junho 25, 2015

Singularidades de uma mãe de dois

Dormir nunca mais é a mesma coisa. Nunca, nunca mais. Já tínhamos um miúdo de quatro anos a dormir relativamente bem, apenas com alguns episódios de terrores noturnos ou simples pesadelos. Conseguimos que não bebesse leite a meio da noite a muito custo mas já não temos tido muita sorte com as horas a que acorda ao fim de semana. De repente, juntámos-lhe uma miúda de quatro meses que, apesar de não dormir a noite toda, não chora (só mesmo em desespero) e que é relativamente fácil de adormecer. Ainda estamos a treinar a coisa de a deixar adormecer sozinha na cama e acho que está a andar. Mas a cabeça de mãe não deixa dormir como antes - qualquer suspiro ou volta na cama são suficientes para despertar. Esta semana o mais velho gritou pela irmã em pleno sono e pregou-me um valente susto. Eu, que sempre conseguia dormir até ao meio dia nos bons velhos tempos, transformei-me numa pessoa das manhãs e luto para relaxar mais durante as noites.

As coisas pequenas são mais saborosas que alguns grandes gestos. Nos primeiros tempos, é difícil descrever a patetice que é ficar contente com um cocó mas foi assim com ele e continua a ser assim com ela. Ele trouxe-me a prenda do dia da mãe há uma semana. Conseguiu guardar segredo enquanto a fazia lá na escola e isso surpreendeu-me. Mas o melhor são momentos como quando me perguntou Posso dizer-te um segredo?. Acenei que sim e ele disse-me ao ouvido, bem baixinho Prometo que hoje não choro quando me for deitar. Foi ele que decidiu isto, espontaneamente, sem ninguém lhe pedir nenhum compromisso e cumpriu a promessa. Ele nunca nos deixa esquecer as nossas promessas mas também honra as dele.

Deixei de ter medo de coisas parvas. Ter um filho tem este efeito: passamos a achar ridículos alguns medo. Lembro-me de ficar tão nervosa para entrevistas de traqbalho, por exemplo, que a dor passava a ser física. E depois tive um filho e agora o segundo e nada disso me assusta. Convenhamos: quatro horas em trabalho de parto intenso em casa, quarenta minutos no hospital e nenhum tempo para levar a epidural tornaram-me mais rija. Claro que tenho ainda medo de algumas coisas mas eliminei os medos supérfluos. É muito importante ter um trabalho, claro, mas é mais importante poder estar com os nossos filhos.

Comecei a ver os meus filhos reflectidos em todas as crianças do Mundo. Nas que são refugiadas, nas que têm fome, nas que têm família e nas que não a têm, nas que se cruzam conosco diariamente. Todas as caras me fazem lembrar dos meus filhos e da imensa sorte que eles tiveram nesta lotaria: puderam nascer em países onde há paz e segurança suficientes para as crianças crescerem. É que se pensarmos no número de refugiados que existem no mundo, se não ignorarmos as imagens que nos chegam todos os dias a casa, então temos mesmo que admitir: temos uma sorte imensa por podermos fazer parte de um mundo livre, sem nunca precisarmos de deixar as nossas casas.

Às vezes pode não parecer mas consigo gerir muito melhor o cansaço. É claro que há dias em que tudo o que quero fazer é ficar deitada no sofá e reservo-me o direito de ter mesmo esses dias. Mas depois há os outros em que consigo fazer tudo o que tenho em atraso e nesses dias sinto-me uma verdadeira super-mulher. Às vezes ando a passear com ela no quarto de olhos fechados e com vontade de dormir, outras só estou à espera que eles se deitem para poder fechar os olhos mas no geral sinto-me muito menos cansada do que quando nasceu o Vicente. Talvez seja o calo, a prática, não sei, mas por enquanto ainda dá para gerir. Só não quero pensar quando, daqui a seis meses, tiver que voltar ao trabalho. Mas empurrei essa data para o meu inconsciente e lá ficará até dar.

junho 11, 2015

De que têm medo os Luxemburgueses?

(Disclaimer prévio e óbvio: não percebo nada de política. Este post é menos sobre castigos políticos e mais sobre integração.)

No passado Domingo, os Luxemburgueses foram chamados às urnas para um referendo, onde lhes foram feitas três questões:

- está de acordo com o voto a partir dos 16 anos?
- está de acordo com o voto dos estrangeiros residentes (desde que habitem no Luxemburgo há pelo menos dez anos e tenham já votado em eleições comunais/europeias anteriores)?
- está de acordo com a limitação dos mandatos governamentais a um máximo de dez anos?

A questão sobre o voto dos estrangeiros incendiou as conversas e as redes sociais, ao mesmo tempo que trouxe para a discussão a ideia de que, apesar de muito se falar sobre tolerância e integração, os Luxemburgueses (grande parte, pelo menos, e a julgar pelos resultados do referendo) são xenófobos. Um pouco antes e depois desta consulta pública, dediquei-me a investigar os foruns online sobre o assunto e fiquei assustada e, simultaneamente, espantada com aquilo que fui lendo.

Primeiro, há que dizer que o Luxemburgo é um caso isolado no que diz respeito aos seus congéneres europeus: é o único país em que a percentagem de estrangeiros residentes está prestes a ultrapassar a percentagem de naturais do país. Do total de 563 mil residentes, 258 mil são já estrangeiros (donde 92 mil são Portugueses). Prevê-se que em 2020 o número de estrangeiros a residir aqui ultrapasse os naturais do Luxemburgo, a fazer crer no balanço migratório dos últimos anos. Isto quer dizer que em breve mais de metade de população deste país não terá direito a votar e terá que aceitar as escolhas de menos de metade da população.

