Novembro 26, 2014

Seis meses de Amália: um balanço

Há já seis meses que ando a carregar com esta miúda para todo o lado. Parece-me incrível e parece-me que ainda foi ontem que as náuseas me faziam sentir como se estivesse num pesadelo. Bem comportadas, elas desapareceram assim que terminou o primeiro trimestre, o que eu e até o meu trabalho agradecemos muito.

A segunda gravidez é mais ou menos como a ouvi descrita: já passou um pouco daquele entusiasmo, daquela sensação de magia e sobra o desejo que, tal como da primeira vez, aí venha um bebé saudável e é tudo. É especialmente mais difícil concentrar-me tanto nela porque desta vez já há um pequeno cavalinho de quatro anos que não me larga um minuto, que quer deitar-se em cima da barriga, que fala para a irmã e diz muitas vezes que ela está a chorar ou a mexer-se quando não sinto absolutamente nada. Claro que continuo a ter os meus momentos privados com ela e muitas vezes me divirto com os malabarismos que ela vai fazendo sem respeitar as minhas horas de sono ou de descanso mas, ao contrário da primeira vez, preciso dividir pensamentos e amor com alguém que já cá está há mais tempo.

Diferente da primeira gravidez é também o meu estado geral. Sinto-me muito mais pesada e muito mais lenta desde mais cedo, sofro um bom bocado com dores nos ossos e nos rins (na primeira vez, isso apenas aconteceu quando o parto se aproximava, maldita relaxina antes do tempo), tenho já vontade de parar. Felizmente, por aqui a licença de maternidade começa dois meses antes da data prevista para o parto e isso vai ajudar-me a descansar um bocadinho. Mas passar o dia todo sentada em frente ao computador não tem ajudado muito a terminar os dias em forma. Depois disto, não me parece que queira sequer considerar a hipótese de um terceiro filho: se as gravidezes vão piorando a minha condição física, o melhor é mesmo, mesmo ficar por aqui.

Finalmente comprei umas roupinhas para a miúda, que está a crescer bem e já ultrapassou os oitocentos gramas de peso. Primeiro, não sabia o sexo do bebé e não me apetecia arriscar nem comprar roupas neutras. Depois de saber o sexo, mergulhei numa espécie de preguiça mas também no sentimento que já não faço ideia do que nos faz falta. Parece que a primeira gravidez foi há séculos atrás e que tenho que recuperar coisas que não sei em que parte da minha memória enfiei. Se por um lado parti para esta gravidez com a tranquilidade de quem já passou por isto, por outro sinto-me como se tivesse que aprender tudo de novo. Acho que vai ser muito interessante quando ela finalmente chegar cá fora e estou ansiosa por ser mãe de uma menina!

Novembro 21, 2014

E quando emigrar não corre bem? *

Quando saímos de Portugal, decidimos que não íamos vender a nossa casa em Lisboa. Por razões sentimentais, é certo, mas principalmente porque não fazíamos ideia do que nos esperava lá fora. Eram dois adultos a sair e apenas um deles com um contrato de trabalho - as coisas podiam correr bastante mal, a meu ver, embora não tivesse partido pessimista.

Emigrar, toda a gente está farta de o saber, pode ser uma mudança extremamente violenta: depende do país para onde se emigra, da vontade que realmente se tem de emigrar, da força de vontade e preserverança para vencer todos os obstáculos que se vão apresentando no nosso caminho. Deixa-se uma vida inteira para trás, arrumada em caixas e sacos gigantes que alguém faz o favor de nos guardar (porque não sabemos se voltamos ou quando voltamos), despedimo-nos da gente que nos vai fazer falta (um até já indefinido, em que disfarçamos a tristeza com a ideia que nos vemos em breve). Chegamos e (provavelmente) damos de caras com outro clima, demoramos uma eternidade a construir uma rotina e a descobrir todas as manobras burocráticas que nos vão permitir viver sem preocupações, tentamos encontrar um trabalho em que não interesse a nossa origem (ou talvez ela seja mesmo uma vantagem), mergulhamos noutra(s) língua(s) e às tantas já não sabemos em que língua nos exprimimos melhor, talvez no caos da sua simultaneidade. Damos graças pela tecnologia que nos deixa ver quem deixámos para trás, sem que nunca possamos sentir o seu cheiro ou aproveitar o seu abraço, tornamo-nos simultaneamente mais e menos Portugueses neste processo de habituação. Com o tempo suficiente, já nunca somos só de uma só nacionalidade.

Mas e se de repente percebemos que isto correu mal? Se acordarmos com a sensação de que o nosso lugar não é numa cidade estranha, num emprego estranho, numa casa que não é a nossa cara? Então e se a sensação de que não pertencemos a este sítio se for apoderando de nós sem darmos conta, até chegarmos ao momento em que voltar atrás passa a ser uma inevitabilidade?

