Junho 16, 2013

Stickerbücher



Uma das coisas que nos preocupa sempre que falamos de viagens de avião é como vamos entreter o Vicente. Ele é muito irrequieto e fico tensa só de pensar que ele precisa de apertar o cinto pelo menos na descolagem e aterragem. Parece-me, mesmo assim, que as viagens correm cada vez melhor e ele, apesar de não entender muito bem o que se passa realmente numa viagem de avião, percebe que é um meio de chegar de A a B e também que é algo temporário.

Quando voamos para algum lado fazemos questão de levar connosco todas a alternativas possíveis para o manter entretido o máximo tempo possível. A minha escolha preferida são os livros de autocolantes porque são do mais simples que há e porque ajudam a estimular-lhe a imaginação. Costumamos criar as cenas juntos, eu retiro os autocolantes e ele normalmente cola-os todos em cima uns do outros. Às vezes isso irrita-me um bocado mas quem sou eu para ditar esse tipo de coisas? Depois, o divertimento até é a dobrar. É que o Vicente noutros tempos livres adora abrir os livros e descolar e rasgar as cenas que já compôs... Mãe, Pai, agora percebo quando vocês me diziam que nada durava muito nas minhas mãos!

Junho 14, 2013

(Constante) Insatisfação

Não é segredo nenhum que todos os empregos que fui tendo até ao dia de hoje não são mais do que maneiras de ganhar dinheiro. Sei perfeitamente que preciso de trabalhar para viver (especialmente depois da responsabilidade acrescida que significa ter um filho), tenho-me aguentado sempre muito bem mas empregos de sonho? Não me parece. Claro que também sei que pessoas que fazem aquilo que gostam se contam pelos dedos de uma ou duas mãos mas elas existem e, mais do que isso, tenho visto o seu número a aumentar muito.

É preciso dizer que não tenho nenhuma vergonha do meu trabalho (corrente ou passado) como boa gente que vou encontrando por aí e que, digamos, embeleza os seus currículos com funções e experiência que estão muito longe da verdade. Sou daquelas pessoas que limpava escadas na boa, desde que isso fosse o necessário para poder viver dignamente e sem grandes sobressaltos de consciência. Não é isso que almejo mas não me sentiria muito constrangida se um dia a coisa se desse. Mas isto não significa que gosto de fazer qualquer coisa que me apareça à frente ou que não tenha ambição. Em todos os empregos que tive até agora olhei sempre um pouco mais à frente do que a minha posição do momento e sempre trabalhei para melhorar, eliminar os meus pontos fracos na medida do possível, ser a melhor. Se consegui ou não, isso são outros quinhentos.

Só que já tenho trinta e três anos e não faço aquilo de que gosto. Tenho trinta e três anos e normalmente sinto-me uma peça insignificante no meio de uma estrutura gigantesca e insensível, sinto-me como uma máquina de fazer dinheiro sem que isso traga nenhum bem ao Mundo. Nos melhores dias, eu entendo que todas as profissões são necessárias e, dentro de cada estrutura ou organização, farão sentido. Mas eu gostava de sentir que o meu trabalho é mesmo importante para alguém. E, talvez mais do que isso, eu gostava de poder encontrar a resposta mais importante: o que é que me faria mais feliz? 

Tenho a certeza que não é ser mão de obra barata, dias cheios de tabelas de Excel, conceitos tão abstractos e obscuros para mim que me demoram uma eternidade a compreender. Gostava de trabalhar com as minhas mãos, as minhas ideias e, acima de tudo, com o meu coração. Gostava de trabalhar fora de um escritório, longe dos horários fixos e sufocantes, livre para sentir o mundo nos seus afazeres quotidianos. Gostava de criar os meus horários, a minha rotina e de ter capacidade de alimentá-los indefinidamente. Vejo a boa gente que larga empregos para fazer o que gosta, vejo as ideias a brotar de cabeças inquietas a toda a hora e pergunto-me se seria, se serei alguma vez capaz de tão grandes actos de coragem. Calha que os outros acreditam mais em mim que eu própria, só que isso não empurra para lado nenhum. Então, espero pacientemente o dia em que vou acordar e saber exactamente qual é o meu lugar na vida. Entretanto, amaldiçoo a minha falta de coragem e, acima de tudo, de estratégia e de determinação. Eu sei que ninguém pode fazer nada por mim mas um dia hei-de saber como começar.

