abril 22, 2015

Virar o jogo

Começar, como em tudo, é muito, muito difícil. Antes de mais, um disclaimer mais ou menos evidente: não procuro ser uma atleta de alta competição nem uma super modelo. Quero só ser mais saudável (e, claro, perder uns quilos no processo), acho que é um desejo simples e que resulta do senso comum.

Muitas vezes as pessoas confundem a licença de maternidade com um período de férias. Não trabalhamos fora de casa, é certo, mas temos um bebé para cuidar e isso a mim ocupa-me muitíssimo tempo. Nas primeiras duas semanas foi relativamente fácil mas a tarefa complicou-se desde então e a miúda exige-me muita atenção. Só esta manhã, por exemplo, foi andar com ela ao colo para trás e para a frente para acalmar até decidir sair um bocado de casa antes que desse em maluca. Tentar enxaixar exercício nestes primeiros meses é uma missão difícil mas não impossível. Vejo aquele video da mãe super-em-forma que faz exercício com o seu bebé em cima e só penso Agora experimenta a fazer isso com um bebé de dois meses com cólicas e que não pára de chorar, vá.

Estava fora de questão ir para um ginásio (já tentei demasiadas vezes para saber que não funciona) e ainda não dá para correr sozinha. A solução? Um programa de exercício que posso seguir sozinha em casa (poupo dinheiro, tempo e o desconforto dos balneários) e caminhadas com a miúda sempre que o tempo o permite. Era muito bom ter alguém por perto para corrigir a minha postura ou para me motivar mas por agora chega-me bem poder seguir um plano de exercícios durante cinco dias por semana, no conforto de casa e sentir que pelo menos me estou a mexer. Depois é só pegar no carrinho dela e andar um bocado aqui pelo bairro e já me sinto mais leve no final.

E a decisão lógica seguinte foi começar a comer melhor. Não se trata de nenhuma dieta, é apenas o que se designa de comer o mais clean possível: diminuir o consumo de carne e apostar noutras proteínas, escolher produtos frescos e da época para cozinhar, evitar ao máximo todos os alimentos processados. Há dias em que é mais difícil seguir os preceitos à regra: são dois filhos a precisarem de muita atenção, uma casa para gerir - nem sempre me apetece cozinhar e muito menos cozinhar tudo mas o que interessa é fazê-lo o maior número de vezes possível. O verdadeiro desafio é passar estes hábitos para a restante malta cá de casa, embora sejam incontestavelmente mais saudáveis.

Mesmo antes de ver quaisquer resultados, sinto-me bem e existe apenas um único motivo: a vida é minha e eu faço dela o que quiser. Poder tomar as rédeas com convicção e determinação, poder decidir o que é melhor para mim sem esperar pelos outros - poucas coisas sabem tão bem! E no fundo os resultados já aí estão: mais energia e aquele cansaço bom quando me vou deitar. Agora é bola para a frente e força de vontade para não furar os planos!

abril 17, 2015

A vida lá fora


O céu hoje acordou cinzento pela primeira vez em bastantes dias. É apenas um intervalo, segundo a meteorologia, que prevê o regresso do Sol para amanhã. Mas nem o cinzento consegue ofuscar o branco puro da árvore que está quase totalmente florida e a qual ainda nos falta identificar - somos novatos nestas coisas de quintais.

No chão, restam ainda as folhas que caíram no Outono passado, à espera que saibamos o que fazer com elas. Tenho visto alguns vizinhos a cuidar dos seus quintais e estou a tentar aprender pela observação antes de recorrer aos tutoriais que devem estar espalhados por aí. À esquerda, fica o quintal cuidado do nosso vizinho que partilha o apelido com a nossa rua e que gosta muito de cumprimentar o Vicente pela manhã. À direita, o estendal onde a nossa vizinha congolesa estende a roupa dos seus três filhos. No outro dia, apanhou-me a estender a roupa com os miúdos e desceu para se vir apresentar e conhecer-nos. Sou muito má com nomes mas sei que tem três filhos (rapaz de 25 anos e gémeos rapariga-rapaz de 15). Falou-me da viagem que fez no ano passado a Lisboa e de como comeu bem por lá. Concordámos as duas que é fácil fazer boa vida em Portugal quando se vive por estas bandas. A nossa vizinha de baixo juntou-se à conversa e percebi que fazem as duas exercício juntas quando começaram a brincar aos agachamentos. A senhora congolesa faz limpezas em lares de idosos e diz que já viu de tudo mas que teve uma surpresa (desagradável) na semana passada. A minha vizinha de baixo trabalhava numa pastelaria até ter um acidente de trabalho que a tem de baixa há vários meses. O que meia dúzia de minutos nos pode dizer sobre as pessoas...

À nossa frente, duas personagens: a velhinha que de vez em quando espreita à janela e usa a marquise apenas para passar a roupa a ferro e deixa-la bem estendida, pendurada em cruzetas; do seu lado esquerdo, o senhor que podemos ver a vestir-se todas as manhãs, pouco depois das sete, e que nunca abre ou fecha as persianas de casa. Há pássaros a pousarem na nossa varanda e a picarem um ou outro quintal, há esquilos de vez em quando a saltar de árvore em árvore à procura de qualquer coisa para comer. Estamos mais longe do percurso que os aviões fazem pouco antes de aterrar no Findel mas ainda os conseguimos ouvir a chegar. Aposto que mais umas semanas e vai começar a cheirar a sardinhas ou entremeada grelhada quando chegarem as sete da tarde. Nós havemos de procurar um grelhador maneirinho, uma mesinha para a varanda, umas cadeiras para o quintal e uma manta para deitar os miúdos. Nunca pude viver as traseiras de uma casa e ainda me estou a habituar a ter um espaço assim. Falta-nos um estendal e o tempo para tratar do pedaço de terra onde hei-de plantar as plantas comestíveis. No fim disto tudo, só nos ficará a faltar a companhia dos nossos para fazermos um beberete nos dias quentes!

abril 14, 2015

Também há Primavera a Norte!


