Outubro 21, 2014

Londres

Desta vez, vim de lá convencida que nunca poderia viver lá: é uma cidade gigante (especialmente se comparada com a área do Luxemburgo-país), com demasiadas pessoas em todo o lado e com hora de ponta nos transportes que é... basicamente a toda a hora. Aqui, desterrada neste fim de mundo, aprendi a dar valor às viagens de dez, quinze minutos para as coisas mais essenciais, sem ser apertada e empurrada em espaços demasiado quentes e claustrofóbicos, sem grandes massas de turistas a bloquear o acesso a tudo.

Mas é claro que Londres é mais do que isso. São os mercados de rua cheios de gente de todos os continentes, são as pessoas a fazerem fila para tirar uma fotografia com o Big Ben como pano de fundo, são os cafés todos diferentes, cuidadosamente pensados e cheios de gente dentro e à porta num Sábado à noite, são as pessoas cheias de sacos de compras em frente ao Harrods, são os museus à borla, é o número interminável de actividades entre as quais escolher, é a comida de todo o mundo, o Tamisa debaixo daquele cinzento-Londres e as torres de vidro onde se fazem os grandes negócios, é a cidade a estender-se até se perder de vista, são os grafitis e as ruas transformadas num museu ao ar livre, são as fachadas dos apartamentos para onde nos queremos mudar já, são os jardins cheios de Outono e os cemitérios pouco mórbidos, são as excursões intermináveis de miúdos e graúdos, é a meteorologia melhor do que no Luxemburgo mas sempre pior que Lisboa, são as lojas abertas ao Domingo e até durante vinte e quatro horas, é o design a espreitar por todos os lados, são os comboios a horas e os autocarros de dois andares tão populares entre os menores de cinco anos, é escolher entre hamburguer e lagosta e nunca ter provado o fish'n'chips, são as cervejas que parecem chichi, é o lixo por todo o lado e nunca totalmente apanhado, são as linhas de metro acima e debaixo de terra. É uma cidade maravilhosa para passar umas temporadas, especialmente se se tem tempo e (bastante) dinheiro, há gente e actividades para todos os gostos e bem, uma parte do meu coração vive lá há uns tempos, agora em Earls Court. Se precisasse de razões para voltar, ela bastaria, com a sua casa de bonecas e as suas ideias para nos levar a sítios novos. E é por isso Londres que te quero tão bem - porque fazes o mesmo por ela.

Outubro 15, 2014

À segunda

À minha frente, duas colegas de trabalho (uma delas com o pequeno bebé de seis meses ao colo) falam sobre as maravilhas da maternidade, tendo ambas sido mães há pouco tempo atrás. Estão a comentar como tem sido, se eles dão muito trabalho, se comem e dormem bem, se têm muito cabelo. Eu, no silêncio que envolve o resto do escritório, sorrio candidamente, com aquela sensação estúpida de que tenho todas as respostas às dúvidas delas. É claro que não tenho, lembro-me enquanto as continuo a ouvir, como não as tinham antes as pessoas que me queriam bem e que gostavam de me aconselhar. É verdade que sinto que tenho uma ligeira vantagem sobre elas, na medida em que já passei por tudo uma primeira vez e que sei que não há fórmula mágica que nos valha, só muita preserverança, muitas tentativas-erros, muitas noites sem dormir e muitas tardes a desejar poder fechar os olhos.

Pensando nisto, gostava de ainda ter a mesma ingenuidade que elas parecem ter. Com um segundo filho, vem aquela sensação de familiaridade, de tranquilidade relativa de quem passou por um tornado de emoções e fraldas mal postas, de leite materno e leite em pó, de dentes que teimavam em não romper mas também das primeiras papas e sopas com e sem carne, dos primeiros passos meio a medo, do vocabulário que parece nunca mais terminar. Um pouco da magia já se foi, mas é claro que ainda pensamos no que aí vem, numa pessoa totalmente diferente, com a sua própria personalidade. Certo é que é muito fácil identificar aqueles desconfortos associados à gravidez, especialmente agora que começam muito mais cedo do que na primeira rodada.

E já agora, fica a novidade, para quem não o soube ainda: vem aí uma menina! Eu espero, sinceramente, que a minha médica não tenha nenhum problema de visão ou que o equipamento das ecografias esteja a funcionar com total nitidez. Não sei porquê mas sentia-me uma "fábrica de fazer rapazes", era mesmo uma coisa que me parecia real. No meu íntimo, gostava de estar errada e que agora pudesse experimentar a sensação de ser mãe de uma rapariga. A natureza fez-me a vontade e nesta imensa lotaria genética calhou-me exactamente aquilo por que todos esperávamos. Que continue assim, é o que desejo, e que venha com toda a saúde do mundo. Não posso é evitar sonhar com laços na cabeça, padrões floridos e todos os acessórios brilhantes!

