agosto 25, 2016

Uma feira com mais de 670 anos!


A Schueberfouer começou na semana passada e, para nós, já é um hábito que cumprimos religiosamente e que até esperamos ligeiramente empolgados. Começa no final de Agosto e dura duas semanas. São quinze dias de festa esperados por toda a gente - afinal, segundo sondagens mais ou menos seguras, 80% da população do Luxemburgo vai passar pela feira pelo menos uma vez! (Mas enfim, num país com pouco mais de quinhentos mil habitantes, não é assim um feito tão difícil.)

De qualquer maneira, eu divido-me um pouco naquilo que sinto assim que passo o pórtico da entrada: por um lado, é um acontecimento completamente provinciano, faz até confusão como pôde algo assim sobreviver numa capital europeia; mas, por outro lado, o ambiente é tão incrível que é impossível uma pessoa não se deixar contagiar pelas barracas do torrão e pelos stands de tiro ao alvo. Vem mesmo toda a gente à feira: o pessoal das instituições europeias que trabalha ali ao lado e que vem beber uma cerveja depois do trabalho, os frontaliers que chegam de França e da Bélgica para ganhar qualquer coisa naqueles stands de jogo, as famílias portuguesas que chegam do Sul do país em bandos, os adolescentes que saem pela primeira vez e os que já são repetentes, grupos de motards reunidos à volta de canecas de cerveja, idosos que só comem peixe frito nos restaurantes montados para o efeito, aquela família com cinco filhos e o sexto a caminho que me fez tremer só de pensar, os pais que cedem aos caprichos dos filhos e carregam os peluches que ganharam aqui e ali, as pessoas que vêm pela comida (noodles, salsichas, gyros, hamburgers - yay!) e que procuram alguma diversão que não implique um cinto/uma protecção sobre uma barriga em crescimento (só a roda gigante...) - nós.

O barulho é muitas vezes ensurdecedor, entre a música insuportável dos carrinhos de choque, os feirantes que vão gritando que ali se ganha sempre, os decibéis que sobe naturalmente com o consumo da cerveja, a gente que não pára de chegar. É difícil circular entre quem espera a sua vez para ser virado ao contrário, entre quem espera por uma waffle coberta de morangos e chantilly, entre grupos de miúdos e graúdos à procura de uma sombra. Mas este ano o Verão fez-nos uma surpresa e parece que vai ficar até ao final da feira. Ontem, às oito e meia da noite, não corria uma brisa que fosse e o casaco era para ficar em casa. A espera foi difícil mas parece que agora há uma semana inteirinha de Verão para aproveitar. Isso e levar os miúdos à feira, esperar que eles não façam quinhentas birras porque querem dar mais uma volta no carrossel ou não querem comer o resto da salsicha ou precisam - u r g e n t e m e n t e - de um saco de pipocas. A feira é velhinha, viva a feira!

agosto 17, 2016

Saber ou não saber

Estou a breves instantes de escrever uma barbaridade mas preciso de a escrever/dizer: preferia ter vivido numa época com menor acesso a informação. Ou, pelo menos, em que não fosse tão simples qualquer pessoa espalhar uma notícia/um boato/um estudo, dando estes origem a um sem número de contraditórios.

Vem esta minha ideia a propósito de dois assuntos completamente diferentes que se cruzaram na minha cabeça nos últimos dias.  O primeiro tem a ver com as diferentes correntes dietéticas que concorrem entre si hoje em dia. Que o melhor é ser vegetariano. Que a carne nos faz muita falta. Que os adultos não devem beber leite. Que toda a gente precisa do leite. Que o glúten faz mal a tudo. Que o glúten não é o inimigo. Que comer como o homem das cavernas é que é. Que eliminar todos os hidratos de carbono é a única salvação. Às tantas, a pessoa normal e leiga em nutricionismo não sabe mesmo o que fazer. Os meus avós sempre comeram de tudo (pão com toucinho cru, massa com arroz ao pequeno-almoço, alho cru em todos os pratos...) sem pensar em todas estas restrições. No tempo dele, morria-se sem se saber muito bem do quê e é claro que também existia o cancro, as doenças neurodegenerativas, as intolerâncias... Mas não havia nome para nada disto e eles limitavam-se a comer o que havia, apenas com uma enormíssima vantagem sobre nós: comiam muito menos alimentos processados do que nós comemos hoje em dia. Eu, reconhecendo a necessidade de comer o melhor possível, evitando os produtos processados e dando prioridade a tudo o que é natural, não consigo abraçar nenhuma dieta, não consigo eliminar nenhum grupo alimentar, não consigo dar ouvidos a tantos especialistas.

O segundo tem a ver com a condenação de Carlos Cruz no processo Casa Pia. Estive a ouvir a participação dele na Prova Oral do Fernando Alvim, após a sua saída da prisão. Eu sou daquelas pessoas que admiravam imenso o Carlos Cruz (na verdade, ainda admiro) e que o consideravam numa figura incontornável da comunicação em Portugal, o que o obrigava (tacitamente) a altos padrões de moral e de ética. Vê-lo envolvido num escândalo de pedofilia foi um golpe difícil de encaixar porque não podia ser, o Carlos Cruz não podia participar dessas actividades - afinal, parecia que o nosso ídolo tinha pés de barro e não há pior momento do que aquele em que o descobrimos. Mas ao ouvir a participação dele na Prova Oral, ao escutar a calma e a confiança com que nega os factos e refuta os argumentos da acusação, ao deixar que ele conte também a sua versão dos factos, é-me impossível não ter dúvidas. É difícil não imaginar que parte da sua condenação se deve à voracidade da comunicação social e ao rápido julgamento em praça pública, é triste pensar E se ele esteve preso, e se lhe destruiram a vida estando ele inocente? Não sei se acredito nele ou na justiça portuguesa mas inclino-me para a precaução na análise dos factos.

A mesma coisa se passa com as diversas teorias da maternidade, do parto e da amamentação mas, ao terceiro filho, já me encontro vacinada contra todas as opiniões...

