deitaram ou às vezes ao fim de semana à tarde, quando estamos todos juntos a ver um filme. Conto expandir esta actividade para outros momentos do dia (sempre que esperar num consultório ou outro serviço, em viagens mais longas em que não tenha de conduzir, durante as férias) e aprender muito devagarinho antes de cruzar os braços e achar que não tenho jeito nenhum. Nas minhas buscas por tutoriais e ajuda, encontrei muita gente nova que tricota maravilhosamente, contrariando aquela ideia de que tricotar é coisa de velhas! Há tantos, tantos bons recursos online, há projectos colaborativos em que todos tricotam a mesma peça ao mesmo tempo, há bons livros também de gente que começou na internet, há sítios onde as pessoas se encontram para comer e tricotar ou simplesmente para conversar e tricotar! É mesmo incrível!

Tricotar veio ainda lembrar-me que muitas vezes não é possível aprender coisas de uma hora para a outra e que também existem actividades em que, mais do que o talento, o que conta é o empenho e, acima de tudo, a persistência. Oxalá consiga também lembrar-me que o mesmo também se aplica na vida...

março 21, 2018

Seis anos de Luxemburgo!


(esta ilustração é da Julia Bres, que tem este Instragam divertidíssimo sobre viver no Luxemburgo)

Há seis anos atrás saí de um avião e fazia muito frio. Tinha acabado de aterrar com um bebé de um ano e meio naquele que iria tornar-se o nosso país de estimação. Há seis anos atrás começou a nossa vida no Luxemburgo, este bebé tem quase oito anos e um irmão e uma irmã a fazerem-lhe companhia.

Quantos anos pensava ficar, quando aterrei? Não faço ideia mas acho que secretamente tinha a esperança de que fossem menos de cinco, talvez só um enquanto as coisas não se ajeitassem. Eis que passaram seis anos e não estou a ver o fim desta vida luxemburguesa, embora pense sempre muito no que seria voltar a ter a nossa vida portuguesa. Se tivesse de escolher uma razão para que esta nova vida valesse a pena, seria apenas uma - os nossos filhos. Se não tivessemos emigrado, provavelmente teríamos só um Vicente para contar a história, que a vida lá não dava para mais. E depois nunca ia conhecer a rainha das birras e das doçuras, nem o príncipe da tranquilidade que estava cheio de pressa em chegar.

Estes seis anos foram, obviamente, os mais intensos da minha vida: muito chorei, muitas saudades me apertaram a garganta mas, principalmente, muito aprendi e isso não tem mesmo preço. Voltei a falar Francês e a dar uns toques no Alemão; descobri uma empresa em que sempre me senti em casa, mesmo quando as coisas não davam para isso; fiz coisas para as quais nunca estudei e outras a que já estava habituada; conheci gente de todo o mundo, confirmei e desfiz estereótipos, desiludi-me e surpreendi-me muitas vezes; não fiz muitos amigos, é verdade, mas sinto que a minha integração ainda está a acontecer e esforço-me por fazer parte desta sociedade.

O dia da nossa chegada aqui desfez-se um pouco na minha memória. Lembro-me da viagem com os meus pais para o aeroporto e do tristes que estávamos todos, com dificuldades em falar. Lembro-me de tentar suster o Vicente sossegado e adormecê-lo no avião enquanto ele se debatia como um louco. Lembro-me de sair do aeroporto e o dia estar cinzento e de soltar umas lágrimas no caminho para casa. Depois disso tanto, tanto aconteceu! Mudei de emprego, mudámos de casa, pari dois filhos em hospitais diferentes e sempre sozinha, fui muito feliz, chorei muito com a vontade de regressar a Portugal, fizemos muitos planos que concretizámos e ainda mais que continuamos a adiar. Ninguém me vai devolver estes anos que passo fora do meu país, longe da minha família e dos nossos amigos. Ninguém me ajuda a recuperar os nascimentos que perdi, as festas a que não pude ir, as mortes que não pude chorar. Mas é assim mesmo a vida e eu estou grata por termos tido esta oportunidade, mesmo que nos custe pensar no que deixámos para trás.

