fevereiro 26, 2015

Amália

O teu avô V. tinha razão quando disse que havias de chegar com a mudança de lua. Sem que nada o pudesse prever, ontem decidiste que era hora de nos vires conhecer para meu alívio e nossa alegria!

Eu sabia que os segundos eram mais rápidos mas não contava com isto: contracções a começarem lentas perto da uma da manhã, a deixarem-me de rastos perto das quatro, a bolsa de águas que pude sentir rebentar. Fomos os três (tu ainda na minha barriga) ensonados e cansados para o hospital. O teu pai tinha instruções para não falar comigo, o teu irmão foi percebendo pelo caminho. Foram os dez minutos mais longos da minha vida, já perdida na dimensão infinita da dor que não podemos controlar, só esperar que passe. No hospital, o silêncio e a penumbra, nenhuma sala de parto ocupada sem ser a nossa. As parteiras ajudaram-me como podiam a libertar-me da roupa e a fazer as primeiras medições. Dilatação mais que suficiente quando entrei às 4:50 da madrugada. Ao teu pai e o teu irmão foi pedido que voltassem para casa: seria um parto curto mas não se sabia exactamente quão curto. Eles despediram-se e voltaram.

Uma das parteiras informa-me que sem análises de sangue recentes não podia passar já à epidural e que teria de esperar pela toma de sangue que acabara de me fazer. Provavelmente não ia ter tempo, disse ela. Não pode ser, rugi eu como um animal acossado, um rugido que subiu do mais primitivo de mim, ao mesmo tempo que lhe tentava explicar em Francês que não, eu não ia conseguir sem anestesia. De súbito, a vontade de fazer força, a qual foi incentivada por ela com todo o entusiasmo, ciente de que não teria tempo para mais nada. Um, dois, três puxões e nasces tu, Amália, frágil e de pulmão aberto, talvez assustada com a velocidade das coisas. Eu sem acreditar que tinha conseguido, a parteira a assegurar-me que sim e a dizer-me Olhe-a aqui, olhe-a aqui, mãe corajosa! Afinal, tu estavas mesmo lá.

Revejo tudo o resto, todas as horas que nos trouxeram até aqui debaixo de um véu incrível de tranquilidade e muito silêncio. Como um bebé normal, alternas os sonos curtos com a fome e com a falta que te faz o útero aconchegado e quente da mãe. És tão mais pequena que o teu irmão, que não arredou pé de ti quando te veio conhecer. Chorou quando te ouviu chorar pela primeira vez, por pura empatia e algum desespero inocente de quem ouve o bebé chorar pela primeira vez. Ele adora-te e eu não podia ficar mais contente com essa reacção, que - quero acreditar- ajudámos a preparar. O teu pai adora-te também, ainda mais por vires refazer o nosso equilíbrio e por ter alguém que o vai seguir com paixão.

E nós? Bem, a nossa história já vai longa. Eu fui o teu colo desde o dia um e continuarei a sê-lo até que possa. Aliviada pela gravidez ter finalmente chegado ao fim, resta-me apenas decorar todos os teus pormenores e maravilhar-me uma vez mais com a lotaria que é criar um ser humano que é (aparentemente e até agora) perfeitinho. Aceito-te como o nosso segundo milagre, agradecendo à Natureza a tua chegada espontânea, natural e livre de ansiedade. Que as aventuras a quatro comecem de seguida!


fevereiro 12, 2015

Pronto, já chega. A sério, podes sair.

Eu cá, apesar de ainda não ter chegado às 37 semanas de gravidez, já não estou a achar graça nenhuma a isto. Primeiro, foram seis semanas de náuseas intensas e incapacitantes que me deixaram estendida no sofá sem vontade de fazer coisas, tratar de mim e dos miúdos, viver. Depois seguiu-se um, dois meses de tréguas, aquele pico de energia e brilho que vem com o segundo trimestre, em que tudo nos parece possível e insuportavelmente belo. E depois outra vez um golpe: síndrome sacro-ilíaco all the way até ao dia de hoje, a fazer-me sentir que, mais cedo ou mais tarde, as minhas pernas se separariam definitivamente das ancas, a fazer-me chorar de dor apenas de me levantar da cama. Depois o peso que não ajuda nada, a miúda que me faz perder o ar por dá cá aquela palha, as mudanças a descer de um terceiro andar para subir a um primeiro carregando a tralha que se acumula em três anos de vida, o sono que já não colabora - em suma, o cansaço já substituiu a maravilha de me sentir grávida.

Por isso, não desejando nenhuma desgraça nem que a miúda venha incompleta, eu digo que por mim ela podia sair já. Tipo, daqui a três ou quatro horas. E de preferência bem depressa, que seguir instruções durante o parto numa língua estrangeira não deve ser pêra doce. Vamos lá, miúda! O teu irmão canta-te músicas que inventa na hora e que só fazem sentido na cabeça dele; o teu pai arrepia-se com os teus movimentos na barriga; os teus avós querem chegar a tempo de te conhecer. E eu? Bem, eu sinto-te minha cúmplice, minha companheira de aventuras, tens-te aguentado tão bem com tanto esforço que fiz, com os voos em que quase tinha um ataque de pânico mas estou cansada, Amália. Por isso, quando quiseres aparecer, quando achares que podes trocar esse quentinho pelo quentinho dos braços que te esperam cá fora, força nisso. Ai não, espera, quem faz força sou eu. Mas vá, vem daí conhecer-nos. Naturalmente ou com ajuda mas não demores.

fevereiro 11, 2015

A meio gás

Uma das coisas mais difíceis mas mais apaixonantes de mudar de casa é criar novas rotinas. Já passou uma semana desde que estamos definitivamente instalados (mesmo que o nível de caos, desarrumação e lixo tenham atingido quantidades record) mas as coisas ainda estão a demorar a acontecer. Ainda é difícil saber onde está aquele prato ou onde guardei o esparguete, ainda estamos a tentar decidir se os móveis ficam melhores encostados à direita ou à esquerda, ainda lutamos pelos nossos rituais de volta. As divisões da casa já se vão parecendo mais conosco e menos com o apartamento vazio e frio que visitámos pela primeira vez no final de Outubro.