Eu sei que isto não significa falhar. Eu imagino que seja difícil aceitar (bem cá no fundo) que a solução é voltar à estaca zero mas este recomeço não apaga nunca a coragem que foi necessária para chegar até ali. Eu tenho a certeza que, não importa a duração desta ausência, as pessoas desenvolvem um apurado sentido de resistência e até, em muitos casos, de sobrevivência que nunca esquecerão. As pessoas passam a lidar melhor com quem as olha de lado, com quem não conseguem compreender, com culturas tão fundamentalmente diferentes, com quem não compreende que se deixe um país, uma casa, uma família à procura de uma oportunidade mais justa. Emigrar, para mim, carrega em si um conceito que só consigo traduzir em Inglês: restlessness. Eu acredito que as pessoas que emigram são inquietas, na sua mente e no seu coração, e isso não se perde mesmo quando voltam a casa. Está lá e continuará empurrando essas vidas para a frente, permitindo menos espaço para a resignação. Falhar é ficar em casa a pensar E se?... Falhar é forçar a permanência de alguma coisa que nos deixa extremamente infelizes. Falhar é não responder à nossa voz interior. Só temos que a ouvir, seja para partir ou para ficar. Fingir que ela não existe é que não.

* uma reflexão para alguns corajosos emigrantes.

Novembro 11, 2014

Ser banana: uma definição

Eu sou uma pessoa-banana, é a conclusão a que cheguei hoje depois de levar na cabeça de marido e colegas de trabalho. Pelo menos profissionalmente falando, tenho sido uma banana, especialmente nestes últimos meses/anos, em que resolvi (inconscientemente, diga-se a meu favor) não reclamar os direitos que são meus.

Eu sou daquelas pessoas que vai a um restaurante, encontra um cabelo no prato mas não reclama porque não quer chatear o empregado e muito menos o cozinheiro e afinal é só por o cabelo de lado. Sou daquelas pessoas que se irrita no trânsito com a cambada de chicos espertos que se veêm por aí mas não saco da buzinadela quando é preciso e fico a remoê-la o resto da tarde. Da mesma maneira, não sou capaz de reclamar se não me aplicaram uma promoção a que tinha direito numa compra ou falta-me muitas vezes a resposta necessária em situações em que me estão a pisar. Eu sou assim e muitas vezes por uma razão um bocado parva: não dou valor suficiente às coisas materiais, na maioria dos casos. Não me apetece chatear-me por pagar dez euros a mais, nem me vou aborrecer se a comida não era aquilo que esperava. Não consigo ser como aquela minha colega que assim que chega ao hotel começa a reclamar para que a pessoa que a atende lhe faça logo um upgrade ao quarto, não dá. Atenção que eu entendo que isto é estúpido e promove a continuação de serviços/produtos/relações medíocres. Mas eu consigo lá parar com isto?

Mas agora, e pelo menos numa situação particular, decidi que chega disto. Não é o resultado em si que me interessa mais, é a atitude para comigo. É deixar que os outros pensem que eu papo grupos e que podem fazer gato-sapato da minha pessoa só porque sou demasiado preguiçosa ou ingénua para lutar por aquilo a que tenho direito. Não quero comprar nenhuma guerra e talvez esse seja também o meu problema: para não incomodar ou não desafiar os poderes instituídos, tenho optado por manter a bola baixa e dizer que sim a tudo. Mas não me apetece mais, pelo menos não agora. Não estou para aceitar tudo o que me apresentam se sequer pensar no que estou a fazer. Não vou desistir de reclamar os meus direitos com receio de represálias (especialmente quando não existe razão para as mesmas existirem). Estou um bocado farta e agora, com a barriga já deste tamanho, estou ainda pior. Sinto-me enfartada com as pessoas que pensam que os outros, os que estão supostamente abaixo, têm a obrigação de comer e calar porque elas dizem, só por isso. Sem justificações, só porque sim, acompanhando com um encolher de ombros. Acho que não mereço, honestamente, e acima de tudo não o esperava. Mas já devia saber, surpresas temos todos os dias, especialmente de onde menos esperamos. Quero deixar de ser banana e há que começar por algum lado.

Novembro 05, 2014

Por outro lado...

(porque felizmente não existe apenas uma perspectiva das coisas)


Ontem foi a primeira reunião a sério lá na escola do Vicente. A lei obriga a que se façam estas reuniões individuais com os pais para melhor acompanhar e orientar o desenvolvimento de cada criança. É a primeira vez que vejo algo tão bem organizado e documentado, desde que o miúdo entrou para uma creche aos cinco meses. A culpa será certamente nossa que, por distracção, necessidade ou desconhecimento não tínhamos encontrado até agora um projecto educativo tão bem pensado e, acima de tudo, executado.

