Setembro 16, 2014

Para memória futura

A minha avó que me guardava sempre os figos. A minha avó que nunca se zangava conosco mas que ralhava por tudo e por nada com o meu avô. A minha avó com o cabelo com mais jeitos e mais teimoso do mundo. A minha avó que tinha as flores mais bonitas e bem cuidadas do seu bairro. A minha avó que jogava conosco à bisca com cartas que tinham a ponte 25 de Abril atrás. A minha avó que nos fazia café solúvel e bifanas ao lanche. A minha avó que sobreviveu a um cancro quando havia tanta a gente como ela a morrer. A minha avó cozinheira, que adorava contar sempre a mesma história sobre um vizinho e batatas fritas. A minha avó que só aprendeu a escrever já eu andava na escola mas conseguiu finalmente assinar sozinha o que era preciso. A minha avó que pegava no nosso coelho com as mãos de quem fazia aquilo há anos. A minha avó e uma das nossas histórias preferidas: grávida, caindo de uma árvore enquanto apanhava fruta e proibida de continuar a trabalhar depois disso. A minha avó que gostava de poder dar sempre mais. A minha avó cheia de ciúmes nossos por tudo e por nada. A minha avó com paciência de avó e as gavetas cheias de comprimidos que ia comprar a Espanha. A minha avó que achava que a televisão só dava porcaria. A minha avó que ainda guardava a cadeira onde criou o meu pai. A minha avó que se foi abaixo quando o meu avô nos deixou. A minha avó que nos preparava piqueniques para fazermos nas escadas. A minha avó onde passei tantas tardes a sentir o cheiro da fábrica da rolha. A minha avó da tomatada e das batatas fritas mesmo, mesmo como eu gosto. A minha avó dos canários que falavam com ela. A minha avó doceira, sempre a querer encher-nos o frigorífico nas festas. A minha avó que se calhar já não me reconhece.

A minha avó, com um corpo que ainda aqui está mas uma mente que começou a fugir sabe-se lá para onde.

Setembro 10, 2014


Há uma coisa que está a ser bem pior nesta gravidez: a dúvida constante se o coração do bebé está a bater. Acho que na primeira gravidez não me passava pela cabeça que alguma coisa podia correr mal, era claramente inexperiente e, de certa maneira, muito inconsciente. O que era bom, reconheço, porque sempre evitava alguma ansiedade.

Desta vez, embora consuma radicalmente menis literatura sobre a gravidez e o bebé - porque confio mais na intuição e porque percebi no que isso pode fazer ao nosso sentido de orientação - também sei melhor o que me pode ajudar em algumas circunstâncias. Esta é uma delas e eu arranjei maneira de poder diariamente ouvir o coraçãozinho pequenino que anda comigo para todo o lado, alugando um monitor cardíaco fetal. É talvez um exagero, eu sei, mas hoje ao almoço senti algum alívio quando, debaixo do gel, pude ouvir uma batida bem lá ao fundo!

O irmão e o pai puderam ouvir o bebé pela primeira vez (eu tenho a sorte das consultas médicas) mas não fui muito feliz com o Vicente. Sou um bocado inexperiente em achar o bebé na minha própria barriga, o que gerou alguns ruídos desagradáveis e o que assustou o pequeno, que já disse que não queria repetir a experiência. Paciência, hei-de melhorar o meu desempenho e assim o bebé vá crescendo, tornar-se-á mais fácil de encontrar.

Este monitor não substitui os cuidados médicos, é bom de ver, não sou assim tão ingénua. E também é evidente que ouvir o coração a bater não implica que não possam existir outras complicações. Mas o conforto, senhores!, a maravilha que é ir ouvindo aquele tuc-tuc-tuc sem precisar de marcar uma consulta acalmam muitíssimo este coração de mãe! Jusqu'ici tout va bien.

Setembro 02, 2014

Uma resolução de ano novo tardia

Nos últimos dias, esta notícia tem sido desenvolvida e debatida na rádio que costumo ouvir a caminho do trabalho. Um casal reportou na passada Quarta-feira o desaparecimento da sua filha de quatro meses. Depois de alguma investigação e de terem sido ouvidos em separado, os pais passaram a ser suspeitos do desaparecimento da menina - as versões que contavam não coincidiam e apresentavam algumas incongruências temporais. Finalmente, no Sábado os pais confessaram ter morto a criança e levaram os inspectores até ao local onde a tinham enterrado. Era, segundo eles, uma criança que exigia muita atenção, especialmente depois da operação ao coração a que tinha sido submetida há uns tempos. Parece que ao tentar acalmar o choro e desorientação da bebé, algo correu mal e o método aplicado (provavelmente um golpe na cabeça) foi fatal. A bebé apresentava no entanto outros sinais de violência anteriores, que levam a crer que era uma situação que se prolongava já há algum tempo.

