novembro 24, 2016

Às vezes somos só três

Os dias estão cada vez mais curtos. Saímos os três de casa ainda é noite e entramos quando já não se vê um palmo à frente. De manhã, aquele vento frio que quase corta, o vizinho que sai com a primeira roupa que lhe apareceu à frente para ir buscar o jornal à caixa do correio, Moien, saluda ele, para depois seguir o diálogo em Luxemburguês com o mais velho. Já viu o frio?, arrisca ele para mim em Francês e lá nos começamos a lamentar daquilo que não é nenhuma surpresa aqui: caminhamos a passos largos para o Inverno e faz frio. À tarde, os corvos que começam a escolher em que telhado vão pernoitar, vultos negros que se confundem com o céu da mesma cor, a pequena agitada, virando a cabeça para tentar acompanhá-los, dizendo adeus, até amanhã passarinhos.

Noites há em que somos apenas o três até ao jantar. Birras, fomes, vontades de brincar, sopas de abóbora e tartes de atum por fazer, a roupa que ficou por passar no fim de semana - tudo compete pela minha atenção. Ganham sempre eles e eu permito-me respirar quando os enfio aos dois na banheira, ela voluntariamente, ele quase sempre à força, que agora tudo é razão para fazer valer a sua vontade. Dias em que a minha capacidade de negociação é brilhante, a minha organização impecável, a paciência infinita. Dias em que choram os dois assim que entram em casa, o banho também é passado a chorar, querem comer mas não querem comer, há molho por todo o lado. Comum apenas o momento em que se deitam e em que, com sorte, me posso sentar em silêncio. Com o pai é quase o mesmo mas há mais dois braços para dar aquele colo que faz falta.

Móveis, paredes, caixilhos das portas, sofás - a nossa casa é a tela dela. Tudo o que ele não pintou nesta idade, ela está a fazer o favor de pintar. Bolas, balões, chuteiras, aquele gesto que o Ronaldo faz quando marca um golo - é aquilo que o interessa ultimamente. Não que não consiga sentar-se a ler um livro, sozinho, em silêncio, por sua iniciativa. Mas normalmente isso apenas acontece quando lhe pedimos, pela enésima vez, para não jogar à bola em casa. Ele, a querer colocar a louça na máquina, a querer cozinhar e lavar a louça, a pedir apenas para ajudar. Ela a dançar enquanto descasco a abóbora para a sopa, desafiando-me, Jamie XX a encher a cozinha e ela a mexer as ancas como o pato Donald.

Nos dias bons, ela adormece cedo e ele sobe comigo. Os dois no sofá, partilhando uma manta, ele nos momentos mimosos, Mãe quero estar ao pé de ti para sempre, falamos das profissões dos membros da família, do Gordo e da guerra, de agradecer pelo que temos e às vezes sobre a morte. Chora quando pensa que eu vou morrer e ele vai deixar de ter mãe. Eu explico que ele nunca deixará de ter mãe mas luto para não chorar quando penso que um dia os vou deixar sozinhos. Ele lendo as legendas, aprendendo a juntar as letras em voz alta, enquanto tenta deitar-se sobre as minhas pernas. Com sorte, ela dorme profundamente quando o levo para o quarto e não dá pela nossa entrada. Ele pede-me que o acorde de manhã, mesmo sabendo que vamos brigar como fazemos todos os dias.

Ao pé da nossa vida, todas as coisas parecem perder o significado. Faço um esforço por ter a cabeça no momento e saborear a sério estes dias em que eles crescem sem se ver. Tento esquecer que me canso durante o dia e que me começa a doer a bacia e que já não encontro posição garantidamente boa para dormir e pergunto-lhe como correu o dia e abraço-a quando a vejo exausta. Sei que muitas vezes podia fazer melhor mas o meu compromisso é com o aqui e o agora, um fim de tarde de cada vez, enquanto somos apenas três.

novembro 19, 2016

Dias para esquecer (mas também para lembrar) para sempre

O Vicente foi ontem operado. Nada de grave, totalmente programado mas apenas com um senão: era obrigatória a anestesia geral. Quando a médica nos disse, na primeira consulta, perguntámos se não existia alternativa, já que ele é tão pequeno - não existe.

Embora a operação não fosse complicada e fosse parte questão de saúde, parte estética, a ideia de ter um miúdo de seis anos debaixo de uma anestesia geral foi difícil de aceitar. A médica garantiu-nos que era um procedimento corrente no hospital, que todo o corpo clínico é (evidentemente) devidamente qualificado e até nos descansou dizendo que há uns tempos uma anestesista portuguesa se tinha mudado do hospital Dona Estefânia para a Kannerklink, onde o Vicente ia ser operado. Explicou-nos detalhadamente a intervenção e rapidamente escolhemos a data.

Chegámos ao hospital às sete da manhã, ainda escura como o breu, com a chuva a cair em chicotadas violentas sobre nós e um vento a soprar, selvagem. Chegámos antes da hora mas o quarto já estava pronto e não demorámos a instalarmo-nos. No início da semana, tínhamos visto uma enfermeira e a médica anestesista, que nos explicaram em pormenor como tudo se ia passar e nos deram material para explicar ao Vicente. Lemos com ele um livro criado especialmente criado para explicar às crianças como se processa a anestesia, ele fez muitas perguntas mas compreendeu tudo e estava tranquilo. Ele não teve medo.

Primeiro, um creme anestesiaste na mão para preparar a entrada do cateter; depois, um xarope calmante para controlar a potencial agitação de se ver num meio estranho, rodeado de pessoas estranhas. Um túnel que me pareceu interminável entre a clínica pediátrica e o hospital central, onde fica o bloco operatório. Eu a caminhar ao lado da cama dele, ele já a delirar um pouco e a ver coisas fantásticas em todo o lado. Deixaram-me entrar com ele na sala de recobro, onde esperámos pela anestesista que o levou para a sala de operações. Foi doloroso vê-lo tão alterado, sob o efeito das drogas, calmo mas já planando sobre aquela sala onde se misturavam crianças e adultos à espera e de volta das suas operações. Calhou-nos a rapariga portuguesa, que me tranquilizou e explicou tudo em Português. Deram-me um telefone para poder sair, tomar um café e prometeram que me ligavam assim que ele estivesse de volta ao recobro. Já não havia volta a dar: tive de o deixar sozinho e confiar nas mãos daquelas duas pessoas que empurravam a sua cama. Ele, tão pequenino, agarrado ao seu doudou, sem medo, a beijar-me enquanto me dizia até já. Eu a deixar aquela zona para trás, despindo a bata e engolindo as lágrimas com toda a força que tinha.