Uma das melhores coisas desta mudança é a localização. Embora não tenhamos mudado de bairro (essa era uma condição essencial para nós), deslocámo-nos mais para o seu interior, o que nos garante mais períodos de silêncio e estacionamento sempre disponível (ainda estamos para utilizar a garagem). As janelas são gigantes (ainda estou para perceber se os cortinados ditos normais nos vão servir) e deixam entrar toda a luz que precisamos neste país cinzento. O nosso nome está já provisoriamente na porta e no correio e já recebemos corresponência aqui, o que significa que as coisas estão a andar. Mas ainda estamos a tentar perceber quem mais devemos avisar desta mudança (acabei de me lembrar de mais duas ou três alterações a fazer) e imagino que isto ainda vá durar uns tempos.

Depois, veio uma mudança dentro da mudança e tem também muitíssimo impacto: deixámos finalmente de ter televisão. Não o aparelho em si, que continua de boa saúde na nossa sala, mas não temos acesso a nenhum canal (português ou não) de televisão. Era uma coisa que já tínhamos discutido há algum tempo e que permite, além de poupar alguns trocos, usar o nosso tempo de maneira muito mais útil e consciente (ou assim esperamos). Antes, e por uma pura questão de hábito, ligávamos a televisão assim que chegávamos a casa e muitas vezes estávamos à sua frente, comando na mão, sem estarmos verdadeiramente interessados nela mas presos mesmo assim. O miúdo ainda se chateou porque gostava dos canais de desenhos animados mas agora conseguimos que ele brinque mais e também estar mais perto dele ao mesmo tempo, sem a porcaria da televisão a distrair. Confesso que sinto falta de ver programas de culinária o dia TODO mas também pouco tempo tenho tido para parar no sofá.

Quanto a vizinhos, ainda tudo tranquilo. Em baixo, uma família de cabo-verdeanos, cujo número exacto ainda não consegui determinar. O alvoroço às vezes é enorme, muitas entradas e saídas, alguma música africana em decibéis pouco recomendáveis, mas tudo dentro de horas aceitáveis. Num dos lados, um casal de idosos cem por cento luxemburgês, do outro um senhor luxemburguês casado com uma senhora congolesa. Nas nossas traseiras, um senhor que se passeia todas as manhãs pelo seu quarto de cuecas (trusses é mais a palavra certa) e nos faz rir. Jusqu'ici tout va bien.

fevereiro 03, 2015

Nick

Talvez seja isto que significa crescer: o luxo de ter tempo e poder pensar, o prazer de dar segundas e terceiras oportunidades, ordenar e invocar as memórias que fazem de nós o que somos agora, neste preciso instante. Às vezes, sinto que me enganei sobre alguém ou sobre qualquer coisa, muito provavelmente resultado de um juízo apressado já antigo, e esse momento em que aceito o meu erro é uma satisfação em si mesmo, é uma vitória de uma certa lucidez sobre o pensamento que escapa à velocidade da luz e se instala como verdade absoluta.

Fatos de corte impecável mas antigo, os cachuchos de ouro a passearem-se sobre as teclas de um piano mais ou menos desafinado. O homem esguio que se passeia entre as sombras, que se ri de si mesmo, que procura nunca perder a memória. Os cais de Brighton e a Opera de Sidney, a mulher-musa que convoca todos os símbolos sexuais que antes não passavam de ficção, um mundo para escapar a este mundo. A escrita em golfadas, os cadernos riscados, as páginas fotocopiadas em estúdio, o tempo controlado pelos estados de alma. Uma árvore de galhos gigantes no meio de uma tempestade, como o descrevem a certa altura. Uma inesperada e insuspeita fonte de inspiração.


fevereiro 02, 2015

Dizer adeus


Com muito alívio, depois de muito esforço escadas acima e abaixo, ontem deixámos finalmente aquela que foi a nossa primeira casa no Luxemburgo. Não foi uma despedida especialmente emocional (pelo menos para mim) porque a única coisa que queria era ocupar-me em exclusivo da casa que é agora nossa, sem ter que me dividir entre limpezas e arrumações nas duas.

Mesmo assim, ver a casa vazia levou-me de volta ao dia em que aqui cheguei, depois de um dia e meio de caminho com uma carrinha Mégane (que já ia dando as últimas sem sabermos) completamente carregada com o que decidimos ser o essencial para recomeçar. Foram dois mil quilómetros feitos com um bom amigo que se ofereceu para me acompanhar nesta aventura, sem saber muito bem o que me esperava mas certa de que, fosse o que fosse, íamos com vontade de pôr mãos à obra. Depois de um mês longe do meu amor, depois de um mês em que o miúdo, na altura com quase um ano e meio, pouco reagia à voz do pai tão longe, chegar ao nosso apartamento era bastante mais que um alívio: era a certeza que as coisas se estavam finalmente a recompor.