Sem, obviamente, conhecer o casal e sem ter qualquer visibilidade sobre as suas condições de vida, sobre o seu passado, para mim é absolutamente assustador que alguém, de cabeça perdida, tente "disciplinar" com este tipo de atitudes um bebé de quatro meses. Mas ao mesmo tempo percebo que, se as circunstâncias se proporcionarem, juntando stress ao desespero de não saber como tratar do bebé, a reacção pode ter efeitos inesperados. Bem sei que, por exemplo, tenho mais paciência para as birras que o miúdo faz durante o dia do que para as choradeiras à noite, em que acordo desorientada e cansada, a precisar de dormir.

A minha resolução é tentar sempre dar um passo atrás nestes momentos mais difíceis, em que há muito choro, teimosia e algum descontrolo nas emoções para conseguir medir a minha reacção face a uma criatura indefesa de três (ou outros) anos. Não tenho medo que me aconteça um desaire fatal, como é óbvio, porque me conheço suficientemente bem para saber quais são os meus limites. Mas sei que facilmente as coisas podem escalar - as manhãs são o exemplo perfeito disso: começam muito bem, a tentar despertá-lo devagarinho e acabam com o desespero de não conseguir que ele faça nada à primeira (levantar-se, vestir, tomar o pequeno-almoço, lavar os dentes, calçar). A minha resolução é tentar sempre vê-lo como uma criança, como uma pessoa que se está a formar lentamente e que precisa de algumas direcções, em vez de um adulto completamente formado que me desafia só porque sim.

Era espectacular se se pudessem fazer testes de vocação a futuros pais ou a quem simplesmente deseja ter filhos. Parte-me o coração lembrar-me do enorme fosso que existe entre os casais que tentam, sem sucesso, ter filhos porque sentem no seu intímo esse chamamento e os casais que desperdiçam as suas oportunidades com crianças saudáveis, ferindo-os fisica e psicologicamente enquanto crescem. É muita injustiça e desequilíbrio juntos. E é assustador estar face a este tipo de situações e perceber que a natureza humana é muito mais primitiva e irracional do que esperava. Com os ritmos de vida que levamos e com todas as dificuldades, acredito que casos como estes sejam mais e mais frequentes. Triste, concentro-me em fazer a minha parte e amar o meu filho com todas as suas e as minhas imperfeições.

Agosto 27, 2014

Sobre os primeiros tempos de gravidez

Da primeira vez, comecei a sentir-me diferente exactamente no dia em que tive a primeira confirmação que estava grávida. Coincidência ou não, já passei essa primeira noite a sentir um borbulhar na barriga como se sentisse finalmente o meu corpo a trabalhar para formar o ser que nasceria uns meses depois. Depois disso, o descalabro: enjoos que não eram exclusivamente matinais, o calor que sentia no autocarro a caminho do trabalho, o sono que me tomava de assalto no trabalho sem que conseguisse manter os olhos abertos, a alergia aos cheiros (principalmente o do marido, coitado, que cheira sempre bem), o cansaço avassalador que me fazia ir à cama quase assim que chegava à tarde a casa.

Tudo passou no terceiro mês, em que como um milagre deixei de me sentir mal e passei a sentir-me no topo do mundo. Desta vez, os sintomas começaram um pouco antes da confirmação mas que eu, como parecia tão difícil engravidar, me despachei a descartar como falsos alarmes. Que não eram, soube pouco depois, claro. Mas a verdade é que a coisa ainda não está fina: tenho alguns enjoos durante o dia e tive um dia ou dois mais cansada mas ainda me consigo controlar bastante bem. Está a ser um pouco difícil explicar no trabalho o que se passa exactamente comigo mas até agora a teoria dos problemas de estômago tem safado a coisa. Creio é que não posso mantê-la durante muito mais tempo mas não queria que se soubesse aqui em primeiro lugar, queria aliás que fossem os últimos a saber.

A diferença gigante da primeira para a segunda é que agora já existe um rapazinho que exige muita atenção, que quer brincar, ajudar na cozinha, saltar em cima do sofá, abraçar-me sempre que pode sem ter noção da sua força. Não posso simplesmente deitar-me e esperar que passe a má disposição, não posso enfiar-me na cama e esperar que os cheiros deixem de ser tão intensos, não posso estar sempre cansada. Especialmente por isso peço aos céus (se lá existir uma entidade divina, melhor) que me deixem passar por esta gravidez com menos desconfortos, para que eu possa equilibrar as coisas e tratar do menino que está cá fora tão bem como a semente que está cá dentro.