É de caras: um céu azul faz muito mais por nós do que qualquer anti-depressivo artificial. Basta que o Sol entre pelas janelas pouco depois das seis da manhã e que o céu se mantenha azul durante todo o dia e sai meio mundo de casa para aproveitar.

O parque estava cheio de miúdos e pais que se dividiam entre escorregas, baloiços, bancos a entreter bebés mais pequenos ou simplesmente a conversar com outros pais. A língua que mais se ouvia era - surpresa! - o Português. Havia quem o falasse discretamente, outros gritavam-no para quem quisesse ouvir. Quanto mais tempo passamos aqui, mais fácil se torna saber quem é português só pelo aspecto. Nunca, mas nunca, falhamos!

As ruas da capital e os parques de estacionamento estavam sobrelotados. As gelatarias não tinham mãos a medir (com empregados - adivinhem! - portugueses!), todas as escadarias e bancos eram um pretexto para parar e absorver o Sol. Há árvores floridas por toda a parte, num espetáculo de cor que rivaliza apenas com o Outono. As varandas e terraços encheram-se de vida, com o solitário na companhia de um livro, até ao grupo de amigos simplesmente na conversa. Lembrámos-nos que precisamos de uma pequena mesa e cadeiras para a varanda, talvez umas espreguiçadeiras para o jardim. Tenho quatro pacotinhos de sementes de ervas comestíveis por plantar e finalmente nem preciso de vaso!

Durante as horas que passámos fora de casa, tudo parece mais simples, care free. A miúda chorou um bocadinho mas nada que um bocadinho de leite não consiga acalmar. Mesmo que os outros dias sejam mais pessimistas, mais negros, é vital que estes dias leves também vão aparecendo para que eu não me esqueça de como é realmente a vida lá fora.

abril 09, 2015

(um momento de catarse)

(melhores dias virão, repito comigo mesma)

As raras vezes em que me permito ler os blogues onde tudo é perfeito, onde os filhos são crianças perfeitas, onde as casas estão sempre limpas, organizadas e cheias de flores dão-me cabo da cabeça. Ou melhor, eu é que me dou cabo da cabeça porque não entendo onde é que eu estou a falhar.

Eu nunca fui uma rapariga de seguir as tendências, nunca usei maquilhagem e acho que não tenho nenhuma peça de bijuteria e, quanto mais tempo passa, mais me sinto uma freak no meio das outras mulheres que são o meu padrão de normalidade. Para piorar as coisas, desde a primeira gravidez que a minha auto-estima praticamente desapareceu e sou quase incapaz de olhar para mim como uma mulher (passo os dias a pensar que sou apenas uma mãe). Estava quase, quase a recuperar quando se anunciou a segunda gravidez. E voltou tudo à estaca zero.

Todos os dias me olho ao espelho com uma mistura de pena e espanto, porque as sequelas de dois filhos podiam ser muito mais visíveis mas há muito tempo que não reconheço o corpo que está diante de mim. Às vezes até me penteio de olhos fechados apenas porque não suporto olhar para mim. E o que realmente custa nisto tudo é que ninguém me pode ajudar. Ninguém a não ser eu, claro. E por muito que dê voltas à cabeça, por muito que leia ou me inspire nas histórias dos outros, por muito que pesquise, não estou a ser capaz de sair desta espiral de auto-desprezo. Para dizer a verdade, não é um sentimento de agora e sempre me senti tão longe dos padrões de beleza e de feminilidade das pessoas ditas normais mas com o tempo fui aprendendo a aceitar-me como sou. Só que não quero aceitar-me como sou agora, não posso. Mas todos os dias vou adiando um corte de cabelo pelo qual já desespero, os exercícios que toda a gente diz que se podem fazer em casa, uma pedicure, uma manicure, os números a descerem na balança, deitar fora a roupa que me faz sentir estranha. Sinto que me estou a adiar todos os dias mas às vezes é muito difícil não me sentir perdida num mundo de fraldas, sestas mal dormidas, dores de barriga, filhos que mordem a língua e caem e aproveitam todos os instantes para chamar a atenção, a casa que não se limpa a si mesma e a roupa que cresce num monte que espera aqueles momentos livres, um marido que também precisa de atenção. Às vezes, simplesmente parece que não há espaço para mim, nem um milímetro livre para eu apenas ser, quanto mais para me preocupar com as futilidades femininas. E pergunto-me todos os dias como raio me deixei chegar aqui.