Ao todo, esperei por ele uma hora e meia. Bebi um chocolate quente, li bastante e tive sempre o olho em cima daquele pequeno telefone, esperando que ele tocasse o antes possível. Quando me ligaram, apetecia-me chorar outra vez e corri para os elevadores. Na sala de recobro, ligado a monitores e respirando com uma máscara, o meu homenzinho era o filho mais frágil do mundo. Tive que chorar: virei-me de costas para a enfermeira de serviço, senti-lhe o corpo quente e chorei: parecia tão debilitado. Senti-me estúpida, afinal ele estava bem, apenas ainda sob o efeito da anestesia mas não consegui conter os nervos. Pensei em todos os pais que estão assim à cabeceira das camas de hospitais, com miúdos mais novos e mais velhos, a recuperarem de doenças graves e apenas de sustos e agradeci, do fundo do coração, a imensa sorte, a lotaria cósmica de ter dois filhos saudáveis.

Ele acordou de repente mas sabia onde estava. Disse-lhe apenas que tudo tinha terminado e que agora era preciso sossegar. Ele aguentou-se como um valente e só choramingou quando, completamente cheio de sede, percebeu que não podia beber nada imediatamente. As enfermeiras deram-me os parabéns, ele tinha-se portado lindamente. Passámos o resto do dia no hospital para garantir que tudo estava de volta ao lugar certo. E estava, eu tinha o meu badeja de volta <3 p="">

novembro 16, 2016

E agora, sucumbir àquelas teorias de auto-ajuda

Vamos lá a ver: eu sempre desconfiei de todos os livros de auto-ajuda e até mesmo desta nova moda de sessões de coaching. Principalmente porque acho que o que resulta para mim será muito diferente do que resulta para as outras pessoas, mas também porque sempre achei que devia ser eu a ajudar-me a mim mesma. Estão a ver todos aqueles conselhos para ajudar a dormir os bebés? São óptimos e preciosos e incríveis e nunca, mas nunca funcionaram com os meus dois filhos. Com o terceiro, já nem penso neles, acho que estou finalmente vacinada.

Mas a verdade é que na última sessão de formação (aquela de que falei no post passado) recebemos um livrinho muito interessante, com alguns princípios para sermos profissionais melhores. Eu, depois de os ler umas vezes, acho que se trata mais de sermos pessoas melhores e isso sim, interessa-me muito. É claro que neste pequeno livro há muitos princípios com os quais não concordo ou que me parecem desajustados ou desnecessários mas outros há que me parecem simples o suficiente e interessantes o suficiente para os pôr em prática dentro e fora do escritório.

Give honest, sincere appreciation.

Quantas vezes é que nos preocupamos em dizer aos outros o quanto os apreciamos? Falo só por mim, claro: não vezes suficientes. Para mim, este princípio aplica-se mais ao trabalho mas também já o uso em casa. Ainda hoje o usei com dois colegas que se mudaram recentemente para junto da minha equipa e que funcionam tão bem entre si que me apeteceu elogiá-los. E foi isso que fiz. A reacção deles? Um misto de surpresa com uma satisfação tímida, pareceu-me. Isto é especialmente poderoso se elogiarmos qualquer coisa que nem tem a ver conosco mas que apreciamos na mesma. Em casa, tento fazer isso com os miúdos e, ultimamente, com o marido. Têm sido alguns meses um pouco mais nervosos e acho que estamos a precisar de muita apreciação uns pelos outros. E acho que ficamos todos contentes quando este reconhecimento é verbalizado, mesmo que achemos que não é nada de especial. Eu cá fico toda contente quando isto se passa comigo e quando chego a casa só me apetece partilhar o elogio com a minha família, por isso espero que o efeito seja o mesmo com os outros.

Become genuinely interested in other people.

Esta, confesso, é bastante mais difícil. Primeiro, porque todos sabemos que há pessoas mais ou menos interessantes, com as quais comunicamos melhor ou pior. Depois, porque parece que hoje ninguém tem tempo para se interessar por nada que não seja a própria vida. O meu compromisso aqui é um pouco diferente: sinto que tenho de fazer isto mais pela minha família, mas aquela que está longe. Dois mil quilómetros de distância significam que nos concentramos mais no que se passa aqui e agora e tendemos a esquecer o que está longe da vista. As coisas continuam perto do coração, isso nunca mudará, mas as questões mais práticas da vida fazem-me concentrar muito nas nossas vitórias ou nos nossos problemas e esquecer-me que as mesmas coisas se passam longe daqui. De resto, não pretendo interessar-me por todas as pessoas que conheço, até porque sou, no geral, bastante anti-social. Mas isso não quer dizer que não me possa esforçar aqui e ali.

Analyze your own mistakes and criticize yourself (muito ligada a Do the very best you can).

Eu tendo a pensar demais. Tanto é assim que normalmente passo umas horas acordada, a meio da noite, depois da miúda acordar também, sem conseguir voltar a adormecer. Ocupam-me o pensamento as coisas que acontecem no trabalho, quaisquer dificuldades que esteja a sentir no momento em que estamos, contas para pagar, consultas para marcar, um terceiro filho. Mas nestas horas mortas é mesmo o trabalho que se impõe a todos os outros causadores de insónia. Como já escrevi aqui várias vezes, profissionalmente eu quero sempre ser a melhor. Não a melhor que os outros mas a melhor versão de mim mesma que conseguir. Durante este ano que passou, encontrei maneiras de me tornar mais eficiente, tornei-me super organizada no trabalho (mesmo que em casa nem sempre se reflicta esta ordem e disciplina), sei onde está tudo, sei prestar contas de tudo, soube persistir nas coisas que quero que aconteçam. Não fiz tudo isto sem erros e continuo sem estar livre de errar. Mas, ao acreditar sempre que estou a fazer a coisa certa, tenho conseguido bons resultados e tenho recolhido reconhecimento. Preocupa-me mais se o que faço está de acordo com o que acredito do que com o que os outros pensam. Desde que existam factos e evidências, tudo o resto se torna mais fácil.