Entrar para esta escola (aqui chamada de Précoce, o que equivale sensivelmente à pré-primária em Portugal) foi um alívio por diversas razões, mais ou menos importantes. Primeiro, a ideia de que sendo o ensino oficial, o projecto educativo seria mais sólido e mais adequado à integração do Vicente. Em segundo lugar, o facto do ensino ser gratuito, à excepção das refeições, que têm também um preço simbólico. Finalmente, o facto da escolha da escola ser baseada na nossa morada e por isso tê-lo mais perto, sem precisarmos de conduzir quilómetros e perder horas no trânsito sempre que tínhamos que o ir levar/buscar. Para mim, havia apenas um senão no meio disto tudo: é que para além do Francês, que já tinha começado na creche privada, o Vicente ia começar a aprender o Luxemburguês, língua em que eu ou o pai não nos conseguimos expressar nem mesmo compreender. Mas mesmo isto tem o seu aspecto positivo, porque é preferível que ele possa começar a aprendizagem com quatro anos - não irá demorar a apanhar-lhe o jeito.

A escola nova em Setembro foi mais ou menos tudo o que tinha idealizado: um edifício de um só piso, com o seu próprio parque infantil (na verdade um exterior e outro interior), com materiais pedagógicos totalmente novos, pronta a receber alunos de todas as nacionalidades. Devido às nossas óbvias limitações, falamos Francês com as educadoras e penso que nos conseguimos entender bem. Na sala dele, falaram Francês durante as primeiras duas semanas para que as crianças se pudessem ambientar e introduziram o Luxemburguês progressivamente. Hoje, falam inteiramente em Luxemburguês. Não faço ideia se o Vicente compreende tudo mas a verdade é que já se sai com algumas frases em Luxemburguês lá em casa. Há miúdos de todas as origens na sala dele e há pais que nem Francês falam e não foi por isso que deixaram de se entender com as educadoras. (Quero acreditar que as notícias que se ouviram nos últimos dias são casos extremos e isolados e  não a regra.)

Há uma manhã destinada ao exercício físico e outra dedicada aos passeios pelo bosque, independentemente da meteorologia que se fizer sentir. O Vicente tem os seus dias, já se sabe. O balanço que fizeram foi até bem melhor do que eu esperava: gosta de mandar, o pequeno tirano, e faz questão de se expressar quando está de acordo e quando não está. É muito aplicado e exacto nas suas actividades e tanto gosta de fazê-las sozinho como em grupo. Precisa de melhorar o seu comportamento em grupo porque gosta de ser o centro das atenções e já se imaginam as consequências quando não é esse o caso. Ele não é daqueles miúdos doces e calmos, capazes de partilhar desde muito pequeninos. É o meu pequeno furacão que dá que fazer a quem toma conta dele, sendo que é a nós, pais, que faz a vida mais negra. É natural, já aprendi.

Ouvi-lo a interagir com os outros em Francês ou Luxemburguês para mim é tudo: um orgulho e a promessa de que se integrará melhor do que eu. Não é por me opor à punição daqueles que falam Português nas escolas que quero que o(s) meu(s) filho(s) desrespeite(m) o país onde escolhemos viver. Mas no meio desta misturada de línguas e aprendizagens, quero que ele nunca se esqueça de onde vem, o meu alfacinha que não nasceu alentejano para meu desgosto. Se a escola for sempre assim (organizada, inclusiva, consciente das particularidades de cada criança) estamos bem. Que pena existirem esses sinais de segregação por aí mas também nos cabe a nós, pais, ensinar que há tempo para tudo. Mesmo para se portarem um bocadinho mal :)

Novembro 03, 2014

A nossa pátria é a nossa língua?

(a propósito desta notícia)

O nosso filho é Português e Português é também a língua que falamos com ele em casa. Às vezes fazemos excepções para ver como vai o Francês e agora somos surpreendidos com as suas tiradas no Luxemburguês rudimentar que já traz da escola mas, no essencial, queremos expressar-nos com ele na língua do nosso país. A não ser que ele possa entrar de futuro na Escola Europeia, não vejo outra maneira de ele poder continuar a falar a sua língua (nem falemos de aprendê-la verdadeiramente).

Leio alguns comentários à notícia e fico incomodada. Aparentemente, aos pais que emigram não é permitido continuar a desejar que os filhos guardem alguma da sua herança cultural - apenas podemos postrar-nos agradecidos por este país ter sido tão generoso em acolher-nos e mandar Portugal às urtigas. Eu cá tenho uma ideia um bocadinho diferente: quero que o meu filho se possa integrar totalmente no país onde escolhemos viver, o que significa que talvez vá ter que dominar o Luxemburguês, o Francês e o Alemão; mas também quero que o meu filho não se esqueça nunca do sítio onde nasceu, com as suas virtudes e defeitos e, quem sabe, possa ainda conhecer a sua história, geografia, tradições. Ter vindo para aqui não implica que cortámos definitivamente relações com o sítio onde nascemos nem ter que assumir uma posição submissa face à comunidade onde nos inserimos agora. Podemos continuar a pensar por nós, parece-me.

