Abril 14, 2014

Introversão

Contrariamente à opinião mais comum, eu sou uma pessoa introvertida. Mesmo que não encaixe na definição científica da coisa, é assim que eu me sinto e isso dita por completo a maneira como me relaciono com as pessoas. Não quer dizer que uns bons anos de amizade e muita confiança não me façam sair da carapaça mas isso demora muito tempo e normalmente as pessoas não têm tempo a perder. Adorava trabalhar sozinha, sem precisar de ir ao escritório, sem ter que conviver muito e, especialmente, não depender de pessoas para fazer o meu trabalho.
 
Tendo dito isto, os meus novos (bem, já não tão novos mas enfim, desde Dezembro) colegas têm-me mostrado como é bom poder trabalharmos lado a lado e fazer do dia de trabalho também um momento de lazer. O ponto chave nesta nossa relação é bastante simples: não dependemos dos outros para atingir aquilo a que nos propomos, o que alivia a relação profissional que venhamos a estabelecer. Podia, em todo o caso, existir um clima de competitividade dada a natureza da profissão mas se existe ainda me passa ao lado e continuará a passar - eu não estou a querer ultrapassar ninguém, apenas garantir que a minha parte fica (bem) feita. Os meus colegas ajudaram a lembrar-me que não devo dar tanto valor às primeiras impressões e oferecer a toda a gente segundas oportunidades. Lembro-me de dois casos em particular: o colega número um, muito antes de trabalharmos na mesma equipa, deu-me um cartão de visita com um endereço na internet. Curiosa, cheguei a casa e fui ver de que se tratava: era uma espécie de seita religiosa! Assim que percebi, e de certa forma involuntariamente, formei na minha cabeça a ideia de que ele seria um fanático qualquer que tinha cometido o erro de misturar religião com trabalho. Já o colega número dois me tinha impressionado pela negativa, já que, ao contrário de todos os outros, não vinha cumprimentar o nosso departamento todas as manhãs. Com o tempo e um bocado de tolerância, acabei por perceber que o colega número um não mistura religião com trabalho, embora tenha as suas opiniões quase medievais sobre temas polémicos e é afável e divertido, ao contrário do estereótipo do alemão carrancudo. O colega número dois revelou-se uma pessoa extremamente dócil e prestável, que prefere concentrar-se no trabalho que tem pela frente em vez de perder tempo com situações que o deixam desconfortável.
 
Gosto muito de estar com estes colegas e é mesmo verdade que me divertem e ajudam a passar o tempo de uma maneira menos séria: às vezes é mesmo necessário. Só que acho que não gosto de estar com eles o suficiente para desejar que venha o novo dia de trabalho e continuo a achar que em casa é que estaria bem. Esta minha tendência preocupa-me um bocado: primeiro, porque honestamente não sei se sempre fui assim e segundo, caso não tenha sido sempre assim, não entendo o que me fez mudar de ideias. No fundo, acho que na minha cabeça se foram formando intuitivamente escalas sobre o que é realmente importante para mim e isso mexeu com a ordem das coisas. Ter tempo para fazer o que gosto, poder gerir os meus horários e poder alternar igualmente entre vida privada e profissional são coisas que de repente ganharam uma importância tremenda e que não são compatíveis com a vida de escritório das 8 às 5.
 
E depois há esta coisa da introversão. Cheguei finalmente a um ponto em já não me importo tanto com a opinião que os outros têm de mim. Claro que os amigos contam e a família conta mas de resto? Não me interessa minimamente e isto libertou-me daquela necessidade de procurar a aprovação dos outros a cada instante. E por isso posso ser apenas introvertida sem me chatear muito com isso. Também ajuda que aqui não se fale muito da vida privada no trabalho. Lembro-me que em Portugal isso se debatia constantemente, especialmente nos momentos de pausa, o que acabava por criar mais laços entre as pessoas. Temos então que encontrei o tempo e a profissão ideal para dar largas à minha natureza de bicho do mato. Só me falta entender como posso fazer isto jogar a meu favor sem parecer demasiado anormal mas lá chegaremos!

Abril 11, 2014

Sobre técnicas de venda e meias de ligas

Quero começar este post com um disclaimer: não tenho qualquer formação na área comercial mas confio na minha capacidade de julgar e adaptar-me às situações, bem como no meu bom senso.
 
Numa das primeiras viagens que fiz, vi-me acompanhada por uma colega de outro escritório com um estilo um pouco peculiar. Eu estava habituada à pessoa que fui substituir, uma mulher bonita, profissional mas muito, muito discreta. No dia em que conheci a pessoa de que agora falo, apanhei um grande choque: independente de todas as suas outras características, esta mulher usava roupa que (eu considero) demasiado provocante e pouco profissional para quem tem que andar de direcção financeira em direcção financeira. Podem perguntar-me Epá oh Marisa, não estás a ser um bocadinho púdica demais? e eu digo já que não: sou defensora da máxima o que é bom é para se ver mas, voilá, na ocasião apropriada. E com classe, devo acrescentar.
 
Então íamos na rua, de visita em visita e homens e miúdos paravam a vê-la - decote bem pronunciado, meias de ligas bem visíveis debaixo da saia. Até aí tudo bem - a ocasião não o proibia, a rapariga tem bons argumentos. Mas depois vinham as ditas visitas e os clientes ficavam entre o visivelmente incomodados e o naturalmente agradados e eu a ver tudo como no cinema. Na altura, discuti com a pessoa que fui substituir se estas escolhar arrojadas seriam ou não propositadas: ela dizia-me que não, que a nossa colega nem pensava nisso, que não via nada de intencional. E eu fiquei a sentir-me mal porque parecia que estava a ser injusta com essa nova colega. Decidi dar-lhe outra oportunidade quando esta se apresentasse.
 
E bem, não me tinha enganado. A imagem numa das últimas viagens foi igualmente arrojada, demasiado in your face com os argumentos dela e eu, mais uma vez, a sentir-me a palhaça sem atrevimento por onde passávamos. Mas o auge da coisa foi quando ela me disse, textualmente, que se soubesse que íamos visitar uma directora, não teria usado o decote que tinha nesse dia - a coisa era, como esperava, intencional.
 