Hoje em dia somos bombardeados todos os dias com notícias, estudos, artigos, investigações sobre tudo e o seu contrário. Se não nos protegermos da quantidade de informação a ser disparada em todos os sentidos, parece-me fácil ceder à pressão e tentar viver em função de demasiadas teorias ao mesmo tempo. Eu lido mal com isso. Quero ser uma pessoa informada, isso é evidente. Só não quero viver a pensar nestas escolhas constantes ou que tudo é uma teoria da conspiração ou sem saber se escolhemos o caminho certo.

agosto 10, 2016

Três é a conta que Deus fez!

Foi hoje o dia em que confirmámos que está tudo bem com este milagre e que vamos passar a ser cinco em vez de quatro! O terceiro bebé vem a caminho e eu divido-me entre a angústia total e aquela felicidade estúpida de estar a formar dentro de mim mais uma pessoa que (espero) será maravilhosa!

Desta vez, já não tenho medo de não gostar deste terceiro filho como do primeiro: a chegada da Amália encarregou-se de me provar que há muito espaço no nosso coração para gerirmos a imensidão de afectos que os nossos filhos nos dão. Esta sementinha ainda mal se formou e já gosto dela com todas as minhas forças.

Para mim, as questões que se colocam agora com esta nova chegada são de ordem prática e financeira. Tenho pena de pensar assim, de não conseguir agarrar-me mais ao facto de que do que eles precisam é de amor e pouco mais. O meu primeiro instinto foi procurar exemplos de famílias numerosas e que não são ricas. Sim, porque há muitas famílias com muitos filhos mas que têm uma estrutura de apoio invejável e que não precisam de fazer coisas. Eu quis ver famílias com vidas reais, a enfrentarem desafios reais e a esticarem ordenados. Eu quis encontrar alguém que me dissesse Descansa, vai ficar tudo bem, onde se criam dois também se criam três. Procurei, sem pensar em mais nada, exemplos de organização e eficiência. Eu até cresci com exemplos desses na porta ao lado mas queria estar mais descansada e ainda não estou. A noite ainda não é minha amiga e há tanta coisa que me passa pela cabeça: a logística de três filhos versus dois, os braços que não vão chegar para pegar os três ao colo ao mesmo tempo, o tempo que já me falta agora e como ainda vai ser ainda mais encurtado. E aquela velha questão de não saber se lhes podemos dar o melhor, sempre a martelar na minha cabeça.

Acho que nunca pensei em ter mais do que dois filhos.Cresci numa família apenas com uma irmã e os meus pais foram ambos filhos únicos. A minha família só foi mais ou menos grandes com a ajuda dos tios-avós e dos primos em segundo ou terceiro grau. Os Natais, por exemplos, nunca tiveram vinte ou trinta pessoas à mesa e era bom na mesma porque os que estavam bastavam. Dois filhos era aquele número fixo na minha cabeça e mais porque não gostava de ter apenas um filho: aprender a partilhar, a brincar, a falar e crescer é certamente mais fácil quando há irmãos. Mas aqui em casa o pai sonhava com uma equipa de futebol e de repente até eu já me tinha deixado entusiasmar com mais um pirralho a correr atrás dos outros dois. Daí ao terceiro filho... um curto passo!

Algumas pessoas já sabem e, até agora, posso confirmar que as reacções ao terceiro bebé são tipo Ah sim? Meh... Quando se anuncia o primeiro é tudo super novo e excitante e toda a gente está imensamente feliz por nós. Ao segundo, o entusiasmo começa a abrandar mas ainda é giro porque há sempre o mistério: será que vão conseguir o casal? Ao terceiro... A reacção é mais de incredulidade do que outra coisa, do género Mas vocês têm a certeza do que estão a fazer? Não chegava já? Eu cá ainda me divido entre a super-felicidade e o terror, entre pensar que quem cria dois também cria mais um e pensar que vai ser o verdadeiro desequilíbrio de mãos, atenção e finanças. Mas não há tempos ideais nem há situações ideais e nós vamos moldando a vida às circunstâncias e até agora não temos falhado. E se falharmos, não será o fim do mundo porque não há nada como arregaçar as mangas e começar de novo.

agosto 08, 2016

Férias, parte II - sem filhos

Um disclaimer prévio: eu (nós) adoro (adoramos) os nossos filhos. Mas isso não significa que não necessitemos de tempo longe deles.

Para nós, é muito importante ter também dias de férias sem filhos. A maneira como escolhemos viver (longe do nosso país, da nossa família e amigos) fazem com que passemos muito tempo a quatro durante todo o ano e isso significa concentrarmo-nos nas necessidades do mais pequenos e relegarmos as necessidades dos maiores para segundo plano. Sei que fomos nós que escolhemos viver assim e aceito, pacificamente, as consequências dessa escolha. Mas reservamo-nos o direito de ter tempo a dois e até mesmo tempo sozinhos para que possamos descansar da erosão do dia a dia.

Como este ano tirámos três semanas de férias, passámos as primeiras duas com os miúdos e deixámos a última só para nós. O destino não podia ser outro - Lisboa, por três ou quatro dias, só para fingir que vivemos outra vez ali, para sentirmos o cheiro a mar. Estar sem os miúdos foi sinónimo de acordar sem despertadores e sem pressas, de comer fora sem o stress de distrair um e alimentar o outro sem que a nossa comida fique gelada, foi decidir ir à praia à última da hora sem precisar de carregar mil coisas, comer caracóis tranquilamente ao final do dia, namorar livros devagar, deixar que os dias acontecessem. Estarmos sozinhos foi ainda, imagine-se, sinónimo de não fazer mesmo nada, um dos maiores prazeres que tenho desde que fui mãe.