A situação que se vive aqui no Luxemburgo é, de facto, complicada, com o Português a ser a segunda língua mais falada nas escolas, à frente de duas das línguas oficiais do país. É o resultado da emigração em massa, talvez um pouco assustadora mas mesmo assim necessária: o Luxemburgo precisava, pelo menos até há uns anos atrás, da mão de obra que este emigrantes portugueses puderam trazer. Vivermos fechados numa comunidade artificial, baseada no simples facto de que somos Portugueses, parece-me absurdo. Mas também me parece absurdo que tenhamos que renunciar às nossas origens, à nossa língua, aos nossos costumes só porque decidimos construir uma vida noutro país. É preciso equilíbrio. É preciso entender que existem momentos para tudo e que não é punindo as crianças que se vão conseguir melhores resultados na sua integração. Muitas delas vieram de Portugal já com oito, nove anos, o que dificulta ainda mais a aprendizagem do Luxemburguês.

Se por um lado nunca me senti verdadeiramente mal tratada aqui, também é verdade que há sempre um véu de suspeição e de algum desapontamento que se levanta quando mencionamos que somos Portugueses. Às vezes nem o Francês é suficiente, apesar de ser também língua oficial, e fica claro que falar Luxembuguês é uma marca distintiva para quem nasceu aqui. Eu consigo compreender que os Luxemburgueses queiram defender aquilo que é seu - afinal, é uma tarefa hercúlea se pensarmos na percentagem de estrangeiros face à de nativos - mas não me parece que castigar crianças que falem outra língua seja o caminho a seguir. Que o miúdo saiba sempre quando é tempo de falar o quê, é o que desejo.

Outubro 21, 2014

Londres

Desta vez, vim de lá convencida que nunca poderia viver lá: é uma cidade gigante (especialmente se comparada com a área do Luxemburgo-país), com demasiadas pessoas em todo o lado e com hora de ponta nos transportes que é... basicamente a toda a hora. Aqui, desterrada neste fim de mundo, aprendi a dar valor às viagens de dez, quinze minutos para as coisas mais essenciais, sem ser apertada e empurrada em espaços demasiado quentes e claustrofóbicos, sem grandes massas de turistas a bloquear o acesso a tudo.

Mas é claro que Londres é mais do que isso. São os mercados de rua cheios de gente de todos os continentes, são as pessoas a fazerem fila para tirar uma fotografia com o Big Ben como pano de fundo, são os cafés todos diferentes, cuidadosamente pensados e cheios de gente dentro e à porta num Sábado à noite, são as pessoas cheias de sacos de compras em frente ao Harrods, são os museus à borla, é o número interminável de actividades entre as quais escolher, é a comida de todo o mundo, o Tamisa debaixo daquele cinzento-Londres e as torres de vidro onde se fazem os grandes negócios, é a cidade a estender-se até se perder de vista, são os grafitis e as ruas transformadas num museu ao ar livre, são as fachadas dos apartamentos para onde nos queremos mudar já, são os jardins cheios de Outono e os cemitérios pouco mórbidos, são as excursões intermináveis de miúdos e graúdos, é a meteorologia melhor do que no Luxemburgo mas sempre pior que Lisboa, são as lojas abertas ao Domingo e até durante vinte e quatro horas, é o design a espreitar por todos os lados, são os comboios a horas e os autocarros de dois andares tão populares entre os menores de cinco anos, é escolher entre hamburguer e lagosta e nunca ter provado o fish'n'chips, são as cervejas que parecem chichi, é o lixo por todo o lado e nunca totalmente apanhado, são as linhas de metro acima e debaixo de terra. É uma cidade maravilhosa para passar umas temporadas, especialmente se se tem tempo e (bastante) dinheiro, há gente e actividades para todos os gostos e bem, uma parte do meu coração vive lá há uns tempos, agora em Earls Court. Se precisasse de razões para voltar, ela bastaria, com a sua casa de bonecas e as suas ideias para nos levar a sítios novos. E é por isso Londres que te quero tão bem - porque fazes o mesmo por ela.

Outubro 15, 2014

À segunda

À minha frente, duas colegas de trabalho (uma delas com o pequeno bebé de seis meses ao colo) falam sobre as maravilhas da maternidade, tendo ambas sido mães há pouco tempo atrás. Estão a comentar como tem sido, se eles dão muito trabalho, se comem e dormem bem, se têm muito cabelo. Eu, no silêncio que envolve o resto do escritório, sorrio candidamente, com aquela sensação estúpida de que tenho todas as respostas às dúvidas delas. É claro que não tenho, lembro-me enquanto as continuo a ouvir, como não as tinham antes as pessoas que me queriam bem e que gostavam de me aconselhar. É verdade que sinto que tenho uma ligeira vantagem sobre elas, na medida em que já passei por tudo uma primeira vez e que sei que não há fórmula mágica que nos valha, só muita preserverança, muitas tentativas-erros, muitas noites sem dormir e muitas tardes a desejar poder fechar os olhos.