Leio os blogues das pessoas perfeitas, daquelas que dizem que não há desculpas para não estarmos sempre no nosso melhor, que têm tempo e paciência para tratamentos de beleza, que correm e vão ao ginásio e que separam tão bem ser mãe de ser mulher e volto a pensar: que raio estou eu a fazer mal? Não sei onde ir buscar esse instinto de protecção da minha imagem, nem a força de vontade para sair da minha zona de conforto, nem a capacidade de organização de super-mulher. Se calhar estou a culpar-me demais, se calhar não estou a culpar-me o suficiente - é mesmo difícil para mim verbalizar em que é que estou a falhar. Gostava de não me sentir anulada como indivíduo, gostava de estar sempre impecável (versus pijama, cabelo apanhado e fralda ao ombro, ainda assim a miúda não vomite), gostava de me ver ao espelho sem este sentimento gigante de falhanço e espero que reconhecer tudo isto, dizê-lo em voz alta me possa ajudar a pegar nas rédeas outra vez em vez de me deixar conduzir. Faço figas mas preparo-me para uma viagem bem longa de volta aos dias em que tratava melhor dessa parte de mim.

março 30, 2015

Três-anos-três!

E foi assim que, enredados entre filhos e mudanças, passaram três anos desde que chegámos ao Luxemburgo. Três anos de alguma luta e sofrimento, de muitas saudades mas também de muita realização (pessoal e profissional), de melhoria de vida, de sensação de justiça. Todas as coisas de que não gosto no Luxemburgo parecem mesquinhas quando comparadas com as coisas boas que este país nos ofereceu.

Temos tantos exemplos da paz de espírito que é viver aqui: sermos justamente remunerados pelo nosso trabalho; todos os serviços públicos a que já recorremos funcionam impecavelmente e quase sem filas; os cuidados de saúde são comparticipados quase na sua totalidade; existem não só deveres mas direitos que são garantidos aos contribuintes; existe ainda uma dimensão humana com que podemos contar nos organismos públicos, bem como excepções às regras em nosso benefício, caso devidamente justificadas; os serviços que temos contratado até agora fazem-se pagar mas são excepcionalmente pontuais e eficazes, sem deixar espaço a equívocos; a escola pública é gratuita; as crianças crescem poliglotas, o que (espero) pode aumentar as suas hipóteses de vencerem no futuro; podemos escolher (de entre quatro) em que país mais compensa comprar qualquer produto e fazê-lo num espaço de menos de meia hora; a população é, no geral, bastante receptiva aos estrangeiros (mesmo que não quisessem, há mais de 150 nacionalidades a partilhar este espaço minúsculo); a rede de assistência a mães e crianças é exaustiva e gratuita; a localização é maravilhosa para quem gosta de estar em permanente contacto com a natureza; estamos suficientemente perto de outros países para viajar de carro e também se preferirmos o avião; existem ajudas efectivas a casais com filhos. De certeza existem muitos mais mas estes são os que me ocorrem agora mesmo.

Podem contra-argumentar com muitíssimas coisas que deixámos para trás em Portugal (família e tempo não contam...) mas vejo, especialmente agora que olho para trás, que estávamos cansados de viver num país onde nos são impostos deveres e onde todos os dias perdíamos direitos; onde, com o passar do tempo, se foi tornando evidente que cumprir não compensa; onde os ordenados são patéticos e insultuosos e onde se espera que se beije o chão da entidade patronal só porque temos a "sorte" de ter um emprego; onde os incentivos à natalidade são de tal maneira nulos que as famílias são obrigadas a fazer contas para saberem se podem ter mais filhos; onde se incentiva e promove a precariedade, sem que estes trabalhadores possam reclamar os seus direitos. Esta discussão já a tivemos muitas vezes, com muitas pessoas e não creio que haja quem tenha mais razão do que os outros: foi uma decisão pessoal, assim como é pessoal a decisão de ficar e remar contra a corrente. Não somos melhores nem mais espertos do que os outros - apenas fizemos o que servia para nós, com os resultados conhecidos. Não seria capaz de aconselhar alguém a emigrar ou a ficar em Portugal porque conheço bem os particulares duma decisão dessas. Mas nós estamos há três anos aqui e, tirando a dor de estar longe da família e o desconforto de viver quase sempre abaixo das temperaturas decentes, é muito bom e já nos levou a sítios (reais ou metafóricos) com os quais apenas poderíamos sonhar em Portugal.

Não sei, honestamente, quantos mais anos nos restam aqui: seguramente mais dois, o período de tempo em que somos obrigados a habitar esta casa por questões fiscais. Mais cinco? Outros dez? Vamos vendo e avaliando, conforme vamos vivendo. Para já, parece-me que isto não são só uns curtes - é uma relação séria, dure ela o que durar.

Zombie

O problema é simples: eu torno-me numa pessoa horrível quando não durmo. Há pessoas que vivem bem com poucas horas de sono diárias e bem, mesmo eu não preciso de mais de cinco ou seis para poder ser um adulto funcional. O que se passa é que ando muito longe desse número de horas dormido por noite. Eu não me importo de acordar para amamentar (facilmente volto a dormir) mas ter que ficar horas acordada a consolar um ser pequenino com (o que parecem ser) terríveis dores de barriga mexe comigo.

Tomo a minha dose de vitaminas diárias, eliminei o leite e derivados da alimentação (a ver se o problema dela é esse, era grande sorte!), tento comer mais alimentos frescos e beber quantidades industriais de chá de funcho. Não é a falta de leite que me preocupa mas sim a qualidade ou o que ele está a fazer ao sistema digestivo da pequena. Depois, acresce aos factos que ela também não dorme grandes sestas durante o dia (exactamente pelas mesmas razões), o que não me deixa exactamente descansar. Isto é a repetição do que passei na primeira vez, se bem que ela chora muito menos mas com a agravante de agora já ter outro filho ao meu cuidado. Espero que ele um dia possa perceber como é difícil dar-lhe toda a atenção do mundo e fazer o mesmo à irmã. Simultaneamente. E sendo que ela ultimamente tem tendência a ganhar porque está fisicamente debilitada.

