maio 31, 2016

Falar menos e melhor

O meu desencanto crescente com as redes sociais levou-me recentemente a concluir que tudo o que eu quero ser, neste momento, é neutra. Por um lado, temos as pessoas que se indignam com as coisas mais absurdas (José Cid e Trás-os-Montes, Henrique Raposo e o Alentejo, o gorila abatido para salvar uma criança... and so on, and so on), partindo mesmo para os insultos e até para as ameaças de ofensas corporais. Parece que vivem para estes momentos, para cuspir todo o fel que vão acumulando sabe-se lá como, para demonstrar uma superioridade virtual sem qualquer valor, para exorcizarem os demónios do seu quotidiano. Imagino a raiva que lhes corre nas veias enquanto escrevem os comentários agressivos, desprovidos de qualquer bom senso, convencidos de que agora vale tudo e tudo implica ameaçar de morte até a família dos implicados e todo o tipo de impropérios em nome da liberdade de expressão. Não há qualquer discussão construtiva, pensada e repensada, não existe consideração pelos interlocutores, não há civismo nem respeito pela ortografia: há apenas a agressão gratuita, o sangue que ferve por tudo e por nada, o tempo perdido com fait divers, enquanto o Mundo continua a acontecer lá fora. Toda a gente sabe que as caixas de comentários internet fora são um caso de estudo, tal é o tamanho do ódio, do desprezo e da falta de empatia de quem por lá paira. Muitas vezes, preciso de deixar de ler comentários para acabar com o mal-estar que a falta de humanidade me provoca.

Mas também há o lado oposto, o lados dos yes-men e yes-women. Aquelas pessoas que concordam com tudo e que precisam comentar a dizer que têm a mesma peça de roupa ou que já foram ao mesmo restaurante, como se isso fosse importante para a sua validação. Quero acreditar que não escrevo para gerar esse tipo de consenso oco, fabricado - antes, quero apenas partilhar ideias, materializar o que me muitas vezes me atormenta/alegra, cristalizar momentos tão diversos da minha vida. De qualquer maneira, não tenho esse público e não sou esse modelo de pessoa. E não aguento tanta gente a perguntar de onde é o casaco e onde é que se comprou a louça e onde é que podem encontrar o mesmo papel de parede. Parece que hoje algumas pessoas perderam a capacidade de pensar por si, de partir à descoberta das coisas que os fazem felizes, de procurar lojas de decoração e vagas de emprego, de arriscarem a ter gosto pessoal.

Tenho cada vez menos vontade de opinar sobre qualquer coisa. Por um lado, não quero reagir intempestivamente, acusar e esquecer-me de que nem sempre conhecemos as razões dos outros. Quero pensar e ponderar as minhas reacções, quero trabalhar na minha empatia e lembrar-me que um dia também me pode acontecer a mim. Não quero ser injusta nem arrastar outras pessoas para o lamaçal das críticas sem fundamento. Também não quero saber onde compraram a saia, a mala e o caderno - posso apreciá-los, elogiá-los mas não preciso que sejam meus. É claro que meço as minhas palavras e muitas vezes não escrevo tão livremente porque sei que há um público que me lê mas também não quero ser escrava desse público. Não quero ser exemplo para ninguém (bem, talvez para os meus filhos) nem quero precisar dos outros para me sentir válida. Sinto-me num momento importante das redes sociais, num cruzamento em que devo escolher entre partilhar abertamente e limitar essa partilha e cada vez pendo mais para esse encerramento sobre mim mesma. Porque estou cansada dos justiceiros sociais que não lutam pelas causas fora da internet e se indignam azedos, com a sua falta de humor. E também dos seguidores cegos, para quem um estranho é um modelo de virtudes e de perfeição. Dá para criarmos a Suiça da internet?

maio 30, 2016

Luxemburgo-Lisboa-Portalegre-Lisboa-Luxemburgo


É muito mais fácil queixarmo-nos, eu sei. É tão mais fácil sucumbir à crítica pela crítica, deixarmo-nos afogar num mar de pessimismo, esquecimento e ingratidão. Deixei de comer na cozinha com outros colegas exactamente para não ser arrastada para esta espiral de queixumes em que se tinham tornado os meus almoços. Não sou pela corrente de optimismo e crença profunda no karma mas a experiência tem-me ensinado que mais vale apreciarmos o que temos, mudar quando não nos sentimos confortáveis, agir sempre que for necessário - em vez de chorar a falta de mudança. Mesmo este ano, quando estive menos certa daquilo que estava a fazer, comecei a mover-me para encontrar uma alternativa que, no fim, não foi necessária. Mas procurá-la era fundamental para sentir que estou no controlo da minha vida. Não sou cega nem sou tão facilmente influenciável que chegue a pensar que trabalho na empresa ideal. 