Os Luxemburgueses contra o direito ao voto dos estrangeiros (quase 80% dos votantes neste referendo!) acham que todos os estrangeiros que querem votar devem pedir a nacionalidade Luxemburguesa. Para este efeito, é apenas necessário residir no país há pelo menos sete anos, frequentar um curso de instrução cívica e passar num curto teste de Luxemburguês (uma prova oral sobre assuntos do dia a dia). São estas três cláusulas que tornam alguém digno de poder votar neste país. Eu acho que saber Luxemburguês é desejável e devia ser encorajado mas num país com três línguas oficiais e em que as demarches administrativas são feitas maioritariamente em Francês e Alemão, não entendo a insistência. Falar e compreender duas das línguas oficiais, por exemplo, devia também valer alguma coisa.

Os Luxemburgueses querem, naturalmente, defender a sua língua, história e património. Evidentemente, sou a favor desta auto-preservação, que creio ser comum a todos os povos. Mas os Luxemburgueses acham que os estrangeiros apenas vêm para ganhar mais dinheiro que no seu país de origem e nada mais. Esquecem-se que esses mesmos estrangeiros também querem ficar porque gostam de viver num país mais justo, onde as melhores condições de vida não se resumem aos ordenados, onde há gente de centena e tal de nacionalidades, onde o património histórico e natural são verdadeiramente impressionantes e porque o país está exactamente no coração da Europa. Também se esquecem que os estrangeiros trabalham e, como tal, pagam as suas contribuições, sendo que muitas vezes ganham menos do que um trabalhador luxemburguês exactamente na mesma situação.

Muitos comentários que li diziam qualquer coisa como "Não gostam? Podem voltar para a vossa terra". Acho que estes comentadores se esquecem que sem nós, os estrangeiros que (ainda) não sabem falar Luxemburguês mas que vivem em pleno a sua vida no país não existiria construção civil, restauração, turismo, serviços. Sem nós, o país estaria muito mais atrasado e seria muito menos atraente. Era bom que, a curtos passos de nos tornarmos a maioria, os Luxemburgueses passassem a olhar para nós como parceiros em vez de potenciais ameaças. E que percebessem que uma língua não nos faz amar e valorizar mais o seu país.

junho 02, 2015

Bem-me-quer, mal-me-quer

Nos últimos tempos tenho ouvido algumas histórias de relações que não deram certo. Não vou cometer o erro de considerar que os motivos foram sempre os mesmos mas, no geral, há uma característica que me parece comum a todas: há muitas pessoas que não sabem o que querem.

Pessoalmente sempre tive um problema: parti sempre para as minhas relações com a ideia de que aquela é que era. Mesmo nas relações mais fugazes, em que honestamente eu sabia que não tinha grande hipótese de ir a algum lado, eu investi muitíssimo em fazer tudo resultar. Acho que sempre levei tudo demasiado a sério, nunca fiz coisas só por fazer, sempre procurei ser a melhor versão de mim mesma. Mesmo por isso, vi-me enredada em algumas ilusões que eu mesma criei, sofri e, nesse aspecto, fui responsável for esse sofrimento. Mas, se existe alguma coisa de que me posso orgulhar, é o facto de sempre ter respeitado as pessoas que passaram pela minha vida.

Ouço histórias hoje em dia que me fazem temer pela minha própria relação: pessoas que estavam juntas há imenso tempo e que se separam pelos motivos mais absurdos, famílias que se constroem para logo cada um ir à sua vida, divórcios e separações litigiosas, surpresas um pouco tristes, até na minha perspectiva. Não tenho nada contra pessoas que não querem assumir compromissos, que querem ser livres. Mas então que o admitam, ajam de acordo essa sua filosofia de vida e poupem as outras pessoas do sofrimento desnecessário. Ouço histórias de pessoas que mudam radicalmente e um dia simplesmente deixam de gostar e tenho medo por nós.

Na maioria dos casos, acho que as pessoas se esquecem que uma relação a sério requere trabalho, empenho. Não é só feita de magia e daquela paixão inicial, ambas tão fortes e cegas. Uma relação a sério passa, a partir de um certo momento, a ser também composta daqueles momentos banais do quotidiano, sem glamour nem encantamento, dos defeitos do outro e dos nossos defeitos (tanto os que conhecíamos como os que vamos descobrindo), dos filhos se os houver, das vezes em que só pensamos em estar sozinhos. Não é fácil, muitas vezes não é inspirador, não é bonito. Não é só caras felizes nem fotografias perfeitas, não é toda a gente de acordo, uma rotina sem percalços. Não sei se há quem espere tudo isto mas eu acho que não existe nada assim. Mas sei que existem relações em que as pessoas cuidam uma da outra, em que o sentimento de segurança e tranquilidade é avassalador, em que a admiração e o orgulho pelo outro vão crescendo, em que o amor vence as quezílias mais mesquinhas com o sorriso gozão de quem sabe que ia ganhar. Felizmente, também conheço histórias de amor duradouras, de preserverança e empenho. E a única coisa que desejo é que todos possam encontrar alguém por quem valha a pena lutar, com quem valha a pena discutir, com quem possam ser verdadeiros e por quem se sintam valorizados. Eu bem sei que muitas vezes parece qualquer coisa verdadeiramente rara e inatingível mas talvez com um pouco de paciência e o olho bem aberto a pessoa certa esteja bem perto. E se não estiver, continuo a acreditar que mais vale só que mal acompanhado.

maio 27, 2015

Arqueologia sentimental


Não é fácil. Não é fácil pensar que nunca mais entrarão nesta casa, que as velhas cadeiras nunca mais serão ocupadas por eles para ver quem passa e que as flores nunca mais serão regadas e mimadas como antes. A casa da minha avó está vazia de pessoas mas cheia de recordações. Acho que ela não pôde despedir-se convenientemente porque a doença já não o permitia mas sabe que não voltará a entrar aqui. E assim eu fico triste - por mim e por eles.