(escrito no dia 10 Julho)

[actualização]

Foi mais ou menos um mês e meio de muito desconforto e de baixa médica. As náuseas eram demasiado fortes para conseguir sequer estar sentada mas ainda me devo sentir sortuda porque nunca vomitei. Não conseguia concentrar-me em nada que exigisse muita atenção, os dias passavam e eu sentia-me como se estivesse num pesadelo, muito calor e suores, de vez em quando a conseguir ver a realidade. A médica tentava acalmar-me, dizendo que tanta náusea era um bom sinal, era sinal de que as hormonas estavam a trabalhar bem e de que a gravidez estava firme mas eu queria lá saber. Sem medicamentos, tentei sobreviver o melhor que pude, mesmo com uma disposição de cão. E só me lembrava da minha ex-colega P., que me contou que na sua primeira gravidez vomitou e teve enjoos os nove meses certinhos! Eu podia lá aguentar essa provação!

Mas agora estabilizou. Não posso dizer que estou fina e livre desta má disposição mas a verdade é que já consigo trabalhar, não me sinto tão derrotada e fragilizada como há duas semanas atrás, já consigo estar sentada por uma quantidade simpática de horas. Mais ou menos como esperava, esta gravidez é bastante mais visível que a primeira e por isso, com apenas três meses, já se vê bem que qualquer coisa está a acontecer. Até à semana passada, fazia algum esforço para a esconder mas agora, que pude dizê-lo em voz alta e informar quem precisa de ser informado, já posso exibi-la com orgulho. E agora é esperar que os desconfortos se manifestem mais timidamente para eu poder viver o segundo trimestre com todo o esplendor que lhe corresponde. Até já azia e dores em todos os ossos, vemo-nos já no final!

Agosto 26, 2014

Outono em Agosto

Este fim de semana voltámos a meter o edredon na cama. Faz muito frio à noite e as manhãs não aquecem tão facilmente. Os rapazes já não saem de casa sem os seus casacos e na maior parte dos dias sem os seus guarda chuvas. Eu sei que as manhãs não estão propriamente agradáveis mas já vi pessoas de cachecol e luvas, o que prova a minha teoria de que há pessoas que não conseguem ver uma nuvenzinha sem pensar que já é Inverno. Não é mas também já não é Verão, acho que todos aqui o sabemos.

Quando tomo o pequeno-almoço na cozinha ainda silenciosa, olho lentamente pela janela e vejo que há já muitas chaminés a lançar aquele fumozinho para o ar, sinal de que o aquecimento já está ligado em algumas casas. O Verão acabou mas eu pergunto-me como, se nunca chegou realmente até aqui. Se calhar é este o resultado de um Inverno com apenas um dia de neve, se calhar os homens andam mesmo a brincar lá nas nuvens – seja como e porque for, a verdade é que está tudo trocado.

De vez em quando, uma trovoada. Todos os dias o céu a alternar entre inúmeros graus de cinzento, mais ou menos vento, intervalos de aguaceiros e chuva a sério, o miúdo que de repente ganhou medo à chuva e não consegue dormir enquanto a ouvir fustigar a janela. Não sei, honestamente, se já estou habituada a isto, mais de dois anos depois. Vim para cá com aquele peito inchado de quem diz que uma pessoa se habitua a tudo, basta querer, só porque tinha vivido seis meses em Berlim. Mas esses seis meses eram apenas isso, um curto intervalo após o qual eu sabia que iria regressar e por isso não me importava tanto com os dias a escurecerem às quatro da tarde. Viver em Berlim era cool, viver no Luxemburgo nem tanto.

Pergunto-me se algum dia me vou realmente acostumar a isto. Nem sequer penso se vou gostar porque isso está completamente fora de questão. Não vou negar que há um certo encanto no aquecimento central por todo o lado, que nos deixa confortavelmente apreciar o frio que faz lá fora. Eu sou uma alentejana de Verões de quarenta graus, do alcatrão a borbulhar, das tardes passadas em casa com tudo fechado para enganar o calor - não sou uma mulher de temperaturas de um dígito e a minha serotonina agradecia viver num sítio com Verão all year round.

Agosto 25, 2014

O segundo tarda mas não falha <3

Depois de um ano e meio de alguma frustração e tristeza, respiramos finalmente de alívio. Não é fácil, ter toda a gente a achar que o segundo filho é o passo mais natural e esperado para quem tem o primeiro e ter, ao mesmo tempo, um corpo que, por capricho ou alguma sabedoria que não está ao nosso alcance, simplesmente não quer colaborar.

Carrego o nosso segundo filho na barriga. Ainda não é mais do que uma mistura confusa de células, ainda sem um coração que bate mas é um filho e de repente já sinto amor por uma criatura que ainda está por formar. Um filho tão desejado, mais do que isso, o irmão ou irmã que queríamos para o primogénito. O nosso filho, que vi hoje numa bolsinha no meu útero quando procurava uma segunda opinião para o nosso decréscimo de fertilidade - ia lá perguntar o que devia fazer para engravidar e saí de lá grávida. A médica brincou, dizendo "Viu como sou boa? Isto tudo só numa consulta!" e eu a rir como uma pateta que não percebe o que lhe está a acontecer. Um filho, uma semente, um feijão sem nome nem género, um pré-embrião que ainda tem que lutar com toda a sua força para crescer e para tornar-se no bebé que tanto esperámos.

