abril 28, 2016

Uns são mais iguais do que outros

Trabalho numa equipa onde sou a única mulher. É verdade que a minha empresa é maioritariamente masculina, dada a natureza do negócio, mas a minha equipa é das mais afectadas pelo desequilíbrio de género. Dela faziam parte no passado outras duas mulheres mas, como trabalhavam a partir do escritório de Londres, eram como que invisíveis para mim.

Sempre gostei de trabalhar com homens. São, no geral (e sublinho no geral, porque sei perfeitamente que existem as excepções à regra), menos complicados, mais focados no trabalho e menos distraídos com os fait-divers pessoais e profissionais. Nos meus dez anos de trabalho, a competição menos saudável a que pude assistir teve sempre origem em mulheres mas se calhar tive azar. Ou sorte, depende da perspectiva.

Mas cheguei ao ponto em que tenho uma ponta de saudades de trabalhar com mulheres. Tenho saudades da sensibilidade e ponderação, tenho saudades da humanização dos números e gostava de não ser a única mulher da equipa. Ser uma mulher numa área comercial que se especializa em hardware e, especialmente, em software é extremamente difícil. Entra-se para reuniões e é preciso combater os olhares que desconfiam que sejamos competentes para a posição com a única postura possível: a de que somos as melhores, de que não existem dúvidas que nos atormentem, que somos profissionais capazes, mesmo quando a coisa se torna tecnicamente mais complicada. Na minha responsabilidade geográfica (a Península Ibérica), os clientes que participam nas reuniões são também eles maioritariamente homens, directores de finanças ou de informática, gente que também já viu muito mundo mas que nem assim se consegue livrar da ideia de que a mulher é um bocadinho menos capaz do que o homem e que pede a presença de um técnico da reunião porque se sente "mais reconfortado". Mesmo que eu lhe pudesse explicar exactamente o mesmo.

É verdade que há aquele momento em que sinto a satisfação de poder levar o processo do início ao fim sem precisar de uma benção masculina e a euforia de ser tratada de igual para igual. Eu não devia sentir isto em 2016. Eu devia apenas ficar feliz quando cumpro as minhas funções como esperado e eufórica quando supero as minhas expectativas. Mas nem tudo é mau e é claro que muita gente me considera suficientemente competente na minha área. Só que às vezes ponho-me a pensar que, se para mim é difícil vingar numa posição privilegiada num país de primeiro mundo, para mulheres em situações verdadeiramente desfavorecidas deve ser o pesadelo total. Faço o que posso para lutar contra este estigma: preparo-me bem, admito quando tenho dúvidas, procuro respostas, raramente vacilo. Mas há dias em que uma mão feminina me fazia muita, muita falta. Nem que seja para falar da filharada mas para sobretudo eu sentir que não estou sozinha entre as feras.

abril 20, 2016

Primavera, és tu?


Eu sei que é parvo mas vocês entenderão. Caramba, foi a primeira vez que saí de casa sem casaco nuns bons sete, oito meses! Dei-me ao luxo de ir buscar os miúdos a pé, ele de trotinete, ela no seu carrinho, todos a carregarmos as baterias de vitamina D. Se eu vos disser que ainda há dois dias se previa neve para todo o fim de semana, vocês perdoam-me o histerismo? Lembrem-se que estamos quase em Maio e as temperaturas mínimas ainda são negativas. Pensem em mim, carregada com as coisas do dia, uma miúda ao colo, um gaiato pela mão, a chegar ao carro quase em Maio e ainda ter que raspar o gelo de todos os vidros do carro. Imaginem que ainda não tive coragem de guardar aquecedores e desligar o aquecimento central porque tenho tido tanto frio nos últimos dias. A alegria desmedida é justificada. Mesmo que amanhã já não haja Sol. Ou que caiam mesmo uns flocos de neve. O que importa é que hoje o dia trouxe Primavera!

abril 13, 2016

Sete anos de muita coisa

Faz hoje sete anos que começámos a namorar. Acho que não o sabia muito bem nessa altura mas já estava a acontecer. O meu avô paterno fazia oitenta e muitos anos neste dia mas já não estava em condições de celebrar. O meu avô materno havia de morrer dois dias mais tarde e nunca me hei-de esquecer de como aquele que é hoje o meu marido tentou amparar-me a queda e prepara-me para o que estava a acontecer. Enviou-me uma mensagem, com todo o amor e carinho que sempre lhe conheci, dizendo que me devia preparar e que a partida do meu avô estava para breve. Um mês antes disso, a sua mãe tinha também partido.

Comemorar o nosso dia nesta data traz-me mixed feelings. Por um lado, a alegria serena de saber que estou com a minha pessoa, a mesma que nunca desistiu de mim, que insistiu e peserverou até roçar o chato, que decidiu que iríamos ter filhos juntos (mesmo quando eu gritava Que horror!), que sempre gostou de mim de uma forma desinteressada e aberta, que nunca desapareceu. Por outro lado, é impossível esquecer a atmosfera em que vivemos este começo: tanto luto, eu e ele, o meu avô materno quase a morrer, o avô paterno debilitado por acidentes vasculares cerebrais consecutivos, a mãe dele já a olhar por nós noutro sítio melhor, as igrejas frias, a comida que os amigos nos levaram a casa como conforto, a chegada a casa noite cerrada e toda a gente à nossa espera para podermos chorar abraçados.