Outubro 08, 2014

Lisboa (para todo o sempre)


Escolho ouvir Orelha Negra e as memórias soltam-se, desordenadas. Estava provavelmente a sobrevoar o Norte de Espanha mas há mil quilómetros que a minha cabeça está em Lisboa. Sinto sempre aquele frémito quando se aproxima a hora de voltar, sempre. Sempre. De repente, desço a rua do Alecrim num final de tarde. A seguir, vejo o dia em que bebemos café em Belém e depois entrámos no Museu da Electricidade. Subo para o Jardim de São Pedro de Alcântara e sento-me com vista para o castelo. É a minha cidade, podemos escolher a nossa cidade ou ela simplesmente se impõe? Sentada no miradouro de Santa Luzia a ver os barcos a passar em câmara lenta, a inventar romances de faca e alguidar sobre os telhados de Alfama. O dia em que me enfiei numa velha mercearia porque andava um cavalo à solta na Morais Soares. A cidade que ambos tanto desejámos, como se tudo fosse possível apenas ali. Debaixo das copas que ladeiam a Ferreira Borges, a sensação que conseguimos. (Mas conseguimos exactamente o quê?) A rua do Poço dos Negros a um Sábado à noite, os enchidos a decorarem uma montra, os eléctricos que ainda não passavam. A mesma Lisboa onde tanto chorei, os quartos de onde insistia em não sair, das coisas impensadas e dos arrependimentos. A mesma capital antiga, ora demasiado snob, ora a cheirar a sardinhas e cerveja morta. As colinas onde morei, as casas que aluguei e que acabaram donas de mim. Os amigos que vieram e os que se foram, os nossos vizinhos como se já tivessemos sessenta anos. A casa que quase comprei, que às vezes ainda me assalta a memória em vagas de uma nitidez tremenda. Tudo o que me falta fazer na minha Lisboa, todos os despertares e anoiteceres em que falta a verdadeira luz das estrelas, os becos por onde ainda nunca passei. A turista que agora sou, absorvendo simultaneamente uma cidade estranha e a cidade que é minha. A minha Lisboa que há-de ser sempre cantada em Português, um cafezinho, um pastelinho de nata e a continha. Quantas linhas poderei eu escrever mais sobre ela? Quantas mais vezes sentirei o aperto de quem regressa aos braços de um grande amor? Quantos mais anos de saudade poderei suportar?

Outubro 06, 2014

Pequenas vitórias

Quando imaginei como seria o primeiro filho, era uma criança muito delicada, meiga e acedia prontamente a qualquer pedido que lhe fizessem. Adorava a família e amigos e demonstrava esse afecto de maneira inequívoca e exuberante. Gostava de ter tudo arrumado, de brincar em silêncio quando a ocasião assim o exigia e sabia partilhar o que tinha desde tenra idade. Teria, na minha ingénua cabeça, o filho perfeito.

Hoje, mais de quatro anos passados, sei apreciar as pequenas vitórias e também a estratégia que usámos para consegui-las. Uns dias corre tudo muito mal, noutros as coisas parecem estranhamente certas, demasiado perfeitas para serem verdadeiras. Como esta manhã, em que contei zero birras, em que consegui que se levantasse sem nenhuma reclamação, em que ele soube à primeira o que queria comer e deixou sem reservas que o vestisse, em que lavámos os dentes juntos e em que o deixei na sala de aula sem um grito, uma lágrima, um esgar de teimosia. Apenas um até logo, um abraço e cinco ou seis beijos que nunca sei conter. Saí da escola com a maravilhosa sensação do dever cumprido sem perder mais uns meses de vida com as chatices das manhãs, feliz ao passar pelos pais que certamente sofrem do mesmo todos os dias, capaz de enfrentar o dia de trabalho sem já algum amargo de boca.

Ainda não domino totalmente alguns momentos do dia ou alguns acontecimentos específicos, como o banho, por exemplo. Ainda não percebi que espírito toma aquele corpinho de quatro amorosos anos e o transforma quase num miúdo a precisar de exorcismo. E também ainda me falta descobrir como conseguir que não chore sempre que o vou buscar a casa da senhora que toma conta dele quando sai da escola. De resto, ajuda muito falar sobre as coisas e, infelizmente para nós, repeti-las vezes sem conta. Andamos agora a lutar com trauma de dormir sozinho quando está a chover e vou conseguindo sucessos pequeninos: primeiro, dormia na nossa cama; depois, arranjei um amiguinho com música que o ajuda a voltar a dormir se a chuva se tornar muito forte; finalmente, elogio-o muito quando volta a adormecer e passa a noite inteira na sua cama. Fica orgulhoso por ser tão valente e eu espero que isso lhe fique na memória. Depois há sempre a questão de escolher as batalhas: não me chateio muito com os brinquedos que quer levar para a banheira, não insisto nas refeições (mas deixo claro que não há direito a fruta se nem se tocou no prato principal), deixo-o vestir a camisola da selecção até não poder mais.