Trabalho aqui há quase quatro anos e vi muitas coisas a acontecerem, outras tantas a mudarem - muitas drasticamente. Pessoas entraram e saíram, o negócio deu uma cambalhota ou duas mas a essência dos seus princípios e, acima de tudo, a competência e humanidade dos seus funcionários raramente foram abalados. Muitas vezes desejei não trabalhar com certas pessoas ou achei que a estratégia não seria a mais acertada mas se fiquei, foi porque acredito neste projecto e porque, uns dias mais, noutros menos, sinto-me em casa. Posso vir trabalhar descansada porque o ambiente não é hostil, porque a competitividade pouco saudável não existe, porque entendem que às vezes a família fala mais alto, porque há quem acredite em mim. Deixar tudo isto só para ir procurar mais dinheiro ou um status social diferente seria um erro. Ainda bem que parei a tempo. E depois há sempre aquela coisa espectacular de ter de viajar em trabalho... para Portugal. Ser responsável por um mercado que coincide com o meu país de origem é mais do que podia pedir num emprego no estrangeiro. Poder falar a minha língua, conhecer bem a realidade do país, orgulhar-me do que já conseguimos fazer in loco - isto não tem preço. 

Na semana passada, pude passar quatro dias em Portugal, em que dois foram turismo puro, porque coincidiram com o fim de semana. Abracei a minha família, vi alguns amigos, comi bem e até quase não aguentar mais, trabalhei sempre que pude e trouxe boas notícias para casa. Só não trouxe o bom tempo, o peixe fresco, as festas de Lisboa, as festas de Portalegre, os filhos dos meus amigos, a minha irmã e os meus pais, a minha rua e os meus vizinhos que, depois de dez anos, ainda são capazes de não me conhecer quando nos cruzamos na rua. Não trouxe o silêncio de Portalegre, o humidade de Lisboa, os turistas a perder de vista e as esplanadas onde apetecia estar - em troca, voltei para as trovoadas, a chuva forte, a Primavera que teimou em não aparecer e o Verão que parece ainda estar longe. Mas voltei para os braços da minha pequena família, que já sentia a minha falta. E voltei para o escritório onde, uns dias mais, outros menos, a gente me quer bem. 

Há-de haver mais viagens, mais negócios à minha espera, hei-de poder juntar mais vezes o útil ao agradável. E agradecerei, sem floreados e crenças no destino, poder continuar assim a trabalhar. Porque às vezes é preciso estar no sítio certo à hora certa. E noutras há que trabalhar para agarrar essa fortuna.

maio 20, 2016

Filhos, filhos... Filhos por todo o lado!

Três cromos do Euro 2016 entre os tapetes do carro. Um boletim de vacinas e uma bola de borracha dentro da mala. O desenho tosco de um tubarão a sorrir como protecção de ecran. A trotinete quase à porta da rua. A árvore genealógica com colagens e fotografias mal cortadas à porta de casa.

Há uns tempos atrás (o que me parece hoje uma eternidade, diga-se de passagem), fui criticada porque o meu blog tinha deixado de falar sobre aventuras, dores do coração, amores não correspondidos para me dedicar mais ao filho que me tinha acabado de nascer. Na altura, fiquei triste porque queria continuar a ser a mesma rapariga livre que podia sair para concertos ou encerrar-se em casa, podia viajar sozinha, sofrendo ou florescendo de amor. Fiquei triste porque alguém me estava simplesmente a fazer ver que eu tinha mudado, uma ideia a que eu parecia simplesmente estar a resistir.