No meio deste livro, há também outros princípios a que chamo mais de manipulação (como fazer com que os outros aceitem as nossas ideias, principalmente) e menos de ajuda. E é claro que não vivo a pensar naqueles que me falam ao coração. Mas a verdade é que, sempre que os aplico, lembro-me de onde vêm, sinto a satisfação de ver os seus resultados e reconheço o seu valor. Se calhar é a isto que se chama viver mais conscientemente, não sei. A única coisa que eu procuro é viver melhor.

novembro 11, 2016

Fiz 37 anos, o Trump ganhou e o Cohen morreu

Este é o breve resumo da minha vida nestes últimos tempos: fiz trinta e sete anos e senti-me nova e velha ao mesmo tempo; fui a Berlim e a Lisboa matar saudades diferentes e fui gentilmente lembrada que já não tenho fòlego para grandes caminhadas nem para apanhar o avião na porta de embarque mais longe do Mundo; o Trump, enfim, nem preciso de dizer mais nada; morreu mais o Leonard Cohen num ano que toda a gente pensa que não pode piorar mas que piora sempre.

Pelo meio, estive numa formação onde ganhei o Outstading Performance Award e não sei se os meus colegas votaram em mim porque lhes dá pena ver uma miúda quase a rebolar ou se estive mesmo bem durante aqueles dois dias. Seja porque razão for, ganhei uma caneta e planeio assinar muitas coisas importantes com ela. Fizemos muitos exercícios práticos e acho que nenhum me custou tanto como reconhecer o valor dos outros frente a frente. Não porque não ache que os outros têm valor: têm e muito ou muitos e eu sinto-me agradecida por isso. Mas sim porque é muito fácil criticar ou condenar mas é extremamente difícil sentarmo-nos, cara a cara, e dizer o que os outros fazem bem. E decidi que isto deve aplicar-se a toda a gente na minha vida, não só os colegas de trabalho. Por isso, obrigada meus leitores, por se manterem aí (caso ainda aí estejam), mesmo quando o meu blog mudou radicalmente de voz e de conteúdos, mesmo quando às vezes me falta o assunto e me recuso a tratar banalidades, o que resulta em algumas ausências entre posts. Obrigada mesmo aos mais silenciosos, que nunca comentam mas que eu sei que estão aí (ou pensam que não vos vejo?).

Profissionalmente, as coisas correm-me finalmente bem e, pela primeira vez em muito tempo, sinto-me bem na pele que me foi destinada, com ambições e muita vontade de trabalhar. Este conforto não se paga e tenho a certeza que apenas se consegue quando se têm as melhores pessoas à volta, que nos estimulam e motivam a querer ser melhor. Mesmo por isto, custa-me a ideia de que falta menos de um mês para entrar em licença de maternidade. É claro que não me parece mal a ideia de deixar de trabalhar e reduzir drasticamente a velocidade dos meus dias, mentiria se dissesse o contrário. Mas estou naquele momento em que há muitas coisas boas a prometerem acontecer, começo finalmente a ver resultados do meu trabalho e, acima de tudo, da minha persistência e nas coisas em que acredito e custa-me deixar as coisas exactamente aqui, sem poder controlar o desenrolar das coisas e sem ver verdadeiramente os resultados dos meus esforços. Não posso fazer nada, senão aceitar e esperar que os meus superiores saibam o que fazer. Agarro-me à confiança que sinto neles, respiro fundo e tento lembrar-me que ainda há muita roupa tamanho 50 para lavar, há tardes com sestas que precisam ser dormidas, há arrumações a fazer antes da nossa vida dar a terceira cambalhota.

Depois de trinta e sete anos, continuo sem perceber muitas pessoas (os americanos, por exemplo), começo a perceber outras (a minha pequena filha, por exemplo, que se tem revelado numa pequena tirana em potência) mas conheço-me melhor. Não me importo de falar em público, empenho-me mil por cento em tudo o que faço, só fico contente quando sou a melhor. Tento importar-me pouco com os defeitos dos outros (mas é difícil quando me prejudicam no caminho) e levar as coisas menos a sério - cada vez mais me assustam os radicalismos, seja em que lado da balança for. E acho que vou sendo feliz, o que quer que isso signifique e dure isso o que dure. Agora, só três anos até entrar na quarentena e é rezar que até lá o Trump se transforme numa pessoa de bom coração e que não morram muitos mais heróis.

novembro 02, 2016

Meine liebe Berlin ♥


Dez ou onze anos depois (a minha memória já me vai falhando), o regresso à cidade que chamei minha durante seis meses! A família enfiou-se no carro e lá atravessámos a Alemanha para visitar a capital mais interessante e livre que já pude visitar.

Quis mostrar aqueles sítios super importantes e a transbordar de História mas também aquela zona familiar e tranquila onde vivi durante aquele tempo. Quis subir à Fernsehturm e pude fazê-lo, já que antes nunca pensado nisso ou então não tinha tido tempo suficiente. Quis fazer toda a linha de metro até à estação da Warschauerstr. e espreitar todas as varandas, agora cheias de bandeiras turcas, a fazer companhia às antenas parabólicas que já se multiplicavam há dez, onze, doze anos atrás. Fiquei contente quando percebi que o Bistro Bagdad, onde comi a primeira e a última refeições na cidade ainda se mantém de pé, todo renovado, ao lado da estação da Schlesicher Tor.

As paredes continuam cheias de mensagens, confusas ou inspiradoras à vez. O prédio onde vivia está irremediavelmente marcado mas ainda com algum charme, ao lado da igreja que está agora em renovação. Aquela mercearia turca onde comprava os pimentos mais deliciosos desapareceu mas a padaria turca continua na mesma esquina. Há turistas mas não no bairro onde eu vivia e podemos passear ao som das folhas que se acumulam em montes gigantes pelos passeios.

Continuo com aquela sensação de que em Berlim podemos tudo. Continuo com aquela sensação de que, se há sítio onde deve ser bom e fácil começar de novo, é ali. Lembrei-me, durante estes dias, que não aproveitei tudo o que esta cidade incrível tem para oferecer, que nunca me abandonei às actividades, às possibilidades, às pessoas. As pessoas continuam a deixar o que não querem à porta do prédio para quem queira escolher. Sinto-me bem a falar Alemão, apesar de quase toda a gente me responder em Inglês - eu sei, parecerei tudo menos uma cidadã alemã. Sinto-me bem a pegar no jornal e conseguir ler sem precisar de ajudas. Passo à porta da universidade e fico com pena de ter parado de estudar.