Independentemente dos resultados que ela pensa conseguir, eu vejo-me de repente metida nesse enorme cliché, que é o da mulher que aproveita os seus argumentos físicos para desviar a atenção dos homens. Eu pensava, a sério, que isto era uma coisa dos anos 80, dos 90, vá, mas vai-se a ver e ainda faz sentido nalgumas cabeças. Atenção que eu não pretendo que as mulheres trabalhem tapadas dos pés à cabeça mas continuo a achar que um pouco de decoro e sentido de oportunidade não ficam mal a ninguém. E mais: às tantas já não sei se sou eu que estou a ser machista ou se é ela que está a contribuir para perpetuar essa visão do mundo. A única maneira que tenho de avaliar isto é pondo-me no lugar de cliente e imaginar qual seria a minha reacção mas como sou mulher o mais natural é que me acusem de inveja. Até podia ser, se pensar apenas nos seus pontos fortes (definitivamente da cabeça para baixo). Mas não consigo desligar esta avaliação do seu lado profissional e da imagem que dá do trabalho que também eu faço. E bom, nesse aspecto acho que a clássica calça preta continua a bater em pontos de profissionalismo o decote e a meia de liga. É uma luta desleal mas não é preciso vencedores - apenas agir de acordo com a consciência.

Março 31, 2014

Um desabafo profissional

Se há coisa que me irrita (como a toda a gente, eu já sei) é a injustiça. Fico piursa quando acontece com os outros e completamente furiosa quando a vítima sou eu. Há outras coisas que me tiram fora do sério, como por exemplo a recompensa da mediocridade. Agora se juntarmos estas duas coisas a acontecer simultaneamente, então fico completamente insuportável.
Quando se recompensa a mediocridade, a preguiça, a falta de ética e de brio profissional está-se a passar uma mensagem muito clara a toda a gente envolvida: não é necessário, nem sequer esperado, que as pessoas sejam os melhores profissionais que conseguem ser. Não é necessário nenhum envolvimento, nenhuma preocupação, não interessa se se acredita no que se faz nem se se presta o melhor serviço possível. Estar enconstado no nosso posto o dia inteiro, sem nenhum orgulho naquilo que se faz, sem qualquer interesse em melhorar, em crescer profissionalmente vai dar no final direito ao mesmo que aquela pessoa que dá o litro.
É claro que isto tem consequências para quem se empenha de verdade e, em última análise para a empresa: quem se importa vai começando a procurar alternativas, um sítio onde a meritocracia não seja um sistema utópico, onde o desempenho seja realmente valorizado; consequentemente, a empresa vai ficando com os medíocres, vai perdendo capital humano que sai levando consigo conhecimento inestimável e deixando para trás um lugar absolutamente frustrante. Se isto interessa às empresas? Inicialmente talvez não, no mercado o que não faltam são pessoas a lutar por um posto de trabalho. Mas nos tempos que vivemos, com tanta concorrência e tanta inovação, o grau de satisfação dos trabalhadores com o que a sua empresa lhes oferece e a sua percepção sobre a justiça nesta atribuição pode bem ser o sinal de que mudanças são necessárias.
Posto isto, é ainda necessário contemplar a flexibilidade e capacidade de adaptação dos critérios, os enganos e os esquecimentos nas suas vertentes intencionais e involuntárias. Eu gosto da ideia de que uma empresa é como um organismo vivo, uma entidade dinâmica sujeita a falhas e a momentos de excepção – porque é feita de pessoas. Mas parece-me que muitas vezes este organismo tende a auto-anular-se ao não praticar uma selecção menos natural. Vejo muitas vezes não os mais fortes mas os mais ineptos (com menos compromisso, pior desempenho, menor interesse) a sobreviverem. E quando é assim, dá vontade de fugir. É que manter gente qualificada, interessante e empenhada dá imensamente mais trabalho do que simplesmente deixar os medíocres andar. Estes normalmente não precisam de nenhuma manutenção e muito raramente têm exigências sérias.
Se calhar esta empresa perfeita não existe. É o mais certo, aliás. Mas isso não implica que eu não a possa sonhar muitas vezes: um ambiente de excelência, onde todos são convidados a contribuir e participar, onde se premeiam os resultados e o empenho de cada um e onde não há espaço para a mediocridade nem para tricas de corredor. Pelo menos, não intencional e o que se vai vendo por aí é tudo menos animador.

Março 27, 2014

O estado das coisas: a saudinha

Aqui, como em tantos outros sítios pelo que leio por aí, o Inverno decidiu regressar assim que a chegada da Primavera se tornou oficial. Temos tido algum céu azul, é preciso dizé-lo, mas as temperaturas voltaram a estar abaixo de zero quando era suposto deixarmos os casacos em casa. Talvez por excesso de confiança na matéria do agasalho, talvez por estas mudanças um pouco drásticas na temperatura (no escritório da sede, em Zurique, fez sempre demasiado calor em contraste com as temperaturas exteriores), consegui arranjar uma faringite e um princípio de bronquite. O miúdo continua fino, sem sinais de contágio, o marido nem por isso e talvez seja o próximo. Ordem do médico? Ficar por casa, até para evitar contagiar os colegas. Quando temos um filho doente, o nosso coração parte-se um bocadinho ao vê-los tão desprotegidos mas quando estamos nós doentes, especialmente a tantos quilómetros do que nos é familiar, também se nos aperta um pouco o coração com a sensação de que não quem tome conta de nós. Sei cuidar de mim e não estou incapacitada mas não ficava chateada se me viessem trazer uma canjinha à cama, if you know what I mean.
 
O médico que me atendeu disse-me umas duas ou três vezes que não tinha nada contra os Portugueses, o que me fez pensar que se calhar até tem. Falou-me bastante dos Portugueses que chegam e não se integram e por momentos pensei que falava de mim, já que lhe pedi para explicar os meus sintomas em Inglês - é-me mais natural e podia explicar-me melhor. Também me pareceu impressionado quando lhe disse qual era a minha profissão, talvez porque esperasse que lhe respondesse que era femme de ménage ou algo do género. Em sua defesa, apesar de tudo, tenho a dizer que no essencial me tratou bem.
 