De há uns tempos para cá, aceitei finalmente que não posso (nem quero) ser a mesma pessoa que começou a escrever este blogue. Detesto a ideia de me tornar apenas numa mãe mas acho que é saudável admitir que os meus filhos são uma parte (muito, muito) importante da minha vida sem que isso anule a pessoa que eu quero ser e para a qual tenho trabalhado muito. Não quero ser a mulher que se deixa atropelar pelos caprichos dos meus filhos: quero poder fazer-lhes muitas vontades, ao mesmo tempo que quero fazer o mesmo por mim. E pelo meu marido, claro. Quero ter tempo para brincar deitada no chão e para beber um copo de vinho, para pintar páginas intermináveis de livros de colorir e acompanhar as séries de que mais gosto, levá-los aos aniversários dos amigos e levá-los a ver o Mundo, inventar jogos infantis e conversar com outros adultos. Não quero que um dia os meus filhos saiam de casa e eu fique mais vazia do que é suposto ficar.

Eu tenho lutado por manter este equilíbrio, embora já tenha percebido que enquanto os filhos forem pequenos, ele será mais ténue. Mas não posso evitar vê-los em todo o lado porque eles têm esta maneira subtil de se insinuar em todas as coisas, de deixar pequenas lembranças nos sítios mais inusitados, de ter conversas de que me lembro e vou rindo ao longo do dia. No outro dia, começou uma trovoada e a primeira coisa em que pensei foi que o Vicente tem medo e em como gostava de estar com ele para o tranquilizar. Uma pessoa pode lá escolher quando não quer ser Mãe ou quando precisa de tempo sozinha - os filhos estão em todo o lado e sempre quando menos se espera.

E é quando penso que, daqui a não muito tempo, eles não vão querer estar tanto conosco (como todas as crianças, diria eu) que decido: abraçá-los é aqui e agora, fazer-lhe cócegas não pode esperar, as suas ideias inocentes mas criativas transformam-se na melhor conversa. Temos todos tempo de nos voltarmos para dentro à procura de quem somos. Por isso, permito-me que eles invadam a minha vida, todas as assolhadas da nossa casa, os meus pensamentos, o carro e mais a mala. Um dia volto a ser só eu mas há-de ser sem me arrepender de ter sido mãe a toda a hora.

maio 06, 2016

Nem só de chuva se faz a nossa Primavera


Um dia de férias só para mim. Eu sei que podia ter ficado, pelo menos, com a miúda mas decidi levá-la para a creche na mesma. Um dia só para mim, sem estar doente ou ter qualquer responsabilidade a cumprir. Ainda mais incrível, se pensar no tempo que faz hoje.
 
Saí de casa às nove da manhã. Ir a pé para o centro da cidade estava fora de questão porque ainda é um bocadinho longe mas decidi deixar o carro em casa e pus-me a caminho do autocarro. Headphones na cabeça, uma playlist das minhas e aquela disposição que só um dia de Sol traz. Meti uma carta no correio, passei pela escola do miúdo onde ainda havia silêncio. Quinze minutos de autocarro e estava no centro da cidade do Luxemburgo. Havia gente por todo o lado, pessoas a caminho dos intermináveis escritório, turistas, sem abrigo que se têm multiplicado por aqui nos últimos tempos. Obras por todo o lado, limpeza de ruas, fornecedores a descarregar mercadorias, montras a serem compostas - esta cidade está viva!
 
Senti uma ponta de orgulho quando vi a bandeira do Luxemburgo a ondear debaixo deste incrível céu azul. Pensei no que sentem os Luxemburgueses pelo seu país, pela sua cultura e, culpada, percebi que também já vou partilhando um pouco deste mal do coração. Quanto tempo precisamos de viver num sítio até que ele se torne também nosso? Quatro anos são suficientes, vai-me parecendo. Esta cidade não é nenhuma Lisboa (nenhuma cidade se lhe compara!) e este país também não é nenhum Portugal mas é difícil combater o efeito da Primavera que já vai tardando: agradeço poder estar aqui, estável e segura, espalhando o meu amor aos quatro ventos e guardando este país pra sempre no meu coração.

maio 04, 2016

O futebol também ensina!


Nunca tinha pensado nisto até que estive com ele sentada, a colar cromos: uma caderneta é uma óptima maneira de aprender coisas!