Pensando nisto, gostava de ainda ter a mesma ingenuidade que elas parecem ter. Com um segundo filho, vem aquela sensação de familiaridade, de tranquilidade relativa de quem passou por um tornado de emoções e fraldas mal postas, de leite materno e leite em pó, de dentes que teimavam em não romper mas também das primeiras papas e sopas com e sem carne, dos primeiros passos meio a medo, do vocabulário que parece nunca mais terminar. Um pouco da magia já se foi, mas é claro que ainda pensamos no que aí vem, numa pessoa totalmente diferente, com a sua própria personalidade. Certo é que é muito fácil identificar aqueles desconfortos associados à gravidez, especialmente agora que começam muito mais cedo do que na primeira rodada.

E já agora, fica a novidade, para quem não o soube ainda: vem aí uma menina! Eu espero, sinceramente, que a minha médica não tenha nenhum problema de visão ou que o equipamento das ecografias esteja a funcionar com total nitidez. Não sei porquê mas sentia-me uma "fábrica de fazer rapazes", era mesmo uma coisa que me parecia real. No meu íntimo, gostava de estar errada e que agora pudesse experimentar a sensação de ser mãe de uma rapariga. A natureza fez-me a vontade e nesta imensa lotaria genética calhou-me exactamente aquilo por que todos esperávamos. Que continue assim, é o que desejo, e que venha com toda a saúde do mundo. Não posso é evitar sonhar com laços na cabeça, padrões floridos e todos os acessórios brilhantes!

Outubro 08, 2014

Lisboa (para todo o sempre)


Escolho ouvir Orelha Negra e as memórias soltam-se, desordenadas. Estava provavelmente a sobrevoar o Norte de Espanha mas há mil quilómetros que a minha cabeça está em Lisboa. Sinto sempre aquele frémito quando se aproxima a hora de voltar, sempre. Sempre. De repente, desço a rua do Alecrim num final de tarde. A seguir, vejo o dia em que bebemos café em Belém e depois entrámos no Museu da Electricidade. Subo para o Jardim de São Pedro de Alcântara e sento-me com vista para o castelo. É a minha cidade, podemos escolher a nossa cidade ou ela simplesmente se impõe? Sentada no miradouro de Santa Luzia a ver os barcos a passar em câmara lenta, a inventar romances de faca e alguidar sobre os telhados de Alfama. O dia em que me enfiei numa velha mercearia porque andava um cavalo à solta na Morais Soares. A cidade que ambos tanto desejámos, como se tudo fosse possível apenas ali. Debaixo das copas que ladeiam a Ferreira Borges, a sensação que conseguimos. (Mas conseguimos exactamente o quê?) A rua do Poço dos Negros a um Sábado à noite, os enchidos a decorarem uma montra, os eléctricos que ainda não passavam. A mesma Lisboa onde tanto chorei, os quartos de onde insistia em não sair, das coisas impensadas e dos arrependimentos. A mesma capital antiga, ora demasiado snob, ora a cheirar a sardinhas e cerveja morta. As colinas onde morei, as casas que aluguei e que acabaram donas de mim. Os amigos que vieram e os que se foram, os nossos vizinhos como se já tivessemos sessenta anos. A casa que quase comprei, que às vezes ainda me assalta a memória em vagas de uma nitidez tremenda. Tudo o que me falta fazer na minha Lisboa, todos os despertares e anoiteceres em que falta a verdadeira luz das estrelas, os becos por onde ainda nunca passei. A turista que agora sou, absorvendo simultaneamente uma cidade estranha e a cidade que é minha. A minha Lisboa que há-de ser sempre cantada em Português, um cafezinho, um pastelinho de nata e a continha. Quantas linhas poderei eu escrever mais sobre ela? Quantas mais vezes sentirei o aperto de quem regressa aos braços de um grande amor? Quantos mais anos de saudade poderei suportar?

Outubro 06, 2014

Pequenas vitórias

Quando imaginei como seria o primeiro filho, era uma criança muito delicada, meiga e acedia prontamente a qualquer pedido que lhe fizessem. Adorava a família e amigos e demonstrava esse afecto de maneira inequívoca e exuberante. Gostava de ter tudo arrumado, de brincar em silêncio quando a ocasião assim o exigia e sabia partilhar o que tinha desde tenra idade. Teria, na minha ingénua cabeça, o filho perfeito.

Hoje, mais de quatro anos passados, sei apreciar as pequenas vitórias e também a estratégia que usámos para consegui-las. Uns dias corre tudo muito mal, noutros as coisas parecem estranhamente certas, demasiado perfeitas para serem verdadeiras. Como esta manhã, em que contei zero birras, em que consegui que se levantasse sem nenhuma reclamação, em que ele soube à primeira o que queria comer e deixou sem reservas que o vestisse, em que lavámos os dentes juntos e em que o deixei na sala de aula sem um grito, uma lágrima, um esgar de teimosia. Apenas um até logo, um abraço e cinco ou seis beijos que nunca sei conter. Saí da escola com a maravilhosa sensação do dever cumprido sem perder mais uns meses de vida com as chatices das manhãs, feliz ao passar pelos pais que certamente sofrem do mesmo todos os dias, capaz de enfrentar o dia de trabalho sem já algum amargo de boca.