Junho 13, 2013

(Regressar)



(Voltar ao Luxemburgo depois da meteorologia amiga que encontrámos em Lisboa é mais do que difícil, é uma verdadeira tortura. É como se o Inverno aqui nunca acabasse, de cada vez em que se vislumbra um raio de Sol logo se apressam a chegar nuvens de todos os tamanhos, feitios e quantidade de água, acompanhadas por um vento violento para qualquer altura do ano mas, possa, o Verão é daqui a sete dias e continuamos nisto. Mas não é só o cinzento eterno que dói: estar em Lisboa e fingir, literalmente, durante uma semana que aquela era ainda a nossa casa não podia trazer bons resultados. Lembrámo-nos que sentimos falta de tantas, tantas coisas que o fim dos dias foi com um balde de realidade gelada e interminável. Enquanto escrevo estas palavras olho peça janela e vejo a chuva insistente que torna as hortas dos vizinhos portugueses mais viçosas mas suspiro pelos azulejos da rua do Jardim à Estrela. Às vezes, estar aqui é de uma solidão tão imensa que parece que a garganta se nos entumesce até não podermos respirar, é como se nos olhássemos de fora do corpo e víssemos três pessoas a tentar funcionar em território hostil, alternando os dias de agradecimento por uma vida que melhorou de verdade com os dias em que o que deixámos para trás é milhões de vezes mais importante. Não me digam que a escolha é nossa, eu sei, eu lembro-me disso todos os dias e há muito que aceitei viver com ela mas não é isso que me impede de nos sentirmos deslocados, pequenos e desprotegidos - de desejar secretamente voltar, ao mesmo tempo que sabemos que por agora o nosso lugar será aqui. E todos os dias aprendemos a viver sem olhar para trás, a depender apenas de nós mas a tentar manter os laços que deixámos tão longe e tão frágeis. Se calhar ser emigrante é mesmo isto, são duas pessoas no mesmo corpo, se calhar uma tomou a cabeça e a outra ficou-nos com o coração, reinando sobre tudo em dias distintos. Tenho saudades e digo-o em voz alta, sem vergonha, sem pudor, sem medo de ser julgada. Posso ter aprendido a amar o Luxemburgo, a deslumbrar-me com os seus bosques cerrados, a gabar-lhe a justiça e organização, a sentir que cresce uma casa assim mas não é isso que me faz esquecer a nossa família, as minhas pessoas, o património tão rico e tão sub-aproveitado, a calma mesmo em tempos tão difíceis, a vida que gostava de ter no meu país. Olho pela janela e a chuva abrandou um bocado, como que a mostrar-me que até aqui há um silver lining. E depois lembro-me do Steve Jobs a dizer que os pontos se unem é olhando em frente e que mesmo as más decisões/os acontecimentos menos positivos têm uma razão de ser e enfim, tudo será o que tem de ser.)

Junho 05, 2013

Lisboa



Passar férias em Lisboa, ainda por cima na nossa própria casa, tem tanto de doce quanto de amargo. Imaginar que a nossa vida ainda se faz pelas mesmas ruas, a bica bebida sempre na mesma pastelaria, o abraço do nosso filho aos senhores do café, os vizinhos que quase não se lembram de nós, o dono da loja de animais que se espanta com o tamanho dele, o mesmo jardim exuberante e cheio de vida que deixámos para trás, olhar o corredor onde este menino começou a andar - tudo custa e, ao mesmo tempo, conforta. Depois ainda temos os amigos que se desdobram em atenções que nem sabemos se merecemos, temos as praias quase ali, o tempo que se esforçou para nos receber de céu bem azul, os sons e as ruas da cidade que nunca esquecemos, todas as coisas que queremos ainda ver, como que para garantir que não se apagam da nossa memória. Estar em Lisboa é a melhor e a pior coisa que nos acontece esta semana, é sentir outra vez o que perdemos quando decidimos ir, é imaginar como seria se o caminho fosse outro, é sonhar como seria se pudéssemos regressar já. Só que não podemos e por isso afogamo-nos em cheiros a sardinhas e a Tejo, decoramos paredes e últimos andares banhados pelo Sol, repetimos os hábitos de uma vida que já não existe a não ser nas nossas cabeças. E durante uma semana é tudo Sol, é tudo tempo para nos lembrarmos que, apesar de sermos do Mundo, é aqui que pertencemos e esperar que um dia, não demasiado tarde, possamos ainda voltar.