Às vezes é duro: se não sou fã dos castigos corporais, também não me agrada a constante negociação para as coisas mais simples. Só que não me posso esquecer: é inútil tentar que ele seja razoável e racional nas birras que faz. O mundo é dele, roda em torno dele, serve para o satisfazer. O nosso trabalho é mostrar-lhe, lenta e construtivamente, que não é bem assim. E a seguir o que há a fazer é comemorar com ele as pequenas vitórias, os pequenos passos que dá em direcção a uma vida sem birras, inspirarmo-nos nestes pequenos sucessos para tentar inventar a receita dos próximos e saludarmos a boa e saudável dose de frustração que vem destes pequenos nadas.

Setembro 29, 2014

Quatro!

Lugar comum dos lugares comuns: ainda ontem tinha aquele ratinho ao meu colo, passavam precisamente quatro minutos do meio-dia e já hoje celebramos o seu quarto aniversário! Por muitos livros e artigos que tenha lido até àquele momento, não me podia ter preparado para o que significa ser mãe e especialmente mãe desta criatura tão cheia de impulsos e caprichos, com pouca vontade de dormir e muita vontade de comer mas com os olhos mais brilhantes e cheios de vida que já vi. Eu sei que não fazemos sempre as escolhas certas com ele e às vezes a paciência leva a melhor mas o que me interessa é ver como ele salta ao pé coxinho, todo orgulhoso, ou como fica contente quando consegue pintar dentro dos riscos, ou como me diz Mãe, gosto de ti para sempre! Menos quando estás zangada. Não sei se ele vai ser um estudante brilhante ou se vai gostar mais de arregaçar as mangas e trabalhar mas hoje é muito bom ver como ainda se entusiasma com a escola e com os dias em que treinamos a escrita e como ainda acha graça a ajudar em todas as tarefas domésticas.

Com quatro anos, o meu homenzinho vai deixar de ser filho único e vai partilhar o meu colo com um bebé que aí vem e isso deixa-me um pouco triste. Eu sei que o amor se multiplica e sei que ter irmãos é tão bom mas ele é o primeiro, ele não me larga um segundo, é por mim que ele chama quando acorda de manhã ou quando se destapa à noite, é como se ele ocupasse todo o espaço do meu afecto. Passam hoje quatro anos que deixámos de ser dois para sermos uma casa cheia, de tardes passadas tranquilamente no sofá para pistas de carros e o caos total por onde passa, de saídas a dois para programas pensados para lhe gastarmos energia. Mas no final, o que interessa mesmo são aqueles olhos tão cheios de vida, é ver que, ao contrário de tanta gente no Mundo, a vida dele ainda é fácil, é sentir que posso correr o universo por ele. O meu borreguinho faz hoje quatro anos e tudo o que desejo é que possa continuar a ser livre e feliz, com os seus caracolinhos que ninguém sabe de onde vêm e sua mãozinha que me agarra com tanta força a caminho da escola.

Setembro 19, 2014

Aterrar (definitivamente)

Comecei a fazer as minhas últimas viagens antes de chegar Janeiro e com ele o início da licença de maternidade (oito semanas antes da data prevista do parto). Há qualquer coisa de desconfortável em voar tantos quilómetros grávida. Nenhuma indicação médica me impede de fazê-lo mas, secretamente, gostava que a minha médica o desaconselhasse veementemente. À mínima agitação no avião, o meu primeiro pensamento é para o bebé que ainda aí vem, depois a família que já deixei em terra. Tanto que ficava por cumprir, arrepio-me enquanto tento concentrar-me na música em vez do copo que se agita com a turbulência.

Mas viajar grávida tem a vantagem de que me sinto sempre acompanhada e assim o vazio dos quartos de hotel, as esperas intermináveis nos lounges de aeroportos, as viagens de táxi para todo o lado, os longos minutos que antecedem a descolagem, bem como os que passo à espera do embarque - enfim, todos os momentos até ao regresso a casa - me parecem bem mais suportáveis. Ainda estou numa fase em que barriga apenas se revela em condições muito específicas ou com algumas peças de roupa, de resto julgo ter apenas a minha figura de mulher gorda e por isso o meu estado ainda não me consegue aquela simpatia extra que geralmente se guarda para grávidas e bebés de colo. Como na primeira gravidez, é à noite que sinto a barriga maior, mesmo quase a crescer em tempo real mas ainda não cheguei à fase em que sinto realmente a pele a esticar.