Foi difícil não confundir o princípio da nossa relação com a profunda carência afectiva de que sofríamos os dois naquela altura. Foi difícil distinguir o que era o abraço amigo e o sólido apoio moral do que era o romance que se insinuava entre nós há algum tempo. Mas a verdade é que passaram sete anos e nós continuamos aqui, enquanto os meus avôs e a sua mãe nos espiam lá de cima. Eu não quero misturar as coisas, nem quero tirar importância a tudo o que vivemos naquela altura mas a verdade é que, no meio do nosso bem querer, havia muita dor.

Nunca tive uma relação tão longa. Sete anos impressionam-me, especialmente se prestar atenção ao padrão do que são as relações hoje em dia. Sete anos passaram num instante, mesmo que nos dias maus o tempo pareça não se mover. Sete anos, dois filhos, uma mudança de país, uma nova casa, muitas viagens - talvez o meu marido seja mesmo a minha maior riqueza. É a pessoa mais lúcida e justa que conheço (pai e mãe, vocês não contam, tá?), é o marido mais realista. É engraçado mesmo quando não tem graça nenhuma e a isso devo não ficar zangada com ele por longos períodos de tempo. Quando éramos amigos, muita gente não o entendia e eu ficava triste. Agora, se alguém não o entender, não me importo porque eu sei exactamente como ele é e acho que quem não o compreender é que perde. Tem os seus defeitos (olá, divisão igualitária das tarefas domésticas!) mas nós divertimo-nos tantos com as pequenas estupidezes do dia a dia que nos vamos arranjando como podemos. Às vezes ele quer estar sozinho e nós perseguimo-lo porque gostamos muito de estar com ele - ele chateia-se um bocado mas logo se desfaz em graças para a pequena e em desafios para o mais velho.

Não sei se vamos estar casados para sempre mas gosto de pensar que sim. Não sei se a vida nos vai mudar, se vamos deixar de querer fazer planos a dois, se vamos continuar a rir das mesmas coisas mas espero que estejamos juntos por muitos e longos anos. Porque eu acho que só eu é que aturava um chato destes e só ele é que podia aguentar com a montanha russa de emoções que foram este sete anos para mim. E por isso, sinto que estamos feitos um para o outro, mesmo nos dias em perco um pouco a fé no amor. Não no nosso, mas no que vejo por aí. Pelo sim, pelo não abrimos hoje uma garrafa de vinho e celebramos as bodas de lã :)

abril 07, 2016

A música acaba mesmo aos 33?

Tinha ouvido falar disto há uns tempos mas nunca me tinha debruçado muito sobre o assunto. Acho que nunca quis pensar muito nisso porque, no fundo, sei que é verdade. Há um estudo que conclui que deixamos de ouvir música nova aos 33 anos (encontram o link aqui). A caminho dos 37, não sei muito bem o que pensar.

Um dos factores que contribui para esta diminuição da procura pelo novo são os filhos, claro, mas o autor do estudo sugere que isto acontece porque começamos a ouvir mais músicas infantis (para lhes fazermos as vontades). Ora, aqui em casa, não é essa a razão para não conhecermos o último êxito ou a banda mais indie de todo o sempre. A verdade é só uma: não há tempo para música nova, quando se tem dois filhos, um emprego e nenhuma ajuda por perto.

Eu explico a minha perspectiva. Quando andava na universidade e não tinha gravador de cds, confiava num colega meu que me gravava cds mas sem me perguntar o que eu queria ouvir: ele decidia se era qualquer coisa que eu ia gostar e gravava na mesma, eu que me desenrascasse. Depois, quando eu ainda era solteira e uma miúda sem filhos, chegava a casa depois do trabalho e esticava-me no sofá. Muitas vezes ali ficava até serem horas de dormir mas tinha o computador no colo e saltava de site em site, de comentário em comentário, de sugestão em sugestão até encontrar a última novidade. Muita música nova me aparecia no computador porque tinha apenas gostado da capa do cd ou porque saía uma crítica porreira nas páginas do Ipsilon e, mais tarde, porque apareceram serviços como o Last.fm, que fazia o favor de analisar o que andávamos a ouvir e nos sugeria música parecida. Conheci muitas pessoas com base na música nova que sempre procurei e a todas elas agradeço o facto de me terem ajudado a ver/ouvir/sentir mais coisas.

Mas chegou o primeiro filho e os meus tempos livres passaram a depender dele, não apenas de mim. As minhas noites mudaram também desde há cinco anos e meio: não dormir uma noite seguida desde aí fez com que, na maioria dos dias que se seguiram, eu tivesse pouca ou nenhuma paciência para procurar o Novo. E depois chegou o segundo filho e as coisas complicaram-se ainda mais. O tempo precisa de estar de tal maneira compartimentalizado agora que me sobra pouco tempo para as velhas coisas que me faziam mais feliz. Acho que já aproveito bastante bem o tempo e tento perder o menos possível em frente à televisão sem propósito definido mas não dá para me sentar e navegar sem destino no mar de bandas novas e da moda como antes fazia.