Maio 28, 2013

Eis que os terrible two se transformam nos dois-e-meio mais ou menos!

(contrastando com o tom menos optimista do último post...)

Nesta coisa dos filhos tenho visto (e sentido na pele) que não vale muito a pena deitar foguetes antes da festa. Já vi muita coisa a andar para trás desde que o Vicente nasceu e basta-me pensar no sono dele para saber que não se pode cantar vitória com toda a certeza do mundo. Mas sinto, com toda a precaução que me é possível, que as coisas começam a ser menos terríveis. Certamente que o mérito é de filho e pais e, na verdade, não saberia explicar qual é a fórmula se um dia ma pedissem.

Um dos grandes avanços nesta história (parece-me a mim) é a crescente empatia que ele demonstra pelos sentimentos dos outros e que o faz compreender um pouco melhor as consequências das suas acções. É claro que muitas vezes ainda continua um destravado que salta e trepa por nós acima, que cerra os dedos num belisco mais ou menos voluntário mas já se ressente quando percebe que fez alguma. Se vê uma expressão menos alegre ou mais preocupada, pergunta o que se passou e tem até alguns gestos de carinho na sequência disso. Compreende melhor a noção de causa-efeito ("se queres ver estes desenhos animados, precisas de arrumar os brinquedos no quarto primeiro") e já colabora mais ou menos voluntariamente nisto. Fica muito contente quando vê que correspondeu exactamente às nossas expectativas e por isso tende a colaborar bastante connosco! Brinca muito sozinho, fala e fala e fala numa mistura entre Francês, Português e Vicentês, gosta de cantar e tocar bateria com os tachos. Consegue-se perceber que já tem alguma imaginação (constrói os seus próprios meios de transporte, que faz depois passar por situações que ele criou) e infelizmente alguns medos que lhe incutiram na creche (ainda lutamos contra a ideia de uma Madame, que o aterroriza algumas vezes e que se calhar apareceu primeiro para que ele comesse).

Só ao nível mais físico, mais biológico da coisa, vá, ainda não vamos tão bem. Agora regrediu um bocadinho na comida (de vez em quando pede que lha demos, quando antes só queria comer sozinho), ainda não largou as fraldas e não demonstra nenhum interesse por isso, de vez em quando ainda acorda de noite. Mas estamos a anos-luz do Vicente de há uns seis meses, impossível de conter, acordando várias vezes por noite. É uma verdadeira delícia vê-lo a crescer assim, também porque isso acaba por influenciar a nossa disposição e diminuir o nosso cansaço. Continuo a lutar para ser uma mãe mais positiva e dou-lhe alternativas sempre que posso (a proposta para o banho, por exemplo, "vens sozinho ou queres que a mãe te leve?" resulta quase sempre), explicamos-lhe o porquê de algumas decisões mas às vezes é não porque não. É o trabalho mais difícil que alguma vez terei em mãos mas o mais recompensador e feliz. Só gostava de poder preservar-lhe a ingenuidade e a pureza indefinidamente mas isso seria desviá-lo do curso natural das coisas. Prepará-lo para o mundo, é tudo o que quero fazer.

Maio 27, 2013

...

 "[...] Acontece que me canso de meus pés e de minhas unhas,
do meu cabelo e até da minha sombra.
Acontece que me canso de ser homem. [...]" 