Agora escolho os lugares do corredor em vez das janelas para satisfazer os caprichos da minha bexiga e para não sentir aquele aperto claustrofóbico. Felizmente os voos, mesmo com escalas, não me têm obrigado a correrias aeroporto fora e posso calmamente arrastar a bagagem sem me preocupar em chegar atrasada à porta de embarque. Só tenho o cuidado extra de ter sempre acesso a algum alimento em períodos curtos de tempo para não sofrer com a fraqueza e é tudo.

Tento despachar as últimas visitas o melhor que posso: hoje Luxemburgo-Amesterdão-Madrid, hoje Madrid-Amesterdão-Luxemburgo. Segunda faço Luxemburgo-Zurique-outra-vez-Madrid, Terça o caminho inverso. Lisboa já está nos planos, Barcelona há-de vir a seguir e quem sabe ainda lhe junto umas ilhas Baleares ou, no limite da loucura, podia justificar uma visita às Canárias. Depois disso, o silêncio, o descanso, o progressivo afastamento dos afazeres profissionais para dar lugar à chegada do segundo filho. Adeus aeroportos cheios de gente que discute negócios até o avião descolar, adeus escalas geograficamente absurdas mas economicamente justificáveis, adeus turbulência em maior ou menor grau, adeus reuniões, gravatas e centros de negócio, adeus quartos de hotel mais ou menos reformados com melhores ou piores buffets de pequeno-almoço, adeus pessoas que que se esquecem que o banco à sua frente no avião não é seu, adeus ver os meus miúdos pelo Skype. E olá terra firme, durante muito muito tempo.

Setembro 16, 2014

Para memória futura

A minha avó que me guardava sempre os figos. A minha avó que nunca se zangava conosco mas que ralhava por tudo e por nada com o meu avô. A minha avó com o cabelo com mais jeitos e mais teimoso do mundo. A minha avó que tinha as flores mais bonitas e bem cuidadas do seu bairro. A minha avó que jogava conosco à bisca com cartas que tinham a ponte 25 de Abril atrás. A minha avó que nos fazia café solúvel e bifanas ao lanche. A minha avó que sobreviveu a um cancro quando havia tanta a gente como ela a morrer. A minha avó cozinheira, que adorava contar sempre a mesma história sobre um vizinho e batatas fritas. A minha avó que só aprendeu a escrever já eu andava na escola mas conseguiu finalmente assinar sozinha o que era preciso. A minha avó que pegava no nosso coelho com as mãos de quem fazia aquilo há anos. A minha avó e uma das nossas histórias preferidas: grávida, caindo de uma árvore enquanto apanhava fruta e proibida de continuar a trabalhar depois disso. A minha avó que gostava de poder dar sempre mais. A minha avó cheia de ciúmes nossos por tudo e por nada. A minha avó com paciência de avó e as gavetas cheias de comprimidos que ia comprar a Espanha. A minha avó que achava que a televisão só dava porcaria. A minha avó que ainda guardava a cadeira onde criou o meu pai. A minha avó que se foi abaixo quando o meu avô nos deixou. A minha avó que nos preparava piqueniques para fazermos nas escadas. A minha avó onde passei tantas tardes a sentir o cheiro da fábrica da rolha. A minha avó da tomatada e das batatas fritas mesmo, mesmo como eu gosto. A minha avó dos canários que falavam com ela. A minha avó doceira, sempre a querer encher-nos o frigorífico nas festas. A minha avó que se calhar já não me reconhece.

A minha avó, com um corpo que ainda aqui está mas uma mente que começou a fugir sabe-se lá para onde.

Setembro 10, 2014


Há uma coisa que está a ser bem pior nesta gravidez: a dúvida constante se o coração do bebé está a bater. Acho que na primeira gravidez não me passava pela cabeça que alguma coisa podia correr mal, era claramente inexperiente e, de certa maneira, muito inconsciente. O que era bom, reconheço, porque sempre evitava alguma ansiedade.

Desta vez, embora consuma radicalmente menis literatura sobre a gravidez e o bebé - porque confio mais na intuição e porque percebi no que isso pode fazer ao nosso sentido de orientação - também sei melhor o que me pode ajudar em algumas circunstâncias. Esta é uma delas e eu arranjei maneira de poder diariamente ouvir o coraçãozinho pequenino que anda comigo para todo o lado, alugando um monitor cardíaco fetal. É talvez um exagero, eu sei, mas hoje ao almoço senti algum alívio quando, debaixo do gel, pude ouvir uma batida bem lá ao fundo!

O irmão e o pai puderam ouvir o bebé pela primeira vez (eu tenho a sorte das consultas médicas) mas não fui muito feliz com o Vicente. Sou um bocado inexperiente em achar o bebé na minha própria barriga, o que gerou alguns ruídos desagradáveis e o que assustou o pequeno, que já disse que não queria repetir a experiência. Paciência, hei-de melhorar o meu desempenho e assim o bebé vá crescendo, tornar-se-á mais fácil de encontrar.