Depois foi o raio do farmacêutico. Começou a ler a prescrição e diz-me logo "Isto é tudo para si?", com um olhar de desconfiado. Eu respondi que sim senhora e ele diz-me qualquer coisa do género "Mas atenção, o Inverno já acabou!". Na minha cabeça, o que me apetecia dizer era "E ENTÃO, QUAL É O PROBLEMA? ONDE É QUE QUERES CHEGAR COM ISSO?" - limitei-me a abanar a cabeça e a sorrir. Enquanto me preparava os medicamentos, ia sugerindo delicadamente que o médico me tinha receitado uma dose cavalar, que se não caísse para o lado com um, de certeza que o conseguiria com o medicamento a seguir e por aí fora. Tudo isto enquanto acabava de mastigar os restos do almoço que ainda tinha na boca. Maravilha. Lembrem-me de nunca mais ir àquela farmácia.
 
Estar doente e ter, consequentemente, de lidar com profissionais de saúde é uma das coisas mais dificéis de viver aqui. Explicar sintomas numa língua que não é a nossa pode ser complicado ou, pelo menos, vexatório. Normalmente tento em Francês, o que implica que tenho que fazer o trabalho de casa e estudar as expressões mais importantes, procurá-las no dicionário para estar confiante quando tiver que falar e isto torna estas ocasiões em momentos um bocado intimidantes. Este país está bem preparado para acolher o número gigantesco de imigrantes que aqui vivem, legais ou não, mas é nestes momentos que sinto que não é a mesma coisa chegar a um secretariado médico a falar Luxemburguês ou um Francês deficiente, como é o meu. Há serviços que nos deixam procurar médicos que falem uma língua específica mas a experiência que tenho é que, no fundo, eles esperam sempre que possamos ser proficientes nas línguas oficiais do país. Com toda a legitimidade, penso eu mas com o que isso significa para quem não domina nenhuma delas. Até me custa a imaginar as pessoas que vêm sem saber mais que a língua mãe e se calhar até evitam estes contactos até que não possam mais.

Portanto, o plano é manter-me saudável pelo máximo de tempo possível para não ter de procurar online se prise (de sangue) é uma palavra feminina ou masculina. Raios partam a emigração para países onde não se fala Inglês, Espanhol ou Português!

Março 19, 2014

O trigésimo quarto dia do Pai

O meu pai viu nascer a primeira filha há trinta e quatro anos. Desde aí, muito lhe aturou, perdoou, ensinou e, espero eu, esqueceu.

Por termos feitios tão iguais, chocámos muito no passado. Eu queria muitas coisas, ele queria proteger-me de outras e acabávamos sempre às turras, com a minha mãe a deitar água na fervura. Mas tenho que dizer que lhe era difícil resistir ao choradinho que eu fazia sempre que queria muito ir sair, por exemplo - sempre fui uma menina do papá.

Agora sou adulta o suficiente para admirar o belo trabalho que fez (junto com a minha mãe) com duas miúdas, acho mesmo que é preciso ser mãe ou pai para reconhecer certas coisas que nos parecem despropositadas quando somos mais novos. E muitas vezes tenho pena de ter exigido tantas coisas dele (s) porque agora sei verdadeiramente o valor do trabalho e do dinheiro que daí vem. Ainda fico espantada por todas as calças Levi's que tive ou pelos cinco contos (se a memória não me falha) que me deu para levar para a Zambujeira do Mar pela primeira vez e que eu achava que era uma miséria. O que vale é que os pais têm tendência a desvalorizar esta nossa estupidez natural, também chamada de adolescência. Também posso agora apreciar como nunca me castrou, nunca me prendeu, protegendo-me sempre na medida ideal e deixando-me ser quem eu queria ser, mesmo se às vezes isso não tenha dado o melhor resultado. Cuidou sempre do meu bem estar sem me sufocar mas também sem me ignorar e, vejo agora, esse equilíbrio não é propriamente fácil de atingir.

O meu pai sacrificou-se bastante para dar o melhor à sua família, trabalhou longas horas, Natais e outros feriados incluídos. Lembro-me dele sair a meio da consoada para que outras pessoas não ficassem isoladas do Mundo, enquanto a nossa alheira de cação ficava fria. Ainda hoje me trata de tudo o que não consigo ou posso gerir: papelada, bancos, finanças - é tudo com ele e ele nunca se aborrece com isso. E já o disse noutras vezes mas na minha cabeça, entre tantos outros actos de amor, está acima de tudo a abnegação com que me perdoou a maior mentira e asneira da minha vida e como me ajudou a voltar a ficar de pé. Só posso imaginar a dor que lhe (s) causei e foi apenas com o seu empurrão que voltei ao caminho certo.

O meu pai tornou-se também num grande avô, como sempre imaginei que ele fosse. Tem uma paciência infinita, ama o meu filho incondicionalmente e trata dele como se fossemos nós. Só é pena que a vida nos tenha empurrado para longe ou poderia levá-lo mais vezes ao parque e ajudá-lo a tomar banho e fazer-lhe as vontades que só os avós sabem fazer. Feliz dia do Pai, é o que lhe desejo. E espero, como todos os filhos, que ainda possamos festejá-lo muitos e muitos anos juntos. Mesmo que a gente brigue e discorde e discuta, no fim entendemo-nos sempre e o meu pai é o melhor pai.

Março 17, 2014

(ir e vir)

Já fui e já vim. Foi tão rápido mas pela primeira vez sinto que consegui aproveitar os dias da melhor maneira. Vi céu azul em quantidades generosas, o casario de Lisboa de vários ângulos possíveis, a margem Sul debaixo de uma névoa fininha, o meu jardim, a nossa casa. Mas o que trouxe mesmo de bom foi saber que as pessoas, mesmo longe, continuam a gostar de nós.