Lembro-me de pensar que as fotografias que tinha visto não lhe faziam justiça: era maior e mais aconchegador do que o anúncio fazia crer. Tinha aquele charme das janelas que deixavam olhar o céu, a varanda que nunca chegámos a usar muito, tudo o que precisávamos para começar de novo. E foi exactamente isso que fizemos. É tão difícil conseguir uma casa (decente, num sítio decente, com uma renda decente) no Luxemburgo! Há quem não goste de alugar a estrangeiros, há quem não queira crianças como inquilinos, há quem simplesmente peça um valor irreal por um espaço exíguo - as condições multiplicam-se e complicam-se, acima de tudo. Por isso, conseguir aquela casa (naquela sítio, por aquele preço) pareceu-me sempre um pouco um milagre ou, pelo menos, um belo golpe de sorte que guardámos durante três anos mas do qual tinha chegado a hora de nos despedirmos.

Repito que saímos com o alívio de quem encontrou finalmente um sítio ao qual chamar seu. Aprendemos, à força, que aquele mito da mudança fácil porque afinal nem temos muitas coisas é mesmo só isso - um mito - e não quero mudar-me nunca mais dos próximos vinte anos. Não nos mudámos para muito longe (na verdade, apenas algumas ruas de distância), por isso não sentiremos propriamente saudades dos três anos que passámos ali. O vizinho de baixo vai certamente festejar a nossa saída (uma criança a brincar normalmente às onze horas da manhã de um Domingo era coisa para o incomodar...), as nossas vizinhas velhinhas vão sentir saudades do Vicente e eu vou recordar com serenidade os nossos vizinhos cem por cento luxemburgueses. Que as novas inquilinas façam bom proveito! Nós cá vamos continuando a dar um pouco de ordem ao caos que é despejar uma vida de uma casa para a outra. Com a vantagem que desta é que é :)

janeiro 29, 2015

[quase]

Confesso que neste momento não sei em que estádio da exaustão me encontro. Dez dias desde que escrevi a última vez e ainda não acabámos a mudança! E se pensar que só já temos dois dias até ao final do mês, então só me apetece chorar muito.

O primeiro problema desta mudança é que não planeámos nada. Não organizámos caixas, não criámos etiquetas, não fizemos planos. Tivemos que nos dividir entre limpar e mobilar a casa nova (que longe ainda estamos do fim!) e desmobilar e limpar a casa antiga. Lembro-me quando viemos para o Luxemburgo e de como fomos organizados, tudo bem empacotado e sinalizado, a mala da nossa carrinha incrivelmente arrumada. E agora isto... enfim. Tivemos quatro braços amigos neste fim de semana que basicamente nos fizeram quase a mudança toda (tendo em conta que carregaram os maiores pesos) e sentimo-nos incrivelmente sortudos em termos este amigos para ajudar. Não é mesmo para todos!

O segundo problema desta mudança é a saúde dos dois adultos que se mudam: eu, grávida de oito meses, incapaz de carregar grandes pesos, sem fôlego com meia dúzia de degraus (raios partam este antigo terceiro andar, olá baixinho primeiro andar!), cheia de dores nos rins e nas costas e bacia - podre, portanto; o marido, às voltas com um problema crónico nas costas que nem a fisioterapia tem resolvido, sofrendo tanto como eu. Em resumo, duas almas a quem a idade faz questão de lembrar que as coisas já não são como antes.

O terceiro problema desta mudança é o tempo. Nunca tinha pensado nisso mas mudarmo-nos enquanto está a nevar é uma porcaria e o mesmo se passa com a chuva. Não basta já a enormidade de cartão e plásticos que temos espalhados pela casa, ainda há que acrescentar os pés que chegam encharcados da rua (à conta disto, já enfiei um par de botas no lixo), o sal que se espalha por toda a casa e o exercício de equilibrismo que é carregar com sacos, caixotes e móveis pelo gelo. Depois as casas estão geladas e é preciso aquecer primeiro antes de as mãos conseguirem fazer qualquer movimento que seja. Para a próxima, ou contratamos alguém (que se lixe o dinheiro e vivam as nossas costas!) ou só nos aventuramos no Verão.

Ontem foi a primeira vez que dormimos na nossa casa, mesmo no meio do caos, dos móveis por montar, do cheiro a Ikea. Todos dormimos bem, sem estranhar os novos quartos, as novas camas, os diferentes ruídos. E hoje acordámos e tomámos o pequeno-almoço enquanto olhávamos para o jardim cheio de neve. Nem tudo é mau e eu vejo todos os dias a nossa casa a tomar forma debaixo das minhas mãos, que procuram os sítios certos para as nossas coisas, que carregam cartão e mais cartão para a garagem, que esfregam todas as superficies que se deixam esfregar. Estão a ser as duas semanas mais cansativas da minha vida mas prometi a mim mesma que quando isto acabar não vou sair do sofá até à gaiata nascer. A ver se consigo que não venha antes do tempo...

janeiro 19, 2015

Déménager


A minha primeira reacção foi muito simples: nem pensar! Mudar de casa e principalmente comprar uma casa pareciam-me duas ideias absurdas e assustadoras, francamente. A primeira coisa que me ocorreu foi Vou ficar aqui presa para sempre. e confesso que acho que devo ter chorado só de pensar nisso. Era um compromisso demasiado sério e obrigava-nos a considerar continuar aqui sem data de regresso.