É por isto que não queria admitir mas, musicalmente falando, estou velha e a agarrar-me mais e mais à música que, no passado, já me fez feliz. Não tem mal nenhum, eu continuo a achar que é música boa e muita dele nem sequer envelheceu por aí além mas tenho pena de estar a perder esse combóio - o puro e simples Fear Of Missing Out. Aposto que muita gente acha que é perfeitamente possível manter tudo ao mesmo tempo - casa, filhos, trabalho, maridos e mulheres, últimas tendências da moda/dos livros/da música/das séries/dos filmes. Para mim, infelizmente, não dá e, tendo precisado de escolher, escolhi estar presente no aqui e agora, escolhi tentar manter o ténue equilíbrio entre ser uma pessoa e ser uma mãe e tem resultado mais ou menos. E só por isso, deixo aqui três das minhas músicas preferidas de todo o sempre, mesmo que todas tenham sido gravadas antes do ano 2000. Que se lixem as the next big things




março 29, 2016

Segundo Capítulo


Para mim, era mais ou menos inevitável. Só me faltava entender como podia materializar-se a nossa colaboração, em que formato ou em que meio mas sabia que havia de chegar.

O Mário é aquela pessoa que olha para o Mundo já à procura da fotografia ideal. Vê beleza escondida em tantas coisas que não posso deixar de me sentir espantada sempre que me mostra uma fotografia sua. Tem um estilo, tem um olhar que eu posso claramente identificar como seu. Procura o indizível, o intocável com cada disparo seu. Colecciona material analógico, revela ele mesmo as suas fotografias e nem por isso deixa de apreciar o conforto de ter um smartphone na mão. Ele pensa mesmo a fotografia, ao contrário de mim, por exemplo, que tento apenas registar o meu dia a dia - ele faz o mesmo mas sobe sempre a parada e mostra-me a melhor composição, o melhor enquadramento. Quando vejo as minhas fotografias, fico sempre ligeiramente frustrada porque tendo a comparar-me com ele. E para mim ele não tem comparação.

Quando namorávamos e vivíamos longe um do outro, tentámos um blogue que durou pouco tempo porque, felizmente, acabámos a viver juntos mais depressa do que esperávamos. Ele fotografava e eu escrevia curtas histórias com base nas suas imagens. O blogue que nasceu agora não é muito diferente, salvo que eu não conto histórias mas antes falo um pouco sobre o que é a nossa vida (não quero dizer aqui, quero antes dizer pelo Mundo). Não sei o que é que este novo sítio vai fazer pelo meu velho blogue, não quero deixar um em detrimento do outro. Vou deixar só que as coisas aconteçam e é tudo.

Para conhecer este novo capítulo na nossa história, podem clicar aqui. Temos todo o gosto em que nos visitem na nossa nova casa.

março 27, 2016

DIY (Fizemos Nós Mesmos)


Nós temos muito pouco de artistas mas não queríamos pendurar nada na parede que não tivesse nada a ver conosco. A solução? Fazermos nós mesmos, claro! Havia aquele grande espaço vazio no quarto dos miúdos, onde não queríamos nada que fosse claramente feminino ou masculino, a ideia era que fosse um espaço dos dois.

Comprámos uma grande tela há uns meses. Tínhamos pensado num enorme mapa mas não encontrámos nenhum que nos enchesse mesmo as medidas. A parede tem uma espécie de defeito bem grande (como aliás toda a casa, descobrimos já depois de nos termos mudado mas nada que umas boas demãos de tinta e algum gesso não possam resolver) e era preciso qualquer coisa que o tapasse, ao mesmo tempo que preenchia bem a parede.

Ela é muito pequenina e aindas não participou. Calculo que, assim que ela cresça mais um bocadinho, tenhamos que fazer uma nova versão para que todos possam participar. Por agora, ficámos com uma obra verdadeiramente eclética: pai, mãe e filho têm estilos completamente opostos. E pode não estar um exemplo de design, simetria ou proporcionalidade mas foi feito a seis mãos, as nossas mãos, com direito a algumas birras pelo meio porque lhe faltava a inspiração.

março 22, 2016

Bruxelles, ma belle

Quando o meu colega me falou nisso, não me apercebi logo. Cruzámo-nos a caminho da máquina do café, ele com phones nos ouvidos enquanto me dizia Estou a ouvir as notícias. Pensei que era o ritual matinal dele mas realmente nunca antes o tinha visto a fazer semelhante coisa.

Depois sentei-me, café a ferver ao lado do computador, a sandes que não tive tempo de comer em casa e ele pergunta-me Já viste, isto outra vez? e eu não fazia ideia do que se tinha passado. O que se passou?, perguntei eu sem qualquer noção da gravidade e foi aí que ele me disse que Bruxelas tinha sido atacada. Bruxelas, onde estão os nossos maiores amigos. Bruxelas, onde o meu marido esteve há apenas três dias. Bruxelas, a cidade a que mais vezes voltei e na qual sempre me senti em casa. Bruxelles, ma belle.