Ir embora tem muitas desvantagens, já as debati tantas vezes, já as pensei outras tantas e mais virão por aí - não posso contê-las. Mas trouxe-me a surpresa que é ver, uma e outra vez, que as pessoas ainda perdem um pouco do seu tempo a ver-me, a escutar-me, ainda me convidam, combinam, esperam, mesmo quando as visitas são de fugida (sempre...). Sinto-me intensamente viva sempre que regresso: afinal vou a casa, afinal repito os mesmos caminhos e rotinas, inspiro Lisboa tão fundo quanto posso, perco-me a imaginar o que seria se ali tivesse continuado. Não continuei e por isso vivo todos os regressos com uma antecipação nervosa, uma excitação que posso disfarçar mas não evitar, absolutamente certa do bem que estar lá me vai fazer.

Mas partir também tem essa parte mais triste: essa ideia de que, como estamos longe, vamos passar a ser dispensáveis, secundários, intermitentes e ausentes. Tenho sorte, temos sorte porque a gente continua a querer-nos bem. Nós saímos e vivemos concentrados na nossa vida para não nos magoarmos mais, espreitando quem ficou sempre com a alegria de ver quem a gente gosta, com o entusiasmo de ir sabendo as coisas mesmo sem nos beijarmos e abraçarmos, sem nos tornarmos mesmo reais. Porque aqui, longe, somos apenas a ideia de quem fomos no nosso país. Estamos distantes, deixamos de existir um bocadinho porque fomos nós que saímos, fomos nós que escolhemos partir. E então voltar é bom porque sentimos que nos perdoaram essa falta, a maior falta que é não estar.

Não posso realmente explicar como foi bom regressar, comer peixe grelhado numa ruela da Baixa, esperar em vão pelo eléctrico, explicar à minha vizinha porque raio agora vamos aparecendo por ali, conhecer pessoas que fazem felizes outras pessoas a quem queremos bem, conversar à frente de uma cerveja e de um rolo de salsicha, sentar-me mesmo à beira do Tejo e ficar até achar que se calhar estava a começar uma insolação, receber abraços, ver barrigas crescidas e outras que querem crescer, escutar a minha gente. São as pequenas coisas que contam, é esta imensa sensação de paz quando os dias são cheios e acabam em beleza e damos voltas intermináveis à procura de um lugar de estacionamento à porta de casa. É que dá para viver longe, dá para a gente se adaptar e aceitar uma nova vida, dá até para se começar a flirtar com outro país - só não dá para fingir que estamos completos sem tudo o resto. Sem vocês.

Março 11, 2014

Buergbrennen

(e agora para provar que a minha cabeça não são apenas desastres aéreos...)



No Domingo, além do dia maravilhoso de que pudemos disfrutar, tivemos direito a um final de tarde bastante diferente também. Ficámos um bocado surpreendidos por só sabermos disto este ano (afinal já é o terceiro início de Primavera a que assistimos no Luxemburgo) mas acho que demora um pouco até estarmos mais atentos ao que se passa à nossa volta e, no final, termos vontade de participar.
 
Ficámos surpreendidos por encontrar em vários pontos do país cruzes enormes feitas de palha, madeira ou outros materiais inflamáveis. Depois vimos uma fotografia que mostrava uma destas cruzes perto da nossa casa e decidimos investigar. Num caminho rural, ladeado por pastos e vacarias onde os animais se repousavam tranquilamente, dezenas de pessoas caminhavam em direcção à cruz sem iluminação a não ser a magníficia luz do final do dia. A comuna tinha montado duas barracas para servir os comes e bebes (sim, mesmo aqui não se faz nada sem se poder comprar a bela da salsicha no pão e uma cervejinha fresquinha), onde inclusivamente tinham montado um ecran gigante para quem não quisesse estar lá fora a ver.
 
Escolhemos um sítio suficientemente perto para que os três pudessem ver. Olhando o horizonte à nossa volta, mais fogueiras se iam acendendo na noite já escura. A anteceder o ritual propriamente dito, um espectáculo de fogo de artifício bastante impressionante, quase melhor do que o que vimos no final do ano. E depois o lançar de fogo ao monstro gigante, como lhe chamou o Vicente (que no início tremia literalmente de medo mas depois aceitou e até gritou com entusiasmo). A ideia é queimar o que resta do Inverno, afugentar o espírito que nos torna os dias tão gelados e cinzentos e sombrios e chamar a Primavera. Este site descreve-o muito bem como "o triunfo do calor sobre o frio, da luz sobre as trevas". É uma celebração com origens pagãs e que se calhar faz mais sentido aqui por terras mais a Norte porque os Invernos costumam ser longos e escuros (mesmo que este ano tenhamos tido um dos melhores dos últimos tempos, com apenas UM dia de neve).
 
Achei o momento muito especial. A temperatura da noite parecia mais de Primavera do que outra coisa, a falta de luz artificial contribuiu para que fosse um momento místico. Havia banda sonora com temas grandiosos (alguns demasiado contemporâneos, é verdade) e a simbologia daquilo tudo tocou-me: mais do que o regresso do Sol e do calor, o início de um novo ciclo, o regresso da luz, o fim da atmosfera depressiva que é ter um céu cinzento sempre sobre nós. Desde então, mais dois dias de Sol que, embora não possamo aproveitar porque trabalhamos, fazem incrivelmente bem à alma!

Março 10, 2014

(não quero mais voar)

Há uns dois dias que me é difícil pensar noutra coisa. Desde que o avião desapareceu algures entre a Malásia e a China que volta e meia dou comigo a pensar nisso.
 
Já li mais de mil posts num desses forums especializados em aviação comercial e onde, entre pura especulação, cenários cinematográficos ou discussões sobre probabilidades, já aprendi mais sobre este tipo de aviões, este tipo de acidentes e os métodos de detecção e busca que se usam em casos destes do que poderia imaginar.
 
Para mim, é difícil assistir a tudo isto exactamente a dois dias de embarcar no meu próximo voo. Em que, ainda para complicar mais as coisas, tenho a companhia do meu filho. Não é que esteja aterrorizada ou realmente nervosa mas a verdade é que não consigo deixar de pensar no que terá levado a este desaparecimento tão misterioso que tantas hipóteses já levantou até agora. Quando mais viajo de avião e quanto mais leio sobre desastres aéreos mais me ocorre que não vale a pena tentar antecipar nada e há sim que aceitar que um dia podemos ser nós a estar no lugar errado à hora errada.
 