Mas depois vieram os outros argumentos. Primeiro, uma filha. Acho que não há argumento mais forte do que a família que está a crescer, obrigando-nos a rever o espaço que temos e a decidir se podemos continuar assim ou se precisamos de mais. Depois, o mercado imobiliário do Luxemburgo, que é um caso sério e que nos fez encontrar um duplex a um preço razoável exactamente onde queríamos viver e que podemos vender com alguma margem de lucro, se necessário for. Depois também apareceu o senhorio, regressado do Brasil, sem saber o que ia fazer no futuro e sem grande vontade de nos arranjar mais arrumação aqui em casa (mas impecável em todas as melhorias que lhe fomos propondo durante estes quases três anos). E finalmente a ideia de ter uma casa grande, com uma garagem, uma cave e,essa é que é essa!, um pequeno jardim!

Vi este apartamento num site imobiliário mas não acho que andasse verdadeiramente à procura. Mas o que é certo é que as imagens não me saíam da cabeça e nem sequer conhecia a sua composição total. Dia após dia, via-me a cozinhar naquela cozinha cheia de luz e imaginava um quarto sem a tralha que hoje temos aqui e, estranhamente, sentia-me em casa. Não consigo realmente explicar a sensação de ver apenas imagens e sentir que era o apartamento perfeito para nós. Resolvemos marcar uma visita. Numa tarde escura, visitámos o apartamento e tive vontade de dizer que ficávamos com ele naquele momento. Não vimos mais nenhum nem procurámos mais: sabíamos que tínhamos encontrado uma pérola e decidimos avançar.

Bancos, agências imobiliárias; fotocópias, projectos de compra; muitas contas feitas, muitos cenários experimentados, todos os dias a pensar no raio do apartamento. Tudo entregue e as noites sem dormir a pensar que o banco não nos aceitava o empréstimo. Numa semana, o banco aceitou! Respirei de alívio e tratámos de garantir que mais ninguém estava na luta pela casa. Mais noites em claro à espera da escritura que nunca mais era marcada e os dias a pensar no raio do apartamento. Até à semana passada, em que passámos a ser donos do único apartamento que vimos mas que era e é tudo o que nós podíamos desejar. Tem um pedaço de relva e um cerejeira e podemos fazer barbecue no (inexistente) Verão e o miúdo pode correr lá um bocado e eu posso sentar-me lá com a miúda quando o tempo melhorar, a ler e a ela a apanhar ar! Tem espaço para arrumar tudo o que acumulámos e muito mais! Tem espaço para receber visitas e para poder ter louça bonita e para ter até um escritório! 

Podia ficar horas nisto mas tenho as costas partidas de uma mudança que vai ser longa e lenta, ou não estivesse eu grávida de trinta e três semanas. Entre limpar aqui e ali e ir mudando a tralha aos soluços, têm sido dias difíceis. As costas não aguentam mas eu não desisto e vou fazendo devagarinho. Neste momento, tenho o caos dos dois lados mas esta semana (com ajuda de bons amigos) espero que possamos pôr um bocadinho de ordem nisto. E daqui a duas semanas talvez eu possa já descansar na casa mais bonita e sossegada, ao mesmo tempo que a miúda descansa aqui no seu T0 cada vez mais apertado. Desejem-nos sorte e saúde para podermos trabalhar, que é o que é preciso!

janeiro 13, 2015

Desacelerar


É hoje o primeiro dia. A licença começa hoje e, se tudo correr bem, vai durar até ao início do próximo ano. Nas últimas semanas, já me arrastava para o trabalho, especialmente porque durante a época festiva o trabalho não era muito e o cansaço já começava a custar. Era desaconselhado viajar mas mesmo assim, sempre que subia ao primeiro andar, já os meus pés se arrastavam e toda a gente sentia que o meu ritmo não era o mesmo. Há quem pense que agora comecei as férias, esquecendo-se que daqui a umas semanas recomeço o emprego mais importante da minha vida, agora a dobrar: ser mãe.

Hoje é o primeiro dia e sei que ainda me vai custar a habituar à mudança. Não preciso ter um despertador ligado porque não tenho que ir trabalhar. Tenho que ter cuidado com as horas porque o miúdo precisa de ir para a escola, claro, mas não preciso mais de cronometrar o tempo e chatear-me com ele a cada dois minutos porque só faz as coisas quando lhe apetece. Ainda não o levo a pé porque não começou realmente a amanhecer quando saímos de casa mas sinto que em breve também isso vai mudar e podemos os dois respirar o ar gelado da manhã até à escola. Tenho o silêncio desta casa todo para mim. Tenho todo o tempo para tratar da louça, da roupa, para arrumar e deitar fora, para ler, escrever e ouvir música, para me estender no sofá sem fazer nada se é isso que realmente me apetece. Pelo menos durante dois meses, antes da miúda chegar.

Tenho um ou dois planos para este tempo mas o resto pretendo ocupar sem pressa e sem regras. Hei-de lavar a roupa dela, hei-de reler alguns capítulos sobre recém-nascidos só para me avivar a memória e pouco mais. Para trás, ficam as semanas de trabalho, as responsabilidades que tratei de passar o mais extensivamente possível, uma certa insatisfação. E agora começa mais um capítulo na nossa vida, agora sim, mesmo a sério e eu sinto-me capaz de tudo. Só um bocadinho mais devagar.

janeiro 06, 2015

Contagem decrescente número um!