É claro que isto só foi possível com o apoio da nossa família, que aceitou ficar com os miúdos sem pestanejar. E que, aliás, ainda está com eles enquanto escrevo. É que este ano decidimos ainda deixá-los em Portugal por umas semanas para que possam ter realmente férias (em vez de se limitarem à rotina de todos os dias aqui) e para que nós possamos respirar fundo uns dias. Tomar a decisão foi fácil para mim, o que não foi fácil foi o dia de os deixar. O complexo de culpa era tão gigante que só me apetecia voltar para trás a correr e dizer que não, que não podia ser, que eles afinal tinham que voltar connosco. Contive-me, ainda de nó na garganta, sabendo que à hora em que iniciávamos a viagem de regresso, eles estariam ainda a dormir calmamente em casa dos meus pais. E consolo-me com uma chamada de vídeo todos os dias, que invariavelmente tem um puto aos saltos e uma bebé que se ressente de não poder vir ao nosso colo. Não me arrependo de passar vinte dias sem eles - afinal, passamos os outros 345 juntos. Mas também não posso dizer que não lhe sinto a falta, que não me lembro o que diria o mais velho numa ou outra ocasião, de sorrir ao imaginar a pequenina frente a um poster gigante dum gato.

Para bem da nossa sanidade mental, para reforçar os laços entres eles e o resto da família e para permitir que avós e tios (principalmente) possam desfrutar da sua companhia e acompanhar uma pontinha do seu crescimento, acho que fizemos bem. Estranhamos o silêncio na nossa casa, é estranho não se fazerem correrias pelo corredor ou birras antes do banho. Mas todos beneficiamos desta distância e o reencontro será ainda mais doce.

agosto 07, 2016

Férias, parte I - Com filhos

(ainda aqui estou e este blog está longe de acabar mas merecia, como eu, umas semanas de férias)

Este ano decidimos fazer uma roadtrip com os miúdos quando chegassem as férias de Verão. Ainda falámos numa viagem semelhante pela Califórnia mas só para adultos, que resolvemos deixar para daqui a uns anos. Já nem me recordo muito bem como defini os sítios a visitar mas sei que comecei com um item que queria riscar da minha bucket list: ir ao Lichtenstein! Não me perguntem porquê mas parecia-me um destino tão exótico e inalcansável que tinha de lá ir ver com os meus próprios olhos.

A partir dessa ideia, criei o percurso que demorou cinco dias e que nos levou de seguida a Itália (lagos Como e Iseo), França (Mont Blanc) e Suiça (Lausanne), antes de nos pormos a caminho de Portugal. Para isso, foi essencial tirarmos três semanas de férias, o que fizemos pela primeira vez desde que trabalhamos. Para complicar um pouco mais o esquema viagem de carro + crianças, resolvemos acampar nestes dias. Sairia mais barato do que ficar em hoteis e sempre era uma experiência nova para os miúdos. O pai gosta de acampar, a mãe nem por isso.

Acabou tudo por correr melhor do que eu esperava. O pai ocupava-se da logística no acampamento (montagem e desmontagem de tendas, principalmente), enquanto eu olhava pelos miúdos. O mais velho foi fazendo breves amizades por onde passámos, mesmo já se tendo esquecido do Francês ou nem sequer falando a língua dos outros - a verdade é que acabavam sempre por se entender. A miúda deu o trabalho normal dos outros dias e foi espalhando a sua simpatia por estes lados da Europa. Não foram dias perfeitos, longe disso. Muitos trajectos de carro foram um autêntico pesadelo, com ela farta de estar na cadeira e sem perceber que esses quilómetros eram necessários ou com ele a implicar com ela para se distrair. Precisei de respirar fundo muitas vezes para não me deixar consumir pela frustração mas acho que no final valeu a pena.

Puderam brincar ao ar livre em todos os sítios onde parámos, ele ficou espantado quando lhe mostrámos a montanha mais alta da Europa, molharam os pés na água fria e límpida do lago Como ao lado dos patos, aguentaram estoicamente o calor que se fazia sentir em Lausanne enquanto nos tentávamos refrescar junto ao lago Léman.  Saltaram entre países com a naturalidade de quem está habituado a isso, andaram de barco e de trotinete, comeram massas daquelas e gelados, fizeram desenhos ao lado do Mont Blanc. Tivemos de gritar algumas vezes, de acalmá-los outras tantas, tivemos de dar colo e de encorajá-los a saltar. Experimentaram a dormir numa tenda, tomar banhos a correr, ele fez muitas perguntas e ela pôde aventurar-se em terrenos vários.

Quando chegámos a Portugal, ainda os levámos uns dias para um turismo rural (Colmeal Countryside Hotel, que só posso recomendar por ser um sítio tão belo quanto remoto). Passeámos muito na região (Castelo Rodrigo, Foz Côa, Almeida, Castelo Melhor, Freixo de Espada à Cinta) e combatemos o calor com o ar condicionado no carro e no hotel e com braçadas em todas as piscinas que encontrámos. No hotel, ao jantar, a nossa mesa passou a ser conhecida (entre os funcionários) como a mesa da Amália, tal foi o charme que ela lançou e a quantidade de periécias pela qual passou enquanto lá estivemos (incluindo a cabeça quase partida...). Estes dias foram bastante mais cansativos do que as viagens anteriores. O calor era sufocante, o cansaço já começava a acusar, os espaços comuns obrigavam à vigilância constante, as birras multiplicavam-se.

Acho que, daqui a muitos anos, nos vamos rir muito destes dias. E talvez até eles se lembrem das nossas aventuras (naturalmente, ele mais do que ela) e possam entender porque decidimos fazer isto: para que eles possam ver o Mundo lá fora, para que possam dar valor ao património, à geografia, para que possam conviver com gente de todo o lado, para que possam saber como é estar longe da nossa zona de conforto, literalmente falando. Eu cá já começo a olhar para trás com uma espécie de nostalgia, contente por termos estado juntos em ocasiões e sítios tão especiais!

junho 27, 2016

Então e a bola, pá?

Na nossa casa, não há muito o hábito de se verem jogos de futebol, excepto quando falamos dos campeonatos da Europa ou do Mundo. Por isso, desde o dia dez que temos tentado acompanhar os jogos sempre que possível (mais os rapazes que as raparigas, é um facto), seguindo mesmo os das equipas mais improváveis, como de Gales ou da Eslováquia. Assume-se que estas vinte e quatro são as melhores equipas da Europa e um bom jogo de futebol é isso mesmo, um bom jogo de futebol, não importa quem joga.