O primeiro filho foi tiro e queda: um mês a tentar e uma gravidez logo assim de mão beijada, eu a sentir que transbordávamos fertilidade e que afinal era tudo mais fácil do que parecia. Nunca me vou esquecer do primeiro, do segundo, do terceiro teste de gravidez, assustada com uma dádiva que tanto tinha buscado, incapaz de raciocinar claramente e a alternar entre o medo e a felicidade maior que já senti. A primeira gravidez tão desajeitada, os enjoos que passaram a correr, a azia no final, o trabalho de parto que quase terminei sem dar por isso, o bebé chorão e cheio de personalidade que me roubou o sono desde o dia em que nasceu e eu fiquei em pleno transe naquele quarto da CUF Descobertas. O filho que é tudo para mim, mesmo nos dias em que me sinto exausta e uma mãe do pior, o filho cujos olhos brilham em tudo o que faz, um filho saudável e livre e reguila que gosta de mim sem qualquer reserva.

E agora o segundo. Ou a segunda, toda a gente sabe que isso não interessa. A segunda semente que deixamos no Mundo, a repetição de um projecto que vai terminar numa pessoa tão completamente diferente mas igualmente amada por nós. Um segundo filho, caramba, parece que não posso acreditar! O acalmar dos dias e dos meses a passar sem sinais de gravidez, a procurar ajuda médica, a tentar sorrir à malta que nos dizia que já era hora, que havia que tentar outra vez. E como queria que chegasse essa segunda vez e como queria que o meu corpo me obedecesse cegamente sem me fazer duvidar! Nada interessa: vamos ter outro filho. Vou cheirar e embalar outro bebé, provavelmente vou perder a cabeça outra vez, vou cansar-me e chorar, descontrolada com as hormonas, vou levar muito tempo a conhecer esta nova pessoa que está para chegar. Nada importa: dentro de mim, uma pessoa pequenina, um projecto de pessoa na realidade que eu vou amar incondicionalmente e que certamente retribuirá esse amor. O nosso segundo filho!

(escrito no dia 7 de Julho)

Agosto 19, 2014

Entre tres tierras


Na minha cabeça é já oficial: o Verão acabou. Sim, é verdade, mesmo que em Portugal as temperaturas teimem em não descer dos trinta graus, mesmo que só vejamos Sol e muito calor, aqui a coisa já deu o que tinha a dar. E este fim de semana já foi um belo exemplo do que nos deve esperar nos próximos tempos. Portanto, este ano no Inverno tivemos apenas um dia de neve e no Verão quase apenas um dia de verdadeiro calor - o resto dos dias são de uma gigante indefinição entre uma Primavera já gelada e um Outono desastrosamente chuvoso.

Este fim de semana veio mesmo a calhar para alguém como eu, que andava há muito a precisar de arejar as ideias. Já o tínhamos marcado há bastante tempo, creio que ainda na ilusão de que lhe podíamos chamar um fim de semana de Verão no campo. Lá pelo campo andámos nós, em ruas em que um lado pertencia à Bélgica e o outro à Holanda, onde se ouvia falar quase exclusivamente Neerlandês e onde mal se falava Francês. 

A cada visita que passa dou comigo a gostar mais da Bélgica e especialmente da zona das Ardenas. É impressionante o verde daqueles campos (embora não seja de admirar, se pensarmos nos litros de chuva que caem por estas bandas...), a calma e o silêncio, os memoriais da Segunda Guerra sempre à espreita em qualquer cruzamento, as casas de pedra que afinal são feitas de madeira, os jardins bem cuidados e os sinais de vida nas ruas, mesmo aos Domingos. Estes sítios são impecáveis para quem tem miúdos, que podem saltar nas poças deixadas pela chuva, mexer em gatos felosos e não tão felosos, ver burros, galinhas e galos de perto, praticar os desportos em dois pedais. E também não são menos espectaculares para pessoas que precisam de sair da rotina, que precisam de respirar fundo e mandar más vibrações para trás das costas, que precisam de se distrair. E foi isso que fizemos. Com castelos à mistura, bons amigos, moules e frites (está claro!), manhãs a ver o atletismo colados à televisão, cozinha holandesa e, para terminar em beleza, uma açorda para matar saudades! Depois? Foi respirar fundo, fazermo-nos à estrada e ignorar que a vida real voltava na manhã seguinte. Agora é esperar até à ocasião seguinte.