Compramos-lhe cadernetas mais pelo prazer de as completar e de abrir as carteirinhas e ver se tivemos sorte ou, se pelo contrário, só nos saem cromos repetidos. Não é exactamente pelo nosso grande amor ao futebol: aqui em casa, vêem-se de vez em quando os jogos grandes mas nunca organizamos a nossa vida em função do futebol. (Quando vejo a doença com que os meus colegas gostam de bola, agradeço aos céus ter um marido totalmente neutro e ponderado mas isso já foi assunto de outro post!). Mas a verdade é que é giro completar as equipas e saber um pouco mais dos grandes campeonatos (do Mundo ou da Europa) que já passaram e dos que estão prestes a começar.

Então, esta semana levei umas carteirinhas para casa e sentei-me com o miúdo a colar cromos antes de jantar. Organizei-os primeiro e ia-lhe passando um a um para que os colasse e foi aí que percebi que é uma tarefa que obriga ao desenvolvimento de umas quantas competências: primeiro, os números - é preciso saber a ordem em que aparecem as equipas, entender números com um, dois e três dígitos, separar os que já são repetidos. De seguida, temos as bandeiras que ele adora decorar, juntamente com as pequenas fotografias sobre os monumentos mais famosos de cada país, que ele assume que já visitámos. Depois, vêm os nomes - não só ele tenta identificar a posição dos cromos pelos números mas também pelos nomes dos jogadores, comparando o que está no cromo com a caderneta e tentando, à maneira ingénua e atabalhoada dele, ler o que lá está escrito. Mesmo em albanês. E a verdade é que, à custa de tanta tentativa, já percebe algumas combinações de letras e consegue descobrir outras. E finalmente, ainda pode treinar a motricidade fina, enquanto descola os autocolantes e os cola o mais correctamente possível na caderneta.

O bom disto tudo é que, se ele realmente está a aprender alguma coisa, é unica e exclusivamente por sua própria iniciativa. Eu cheguei a estas conclusões por acaso, não tinha nenhum plano mirabolante para que ele retirasse isto tudo duma actividade tão banal. E esta sua curiosidade, sei-o hoje mais do que nunca, é o que realmente quero que ele nunca perca. Porque ser curioso e aberto ao mundo é meio caminho andado para o seu desenvolvimento saudável e para ir sempre mais longe. De certeza que aprender mais e mais lhe custará menos se ele mesmo quiser sempre saber mais.

abril 28, 2016

Uns são mais iguais do que outros

Trabalho numa equipa onde sou a única mulher. É verdade que a minha empresa é maioritariamente masculina, dada a natureza do negócio, mas a minha equipa é das mais afectadas pelo desequilíbrio de género. Dela faziam parte no passado outras duas mulheres mas, como trabalhavam a partir do escritório de Londres, eram como que invisíveis para mim.

Sempre gostei de trabalhar com homens. São, no geral (e sublinho no geral, porque sei perfeitamente que existem as excepções à regra), menos complicados, mais focados no trabalho e menos distraídos com os fait-divers pessoais e profissionais. Nos meus dez anos de trabalho, a competição menos saudável a que pude assistir teve sempre origem em mulheres mas se calhar tive azar. Ou sorte, depende da perspectiva.

Mas cheguei ao ponto em que tenho uma ponta de saudades de trabalhar com mulheres. Tenho saudades da sensibilidade e ponderação, tenho saudades da humanização dos números e gostava de não ser a única mulher da equipa. Ser uma mulher numa área comercial que se especializa em hardware e, especialmente, em software é extremamente difícil. Entra-se para reuniões e é preciso combater os olhares que desconfiam que sejamos competentes para a posição com a única postura possível: a de que somos as melhores, de que não existem dúvidas que nos atormentem, que somos profissionais capazes, mesmo quando a coisa se torna tecnicamente mais complicada. Na minha responsabilidade geográfica (a Península Ibérica), os clientes que participam nas reuniões são também eles maioritariamente homens, directores de finanças ou de informática, gente que também já viu muito mundo mas que nem assim se consegue livrar da ideia de que a mulher é um bocadinho menos capaz do que o homem e que pede a presença de um técnico da reunião porque se sente "mais reconfortado". Mesmo que eu lhe pudesse explicar exactamente o mesmo.