Acontece que me cansam as pessoas. É claro que o trabalho me cansa muito mas são acima de tudo as pessoas que me deixam à beira da exaustão. Acontece que me aborreço com a falta de brio e rigor, bem como com a incapacidade de ver além do imediato. Não sei demonstrar quão cansada me senti nas últimas duas, três semanas e tudo graças a pessoas. Vazia, inerte em todos os dias que cheguei a casa e não desejei mais do que uns merecidos momentos de apatia no sofá. Incapaz de sentir alegria nos meus passatempos, impossibilitada de me ocupar das tarefas domésticas pelo cansaço. A sonhar com pessoas e problemas todas as noites, pensar em soluções debaixo do chuveiro, desanimada com a falta de acção de quem podia algo contra tudo isto. As pessoas, para evitarem a confrontação do óbvio e do que necessita ser resolvido, preferem enfiar a cabeça na areia e fingir que nada acontece. Mas é tudo até ao dia em que a bomba não rebenta no quintal mas sim no seu próprio colo e já é tarde demais para qualquer reacção. Acontece que me canso de demonstrar as minhas frustrações com base em evidências e factos e tudo o que recebo de volta ou é negação da realidade ou um espírito inutilmente apaziguador. Eu não quero ser esta pessoa que se deixa consumir por problemas que na realidade não são dela mas acontece que me enfio de cabeça e estômago e coração nas coisas que faço. Nunca soube fazer de outra maneira mas talvez comece a chegar a altura de aprender. Acontece que me canso de mentiras, de hipocrisia, de inércia e esquemas ardilosos para mascarar as incompetências. Eu não preciso disso, viver já é suficientemente difícil sem jogos desse tipo. Mas estas pessoas estão em todo o lado, vejo-o agora. Não é uma questão de nacionalidade ou de género, é apenas uma questão de mau carácter. Enquanto vinha a pensar nisto no carro, dei-me conta que isto pode soar a "Oh é o Mundo contra mim" mas posso assegurar que não se trata disso. Erros? Cometo-os como outra pessoa qualquer mas ouço opiniões, procuro outras maneiras de ver o mesmo, aceito críticas construtivas. Capacidades? Tenho as minhas e sei como não são aproveitadas, mesmo tendo consciência dos meus limites. Acontece que quando me moem durante semanas a fio, também chega o dia em que preciso respirar fundo e assumir que já não está na minha mão. E em vez de berrar ou gritar, vou pensando e repensando os acontecimentos para ter a certeza que não sou eu que estou a ser cega ou injusta ou parcial. Acontece que as pessoas me cansam mais e mais e quando dou por mim já não sinto falta de fazer amigos ou conhecidos. Amanhã, depois tudo passa e o cansaço desaparecerá. Até lá, ou até ao momento em que a bomba rebente, não gosto de pessoas e fico-me por aqui.

* extracto do poema Walking Around de Pablo Neruda que podem ler, por exemplo, aqui.

Maio 20, 2013

Retratos fiéis



Não sei se alguma vez vos aconteceu reverem-se numa obra de alguém que mal vos conhece mas que, de alguma maneira inexplicável, vos imortalizou num retrato/música/livro. Não é que me aconteça isto a toda a hora ou o sentimento tornar-se-ia demasiado banal mas recebi há alguns dias um destes fenómenos na minha caixa do correio e fiquei enternecida por ser uma coisa tão especial.

Esta ilustração da Marta (cujo trabalho magnífico podem seguir aqui) chegou-me às mãos pela primeira vez para ilustrar um texto meu, um pedaço de ficção que me comprometi a escrever numa base mensal para esta revista. Eu não conhecia a Marta, nunca tinha trocado nenhuma palavra com ela mas ela acabava de me desenhar em plena planície alentejana salpicada de uma ou outra papoila. Era eu a mulher de vestido que olhava os campos a perder de vista, era eu que sentia aquele calor dourado, era eu e a Marta não sabia. Mas eu sabia e sentia-me estranhamente confortável com isso.

E então num destes dias, numa encomenda cheia de talento e de incrível beleza, a Marta fez-me chegar esta ilustração, já emoldurada e pronta para iluminar a nossa casa. Eu não sei se vocês já conhecem o trabalho dela, especialmente a série das mulheres, mas se não conhecem apressem-se a fazê-lo. E se calhar, quem sabe, ainda encontram o vosso retrato ou um pedaço de vocês que achavam perdido. Às vezes acontece-me isso mas nem sempre tenho a sorte de o pendurar na minha parede.