Há momentos, durante a noite ou quando começa a nascer o dia, em que sinto que vou simplesmente cair para o lado e em que sinto o cansaço na totalidade do meu corpo, como se tivesse corrido meia maratona no dia anterior. Às vezes estou a andar no quarto com ela nos braços, madrugada dentro, a tentar que ela não acorde o resto da casa, e sinto-me a pessoa mais falhada, cansada e só do mundo. Felizmente que existe a cura para estes momentos: quando começo a levantar as persianas e percebo que sobrevivi a mais um dia e uma noite em claro. Na minha cabeça, muitas vezes já estou em Julho, está todo o calor a que posso aspirar aqui no Luxemburgo, a miúda já tem cinco meses e tudo já estabilizou. É, como a porcaria de Primavera que chegou, Sol de pouca dura e volto rapidamente à realidade dos dias mais frios do que o Inverno que passou e do pequenino ser que me tem como refém. Dias melhores virão, com toda a certeza, mas até lá resta-me sentir-me miserável por mais uns longos meses.

março 18, 2015

Desse buraco escuro e profundo chamado pós-parto

Quase três semanas depois do nascimento da miúda e aqui me encontro, nesta montanha russa de emoções que já conhecia e já esperava mas para a qual afinal não estava assim tão preparada como imaginava. Começo a chorar com as coisas mais idiotas: hoje de manhã, apenas porque me lembrei que ainda não me ajeito a montar o carrinho da miúda e hei-de precisar dele muitas vezes para sairmos. Ainda bem que não temos televisão - sempre me poupo às imagens das desgraças que vão pelo mundo e que de certeza me iriam criar um nó do tamanho do Mundo na garganta.

As minhas capacidades de concentração estão a voltar mas muito, muito lentamente. Tenho um livro parado a meio porque não consigo absorver aquela quantidade de informação. Sou, no entanto, capaz de ler sobre viagens e hoteis e spas e por isso a Condé Nast Traveller tem sido a minha melhor amiga nos (poucos) tempos que tenho tido livres. Consegui dormir três sestas até agora e isso não me tem ajudado muito, especialmente se tivermos em conta que grande parte das noites também é passada em claro. A miúda chora muito pouco se a comparar com o irmão mas tem um sistema digestivo que não a deixa descansar (falta muito até isto tudo regularizar? Alguém que me diga que sim porque eu começo a desanimar...). De resto, é uma velhinha desdentada, a olhar-nos muito séria com uns olhos que podem vir a ser como os do irmão, às vezes cheia de lua e de gargalhadas que me assustam. Eu pensava que ela é que ia ser difícil mas como me enganei: o irmão é que tem dado pano para mangas. Com a pequena, ele é amoroso e quer beijá-la e pegar-lhe a toda a hora, embora esteja um pouco decepcionado com o facto de não poderem ainda brincar os dois. Mas connosco... O verdadeiro problema está aí. As birras aumentaram exponencialmente de dimensão, a agressividade também aumentou, embora no final ele perceba o que fez e volte ao estado amoroso primordial. O que me deixa triste é que o cansaço às vezes não nos deixa ser muito tolerantes com ele e acabamos frustrados muito antes do que seria recomendável. Esforçamo-nos para que assim não seja mas é muito difícil argumentar calmamente com um miúdo de quatro anos que esperneia e grita com toda a raiva que consegue.

Estes últimos dez dias tivemos a companhia e a ajuda dos nossos pais, que praticamente vieram acabar de nos montar a casa. Sem eles, muitas coisas iriam ficar esquecidas tempo demais mas eles fizeram questão de não deixar nada por fazer. Tomaram conta do neto mais velho, conheceram e encantaram-se com a mais pequena. Não foi fácil, a convivência dos sete na mesma casa durante este tempo: cada um tem as suas maneiras de fazer e de pensar, todos temos muitas opiniões. Mas ontem, enquanto me despedia deles, bateu-me a tristeza de me aperceber que os miúdos voltam a estar longe deles por tempo indeterminado e que ter companhia, especialmente neste período, é muito bom. E então o peso das nossas escolhas atinge-me outra vez em cheio - é que, com o tempo, vamo-nos esquecendo do que significa ter escolhido estar aqui e às vezes é assim que nos lembramos. E então só me resta esperar que o Sol continue a aparecer todas as manhãs, que a Primavera substitua, mesmo que lentamente, o escuro do Inverno, que eu possa ter tempo para parar e pensar que sobrevivi uma vez. Esta vai ser só mais outra.

março 05, 2015

A doçura dos primeiros dias (e o pesadelo das primeiras noites...)

Ah, as maravilhas de ser mãe pela segunda vez! Estar pronta para mais um parto, saber exactamente a que corresponde cada tipo de choro, compreender o sono do bebé e dominar a amamentação, aproveitar bem os períodos de descanso.

Não, na verdade quase nada disto se aplica à criança que nos nasceu faz hoje uma semana. Estava pronta para o parto, sim, mas acho que no fundo nunca esperei que não envolvesse uma anestesia. Eu tinha dito à parteira quando fomos preparar o plano de parto que gostava que fosse o mais natural possível mas queria anestesia assim que estivesse a sofrer muito. O que se revelou impossível mas a natureza sabe perfeitamente o que faz e eu devia ter encarado mais naturalmente a própria ideia do parto natural. Vejo aqueles videos de mulheres que têm os filhos em casa e da paz e serenidade com que aceitam as contracções e penso: elas são animais domésticos, eu sou um bicho do mato porque não conseguia respirar fundo e aceitar - só gritar e dizer que não.