Agosto 04, 2014

(Um intervalo neste gigante parêntesis)

Ainda aqui estou, mesmo que não pareça. Olho para a data da última publicação que fiz e assusto-me quando vejo que foi já há quase um mês! Acho que foi o período mais longo que passei sem escrever aqui.

Não desisti disto, a questão não é essa. Não me passou pela cabeça acabar com este espaço de partilha, que já tanto me trouxe. Só que estou num sítio muito confuso neste momento - falo da minha cabeça, claro - e não arranjo forma de me expressar de uma maneira clara, sem alarmismos nem sentimento e emoção a mais. E ainda por cima, como se toda esta confusão interior não chegasse, também não me sinto preparada para verter isto cá para fora. Se alguma mudança realmente tiver existido nos últimos tempos, é esta: não consigo abrir-me e também não acredito que estas coisas sejam interessantes para os leitores.

Fomos de férias e já voltámos. O que dizer? Eu podia fingir que não estou sempre à espera de pisar solo português mas estaria a mentir. As viagens correram com grande tranquilidade ( muito graças ao nosso homenzinho, que se portou à altura, poupando-nos a birras ou choros desnecessários e sempre empolgado para ambas as direcções. Optámos por dormir uma noite no caminho para cada lado para evitar o cansaço dos dois mil quilómetros. Dividimo-nos entre Lisboa e Portalegre e o tempo (mais uma vez) foi insuficiente para tudo o que queríamos fazer e todos os que queríamos ver. E neste capítulo, ainda estamos longe de fazer o melhor: embrulhamo-nos em tantos compromissos que acabamos por não ter verdadeiramente momentos de descanso, o último propósito das férias. Não sei se alguma vez aprenderemos a fazê-lo ou se continuaremos a falhar mas a verdade é que o balanço entre gente que queremos ver e descanso de que necessitamos é incrivelmente difícil de manter.

Pudemos pelo menos apanhar ar. Pudemos comer junto ao mar, almoçar na tasca dos vizinhos lá ao pé de casa, tomar banho de mar e piscina. Pudemos tratar de burocracias que exigem a nossa presença em Portugal, pudemos ver alguns amigos (e partimos tristes por falharmos outros mas sabemos que todos têm as suas vidas e chegarmos nós a destabilizar é dose), demos saudades a matar à família que, como sempre, nos acolheu cheia de mimos e recordações comestíveis/bebíveis que enchem o nosso coração (e estômago!) agora que regressámos. Nunca chega, a verdade é essa. Por muito que tentemos condensar tudo em tão poucos dias, nunca é suficiente e os dias parecem mais curtos nestas alturas.

Pelo meu lado, tive um momento de revelação e desabafo que me aliviou mas abalou um pouco. Era espectacular que pudessemos ter sempre a certeza de tudo e estarmos totalmente confiantes nas nossas decisões e escolhas. O tempo tem-se encarregado de me mostrar que nem sempre as coisas funcionam assim, com toda a dificuldade que estes momentos implicam. Imagino que a seu tempo conseguirei falar de tudo quanto me tolda a visão agora mesmo, que poderei racionalizar o que me parece agora um amontoado de emoções à solta e que me tem dificultado a verbalização das coisas. Tempos estranhos, estes e fico-me agora por aqui. A seu tempo, tudo se ordenará.

Julho 10, 2014

Mesmo à émigrant

Este ano, e para ser um bocadinho diferente das visitas até aqui, resolvemos ir de carro para Portugal nas férias do Verão. Não vamos em Agosto, é certo e por isso se perde alguma daquela mística, mas os dois mil quilómetros cá cantarão outra vez em cada direcção. E claro, sempre se poupam uns seiscentos euros em bilhetes de avião, a que se sumariam uns cento e cinquenta de um carro alugado, o que é sempre de considerar

Primeiro tínhamos pensado em fazer a viagem pelo Sul de França e de Espanha. Pegávamos no carro e íamos pela costa, parando nas praias onde nos apetecesse tomar banho, suspirando com as piturescas aldeias à beira mar. Mas depois, quando pensávamos no número de dias que tínhamos para fazer as viagens e em todas as coisas que gostávamos de fazer em Portugal, a conclusão pareceu-nos óbvia: é impossível, estamos malucos ou quê? Então refizemos o percurso (ainda nada verdadeiramente decidido) e agora está claro que vamos direitos como uma seta a nosso rectângulo mais querido.