Há turistas pelo centro da cidade mas nunca aquelas massas sufocantes de cidades como Paris ou Barcelona. Em Berlim, podemos respirar. Em Berlim, os números das portas não significam o mesmo do que nas outras cidades - é sempre preciso andar muito mais. Os meus filhos viram Berlim mas não a entenderam (ainda). O meu marido viu Berlim e creio ter entendido muita coisa sobre a cidade. Eu revi Berlim e tive a certeza que poderia viver ali outra vez, mesmo com os dias a acabarem tão cedo e o jornalismo sensacionalista nos ecrans do metro e as garrafas de cerveja vazias a aparecerem por todo o lado. Porque ali (parece que) podemos tudo.

outubro 26, 2016

Pequenos gestos

Toda a gente sabe (ou se não sabe, fica a saber) que eu não quero ficar no Luxemburgo para sempre. Não há nada que eu queira com mais força ou mais expectativa do que voltar a Portugal, com tudo o que de bom e de mau isso possa significar para nós. É mais forte do que eu, este chamamento da terra, esta vontade de poder voltar a viver no meu país, falando a minha língua, não fazendo parte de uma minoria, com os meus filhos perto do resto da família, a aprenderem coisas sobre Portugal... Podia enumerar as vantagens durante largas horas.

Mas querer voltar para Portugal não é o mesmo que querer fugir do Luxemburgo, nem sequer significa que há alguma coisa que este país não tenha feito por nós. O grande, grande defeito do Luxemburgo, para mim, é que não é Portugal e é tudo. São as pequenas coisas que fazem espécie: ter que procurar como se diz ranho em Francês antes de uma consulta médica; não encontrar em lado algum verdadeiro pão alentejano; raspar o gelo do carro nas manhãs mais frias; ainda estar a compreender como funcionam os impostos; amar a organização mas ficar triste com a falta de espontaneidade. Se algum dia deixarmos o Luxemburgo, será sempre com muita saudade e com um profundo agradecimento pelos tempos estáveis, seguros e por tudo o que conseguimos alcançar enquanto aqui estivemos.

Mas depois há coisas que me fazem ter pena de ir embora. Como por exemplo o gesto para o qual fomos convocados. A comuna onde vivemos (o equivalente à câmara municipal portuguesa) convidou-nos a plantar uma árvore em honra da nossa filha, nascida em 2015. Todas as famílias desta comuna com filhos nascidos neste ano são convidados a fazer o mesmo, sendo que a comuna irá também descerrar uma placa com os nomes das crianças para memória futura. Quando li o convite, só me apetecia chorar. Eu sei, eu sei, as pessoas vão dizer que são as hormonas. Mas não são apenas elas: é também a constatação que, por muito que regressemos e voltemos a construir a nossa vida noutro lado, a vida da minha filha estará sempre ligada a este país. O cartão de cidadão dela diz que ela é cidadã portuguesa mas a verdade é que nasceu no Luxemburgo e esse laço nunca poderá ser eliminado. Sinto que esta cerimónia celebra o seu futuro, que é uma forma simbólica de inclusão e de reconhecimento. Indirectamente, estende-nos a nós, o resto da família, este reconhecimento e acolhe-nos quase oficialmente no seio de uma comunidade à qual chamamos nossa há quase cinco anos.

Bem sei que o Luxemburgo tem as suas maneiras de nos fazer sentir que, apesar de vivermos aqui, não fazemos parte desse conceito abstracto que é ser Luxemburguês. Bem sei que há demasiados portugueses a viverem aqui e que isso pode gerar algum atrito com as restantes comunidades locais. Mas, simultaneamente, este país é, no geral, um exemplo de tolerância, aceitação e justiça social. Eu sei que nem toda a gente partilha desta opinião, especialmente outros emigrantes portugueses que ainda aqui vivem com dificuldades. Mas eu, apesar de ter o coração e a cabeça em Lisboa, apesar de suspirar até pela moleza e inércia portalegrense, jamais esquecerei o pequeno Grão-Ducado que nos acolheu, passem os anos que passarem. E hei-de voltar, mesmo se um dia partir, para visitar a árvore que celebra a vida da minha filha.

outubro 18, 2016

(e agora que acabaram os aniversários, o regresso à vida real)

Apesar dos meus últimos posts terem sido extremamente positivos, devo-o apenas às pessoas que os inspiraram: o meu filho, o meu marido, a minha irmã. As palavras que lhes dediquei são o resultado do afecto que sinto por eles mas não do meu estado de alma actual.

Ando zangada, não posso resumir melhor o que têm sido estes últimos dias. Eu bem tento enganar-me a mim própria mas não consigo. Grito muito porque me salta a tampa mais facilmente, tenho tolerância zero por birras infundadas (ora, não são todas?...), ando irritadiça, mais cansada de pessoas do que nunca, desejando que chegue a licença de maternidade para deixar de me preocupar (mesmo sabendo que será quase impossível desligar).

O que é estúpido é que (em parte) eu sei porque me sinto assim e não consigo simplesmente ignorar estas razões, passar por cima delas, chutá-las para canto. E, apesar de admitir que talvez haja algo mais fundo a causar-me este desconforto, sei que as razões visíveis ou evidentes são coisas sem importância, que deviam ser deixadas no seu sítio em vez de andarem (quase literalmente) nas minhas costas. Tenho projectado tanto a minha raiva nos outros (infelizmente, mais em casa, nos que me estão mais perto) que já cheguei a ponderar se não valeria a pena consultar um profissional de saúde. Só para aprender a sublimar estes sentimentos da maneira mais inócua, sem magoar ninguém à minha volta e sem perder o sono. Não sei como é que se faz isto sem ajuda mas a verdade é que gostava de lançar menos da minha amargura sobre os outros, separar o trigo do joio, concentrar-me naquilo que são as minhas responsabilidades e deveres e ignorar as coisas que simplesmente não consigo controlar.

Os acessos de fúria às vezes são tão agudos que, por instantes, consigo ver-me de fora e perceber o disparate que se está a passar sem que, ao mesmo tempo, consiga controlar-me e voltar a ser razoável. Acabo os meus dias bastante frustrada, especialmente por estar a descarregar os meus problemas (nada vitais, nada urgentes) em quem não merece. E o facto de reconhecer esta minha fraqueza torna tudo isto em algo verdadeiramente ridículo. Em algum ponto, comecei a falhar nessa tarefa básica que é arrumar cada chatice, cada contrariedade na sua própria caixa e esta falta de arrumação tem levado a melhor de mim. 