Daqui a umas horas faltarão apenas três dias inteiros de trabalho para entrar definitivamente na licença de maternidade, Até agora, posso confirmar que tem vindo a ser a semana mais lenta e insuportável da minha vida profissional: a maioria dos clientes ainda está de férias, as we speak, porque em Espanha se celebram os Reis hoje e portanto não há grande coisa a fazer. Não há nada para fazer, na verdade. Mas eu venho estoicamente, dia após dia, sentar-me nesta cadeira que me dá cabo dos ossos da bacia e arranjo coisas para me entreter durante estas horas. Revejo ad nauseam os temas pendentes que vou deixar para trás para me certificar que não me esqueço de nada, procuro outros que, por alguma razão, me tenha esquecido de incluir na lista, preparo as minhas despedidas mas nunca mais é Sexta.

A licença de maternidade aqui no Luxemburgo é interessante e insuficiente ao mesmo tempo: se por um lado começa dois meses antes da data prevista do parto, o que permite à mãe descansar, organizar-se e aproveitar uns misecordiosos dias de sossego, por outro termina dois meses depois do parto (três se a mãe amamentar), o que é assustadoramente insuficiente. Quem é que, no seu perfeito juízo, pode separar-se de um bebé de três meses para voltar a trabalhar? Portugal, neste aspecto, não está tão mau. A única coisa que ameniza isto é a existência do que eles chamam o congé parental, com a duração de seis meses (se se deixar de trabalhar totalmente) ou de um ano (se se trabalhar a tempo parcial). Portanto, os seis meses somados aos três da licença inicial, sempre dão para acompanhar mais o bebé. O problema? Durante esse período, ganha-se apenas o equivalente ao ordenado mínimo, o que torna a coisa muito menos atraente. Aquela ideia de que nos países mais a Norte a maternidade/paternidade são promovidos a sério perdeu um bocadinho o encanto para mim.

Às trinta e uma semanas, ainda não me deu aquele ímpeto de arranjar o ninho, não tenho a mala feita e ainda não comecei a lavar a roupa da miúda. Mas tenho tudo na minha cabeça e espero que a partir da próxima semana possa começar finalmente a mentalizar-me que vou ser mãe pela segunda vez e que as noites tranquilas vão acabar e que posso estar mais calma desta vez mas cada filho é um filho e sabemos lá o que vamos encontrar desta vez! Por agora, a minha concentração está em conseguir terminar esta semana sem enlouquecer ou morrer de tédio e em conseguir que nada, mas mesmo nada, me tire o sono.

dezembro 30, 2014

Adeuzinho 2014!


Nem quero acreditar que este ano já acabou! Parece que ainda ontem estava a programar a passagem de ano com os meus miúdos aqui em casa, a tratar das playlists e da pista de dança, a encher a mesa de petiscos e já estamos aqui outra vez.

Este ano foi... intenso, para dizer o mínimo. Com as novas responsabilidades profissionais seguiram-se os voos para visitar clientes e potenciais clientes (passei cento e quatro horas em aviões e percorri cerca de cinquenta e oito mil quilómetros, o que chegava para 1.45 circumnavegação da Terra...) e outros em passeio. Pude, finalmente, concretizar o meu sonho de pisar outro continente, ao mesmo tempo que visitava uma cidade do meu imaginário. Pude tomar banho nas fresquinhas águas portuguesas e também nas águas com temperaturas caribenhas. Em Ibiza, não vi mais do que o interior de um hotel e a vista a partir do aeroporto. Comi umas quantas tapas entre Madrid e Barcelona mas sozinha, o que lhes retirou algum encanto. Fui a Portugal mais vezes do que podia imaginar e por isso consegui atenuar as saudades de casa.

Vi-me num novo trabalho para o qual, entendi mais tarde, não estava realmente preparada. Mas creio que estive à altura do desafio e fui fazendo o melhor que podia e sabia, tentando, em silêncio e com muita observação, aprender com os outros. Muito do que sei hoje resulta dessa atenção e desse estudo meio dissimulado das atitudes que são esperadas neste meio. Ainda tenho um longo caminho pela frente, que nem sequer sei se quero percorrer. Foi o ano das piores dúvidas da minha vida: perguntei-me muitas, muitas vezes o que fazemos nós aqui. Posso dizer que foram meses de total angústia, a pensar que nada disto tem sentido, a querer fugir a pessoas e a responsabilidades sem nunca o conseguir inteiramente, a pôr em causa todas as minhas decisões, a minha vocação, até o meu instinto maternal. Chorei muito, durante esse período, e pensei que podia ter entrado em depressão. Felizmente, tive a mão de sempre à minha espera para me ajudar a levantar e ver para além das... hormonas!

Entendi depois que a pior parte das minhas dúvidas chegou ao mesmo tempo da notícia por que tanto esperávamos: vinha aí mais um bebé! Muita da minha angústia se pode explicar com essa fase inicial da gravidez, onde tudo me parecia aterrorizador e onde eu me sentia completamente perdida, sem saber o que queria ou como deveria mudar. Já o disse antes: foi um ano e meio a tentar ter este bebé, à procura de razões para esta demora, à procura de respostas que não precisava - apenas precisava de descansar e deixar as coisas acontecerem naturalmente. Depois seguiram-se os meses de dúvida (será que a gravidez aguenta? Será que o bebé está vivo? Será que está inteiro e são?) que finalmente se dissipou. Apesar de me sentir muito mais tranquila agora, a verdade é que as semanas de enjoos e náuseas constantes e agora os dois últimos meses de dores nos ossos não me têm propriamente ajudado a gozar tudo como queria. Eu brinco a dizer que é da idade mas não sei, se calhar é mesmo e o corpo começa a dar os primeiros sinais de que necessita abrandar.