Ainda não domino totalmente alguns momentos do dia ou alguns acontecimentos específicos, como o banho, por exemplo. Ainda não percebi que espírito toma aquele corpinho de quatro amorosos anos e o transforma quase num miúdo a precisar de exorcismo. E também ainda me falta descobrir como conseguir que não chore sempre que o vou buscar a casa da senhora que toma conta dele quando sai da escola. De resto, ajuda muito falar sobre as coisas e, infelizmente para nós, repeti-las vezes sem conta. Andamos agora a lutar com trauma de dormir sozinho quando está a chover e vou conseguindo sucessos pequeninos: primeiro, dormia na nossa cama; depois, arranjei um amiguinho com música que o ajuda a voltar a dormir se a chuva se tornar muito forte; finalmente, elogio-o muito quando volta a adormecer e passa a noite inteira na sua cama. Fica orgulhoso por ser tão valente e eu espero que isso lhe fique na memória. Depois há sempre a questão de escolher as batalhas: não me chateio muito com os brinquedos que quer levar para a banheira, não insisto nas refeições (mas deixo claro que não há direito a fruta se nem se tocou no prato principal), deixo-o vestir a camisola da selecção até não poder mais.

Às vezes é duro: se não sou fã dos castigos corporais, também não me agrada a constante negociação para as coisas mais simples. Só que não me posso esquecer: é inútil tentar que ele seja razoável e racional nas birras que faz. O mundo é dele, roda em torno dele, serve para o satisfazer. O nosso trabalho é mostrar-lhe, lenta e construtivamente, que não é bem assim. E a seguir o que há a fazer é comemorar com ele as pequenas vitórias, os pequenos passos que dá em direcção a uma vida sem birras, inspirarmo-nos nestes pequenos sucessos para tentar inventar a receita dos próximos e saludarmos a boa e saudável dose de frustração que vem destes pequenos nadas.

Setembro 29, 2014

Quatro!

Lugar comum dos lugares comuns: ainda ontem tinha aquele ratinho ao meu colo, passavam precisamente quatro minutos do meio-dia e já hoje celebramos o seu quarto aniversário! Por muitos livros e artigos que tenha lido até àquele momento, não me podia ter preparado para o que significa ser mãe e especialmente mãe desta criatura tão cheia de impulsos e caprichos, com pouca vontade de dormir e muita vontade de comer mas com os olhos mais brilhantes e cheios de vida que já vi. Eu sei que não fazemos sempre as escolhas certas com ele e às vezes a paciência leva a melhor mas o que me interessa é ver como ele salta ao pé coxinho, todo orgulhoso, ou como fica contente quando consegue pintar dentro dos riscos, ou como me diz Mãe, gosto de ti para sempre! Menos quando estás zangada. Não sei se ele vai ser um estudante brilhante ou se vai gostar mais de arregaçar as mangas e trabalhar mas hoje é muito bom ver como ainda se entusiasma com a escola e com os dias em que treinamos a escrita e como ainda acha graça a ajudar em todas as tarefas domésticas.

Com quatro anos, o meu homenzinho vai deixar de ser filho único e vai partilhar o meu colo com um bebé que aí vem e isso deixa-me um pouco triste. Eu sei que o amor se multiplica e sei que ter irmãos é tão bom mas ele é o primeiro, ele não me larga um segundo, é por mim que ele chama quando acorda de manhã ou quando se destapa à noite, é como se ele ocupasse todo o espaço do meu afecto. Passam hoje quatro anos que deixámos de ser dois para sermos uma casa cheia, de tardes passadas tranquilamente no sofá para pistas de carros e o caos total por onde passa, de saídas a dois para programas pensados para lhe gastarmos energia. Mas no final, o que interessa mesmo são aqueles olhos tão cheios de vida, é ver que, ao contrário de tanta gente no Mundo, a vida dele ainda é fácil, é sentir que posso correr o universo por ele. O meu borreguinho faz hoje quatro anos e tudo o que desejo é que possa continuar a ser livre e feliz, com os seus caracolinhos que ninguém sabe de onde vêm e sua mãozinha que me agarra com tanta força a caminho da escola.

Setembro 19, 2014

Aterrar (definitivamente)

Comecei a fazer as minhas últimas viagens antes de chegar Janeiro e com ele o início da licença de maternidade (oito semanas antes da data prevista do parto). Há qualquer coisa de desconfortável em voar tantos quilómetros grávida. Nenhuma indicação médica me impede de fazê-lo mas, secretamente, gostava que a minha médica o desaconselhasse veementemente. À mínima agitação no avião, o meu primeiro pensamento é para o bebé que ainda aí vem, depois a família que já deixei em terra. Tanto que ficava por cumprir, arrepio-me enquanto tento concentrar-me na música em vez do copo que se agita com a turbulência.