Eu cá faço já o mea culpa: sou daquelas pessoas que têm oscilado muito nos sentimentos em relação à prestação da nossa selecção. Tenho desanimado muito facilmente e quase sempre me apetece desistir de ver o jogo, tal é a frustração que sinto. Não quis ver a marcação do penalty no jogo contra a Áustria e bem, só sei que tive razão em querer perdê-lo... Mas, por outro lado, fiquei bem contente quando resolvi ficar acordada no Sábado para poder ver o final do jogo, mesmo esperando que se resolvesse apenas após o prolongamento. A minha táctica (já que se tratam de temas desportivos) é começar o jogo a esperar o pior: se o pior se confirmar, já estava à espera; se, pelo contrário, ganharmos, a surpresa e alegria são maiores! É claro que não percebo realmente de futebol mas parece-me que começámos demasiado cheios de nós mesmos, uma confiança inexplicável muito à custa da figura do Ronaldo e esquecemo-nos que há outros jogadores na equipa e que é possível que todas as promessas de um percurso longo neste campeonato europeu podem não se confirmar. Agora, já estou por tudo e quero é que ganhem o que está para vir, mesmo que marquem golos com a mão. O que interessa é seguir!

No escritório, a competição é muita mas saudável. É muito interessante acompanhar os jogos dia e a dia e preencher tudo no nosso super calendário porque há gente de todo o lado e todos torcem por equipa diferentes. É claro que existem algumas rivalidade históricas (o duelo Itália - Alemanha ia deixar muita gente de cabelo em pé) e que ninguém dá muito pela equipa portuguesa mas lá continuamos até ver. Dada a qualidade das nossas prestações até agora, eu tenho-me mantido calada para não ter que me defender de seguida mas, jogo a jogo, lá vamos estando onde os grandes também chegam.

O problema aqui é mais a prestação dos adeptos portugueses em vários sítios do Luxemburgo. Parece que se têm festejado todos os jogos como se fossem a vitória final do campeonato, fechando ruas e fazendo todo o ruído possível a horas impróprias. Isto tem despoletados muitos comentários de ódio por essas redes sociais e jornais, já que a maior parte das pessoas acha que os portugueses não têm motivos para festejar. E, caso os tivessem, deviam fazê-lo de forma ordeira e sem prejudicar o pessoal que tem de trabalhar ou quer dormir (ou seja, toda a gente...). Eu percebo quem quer descansar e acha que ainda não há absolutamente nada a festejar mas também percebo a alegria daqueles que, sem grandes exibições, vêem a equipa a avançar. Um bocadinho de contenção e bom senso não faziam mal aos dois lados: uns podiam deixar os maiores festejos para um momento em que sejam realmente justificados, outros podiam experimentar a não aproveitar uma competição desportiva para espalhar os seus pequenos ódios e tiradas racistas... 

Festejos e mesquinhices à parte, tem sido um prazer ver os pequenos a darem luta aos grandes, ver jogos com grande qualidade e adeptos com um comportamento exemplar (falo dos irlandeses, por exemplo, e não dos confrontos de Marselha). Eu sei que o futebol (e os desportos em geral) nos falam mais ao coração do que ao cérebro mas calma pessoal, são apenas jogos, nós não ganhamos nem perdemos nada com isto. Ou melhor, podemos sentir aquela alegria indescritível de batermos outras selecções ou aquela tristeza inexplicável de ficarmos pelo caminho mas no dia seguinte a nossa vida continua lá... Bottom line, que ganhe o melhor. E que o melhor seja Portugal!


junho 10, 2016

Quand il veut, il peut!


Acho que é público, uma história velha: eu sempre fui desejando que as fases do crescimento do Vicente passassem depressa. Primeiro, quis que ele pudesse dormir e que me deixasse dormir também. Depois, quis que os dentes saíssem todos o mais depressa possível para evitar ainda mais noites mal dormidas e o sofrimento que era evidente e que dificilmente podia ser evitado. A seguir, rezei para que ele não fosse tão susceptível a bronquiolites e outras ites que tal, já que fazer aerossóis a este bichinho era coisa para esgotar as forças ao pai e à mãe. Quis que a fase dos dois, três anos passasse a voar porque não havia um dia que o fosse buscar à creche que não me fizessem uma descrição pormenorizada da quantidade de asneiras que ele tinha feito durante o dia, mesmo com o maior dos carinhos que sentiam por ele. 

Muita gente me dizia (e ainda diz) que as fases nunca vão acabar e há ainda quem me lembre que a sabedoria popular é a mais fiável e certeira, atirando o provérbio Filhos criados, trabalhos dobrados. Pessoas, eu rendo-me. Eu aceito finalmente que vai sempre existir qualquer coisa que queremos ver atrás das costas, sobretudo coisas que não podemos (nem devíamos) controlar. Eu reconheço que não mais teremos descanso e que os desafios mudam apenas na sua natureza: se começamos com os desafios biológicos (a amamentação que é difícil, o cocó que não sai, o sono que tão pouco chega), logo começam os desafios comportamentais que se afiguram muito mais difíceis de superar. Reparem que não os qualifiquei como insuperáveis - mas compreendo agora como é mais duro transmitir valores e educar do que acertar com a pega da mama. E são desafios especialmente trabalhosos porque exigem que sejamos nós o modelo do comportamento que queremos ver nos nossos filhos e isso também dá muito trabalho. 

Nos últimos tempos, as professoras do Vicente usaram várias vezes esta expressão. Quando il veut, il peut, asseguram-me elas e eu sei bem como isso é verdade. O comportamento dele oscila bastante, entre o miúdo super bem comportado, que só quer estar sentado imerso num livro ou num puzzle qualquer, e o pequeno diabo, que ignora todas as ordens, responde torto a todos os pedidos e provoca os colegas. Se eu não o visse mimoso em casa, enchendo-me de beijos e dizendo que sou a sua mãe preferida (sic); se não soubesse que ele nos ajuda em tudo (podes ir buscar um pacote de fraldas/pôr este prato a lavar/abrir as persianas); se não o visse deitado a brincar com o seu interminável parque de automóveis, alternando entre as três línguas que fala; se eu não o ouvisse a tentar ler o que pode e, de vez em quando, a acertar numa palavra; se eu não visse como ele gosta de nós, mesmo quando está de castigo e diz que ninguém no mundo gosta dele (sic) - eu estaria verdadeiramente preocupada! Às vezes as professoras queixam-se, dizendo que ele é muito activo e é difícil mantê-lo calmo e eu não sei se são diferenças culturais mas parece-me saudável que uma criança de cinco anos queira sair da sala e correr até aos baloiços, que queira jogar às lutas com os outros miúdos, que muitas vezes queira estar a mexer-se. Não acho que seja motivo de orgulho que ele seja uma criança activa versus os miúdos que não gostam de se mexer mas também não vejo nisso o defeito que elas parecem querer apontar. 