Acabo este ano a agradecer a família que me calhou em sorte e a família que escolhi. Os que estão longe tudo fazem para minimizar esta distância e estão sempre disponíveis para nos ouvir; os que tenho ao meu lado são realmente a melhor coisa que me aconteceu: um amor que nunca desertou, mesmo depois de tanto disparate e tanta crise hormonal, sempre pronto a ouvir-me e a abrir-me os braços, mesmo que às vezes precise de ser lembrado que esses abraços fazem falta; um filho que se tem tornado numa criança mais sociável, que amadurece e ainda luta para deixar as birras, que gosta muito dos outros, que é sensível e preocupado, que me fala em Português, Francês e Luxemburguês, que gosta de mim com tanta força que às vezes preciso de o afastar. E agora uma filha, uma menina para aumentar a família e encher ainda mais a nossa casa de gritaria, choro e amor.

Em 2014 passei mais tempo sozinha e isso fazia-me falta, consegui fazer mais coisas de que gosto (ler vinte e cinco dos trinta livros que tinha previsto já me parece uma vitória), só me faltou um bocadinho mais de Sol e de céu azul. Para o ano que aí vem só peço muita paciência e muita calma para o momento em que passarmos a ser quatro. Peço clareza de ideias e confiança no meu instinto maternal - afinal, já temos um filho de quatro anos, portanto alguma coisa fizemos bem! E espero poder resolver o emaranhado de ideias que me assombra as decisões profissionais, ao mesmo tempo em que encontro o tempo para mim no meio das três outras cabeças cá de casa. E para vocês, o que ainda vêm aqui ler-me, desejo um ano memorável, em que possam viver com muita tranquilidade e prosperidade, mesmo que isso signifique diferentes coisas para diferentes pessoas. Que não tenham que viver na incerteza e que encontrem sempre forças para lutar pelo que desejam. Para o ano há mais!

dezembro 18, 2014

Reconhecimento


Eu sei, eu sei: nos últimos meses, não andei muito feliz a nível profissional, o que me fez questionar muitas coisas, em especial o meu percurso futuro. Quando pensava que já tinha encontrado uma resposta, aconteceu-me uma coisinha chamada Amália e digamos que todos os planos (ou esboços de planos) que tinha na cabeça foram necessariamente colocados de lado. Não custou muito, aceitei a mudança tranquilamente, afinal é por uma boa causa.

Mas é preciso ser clara: o meu desalento não foi causado directamente pelo sítio onde trabalho mas sim pelas expectativas e planos que eu mesmo tenho vindo a criar para mim. É apenas um reflexo de alguns anos de trabalho em áreas em que nunca me imaginei ou em que sou, na prática, forçada a aprender tudo de raíz e em que a natureza das actividades não podia estar mais longe da minha personalidade. Isto partindo do princípio de que sei exactamente do que falo... Ainda não fui capaz de verbalizar o que gostava exactamente de fazer mas sei duas coisas: gostava que envolvesse uma parte criativa e de alguma liberdade e também que me fizesse sentir que o meu trabalho é importante e que posso ajudar outras pessoas com ele. Não está fácil, eu sei, porque isto pode ser muita coisa. E bem, com o tipo de qualificações que tenho ou fui adquirindo, o mais fácil é ser engolida por qualquer monstro capitalista que tenha sede no Luxemburgo do que fazer qualquer coisa que valha mesmo a pena.

Isto tudo para dizer que me sinto grata por trabalhar na minha empresa, mesmo com todas as dúvidas e hesitações idealistas que me assaltam às vezes. Para mim, continua a ser muito difícil a batalha entre fazer o que é preciso para viver e (tentar) fazer aquilo que me faz feliz, sendo que a primeira hipótese ganha sempre. Cada dia, cada mês ou ano que passsa, fica ainda mais complicado renunciar à estabilidade e conforto que é ter um emprego fixo, com oportunidades de desenvolvimento e desafios constantes e agarrar o desconhecido - é cobardia, eu também sei. E com todos os seus defeitos e com todas as decisões com as quais não concordo ou com todas as mudanças um pouco assustadoras porque temos passado este ano, preciso dizer que mesmo assim é bom trabalhar numa empresa sólida, com planos para o futuro e com uma cultura empresarial em pleno desenvolvimento. Algumas vezes, um pouco cega com os pequenos problemas do dia a dia, esqueço-me dos esforços e dos investimentos que se fazem nos funcionários. Noutras vezes, em que tenho mais tempo para apreciar verdadeiramente a estrutura que me rodeia, sinto orgulho por fazer parte desta organização bem oleada e gerida à boa maneira suiça.