Vou já dizer: não vamos de Mercedes. Nem de BMW nem outro carrão so género. Chegaremos a Portugal no primeiro carro novo que pudemos comprar com o nosso dinheiro, feio ou bonito, potente ou a soluçar pelo caminho. Não pretendemos impressionar, apenas poder chegar a casa e encher a mala com as coisas que nos têm feito falta aqui. Na minha cabeça, uma imagem: três garrafões de azeite, um frasco de tempero de açorda, bacalhau. É o lugar comum mais verdadeiro da vida de emigrante, parece-me. São coisas difíceis de encontrar aqui ou, se se podem encontrar, vendidas a preços astronómicos e com bastante menos qualidade. Também queremos dar uma volta a todas as coisas que deixámos para trás quando decidimos sair. Naquele dia em que me meti ao caminho com o nosso amigão, tinha na mala da velha carrinha apenas aquilo que considerávamos essencial para recomeçar. Vivemos até aqui sem muita coisa que ficou em Portugal e daremos tudo o que acharmos dispensável, que imagino ser grande parte. É uma ideia libertadora e que pode certamente ajudar pessoas que precisam.

Então e fazer uma viagem com o gaiato reguila de três anos? Pois, não sei. Eu confio nos poderes da canetas de feltro, dos lápis de cera, dos desenhos animados para distrai-lo das longas horas de viagem. A ansiedade seria muito maior se ele fosse mais pequeno e mais irascível, acho que dificilmente arriscaríamos fazer uma viagem destas. Mas dizer-lhe que vamos a caminho de Portugal, a caminho da nossa casa e das casas dos avós, a caminho da praia e da piscina, a caminho de algum Sol (que espero dure até que voltemos) deve chegar para o acalmar de vez em quando.

Ainda faltam uns dias mas claro, a minha cabeça já está em contagem descrescente. E de vez em quando vou-me lembrando de coisas que quero mesmo trazer para cá. Que pena não conseguir arrumar o meu país na mala espaçosa do nosso carro.

Julho 06, 2014

Pensar pensar pensar

Eu gostava de ter nascido noutro tempo. Correndo o risco de parecer mal agradecida ou mesmo de ser mal interpretada, eu gostava de ter nascido noutra época. Gostava de ter um trabalho para a vida, anos inteiros sem me preocupar com a falta de estabilidade, com ou sem progressão de carreira, mesmo não tendo escolhas. Gostava de viver num tempo em que não se pensava tanto no que se gostaria de fazer, aceitava-se a vida como ela é e os sacrifícios que fazem parte dela.

Viver hoje, trabalhar nos dias que correm é, no meu caso, uma luta desigual entre o que se tem que fazer para viver e o que se gostava de fazer. Com a agravante de eu não ser uma pessoa muito inclinada a correr riscos, de me faltar a imaginação e alguma coragem para conseguir viver exactamente da maneira que idealizo. Viver hoje é aceitar o que o mercado nos dá e fazer o melhor possível com a educação que foi sacada a ferros e no fim valeu de muito pouco. Eu bem sei que estudar nos abre imensamente os horizontes; o problema é que, em casos como o meu, não abre muitas portas profissionais na área. E por isso se vai fazendo de tudo.

A caminho dos dez anos de trabalho, acho que nunca me senti totalmente realizada profissionalmente. Por um lado, eu aceito que a primeira necessidade é ganhar dinheiro, porque há que comer e vestir e agora um filho. Mas por outro a violência destes sacrifícios vai-se tornando cada vez mais difícil de aguentar. Os dias, os anos passam e eu só me vejo cada vez mais longe da vida simples e com significado com que sonho. Não me interessa o status quo que me traz um emprego, longe disso. O que eu mais gostava de fazer era acordar todos os dias de manhã e não me arrastar até um emprego onde eu não pertenço e onde não posso verdadeiramente cumprir-me na totalidade. Tempos difíceis estes, em que há demasiado espaço para pensar, em que felizmente há bons exemplos de quem se deixou de coisas e se dedicou a uma vida mais tranquila e útil. Adorava que existisse um manual para se seguir a intuição sem deixar danos pelo caminho e sem pôr em risco as pessoas que estão à nossa volta. E também saber como se equilibra aquilo que se sonha para nós com aquilo que o outros sonham para si mesmos. Que a resposta não tarde a chegar.

Junho 26, 2014

Dias de Sol



Eu gostava que todos os dias fossem assim. Que fossem fáceis e cheios de Sol e eu me enchesse sempre de vontade de levar o miúdo ao parque porque afinal não está a chover e é quase um crime ficar em casa. Gostava de não ter de pensar no almoço e de seguida no jantar e na roupa que ficou por tratar, bem como o chão a precisar de uma aspiradela. Dias em que me posso sentar num banco à sombra e ter a sorte de ler um ou dois capítulos de um livro sem que ele se aborreça de estar a brincar ou em que falamos do medo que ele ganhou a moscas e de como gosta de correr atrás de borboletas. Mesmo que ele me faça levantar mil vezes do banco para empurrá-lo no baloiço porque insiste que não quer aprender a dar balanço, ainda que às vezes já o faça inconscientemente.