Nem de propósito, a minha chegada ao Luxemburgo coincidiu com a chegada da Primavera, com tudo de bonito que essa analogia pode trazer. E hoje está mesmo um dia de Primavera à Luxemburgo: gelado mas com um sol radiante, para me lembrar que não, não podemos ter tudo ao mesmo tempo. Resta agasalharmo-nos bem e fazer o melhor deste dia tão luminoso. É como na vida, também.

março 15, 2018

É uma casa cheia!


Talvez a coisa que mais ouvi desde que temos três filhos seja a frase "É mesmo uma casa cheia!". Parece que a opinião geral de ter uma casa cheia é sempre muito positiva mas eu acho que é porque estas pessoas não têm que intervir a cada cinco segundos, ou para evitar que uma irmã estrafegue o mais pequeno, ou para evitar que o mais velho roube as coisas à irmã do meio, ou para evitar que a irmã do meio dê conta dos outros dois. É divertido, é, mas é extenuante na mesma medida e há uns cinco anos que a única coisa que me apetece fazer depois de jantar e metê-los na cama é - justamente - enfiar-me na cama também.

Cada família é diferente, eu sei, mas eu tendo sempre a comparar-nos com as famílias com crianças sossegadinhas, que não armam birras por absolutamente TUDO, que respondem com calma e atenção às nossas tentativas de argumentar e chamá-los à razão. É mais forte do que eu, mesmo que eu o combata todos os dias. É inevitável pensar muitas vezes "Mas o que é que eu estou a fazer mal?". Penso-o várias vezes ao dia, quando estou com os miúdos e não consigo dois minutos de sossego. Mas na verdade eu sei qual é a maior causa dos nossos problemas: com o Vicente, ele era só um. Tinha-nos aos dois concentrados nele a cem por cento, havia tempo para actividades e trabalhos manuais e mesmo assim ele fazia aquela birra ocasional. Fast forward para os dias de hoje: os filhos ultrapassam-nos numericamente, não há atenção que chegue para pessoas de sete, três e um ano, há uma rapariga que tem o feitio mais exasperante que já vi na minha vida, há um bebé que está literalmente a aprender a fazer tudo, há um irmão mais velho que, de vez em quando, se ressente e quase pede para voltar a ser bebé. Colo há sempre para os três, cabeça para parentalidade positiva é que está mais escassa.

Com três filhos, há que repensar o espaço que necessitamos para eles. Não só para dormir ou brincar mas também para guardar todos os desenhos, cartões, colagens, recortes, fotografias e demais trabalhos manuais que vão fazendo ao longo dos anos. Com um filho, ainda se arranjava um espacinho para expor as suas obras de arte. Com dois, a coisa ficou realmente mais difícil. Quando o terceiro começar a artes manuais, o melhor mesmo é mudarmos de casa para alguma que dê para manter um pequeno museu!

Mas há mesmo coisas muito boas quando se tem três filhos. Quando eles se controlam e chegam mesmo a brincar os três - o que aconteceu para aí uma vez, para ser honesta - é delicioso de se ver. Quando encontram uma brincadeira divertida e se riem a bandeiras despregadas, é maravilhoso de se ouvir. Quando se preocupam uns com os outros, quando parece que não sabem viver sem os irmãos, o coração acelera. Quando tomam banho juntos (e não estão ocupados a esvaziar a banheira), é incrível ver o nosso ADN a chapinhar todo junto num sítio tão apertadinho. Quando estão todos a dormir (podia brincar e dizer que é a melhor parte do dia...) e eu ouço as suas respirações tranquilas, sinto-me com toda a sorte do mundo. De vez em quando, no meio das queixinhas, dos gritos, das rasteiras e empurrões, das birras inexplicáveis, dos sonos a que às vezes todos parecem querer resistir, sinto que estamos a fazer um bom trabalho. Vejo-os a rir, saudáveis, a formar a sua personalidade, a progredir na sua educação, a desenvolver a empatia e a sua relação com os outros e, durante alguns minutos, tudo parece estar no seu lugar. Até que um grito noutra divisão me desperta do sonho e vou a correr separar mais uma disputa pela coisa mais banal e desinteressante que temos em casa. Casa cheia sim, monotonia é que nunca mais!