Mas viajar grávida tem a vantagem de que me sinto sempre acompanhada e assim o vazio dos quartos de hotel, as esperas intermináveis nos lounges de aeroportos, as viagens de táxi para todo o lado, os longos minutos que antecedem a descolagem, bem como os que passo à espera do embarque - enfim, todos os momentos até ao regresso a casa - me parecem bem mais suportáveis. Ainda estou numa fase em que barriga apenas se revela em condições muito específicas ou com algumas peças de roupa, de resto julgo ter apenas a minha figura de mulher gorda e por isso o meu estado ainda não me consegue aquela simpatia extra que geralmente se guarda para grávidas e bebés de colo. Como na primeira gravidez, é à noite que sinto a barriga maior, mesmo quase a crescer em tempo real mas ainda não cheguei à fase em que sinto realmente a pele a esticar.

Agora escolho os lugares do corredor em vez das janelas para satisfazer os caprichos da minha bexiga e para não sentir aquele aperto claustrofóbico. Felizmente os voos, mesmo com escalas, não me têm obrigado a correrias aeroporto fora e posso calmamente arrastar a bagagem sem me preocupar em chegar atrasada à porta de embarque. Só tenho o cuidado extra de ter sempre acesso a algum alimento em períodos curtos de tempo para não sofrer com a fraqueza e é tudo.

Tento despachar as últimas visitas o melhor que posso: hoje Luxemburgo-Amesterdão-Madrid, hoje Madrid-Amesterdão-Luxemburgo. Segunda faço Luxemburgo-Zurique-outra-vez-Madrid, Terça o caminho inverso. Lisboa já está nos planos, Barcelona há-de vir a seguir e quem sabe ainda lhe junto umas ilhas Baleares ou, no limite da loucura, podia justificar uma visita às Canárias. Depois disso, o silêncio, o descanso, o progressivo afastamento dos afazeres profissionais para dar lugar à chegada do segundo filho. Adeus aeroportos cheios de gente que discute negócios até o avião descolar, adeus escalas geograficamente absurdas mas economicamente justificáveis, adeus turbulência em maior ou menor grau, adeus reuniões, gravatas e centros de negócio, adeus quartos de hotel mais ou menos reformados com melhores ou piores buffets de pequeno-almoço, adeus pessoas que que se esquecem que o banco à sua frente no avião não é seu, adeus ver os meus miúdos pelo Skype. E olá terra firme, durante muito muito tempo.

Setembro 16, 2014

Para memória futura

A minha avó que me guardava sempre os figos. A minha avó que nunca se zangava conosco mas que ralhava por tudo e por nada com o meu avô. A minha avó com o cabelo com mais jeitos e mais teimoso do mundo. A minha avó que tinha as flores mais bonitas e bem cuidadas do seu bairro. A minha avó que jogava conosco à bisca com cartas que tinham a ponte 25 de Abril atrás. A minha avó que nos fazia café solúvel e bifanas ao lanche. A minha avó que sobreviveu a um cancro quando havia tanta a gente como ela a morrer. A minha avó cozinheira, que adorava contar sempre a mesma história sobre um vizinho e batatas fritas. A minha avó que só aprendeu a escrever já eu andava na escola mas conseguiu finalmente assinar sozinha o que era preciso. A minha avó que pegava no nosso coelho com as mãos de quem fazia aquilo há anos. A minha avó e uma das nossas histórias preferidas: grávida, caindo de uma árvore enquanto apanhava fruta e proibida de continuar a trabalhar depois disso. A minha avó que gostava de poder dar sempre mais. A minha avó cheia de ciúmes nossos por tudo e por nada. A minha avó com paciência de avó e as gavetas cheias de comprimidos que ia comprar a Espanha. A minha avó que achava que a televisão só dava porcaria. A minha avó que ainda guardava a cadeira onde criou o meu pai. A minha avó que se foi abaixo quando o meu avô nos deixou. A minha avó que nos preparava piqueniques para fazermos nas escadas. A minha avó onde passei tantas tardes a sentir o cheiro da fábrica da rolha. A minha avó da tomatada e das batatas fritas mesmo, mesmo como eu gosto. A minha avó dos canários que falavam com ela. A minha avó doceira, sempre a querer encher-nos o frigorífico nas festas. A minha avó que se calhar já não me reconhece.

A minha avó, com um corpo que ainda aqui está mas uma mente que começou a fugir sabe-se lá para onde.

Setembro 10, 2014


Há uma coisa que está a ser bem pior nesta gravidez: a dúvida constante se o coração do bebé está a bater. Acho que na primeira gravidez não me passava pela cabeça que alguma coisa podia correr mal, era claramente inexperiente e, de certa maneira, muito inconsciente. O que era bom, reconheço, porque sempre evitava alguma ansiedade.