Temos o resto do nossos pertences na sala da minha avó. A mesma sala onde quase nunca entrava, onde a minha avó guardava as melhores peças de roupa, onde descansava a papelada do médico e algumas fotografias nossas. São caixas e caixas de coisas que deixámos para trás no imenso silêncio que é o que resta dos meus avós. Não me hei-de esquecer nunca: o retrato gigante do meu pai quando estava no Ultramar, o gato de loiça a substituir o gato que uma vez largaram em Arronches, o velho relógio a marcar as horas que sempre passaram lentas, os cortinados de renda que foram fundo de fotografias encenadas e pouco naturais, as flores e plantas que a minha avó sempre adorou com o seu jeito inato, o pote com açúcar louro que sempre guardou na gaveta ao lado do fogão, a pequena cafeteira com que fazia a mistura para os nossos lanches e que bebíamos em chávenas que eram maçarocas de milho, a cama onde me sentei tantas vezes enquanto o meu avô ainda dormia depois do turno da noite, as nossas fotografias em bebé e os nossos primos afastados e eu vestida para a primeira comunhão.

Não quero ter medo de um dia entrar lá em casa mas a verdade é que agora sinto que em breve não restará nada, apenas os fantasmas da vida que tivemos lá, enquanto crescíamos. Não me esqueço dos lanches nas escadas como se fossem piqueniques ou de entrar a custo pela varanda depois de vir da biblioteca carregada de livros. Hei-de sentir sempre o cheiro a cortiça e ver as mulheres que se param a conversar ao pé do quiosque e lembrar-me das batatas fritas que a minha avó me fazia (grossas e moles, como eu mais gostava). Eu sei que eles vivem enquanto restarem as nossas memórias mas não é a mesma coisa. Parece que com eles desaparece também a minha infância e tudo o que resta são os artefactos desse tempo numa espécie de museu. A casa da minha avó está vazia de pessoas mas cheia de recordações.

maio 13, 2015

Estar só

Num período bastante conturbado da minha vida tive que aprender a estar só. Para algumas pessoas, é qualquer coisa que sai naturalmente mas não para mim, habituada a estar sempre com gente à volta, a sair mesmo sem propósito. Passei muitas horas, muitos dias sozinha em casa. Às vezes só falava com as pessoas com quem trabalhava, outras nem isso. Hesitei muitas vezes entre cozinhar para uma pessoa ou comer só qualquer coisa. Nao tinha horários e era completamente dona do meu tempo e das minhas decisões. Era uma liberdade esquisita porque às vezes desejava estar presa a outro alguém.

Depois vieram os filhos. Todos sabemos que há um tempo antes dos filhos e outro depois deles chegarem. Com um, ainda conseguia ter algum tempo livre, algum silêncio e espaço para respirar. Com dois, e se bem que ela é ainda uma bebé com poucas exigências, vi-me privada desses momentos de solidão. E estou a todo o momento a arranjar maneiras de substitui-los como posso. É por isso que caminhar me faz tão bem: a miúda vai a dormir no carrinho, eu a ouvir um podcast qualquer ou simplesmente os sons do bairro. Se calha ela a dormir um pouco mais (como neste preciso momento) tento desligar-me das tarefas e dos afazeres e simplesmente aproveitar o silêncio e estes minutos em que não preciso de tratar de ninguém, em que ninguém esta directamente a depender de mim. Poder sentar-me na nossa varanda e ler um pouco nestes dias em que se começa finalmente a sentir a Primavera é realmente um luxo e eu faço o que posso para aproveitá-lo.

Daqui a uns minutos volto a ser necessária e daqui a umas horas duplamente assim. Por agora, sou apenas eu a pensar no que ainda tenho a fazer, a apanhar um pouco de Sol e às vezes é tudo o que é preciso.

maio 06, 2015

Ser mãe: um longo tratado de culpa

Li este artigo há uns dias e não pára de me assaltar o pensamento desde então. Para quem não tem tempo ou vontade para o ler, é um artigo que versa sobre a forma como um casal mudou de ideias sobre a melhor maneira de fazer férias depois de ter um filho: passaram de aventureiros destemidos para um casal que procura o conforto dos resorts com tudo incluído. Também descreve as diferenças entre as infraestruturas disponíveis para quem viaja com crianças nos Estados Unidos (país de origem) e a Escócia (país onde o autor vive no momento). Mas, mais do que o artigo, o que me ficou na memória foi a discussão que se gerou na caixa de comentários.

Para além do binómio já esperado comentadores sem filhos/comentadores com filhos, surgiram outras questões pertinentes sobre as viagens com  filhos de várias idades. Algumas posições chocaram-me bastante (às pessoas com bebés não devia ser permitido viajar de avião, as crianças nunca devem ser levadas a jantar a restaurantes, os bebés devem estar é em casa), outras fizeram-me pensar bastante (o que fazer quando os miúdos se portam mal, escolher sítios apropriados à idade para evitar o desconforto dos olhares de soslaio e adaptar o comportamento dos miúdos às circunstâncias).

Mãe de duas crianças, não consigo evitar o sentimento de culpa pelo potencial comportamento indesejável dos meus filhos: por um lado, uma bebé pequenina que sofre imenso com a imaturidade do seu sistema digestivo e é obviamente incapaz de controlar o seu mal estar; por outro, um puto de quatro anos que, apesar de gentil e amoroso quando quer, não pára de ser rebelde e tentar afirmar-se como um ser independente. Com ele, precisamos do triplo da paciência, muita capacidade de negociação e muitas estratégias para o distrair das suas parvoíces. Mas daqui a deixar de fazer coisas para não incomodar os outros? Não me parece. Na cabeça de algumas pessoas, ter filhos é o equivalente a renunciar a uma vida social. É claro que não os levamos a todo o lado e preferimos as actividades com crianças mas isso é apenas o senso comum a falar.