A internet diz-me que o que tenho feito é simplesmente displaced aggression e dá-me a fórmula secreta para acabar com isto em quatro ou seis simples passos, entre os quais admitir ou verbalizar o que nos atormenta, que é, seguramente, o passo mais decisivo. Pedir desculpa também não é mal pensado, dizem vários sites que consultei, utilizando o humilhante critério de pesquisa "how to stop projecting your frustration into others". Como em quase tudo, creio que o primeiro passo (admitir que se tem um problema) é essencial e esse, como se lê aqui, já dei. Agora é tempo de passar do auto-diagnóstico à acção propriamente dita e expressar-me tão claramente quanto possível. Depois, hei-de trabalhar na arrumação dos problemas mas para já é hora de dizer o problema não és tu, sou eu.

outubro 17, 2016

À minha irmã, que chegou ontem aos magníficos 35!

Este post é escrito com atraso mas isso não é relevante porque ela só fez trinta e cinco anos ontem e ainda tem um ano inteiro pela frente para comemorar.

Trinta e cinco é aquela barreira psicológica: a partir daqui, é uma descida vertiginosa até chegar aos quarenta. Trinta e cinco é sinónimo (para mim, pelo menos quando era mais nova) da meia idade, como se fosse suposto termos conseguido muitas coisas ao chegar aqui. A minha irmã, felizmente, não está em descida vertiginosa para lado nenhum e ainda lhe falta a vida toda pela frente, embora tenha muitas conquistas no seu currículo profissional e, melhor ainda, pessoal.

Ela é aquela miúda a que normalmente as pessoas dão uns dez anos a menos, tal é o seu aspecto fresco e juvenil. É super útil quando queremos entrar numa discoteca, por exemplo, mas pode ser uma maldição quando queremos mesmo ser levados a sério. Ela ri-se, como é costume. E também é aquela miúda que é confundida com uma estrangeira, à conta da sua pele clara e olhos cinzentos. A verdade é que ela fica bem onde quer que esteja: entre adolescentes e malta em crise de meia idade, entre lisboetas a sério e cidadãos do Mundo.

Quando éramos pequenas, criámos muitos códigos de que hoje ainda nos rimos. Também brigávamos muito, não se pense que era tudo rosas e às vezes embrenhávamo-nos em lutas silenciosas para evitar o castigo dos pais. O que era inútil, porque os pais chegavam sempre a tempo de intervir e de parar aquela estupidez. Já fomos muito parecidas e já estivemos a galáxias de distância mas essa é uma das coisas que mais admiro nela: aquela capacidade natural de se adaptar a qualquer lugar, a qualquer pessoa, a qualquer tarefa sem esforço aparente; aquele à-vontade que eu nunca vou ter nem que nasça mais cem vezes para falar com pessoas, para fazer amigos, para pegar nas crianças dos outros. Sobra-lhe a simpatia, a flexibilidade, o afecto.

Houve uma altura em que nos afastámos muito (e nem sequer era a distância, porque continuávamos a viver na mesma cidade) e eu, honestamente, já nem me lembro porquê. Mas lembro-me que sentia a falta dela: afinal, sempre tínhamos feito planos para morarmos na mesma casa ou, em desespero de causa, em casas vizinhas. Felizmente, essa época passou sem deixar nenhuma cicatriz e voltámos a ser as mesmas parvas de sempre assim que nos encontramos. Ela obriga-me a dar abraços e beijinhos mesmo quando eu me sinto tosca. Ela beija os seus sobrinhos por todos os dias em que não os pode ver. Ela briga com o cunhado mas conhece-o o suficiente para se esquecer depois. Muitas vezes ela não fala mas acho que está a aprender a contornar isso.

Tenho saudades tuas, Patrícia, mesmo a sério. Se alguma dia fizesse uma lista das coisas de que sinto saudades em Portugal, tu estarias claramente no top 3. Tenho pena de não estar por aí para festejar contigo, mesmo que isso para mim não seja mais do que um beijinho e um abraço, agora que as imperiais esperam para regressar ao activo! E desejo-te muitos parabéns, cheios de toda a felicidade do Mundo, mesmo aquela que às vezes eu posso não conseguir entender. O que interessa é que segues sempre o teu coração e por isso nunca poderás realmente errar: é que esse coração é grande demais para estar errado! Felizes 35 anos!

outubro 08, 2016

Aquela pessoa super fixe chegou aos 40!

(Não, não sou eu. Eu ainda tenho uns três anos em carteira para estourar até passar dos intas aos entas. )

O meu marido faz hoje quarenta anos. 

(Reparem que ainda me custa escrever (quanto mais dizer... ) O meu marido, como se fosse a coisa mais anti-natural do Mundo.)

Reformulando, a pessoa mais fixe que eu conheço faz hoje quarenta anos.

(Pai e mãe, tirando vocês. Mas é que jogam em campeonatos diferentes!)

Acabemos com os parênteses. O meu melhor amigo completa hoje quarenta anos e esta é obviamente uma data especial. Se calhar ele nem pensa assim mas para mim é aquele passo inevitável para a vida adulta. Como se até aos trinta e nove ainda coubéssemos na categoria Jovens Agricultores e aos quarenta já tivéssemos de passar aos Agricultores Séniores. Não é nada dramático, atenção, apenas a constatação inevitável de que já não somos assim tão jovens e que aquelas brincadeiras de putos começam a ficar bem lá atrás. Quatro décadas de aventura, diversão, dificuldades mas muito, muito amor. Dado e recebido, que ele não é pessoa para menos.

Conheço-o vai para trinta anos, talvez, por isso sinto que sobre ele posso falar com total conhecimento de causa. Fomos muito amigos antes de sermos namorados e muito antes de casarmos à pressa na primeira conservatória de Lisboa. Partilhámos segredos, abraços, algumas lágrimas e gargalhadas infinitas desde que nos conhecemos até chegarmos aqui, ao dia em que ele ultrapassa a barreira invisível das três décadas. Ele diz que gostou de mim desde que me conheceu e eu, apesar de não poder dizer o mesmo, sinto que o amor que lhe tenho agora precisou de todos estes anos para crescer e revelar-se como tal. Este amor é feito de respeito, admiração, paciência e aquela sensação que as pessoas têm que somos irmãos ou primos. Dito assim, parece uma coisa horrível mas eu acho que demonstra o quão próximos nos sentimos um do outro.