Quando ele quer, ele pode - ficou-me o ditado na cabeça. Conversamos muitos sobre o que se passa na escola e eu aproveito para lhe expremer toda a informação possível. Conta-me sobre os momentos em que os miúdos se riram de um outro rapaz que regressou à escola careca, depois de uma operação a um tumor e como ele não se riu. Conta-me como queria dar cinco (high five!) a um amigo e acabou por falhar a mão e dar-lhe uma chapada. Conta-me como tem jogado à bola, sem conseguir marcar golos e muitas vezes sem ser logo escolhido para as equipas. Custaram-me muito os anos em que dormiu mal mas custam-me muito mais as vezes em que me diz que ninguém quer brincar com ele (o que a professora, felizmente, desmentiu...). Tem uma necessidade de validação e uma vontade de agarrar o mundo que (possivelmente) lhe vão trazer alguns dissabores. Põe intensidade em tudo o que faz e nunca consegue empenhar-se só a meio termo, seja em fichas da escola ou escolha de amigos. E vai crescendo depressa, um homenzinho em potência que ainda ontem nem sabia andar. Quem me dera poder cristalizar a sua ingenuidade e a curiosidade com que analisa o mundo à sua volta. E quem me dera que continue pateta e divertido, como nestas fotos que o pai lhe tirou. São elas que me vão lembrar, um dia, desta força da natureza quase à porta dos seis anos.

junho 06, 2016

Até que idade pensas divertir-te? Um resumo do Primavera Sound


Nestes dias que passámos em Barcelona, eu e a minha amiga J. tentámos contar a quantos festivais já assistimos até aos dias de hoje. Ela já ia em cerca de vinte, eu não devo andar longe disso. Mas estas duas dinossauras dos festivais acham que pode ter chegado a hora de desistir...

Por onde começar? Talvez por dizer que Barcelona continua a ser aquela cidade espectacular, vibrante mistura de culturas, com uma Primavera digna desse nome, turistas em excesso, comida maravilhosa e  aquela sensação incontornável de que podia mudar-me para lá sem sequer pestanejar. Ver aquelas esplanadas cheias, música nas praças sem medo dos vizinhos, a gente que nos trata por tu e para quem está sempre tudo bem é muito mais do que uma lufada de ar fresco para quem vive mais a Norte, mais constrangida pelos horários, meteorologia e falta de espontaneidade. Pudemos ir à praia durante umas horas, perdemo-nos vezes sem conta mesmo com a ajuda do GPS e também conseguimos deixar a cidade para trás para nos embrenharmos na Espanha mais profunda. À partida, e tendo em conta o reduzido número de dias, diria que aproveitámos bem o tempo.

Depois, houve o festival. E que festival! Desde que comecei a poder ir a festivais (tinha talvez dezoito ou dezanove anos), sempre quis ir ao Primavera Sound. O hype sempre foi gigante, o cartaz quase sempre impressionante, o chamamento enorme. Só existiam dois obstáculos: a distância e o preço. Convenhamos: ir a um festival deste género sai caro. Não podemos apenas contar com o preço do bilhete: falamos também do alojamento, do transporte até lá, da alimentação. Como nos festivais em Portugal, claro, mas num outro patamar de preço. Durante uns anos, era estudante e não podia pagá-lo. Depois, ganhava pouco e não podia pagá-lo. Depois emigrei, depois tive filhos e... Agora tinha chegado a hora de poder realizar uma espécie de sonho.

A organização foi incrível: desde a fila gigante para trocar o bilhete por pulseira que nunca parou de avançar, a diversidade e número de palcos, o (importante) número de casas de banho, a vista maravilhosa sobre o porto de Barcelona, os impecáveis serviços de limpeza que nunca deixaram lixo acumular. Havia marcas, havia merchandisingm claro, mas nunca se sobrepuseram ao propósito principal do festival: ouvir música excelente. Pena é que fossem as próprias pessoas que se esquecessem do que estavam lá a fazer: durante muitos concertos, o desrespeito para com os outros espectadores e, pior, para com os músicos foi gritante. Literalmente falando, já que um sem número de espectadores passou todo o tempo de costas para o palco, falando/gritando (conforme o nível de substâncias proibidas consumido), ignorando os artistas e impedindo as pessoas à volta de desfrutarem plenamente da experiência. Mas, fora isso: a incrível máquina dançante chamada LCD Soundsystem, a ferocidade das Savages, a doçura dos Daughter, a explosão (passe o pleonasmo) dos Explosions in the Sky, o cavalheirismo dos Deerhunter ou a elegância dos Air ficaram-me na memória para todo o sempre. Isso e o concerto emocionante dos Radiohead, pelo qual esperei tantos anos e que se ia tornando num pesadelo pelo som que não chegava a quem estava mais atrás.

Mas há uma pergunta que se impõe. Então ainda tens pedalada para estes festivais, Marisa? E eu respondo que não, já não tenho. No primeiro dia chegámos a casa às três e meia da manhã, as duas com viagens de avião no lombo, sem sequer tempo para parar a pensar. Na segunda noite, chegámos às três e já tínhamos dificuldade em manter os olhos abertos no restaurante mexicano onde procurámos a ceia. Na última noite, chegámos perto da uma e já éramos mais zombies que outra coisa. O corpo já reclama por mais descanso e, pelo menos no meu caso, ter filhos que não dormem bem há anos traduz-se em ritmos de sono completamente estraçalhados. Mas sobrevivemos e até já pensámos onde mais gostaríamos de ir para o ano! Só não me dêem campismo, cerveja que parece água, pessoas a gritar, pó em vez de relva, tanta escolha no cartaz que é impossível não nos sentirmos culpados por não vermos tudo o que queremos. Quero ser aquela quarentona enxuta que ainda consegue papar um ou outro festival sem parecer totalmente deslocada!

junho 01, 2016

Dia dos pequenos badjecas *

É difícil garantir mas eu acho que os meus dois filhos são crianças felizes. Mesmo quando se deitam no chão, a espernear e a chorar desalmadamente porque não lhe demos uma bolacha inteira. Ou porque, surpresa!, precisamos de tomar banho todos os dias.