Este monitor não substitui os cuidados médicos, é bom de ver, não sou assim tão ingénua. E também é evidente que ouvir o coração a bater não implica que não possam existir outras complicações. Mas o conforto, senhores!, a maravilha que é ir ouvindo aquele tuc-tuc-tuc sem precisar de marcar uma consulta acalmam muitíssimo este coração de mãe! Jusqu'ici tout va bien.

Setembro 02, 2014

Uma resolução de ano novo tardia

Nos últimos dias, esta notícia tem sido desenvolvida e debatida na rádio que costumo ouvir a caminho do trabalho. Um casal reportou na passada Quarta-feira o desaparecimento da sua filha de quatro meses. Depois de alguma investigação e de terem sido ouvidos em separado, os pais passaram a ser suspeitos do desaparecimento da menina - as versões que contavam não coincidiam e apresentavam algumas incongruências temporais. Finalmente, no Sábado os pais confessaram ter morto a criança e levaram os inspectores até ao local onde a tinham enterrado. Era, segundo eles, uma criança que exigia muita atenção, especialmente depois da operação ao coração a que tinha sido submetida há uns tempos. Parece que ao tentar acalmar o choro e desorientação da bebé, algo correu mal e o método aplicado (provavelmente um golpe na cabeça) foi fatal. A bebé apresentava no entanto outros sinais de violência anteriores, que levam a crer que era uma situação que se prolongava já há algum tempo.

Sem, obviamente, conhecer o casal e sem ter qualquer visibilidade sobre as suas condições de vida, sobre o seu passado, para mim é absolutamente assustador que alguém, de cabeça perdida, tente "disciplinar" com este tipo de atitudes um bebé de quatro meses. Mas ao mesmo tempo percebo que, se as circunstâncias se proporcionarem, juntando stress ao desespero de não saber como tratar do bebé, a reacção pode ter efeitos inesperados. Bem sei que, por exemplo, tenho mais paciência para as birras que o miúdo faz durante o dia do que para as choradeiras à noite, em que acordo desorientada e cansada, a precisar de dormir.

A minha resolução é tentar sempre dar um passo atrás nestes momentos mais difíceis, em que há muito choro, teimosia e algum descontrolo nas emoções para conseguir medir a minha reacção face a uma criatura indefesa de três (ou outros) anos. Não tenho medo que me aconteça um desaire fatal, como é óbvio, porque me conheço suficientemente bem para saber quais são os meus limites. Mas sei que facilmente as coisas podem escalar - as manhãs são o exemplo perfeito disso: começam muito bem, a tentar despertá-lo devagarinho e acabam com o desespero de não conseguir que ele faça nada à primeira (levantar-se, vestir, tomar o pequeno-almoço, lavar os dentes, calçar). A minha resolução é tentar sempre vê-lo como uma criança, como uma pessoa que se está a formar lentamente e que precisa de algumas direcções, em vez de um adulto completamente formado que me desafia só porque sim.

Era espectacular se se pudessem fazer testes de vocação a futuros pais ou a quem simplesmente deseja ter filhos. Parte-me o coração lembrar-me do enorme fosso que existe entre os casais que tentam, sem sucesso, ter filhos porque sentem no seu intímo esse chamamento e os casais que desperdiçam as suas oportunidades com crianças saudáveis, ferindo-os fisica e psicologicamente enquanto crescem. É muita injustiça e desequilíbrio juntos. E é assustador estar face a este tipo de situações e perceber que a natureza humana é muito mais primitiva e irracional do que esperava. Com os ritmos de vida que levamos e com todas as dificuldades, acredito que casos como estes sejam mais e mais frequentes. Triste, concentro-me em fazer a minha parte e amar o meu filho com todas as suas e as minhas imperfeições.

Agosto 27, 2014

Sobre os primeiros tempos de gravidez

Da primeira vez, comecei a sentir-me diferente exactamente no dia em que tive a primeira confirmação que estava grávida. Coincidência ou não, já passei essa primeira noite a sentir um borbulhar na barriga como se sentisse finalmente o meu corpo a trabalhar para formar o ser que nasceria uns meses depois. Depois disso, o descalabro: enjoos que não eram exclusivamente matinais, o calor que sentia no autocarro a caminho do trabalho, o sono que me tomava de assalto no trabalho sem que conseguisse manter os olhos abertos, a alergia aos cheiros (principalmente o do marido, coitado, que cheira sempre bem), o cansaço avassalador que me fazia ir à cama quase assim que chegava à tarde a casa.