O caso do mais velho é o que me preocupa agora. Dois meses depois da irmã nascer, as birras atenuaram um pouco e os dramas irracionais diminuíram de dimensão. Já conseguimos fazer uma refeição sem acabarmos todos aos gritos e que ele se mantenha a dormir na sua cama. Ele adora a irmã e não interage mais com ela porque nós não deixamos ou estava constantemente em cima dela - literalmente. Mas continua um pouco beligerante e muitas vezes é difícil argumentar com ele para que se comporte ao nível do normal. Não negociamos com comida e tentamos que sejam sempre reforços positivos a fazê-lo andar na linha mas muitas vezes nem isso funciona. Tento falar com ele e saber como foi a escola: ele responde sempre que correu tudo bem mas não é verdade, às vezes as professoras contam-nos histórias que nos preocupam. E aqui entra a culpa: estamos a fazer tudo mal? Que parte disto tudo é culpa nossa e que parte é responsabilidade da personalidade dele? Eu acredito que podemos ter os propósitos mais nobres na educação de um filho mas há muitos factores externos que não podemos controlar e um deles é ele ser a sua própria pessoa e não o que nós antecipámos como filho.

Não tenho respostas e muito menos soluções. A senhora que o vai buscar à escola diz que ele é uma mão cheia de trabalho mas que apaixona as pessoas que o conhecem. Eu preocupo-me com o seu futuro com antecipação porque quero que seja um tipo porreiro, que se interesse pelo mundo e respeite os outros. Não sei medir se estamos ou não a conseguir transmitir-lhe tudo isto: talvez seja algo que só se pode ver bem à distância mas sei que não desistimos de tentar. Que pena não podermos ter segundas oportunidades mas pelo menos sabemos que fazemos o que podemos.

abril 22, 2015

Virar o jogo

Começar, como em tudo, é muito, muito difícil. Antes de mais, um disclaimer mais ou menos evidente: não procuro ser uma atleta de alta competição nem uma super modelo. Quero só ser mais saudável (e, claro, perder uns quilos no processo), acho que é um desejo simples e que resulta do senso comum.

Muitas vezes as pessoas confundem a licença de maternidade com um período de férias. Não trabalhamos fora de casa, é certo, mas temos um bebé para cuidar e isso a mim ocupa-me muitíssimo tempo. Nas primeiras duas semanas foi relativamente fácil mas a tarefa complicou-se desde então e a miúda exige-me muita atenção. Só esta manhã, por exemplo, foi andar com ela ao colo para trás e para a frente para acalmar até decidir sair um bocado de casa antes que desse em maluca. Tentar enxaixar exercício nestes primeiros meses é uma missão difícil mas não impossível. Vejo aquele video da mãe super-em-forma que faz exercício com o seu bebé em cima e só penso Agora experimenta a fazer isso com um bebé de dois meses com cólicas e que não pára de chorar, vá.

Estava fora de questão ir para um ginásio (já tentei demasiadas vezes para saber que não funciona) e ainda não dá para correr sozinha. A solução? Um programa de exercício que posso seguir sozinha em casa (poupo dinheiro, tempo e o desconforto dos balneários) e caminhadas com a miúda sempre que o tempo o permite. Era muito bom ter alguém por perto para corrigir a minha postura ou para me motivar mas por agora chega-me bem poder seguir um plano de exercícios durante cinco dias por semana, no conforto de casa e sentir que pelo menos me estou a mexer. Depois é só pegar no carrinho dela e andar um bocado aqui pelo bairro e já me sinto mais leve no final.

E a decisão lógica seguinte foi começar a comer melhor. Não se trata de nenhuma dieta, é apenas o que se designa de comer o mais clean possível: diminuir o consumo de carne e apostar noutras proteínas, escolher produtos frescos e da época para cozinhar, evitar ao máximo todos os alimentos processados. Há dias em que é mais difícil seguir os preceitos à regra: são dois filhos a precisarem de muita atenção, uma casa para gerir - nem sempre me apetece cozinhar e muito menos cozinhar tudo mas o que interessa é fazê-lo o maior número de vezes possível. O verdadeiro desafio é passar estes hábitos para a restante malta cá de casa, embora sejam incontestavelmente mais saudáveis.

Mesmo antes de ver quaisquer resultados, sinto-me bem e existe apenas um único motivo: a vida é minha e eu faço dela o que quiser. Poder tomar as rédeas com convicção e determinação, poder decidir o que é melhor para mim sem esperar pelos outros - poucas coisas sabem tão bem! E no fundo os resultados já aí estão: mais energia e aquele cansaço bom quando me vou deitar. Agora é bola para a frente e força de vontade para não furar os planos!

abril 17, 2015

A vida lá fora


O céu hoje acordou cinzento pela primeira vez em bastantes dias. É apenas um intervalo, segundo a meteorologia, que prevê o regresso do Sol para amanhã. Mas nem o cinzento consegue ofuscar o branco puro da árvore que está quase totalmente florida e a qual ainda nos falta identificar - somos novatos nestas coisas de quintais.

No chão, restam ainda as folhas que caíram no Outono passado, à espera que saibamos o que fazer com elas. Tenho visto alguns vizinhos a cuidar dos seus quintais e estou a tentar aprender pela observação antes de recorrer aos tutoriais que devem estar espalhados por aí. À esquerda, fica o quintal cuidado do nosso vizinho que partilha o apelido com a nossa rua e que gosta muito de cumprimentar o Vicente pela manhã. À direita, o estendal onde a nossa vizinha congolesa estende a roupa dos seus três filhos. No outro dia, apanhou-me a estender a roupa com os miúdos e desceu para se vir apresentar e conhecer-nos. Sou muito má com nomes mas sei que tem três filhos (rapaz de 25 anos e gémeos rapariga-rapaz de 15). Falou-me da viagem que fez no ano passado a Lisboa e de como comeu bem por lá. Concordámos as duas que é fácil fazer boa vida em Portugal quando se vive por estas bandas. A nossa vizinha de baixo juntou-se à conversa e percebi que fazem as duas exercício juntas quando começaram a brincar aos agachamentos. A senhora congolesa faz limpezas em lares de idosos e diz que já viu de tudo mas que teve uma surpresa (desagradável) na semana passada. A minha vizinha de baixo trabalhava numa pastelaria até ter um acidente de trabalho que a tem de baixa há vários meses. O que meia dúzia de minutos nos pode dizer sobre as pessoas...