Viver no centro da Europa tem tantas coisas boas. Tem as grandes capitais todas à mão, tem uma rede de transportes sofisticada e eficiente, dá-nos a falsa sensação que o mundo é todo nosso e que nos podemos mover como queremos. Mas tem a desvantagem de estarmos também nesse centro nevrálgico que estes bárbaros querem atingir, no centro dessa comunidade que vive em liberdade, que acolhe quem é diferente, que vive e deixa viver. E isso é o pior dos nossos pecados aos olhos de quem nos quer tanto mal. Por muito que tente, não consigo entender porque é que isso é tão difícil de aceitar e porque é que temos que, escolhendo uma religião, bater-nos até à morte para fazer valer a nossa fé. A minha fé é só uma: tenho fé no ser humano. Mas isso é nos dias bons, porque nos dias maus é difícil pensar que nem todos somos monstros intolerantes e selvagens, parece que o mal se multiplica por toda a parte. Torna-se cada vez mais difícil acreditar numa solução que não passe, ela também, pela violência e pela opressão de outros credos. Entretanto, há gente com fome e com frio às portas da Europa. Conseguir entrar, se não o era já antes, torna-se completamente impossível porque é humanamente impossível confirmar que todos os que vêm o fazem por bem.

Tenho muitas vezes pesadelos e sonho muita vez com o fim do mundo, que quase sempre chega sob forma duma catástrofe natural ou (ultimamente) pelas mãos (braços? tentáculos? coisas?) de extraterrrestres. Mas desses pesadelos eu posso acordar, respirar fundo, assegurar-me que os meus filhos estão quentes nas suas camas e seguir a minha vida. O novo pesadelo, este que se constrói todos os dias e do qual não podemos despertar, está cada vez mais à nossa porta.

***

No mesmo dia em que perco um pouco mais de fé na humanidade, há uma vida que chegará a Bruxelas com toda a pujança e potencial para mudar o mundo. E sossega-me saber que terá os braços da família prontos para acolhê-la, mesmo no meio de tantos destroços e de falta de esperança. Agarro-me a esta pequena luz com o desejo que possa crescer num mundo de paz e tolerância, que possa brincar com os meus filhos sem qualquer receio, que possamos ver o fim destes ataques todos juntos.

março 07, 2016

Viver com um propósito

Prelúdio

Várias pessoas na noite de Sexta-feira passada: Mas tu nunca não te cansas dançar?
Eu: Eu tenho tão poucas oportunidades de dançar que (quando o faço) faço-o à séria.

***

Volto à questão dos podcasts e de como me têm feito (entre outras coisas, claro) pensar. Já aqui disse que não acho que nasci para ser mãe, nem sigo as últimas tendências da moda e não sou a maior feminista que conheço. Gosto de pensar em mim como uma pessoa simples ou como uma pessoa num processo longo e complexo de simplificação, que continua a aprender como apreciar e valorizar as pequenas coisas e que tenta a aceitar os acontecimentos diários como algo natural, mesmo que às vezes sinta que não são desprovidos de significado.

Aconteceu-me uma coisa com o passar do tempo: cada vez mais me estou nas tintas para o que os outros pensam de mim ou daquilo que faço. Não tento agradar a ninguém: é possível que seja mais tolerante ou diplomata em questões profissionais mas na minha vida pessoal não tenho papado fretes. Por isso, Sexta-feira à noite fui ao lançamento do rebranding da empresa em que trabalho e dancei até não aguentar mais. Ou até o DJ matar a pista, o que coincidiu no tempo. Há uns anos atrás, demasiado auto-consciente, teria reservas em divertir-me sem amarras. Hoje em dia, ainda demasiado auto-consciente mas sem dar a isso a mínima importância, não hesito em dar tudo na pista de dança, literal e figurativamente - imaginem que a pista de dança é também a vida.

Liga este pequeno fait divers com um podcast que ouvi hoje ( chama-se Amplify your life, da mesma autora do site Abundant Mama) em que se discutiam os conceitos de slow living e de knowing your why. Muito resumidamente, a ideia é que devemos tentar encontrar o propósito nas nossas vidas, ou seja, procurar aquilo que nos faz mais feliz e eliminar tudo o resto das nossas vidas. Para isso, viver devagar é essencial. E o que é isso de viver devagar? É simplesmente não nos impormos todas as tendências de moda do mundo, não inscrevermos os nosso filhos em todas as actividades possíveis e imaginárias, não sentir que necessitamos de ver aquele filme ou conhecer aquela banda para nos sentirmos completos. É literalmente reduzir a velocidade a que vivemos e não deixar que as imposições sociais, culturais, emocionais tomem conta das nossas vidas. É escolher fazer as coisas com um propósito, aceitar que não vamos conseguir estar em todos os sítios ao mesmo tempo, saborear o prazer que nos dão as pequenas coisas. Como dançar sem reservas numa Sexta-feira à noite.