Tudo passou no terceiro mês, em que como um milagre deixei de me sentir mal e passei a sentir-me no topo do mundo. Desta vez, os sintomas começaram um pouco antes da confirmação mas que eu, como parecia tão difícil engravidar, me despachei a descartar como falsos alarmes. Que não eram, soube pouco depois, claro. Mas a verdade é que a coisa ainda não está fina: tenho alguns enjoos durante o dia e tive um dia ou dois mais cansada mas ainda me consigo controlar bastante bem. Está a ser um pouco difícil explicar no trabalho o que se passa exactamente comigo mas até agora a teoria dos problemas de estômago tem safado a coisa. Creio é que não posso mantê-la durante muito mais tempo mas não queria que se soubesse aqui em primeiro lugar, queria aliás que fossem os últimos a saber.

A diferença gigante da primeira para a segunda é que agora já existe um rapazinho que exige muita atenção, que quer brincar, ajudar na cozinha, saltar em cima do sofá, abraçar-me sempre que pode sem ter noção da sua força. Não posso simplesmente deitar-me e esperar que passe a má disposição, não posso enfiar-me na cama e esperar que os cheiros deixem de ser tão intensos, não posso estar sempre cansada. Especialmente por isso peço aos céus (se lá existir uma entidade divina, melhor) que me deixem passar por esta gravidez com menos desconfortos, para que eu possa equilibrar as coisas e tratar do menino que está cá fora tão bem como a semente que está cá dentro.

(escrito no dia 10 Julho)

[actualização]

Foi mais ou menos um mês e meio de muito desconforto e de baixa médica. As náuseas eram demasiado fortes para conseguir sequer estar sentada mas ainda me devo sentir sortuda porque nunca vomitei. Não conseguia concentrar-me em nada que exigisse muita atenção, os dias passavam e eu sentia-me como se estivesse num pesadelo, muito calor e suores, de vez em quando a conseguir ver a realidade. A médica tentava acalmar-me, dizendo que tanta náusea era um bom sinal, era sinal de que as hormonas estavam a trabalhar bem e de que a gravidez estava firme mas eu queria lá saber. Sem medicamentos, tentei sobreviver o melhor que pude, mesmo com uma disposição de cão. E só me lembrava da minha ex-colega P., que me contou que na sua primeira gravidez vomitou e teve enjoos os nove meses certinhos! Eu podia lá aguentar essa provação!

Mas agora estabilizou. Não posso dizer que estou fina e livre desta má disposição mas a verdade é que já consigo trabalhar, não me sinto tão derrotada e fragilizada como há duas semanas atrás, já consigo estar sentada por uma quantidade simpática de horas. Mais ou menos como esperava, esta gravidez é bastante mais visível que a primeira e por isso, com apenas três meses, já se vê bem que qualquer coisa está a acontecer. Até à semana passada, fazia algum esforço para a esconder mas agora, que pude dizê-lo em voz alta e informar quem precisa de ser informado, já posso exibi-la com orgulho. E agora é esperar que os desconfortos se manifestem mais timidamente para eu poder viver o segundo trimestre com todo o esplendor que lhe corresponde. Até já azia e dores em todos os ossos, vemo-nos já no final!

Agosto 26, 2014

Outono em Agosto

Este fim de semana voltámos a meter o edredon na cama. Faz muito frio à noite e as manhãs não aquecem tão facilmente. Os rapazes já não saem de casa sem os seus casacos e na maior parte dos dias sem os seus guarda chuvas. Eu sei que as manhãs não estão propriamente agradáveis mas já vi pessoas de cachecol e luvas, o que prova a minha teoria de que há pessoas que não conseguem ver uma nuvenzinha sem pensar que já é Inverno. Não é mas também já não é Verão, acho que todos aqui o sabemos.

Quando tomo o pequeno-almoço na cozinha ainda silenciosa, olho lentamente pela janela e vejo que há já muitas chaminés a lançar aquele fumozinho para o ar, sinal de que o aquecimento já está ligado em algumas casas. O Verão acabou mas eu pergunto-me como, se nunca chegou realmente até aqui. Se calhar é este o resultado de um Inverno com apenas um dia de neve, se calhar os homens andam mesmo a brincar lá nas nuvens – seja como e porque for, a verdade é que está tudo trocado.

De vez em quando, uma trovoada. Todos os dias o céu a alternar entre inúmeros graus de cinzento, mais ou menos vento, intervalos de aguaceiros e chuva a sério, o miúdo que de repente ganhou medo à chuva e não consegue dormir enquanto a ouvir fustigar a janela. Não sei, honestamente, se já estou habituada a isto, mais de dois anos depois. Vim para cá com aquele peito inchado de quem diz que uma pessoa se habitua a tudo, basta querer, só porque tinha vivido seis meses em Berlim. Mas esses seis meses eram apenas isso, um curto intervalo após o qual eu sabia que iria regressar e por isso não me importava tanto com os dias a escurecerem às quatro da tarde. Viver em Berlim era cool, viver no Luxemburgo nem tanto.