Maio 08, 2013

As aparências iludem (agora mais do que nunca...)

Escrevo este post na sequência deste pedaço de diálogo que tive hoje no trabalho.

Pessoa: M., devias pintar o teu cabelo.
Eu: Pois devia, mas não quero.
Pessoa: Ah sim? Então porquê?
Eu: Porque se o fizesse uma vez teria de o repetir para o resto da vida e não quero estar presa a isso. Além disso, não tenho vergonha dos meus cabelos brancos.
Pessoa: Ah M. parabéns. És a rapariga mais natural que eu conheço.
Eu: Hum... vou tomar isso como um elogio.

Quanto mais cresço, vejo, leio, experimento menos compreendo esta fixação das pessoas pelo aspecto dos outros. Sempre tive um bocadinho de dificuldade em perceber porque há pessoas que iniciam conversas falando do nosso peso, da nossa roupa ou dos nossos cabelos brancos. A questão do peso, por exemplo, eu até a suportaria, mas só vindo de um amigo muito chegado ou família e se essa questão estivesse a pôr em risco a minha vida. De resto, não tenho paciência para pessoas que se focam nos nossos defeitos e pensam que nos estão a fazer um grande favor em dissecá-los. Pessoas, nós todos temos espelhos em casa! Eu vejo-me todos os dias, encaro os meus cabelos brancos, encolho a barriga que não consegui ainda pôr no lugar mas eu sei qual é o meu aspecto. Eu sei exactamente o que poderia melhorar em mim e aquilo que, lamentavelmente, não tem cura.

É claro que isso não quer necessariamente dizer que eu estou em paz com a minha imagem - não estou. Mas pelo menos, não perco tempo a pensar no que podiam as pessoas à minha volta melhorar, porque nem sequer sei se isso é importante para elas. Acho natural que se queira ter uma imagem agradável mas preocupa-me mais, por exemplo, a falta de higiene do que umas unhas sem verniz. A maquilhagem que uso é apenas para não deixar transparecer o cansaço e não para me tornar numa pessoa que não sou. Cresci assim, em minha casa nunca houve grandes pinturas nem grandes truques de beleza e sinto-me confortável com isso. Claro que às vezes tenho inveja das miúdas embonecadas que vejo por aí mas não morro por isso porque me aceito como sou. Mais do que isso, aceito que há características que nunca poderei mudar, que há assuntos em que a genética não me favoreceu e há outros em que posso dar uma mãozinha. Não sou cega e tenho opinião formada sobre as pessoas à minha volta mas não faço disso um tema de conversa e tento dar sempre lugar às segundas e terceiras impressões. Ter boa cara, vestir-se bem ou usar roupas da moda nem sempre é sinónimo de honestidade, inteligência, competência ou bom carácter. Já o pude comprovar muitas vezes na vida.

Se gosto de ter tantos cabelos brancos (um tema recorrente neste blog, aliás)? Não, claro que preferia não os ter. Se acho que isso me torna numa pessoa diferente? Claro que não, a não ser numa pessoa que os tem desde os dezoito anos e que resolveu deixá-los sobreviver livremente. Felizmente, o nosso crescimento vai-nos trazendo mais certezas e tranquilidade e eu estou certa que não me importo de ser quem sou.

Abril 29, 2013

(continuar a ser uma chorona *)


Because I know there are people who say all these things don't happen. There are people who forget what it's like to be 16 when they turn 17. I know these will all be stories someday. And our pictures will become old photographs. And we'll all become somebody's mom or dad. But right not these moments are not stories. This is happening. I am here.