À nossa frente, duas personagens: a velhinha que de vez em quando espreita à janela e usa a marquise apenas para passar a roupa a ferro e deixa-la bem estendida, pendurada em cruzetas; do seu lado esquerdo, o senhor que podemos ver a vestir-se todas as manhãs, pouco depois das sete, e que nunca abre ou fecha as persianas de casa. Há pássaros a pousarem na nossa varanda e a picarem um ou outro quintal, há esquilos de vez em quando a saltar de árvore em árvore à procura de qualquer coisa para comer. Estamos mais longe do percurso que os aviões fazem pouco antes de aterrar no Findel mas ainda os conseguimos ouvir a chegar. Aposto que mais umas semanas e vai começar a cheirar a sardinhas ou entremeada grelhada quando chegarem as sete da tarde. Nós havemos de procurar um grelhador maneirinho, uma mesinha para a varanda, umas cadeiras para o quintal e uma manta para deitar os miúdos. Nunca pude viver as traseiras de uma casa e ainda me estou a habituar a ter um espaço assim. Falta-nos um estendal e o tempo para tratar do pedaço de terra onde hei-de plantar as plantas comestíveis. No fim disto tudo, só nos ficará a faltar a companhia dos nossos para fazermos um beberete nos dias quentes!

abril 14, 2015

Também há Primavera a Norte!


É de caras: um céu azul faz muito mais por nós do que qualquer anti-depressivo artificial. Basta que o Sol entre pelas janelas pouco depois das seis da manhã e que o céu se mantenha azul durante todo o dia e sai meio mundo de casa para aproveitar.

O parque estava cheio de miúdos e pais que se dividiam entre escorregas, baloiços, bancos a entreter bebés mais pequenos ou simplesmente a conversar com outros pais. A língua que mais se ouvia era - surpresa! - o Português. Havia quem o falasse discretamente, outros gritavam-no para quem quisesse ouvir. Quanto mais tempo passamos aqui, mais fácil se torna saber quem é português só pelo aspecto. Nunca, mas nunca, falhamos!

As ruas da capital e os parques de estacionamento estavam sobrelotados. As gelatarias não tinham mãos a medir (com empregados - adivinhem! - portugueses!), todas as escadarias e bancos eram um pretexto para parar e absorver o Sol. Há árvores floridas por toda a parte, num espetáculo de cor que rivaliza apenas com o Outono. As varandas e terraços encheram-se de vida, com o solitário na companhia de um livro, até ao grupo de amigos simplesmente na conversa. Lembrámos-nos que precisamos de uma pequena mesa e cadeiras para a varanda, talvez umas espreguiçadeiras para o jardim. Tenho quatro pacotinhos de sementes de ervas comestíveis por plantar e finalmente nem preciso de vaso!

Durante as horas que passámos fora de casa, tudo parece mais simples, care free. A miúda chorou um bocadinho mas nada que um bocadinho de leite não consiga acalmar. Mesmo que os outros dias sejam mais pessimistas, mais negros, é vital que estes dias leves também vão aparecendo para que eu não me esqueça de como é realmente a vida lá fora.

abril 09, 2015

(um momento de catarse)

(melhores dias virão, repito comigo mesma)

As raras vezes em que me permito ler os blogues onde tudo é perfeito, onde os filhos são crianças perfeitas, onde as casas estão sempre limpas, organizadas e cheias de flores dão-me cabo da cabeça. Ou melhor, eu é que me dou cabo da cabeça porque não entendo onde é que eu estou a falhar.

Eu nunca fui uma rapariga de seguir as tendências, nunca usei maquilhagem e acho que não tenho nenhuma peça de bijuteria e, quanto mais tempo passa, mais me sinto uma freak no meio das outras mulheres que são o meu padrão de normalidade. Para piorar as coisas, desde a primeira gravidez que a minha auto-estima praticamente desapareceu e sou quase incapaz de olhar para mim como uma mulher (passo os dias a pensar que sou apenas uma mãe). Estava quase, quase a recuperar quando se anunciou a segunda gravidez. E voltou tudo à estaca zero.

Todos os dias me olho ao espelho com uma mistura de pena e espanto, porque as sequelas de dois filhos podiam ser muito mais visíveis mas há muito tempo que não reconheço o corpo que está diante de mim. Às vezes até me penteio de olhos fechados apenas porque não suporto olhar para mim. E o que realmente custa nisto tudo é que ninguém me pode ajudar. Ninguém a não ser eu, claro. E por muito que dê voltas à cabeça, por muito que leia ou me inspire nas histórias dos outros, por muito que pesquise, não estou a ser capaz de sair desta espiral de auto-desprezo. Para dizer a verdade, não é um sentimento de agora e sempre me senti tão longe dos padrões de beleza e de feminilidade das pessoas ditas normais mas com o tempo fui aprendendo a aceitar-me como sou. Só que não quero aceitar-me como sou agora, não posso. Mas todos os dias vou adiando um corte de cabelo pelo qual já desespero, os exercícios que toda a gente diz que se podem fazer em casa, uma pedicure, uma manicure, os números a descerem na balança, deitar fora a roupa que me faz sentir estranha. Sinto que me estou a adiar todos os dias mas às vezes é muito difícil não me sentir perdida num mundo de fraldas, sestas mal dormidas, dores de barriga, filhos que mordem a língua e caem e aproveitam todos os instantes para chamar a atenção, a casa que não se limpa a si mesma e a roupa que cresce num monte que espera aqueles momentos livres, um marido que também precisa de atenção. Às vezes, simplesmente parece que não há espaço para mim, nem um milímetro livre para eu apenas ser, quanto mais para me preocupar com as futilidades femininas. E pergunto-me todos os dias como raio me deixei chegar aqui.