Nestes dias, consigo fazê-lo esquecer as birras e que seja razoável. Talvez porque esteja Sol e a temperatura amena e isso também o amoleça como a mim. Ajuda-me nas compras e a única exigência que faz é segurar os seus iogurtes até chegarmos à caixa. Vamos no carro e quer ensinar-me a conduzir, não é assim mãe, tira daí a mão, faz pisca! Eu rio-me e ele pensa que já sabe muito sobre condução. Com tempo para explicar-lhe a sequência do que vamos fazer, consigo que aceite sair do parque sem birra e almoce sem as suas esquisitices, ele que na escola come tudo e duas vezes e em casa não pode ver uma graínha do tomate no prato que é logo razão para começar a bufar. Já não dorme a sesta, é verdade, e que jeito me daria ainda deitá-lo umas boas duas horas só para ficar no sofá a sentir o silêncio! Mas em compensação vai brincando nos bocadinhos em que se esquece de mim: caso contrário, cola-se a mim como se não me visse há meses. Eu sou o parque infantil preferido dele, mesmo que muitas vezes chegue ao final do dia completamente derreada pelas voltas que ele me dá.

Nem todos os dias podem ser assim porque a vida real leva muitas vezes a melhor e há pouco tempo a dividir entre as tarefas caseiras mínimas, a alimentação que não pode faltar, o banho que ele agora detesta mas que é absolutamente necessário depois de um dia de piratices na escola, os momentos de relaxamento pós-jantar. Às vezes gostava de não me sentir tão cansada para as coisas mais simples mas as coisas são como são e vamos vivendo um dia de cada vez, que é a única maneira de seguir em frente sem perder o juízo.

Junho 17, 2014

Memórias (para quem tem pouco jeito para o DIY)


É mesmo assim: quem não tem cão, caça com gato. Eu, já o disse algumas vezes, não tenho jeito para os trabalhos manuais. Não coso, não pinto, não construo, só me sobrou um gostinho pela cozinha. Também não tenho boa voz para cantar e para tocar alguma coisa ainda me falta o tempo e a paciência para treinar muito. Só que às vezes tenho ideias e desenrasco-me a concretizá-las, mesmo que à minha maneira.

Desta vez nasceu um livro com uma história em imagens daquilo que o Vicente tem feito, países que tem visitado, disparates e momentos doces que eu e o pai vamos coleccionando digitalmente. Eu adorava fazer muito mais: gostava de ter filmes, de lhe gravar as conversas que começam a ser longas e cheias de argumentação que só faz sentido naquela cabecinha. Gostava de lhe desenhar livros e talvez ainda possa pensar em escrever-lhe uma história mas agora interessa-me mesmo que ele possa ter objectos que lhe contem a história que é a dele e, em última análise, também a nossa. Todos nós conhecemos aquele amigo que não tem nenhum álbum ou os outros que têm tudo e mais alguma coisa mas todas as maneiras são boas e válidas para guardar recordações. Agora já abrandámos muito as fotografias porque nos primeiros tempos era literalmente demais: estávamos mesmo sempre prontos e de máquina em punho.

As ideias vão surgindo naturalmente. O primeiro livro privilegiou as palavras, este segundo fica-se pelas imagens, que também dizem muitíssimo sobre o que têm sido estes anos com ele. Reparei que não tem quase nenhuma fotografia de birras ou de momentos menos bons mas não é de maneira nenhuma intencional: acho que nunca me ocorreu pegar na máquina quando ele está a berrar desalmadamente ou quando bate os pés se não acedemos a algum pedido! E de repente já estou a pensar no que posso fazer a seguir!

Junho 16, 2014

Luxembourg, mon amour


Eu, quando não estou a morrer de saudades do Sol de Lisboa e das suas calçadas, becos, fachadas, avenidas, rio, restaurantes, subúrbios e colinas, estou ocupada a gostar do país onde me vi exilada desde o primeiro dia de Primavera do anos de 2012. E, por muito que me custe a distância (sim, é já sabido, custa-me), sinto que é o meu dever exaltar a beleza, o silêncio e a tranquilidade deste pequeno grão ducado, entalado entre a Bélgica, a França e a Alemanha.

O Luxemburgo pode não ter mar nem um rio que se veja (este das imagens não conta); pode não ter as altitudes suficientes para ter um miradouro digno desse nome (bem, alguns castelos podem desempenhar esse papel); pode não ter uma capital com mais de cem mil habitantes. Mas tem coisas em abundância: os campos cultivados e verdes todo o ano (excepção feita à época da neve); riachos que correm livres e a que o comum mortal tem acesso sem precisar de uma licença ou bilhete especial; aldeias em que quase podemos tocar a paz que se faz sentir; boas estradas, que vão ficando cada vez mais vazias quanto mais avançamos para Norte. E também guardou nesta zona do país um número bastante razoável de memórias da Segunda Guerra Mundial, que ajudam a não apagar da História o que a Europa viveu nesse período.