É verdade que a maior percentagem destes acidentes acontece em aviões de companhias aéreas (ditas) menores ou com menos projecção mediática mas basta pensar no caso do avião da Air France que se despenhou em 2009 no voo que ligava o Rio de Janeiro a Paris e a conversa muda um pouco de figura. Também se pode alegar que há um tipo de aeronaves mais propício a acidentes (se é que isto se pode dizer assim) mas o avião que desapareceu há três dias era um Boeing 777, que aparentemente tem a fama de ser um avião incrivelmente seguro entre os fãs da aviação, muito à custa de um reduzido número de acidentes registados. Até agora.
 
Como se não me bastasse o meu próprio terror (que é contido, sublinho), ainda me ocupo a imaginar o que sentiram os passageiros, embora seja quase impossível saber, pelo menos antes de conhecermos as razões do desaparecimento. Parece que quase ninguém espera que estejam vivos ou que o avião tenha aterrado numa qualquer pista improvisada. Sabe-se que não existiu nenhum pedido de ajuda da parte da tripulação, que o avião aparentemente iniciou uma manobra não prevista na sua rota quando já estava em altitude de cruzeiro mas resta saber o essencial: como pode um avião desta envergadura desaparecer num mar alegadamente pouco profundo sem deixar qualquer rasto? Já sonhei inúmeras vezes com o fim do mundo e outras tantas com a minha própria morte e sem dúvida que um desastre aéreo é das coisas mais assustadoras de que me consigo lembrar. A sensação de impotência que um passageiro deve sentir, fechado numa cápsula sem poder libertar-se e provavelmente com tempo suficiente para perceber o que lhe está a acontecer... Não sou pessoa de rezar mas se o fizesse estaria agora a rezar pelos passageiros, tripulação e famílias. Que todos possam encontrar paz de espírito o mais rápido possível, mesmo que isso signifique que se confirmam as piores expectativas.
 
E eu... Bem, eu vou fazer figas para que a sorte não nos abandone também. Morra a necessidade que temos de nos deslocarmos de avião, pim!

Março 03, 2014

Os meus pais (se por acaso restarem dúvidas)

Os meus pais são a razão de eu estar onde estou. Não emigrada, entenda-se, mas consciente do difícil que é trabalhar, lutar, procurar sempre uma vida melhor. É o seu exemplo que tenho na minha cabeça quando me avalio profissionalmente e é apenas deles o orgulho que me importa receber por todos os passos que dei.
 
Estou-lhes grata, para sempre. Não só por todos os sacrifícios que fizeram por mim (e pela minha irmã mas desculpem lá, este texto é meu), mas também por, em tempos melhores ou piores, terem acreditado em mim, nos meus desejos, nas minhas capacidades de adaptação. Não fui uma filha fácil, eu sei. Mas em minha defesa também não fui do pior que se via na altura em que cresci. Fiz muitas asneiras, tive demasiada vontade de crescer à pressa e eles mesmo assim me compreenderam e travaram a tenpo. Muitas vezes quis levar a minha avante: uma vezes consegui, outras nem por isso - foram tempos de muitas lágrimas, resultado da chorona que sou e sempre fui.
 
Reconheço que muitas vezes não lhes soube demonstrar o quanto aprecio a sua ajuda, o seu afecto, a sua compreensão e a culpa é inteiramente minha. Fechei-me sobre mim numa altura muito difícil da minha vida, isolei-me com a ideia de que ninguém me iria compreender, nem mesmo eles e fazer o caminho inverso, abrir-me e deixar que eles me ajudassem foi sinónimo de muita dor. Mas sinto que com o tempo fui melhorando e os incluí na maior parte das minhas decisões, buscando sempre a sua opinião, experiência e ponto de vista. É deles a aprovação que me faz falta. Estou longe, em todos os casos, de ser perfeita nisso.
 
Estar longe dos meus pais é difícil porque sei exactamente do que os estou a privar e porque já não se trata apenas de mim mas também do meu filho. É verdade que já vivia longe deles há mais de dez anos antes de vir mas dois mil quilómetros estão longe dos duzentos que nos separavam até então. A única maneira de estar longe e manter simultaneamente a minha sanidade mental é relativizar as coisas e não pensar demasiado nisso. É uma forma de protecção: o que seria de mim se pensasse todos os dias na vida que deixei para trás, nas pessoas que me fazem falta, na distância que existe agora entre nós? Talvez seja uma manobra inconsciente de racionalização da dor, a mesma que me diz que sim senhora, a distância é horrível mas é pelo melhor. Eu quero sempre acreditar que sim.
 
Tenho muitos exemplos na minha cabeça dos momentos em que foram tudo para mim, em que esqueceram as minhas imbecilidades, em que gostaram de mim acima de tudo. E também sei que não fiz ainda o suficiente para lhes agradecer estes momentos e que cada hora que passo longe diminui as possibilidades que tenho de fazer isso acontecer. Mas o que não posso deixar passar é a oportunidade de lhes dizer que eu sou a sua criação e não me parece que se tenham saído muito mal. Eu amo-os, mesmo com todas as discussões que tivemos, com todas as vezes (e não foram poucas) em que não estivemos de acordo, com todas as minhas dificuldades de expressão. Talvez se isto ficar escrito se possa tornar numa declaração mais verdadeira, talvez assim já não se possa apagar. Muitas vezes sinto que nunca lhes poderei agradecer convenientemente o que fizeram por mim e o que continuam a fazer, todos os dias, mesmo tão longe de nós. E por me saber tão imperfeita, faço a única promessa com que me posso comprometer: de tentar ser sempre melhor e nisto cabe, obviamente, ser melhor filha. Lá em casa costuma haver muito drama mas a mesma dose de gargalhadas e boa disposição. Que o prato da balança possa pender sempre mais para este lado, é tudo o que desejo.