Desta vez, embora consuma radicalmente menis literatura sobre a gravidez e o bebé - porque confio mais na intuição e porque percebi no que isso pode fazer ao nosso sentido de orientação - também sei melhor o que me pode ajudar em algumas circunstâncias. Esta é uma delas e eu arranjei maneira de poder diariamente ouvir o coraçãozinho pequenino que anda comigo para todo o lado, alugando um monitor cardíaco fetal. É talvez um exagero, eu sei, mas hoje ao almoço senti algum alívio quando, debaixo do gel, pude ouvir uma batida bem lá ao fundo!

O irmão e o pai puderam ouvir o bebé pela primeira vez (eu tenho a sorte das consultas médicas) mas não fui muito feliz com o Vicente. Sou um bocado inexperiente em achar o bebé na minha própria barriga, o que gerou alguns ruídos desagradáveis e o que assustou o pequeno, que já disse que não queria repetir a experiência. Paciência, hei-de melhorar o meu desempenho e assim o bebé vá crescendo, tornar-se-á mais fácil de encontrar.

Este monitor não substitui os cuidados médicos, é bom de ver, não sou assim tão ingénua. E também é evidente que ouvir o coração a bater não implica que não possam existir outras complicações. Mas o conforto, senhores!, a maravilha que é ir ouvindo aquele tuc-tuc-tuc sem precisar de marcar uma consulta acalmam muitíssimo este coração de mãe! Jusqu'ici tout va bien.

Setembro 02, 2014

Uma resolução de ano novo tardia

Nos últimos dias, esta notícia tem sido desenvolvida e debatida na rádio que costumo ouvir a caminho do trabalho. Um casal reportou na passada Quarta-feira o desaparecimento da sua filha de quatro meses. Depois de alguma investigação e de terem sido ouvidos em separado, os pais passaram a ser suspeitos do desaparecimento da menina - as versões que contavam não coincidiam e apresentavam algumas incongruências temporais. Finalmente, no Sábado os pais confessaram ter morto a criança e levaram os inspectores até ao local onde a tinham enterrado. Era, segundo eles, uma criança que exigia muita atenção, especialmente depois da operação ao coração a que tinha sido submetida há uns tempos. Parece que ao tentar acalmar o choro e desorientação da bebé, algo correu mal e o método aplicado (provavelmente um golpe na cabeça) foi fatal. A bebé apresentava no entanto outros sinais de violência anteriores, que levam a crer que era uma situação que se prolongava já há algum tempo.

Sem, obviamente, conhecer o casal e sem ter qualquer visibilidade sobre as suas condições de vida, sobre o seu passado, para mim é absolutamente assustador que alguém, de cabeça perdida, tente "disciplinar" com este tipo de atitudes um bebé de quatro meses. Mas ao mesmo tempo percebo que, se as circunstâncias se proporcionarem, juntando stress ao desespero de não saber como tratar do bebé, a reacção pode ter efeitos inesperados. Bem sei que, por exemplo, tenho mais paciência para as birras que o miúdo faz durante o dia do que para as choradeiras à noite, em que acordo desorientada e cansada, a precisar de dormir.

A minha resolução é tentar sempre dar um passo atrás nestes momentos mais difíceis, em que há muito choro, teimosia e algum descontrolo nas emoções para conseguir medir a minha reacção face a uma criatura indefesa de três (ou outros) anos. Não tenho medo que me aconteça um desaire fatal, como é óbvio, porque me conheço suficientemente bem para saber quais são os meus limites. Mas sei que facilmente as coisas podem escalar - as manhãs são o exemplo perfeito disso: começam muito bem, a tentar despertá-lo devagarinho e acabam com o desespero de não conseguir que ele faça nada à primeira (levantar-se, vestir, tomar o pequeno-almoço, lavar os dentes, calçar). A minha resolução é tentar sempre vê-lo como uma criança, como uma pessoa que se está a formar lentamente e que precisa de algumas direcções, em vez de um adulto completamente formado que me desafia só porque sim.

Era espectacular se se pudessem fazer testes de vocação a futuros pais ou a quem simplesmente deseja ter filhos. Parte-me o coração lembrar-me do enorme fosso que existe entre os casais que tentam, sem sucesso, ter filhos porque sentem no seu intímo esse chamamento e os casais que desperdiçam as suas oportunidades com crianças saudáveis, ferindo-os fisica e psicologicamente enquanto crescem. É muita injustiça e desequilíbrio juntos. E é assustador estar face a este tipo de situações e perceber que a natureza humana é muito mais primitiva e irracional do que esperava. Com os ritmos de vida que levamos e com todas as dificuldades, acredito que casos como estes sejam mais e mais frequentes. Triste, concentro-me em fazer a minha parte e amar o meu filho com todas as suas e as minhas imperfeições.