Leio os blogues das pessoas perfeitas, daquelas que dizem que não há desculpas para não estarmos sempre no nosso melhor, que têm tempo e paciência para tratamentos de beleza, que correm e vão ao ginásio e que separam tão bem ser mãe de ser mulher e volto a pensar: que raio estou eu a fazer mal? Não sei onde ir buscar esse instinto de protecção da minha imagem, nem a força de vontade para sair da minha zona de conforto, nem a capacidade de organização de super-mulher. Se calhar estou a culpar-me demais, se calhar não estou a culpar-me o suficiente - é mesmo difícil para mim verbalizar em que é que estou a falhar. Gostava de não me sentir anulada como indivíduo, gostava de estar sempre impecável (versus pijama, cabelo apanhado e fralda ao ombro, ainda assim a miúda não vomite), gostava de me ver ao espelho sem este sentimento gigante de falhanço e espero que reconhecer tudo isto, dizê-lo em voz alta me possa ajudar a pegar nas rédeas outra vez em vez de me deixar conduzir. Faço figas mas preparo-me para uma viagem bem longa de volta aos dias em que tratava melhor dessa parte de mim.

março 30, 2015

Três-anos-três!

E foi assim que, enredados entre filhos e mudanças, passaram três anos desde que chegámos ao Luxemburgo. Três anos de alguma luta e sofrimento, de muitas saudades mas também de muita realização (pessoal e profissional), de melhoria de vida, de sensação de justiça. Todas as coisas de que não gosto no Luxemburgo parecem mesquinhas quando comparadas com as coisas boas que este país nos ofereceu.

Temos tantos exemplos da paz de espírito que é viver aqui: sermos justamente remunerados pelo nosso trabalho; todos os serviços públicos a que já recorremos funcionam impecavelmente e quase sem filas; os cuidados de saúde são comparticipados quase na sua totalidade; existem não só deveres mas direitos que são garantidos aos contribuintes; existe ainda uma dimensão humana com que podemos contar nos organismos públicos, bem como excepções às regras em nosso benefício, caso devidamente justificadas; os serviços que temos contratado até agora fazem-se pagar mas são excepcionalmente pontuais e eficazes, sem deixar espaço a equívocos; a escola pública é gratuita; as crianças crescem poliglotas, o que (espero) pode aumentar as suas hipóteses de vencerem no futuro; podemos escolher (de entre quatro) em que país mais compensa comprar qualquer produto e fazê-lo num espaço de menos de meia hora; a população é, no geral, bastante receptiva aos estrangeiros (mesmo que não quisessem, há mais de 150 nacionalidades a partilhar este espaço minúsculo); a rede de assistência a mães e crianças é exaustiva e gratuita; a localização é maravilhosa para quem gosta de estar em permanente contacto com a natureza; estamos suficientemente perto de outros países para viajar de carro e também se preferirmos o avião; existem ajudas efectivas a casais com filhos. De certeza existem muitos mais mas estes são os que me ocorrem agora mesmo.

Podem contra-argumentar com muitíssimas coisas que deixámos para trás em Portugal (família e tempo não contam...) mas vejo, especialmente agora que olho para trás, que estávamos cansados de viver num país onde nos são impostos deveres e onde todos os dias perdíamos direitos; onde, com o passar do tempo, se foi tornando evidente que cumprir não compensa; onde os ordenados são patéticos e insultuosos e onde se espera que se beije o chão da entidade patronal só porque temos a "sorte" de ter um emprego; onde os incentivos à natalidade são de tal maneira nulos que as famílias são obrigadas a fazer contas para saberem se podem ter mais filhos; onde se incentiva e promove a precariedade, sem que estes trabalhadores possam reclamar os seus direitos. Esta discussão já a tivemos muitas vezes, com muitas pessoas e não creio que haja quem tenha mais razão do que os outros: foi uma decisão pessoal, assim como é pessoal a decisão de ficar e remar contra a corrente. Não somos melhores nem mais espertos do que os outros - apenas fizemos o que servia para nós, com os resultados conhecidos. Não seria capaz de aconselhar alguém a emigrar ou a ficar em Portugal porque conheço bem os particulares duma decisão dessas. Mas nós estamos há três anos aqui e, tirando a dor de estar longe da família e o desconforto de viver quase sempre abaixo das temperaturas decentes, é muito bom e já nos levou a sítios (reais ou metafóricos) com os quais apenas poderíamos sonhar em Portugal.

Não sei, honestamente, quantos mais anos nos restam aqui: seguramente mais dois, o período de tempo em que somos obrigados a habitar esta casa por questões fiscais. Mais cinco? Outros dez? Vamos vendo e avaliando, conforme vamos vivendo. Para já, parece-me que isto não são só uns curtes - é uma relação séria, dure ela o que durar.

Zombie

O problema é simples: eu torno-me numa pessoa horrível quando não durmo. Há pessoas que vivem bem com poucas horas de sono diárias e bem, mesmo eu não preciso de mais de cinco ou seis para poder ser um adulto funcional. O que se passa é que ando muito longe desse número de horas dormido por noite. Eu não me importo de acordar para amamentar (facilmente volto a dormir) mas ter que ficar horas acordada a consolar um ser pequenino com (o que parecem ser) terríveis dores de barriga mexe comigo.