Tenho um bom primeiro exemplo no nosso filho: uma criança muito doce e sossegada nos primeiros dias e depois um desastre para dormir quase até aos três anos! A amamentação custou-me horrores durante tempo demais mas finalmente acabou por estabilizar. Ele dormia muito pouco e eu pouco podia aproveitar para dormir. Andava completamente exausta e sem saber como voltar a trazer a cabeça à tona.

Resolvi que não faria comparações, a não ser para me preparar o melhor que pudesse para a Amália. Decidi que não vou catalogá-la de calma ou agitada, que não vou dissecar as coisas se ela dormir bem ou mal, que não vale a pena perguntar porquê. Ela é outra pessoa, provavelmente mais ou menos agitada que o irmão, chorando mais ou um bocadinho menos - cabe-me aceitá-la exactamente como nos chegou ao mundo. Com o Vicente, tentei racionalizar muito as coisas e tentar entender porquê acontecia o que acontecia com ele, esquecendo-me do principal: ele era uma pessoa nova, com o seu jeito de ser, largado num mundo que não conhecia, tentando adaptar-se o melhor que podia. Com ela, já o sei e consigo aproveitar melhor os períodos de calma durante o dia para tudo o que consigo encaixar lá (mini sestas incluídas). 

Ainda é demasiado cedo para avaliar-me como mãe, agora de um segundo bebé, mas sei com toda a certeza que sou uma mãe muito mais competente e armada para abraçar a dureza que são os primeiros meses. Com um amor gigante pelos meus dois filhos e um sentimento de culpa para com o Vicente que inevitavelmente cresce sempre que me sobem as hormonas à cabeça. Esforçamo-nos para que entenda que nestes primeiros tempos precisamos de um bocadinho de tempo para tratar da irmã, envolvendo-o nas coisas também mas fico sempre com a sensação de que se sente triste e à parte. Ela veio, afinal de contas, roubar-lhe o lugar mas nunca precisarão de o disputar porque são tudo o que nós amamos com mais força. E agora, com licença, que a roupa não se estende sozinha. Tomara ter tido este ânimo quando ele nasceu, uma ponta de vitalidade para continuar a viver o dia a dia como antes mas não é tarde agora!

fevereiro 26, 2015

Amália

O teu avô V. tinha razão quando disse que havias de chegar com a mudança de lua. Sem que nada o pudesse prever, ontem decidiste que era hora de nos vires conhecer para meu alívio e nossa alegria!

Eu sabia que os segundos eram mais rápidos mas não contava com isto: contracções a começarem lentas perto da uma da manhã, a deixarem-me de rastos perto das quatro, a bolsa de águas que pude sentir rebentar. Fomos os três (tu ainda na minha barriga) ensonados e cansados para o hospital. O teu pai tinha instruções para não falar comigo, o teu irmão foi percebendo pelo caminho. Foram os dez minutos mais longos da minha vida, já perdida na dimensão infinita da dor que não podemos controlar, só esperar que passe. No hospital, o silêncio e a penumbra, nenhuma sala de parto ocupada sem ser a nossa. As parteiras ajudaram-me como podiam a libertar-me da roupa e a fazer as primeiras medições. Dilatação mais que suficiente quando entrei às 4:50 da madrugada. Ao teu pai e o teu irmão foi pedido que voltassem para casa: seria um parto curto mas não se sabia exactamente quão curto. Eles despediram-se e voltaram.

Uma das parteiras informa-me que sem análises de sangue recentes não podia passar já à epidural e que teria de esperar pela toma de sangue que acabara de me fazer. Provavelmente não ia ter tempo, disse ela. Não pode ser, rugi eu como um animal acossado, um rugido que subiu do mais primitivo de mim, ao mesmo tempo que lhe tentava explicar em Francês que não, eu não ia conseguir sem anestesia. De súbito, a vontade de fazer força, a qual foi incentivada por ela com todo o entusiasmo, ciente de que não teria tempo para mais nada. Um, dois, três puxões e nasces tu, Amália, frágil e de pulmão aberto, talvez assustada com a velocidade das coisas. Eu sem acreditar que tinha conseguido, a parteira a assegurar-me que sim e a dizer-me Olhe-a aqui, olhe-a aqui, mãe corajosa! Afinal, tu estavas mesmo lá.

Revejo tudo o resto, todas as horas que nos trouxeram até aqui debaixo de um véu incrível de tranquilidade e muito silêncio. Como um bebé normal, alternas os sonos curtos com a fome e com a falta que te faz o útero aconchegado e quente da mãe. És tão mais pequena que o teu irmão, que não arredou pé de ti quando te veio conhecer. Chorou quando te ouviu chorar pela primeira vez, por pura empatia e algum desespero inocente de quem ouve o bebé chorar pela primeira vez. Ele adora-te e eu não podia ficar mais contente com essa reacção, que - quero acreditar- ajudámos a preparar. O teu pai adora-te também, ainda mais por vires refazer o nosso equilíbrio e por ter alguém que o vai seguir com paixão.

E nós? Bem, a nossa história já vai longa. Eu fui o teu colo desde o dia um e continuarei a sê-lo até que possa. Aliviada pela gravidez ter finalmente chegado ao fim, resta-me apenas decorar todos os teus pormenores e maravilhar-me uma vez mais com a lotaria que é criar um ser humano que é (aparentemente e até agora) perfeitinho. Aceito-te como o nosso segundo milagre, agradecendo à Natureza a tua chegada espontânea, natural e livre de ansiedade. Que as aventuras a quatro comecem de seguida!


fevereiro 12, 2015

Pronto, já chega. A sério, podes sair.