Isto não significa que deixemos de querer o melhor para os nossos filhos, nem que subitamente desliguemos das actividades que sempre nos trouxeram felicidade e um sentido de pertença. Viver com um propósito, para mim, é simplesmente aceitar que o meu tempo, as minhas costas, a minha paciência têm limites. É deixar de me sentir culpada por não conseguir acompanhar todas as novidades no mundo da música e por ter de escolher melhor os livros que leio porque o tempo não estica. É, lentamente também, sentir a liberdade de não precisar de impressionar ninguém e a satisfação de gerir o meu tempo o melhor que uma vida profissional, dois filhos e uma casa permitem. E é mesmo dançar como se ninguém estivesse a ver...

fevereiro 26, 2016

Amália: um ano a quebrar corações

Era perto da uma da manhã quando começou e quase quatro quando percebi o que estava a acontecer: estava em trabalho de parto no dia vinte e seis de Fevereiro, quando supostamente ainda faltavam duas semanas para a gaiata estar pronta. Tinha o mais velho doente, estava desnoitada e, enquanto cuidava dele e de mim, percebi que em breve ia ter mais alguém de quem cuidar. Da primeira vez, não tinha chegado a este nível de dor durante as contracções, graças aos milagres da medicina moderna; desta vez, nem tempo para levar uma epidural tive. Foi a experiência mais alucinante da minha vida e também a mais empowering de sempre. Nunca me vou esquecer do silêncio e penumbra da sala de parto, dos gritos que me saíam sei lá de onde, de ter vontade de fazer força e ter a miúda cá fora em dois puxões valentes. Sozinha, sem ninguém da família, sem amigos na sala: só a parteira que me dizia que tivesse calma e que seria capaz. No fim, ela chamou-me valente e, no meio da alegria de ter feito tudo sozinha, insinuava-se a tristeza de não ter ninguém ali para abraçar. A não ser a minha pequena filha, que não chorou logo de imediato e me olhou com aquela cara séria dela.

É incrível pensar que passou um ano. Amália completa hoje o seu primeiro ano de vida, cheia de mimos dos rapazes e de colo da mãe. Passou quase um ano sozinha comigo, insistindo em não dormir, muito à imagem do seu irmão e precisando de muita atenção. De toda a atenção do mundo, mesmo quando já conseguia pegar nos seus brinquedos com aquelas mãos gordinhas sempre a postos. À parte dos miseráveis hábitos de sono (que ainda persistem, mesmo que mais regulados), esta pequena boneca adora comer, gosta de fazer adeus e brincar com balões, delira a puxar o cabelo da mãe e do irmão, começa a gatinhar mais depressa quando sabe que a vamos apanhar. É divertida, esta nossa filha. Já percebe quando tem graça e tenta fazer-nos rir. Nunca mas nunca acorda mal disposta, ao contrário do irmão que, excepto algumas excepções, sempre acordou a chorar. Ainda não anda mas empoleira-se sempre que pode, tem seis dentes bons para roer bolachas e côdeas de pão, adora tomar banho - só detesta sair da banheira.

Eu, como (penso) a maioria das mães de dois filhos, pensei que havia de ser difícil arranjar espaço para ela no meu coração. Afinal, cinco anos apenas com um filho é coisa para deixar marca. Não foi difícil gostar dela, assim mesmo loucamente, ao contrário do que esperava. Ela esgotou-me as forças ou as minhas hormonas esgotaram-me as forças e sei que algumas vezes a culpei pela minha quase-depressão. Mas a minha filha pequenina, que nasceu um bebé tão pequenino a comparar com o irmão, não fazia mais do que precisar de mim, de nós para poder crescer com tranquilidade. A minha bebé pequenina só chegou a este mundo perdida entre dia e noite, a precisar da minha total dedicação, enquanto eu me via a dormir aos soluços, a enlouquecer com a estupidez de querer controlar todas as coisas. Já não tentei perceber porquê: bastou-me o Vicente para entender que eles são como são mas mesmo assim custou-me a aceitar que ela não fosse um borreguinho a dormir.

A pequena Amália faz um ano e tem a sorte de ter parte da sua grande família com ela para festejar. Eu cá olho-a embevecida de cada vez que ela se despede de alguém ou sempre que tenta quebrar os limites, tentando escalar sofás ou escapar por portas entreabertas. Eu vejo a alegria com que ela nos olha todos os dias, especialmente quando acorda e percebe que nós os três ainda estamos ali e é tudo o que peço para ela: que continue indomável e curiosa e que se sinta sempre amada pela gente à sua volta. O resto? O tempo tratará disso.

fevereiro 24, 2016

Ouvir rádio, ler e... pensar em bebés

Desde que sou mãe pela segunda vez que me tornei (ainda mais) numa freak que tenta aproveitar da melhor maneira que pode todos os minutos que tenho livres. Já depois do nascimento do Vicente estava assustada com a possibilidade de não conseguir voltar a fazer as coisas de que gosto (principalmente ouvir música, ler e escrever) mas depois de nascer a miúda esse medo cresceu ainda mais. Afinal, agora há dois banhos para dar, dois jantares para dar, dois bonecos para pôr a dormir e há que entretê-los nos entretantos.

Para ser totalmente honesta, mesmo agora tendo dois filhos em vez de um, consegui recuperar e dedicar-me a algumas coisas de que gosto mesmo muito mais depressa. O segredo, se é que ele existe, é apenas um: ocupar todos os micro-momentos-livres com qualquer coisa que me dê prazer. Consigo ler uma meia hora antes de adormecer, consigo ouvir a Radar especialmente ao fim de semana de manhã enquanto tomamos o pequeno-almoço todos juntos, de vez em quando ouvimos uns vinis quando estamos todos na sala e ocupo todo o tempo em que estou a conduzir a ouvir podcasts.