É verdade que há aquele momento em que sinto a satisfação de poder levar o processo do início ao fim sem precisar de uma benção masculina e a euforia de ser tratada de igual para igual. Eu não devia sentir isto em 2016. Eu devia apenas ficar feliz quando cumpro as minhas funções como esperado e eufórica quando supero as minhas expectativas. Mas nem tudo é mau e é claro que muita gente me considera suficientemente competente na minha área. Só que às vezes ponho-me a pensar que, se para mim é difícil vingar numa posição privilegiada num país de primeiro mundo, para mulheres em situações verdadeiramente desfavorecidas deve ser o pesadelo total. Faço o que posso para lutar contra este estigma: preparo-me bem, admito quando tenho dúvidas, procuro respostas, raramente vacilo. Mas há dias em que uma mão feminina me fazia muita, muita falta. Nem que seja para falar da filharada mas para sobretudo eu sentir que não estou sozinha entre as feras.

abril 20, 2016

Primavera, és tu?


Eu sei que é parvo mas vocês entenderão. Caramba, foi a primeira vez que saí de casa sem casaco nuns bons sete, oito meses! Dei-me ao luxo de ir buscar os miúdos a pé, ele de trotinete, ela no seu carrinho, todos a carregarmos as baterias de vitamina D. Se eu vos disser que ainda há dois dias se previa neve para todo o fim de semana, vocês perdoam-me o histerismo? Lembrem-se que estamos quase em Maio e as temperaturas mínimas ainda são negativas. Pensem em mim, carregada com as coisas do dia, uma miúda ao colo, um gaiato pela mão, a chegar ao carro quase em Maio e ainda ter que raspar o gelo de todos os vidros do carro. Imaginem que ainda não tive coragem de guardar aquecedores e desligar o aquecimento central porque tenho tido tanto frio nos últimos dias. A alegria desmedida é justificada. Mesmo que amanhã já não haja Sol. Ou que caiam mesmo uns flocos de neve. O que importa é que hoje o dia trouxe Primavera!

abril 13, 2016

Sete anos de muita coisa

Faz hoje sete anos que começámos a namorar. Acho que não o sabia muito bem nessa altura mas já estava a acontecer. O meu avô paterno fazia oitenta e muitos anos neste dia mas já não estava em condições de celebrar. O meu avô materno havia de morrer dois dias mais tarde e nunca me hei-de esquecer de como aquele que é hoje o meu marido tentou amparar-me a queda e prepara-me para o que estava a acontecer. Enviou-me uma mensagem, com todo o amor e carinho que sempre lhe conheci, dizendo que me devia preparar e que a partida do meu avô estava para breve. Um mês antes disso, a sua mãe tinha também partido.

Comemorar o nosso dia nesta data traz-me mixed feelings. Por um lado, a alegria serena de saber que estou com a minha pessoa, a mesma que nunca desistiu de mim, que insistiu e peserverou até roçar o chato, que decidiu que iríamos ter filhos juntos (mesmo quando eu gritava Que horror!), que sempre gostou de mim de uma forma desinteressada e aberta, que nunca desapareceu. Por outro lado, é impossível esquecer a atmosfera em que vivemos este começo: tanto luto, eu e ele, o meu avô materno quase a morrer, o avô paterno debilitado por acidentes vasculares cerebrais consecutivos, a mãe dele já a olhar por nós noutro sítio melhor, as igrejas frias, a comida que os amigos nos levaram a casa como conforto, a chegada a casa noite cerrada e toda a gente à nossa espera para podermos chorar abraçados.

Foi difícil não confundir o princípio da nossa relação com a profunda carência afectiva de que sofríamos os dois naquela altura. Foi difícil distinguir o que era o abraço amigo e o sólido apoio moral do que era o romance que se insinuava entre nós há algum tempo. Mas a verdade é que passaram sete anos e nós continuamos aqui, enquanto os meus avôs e a sua mãe nos espiam lá de cima. Eu não quero misturar as coisas, nem quero tirar importância a tudo o que vivemos naquela altura mas a verdade é que, no meio do nosso bem querer, havia muita dor.