(é que de repente caí em mim e lembrei-me que já não faço parte dos que vão levando com o vento na cara. Lembrei-me que agora sou mãe de alguém e que grande, grande parte de mim ficou irremediavelmente para trás. E depois pensei - tanto drama, tanto vazio para quê? Ainda me falta perceber como é que se volta a subir para aquela parte da carrinha e, em último caso, se há mesmo volta. E às vezes sinto que a minha vida foi uma sucessão de acontecimentos irrelevantes. Noutros dias, penso que vivi de uma forma suficientemente intensa. Mas em quase todos sinto saudades daquela aura de irresponsabilidade, do poder conduzir sem destino sem me preocupar com o deixava para trás, dos dias de puro hedonismo. E de sentir que estava viva, única senhora do meu destino. Mas estas já são histórias que ficaram para contar.)

Abril 28, 2013

Ready for the weekend



Eu acho que sempre foi mais ou menos assim: andava sempre a pensar no fim de semana. Claro que antes a ideia era estar com os amigos, sair um bocado, dançar às vezes. Agora, a coisa tem um ritmo menos acelerado, mais caseiro mas o sentimento é o mesmo: passar a semana trabalhando arduamente, contando os dias que faltam para chegar a próxima Sexta à tarde. Temos passado muito tempo em casa, já que a Primavera está em pausa por estes lados e isso deixa-nos muito tempo livre para as coisas que gostamos de fazer - o pai do Vicente fotografa, a mãe dedica-se aos bolos. Pelo meio, há horas a brincar na carpete e fora dela, há uma casa para cuidar e tentar que seja mais nossa. Há mais tempo para cozinhar, há disposição para uma garrafa de vinho ou para um licor depois do jantar, há vontade de ver um filme ou dois. As semanas deviam ser ao contrário: dois dias a trabalhar e cinco a descansar...

Abril 22, 2013

Histórias tristes com gente dentro

Uma mulher espera o médico numa sala silenciosa, acompanhada por um estranho. Espera por uma ecografia que lhe mostre se o bebé está bem. Não fala a língua do país onde está nem nenhuma outra que a possa ajudar a comunicar com os outros. O estranho tenta traduzir-lhe as instruções do médico através de palavras soltas que repete articulada e calmamente. Às vezes ela percebe o que lhe dizem, outras não faz ideia do que se passa com o filho. Esperam os dois em silêncio, sem trocarem mais do que as palavras absolutamente necessárias. Este é o quarto filho dela mas o primeiro num país europeu, é difícil saber se alguma vez fez uma ecografia. Ao mesmo tempo, o marido atravessa a Europa em direcção ao primeiro país que o acolheu. Não tem o direito de ficar no mesmo país onde está toda a sua família e não lhe resta senão inventar alternativas. Um dia mais tarde, pede a um conhecido que ligue ao estranho que acompanhou a sua mulher. Falam os dois numa língua que lhe é estranha mas é o suficiente para que ele descanse ao saber que a mulher não está sozinha.

Noutra zona da cidade, uma família de onze pessoas vive numa só divisão. São nove crianças e os pais a dormirem em pouco mais de vinte metros quadrados. Fugiram do seu país, como tantas outras pessoas, sem se saber muito bem porquê. Perseguições políticas, religiosas ou étnicas - os motivos, no fundo, não são importantes. Esperam pacientemente que algum responsável político decida se o seu futuro passa pela liberdade num próspero país europeu ou se devem regressar ao pesadelo que tentaram deixar para trás. Uma equipa de estranhos tenta aliviar-lhes os obstáculos da integração e ajudar a estabelecer uma rotina quotidiana, especialmente importante para as crianças, para criar a ilusão de normalidade. Não podem trabalhar e devem viver com uma quantia irrisória que lhes é atribuída pelo estado mas têm um tecto e alguém que vai tentando tratar deles até que chegue o veredicto final.

Ouço estas e outras histórias diariamente da boca do meu herói. Somos filhos da última vaga de emigração mas não somos refugiados. Temos direitos e podemos circular livremente pela Europa. Podemos escolher e candidatar-nos a qualquer emprego. Não dependemos de uma decisão estatal nem de nenhuma comissão de avaliação incapaz de pesar e decidir na proporção dos dramas que lhe aterram no colo. Deixámos o nosso país para trás mas continuamos a ser mestres do nosso próprio destino. Ouvir falar desta gente é, às vezes, tão inspirador quanto profundamente triste. E faz-me sentir absolutamente fútil e superficial com as minhas angústias de primeiro mundo. Faltar-me-ia estômago para lidar com isto todos os dias e ver famílias inteiras serem deportadas para o sítio de onde tentaram fugir. Mas vivo ouvindo estas lições sobre solidão, coragem e solidariedade e sou feliz por ter escolhido um marido que vive para tentar fazer o Bem. Oxalá tenha sempre forças para aguentar estes nós na garganta e para ver além do superficial. Não se fazem muitas pessoas assim.