Descobrir podcasts foi um prazer, pouco depois da miúda nascer. Quando saíamos para apanhar, primeiro ouvia música mas depressa fui subscrevendo um par de podcasts e agora estou quase que viciada nuns quantos. Há uns muito bons a contar histórias (o Serial ou Modern Love, por exemplo), há os super-hiper-divertidos que me fazem parecer uma tonta dentro do carro a rir (o Obrigado, Internet ou o Uma néspera no cu, por exemplo), há os que me satisfazem a curiosidade de conhecer outras pessoas através de conversas carregadas de intimidade (como o Fala com Ela ou o Até tenho amigos que são) e finalmente há os que falam sobre bebés e nascimentos e gravidezes em geral (como o Pregnancy Podcast ou o The Birth Hour). E é exactamente aqui que a porca torce o rabo.

Nunca achei (e continuo a não achar) que tinha aquela vocação para ser mãe, para ser aquele ser doce e paciente que ampara todas as quedas e que perdoa todas as traquinices sem sequer pestanejar mas acho que sempre soube que queria ter filhos. Houve uma altura - com quinze anos, talvez - em que quis ser mãe solteira, imagine-se, como se essa fosse uma decisão apenas minha, de um egoísmo que (reconheço agora) foi talvez próprio da minha adolescência. Nunca procurei um pai para os meus hipotéticos filhos mas ele lá apareceu, muito tirado a ferros, apesar de ele sempre dizer que era isso que ia acontecer um dia. Até ao dia em que realmente aconteceu.

Só que depois do nascimento da Amália comecei a debater-me com dois sentimentos contraditórios: parece que a nossa família está completa assim e, ao mesmo tempo, parece que falta mais alguém lá em casa. Se nunca me imaginei como aquela mãe, muito menos me imaginei mãe de três ou mais filhos - dois sempre foi uma espécie de barreira psicológica. Mas agora parece que essa barreira psicológica se esfumou, não sei bem como e estas conversas de mulheres só têm ajudado a que ela desapareça na sua totalidade. Tenho ouvido histórias incríveis de mulheres e da maneira verdadeiramente única como planearam as suas gravidezes e os seus partos. Ou de como inacreditavelmente nada correu como esperavam e lá se iam os planos de nascimento e os partos sem intervenção. O que têm em comum todas as histórias? A felicidade indescritível de ser Mãe, de albergar este projecto de vida durante nove meses para depois - mais intervenção, menos intervenção - trazermos essa vida ao mundo, a sensação de que se pode tudo quando se tem a sorte de parir au naturel ou a doce resignação de quem precisa de ajuda médica para poder finalmente abraçar o seu bebé.

De repente, este fascínio pela gravidez, mesmo depois dos nove meses mais ou menos miseráveis que nos trouxeram a Amália. De repente, esqueço-me das náuseas infinitas, das intermináveis dores nos ossos, da epidural que não tive tempo de levar... E um marido que queria ter dez ou onze filhos e um filho que queria ter mais cem irmãos (divididos entre bebés Vicentes e bebés Amálias, todos a dormir no mesmo quarto!). Esqueço-me do cansaço que quase, quase me derrubou, da falta que nos faz a nossa gente especialmente quando há um bebé novo no pedaço, das noites que ainda não consigo dormir, dos banhos, de de de de de... Tudo muda quando se escuta aquele bater do coração, quando a imagem mostra um ser humano em miniatura, quando eles se riem já cá fora e brincam juntos, quando querem os dois sentar-se no nosso colo ao mesmo tempo. O que seria de nós com um terceiro?

fevereiro 15, 2016

Quarenta e oito meses de casados!

Comemorámos quatro anos de casamento no dia treze. Quando fomos à conservatória marcar a data, tínhamos alguma pressa: ele tinha que mudar-se para o Luxemburgo para começar a trabalhar e eu ficaria em Portugal à espera que as coisas se compusessem. A funcionária começou logo por dizer que no dia catorze já não havia vagas, toda a gente se queria casar nesse dia. Toda a gente menos nós, a quem apenas interessava oficializar a nossa união, não importava em que dia.

Ia mentir se dissesse que não sonhei com um casamento convencional e como convencional não entendo a cerimónia religiosa (que ambos dispensamos e à qual não damos especial importância) mas sim o tradicional copo d'água: os noivos a entrarem na sala ao som da sua música, distribuição das lembranças que perdemos noites inteiras a preparar, os convidados a baterem nos pratos para os beijos da praxe, aquele bêbado clássico a partir a pista de dança, o casalinho de bebés que imita os adultos com um abraço desajeitado, as torres de camarão e a mesa dos queijos, as senhoras à volta da pista com o casaquinho sobre os joelhos, os noivos cansados de beijar tanta gente mas felizes por estar a partilhar a sua alegria com essas mesmas pessoas. Em vez de tudo isto, petiscámos com os meus pais, o Vicente e os amigos que estavam por Lisboa e depois fomos comer sushi os dois. Não houve cá noite de núpcias e muito menos lua de mel - só se fingirmos que o Luxemburgo é aquele destino paradisíaco. Em suma, não foi o que sonhei em termos de dimensão, pleaneamento e convidados mas foi igualmente cheio de amor.