Eu cá, apesar de ainda não ter chegado às 37 semanas de gravidez, já não estou a achar graça nenhuma a isto. Primeiro, foram seis semanas de náuseas intensas e incapacitantes que me deixaram estendida no sofá sem vontade de fazer coisas, tratar de mim e dos miúdos, viver. Depois seguiu-se um, dois meses de tréguas, aquele pico de energia e brilho que vem com o segundo trimestre, em que tudo nos parece possível e insuportavelmente belo. E depois outra vez um golpe: síndrome sacro-ilíaco all the way até ao dia de hoje, a fazer-me sentir que, mais cedo ou mais tarde, as minhas pernas se separariam definitivamente das ancas, a fazer-me chorar de dor apenas de me levantar da cama. Depois o peso que não ajuda nada, a miúda que me faz perder o ar por dá cá aquela palha, as mudanças a descer de um terceiro andar para subir a um primeiro carregando a tralha que se acumula em três anos de vida, o sono que já não colabora - em suma, o cansaço já substituiu a maravilha de me sentir grávida.

Por isso, não desejando nenhuma desgraça nem que a miúda venha incompleta, eu digo que por mim ela podia sair já. Tipo, daqui a três ou quatro horas. E de preferência bem depressa, que seguir instruções durante o parto numa língua estrangeira não deve ser pêra doce. Vamos lá, miúda! O teu irmão canta-te músicas que inventa na hora e que só fazem sentido na cabeça dele; o teu pai arrepia-se com os teus movimentos na barriga; os teus avós querem chegar a tempo de te conhecer. E eu? Bem, eu sinto-te minha cúmplice, minha companheira de aventuras, tens-te aguentado tão bem com tanto esforço que fiz, com os voos em que quase tinha um ataque de pânico mas estou cansada, Amália. Por isso, quando quiseres aparecer, quando achares que podes trocar esse quentinho pelo quentinho dos braços que te esperam cá fora, força nisso. Ai não, espera, quem faz força sou eu. Mas vá, vem daí conhecer-nos. Naturalmente ou com ajuda mas não demores.

fevereiro 11, 2015

A meio gás

Uma das coisas mais difíceis mas mais apaixonantes de mudar de casa é criar novas rotinas. Já passou uma semana desde que estamos definitivamente instalados (mesmo que o nível de caos, desarrumação e lixo tenham atingido quantidades record) mas as coisas ainda estão a demorar a acontecer. Ainda é difícil saber onde está aquele prato ou onde guardei o esparguete, ainda estamos a tentar decidir se os móveis ficam melhores encostados à direita ou à esquerda, ainda lutamos pelos nossos rituais de volta. As divisões da casa já se vão parecendo mais conosco e menos com o apartamento vazio e frio que visitámos pela primeira vez no final de Outubro.

Uma das melhores coisas desta mudança é a localização. Embora não tenhamos mudado de bairro (essa era uma condição essencial para nós), deslocámo-nos mais para o seu interior, o que nos garante mais períodos de silêncio e estacionamento sempre disponível (ainda estamos para utilizar a garagem). As janelas são gigantes (ainda estou para perceber se os cortinados ditos normais nos vão servir) e deixam entrar toda a luz que precisamos neste país cinzento. O nosso nome está já provisoriamente na porta e no correio e já recebemos corresponência aqui, o que significa que as coisas estão a andar. Mas ainda estamos a tentar perceber quem mais devemos avisar desta mudança (acabei de me lembrar de mais duas ou três alterações a fazer) e imagino que isto ainda vá durar uns tempos.

Depois, veio uma mudança dentro da mudança e tem também muitíssimo impacto: deixámos finalmente de ter televisão. Não o aparelho em si, que continua de boa saúde na nossa sala, mas não temos acesso a nenhum canal (português ou não) de televisão. Era uma coisa que já tínhamos discutido há algum tempo e que permite, além de poupar alguns trocos, usar o nosso tempo de maneira muito mais útil e consciente (ou assim esperamos). Antes, e por uma pura questão de hábito, ligávamos a televisão assim que chegávamos a casa e muitas vezes estávamos à sua frente, comando na mão, sem estarmos verdadeiramente interessados nela mas presos mesmo assim. O miúdo ainda se chateou porque gostava dos canais de desenhos animados mas agora conseguimos que ele brinque mais e também estar mais perto dele ao mesmo tempo, sem a porcaria da televisão a distrair. Confesso que sinto falta de ver programas de culinária o dia TODO mas também pouco tempo tenho tido para parar no sofá.

Quanto a vizinhos, ainda tudo tranquilo. Em baixo, uma família de cabo-verdeanos, cujo número exacto ainda não consegui determinar. O alvoroço às vezes é enorme, muitas entradas e saídas, alguma música africana em decibéis pouco recomendáveis, mas tudo dentro de horas aceitáveis. Num dos lados, um casal de idosos cem por cento luxemburgês, do outro um senhor luxemburguês casado com uma senhora congolesa. Nas nossas traseiras, um senhor que se passeia todas as manhãs pelo seu quarto de cuecas (trusses é mais a palavra certa) e nos faz rir. Jusqu'ici tout va bien.

fevereiro 03, 2015

Nick

Talvez seja isto que significa crescer: o luxo de ter tempo e poder pensar, o prazer de dar segundas e terceiras oportunidades, ordenar e invocar as memórias que fazem de nós o que somos agora, neste preciso instante. Às vezes, sinto que me enganei sobre alguém ou sobre qualquer coisa, muito provavelmente resultado de um juízo apressado já antigo, e esse momento em que aceito o meu erro é uma satisfação em si mesmo, é uma vitória de uma certa lucidez sobre o pensamento que escapa à velocidade da luz e se instala como verdade absoluta.