Fevereiro 28, 2014

Prazo de validade

Neste fim de semana que passou morreu um colega aqui do escritório. Teve um ataque cardíaco e, aos quarenta e dois anos, não resistiu. Quarenta e poucos anos e nem sequer teve a hipótese de apanhar um susto. Há duas noites, outro colega acabou no hospital com duas artérias entupidas e a precisar de um cateterismo. Ao primeiro não lhe conhecia hábitos alimentares, de exercício ou de sono mas estou certa que o segundo não trata assim tão mal de si, não fumando, fazendo exercício e comendo sempre comida caseira, com uma dieta rica em peixe e carnes brancas. Na verdade, nada foi suficiente para evitar uma morte e um grande susto.
 
Muitas vezes ouvimos histórias de pessoas que não cuidam de si, que vivem lado a lado com os excessos, o que muitas vezes se confunde com apreciar o melhor que a vida nos pode dar. Outras tantas vezes chegam-nos aos ouvidos relatos da injustiça que é ver partir pessoas que cuidavam de si, que se preocupavam com a sua saúde e bem estar, que pensavam estar assim a proteger-se e prolongar a vida. É claro que existem factores como a hereditariedade, que muitas vezes se desconhecem e na maioria dos casos não são visíveis. Só que, bottom line, no final não importa.
 
Sempre que eu entro num avião, encho-me de nervos por pensar que me estou a colocar em perigo voluntariamente. Que podia estar melhor com os pés bem assentes no chão, que preferiria andar de carro, mesmo sabendo que as estatísticas dizem que os aviões são bastante mais seguros. E o único pensamento nesse momento, para além da ideia de morrer, claro , é só um: o meu filho ficava sem mãe se me acontecesse alguma coisa. Mas agora penso em tudo o resto, toda a gordura que me pode estar a entupir as veias, todo o exercício que podia estar a fazer, todo o stress que já não consegui evitar e sinto-me desconsolada por me lembrar do óbvio: não a podemos controlar. Ela chegará quando tiver de ser, da maneira que esperámos ou apanhando todo o mundo desprevenido, sem qualquer consideração pelos que cá ficam. E eis que eu, chegada quase aos trinta e cinco anos, me vejo ainda na posição de me ver confrontada com a minha mortalidade e achar que a) afinal ainda sou imortal e b) não quero mesmo morrer.
 
Custa-me pensar na morte, especialmente na minha morte ou na do miúdo. Muitas vezes imagino que vamos ser assim para sempre: eu vou ter sempre trinta e tal, ele vai sempre ter três e fazer birras. Só que um dia ele vai ser maior do que eu e vai apresentar -me namoradas. E eu perderei mobilidade e serei ainda mais chata e terei o cabelo completamente branco, embora já não falte muito. Pensava que era mais fácil envelhecer mas não é. Ver o corpo a mudar, perder paciência para umas coisas, ganhar para outras, perder agilidade, ganhar dores em articulações que não conhecíamos antes, resmungar muito mais. Eu pensava que ia passar por isso na boa, só que não é bem assim porque olhar para os nossos filhos é ver a nossa própria finitude e isso é cruel.
 
Por isso, esta manhã ia saindo de casa com um aperto no coração. Pela primeira vez desde que se despede intencionalmente, o meu filho não queria despedir-se de mim. Simplesmente ficou a olhar para mim enquanto eu lhe perguntava várias vezes se não me queria dar um beijinho. E só quando eu já estava quase a trancar a porta correu para ela a chorar, muito arrependido por me ter ignorado. Eu não quero sair de casa todos os dias a pensar se fiz tudo o que queria fazer e se me tinha despedido convenientemente. Mas penso muitas vezes nisso, especialmente nos dias em que saio de casa ainda no escuro, sem ter sequer escutado ou visto o miúdo a dormir. Enfim, tudo isto é resultado do ambiente que se vive no escritório nos últimos dias, é um facto. Já perdi tempo e tempo a pensar no que seria do meu filho se eu não existisse porque mesmo que tenha um grande pai, não pode por isso dispensar a sua mãezinha. E por isso gosto de o beijar e ser beijada, dar aquele abracinho logo de manhã. O meu plano é apenas não deixar nada por fazer.

Fevereiro 27, 2014

A senhora que me passa a ferro

Escrevo enquanto a dona Rosa me passa a ferro lá em casa. Nunca antes tinha tido aquilo que convencionámos chamar empregada mas também não me parece que a dona Rosa o seja. Lembro-me dos meus amigos falarem das empregadas que iam lá a casa (especialmente a da minha amiga J., que ia escondendo restos de comida debaixo do sofá) mas em minha casa quem limpava era a minha mãe. E eu e a minha irmã, inevitavelmente. Aliás, ainda hoje, tantos anos depois de sair de casa, ainda se espera que eu cumpra parte das tarefas domésticas em casa dos meus pais. Acho que para mim uma empregada sempre foi sinónimo de um luxo que não podíamos pagar mas, ao mesmo tempo, um símbolo do orgulho que era sermos nós mesmas a tratar da nossa casa.
 
A dona Rosa não é a minha empregada, pelo menos eu não a vejo assim. É uma senhora a quem eu pago, evidentemente, para que me passe a roupa a ferro e me livre do castigo que é passar a tarde de Sábado e parte de Domingo de ferro na mão. Como a nossa casa não é grande, dou bem conta de tudo o resto mas passar a ferro é que me causa uma espécie de urticária. Acresce que com as últimas mudanças e com as viagens quase todas as semanas, fico sem muito tempo para tratar do importante e vejo-me muitas vezes obrigada a escolher fazer apenas o essencial - acontece que passar a roupa não cabe nessa categoria, pelo menos na minha cabeça. Então contratei a dona Rosa, que é certamente mais velha que a minha mãe, que sobe as escadas devagar mas sempre bem disposta e que encontrei (através da sua filha) num site inglês para expatriados no Luxemburgo. Foi a única pessoa que me respondeu ao anúncio que coloquei, não precisei procurar mais. Na minha ideia, ela trataria também doutras tarefas mas quando falámos pela primeira vez, acho que tive pena de a maçar com as minhas limpezas, senti uma espécie de vergonha e acordámos que seria só a roupa.
 