Com quase seis anos, o Vicente acalmou. Não significa que deixou de fazer parvoíces ou que já não faz birras ou que se comporta sempre de maneira exemplar. Mas (geralmente) já ouve o que nós lhe dizemos e os nossos argumentos já vão fazendo mais sentido e compreende a cadeia acção-consequência. Gosta de dinossauros, cromos do Europeu, bonecos animados (praticamente todos os que conseguir ver). Os seus alimentos preferidos são o arroz, a massa, o camarão e as bananas. E o chocolate, claro. Odeia tomar banho, lavar a cara e os dentes, comer salmão e ficar em casa. Se o queremos ver feliz, é levá-lo à escola de trotinete ou deixá-lo ver a Porquinha Peppa no computador ou jogar Uno (mas só se ele ganhar!). Tem muitas perguntas dentro dele (O que há dentro da terra? Onde estão os dinossauros? Posso comer um chocolate?) e não pára de falar. Ou de cantar canções de Natal, mesmo em Junho. Brinca muito bem sozinho e também adora estar deitado com a irmã na sua cama de bebé.

A Amália está a caminho do ano e meio de idade. Já anda, tenta correr (para não a apanharmos) mas não diz quase nada. Na prática, diz mama para tudo, especialmente aquilo a que não consegue chegar. Fica sossegada quando lhe fazemos os sons dos animais e ultimamente o preferido é o porco, que ela não consegue (naturalmente) imitar. Não aceita bolachas partidas mas de resto come tudo o que lhe aparecer à frente. Mesmo bocados de esferovite que às vezes arranca da porta. Se não a pararmos, pode estar sempre ocupada a mastigar. Tenta sentar-se sempre que pode, agora que descobriu esta sua habilidade. Fica muito atenta aos sons que as pessoas fazem e tenta ler os lábios para determinar como pode repeti-los. É divertida: gosta de rir com os outros e repete muitas vezes as coisas a que achamos graça. Não gosta de dormir, embora adormeça sozinha na sua cama enquanto fala.

Eu acho que os meus filhos sentem que há muita gente que os ama. Nós certamente os afogamos com beijos e estrafegamos com abraços. Dizemos-lhes frequentemente como gostamos deles e elogiamos as suas novas capacidades e habilidades. Às vezes gritamos porque estamos cansados ou atrasados ou a perder a paciência mas não há nada que um abraço não cure. Conversamos muito e rimo-nos da maneira pura e descomplicada como vêem as coisas. Achamos que o importante é serem curiosos, tolerantes, que respeitem os outros e as suas diferenças, que gostem de aprender e de brincar, que possam estar preparados para enfrentar o Mundo. E ficamos felizes quando eles se riem às gargalhadas ou quando têm aquela tirada ingénua mas genial. Vamos abraçá-los ainda com mais força hoje, em que se celebram as pessoas pequeninas e cheias de vida.

* não me perguntem de onde veio este raio de nome mas ele existe, ele instalou-se e ele designa ainda hoje os nossos filhos.

maio 31, 2016

Falar menos e melhor

O meu desencanto crescente com as redes sociais levou-me recentemente a concluir que tudo o que eu quero ser, neste momento, é neutra. Por um lado, temos as pessoas que se indignam com as coisas mais absurdas (José Cid e Trás-os-Montes, Henrique Raposo e o Alentejo, o gorila abatido para salvar uma criança... and so on, and so on), partindo mesmo para os insultos e até para as ameaças de ofensas corporais. Parece que vivem para estes momentos, para cuspir todo o fel que vão acumulando sabe-se lá como, para demonstrar uma superioridade virtual sem qualquer valor, para exorcizarem os demónios do seu quotidiano. Imagino a raiva que lhes corre nas veias enquanto escrevem os comentários agressivos, desprovidos de qualquer bom senso, convencidos de que agora vale tudo e tudo implica ameaçar de morte até a família dos implicados e todo o tipo de impropérios em nome da liberdade de expressão. Não há qualquer discussão construtiva, pensada e repensada, não existe consideração pelos interlocutores, não há civismo nem respeito pela ortografia: há apenas a agressão gratuita, o sangue que ferve por tudo e por nada, o tempo perdido com fait divers, enquanto o Mundo continua a acontecer lá fora. Toda a gente sabe que as caixas de comentários internet fora são um caso de estudo, tal é o tamanho do ódio, do desprezo e da falta de empatia de quem por lá paira. Muitas vezes, preciso de deixar de ler comentários para acabar com o mal-estar que a falta de humanidade me provoca.

Mas também há o lado oposto, o lados dos yes-men e yes-women. Aquelas pessoas que concordam com tudo e que precisam comentar a dizer que têm a mesma peça de roupa ou que já foram ao mesmo restaurante, como se isso fosse importante para a sua validação. Quero acreditar que não escrevo para gerar esse tipo de consenso oco, fabricado - antes, quero apenas partilhar ideias, materializar o que me muitas vezes me atormenta/alegra, cristalizar momentos tão diversos da minha vida. De qualquer maneira, não tenho esse público e não sou esse modelo de pessoa. E não aguento tanta gente a perguntar de onde é o casaco e onde é que se comprou a louça e onde é que podem encontrar o mesmo papel de parede. Parece que hoje algumas pessoas perderam a capacidade de pensar por si, de partir à descoberta das coisas que os fazem felizes, de procurar lojas de decoração e vagas de emprego, de arriscarem a ter gosto pessoal.