Pergunto-me se algum dia me vou realmente acostumar a isto. Nem sequer penso se vou gostar porque isso está completamente fora de questão. Não vou negar que há um certo encanto no aquecimento central por todo o lado, que nos deixa confortavelmente apreciar o frio que faz lá fora. Eu sou uma alentejana de Verões de quarenta graus, do alcatrão a borbulhar, das tardes passadas em casa com tudo fechado para enganar o calor - não sou uma mulher de temperaturas de um dígito e a minha serotonina agradecia viver num sítio com Verão all year round.

Agosto 25, 2014

O segundo tarda mas não falha <3

Depois de um ano e meio de alguma frustração e tristeza, respiramos finalmente de alívio. Não é fácil, ter toda a gente a achar que o segundo filho é o passo mais natural e esperado para quem tem o primeiro e ter, ao mesmo tempo, um corpo que, por capricho ou alguma sabedoria que não está ao nosso alcance, simplesmente não quer colaborar.

Carrego o nosso segundo filho na barriga. Ainda não é mais do que uma mistura confusa de células, ainda sem um coração que bate mas é um filho e de repente já sinto amor por uma criatura que ainda está por formar. Um filho tão desejado, mais do que isso, o irmão ou irmã que queríamos para o primogénito. O nosso filho, que vi hoje numa bolsinha no meu útero quando procurava uma segunda opinião para o nosso decréscimo de fertilidade - ia lá perguntar o que devia fazer para engravidar e saí de lá grávida. A médica brincou, dizendo "Viu como sou boa? Isto tudo só numa consulta!" e eu a rir como uma pateta que não percebe o que lhe está a acontecer. Um filho, uma semente, um feijão sem nome nem género, um pré-embrião que ainda tem que lutar com toda a sua força para crescer e para tornar-se no bebé que tanto esperámos.

O primeiro filho foi tiro e queda: um mês a tentar e uma gravidez logo assim de mão beijada, eu a sentir que transbordávamos fertilidade e que afinal era tudo mais fácil do que parecia. Nunca me vou esquecer do primeiro, do segundo, do terceiro teste de gravidez, assustada com uma dádiva que tanto tinha buscado, incapaz de raciocinar claramente e a alternar entre o medo e a felicidade maior que já senti. A primeira gravidez tão desajeitada, os enjoos que passaram a correr, a azia no final, o trabalho de parto que quase terminei sem dar por isso, o bebé chorão e cheio de personalidade que me roubou o sono desde o dia em que nasceu e eu fiquei em pleno transe naquele quarto da CUF Descobertas. O filho que é tudo para mim, mesmo nos dias em que me sinto exausta e uma mãe do pior, o filho cujos olhos brilham em tudo o que faz, um filho saudável e livre e reguila que gosta de mim sem qualquer reserva.

E agora o segundo. Ou a segunda, toda a gente sabe que isso não interessa. A segunda semente que deixamos no Mundo, a repetição de um projecto que vai terminar numa pessoa tão completamente diferente mas igualmente amada por nós. Um segundo filho, caramba, parece que não posso acreditar! O acalmar dos dias e dos meses a passar sem sinais de gravidez, a procurar ajuda médica, a tentar sorrir à malta que nos dizia que já era hora, que havia que tentar outra vez. E como queria que chegasse essa segunda vez e como queria que o meu corpo me obedecesse cegamente sem me fazer duvidar! Nada interessa: vamos ter outro filho. Vou cheirar e embalar outro bebé, provavelmente vou perder a cabeça outra vez, vou cansar-me e chorar, descontrolada com as hormonas, vou levar muito tempo a conhecer esta nova pessoa que está para chegar. Nada importa: dentro de mim, uma pessoa pequenina, um projecto de pessoa na realidade que eu vou amar incondicionalmente e que certamente retribuirá esse amor. O nosso segundo filho!

(escrito no dia 7 de Julho)

Agosto 19, 2014

Entre tres tierras


Na minha cabeça é já oficial: o Verão acabou. Sim, é verdade, mesmo que em Portugal as temperaturas teimem em não descer dos trinta graus, mesmo que só vejamos Sol e muito calor, aqui a coisa já deu o que tinha a dar. E este fim de semana já foi um belo exemplo do que nos deve esperar nos próximos tempos. Portanto, este ano no Inverno tivemos apenas um dia de neve e no Verão quase apenas um dia de verdadeiro calor - o resto dos dias são de uma gigante indefinição entre uma Primavera já gelada e um Outono desastrosamente chuvoso.