Gostava poder ser mais constante e, algum dia, sentir que estou finalmente no sítio que sempre me tinha esperado. Talvez isso não seja realista - no próximo ano, não será com toda a certeza, embora vá estar no melhor sítio possível, que é a cuidar da minha filha. Até que encontre essa paz de espírito, agradeço o que tenho vindo a conquistar, assimilando as partes boas e más da experiência, consciente de que o mundo é um pañuelo, já dizem os espanhóis, e que é preciso deixar sempre a melhor impressão possível. Uma pessoa lá sai preparada para isto duma universidade... Aprender a trabalhar e a conduzir são actividades exactamente no mesmo plano: a teoria é muito linda mas só quando somos obrigados a meter as mãos na massa ou a fazer aquele ponto de embraiagem é que vemos como elas são. Para já, não tenho conduzido muito mal.

dezembro 10, 2014

(Ainda aqui estou...)

Os dias arrastam-se pelo lamaçal que têm deixado a chuva e a tímida neve que já caiu aqui pelo grão-ducado. De hoje exactamente a um mês, estarei livre das obrigações profissionais para me dedicar simplesmente a esperar que a nossa filha nasça mas o tempo parece que teima em abrandar e um mês ainda me parece uma eternidade.

O que me consola é que, ao contrário do ano passado, iremos a casa pelo Natal e pelo menos esse conforto já não nos tiram. Será a última viagem que farei antes da miúda nascer e depois dedicar-me-ei a ficar com os pés bem assentes na terra. Lembro-me de como me sentia por esta altura no ano passado: um pouco vazia e desanimada, obrigada a passar o primeiro Natal longe de casa. Há quem o faça com frequência ou até mesmo voluntariamente mas para mim foi um golpe difícil, só possível de aguentar porque estava de férias com os meus dois rapazes e acabámos por passar uns dias no quentinho da nossa casa, entre pijamas, presentes e filmes de bonecos, que o rapaz mais novo custa a entreter. Via toda a gente a preparar o seu Natal por aqui, via os portugueses a comprarem as caixas gigantes de bacalhau e a encherem os carros de vnho e licores portugueses e sentia-me ainda mais deprimida por nos faltar essa estrutura aqui: uma familia que fizesse valer a pena uns bons quilos de bacalhau e uma garrafeira cheia. Mas este ano não, este ano sinto o alívio de quem vai estar em casa nesta altura do ano. Não que eu dê muito valor à quadra religiosa - para mim, é simplesmente uma altura do ano para estarmos juntos e, desde há muitos anos, reencontrar amigos que não vemos com tanta frequência (amigos emigras e não-emigras, estamos lá!).

De resto, novidades que manterei discretas neste momento (o tempo ensinou-me que não devemos fazer foguetes antes da festa e que os poderes da inveja e maldicência são fortíssimos) vão fazer que este Natal seja exactamente só dos miúdos, já que nós temos muitas coisas em que pensar. Não sei se o timing para isto foi o melhor mas foi de certeza o único possível e tem ocupado as nossas cabeças em muitos momentos livres. Os presentes, esses, já estão confortavelmente à espera de serem entregues em Portugal, já que este ano decidimos comprar tudo online (para não carregar com eles quando formos de viagem e para pagarmos apenas os portes indispensáveis). Continuo a lamentar não ser daquela malta criativa, que faz os seus próprios presentes, embora tente (sempre que possível) dar aquele toque pessoal no que oferecemos.

E agora seguir-se-ão dias em que apenas distinguimos se é dia ou noite pelos relógios, já que parece que apenas existem duas alturas no dia: escuridão completa e anoitecer constante. Eu pergunto-me como é que a malta da Escandinávia consegue sobreviver a tanta noite seguida e com a palete de cores limitada ao cinzento. É a minha única maneira de colocar as coisas em perspectiva: lembrar-me que este Inverno não é nada comparado com outras latitudes e longitudes. Até agora tivemos uns dois dias em que nevou mas nunca o suficiente para manter um manto branco sobre o chão mais do que uma hora ou assim. Eu cá agradeço, é conhecido o meu desprezo pela neve (sim sim, é muito linda mas quem é que tem pachorra para andar sempre com medo de cair assim que põe o pé fora de casa, quem é que tem paciência para escovar bem o vidro do carro todas as santas manhãs umas cinco horas antes do Sol nascer, quem é que gosta de ter a casa cheia de pegadas fresquinhas? Eu não, claro está).

Se desse, o que eu faria agora era deitar-me para a sesta mais comprida de sempre e acordar apenas quando fosse hora de meter esta miúda cá fora. Já me chateio a mim mesma com as queixas das dores de ossos e de como me custa levantar de uma simples cadeira e de como as minhas articulações me têm dados maravilhosas noites de insónia. Mas não, diz que ainda há muito trabalhinho para fazer, muita roupa cor de rosa para lavar e abraçar já em antecipação, muitas escadas para subir e descer com gemidos de dor quase a cada degrau. Pelo menos, até ver, não sofro daquele inchaço terrível de estar grávida em pleno Verão. Deixa-me cá bater na madeira, entretanto!

novembro 26, 2014

Seis meses de Amália: um balanço

Há já seis meses que ando a carregar com esta miúda para todo o lado. Parece-me incrível e parece-me que ainda foi ontem que as náuseas me faziam sentir como se estivesse num pesadelo. Bem comportadas, elas desapareceram assim que terminou o primeiro trimestre, o que eu e até o meu trabalho agradecemos muito.