Abril 16, 2013

...

 
Já não sei quantas vezes mudei o início deste post e realmente nem sei como começar.
Este fim de semana ocorreu-me que não estava preparada para ter um filho. Que, apesar, de ter encontrado o melhor pai que podia, que apesar de ter a certeza de termos reunidos as condições afectivas e materiais para tomar esta decisão, eu não estava preparada para ter um filho. É uma conclusão alimentada por muita frustração, cansaço e desepero. É a conclusão de quem não sabe mais como educar e amar o seu filho de uma forma que o torne numa pessoa estável, tranquila e feliz. É a conclusão de quem procura respostas nas aflições de outros pais, nos conselhos de outras famílias mas nunca as poderá encontrar senão dentro de si.
Este fim de semana olhei muitas vezes para o meu filho e perguntei-me o que será que fiz mal nestes seus dois curtos anos de vida. Olhei para ele e comparei-o com a criança que eu imaginava que ele fosse, mesmo sabendo que ele não merece estas comparações e que essa ideia só está na minha cabeça. Ao mesmo tempo, tentei olhá-lo como um estranho olha para uma criança e consegui ver um miúdo cheio de vida, independente e destemido, cheio de vontade de abraçar o mundo inteiro. Debato-me constantemente com a forma como o vejo como mãe e com um olhar mais imparcial que me obrigo sempre a ter. Não quero desculpar-lhe tudo mas também não quero demonizá-lo e a linha entre estas duas maneiras de o olhar é demasiado ténue.
Este fim de semana, em que também trabalhei a partir de casa, o meu filho deixou-me à beira da exaustão e sem trunfos para fazê-lo entender o que é aceitável e o que não iremos tolerar no seu comportamento.  Não é que não lhe consigamos mostrar o que está errado no seu comportamento, simplesmente não conseguimos fazê-lo da maneira que tínhamos idealizado. A paciência, a tolerância e a calma, como outras coisas, esgotam-se. Às tantas, depois de tentar explicar-lhe tudo dando-lhe o exemplo, depois de falar calmamente e demonstrar-lhe o que estamos a querer dizer, a serenidade esgota-se. E no final do Domingo sentia-me como se a minha cabeça fosse do tamanho do Mundo, capaz de explodir a qualquer instante com tanto cansaço e desilusão. Desilusão comigo, claro, por não ter arranjado uma maneira de chegar até ele, por não ser eu exemplo suficiente que ele possa espelhar e repetir, por me sentir a falhar na missão mais importante da minha vida.
Há muito tempo que decidi deixar de ler histórias de vida perfeitas. Não posso lidar com a frustração de sentir-me incapaz de ser um modelo de pessoa, com um modelo de casa onde vivo com um modelo de família. Com filhos pequenos que não são menos que exemplares, adultos em ponto minúsculo com um sentido de timing e de responsabilidade desde o berço. Com mães de conjuntos imaculados, cabelo e unhas arranjadas, com tempo para brunchs, formações indispensáveis e dias passados na praia e ainda com tempo para tratar de uma casa e dos filhos. Não posso ler ouvir ver histórias destas sem me sentir um pouco mais miserável e duvidar das minhas capacidades de organização, de parentalidade, do meu sentido estético. Não é inveja, é simplesmente não entender o que é que me falta a mim para ter tempo para ter uma vida. E também saber que debaixo de tanta perfeição tem que haver alguma coisa que não está certa.
Ter um filho é mudar de estratégia constantemente, isso eu já sabia. Mas também é poder cometer erros que se vão reflectir para sempre na sua vida. Quero poder ter a certeza que estamos a criar um ser humano tolerante, consciente da sua liberdade, aberto ao mundo - só que nesta coisa da sua educação nunca há segundas oportunidades. Ou pelo menos é difícil desfazer o que já foi feito.
Mas depois acordei e era Segunda-feira. E, quando nos permitimos um espaço para respirar, olhar para trás e ver que nem tudo é negro, a coisa melhora. São lições atrás de lições, já sei. Tomara poder lembrar-me disto a toda a hora.