Só que a dona Rosa não é só a senhora que me passa a ferro: também é a materialização da pessoa que escolheu exactamente o que quer fazer da vida. Emigrou bastante tarde, chegou ao Luxemburgo há onze anos e tinha estudado alguma coisa em Portugal. Veio, como eu, atrás do marido e deixando uma vida para trás. Chegada aqui, e com o marido já a trabalhar, interrogou-se sobre o que gostaria de fazer no tempo que lhe restava trabalhar e decidiu ser femme de ménage. Não foi por obrigação, foi porque lhe apeteceu e porque podia facilmente ocupar o tempo, ainda por cima fazendo coisas para as quais não necessita de nenhuma qualificação oficial. E enquanto as suas colegas, com menor escolaridade, se queixam do destino que lhes coube, ela transpira optimismo e a calma de quem faz aquilo que realmente queria.
 
Porque é que eu falo da dona Rosa? Porque eu também queria deixar de lado esta ideia de que é preciso é ganhar mais dinheiro e fazer antes coisas que me dão prazer, trabalhar menos e ganhar menos mas desacelerar e ser um bocado mais feliz. Para tomar uma decisão destas, é preciso ter um plano B na cabeça mas, acima de tudo, aceitar uma mudança radical na maneira como entendo o trabalho. É como se a única maneira de se trabalhar fosse a subir, a ganhar mais responsabilidade e respeito, a perder um pouco de humanidade e amigos. Fui eu que me impus essa maneira de ver, mesmo não tenho nenhum plano para ser uma mulher de carreira. Nunca fui ambiciosa a esse ponto, da mesma maneira que nunca quis ser só mãe. Só que vejo agora que vivo muito preocupada com o dinheiro - é claro, somos três pessoas em casa que precisam de sobreviver - mas que talvez pudesse aligeirar as coisas e trabalhar menos, poder levar o miúdo à escola, afastar-me de um bocado da roda viva que é fazer dinheiro ajudando os outros a... fazer dinheiro. Não sou nenhuma puritana nem anti-capitalista, não sou radical. Mas também não convivo muito bem com a necessidade de fazer mais e mais dinheiro, sem qualquer utilidade nem contribuição para o bem comum.
 
Estou lixada, eu sei. Não vou ser certamente outra dona Rosa e nem sequer consigo conceber a ideia de deixar de trabalhar num regime dito normal. Mas tenho pensado muito nisto (resultado de alguns acontecimentos recentes e de muita conversa com gente de quem gosto e que me quer bem) e parece-me que mais cedo ou mais tarde uma mudança assim será inevitável. De certa maneira, tenho um bocado de inveja do tempo dos nossos pais, em que um emprego era para a vida. Posso estar errada mas acho que as pessoas se questionavam menos e aceitavam que era assim que se vivia. Hoje, o mercado de trabalho é volátil, muito instável e as possibilidades infinitas - mesmo em tempo de crise, é-nos permitido sonhar. Só me falta descortinar que raio de sonho é o meu.

Fevereiro 19, 2014

Entre a Lapa e Campo de Ourique



Dormir sozinha na nossa casa de Lisboa é estranho e extremamente evocativo de memórias não tão longínquas assim.

Esta casa cheira exactamente como no dia em que aqui entrei pela primeira vez, orgulhosa da minha maturidade mas extremamente intimidada pelo grande acontecimento do dia: ter passado um cheque de cento e vinte mil euros pela primeira (e julgo que última) vez da minha vida. Lembro-me que antes disso, e apenas durante o tempo estritamente necessário, ainda pude ver esse mesmo montante na minha conta bancária. Lembro-me que fiz un screenshot para nunca mais me esqueci mas acabei por me esquecer onde guardei o screenshot. Dos cento e vinte mil euros ainda restam memórias.

Vivi muito tempo sozinha, outro período com a minha irmã, depois com o namorado que se transformaria (à pressa) em marido e ainda com um filho até ele completar um ano e meio. Muita gente passou pela minha vida desde o dia um de Novembro de 2006, em que pisei pela primeira vez um imóvel meu. E estar aqui sozinha agora, longe de tudo e de todos, faz desfilar na minha cabeça a quantidade incrível de momentos que vivi neste primeiro andar inicialmente contruído em 1876. É o que diz sobre a porta da rua, pelo menos.

Os ruídos continuam os mesmos: os aviões quase a rasar a basílica da Estrela, os cães miniatura que a nossa vizinha de baixo sempre gostou de ter, a televisão que os vizinhos do lado insistem em ouvir em altos berros, o som dos meus passos no corredor e nas divisões vazias – o silêncio que, a espaços, me faz esquecer que esta é uma casa de Lisboa. Lembro-me dos momentos de terror que vivi aqui sozinha quando percebi que andavam ratos ou ratazanas sobre o tecto falso e ligava aos meus pais, imóvel com o medo, esperando que um bicho me aterrasse no colo a qualquer momento. Lembro-me da desgraça que ia acontecendo quando tentavam fazer entrar o frigorífico pela janela da frente, da dificuldade que foi fazer entrar o sofá pelas escadas impossíveis, da noite em que fiz o primeiro teste de gravidez e em que parece que tudo mudou.

É difícil explicar e ainda mais difícil compreender, imagino, mas mesmo estando feliz no Luxemburgo e não olhando muito para trás, esta é que é a minha casa, a nossa casa. É o sítio para onde podemos fugir se a vida nos correr mal, é o sítio onde vi o nosso filho andar pela primeira vez, foi palco de planos, desamores e desilusões, foi o sítio em que estar sozinha era uma benção, foi a minha primeira grande conquista adulta. Não preciso de mais razões para explicar porque não nos desfizemos dela ou porque me custa tanto pensar nela alugada. É a minha casa, é a nossa casa. Hoje vou dormir na minha casa e, por muito que me custe pensar que é temporário, a verdade é que é também muito bom.

Fevereiro 18, 2014

(e para contrariar o positivismo do post anterior...)

Isto já me passa, eu bem sei. Dorme-se sobre o assunto, dão-se umas voltas na cama, desperta-se para um dia menos cinzento e isto esquece-se mas hoje não.