Este fim de semana veio mesmo a calhar para alguém como eu, que andava há muito a precisar de arejar as ideias. Já o tínhamos marcado há bastante tempo, creio que ainda na ilusão de que lhe podíamos chamar um fim de semana de Verão no campo. Lá pelo campo andámos nós, em ruas em que um lado pertencia à Bélgica e o outro à Holanda, onde se ouvia falar quase exclusivamente Neerlandês e onde mal se falava Francês. 

A cada visita que passa dou comigo a gostar mais da Bélgica e especialmente da zona das Ardenas. É impressionante o verde daqueles campos (embora não seja de admirar, se pensarmos nos litros de chuva que caem por estas bandas...), a calma e o silêncio, os memoriais da Segunda Guerra sempre à espreita em qualquer cruzamento, as casas de pedra que afinal são feitas de madeira, os jardins bem cuidados e os sinais de vida nas ruas, mesmo aos Domingos. Estes sítios são impecáveis para quem tem miúdos, que podem saltar nas poças deixadas pela chuva, mexer em gatos felosos e não tão felosos, ver burros, galinhas e galos de perto, praticar os desportos em dois pedais. E também não são menos espectaculares para pessoas que precisam de sair da rotina, que precisam de respirar fundo e mandar más vibrações para trás das costas, que precisam de se distrair. E foi isso que fizemos. Com castelos à mistura, bons amigos, moules e frites (está claro!), manhãs a ver o atletismo colados à televisão, cozinha holandesa e, para terminar em beleza, uma açorda para matar saudades! Depois? Foi respirar fundo, fazermo-nos à estrada e ignorar que a vida real voltava na manhã seguinte. Agora é esperar até à ocasião seguinte.

Agosto 04, 2014

(Um intervalo neste gigante parêntesis)

Ainda aqui estou, mesmo que não pareça. Olho para a data da última publicação que fiz e assusto-me quando vejo que foi já há quase um mês! Acho que foi o período mais longo que passei sem escrever aqui.

Não desisti disto, a questão não é essa. Não me passou pela cabeça acabar com este espaço de partilha, que já tanto me trouxe. Só que estou num sítio muito confuso neste momento - falo da minha cabeça, claro - e não arranjo forma de me expressar de uma maneira clara, sem alarmismos nem sentimento e emoção a mais. E ainda por cima, como se toda esta confusão interior não chegasse, também não me sinto preparada para verter isto cá para fora. Se alguma mudança realmente tiver existido nos últimos tempos, é esta: não consigo abrir-me e também não acredito que estas coisas sejam interessantes para os leitores.

Fomos de férias e já voltámos. O que dizer? Eu podia fingir que não estou sempre à espera de pisar solo português mas estaria a mentir. As viagens correram com grande tranquilidade ( muito graças ao nosso homenzinho, que se portou à altura, poupando-nos a birras ou choros desnecessários e sempre empolgado para ambas as direcções. Optámos por dormir uma noite no caminho para cada lado para evitar o cansaço dos dois mil quilómetros. Dividimo-nos entre Lisboa e Portalegre e o tempo (mais uma vez) foi insuficiente para tudo o que queríamos fazer e todos os que queríamos ver. E neste capítulo, ainda estamos longe de fazer o melhor: embrulhamo-nos em tantos compromissos que acabamos por não ter verdadeiramente momentos de descanso, o último propósito das férias. Não sei se alguma vez aprenderemos a fazê-lo ou se continuaremos a falhar mas a verdade é que o balanço entre gente que queremos ver e descanso de que necessitamos é incrivelmente difícil de manter.

Pudemos pelo menos apanhar ar. Pudemos comer junto ao mar, almoçar na tasca dos vizinhos lá ao pé de casa, tomar banho de mar e piscina. Pudemos tratar de burocracias que exigem a nossa presença em Portugal, pudemos ver alguns amigos (e partimos tristes por falharmos outros mas sabemos que todos têm as suas vidas e chegarmos nós a destabilizar é dose), demos saudades a matar à família que, como sempre, nos acolheu cheia de mimos e recordações comestíveis/bebíveis que enchem o nosso coração (e estômago!) agora que regressámos. Nunca chega, a verdade é essa. Por muito que tentemos condensar tudo em tão poucos dias, nunca é suficiente e os dias parecem mais curtos nestas alturas.

Pelo meu lado, tive um momento de revelação e desabafo que me aliviou mas abalou um pouco. Era espectacular que pudessemos ter sempre a certeza de tudo e estarmos totalmente confiantes nas nossas decisões e escolhas. O tempo tem-se encarregado de me mostrar que nem sempre as coisas funcionam assim, com toda a dificuldade que estes momentos implicam. Imagino que a seu tempo conseguirei falar de tudo quanto me tolda a visão agora mesmo, que poderei racionalizar o que me parece agora um amontoado de emoções à solta e que me tem dificultado a verbalização das coisas. Tempos estranhos, estes e fico-me agora por aqui. A seu tempo, tudo se ordenará.