Costumamos dizer que casámos por interesse. Há quem se choque e há quem entenda que isto é apenas uma anedota que costumamos contar: é que precisávamos mesmo de nos casar por razões fiscais, para simplificar as burocracias que aí vinham e para, de certa forma, protegermos os nossos filhos. Mas é claro que o nosso interesse era outro: tínhamos encontrado a pessoa com quem nos vemos a envelhecer, a pessoa que nos compreende de tal maneira que podemos ser verdadeiramente nós próprios - o que mais há a dizer? O casamento, embora não essencial, era o passo natural para quem já tinha um filho de ano e meio, estava junto há três anos e se conhecia há outros vinte.

Não usamos alianças: porque não usamos anéis mas, principalmente, porque não precisamos disso para nos lembrarmos (e ao resto do Mundo) que nos prometemos a alguém. Também não mudámos de nome, o que me causa alguns dissabores aqui no Luxemburgo, já que muitos serviços insistem em chamar-me Sra. N. T. T., quando o meu nome é Sra. A. M.

O casamento, para mim, é um estado de alma. Acho que estou casada com o Mário desde que demos o nosso primeiro beijo porque não me imaginava a estar com outra pessoa qualquer. Não preciso de símbolos exteriores ou de documentos oficiais para provarem o quanto eu gosto dele e o quanto ele mudou a minha vida e a minha perspectiva sobre Mundo para melhor. Sinto-me ainda mais casada com ele quando brigamos porque vamos encontrar o perdão para estas discussões sabe-se lá onde. Eu acho que só pode ser no amor, porque ninguém suporta algumas inanidades e palavras azedas com base numa amizade ou na simples simpatia - é preciso amar. Mas mesmo que dispense alguns rituais associados ao casamento, houve um que me faltou e continua a faltar: estender a comemoração do nosso amor a mais família e a mais amigos. E os anos vão passando sobre esta data sem que esta comemoração possa tomar forma. E todos os dias treze de Fevereiro eu brindo com o meu marido e prometo a mim mesma que esse copo d'água um dia ainda há-de sair!

fevereiro 02, 2016

Doze anos destas borboletas

A sério que não sei porque ainda aqui escrevo, tenho de começar assim. Este blog comemora hoje doze anos de existência, exactamento um terço da minha vida, o que, ano após ano, não pára de me impressionar.

Nos últimos tempos, tenho pensado muitas vezes em acabar com a minha presença nas redes sociais, blog incluído. Penso nisso especialmente por um motivo: a quantidade inacreditável de tempo que elas me sugam sem qualquer contrapartida positiva que não seja poder estar em contacto com os meus amigos e a minha família. Mas mesmo nisso às vezes tenho dúvidas: porque raio quero eu ler frases motivacionais ou correntes que não devemos quebrar sob pena de termos vinte anos de azar ou os recados que se mandam por indirectas? É que, no meio dos amigos e família, também há aquelas pessoas a quem não conhecemos bem ou os ex-colegas de trabalho com quem nunca tivemos grande confiança. Mas bem, podemos sempre restringir o que queremos ver e assim me vou aguentando por ali.

Mas o blog é outra história. O blog conhece o meu antes e o meu depois. O blog já me viu virada do avesso, a morrer de tristeza, a transbordar de alegria, a amar sem ser amada, a ser amada sem amar, a viver cinco ou seis vidas. Ele esteve sempre aqui, mesmo nos períodos mais longos em que eu não quis ou não pude escrever uma linha que fosse. O blog foi o meu maior confidente até ser descoberto, depois tornou-se no diário de uma jovem adulta e desnorteada, que seguiu até que ela se tornou em mulher e mãe de dois filhos. No blog escrevo eu e a quem ainda dá gozo comentar, sem desfile de estados, imagens e videos. Há uma audiência que eu espero que ainda aqui esteja porque gosta de (me) ler mas se ela não existisse eu continuaria a debitar as mesmas linhas, talvez mais soltas, talvez mais ousadas mas continuaria aqui.

Eu não escrevo tudo o que penso e muito menos tudo o que sinto. Nunca o poderia fazer, talvez apenas sob um pseudónimo. Não seria capaz de suportar o julgamento, tudo aquilo que os outros pensam de mim, já assim às vezes me custa. Ainda procuro uma forma de me libertar destas amarras e dar asas às torrentes de palavras que às vezes sinto dentro de mim. Não encontrei ainda a fórmula para as ordenar e torná-las em frases com sentido e isto é bom: depois de tantos anos a escrever, ainda posso surpreender-me. Mas, ao mesmo tempo, isto é também terrível: depois de tantos anos a escrever, ainda não encontrei a minha voz. E se por um lado eu acho que ainda tenho tempo, por outro parece-me que nunca vou conseguir. Por este andar, o blog ainda há-de cá estar para contar (também) essa história. Doze anos, caraças!

fevereiro 01, 2016

Há seis anos a moer-me diariamente o juízo, há quatro internacionalmente!