Hoje sinto que não tenho o que preciso para este emprego. Hoje sinto que a coisa que mais desejo, profissionalmente falando, é não ter de falar com ninguém, estar num escritório sozinha com os meus botões, a fazer uma tarefa qualquer monótona e nada creativa. Não quero ser diplomática nem tolerante nem quero inventar desculpas nem justificações para quem não faz a sua parte, mesmo sabendo que disso dependem os outros. Não quero explicar nada nem tolerar a indisposição justificada, não quero mentir nem esperar pelos outros.

Em dias como estes, lembro-me como às vezes sonhava com um monte que estava à venda no caminho entre o Vimieiro e Pavia, tinha piscina e tudo e nem se via da estrada. Havia de me dedicar às tarefas da casa, plantava um bocado de vinha e uns hectares de cereais, criava galinhas, patos e coelhos e tinha um canteiro gigante de ervas aromáticas que nunca haviam de murchar. Nos tempos mortos, sentava-me debaixo do alpendre ou contemplava as searas a perder de vista deitada numa rede de pano. Escrevia sempre que o calor me desse uma trégua e recebia pessoas em casa apenas para pagar as despesas. Não sonhava com marido nem com filhos porque pensava que ia ficar sozinha para sempre. E sozinha para sempre não era nada mau, especialmente se compararmos com as pessoas com quem nos cruzamos todos os dias, especialmente aquelas que parece que estão no nosso caminho só para dificultar.

Eu estou tão farta de pessoas que o melhor que me acontecia agora era poder trabalhar exclusivamente a partir de casa, desenvolver assim a minha rede de contactos, tirar partido das novas tecnologias. Manter o contacto humano no mínimo possível e sendo especialmente clara nas minhas intenções, necessidades e pedidos. Ou então dava-me uma coisa e deixava este mundo para trás e dedicava-me a qualquer coisa onde o critério de recrutamento fosse deve falar o menos possível ou então não pode gostar de trabalhar com outros ou mesmo encorajamos o trabalho eremita e totalmente independente. Há gente muito boa por aí. Eu sei, eu já vi, eu já trabalhei com ela. Mas o Sartre é que tinha razão quando dizia que o inferno são os outros. Com os meus próprios defeitos e limitações dou-me eu muito bem. E sei que os tenhos (defeitos e limitações) mas há duas coisas de que não me podem acusar: de não tentar sempre fazer o melhor que posso e de ter uma ética profissional desbardalhada. 

E era isto. Até sair do escritório não penso que o azedume me vá passar, vou ser uma e outra vez confrontada com o mundo em que escolhi desenvolver a minha actividade profissional. De livre e espontânea vontade, diga-se, mas sempre na esperança de encontrar almas com as mesmas inquietações. Chego à conclusão de que não há muitas: ou desistiram de tentar ou cederam a sua postura a troco de alguma compensação imediata. Raios partam ter de ganhar dinheiro para viver.

Fevereiro 12, 2014

Desamparem-me a loja, se faz favor.

Eu adorava poder escrever muito sobre as pessoas que me rodeiam todos os días mas, pelas razões óbvias, não posso. Mas deixo já aqui uma nota para referência futura: encontrei preguiçosos, competentes, desenrascados, aldrabões em todos os sítios onde já trabalhei. É interessante ver que não são atributos exclusivos de um ramo de negócios, de um certo tipo de posições ou de um país (apesar de me parecer cada vez mais que algumas ideias feitas têm a sua razão de ser).
 
Mas eu queria mesmo falar sobre uma divisão da qual me apercebo mais e mais nos dias que correm – a divisão entre as pessoas que agarram a vida com vontade, com consciência e com a intenção de tirar dela o melhor que podem e as outras, as que simplesmente se deixam ficar, olhando sem reacção para o que lhes passa à frente. Eu sempre gostei de me incluir na primeira categoria, passe a imodéstia. Vivo a minha vida de maneira intensa e tento conseguir de todas as coisas pelo menos uma espécie de educação pela via empírica, experimentar e empenhar-me, retirar das minudências diárias o prazer e ensinamentos possíveis. Às vezes tenho muita dificuldade em ver acima da linha de água, às vezes tenho dias extremamente negros e em que não consigo vislumbrar nenhum optimismo no horizonte, às vezes perco um bocadinho a esperança e deixo-me vencer pelas miudezas da vida, há que dizê-lo. Mas quando finalmente ultrapasso esse período de maior escuridão dedico-me a aproveitar as coisas outra vez.
Muitas vezes me vi rodeada de pessoas que se fixam nestes momentos menos bons e ficam por ali, a remoer e remoer até a amargura se começar a espalhar pelos outros. Não sei quando mas eu decidi não levar muitas coisas a sério. Coisas pessoais? Sim senhora, são exactamente elas que me dão prazer ou que me podem tirar o sono. Chatices profissionais? Epá, não. Mesmo que no fundo morra de medo de ficar desempregada pelo impacto financeiro que isso teria na nossa família, isso não me faz levar estas coisas muito a peito. Que não se confundam as coisas: eu faço o que tenho a fazer e tento sempre fazê-lo o melhor que posso e sei. Mas isso não implica que me aborreça mais do que o estritamente necessário: tento esquecer o máximo possível os problemas profissionais quando fecho a porta, acima de tudo aqueles que não posso resolver. Uma vez pensei “Eu já tive um filho, o que mais me pode assustar?” e acho mesmo que quem passou por isso perde um bocado o medo de arriscar, do desconhecido.
Estas pessoas de que falo têm o poder de contaminar as que estão à sua volta e de sugar toda a energia que conseguem. Consomem-se com frustrações em vez de procurarem uma coisa que as faça mais felizes. Batem pé pelos seus direitos mas esquecem-se que é necessário dar alguma coisa em troca. Estou lentamente a desenvolver uma capacidade que desconhecia até há pouco: ouvir, conversar mesmo com estes guardiões de amargura, encolher os ombros, concordar muito e sem argumentar mas como um receptáculo sem fundo – os seus esforços perdem-se em mim. Continuo a ter os meus problemas, as minhas insatisfações, as coisas que me preocupam porque não sou imune. Esforço-me é por olhar para o outro lado das coisas, por aproveitar as oportunidades, faço por estar no sítio certo à hora certa. E não, sobre isso não me posso mesmo queixar.