Fatos de corte impecável mas antigo, os cachuchos de ouro a passearem-se sobre as teclas de um piano mais ou menos desafinado. O homem esguio que se passeia entre as sombras, que se ri de si mesmo, que procura nunca perder a memória. Os cais de Brighton e a Opera de Sidney, a mulher-musa que convoca todos os símbolos sexuais que antes não passavam de ficção, um mundo para escapar a este mundo. A escrita em golfadas, os cadernos riscados, as páginas fotocopiadas em estúdio, o tempo controlado pelos estados de alma. Uma árvore de galhos gigantes no meio de uma tempestade, como o descrevem a certa altura. Uma inesperada e insuspeita fonte de inspiração.


fevereiro 02, 2015

Dizer adeus


Com muito alívio, depois de muito esforço escadas acima e abaixo, ontem deixámos finalmente aquela que foi a nossa primeira casa no Luxemburgo. Não foi uma despedida especialmente emocional (pelo menos para mim) porque a única coisa que queria era ocupar-me em exclusivo da casa que é agora nossa, sem ter que me dividir entre limpezas e arrumações nas duas.

Mesmo assim, ver a casa vazia levou-me de volta ao dia em que aqui cheguei, depois de um dia e meio de caminho com uma carrinha Mégane (que já ia dando as últimas sem sabermos) completamente carregada com o que decidimos ser o essencial para recomeçar. Foram dois mil quilómetros feitos com um bom amigo que se ofereceu para me acompanhar nesta aventura, sem saber muito bem o que me esperava mas certa de que, fosse o que fosse, íamos com vontade de pôr mãos à obra. Depois de um mês longe do meu amor, depois de um mês em que o miúdo, na altura com quase um ano e meio, pouco reagia à voz do pai tão longe, chegar ao nosso apartamento era bastante mais que um alívio: era a certeza que as coisas se estavam finalmente a recompor.

Lembro-me de pensar que as fotografias que tinha visto não lhe faziam justiça: era maior e mais aconchegador do que o anúncio fazia crer. Tinha aquele charme das janelas que deixavam olhar o céu, a varanda que nunca chegámos a usar muito, tudo o que precisávamos para começar de novo. E foi exactamente isso que fizemos. É tão difícil conseguir uma casa (decente, num sítio decente, com uma renda decente) no Luxemburgo! Há quem não goste de alugar a estrangeiros, há quem não queira crianças como inquilinos, há quem simplesmente peça um valor irreal por um espaço exíguo - as condições multiplicam-se e complicam-se, acima de tudo. Por isso, conseguir aquela casa (naquela sítio, por aquele preço) pareceu-me sempre um pouco um milagre ou, pelo menos, um belo golpe de sorte que guardámos durante três anos mas do qual tinha chegado a hora de nos despedirmos.

Repito que saímos com o alívio de quem encontrou finalmente um sítio ao qual chamar seu. Aprendemos, à força, que aquele mito da mudança fácil porque afinal nem temos muitas coisas é mesmo só isso - um mito - e não quero mudar-me nunca mais dos próximos vinte anos. Não nos mudámos para muito longe (na verdade, apenas algumas ruas de distância), por isso não sentiremos propriamente saudades dos três anos que passámos ali. O vizinho de baixo vai certamente festejar a nossa saída (uma criança a brincar normalmente às onze horas da manhã de um Domingo era coisa para o incomodar...), as nossas vizinhas velhinhas vão sentir saudades do Vicente e eu vou recordar com serenidade os nossos vizinhos cem por cento luxemburgueses. Que as novas inquilinas façam bom proveito! Nós cá vamos continuando a dar um pouco de ordem ao caos que é despejar uma vida de uma casa para a outra. Com a vantagem que desta é que é :)

janeiro 29, 2015

[quase]

Confesso que neste momento não sei em que estádio da exaustão me encontro. Dez dias desde que escrevi a última vez e ainda não acabámos a mudança! E se pensar que só já temos dois dias até ao final do mês, então só me apetece chorar muito.

O primeiro problema desta mudança é que não planeámos nada. Não organizámos caixas, não criámos etiquetas, não fizemos planos. Tivemos que nos dividir entre limpar e mobilar a casa nova (que longe ainda estamos do fim!) e desmobilar e limpar a casa antiga. Lembro-me quando viemos para o Luxemburgo e de como fomos organizados, tudo bem empacotado e sinalizado, a mala da nossa carrinha incrivelmente arrumada. E agora isto... enfim. Tivemos quatro braços amigos neste fim de semana que basicamente nos fizeram quase a mudança toda (tendo em conta que carregaram os maiores pesos) e sentimo-nos incrivelmente sortudos em termos este amigos para ajudar. Não é mesmo para todos!

O segundo problema desta mudança é a saúde dos dois adultos que se mudam: eu, grávida de oito meses, incapaz de carregar grandes pesos, sem fôlego com meia dúzia de degraus (raios partam este antigo terceiro andar, olá baixinho primeiro andar!), cheia de dores nos rins e nas costas e bacia - podre, portanto; o marido, às voltas com um problema crónico nas costas que nem a fisioterapia tem resolvido, sofrendo tanto como eu. Em resumo, duas almas a quem a idade faz questão de lembrar que as coisas já não são como antes.