Nunca tive uma relação tão longa. Sete anos impressionam-me, especialmente se prestar atenção ao padrão do que são as relações hoje em dia. Sete anos passaram num instante, mesmo que nos dias maus o tempo pareça não se mover. Sete anos, dois filhos, uma mudança de país, uma nova casa, muitas viagens - talvez o meu marido seja mesmo a minha maior riqueza. É a pessoa mais lúcida e justa que conheço (pai e mãe, vocês não contam, tá?), é o marido mais realista. É engraçado mesmo quando não tem graça nenhuma e a isso devo não ficar zangada com ele por longos períodos de tempo. Quando éramos amigos, muita gente não o entendia e eu ficava triste. Agora, se alguém não o entender, não me importo porque eu sei exactamente como ele é e acho que quem não o compreender é que perde. Tem os seus defeitos (olá, divisão igualitária das tarefas domésticas!) mas nós divertimo-nos tantos com as pequenas estupidezes do dia a dia que nos vamos arranjando como podemos. Às vezes ele quer estar sozinho e nós perseguimo-lo porque gostamos muito de estar com ele - ele chateia-se um bocado mas logo se desfaz em graças para a pequena e em desafios para o mais velho.

Não sei se vamos estar casados para sempre mas gosto de pensar que sim. Não sei se a vida nos vai mudar, se vamos deixar de querer fazer planos a dois, se vamos continuar a rir das mesmas coisas mas espero que estejamos juntos por muitos e longos anos. Porque eu acho que só eu é que aturava um chato destes e só ele é que podia aguentar com a montanha russa de emoções que foram este sete anos para mim. E por isso, sinto que estamos feitos um para o outro, mesmo nos dias em perco um pouco a fé no amor. Não no nosso, mas no que vejo por aí. Pelo sim, pelo não abrimos hoje uma garrafa de vinho e celebramos as bodas de lã :)

abril 07, 2016

A música acaba mesmo aos 33?

Tinha ouvido falar disto há uns tempos mas nunca me tinha debruçado muito sobre o assunto. Acho que nunca quis pensar muito nisso porque, no fundo, sei que é verdade. Há um estudo que conclui que deixamos de ouvir música nova aos 33 anos (encontram o link aqui). A caminho dos 37, não sei muito bem o que pensar.

Um dos factores que contribui para esta diminuição da procura pelo novo são os filhos, claro, mas o autor do estudo sugere que isto acontece porque começamos a ouvir mais músicas infantis (para lhes fazermos as vontades). Ora, aqui em casa, não é essa a razão para não conhecermos o último êxito ou a banda mais indie de todo o sempre. A verdade é só uma: não há tempo para música nova, quando se tem dois filhos, um emprego e nenhuma ajuda por perto.

Eu explico a minha perspectiva. Quando andava na universidade e não tinha gravador de cds, confiava num colega meu que me gravava cds mas sem me perguntar o que eu queria ouvir: ele decidia se era qualquer coisa que eu ia gostar e gravava na mesma, eu que me desenrascasse. Depois, quando eu ainda era solteira e uma miúda sem filhos, chegava a casa depois do trabalho e esticava-me no sofá. Muitas vezes ali ficava até serem horas de dormir mas tinha o computador no colo e saltava de site em site, de comentário em comentário, de sugestão em sugestão até encontrar a última novidade. Muita música nova me aparecia no computador porque tinha apenas gostado da capa do cd ou porque saía uma crítica porreira nas páginas do Ipsilon e, mais tarde, porque apareceram serviços como o Last.fm, que fazia o favor de analisar o que andávamos a ouvir e nos sugeria música parecida. Conheci muitas pessoas com base na música nova que sempre procurei e a todas elas agradeço o facto de me terem ajudado a ver/ouvir/sentir mais coisas.

Mas chegou o primeiro filho e os meus tempos livres passaram a depender dele, não apenas de mim. As minhas noites mudaram também desde há cinco anos e meio: não dormir uma noite seguida desde aí fez com que, na maioria dos dias que se seguiram, eu tivesse pouca ou nenhuma paciência para procurar o Novo. E depois chegou o segundo filho e as coisas complicaram-se ainda mais. O tempo precisa de estar de tal maneira compartimentalizado agora que me sobra pouco tempo para as velhas coisas que me faziam mais feliz. Acho que já aproveito bastante bem o tempo e tento perder o menos possível em frente à televisão sem propósito definido mas não dá para me sentar e navegar sem destino no mar de bandas novas e da moda como antes fazia.