Há uns anos atrás, eu achava que não conseguiria sobreviver no campo mas neste momento não há nada que eu deseje mais do que o som do ventos nas espigas, o horizonte salpicado por eólitos, as Ardenas mesmo aqui ao lado, o tempo que parece não existir nestas aldeias isoladas. Eu ficava bem contente se pudesse ter acesso aos bens de primeira necessidade e à educação do miúdo e estar longe do resto. Salvaguarda-se, claro, que também tivessemos acesso aos nossos meios de subsistência, que eu cá não acredito (totalmente) na história do amor e uma cabana. Se eu não sentisse tanta falta de Lisboa, daquela maneira que quase dói fisicamente, era aqui que eu não me importava de estar, quem sabe se finalmente conseguindo manter uma horta por mais de duas semanas, com direito a animais de estimação e um grelhador para os dois ou três dias de Verão que passam por aqui. Por isso, nos nossos passeios não me limito a ver ou admirar: acho que sonhar é a palavra que descreve melhor o estado em que fico nestas viagens por aí.

Junho 12, 2014

Pequenas coisas *

Eu tenho um certo problema com a escrita: parece-me que apenas sou capaz de escrever sobre aquilo que vivi ou aquilo que sei, é como se de repente a minha imaginação tivesse desaparecido para parte incerta e eu não conseguisse mais fantasiar sobre nada. Por isso é-me mais fácil escrever estas pequenas crónicas sobre o quotidiano, sobre os sítios longínquos que visitei, os sítios familiares onde me movo, as pessoas que me vão transformando, os desafios e desgostos profissionais, o país com que sonho e o país que me abraçou. É claro que esta espécie de deficiência ou de falha não é impeditiva, posso escrever mesmo assim mas não posso criar tão livremente como eu sonhava. Mesmo assim, não penso que seja uma condição definitiva: é mais o resultado de falta de treino e de disciplina do que apenas inaptidão minha. Pelo menos, é no que quero acreditar.

De qualquer maneira, de vez em quando aparecem pessoas que, escrevendo sobre a sua vida, descrevendo apenas episódios aparentemente banais e desprovidos de qualquer sentido revelador, me conquistam e eu, limitada pela minha aparente falta de imaginação, passo a acreditar que o que é realmente importante é a maneira como se contam, como se escrevem, como se olham as coisas. Não importa fantasiar se o resultado se traduz desastrosamente num par de linhas sem sentido, se o leitor não sente a urgência de continuar a ler. Já li um pouco de tudo, mais ficção do que não ficção, é claro, e sei que o que interessa é a maneira como as palavras nos transportam para um sítio fora de nós, real ou imaginado. Mas as histórias banais, os relatos de vidas de gente como nós, mesmo que necessariamente misturadas com o reino da fantasia (porque já não contamos as coisas como realmente se passaram mas como achamos que se passaram, com tudo o que de adulteração isso traz à escrita) têm a vantagem, chamemos-lhe assim, de funcionarem como uma espécie de espelho, eis-me reflectida na miséria do outro, eis que a minha história não é tão especial, eis que alguém parece saber exactamente do que falo. E eu sinto-me perto destas pessoas, das que sentem coisas que podem ser mal interpretadas, que reconhecem a distância a que estão da perfeição, que falham mas que voltam a tentar, que não se incluem exactamente nos cânones do comportamento exemplar, que são ainda necessariamente um pouco ficcionadas mas dolorosamente reais.

Eu nunca fiz parte realmente de um grupo ou um tipo de pessoas, pelo menos é assim que me vejo. Eu sou, nos meus padrões, uma pessoa aborrecidamente normal mas até a gente como eu acontecem coisas na vida, há acontecimentos que nos marcam para todo o sempre, há sonhos em que gritamos mas queríamos esquecer, há tristeza e melancolia em doses industriais, assim como brilhos nos olhos com as coisas mais pequenas, há maneiras peculiares de sentir e gostar e aprender, há desgostos, incertezas e conquistas que nos trouxeram até aqui, até ao tempo presente. Se calhar é isto que explica a empatia que sinto pelas pessoas normais, com vidas normais, com lutas normais e que sinto um inexplicável abismo entre mim e as pessoas com vidas perfeitas, idealizadas até à náusea, a quem tudo sorri mesmo naqueles dias em que apenas nos apetece mandar o mundo à merda, perdoem-me a expressão. E hoje em dia há cada vez mais gente assim e eu sinto-me cada vez mais longe dessa pantomina. Eu sou chata e real mas isso não significa que a minha vida seja desprovida de emoções, episódios, charadas. E por isso fico presa nessas pequenas coisas, naqueles momentos que nos tornam mais reais, um pouco mais humanos, cheios de dúvidas e a precisar de confiar na nossa intuição.

* porque comecei a ler este livro e de repente sinto-me ligeiramente assombrada pela simplicidade e riqueza de uma vida normal.