O meu marido já fez de tudo na vida. Trabalhou em fábricas, papelarias, deixou de estudar e acabou uma licenciatura, viajou pela Europa mas sempre com um mote comum: nunca deixou de se importar com os outros. Mesmo quando a vida lhe dava razões para mandar todo o mundo àquele sítio, ele soube refazer-se e caminhar sempre em direcção à tolerância e à generosidade. Isto não é dizer que ele tem um temperamento fácil e que é a mais doce das pessoas, são coisas totalmente diferentes. Mas sempre existiu nele um genuíno desejo de ajudar os que mais precisam e uma vontade sincera de mudar o mundo. Ele faz um bocadinho disto, todos os dias, à sua maneira. Mas é verdade que a crueldade e, acima de tudo, a estupidez a que assistimos diariamente o têm tornado mais cínico. Sem que isso o faça desistir de ser bom.

O meu marido comemora hoje quatro décadas de vida e eu apenas tenho pena de não ter estado ao lado dele na sua totalidade. Imagino-o nos primeiros anos de vida e na alegria que certamente trouxe à sua família e imagino-o a subir às árvores e gritar palavrões em plena esplanada porque essa história já faz parte da nossa história também. Mesmo assim, dou-me por contente em fazer parte da vida dele há pelo menos quase trinta anos e por ter desistido de resistir às suas tentativas de conquista. Ele sabe ser muito persistente!

Não se pense que ele é perfeito: desentendemo-nos muitas vezes, discordamos outras tantas e às vezes o sangue ferve a sério. Mas ele tem aquela maneira de ser, aquela capacidade de nunca ficar zangado muito tempo, de esquecer as parvoíces do quotidiano para dizer qualquer coisa que me faça rir. E tem aquele amor desmedido pelos filhos e aquela vontade de ter uma equipa de futebol (não, obrigada!) que só me faz amá-lo ainda mais. Talvez muita gente não o conheça assim mas tenho a certeza que outra tanta sabe exactamente do que falo - ele tem muitos amigos por todo o lado.

Por tudo isto e muito mais, que nunca teria lugar num post de um blogue, por ser uma pessoa que me faz querer ser melhor, por ser o exemplo que eu quero para os meus filhos, pelo sentido de humor que nem toda a gente entende, pela sua generosidade e enorme coração - parabéns, meu amor! E que possamos festejar (pelo menos) mais quarenta, mais ou menos rabugentos, mas sempre certos do que sentimos, lado a lado <3 br="">

setembro 29, 2016

Ao Vicente, pelos seus seis anos

Não há volta a dar: todos os anos, desde 2010, sinto o mês de Setembro a insinuar-se desde o seu início e com ele aquela emoção, aquela alegria tremenda de festejar a data em que nasceu o meu primeiro filho.

Hoje o Vicente completa seis anos de vida. Seis anos tão cheios e tão desafiantes, a viver tudo de coração na boca, sempre tão pronto para um abraço como para uma birra irracional. Não tenho a pretensão de estar a criar as melhores crianças do Mundo mas mentiria se dissesse que não sinto um orgulho desmedido pela independência, teimosia, liberdade e capacidade de adaptação que o Vicente demonstrou até agora. Durante quatros anos (que me pareceram toda uma vida), o Vicente encheu-nos os dias (e a mim as noites também, que alguém tinha de ter o sono mais leve...) de alegria, curiosidade e daquela capacidade que ele tem de nos absorver todas as forças. Para o bem e para o mal. Ele foi filho único durante quatro longos anos, sempre debaixo da minha saia e do abraço protector do pai, sem dividir a atenção com mais ninguém.

Depois nasceu-lhe uma irmã. E o Vicente, apesar de ainda estar a aprender a gerir os ciúmes e a compreender as diferentes necessidades de atenção, soube crescer pacificamente. Ainda está a aprender a brincar com a irmã, que só agora começa a acompanhar os desafios dele, mas sente falta dela e não lhe falta carinho que distribui sem ter noção da sua força. Ele ajuda nas tarefas domésticas, desenrasca pacotes de fraldas ou aquela toalhita quando temos as mãos ocupadas, ele partilha conosco aquele segredo que é poder ir para a cama um bocadinho mais tarde. Agora desenvolveu um interesse desmedido pelo futebol (olá férias em Portugal, porque aqui em casa não é coisa que se consuma...), continua a fazer muitas perguntas e passou a ter medo que a sua família morra (o cenário mais habitual é chuva torrencial que inundaria a nossa casa e, puff, lá marcharíamos todos...). Já demonstra empatia mas também uma tendência natural para discriminação entre géneros (músicas para homens e músicas para mulheres... quem raio lhe ensinou tal coisa?) que nos vai ainda dar muito trabalho.

Não há manhã que não comece com ele a reclamar sobre lavar a cara e os dentes, nenhuma. Há muitas tardes a pedir para ir treinar com o pai (vulgo, dar um chutos na bola num campo com balizas reais) e todos os dias faz um esforço (que a ele parece sobre-humano) para se recordar do que fez na escola e do que comeu ao almoço. Não existem muitas coisas que me dêem mais prazer do que conversar com ele, como um adulto, obrigá-lo a raciocinar, a ponderar os prós e os contras, perceber como pensa e o que pensa. Seis anos de aventuras, de birras épicas, de abraços sentidos e orelhas moucas, de coragem e crescimento com poucos medos. Não quero ter filhos preferidos, é evidente, mas há sempre aquela ebolição cá dentro sempre que se pensa no primeiro e em como nascemos pais quando também ele nasceu. E, mesmo que tenha dúvidas, o meu coração acalma quando ele me diz, como ontem, Mãe, eu nunca me queria separar de ti. Feliz aniversário, meu filho maior, caracóis desalinhados e os olhos mais bonitos do Mundo.

setembro 23, 2016

Acreditar em histórias de amor

Não posso ficar imune a esta história do divórcio mais mediático dos últimos tempos. Desde que Angelina e Brad decidiram divorciar-se que a minha wall no Facebook é um multiplicar de anúncios, artigos, análises a qualquer coisa que devia ser privada mas que, mercê do seu estatuto de estrelas, se tornou numa coisa pública. Mesmo que eu não queira saber detalhes sobre esta separação, diversos orgãos de comunicação social que eu (de livre vontade, é claro) subscrevi insistem em dissecar as razões, as cronologias e, pior, as culpas de cada um neste processo. E depois, além disto que me parece mau o suficiente, ainda existem as centenas, os milhares de comentários em todos eles, acusando um e outro de coisas impossíveis de provar e muito menos de saber - afinal, de onde é que os conhecemos assim tão bem?