Tenho cada vez menos vontade de opinar sobre qualquer coisa. Por um lado, não quero reagir intempestivamente, acusar e esquecer-me de que nem sempre conhecemos as razões dos outros. Quero pensar e ponderar as minhas reacções, quero trabalhar na minha empatia e lembrar-me que um dia também me pode acontecer a mim. Não quero ser injusta nem arrastar outras pessoas para o lamaçal das críticas sem fundamento. Também não quero saber onde compraram a saia, a mala e o caderno - posso apreciá-los, elogiá-los mas não preciso que sejam meus. É claro que meço as minhas palavras e muitas vezes não escrevo tão livremente porque sei que há um público que me lê mas também não quero ser escrava desse público. Não quero ser exemplo para ninguém (bem, talvez para os meus filhos) nem quero precisar dos outros para me sentir válida. Sinto-me num momento importante das redes sociais, num cruzamento em que devo escolher entre partilhar abertamente e limitar essa partilha e cada vez pendo mais para esse encerramento sobre mim mesma. Porque estou cansada dos justiceiros sociais que não lutam pelas causas fora da internet e se indignam azedos, com a sua falta de humor. E também dos seguidores cegos, para quem um estranho é um modelo de virtudes e de perfeição. Dá para criarmos a Suiça da internet?

maio 30, 2016

Luxemburgo-Lisboa-Portalegre-Lisboa-Luxemburgo


É muito mais fácil queixarmo-nos, eu sei. É tão mais fácil sucumbir à crítica pela crítica, deixarmo-nos afogar num mar de pessimismo, esquecimento e ingratidão. Deixei de comer na cozinha com outros colegas exactamente para não ser arrastada para esta espiral de queixumes em que se tinham tornado os meus almoços. Não sou pela corrente de optimismo e crença profunda no karma mas a experiência tem-me ensinado que mais vale apreciarmos o que temos, mudar quando não nos sentimos confortáveis, agir sempre que for necessário - em vez de chorar a falta de mudança. Mesmo este ano, quando estive menos certa daquilo que estava a fazer, comecei a mover-me para encontrar uma alternativa que, no fim, não foi necessária. Mas procurá-la era fundamental para sentir que estou no controlo da minha vida. Não sou cega nem sou tão facilmente influenciável que chegue a pensar que trabalho na empresa ideal. 

Trabalho aqui há quase quatro anos e vi muitas coisas a acontecerem, outras tantas a mudarem - muitas drasticamente. Pessoas entraram e saíram, o negócio deu uma cambalhota ou duas mas a essência dos seus princípios e, acima de tudo, a competência e humanidade dos seus funcionários raramente foram abalados. Muitas vezes desejei não trabalhar com certas pessoas ou achei que a estratégia não seria a mais acertada mas se fiquei, foi porque acredito neste projecto e porque, uns dias mais, noutros menos, sinto-me em casa. Posso vir trabalhar descansada porque o ambiente não é hostil, porque a competitividade pouco saudável não existe, porque entendem que às vezes a família fala mais alto, porque há quem acredite em mim. Deixar tudo isto só para ir procurar mais dinheiro ou um status social diferente seria um erro. Ainda bem que parei a tempo. E depois há sempre aquela coisa espectacular de ter de viajar em trabalho... para Portugal. Ser responsável por um mercado que coincide com o meu país de origem é mais do que podia pedir num emprego no estrangeiro. Poder falar a minha língua, conhecer bem a realidade do país, orgulhar-me do que já conseguimos fazer in loco - isto não tem preço. 

Na semana passada, pude passar quatro dias em Portugal, em que dois foram turismo puro, porque coincidiram com o fim de semana. Abracei a minha família, vi alguns amigos, comi bem e até quase não aguentar mais, trabalhei sempre que pude e trouxe boas notícias para casa. Só não trouxe o bom tempo, o peixe fresco, as festas de Lisboa, as festas de Portalegre, os filhos dos meus amigos, a minha irmã e os meus pais, a minha rua e os meus vizinhos que, depois de dez anos, ainda são capazes de não me conhecer quando nos cruzamos na rua. Não trouxe o silêncio de Portalegre, o humidade de Lisboa, os turistas a perder de vista e as esplanadas onde apetecia estar - em troca, voltei para as trovoadas, a chuva forte, a Primavera que teimou em não aparecer e o Verão que parece ainda estar longe. Mas voltei para os braços da minha pequena família, que já sentia a minha falta. E voltei para o escritório onde, uns dias mais, outros menos, a gente me quer bem. 

Há-de haver mais viagens, mais negócios à minha espera, hei-de poder juntar mais vezes o útil ao agradável. E agradecerei, sem floreados e crenças no destino, poder continuar assim a trabalhar. Porque às vezes é preciso estar no sítio certo à hora certa. E noutras há que trabalhar para agarrar essa fortuna.

maio 20, 2016

Filhos, filhos... Filhos por todo o lado!

Três cromos do Euro 2016 entre os tapetes do carro. Um boletim de vacinas e uma bola de borracha dentro da mala. O desenho tosco de um tubarão a sorrir como protecção de ecran. A trotinete quase à porta da rua. A árvore genealógica com colagens e fotografias mal cortadas à porta de casa.

Há uns tempos atrás (o que me parece hoje uma eternidade, diga-se de passagem), fui criticada porque o meu blog tinha deixado de falar sobre aventuras, dores do coração, amores não correspondidos para me dedicar mais ao filho que me tinha acabado de nascer. Na altura, fiquei triste porque queria continuar a ser a mesma rapariga livre que podia sair para concertos ou encerrar-se em casa, podia viajar sozinha, sofrendo ou florescendo de amor. Fiquei triste porque alguém me estava simplesmente a fazer ver que eu tinha mudado, uma ideia a que eu parecia simplesmente estar a resistir.

De há uns tempos para cá, aceitei finalmente que não posso (nem quero) ser a mesma pessoa que começou a escrever este blogue. Detesto a ideia de me tornar apenas numa mãe mas acho que é saudável admitir que os meus filhos são uma parte (muito, muito) importante da minha vida sem que isso anule a pessoa que eu quero ser e para a qual tenho trabalhado muito. Não quero ser a mulher que se deixa atropelar pelos caprichos dos meus filhos: quero poder fazer-lhes muitas vontades, ao mesmo tempo que quero fazer o mesmo por mim. E pelo meu marido, claro. Quero ter tempo para brincar deitada no chão e para beber um copo de vinho, para pintar páginas intermináveis de livros de colorir e acompanhar as séries de que mais gosto, levá-los aos aniversários dos amigos e levá-los a ver o Mundo, inventar jogos infantis e conversar com outros adultos. Não quero que um dia os meus filhos saiam de casa e eu fique mais vazia do que é suposto ficar.