Tomo a minha dose de vitaminas diárias, eliminei o leite e derivados da alimentação (a ver se o problema dela é esse, era grande sorte!), tento comer mais alimentos frescos e beber quantidades industriais de chá de funcho. Não é a falta de leite que me preocupa mas sim a qualidade ou o que ele está a fazer ao sistema digestivo da pequena. Depois, acresce aos factos que ela também não dorme grandes sestas durante o dia (exactamente pelas mesmas razões), o que não me deixa exactamente descansar. Isto é a repetição do que passei na primeira vez, se bem que ela chora muito menos mas com a agravante de agora já ter outro filho ao meu cuidado. Espero que ele um dia possa perceber como é difícil dar-lhe toda a atenção do mundo e fazer o mesmo à irmã. Simultaneamente. E sendo que ela ultimamente tem tendência a ganhar porque está fisicamente debilitada.

Há momentos, durante a noite ou quando começa a nascer o dia, em que sinto que vou simplesmente cair para o lado e em que sinto o cansaço na totalidade do meu corpo, como se tivesse corrido meia maratona no dia anterior. Às vezes estou a andar no quarto com ela nos braços, madrugada dentro, a tentar que ela não acorde o resto da casa, e sinto-me a pessoa mais falhada, cansada e só do mundo. Felizmente que existe a cura para estes momentos: quando começo a levantar as persianas e percebo que sobrevivi a mais um dia e uma noite em claro. Na minha cabeça, muitas vezes já estou em Julho, está todo o calor a que posso aspirar aqui no Luxemburgo, a miúda já tem cinco meses e tudo já estabilizou. É, como a porcaria de Primavera que chegou, Sol de pouca dura e volto rapidamente à realidade dos dias mais frios do que o Inverno que passou e do pequenino ser que me tem como refém. Dias melhores virão, com toda a certeza, mas até lá resta-me sentir-me miserável por mais uns longos meses.

março 18, 2015

Desse buraco escuro e profundo chamado pós-parto

Quase três semanas depois do nascimento da miúda e aqui me encontro, nesta montanha russa de emoções que já conhecia e já esperava mas para a qual afinal não estava assim tão preparada como imaginava. Começo a chorar com as coisas mais idiotas: hoje de manhã, apenas porque me lembrei que ainda não me ajeito a montar o carrinho da miúda e hei-de precisar dele muitas vezes para sairmos. Ainda bem que não temos televisão - sempre me poupo às imagens das desgraças que vão pelo mundo e que de certeza me iriam criar um nó do tamanho do Mundo na garganta.

As minhas capacidades de concentração estão a voltar mas muito, muito lentamente. Tenho um livro parado a meio porque não consigo absorver aquela quantidade de informação. Sou, no entanto, capaz de ler sobre viagens e hoteis e spas e por isso a Condé Nast Traveller tem sido a minha melhor amiga nos (poucos) tempos que tenho tido livres. Consegui dormir três sestas até agora e isso não me tem ajudado muito, especialmente se tivermos em conta que grande parte das noites também é passada em claro. A miúda chora muito pouco se a comparar com o irmão mas tem um sistema digestivo que não a deixa descansar (falta muito até isto tudo regularizar? Alguém que me diga que sim porque eu começo a desanimar...). De resto, é uma velhinha desdentada, a olhar-nos muito séria com uns olhos que podem vir a ser como os do irmão, às vezes cheia de lua e de gargalhadas que me assustam. Eu pensava que ela é que ia ser difícil mas como me enganei: o irmão é que tem dado pano para mangas. Com a pequena, ele é amoroso e quer beijá-la e pegar-lhe a toda a hora, embora esteja um pouco decepcionado com o facto de não poderem ainda brincar os dois. Mas connosco... O verdadeiro problema está aí. As birras aumentaram exponencialmente de dimensão, a agressividade também aumentou, embora no final ele perceba o que fez e volte ao estado amoroso primordial. O que me deixa triste é que o cansaço às vezes não nos deixa ser muito tolerantes com ele e acabamos frustrados muito antes do que seria recomendável. Esforçamo-nos para que assim não seja mas é muito difícil argumentar calmamente com um miúdo de quatro anos que esperneia e grita com toda a raiva que consegue.

Estes últimos dez dias tivemos a companhia e a ajuda dos nossos pais, que praticamente vieram acabar de nos montar a casa. Sem eles, muitas coisas iriam ficar esquecidas tempo demais mas eles fizeram questão de não deixar nada por fazer. Tomaram conta do neto mais velho, conheceram e encantaram-se com a mais pequena. Não foi fácil, a convivência dos sete na mesma casa durante este tempo: cada um tem as suas maneiras de fazer e de pensar, todos temos muitas opiniões. Mas ontem, enquanto me despedia deles, bateu-me a tristeza de me aperceber que os miúdos voltam a estar longe deles por tempo indeterminado e que ter companhia, especialmente neste período, é muito bom. E então o peso das nossas escolhas atinge-me outra vez em cheio - é que, com o tempo, vamo-nos esquecendo do que significa ter escolhido estar aqui e às vezes é assim que nos lembramos. E então só me resta esperar que o Sol continue a aparecer todas as manhãs, que a Primavera substitua, mesmo que lentamente, o escuro do Inverno, que eu possa ter tempo para parar e pensar que sobrevivi uma vez. Esta vai ser só mais outra.

março 05, 2015

A doçura dos primeiros dias (e o pesadelo das primeiras noites...)

Ah, as maravilhas de ser mãe pela segunda vez! Estar pronta para mais um parto, saber exactamente a que corresponde cada tipo de choro, compreender o sono do bebé e dominar a amamentação, aproveitar bem os períodos de descanso.

Não, na verdade quase nada disto se aplica à criança que nos nasceu faz hoje uma semana. Estava pronta para o parto, sim, mas acho que no fundo nunca esperei que não envolvesse uma anestesia. Eu tinha dito à parteira quando fomos preparar o plano de parto que gostava que fosse o mais natural possível mas queria anestesia assim que estivesse a sofrer muito. O que se revelou impossível mas a natureza sabe perfeitamente o que faz e eu devia ter encarado mais naturalmente a própria ideia do parto natural. Vejo aqueles videos de mulheres que têm os filhos em casa e da paz e serenidade com que aceitam as contracções e penso: elas são animais domésticos, eu sou um bicho do mato porque não conseguia respirar fundo e aceitar - só gritar e dizer que não.