O terceiro problema desta mudança é o tempo. Nunca tinha pensado nisso mas mudarmo-nos enquanto está a nevar é uma porcaria e o mesmo se passa com a chuva. Não basta já a enormidade de cartão e plásticos que temos espalhados pela casa, ainda há que acrescentar os pés que chegam encharcados da rua (à conta disto, já enfiei um par de botas no lixo), o sal que se espalha por toda a casa e o exercício de equilibrismo que é carregar com sacos, caixotes e móveis pelo gelo. Depois as casas estão geladas e é preciso aquecer primeiro antes de as mãos conseguirem fazer qualquer movimento que seja. Para a próxima, ou contratamos alguém (que se lixe o dinheiro e vivam as nossas costas!) ou só nos aventuramos no Verão.

Ontem foi a primeira vez que dormimos na nossa casa, mesmo no meio do caos, dos móveis por montar, do cheiro a Ikea. Todos dormimos bem, sem estranhar os novos quartos, as novas camas, os diferentes ruídos. E hoje acordámos e tomámos o pequeno-almoço enquanto olhávamos para o jardim cheio de neve. Nem tudo é mau e eu vejo todos os dias a nossa casa a tomar forma debaixo das minhas mãos, que procuram os sítios certos para as nossas coisas, que carregam cartão e mais cartão para a garagem, que esfregam todas as superficies que se deixam esfregar. Estão a ser as duas semanas mais cansativas da minha vida mas prometi a mim mesma que quando isto acabar não vou sair do sofá até à gaiata nascer. A ver se consigo que não venha antes do tempo...

janeiro 19, 2015

Déménager


A minha primeira reacção foi muito simples: nem pensar! Mudar de casa e principalmente comprar uma casa pareciam-me duas ideias absurdas e assustadoras, francamente. A primeira coisa que me ocorreu foi Vou ficar aqui presa para sempre. e confesso que acho que devo ter chorado só de pensar nisso. Era um compromisso demasiado sério e obrigava-nos a considerar continuar aqui sem data de regresso.

Mas depois vieram os outros argumentos. Primeiro, uma filha. Acho que não há argumento mais forte do que a família que está a crescer, obrigando-nos a rever o espaço que temos e a decidir se podemos continuar assim ou se precisamos de mais. Depois, o mercado imobiliário do Luxemburgo, que é um caso sério e que nos fez encontrar um duplex a um preço razoável exactamente onde queríamos viver e que podemos vender com alguma margem de lucro, se necessário for. Depois também apareceu o senhorio, regressado do Brasil, sem saber o que ia fazer no futuro e sem grande vontade de nos arranjar mais arrumação aqui em casa (mas impecável em todas as melhorias que lhe fomos propondo durante estes quases três anos). E finalmente a ideia de ter uma casa grande, com uma garagem, uma cave e,essa é que é essa!, um pequeno jardim!

Vi este apartamento num site imobiliário mas não acho que andasse verdadeiramente à procura. Mas o que é certo é que as imagens não me saíam da cabeça e nem sequer conhecia a sua composição total. Dia após dia, via-me a cozinhar naquela cozinha cheia de luz e imaginava um quarto sem a tralha que hoje temos aqui e, estranhamente, sentia-me em casa. Não consigo realmente explicar a sensação de ver apenas imagens e sentir que era o apartamento perfeito para nós. Resolvemos marcar uma visita. Numa tarde escura, visitámos o apartamento e tive vontade de dizer que ficávamos com ele naquele momento. Não vimos mais nenhum nem procurámos mais: sabíamos que tínhamos encontrado uma pérola e decidimos avançar.

Bancos, agências imobiliárias; fotocópias, projectos de compra; muitas contas feitas, muitos cenários experimentados, todos os dias a pensar no raio do apartamento. Tudo entregue e as noites sem dormir a pensar que o banco não nos aceitava o empréstimo. Numa semana, o banco aceitou! Respirei de alívio e tratámos de garantir que mais ninguém estava na luta pela casa. Mais noites em claro à espera da escritura que nunca mais era marcada e os dias a pensar no raio do apartamento. Até à semana passada, em que passámos a ser donos do único apartamento que vimos mas que era e é tudo o que nós podíamos desejar. Tem um pedaço de relva e um cerejeira e podemos fazer barbecue no (inexistente) Verão e o miúdo pode correr lá um bocado e eu posso sentar-me lá com a miúda quando o tempo melhorar, a ler e a ela a apanhar ar! Tem espaço para arrumar tudo o que acumulámos e muito mais! Tem espaço para receber visitas e para poder ter louça bonita e para ter até um escritório! 

Podia ficar horas nisto mas tenho as costas partidas de uma mudança que vai ser longa e lenta, ou não estivesse eu grávida de trinta e três semanas. Entre limpar aqui e ali e ir mudando a tralha aos soluços, têm sido dias difíceis. As costas não aguentam mas eu não desisto e vou fazendo devagarinho. Neste momento, tenho o caos dos dois lados mas esta semana (com ajuda de bons amigos) espero que possamos pôr um bocadinho de ordem nisto. E daqui a duas semanas talvez eu possa já descansar na casa mais bonita e sossegada, ao mesmo tempo que a miúda descansa aqui no seu T0 cada vez mais apertado. Desejem-nos sorte e saúde para podermos trabalhar, que é o que é preciso!