Eu tenho lutado por manter este equilíbrio, embora já tenha percebido que enquanto os filhos forem pequenos, ele será mais ténue. Mas não posso evitar vê-los em todo o lado porque eles têm esta maneira subtil de se insinuar em todas as coisas, de deixar pequenas lembranças nos sítios mais inusitados, de ter conversas de que me lembro e vou rindo ao longo do dia. No outro dia, começou uma trovoada e a primeira coisa em que pensei foi que o Vicente tem medo e em como gostava de estar com ele para o tranquilizar. Uma pessoa pode lá escolher quando não quer ser Mãe ou quando precisa de tempo sozinha - os filhos estão em todo o lado e sempre quando menos se espera.

E é quando penso que, daqui a não muito tempo, eles não vão querer estar tanto conosco (como todas as crianças, diria eu) que decido: abraçá-los é aqui e agora, fazer-lhe cócegas não pode esperar, as suas ideias inocentes mas criativas transformam-se na melhor conversa. Temos todos tempo de nos voltarmos para dentro à procura de quem somos. Por isso, permito-me que eles invadam a minha vida, todas as assolhadas da nossa casa, os meus pensamentos, o carro e mais a mala. Um dia volto a ser só eu mas há-de ser sem me arrepender de ter sido mãe a toda a hora.

maio 06, 2016

Nem só de chuva se faz a nossa Primavera


Um dia de férias só para mim. Eu sei que podia ter ficado, pelo menos, com a miúda mas decidi levá-la para a creche na mesma. Um dia só para mim, sem estar doente ou ter qualquer responsabilidade a cumprir. Ainda mais incrível, se pensar no tempo que faz hoje.
 
Saí de casa às nove da manhã. Ir a pé para o centro da cidade estava fora de questão porque ainda é um bocadinho longe mas decidi deixar o carro em casa e pus-me a caminho do autocarro. Headphones na cabeça, uma playlist das minhas e aquela disposição que só um dia de Sol traz. Meti uma carta no correio, passei pela escola do miúdo onde ainda havia silêncio. Quinze minutos de autocarro e estava no centro da cidade do Luxemburgo. Havia gente por todo o lado, pessoas a caminho dos intermináveis escritório, turistas, sem abrigo que se têm multiplicado por aqui nos últimos tempos. Obras por todo o lado, limpeza de ruas, fornecedores a descarregar mercadorias, montras a serem compostas - esta cidade está viva!
 
Senti uma ponta de orgulho quando vi a bandeira do Luxemburgo a ondear debaixo deste incrível céu azul. Pensei no que sentem os Luxemburgueses pelo seu país, pela sua cultura e, culpada, percebi que também já vou partilhando um pouco deste mal do coração. Quanto tempo precisamos de viver num sítio até que ele se torne também nosso? Quatro anos são suficientes, vai-me parecendo. Esta cidade não é nenhuma Lisboa (nenhuma cidade se lhe compara!) e este país também não é nenhum Portugal mas é difícil combater o efeito da Primavera que já vai tardando: agradeço poder estar aqui, estável e segura, espalhando o meu amor aos quatro ventos e guardando este país pra sempre no meu coração.

maio 04, 2016

O futebol também ensina!


Nunca tinha pensado nisto até que estive com ele sentada, a colar cromos: uma caderneta é uma óptima maneira de aprender coisas!

Compramos-lhe cadernetas mais pelo prazer de as completar e de abrir as carteirinhas e ver se tivemos sorte ou, se pelo contrário, só nos saem cromos repetidos. Não é exactamente pelo nosso grande amor ao futebol: aqui em casa, vêem-se de vez em quando os jogos grandes mas nunca organizamos a nossa vida em função do futebol. (Quando vejo a doença com que os meus colegas gostam de bola, agradeço aos céus ter um marido totalmente neutro e ponderado mas isso já foi assunto de outro post!). Mas a verdade é que é giro completar as equipas e saber um pouco mais dos grandes campeonatos (do Mundo ou da Europa) que já passaram e dos que estão prestes a começar.

Então, esta semana levei umas carteirinhas para casa e sentei-me com o miúdo a colar cromos antes de jantar. Organizei-os primeiro e ia-lhe passando um a um para que os colasse e foi aí que percebi que é uma tarefa que obriga ao desenvolvimento de umas quantas competências: primeiro, os números - é preciso saber a ordem em que aparecem as equipas, entender números com um, dois e três dígitos, separar os que já são repetidos. De seguida, temos as bandeiras que ele adora decorar, juntamente com as pequenas fotografias sobre os monumentos mais famosos de cada país, que ele assume que já visitámos. Depois, vêm os nomes - não só ele tenta identificar a posição dos cromos pelos números mas também pelos nomes dos jogadores, comparando o que está no cromo com a caderneta e tentando, à maneira ingénua e atabalhoada dele, ler o que lá está escrito. Mesmo em albanês. E a verdade é que, à custa de tanta tentativa, já percebe algumas combinações de letras e consegue descobrir outras. E finalmente, ainda pode treinar a motricidade fina, enquanto descola os autocolantes e os cola o mais correctamente possível na caderneta.

O bom disto tudo é que, se ele realmente está a aprender alguma coisa, é unica e exclusivamente por sua própria iniciativa. Eu cheguei a estas conclusões por acaso, não tinha nenhum plano mirabolante para que ele retirasse isto tudo duma actividade tão banal. E esta sua curiosidade, sei-o hoje mais do que nunca, é o que realmente quero que ele nunca perca. Porque ser curioso e aberto ao mundo é meio caminho andado para o seu desenvolvimento saudável e para ir sempre mais longe. De certeza que aprender mais e mais lhe custará menos se ele mesmo quiser sempre saber mais.