Tenho um bom primeiro exemplo no nosso filho: uma criança muito doce e sossegada nos primeiros dias e depois um desastre para dormir quase até aos três anos! A amamentação custou-me horrores durante tempo demais mas finalmente acabou por estabilizar. Ele dormia muito pouco e eu pouco podia aproveitar para dormir. Andava completamente exausta e sem saber como voltar a trazer a cabeça à tona.

Resolvi que não faria comparações, a não ser para me preparar o melhor que pudesse para a Amália. Decidi que não vou catalogá-la de calma ou agitada, que não vou dissecar as coisas se ela dormir bem ou mal, que não vale a pena perguntar porquê. Ela é outra pessoa, provavelmente mais ou menos agitada que o irmão, chorando mais ou um bocadinho menos - cabe-me aceitá-la exactamente como nos chegou ao mundo. Com o Vicente, tentei racionalizar muito as coisas e tentar entender porquê acontecia o que acontecia com ele, esquecendo-me do principal: ele era uma pessoa nova, com o seu jeito de ser, largado num mundo que não conhecia, tentando adaptar-se o melhor que podia. Com ela, já o sei e consigo aproveitar melhor os períodos de calma durante o dia para tudo o que consigo encaixar lá (mini sestas incluídas). 

Ainda é demasiado cedo para avaliar-me como mãe, agora de um segundo bebé, mas sei com toda a certeza que sou uma mãe muito mais competente e armada para abraçar a dureza que são os primeiros meses. Com um amor gigante pelos meus dois filhos e um sentimento de culpa para com o Vicente que inevitavelmente cresce sempre que me sobem as hormonas à cabeça. Esforçamo-nos para que entenda que nestes primeiros tempos precisamos de um bocadinho de tempo para tratar da irmã, envolvendo-o nas coisas também mas fico sempre com a sensação de que se sente triste e à parte. Ela veio, afinal de contas, roubar-lhe o lugar mas nunca precisarão de o disputar porque são tudo o que nós amamos com mais força. E agora, com licença, que a roupa não se estende sozinha. Tomara ter tido este ânimo quando ele nasceu, uma ponta de vitalidade para continuar a viver o dia a dia como antes mas não é tarde agora!

fevereiro 26, 2015

Amália

O teu avô V. tinha razão quando disse que havias de chegar com a mudança de lua. Sem que nada o pudesse prever, ontem decidiste que era hora de nos vires conhecer para meu alívio e nossa alegria!

Eu sabia que os segundos eram mais rápidos mas não contava com isto: contracções a começarem lentas perto da uma da manhã, a deixarem-me de rastos perto das quatro, a bolsa de águas que pude sentir rebentar. Fomos os três (tu ainda na minha barriga) ensonados e cansados para o hospital. O teu pai tinha instruções para não falar comigo, o teu irmão foi percebendo pelo caminho. Foram os dez minutos mais longos da minha vida, já perdida na dimensão infinita da dor que não podemos controlar, só esperar que passe. No hospital, o silêncio e a penumbra, nenhuma sala de parto ocupada sem ser a nossa. As parteiras ajudaram-me como podiam a libertar-me da roupa e a fazer as primeiras medições. Dilatação mais que suficiente quando entrei às 4:50 da madrugada. Ao teu pai e o teu irmão foi pedido que voltassem para casa: seria um parto curto mas não se sabia exactamente quão curto. Eles despediram-se e voltaram.

Uma das parteiras informa-me que sem análises de sangue recentes não podia passar já à epidural e que teria de esperar pela toma de sangue que acabara de me fazer. Provavelmente não ia ter tempo, disse ela. Não pode ser, rugi eu como um animal acossado, um rugido que subiu do mais primitivo de mim, ao mesmo tempo que lhe tentava explicar em Francês que não, eu não ia conseguir sem anestesia. De súbito, a vontade de fazer força, a qual foi incentivada por ela com todo o entusiasmo, ciente de que não teria tempo para mais nada. Um, dois, três puxões e nasces tu, Amália, frágil e de pulmão aberto, talvez assustada com a velocidade das coisas. Eu sem acreditar que tinha conseguido, a parteira a assegurar-me que sim e a dizer-me Olhe-a aqui, olhe-a aqui, mãe corajosa! Afinal, tu estavas mesmo lá.

Revejo tudo o resto, todas as horas que nos trouxeram até aqui debaixo de um véu incrível de tranquilidade e muito silêncio. Como um bebé normal, alternas os sonos curtos com a fome e com a falta que te faz o útero aconchegado e quente da mãe. És tão mais pequena que o teu irmão, que não arredou pé de ti quando te veio conhecer. Chorou quando te ouviu chorar pela primeira vez, por pura empatia e algum desespero inocente de quem ouve o bebé chorar pela primeira vez. Ele adora-te e eu não podia ficar mais contente com essa reacção, que - quero acreditar- ajudámos a preparar. O teu pai adora-te também, ainda mais por vires refazer o nosso equilíbrio e por ter alguém que o vai seguir com paixão.

E nós? Bem, a nossa história já vai longa. Eu fui o teu colo desde o dia um e continuarei a sê-lo até que possa. Aliviada pela gravidez ter finalmente chegado ao fim, resta-me apenas decorar todos os teus pormenores e maravilhar-me uma vez mais com a lotaria que é criar um ser humano que é (aparentemente e até agora) perfeitinho. Aceito-te como o nosso segundo milagre, agradecendo à Natureza a tua chegada espontânea, natural e livre de ansiedade. Que as aventuras a quatro comecem de seguida!