Foi há exactamente seis anos que soubemos que podíamos finalmente viver juntos. Não tinha ainda passado um ano desde o começo do nosso namoro mas tinha sido tempo suficiente para sabermos que não era vida namorar assim. Foram muitas horas passadas ao telefone, muitas sms trocadas durante o dia e durante a noite, muitas viagens para cá e para lá, muitas saudades e corações pequeninos sempre que a distância passava a duzentos e doze quilómetros. Namorar à distância pode ter piada ou fazer algum sentido quando somos adolescentes ou quando não podemos escolher mas torna-se numa tortura quando já somos adultos, responsáveis pela nossa vida e simplesmente não podemos mudar. Tudo se resolve, encarregou-se a vida de me ensinar, e no dia um de Fevereiro de dois mil e dez chorámos ao telefone por saber que a distância ia ter finalmente um fim.

Curiosamente, foi também neste dia que, há quatro anos atrás, soubemos que ia terminar outra distância, esta com mais de dois mil quilómetros de extensão. Ele a dormir num hostel como um adolescente, eu regressada a casa dos meus pais mas já com um filho nos braços. A procura tinha finalmente dado resultados e havia uma casa para os três. Fim às noites a partilhar um quarto com estranhos, fim aos serões a fugir do taxista psicótico, fim às chamadas com um bebé que não percebia que o pai estava longe, fim da incerteza. O dia um de Fevereiro tem tanta importância para mim, para nós como família!

Não posso dizer que a nossa vida a dois tem sido um mar de rosas, que não tem. E acho que nunca pensei que fosse uma das partes da minha vida em que mais tivesse de investir, em que mais precisasse de me adaptar. Vivi sozinha durante os anos suficientes para apreciar algum silêncio, para gostar do meu espaço, para esperar ter as coisas à minha maneira. Aprendi a desentupir o lavatório, a abrir garrafas de vinho, entrei em casa pela janela das traseiras quando fiquei sem chaves. Eu chegava-me e era tudo, nessa época em que pensava que estaria para sempre sozinha. E depois entra-me ele pela vida dentro, com a sua ordem e o seu feitio, com uns braços que parecem intermináveis quando me tenta proteger. Ainda luto contra isso porque me programei para me proteger a mim mesma. Ainda o empurro quando me tenta amparar as quedas porque o meu orgulho está acima da minha necessidade de protecção.

Mas há seis anos que partilhamos o mesmo espaço, mesmo depois do cepticismo de alguns, mesmo depois das cambalhotas que a vida nos fez dar. Eu cá acho que a tendência agora é simplesmente  melhorar: somos uma equipa a funcionar bem mas ainda nos falta encontrar aquilo que nos tornará numa máquina. E ainda se aprende mas mal seria se já tudo estivesse sabido...

janeiro 27, 2016

Diário de bordo

É a quarta semana depois de ter regressado ao trabalho e sinto-me uma máquina, com o que isso tem de bom e de triste.

Durante a semana, não há tempo para quase nada. Os banhos deles, o meu, o jantar, cama para eles, sobramos nós. Ela tem sempre sono, ele não tem mas se se deita adormece logo e profundamente. Há dias em que só os adultos sobrevivem à hora de jantar e o silêncio e falta de agitação são estranhos. Não tenho paciência para ficar a ver televisão, por isso tenho lido sempre umas páginas antes de me deitar e com isso estou em vantagem no desafio que impus a mim mesma: ler doze livros este ano.

Nestas quatro semanas, não trouxe almoço para o trabalho apenas uma vez e porque tinha tido jantar de trabalho no dia anterior, chegado tarde a casa e de manhã resta-me pouco tempo para preparar as minhas coisas: entre mudar e vestir a miúda que acorda sempre bem disposta e conseguir arrancar da cama o miúdo que acorda sempre mal disposto, a minha luta é apenas com os gritos que tenho vontade de dar. Veste-te, queres leitinho, bebé?, o que queres comer?, lava os dentes, então e a cara?, olha o casaco, deixa de esmagar a tua irmã, e as manhãs antes de sair de casa passam num instante. Os almoços? Preparo-os ao Domingo, muita coisa só no forno ou cozida, o cuscus, a massa ou outros acompanhamentos podem preparar-se no dia, cozo dez ovos para mim e para o pequeno, a fruta arranja-se antes de ir para a cama. Não quer dizer que consigamos tratar do jantar todos os dias: às vezes não há mesmo pachorra mas é bom podermos os dois fazer as coisas a meias.

E depois sobram os fins de semana. Dois dias para estarmos com os pequenos, dois dias para a limpeza da casa e para tratar da roupa, dois dias para fazer as compras, dois dias para sair de casa e arejar. Quarenta e oito horas não chegam para isto tudo. Ou chegam mas é preciso esticar um bocadinho o tempo. É preciso muita ordem e disciplina e, quatro semanas depois de voltar a trabalhar com dois filhos, suponho que ainda estou a aprender a disciplinar-me. No fundo, não me custa muito esta divisão eficiente do tempo: o que custa é sentir que não há muito glamour, não há tempo para fazer bonito, não há aquelas vidas ideais. E para mais neste Inverno, em que saímos de casa e é noite escura e entramos em casa e o cenário é exactamente o mesmo. Havemos de aproveitar o quintal a partir da Primavera, prometo a mim mesma. Havemos de habituá-los a gostar de caminhadas, congemino em silêncio. Havemos de sair sem pensar no que há para fazer, sempre desejei. Um pouco mais de disciplina e talvez cheguemos lá. Um pouco mais de tranquilidade e chegamos lá de certeza.