A segunda gravidez é mais ou menos como a ouvi descrita: já passou um pouco daquele entusiasmo, daquela sensação de magia e sobra o desejo que, tal como da primeira vez, aí venha um bebé saudável e é tudo. É especialmente mais difícil concentrar-me tanto nela porque desta vez já há um pequeno cavalinho de quatro anos que não me larga um minuto, que quer deitar-se em cima da barriga, que fala para a irmã e diz muitas vezes que ela está a chorar ou a mexer-se quando não sinto absolutamente nada. Claro que continuo a ter os meus momentos privados com ela e muitas vezes me divirto com os malabarismos que ela vai fazendo sem respeitar as minhas horas de sono ou de descanso mas, ao contrário da primeira vez, preciso dividir pensamentos e amor com alguém que já cá está há mais tempo.

Diferente da primeira gravidez é também o meu estado geral. Sinto-me muito mais pesada e muito mais lenta desde mais cedo, sofro um bom bocado com dores nos ossos e nos rins (na primeira vez, isso apenas aconteceu quando o parto se aproximava, maldita relaxina antes do tempo), tenho já vontade de parar. Felizmente, por aqui a licença de maternidade começa dois meses antes da data prevista para o parto e isso vai ajudar-me a descansar um bocadinho. Mas passar o dia todo sentada em frente ao computador não tem ajudado muito a terminar os dias em forma. Depois disto, não me parece que queira sequer considerar a hipótese de um terceiro filho: se as gravidezes vão piorando a minha condição física, o melhor é mesmo, mesmo ficar por aqui.

Finalmente comprei umas roupinhas para a miúda, que está a crescer bem e já ultrapassou os oitocentos gramas de peso. Primeiro, não sabia o sexo do bebé e não me apetecia arriscar nem comprar roupas neutras. Depois de saber o sexo, mergulhei numa espécie de preguiça mas também no sentimento que já não faço ideia do que nos faz falta. Parece que a primeira gravidez foi há séculos atrás e que tenho que recuperar coisas que não sei em que parte da minha memória enfiei. Se por um lado parti para esta gravidez com a tranquilidade de quem já passou por isto, por outro sinto-me como se tivesse que aprender tudo de novo. Acho que vai ser muito interessante quando ela finalmente chegar cá fora e estou ansiosa por ser mãe de uma menina!

novembro 21, 2014

E quando emigrar não corre bem? *

Quando saímos de Portugal, decidimos que não íamos vender a nossa casa em Lisboa. Por razões sentimentais, é certo, mas principalmente porque não fazíamos ideia do que nos esperava lá fora. Eram dois adultos a sair e apenas um deles com um contrato de trabalho - as coisas podiam correr bastante mal, a meu ver, embora não tivesse partido pessimista.

Emigrar, toda a gente está farta de o saber, pode ser uma mudança extremamente violenta: depende do país para onde se emigra, da vontade que realmente se tem de emigrar, da força de vontade e preserverança para vencer todos os obstáculos que se vão apresentando no nosso caminho. Deixa-se uma vida inteira para trás, arrumada em caixas e sacos gigantes que alguém faz o favor de nos guardar (porque não sabemos se voltamos ou quando voltamos), despedimo-nos da gente que nos vai fazer falta (um até já indefinido, em que disfarçamos a tristeza com a ideia que nos vemos em breve). Chegamos e (provavelmente) damos de caras com outro clima, demoramos uma eternidade a construir uma rotina e a descobrir todas as manobras burocráticas que nos vão permitir viver sem preocupações, tentamos encontrar um trabalho em que não interesse a nossa origem (ou talvez ela seja mesmo uma vantagem), mergulhamos noutra(s) língua(s) e às tantas já não sabemos em que língua nos exprimimos melhor, talvez no caos da sua simultaneidade. Damos graças pela tecnologia que nos deixa ver quem deixámos para trás, sem que nunca possamos sentir o seu cheiro ou aproveitar o seu abraço, tornamo-nos simultaneamente mais e menos Portugueses neste processo de habituação. Com o tempo suficiente, já nunca somos só de uma só nacionalidade.

Mas e se de repente percebemos que isto correu mal? Se acordarmos com a sensação de que o nosso lugar não é numa cidade estranha, num emprego estranho, numa casa que não é a nossa cara? Então e se a sensação de que não pertencemos a este sítio se for apoderando de nós sem darmos conta, até chegarmos ao momento em que voltar atrás passa a ser uma inevitabilidade?

Eu sei que isto não significa falhar. Eu imagino que seja difícil aceitar (bem cá no fundo) que a solução é voltar à estaca zero mas este recomeço não apaga nunca a coragem que foi necessária para chegar até ali. Eu tenho a certeza que, não importa a duração desta ausência, as pessoas desenvolvem um apurado sentido de resistência e até, em muitos casos, de sobrevivência que nunca esquecerão. As pessoas passam a lidar melhor com quem as olha de lado, com quem não conseguem compreender, com culturas tão fundamentalmente diferentes, com quem não compreende que se deixe um país, uma casa, uma família à procura de uma oportunidade mais justa. Emigrar, para mim, carrega em si um conceito que só consigo traduzir em Inglês: restlessness. Eu acredito que as pessoas que emigram são inquietas, na sua mente e no seu coração, e isso não se perde mesmo quando voltam a casa. Está lá e continuará empurrando essas vidas para a frente, permitindo menos espaço para a resignação. Falhar é ficar em casa a pensar E se?... Falhar é forçar a permanência de alguma coisa que nos deixa extremamente infelizes. Falhar é não responder à nossa voz interior. Só temos que a ouvir, seja para partir ou para ficar. Fingir que ela não existe é que não.

* uma reflexão para alguns corajosos emigrantes.