São então vários os motivos que me levam a deitar este divórcio pelos olhos: a multiplicação das "notícias", a especulação sem a qual a imprensa dificilmente viveria, os comentários inflamados da pessoa dita "normal" que acha que pode julgar e condenar duas pessoas que não conhece em praça pública só porque são, claro está, figuras públicas. Mas há ainda outra coisa que me aborrece ainda mais nesta história: o facto de que muitas pessoas a consideravam o maior exemplo das histórias de amor. Um dos comentários mais frequentes que já li por aí é "Ai, se até eles se separam, o que há-de acontecer ao comum dos mortais?", como se eles fossem o exemplo a que todos devemos aspirar no que a amor diz respeito.

As únicas razões para as pessoas acharem que esta é uma linda história de amor, acima de qualquer suspeita e certamente livre de qualquer defeito, é o facto de serem duas pessoas muito atraentes e o facto de serem estrelas de cinema à escala mundial. É incrível que se pense que apenas essas duas condições podem constituir a garantia da felicidade, da fidelidade, possam construir as fundações do amor. Todas as pessoas se esquecem que os nossos ídolos têm (mais vezes do que gostaríamos) pés de barro e que, bem lá no fundo (se retirarmos as estreias, as lantejoulas, os milhões), são apenas pessoas como nós. 

Para mim, histórias de amor são como a dos meus pais, por exemplo, que depois de quarenta anos continuam casados, bem ou mal, com mais ou menos dias difíceis, atravessando todo o tipo de dificuldades (especialmente as criadas pelas filhas...) e ainda encontrando o que conversar todos os dias. Tem glamour, esta história? Não, nenhum. Tem rios de dinheiro a correr entre cada vitória ou entre cada discussão? Infelizmente não tem. Mas tem todos aqueles componentes das verdadeiras histórias de amor: paciência, amizade, humor, convicções, lutas, momentos de verdadeiro desespero e verdadeira superação, fezlimente não documentados para metade do mundo opinar, como se esse fosse um direito fundamental. A história de amor de Angelina e Brad pode mesmo ter sido isto tudo, com a diferença de estar precisamente debaixo do spotlight. No fundo, não creio que eles tenham culpa que tanta gente tenha idealizado a sua história de amor.

Bom, bom era que as mesmas pessoas que consideravam que esta era a relação-modelo olhassem à sua volta e percebessem que o Amor está em todo o lado, nas mais variadas formas, nos mais pequenos gestos e que é tudo menos perfeito. Talvez assim estes dois pudessem divorciar-se em paz e nós pudéssemos não ser bombardeados com tanta informação inútil e tanta opinião infundada.

setembro 16, 2016

Boa tarde, fala Tatiana Lopes, como posso ajudar?

Há uma password que ainda sobrevive entre os sites que mais utilizo desde o longínquo ano de 2005. Era uma password gerada aleatoriamente e que me foi dada para o primeiro dia em que trabalhei num call center da maior operadora de telecomunicações nacionais. Não era o meu primeiro emprego num call center. Já em 2002 havia trabalhado noutro de uma operadora de televisão por cabo durante alguns meses com um único propósito: comprar o meu primeiro kit de ADSL, instalado em casa dos meus pais. A ideia de poder aceder à internet a partir de casa fascinava-me.

Então, mesmo usando esta password diariamente, nem sempre a associo a estes meses estranhos de trabalho mesmo antes de acabar a faculdade mas ontem lembrei-me. No primeiro dia de atendimento a sério, atribuíram-me um cacifo (o número 69) e um nome de guerra (Tatiana Lopes) que nunca me habituei a usar. Sempre que atendia uma chamada e me identificava assim era como se eu estivesse de fora a assistir à minha conversa com o cliente porque de maneira nenhuma me sentia confortável com a falsa identidade. A ideia era proteger-nos (não dá para imaginar a quantidade de doentes mentais ou simplesmente de gente perversa que usava as linhas de atendimento gratuito para despejar frustrações, inventar ameaças ou simplesmente gozar com quem está a trabalhar) - a mim, afastava-me também da minha verdadeira personalidade e tornava as horas de trabalho numa fantasia pouco agradável.

A Tatiana Lopes existiu apenas durante uns tempos, já que a direcção do call center decidiu que o melhor era cada um responder pelo seu verdadeiro nome - o importante era manter a nossa localização no anonimato e apenas soube de dois ou três em que clientes furiosos (não sei com quem mas de certeza que o operador que os tinha atendido era o alvo errado para toda a fúria) que estiveram mesmo à porta do prédio a tentar concretizar as suas ameaças. De resto, era pacífico atender com o nosso nome e, para mim, bastante mais natural do que encarnar alguém que não existe.

Às vezes, quando estou mais zangada com pessoas que têm a vida facilitada e que se queixam por tudo e por nada, digo que toda a gente devia começar por trabalhar num call center. Na verdade, não desejo isso a ninguém. É um trabalho tão digno como outro qualquer, atenção: é óbvio que não tenho qualquer vergonha de ter começado assim, como não teria vergonha de transformar-me numa femme de ménage se disso dependesse o bem estar dos meus filhos e, por arrasto, o meu também. Mas as condições são tão precárias e, muitas vezes, humilhantes, já para não falar dos insultos e aberrações diárias que aquelas pessoas têm de suportar. Apenas x pessoas podiam fazer pausa ao mesmo tempo, portanto, se houvesse uma emergência fisiológica, era aguentar e esperar que alguém voltasse da pausa. Não era permitido ler ou até mesmo falar com o colega do lado entre chamadas - a ideia é ficar a olhar para o ecran do computador e ter o dedo no gatilho para atender a próxima chamada o mais rápido possível. No meio das 156 chamadas que deveria atender num turno de 6 horas, conseguia ter os clientes normais com dúvidas reais, os desocupados com demasiado tempo nas mãos, as mulheres controladoras a quererem saber o saldo dos maridos, as crianças que esgotavam 3000 sms num espaço de um par de horas, os doentes mentais a precisarem de um psicólogo, os que se identificavam como Dr. X quando lhes perguntava o nome, os que queriam apenas conversar. Tinha até muita sorte: afinal não era eu a iniciar as chamadas e não tinha que vender nada a ninguém, por isso sempre me considerei sortuda.