Abril 06, 2013

Volta Primavera, estás perdoada!


Eu não queria falar nisto, a sério que não. Mas são dias atrás de dias a acordar para temperaturas negativas, é o Sol que só se deixa ver de vez em quando, é a falta da vitamina D que nos ataca a todos. O Vicente até se tem aguentado neste Inverno, talvez por já ser maiorzinho, mas os grandes aqui de casa já tiveram que ficar em casa pelo menos uma vez para curar as gripalhadas. De verdade que não me lembro de ficar em casa doente em Portugal, só para tratar do miúdo e nada mais. 

Mas este ano está a ser demais: já vamos em Abril e visto-me como se fosse o pico do Inverno; o aquecimento central não pára de funcionar enquanto estamos em casa; há uma neblina que parece uma película que se colou definitivamente ao Luxemburgo e não deixa um raiozinho de Sol que seja chegar ao chão; sair da cama é uma valente tortura, apesar de os dias estarem mais claros. Há um ano atrás podiam não estar vinte graus e podia nem fazer Sol todos os dias mas este frio é que não estava. E hoje dei comigo a pensar: e agora, se resultado do fracasso das políticas ambientais, os meses de Inverno se estendessem por metade do ano e deixasse de existir o calor tal como o conhecemos? E se não houvesse mais tempo de praia, um bocadinho de pele bronzeada, as janelas de casa abertas para ouvir as cigarras cantar? Obriguei-me a parar de pensar nisto, claro está. E vou mas é tratar de espremer laranjas e encher a família de vitamina C para me esquecer da falta que me faz o Sol.

Abril 05, 2013

Ainda a Páscoa (um post atrasado)

Em Portugal nunca tínhamos ligado muito à Páscoa. Nunca fizemos nada com o Vicente: nunca nos tinha ocorrido esconder os ovos pela casa, nem pintá-los nem nada. A Páscoa era para mim sinónimo de costeletas de chibo panadas comidas em família, demasiadas amêndoas em casa, filmes bíblicos a metro em todos os canais de televisão.

É claro que a Páscoa em Portugal era sinónimo de muitos ovos de chocolate, aliás, chocolate em todas as suas formas, amêndoas em destaque nos supermercados mas aqui a coisa vai um bocadinho mais além. Além das guloseimas há muitos elementos de decoração à venda para enfeitar jardins e parapeitos de janela, há materiais para a caça aos ovos espalhados por todo o lado, há bolos em formato de cordeiro de Deus para aqueles com um sentido de humor retorcido e/ou os mais crentes. Há muitos coelhos, mas também muitos patos e pintainhos, muitos veados e muitas cenas na floresta. A nossa vizinha velhinha enfeitou a porta dela com uma cena destas feita exclusivamente em papel e era a coisa mais fofa que já vi à porta de uma casa por alturas da Páscoa. Vá, foi a primeira vez que vi uma porta decorada nesta altura - até aqui, era mesmo só no Natal.

Só que este ano foi um bocadinho diferente. Não houve chibo para ninguém e a família resumiu-se a nós os três e a mana que veio de Londres de propósito para nos visitar. Não vimos nenhum filme alusivo à época mas metemos mãos à obra para oferecer qualquer coisa ao Vicente. Peguei numa ideia que vi aqui e tratámos de lhe dar forma. Depois arranjámos uns bichinhos para juntar à colecção do Vicente e juntámos umas amêndoas. Ele gostou muito e nós ainda mais: a sensação de ver tudo acabado e depois ver a cara dele ao abrir são satisfação mais que suficiente! E o bom disto é que uma coisa simples de fazer, barata e rápida, sem exigir grande queda para os trabalhos manuais ;)