Tenho aprendido muitas coisas em todos os sítios em que trabalhei, não apenas relacionadas com a profissão mas com a vida. E desta minha experiência em ambiente de call center, a ser explorada, controlada e mal paga, retive uma lição muito simples: trata os outros como gostarias que te tratassem a ti. Operadores de call center, professores, empregados de mesa, engenheiros, mulheres da limpeza, médicos, electricistas e canalizadores, motoristas, varredores de rua - somos todos pessoas, com dias bons e dias de cão, a tentar fazer o melhor possível na profissão que escolhemos (ou que nos escolheu). Acredito naquela máxima que diz que a maneira como tratamos um empregado de mesa, por exemplo, diz muito de nós como pessoas. E faço um esforço (às vezes inglório, claro, porque nem toda a gente merece esse benefício da dúvida) para colocar-me na pele do outro e pensar que se calhar está só a ter um mau dia. Gostava de saber até quando vou manter esta fé na humanidade.

agosto 31, 2016

Os terríveis voltaram a casa!

Três semanas depois, temos de volta o nossos dois terríveis! Escusado será dizer que no dia antes até me sentia nervosa, do mesmo género de nervosa antes de uma entrevista, sabem? Também não ajudou o facto de ter de ir de avião e muito menos ajudou o facto de partir e chegarmos ao aeroporto de Bruxelas... Racionalmente, a minha cabeça dizia-me que era improvável acontecer outro atentado no mesmo sítio num curto espaço de tempo; menos racionalmente, o coração fazia-me estar mais alerta e acautelar o máximo possível as deslocações dentro do aeroporto. Uma parvoíce, eu sei, mas vá-se lá saber como controlar estes instintos mais irracionais.

Os miúdos estavam numa pilha também! Ela tocava-me nas pernas e olhava-me com a cara de quem ainda não acreditava de que eu continuava a existir. Ele teve alguma dificuldade em dividir a atenção entre mim e os desenhos animados, que lhe ocuparam uma boa parte das férias. Abraçámo-nos, eles sentaram-se no meu colo e eu pude apertar os dois simultaneamente. Ele contou-me algumas das coisas que pôde ver e fazer durante estas três semanas, ela chorava sempre que eu desaparecia do seu campo de visão. Imagino que pensava que me ia ausentar outra vez e não estou certa de saber até que ponto ela entendeu que toda esta situação era temporária. Mas, ao mesmo tempo, sei que também sentirão a falta dos avós depois destas três semanas de caos e gritaria lá em casa. Ela bem chorou quando viu o carro dos avós a partir...

Foram três semanas de muita calma. Aliás, tanta calma que não cheguei a fazer tudo o que imaginava em casa. A preguiça vencia-me quase sempre ao final do dia e só aquela sensação de poder chegar a casa e simplesmente sentar-me no sofá sem pensar em mais nada era tudo. As noites sem pesadelos dele e sem choro dela, as manhãs sem ter que correr atrás dos dois para estarmos prontos a tempo, as refeições sem birras foram os pontos altos. Mas é claro que não vê-los a correr atrás um do outro, não estarem sentados cada um com o seu livro, não lhes dar aquele beijo de boa noite que garante que tudo está bem deixara algumas saudades. No fim, a ausência foi quase terapêutica: eles puderam ter férias, encher a barriga de gelados, quebrar horários e evitar os sítios onde passam boa parte do tempo aqui; nós pudemos parar e apreciar o silêncio, pudemos simplesmente não fazer planos e descansar, pudemos saltar refeições ou ir comer fora, pudemos dormir um pouco mais.

Mas, três semanas depois, já precisávamos daquele abraço e daquelas caras sem vergonha. Agora é regressar a tudo o que nos é habitual e rezar para que os dias comecem tranquilos e acabem da mesma maneira. Pelo menos até o terceiro elemento decidir chegar!

agosto 25, 2016

Uma feira com mais de 670 anos!


A Schueberfouer começou na semana passada e, para nós, já é um hábito que cumprimos religiosamente e que até esperamos ligeiramente empolgados. Começa no final de Agosto e dura duas semanas. São quinze dias de festa esperados por toda a gente - afinal, segundo sondagens mais ou menos seguras, 80% da população do Luxemburgo vai passar pela feira pelo menos uma vez! (Mas enfim, num país com pouco mais de quinhentos mil habitantes, não é assim um feito tão difícil.)

De qualquer maneira, eu divido-me um pouco naquilo que sinto assim que passo o pórtico da entrada: por um lado, é um acontecimento completamente provinciano, faz até confusão como pôde algo assim sobreviver numa capital europeia; mas, por outro lado, o ambiente é tão incrível que é impossível uma pessoa não se deixar contagiar pelas barracas do torrão e pelos stands de tiro ao alvo. Vem mesmo toda a gente à feira: o pessoal das instituições europeias que trabalha ali ao lado e que vem beber uma cerveja depois do trabalho, os frontaliers que chegam de França e da Bélgica para ganhar qualquer coisa naqueles stands de jogo, as famílias portuguesas que chegam do Sul do país em bandos, os adolescentes que saem pela primeira vez e os que já são repetentes, grupos de motards reunidos à volta de canecas de cerveja, idosos que só comem peixe frito nos restaurantes montados para o efeito, aquela família com cinco filhos e o sexto a caminho que me fez tremer só de pensar, os pais que cedem aos caprichos dos filhos e carregam os peluches que ganharam aqui e ali, as pessoas que vêm pela comida (noodles, salsichas, gyros, hamburgers - yay!) e que procuram alguma diversão que não implique um cinto/uma protecção sobre uma barriga em crescimento (só a roda gigante...) - nós.

O barulho é muitas vezes ensurdecedor, entre a música insuportável dos carrinhos de choque, os feirantes que vão gritando que ali se ganha sempre, os decibéis que sobe naturalmente com o consumo da cerveja, a gente que não pára de chegar. É difícil circular entre quem espera a sua vez para ser virado ao contrário, entre quem espera por uma waffle coberta de morangos e chantilly, entre grupos de miúdos e graúdos à procura de uma sombra. Mas este ano o Verão fez-nos uma surpresa e parece que vai ficar até ao final da feira. Ontem, às oito e meia da noite, não corria uma brisa que fosse e o casaco era para ficar em casa. A espera foi difícil mas parece que agora há uma semana inteirinha de Verão para aproveitar. Isso e levar os miúdos à feira, esperar que eles não façam quinhentas birras porque querem dar mais uma volta no carrossel ou não querem comer o resto da salsicha ou precisam - u r g e n t e m e n t e - de um saco de pipocas. A feira é velhinha, viva a feira!