É por isto que não queria admitir mas, musicalmente falando, estou velha e a agarrar-me mais e mais à música que, no passado, já me fez feliz. Não tem mal nenhum, eu continuo a achar que é música boa e muita dele nem sequer envelheceu por aí além mas tenho pena de estar a perder esse combóio - o puro e simples Fear Of Missing Out. Aposto que muita gente acha que é perfeitamente possível manter tudo ao mesmo tempo - casa, filhos, trabalho, maridos e mulheres, últimas tendências da moda/dos livros/da música/das séries/dos filmes. Para mim, infelizmente, não dá e, tendo precisado de escolher, escolhi estar presente no aqui e agora, escolhi tentar manter o ténue equilíbrio entre ser uma pessoa e ser uma mãe e tem resultado mais ou menos. E só por isso, deixo aqui três das minhas músicas preferidas de todo o sempre, mesmo que todas tenham sido gravadas antes do ano 2000. Que se lixem as the next big things




março 29, 2016

Segundo Capítulo


Para mim, era mais ou menos inevitável. Só me faltava entender como podia materializar-se a nossa colaboração, em que formato ou em que meio mas sabia que havia de chegar.

O Mário é aquela pessoa que olha para o Mundo já à procura da fotografia ideal. Vê beleza escondida em tantas coisas que não posso deixar de me sentir espantada sempre que me mostra uma fotografia sua. Tem um estilo, tem um olhar que eu posso claramente identificar como seu. Procura o indizível, o intocável com cada disparo seu. Colecciona material analógico, revela ele mesmo as suas fotografias e nem por isso deixa de apreciar o conforto de ter um smartphone na mão. Ele pensa mesmo a fotografia, ao contrário de mim, por exemplo, que tento apenas registar o meu dia a dia - ele faz o mesmo mas sobe sempre a parada e mostra-me a melhor composição, o melhor enquadramento. Quando vejo as minhas fotografias, fico sempre ligeiramente frustrada porque tendo a comparar-me com ele. E para mim ele não tem comparação.

Quando namorávamos e vivíamos longe um do outro, tentámos um blogue que durou pouco tempo porque, felizmente, acabámos a viver juntos mais depressa do que esperávamos. Ele fotografava e eu escrevia curtas histórias com base nas suas imagens. O blogue que nasceu agora não é muito diferente, salvo que eu não conto histórias mas antes falo um pouco sobre o que é a nossa vida (não quero dizer aqui, quero antes dizer pelo Mundo). Não sei o que é que este novo sítio vai fazer pelo meu velho blogue, não quero deixar um em detrimento do outro. Vou deixar só que as coisas aconteçam e é tudo.

Para conhecer este novo capítulo na nossa história, podem clicar aqui. Temos todo o gosto em que nos visitem na nossa nova casa.

março 27, 2016

DIY (Fizemos Nós Mesmos)


Nós temos muito pouco de artistas mas não queríamos pendurar nada na parede que não tivesse nada a ver conosco. A solução? Fazermos nós mesmos, claro! Havia aquele grande espaço vazio no quarto dos miúdos, onde não queríamos nada que fosse claramente feminino ou masculino, a ideia era que fosse um espaço dos dois.

Comprámos uma grande tela há uns meses. Tínhamos pensado num enorme mapa mas não encontrámos nenhum que nos enchesse mesmo as medidas. A parede tem uma espécie de defeito bem grande (como aliás toda a casa, descobrimos já depois de nos termos mudado mas nada que umas boas demãos de tinta e algum gesso não possam resolver) e era preciso qualquer coisa que o tapasse, ao mesmo tempo que preenchia bem a parede.

Ela é muito pequenina e aindas não participou. Calculo que, assim que ela cresça mais um bocadinho, tenhamos que fazer uma nova versão para que todos possam participar. Por agora, ficámos com uma obra verdadeiramente eclética: pai, mãe e filho têm estilos completamente opostos. E pode não estar um exemplo de design, simetria ou proporcionalidade mas foi feito a seis mãos, as nossas mãos, com direito a algumas birras pelo meio porque lhe faltava a inspiração.

março 22, 2016

Bruxelles, ma belle

Quando o meu colega me falou nisso, não me apercebi logo. Cruzámo-nos a caminho da máquina do café, ele com phones nos ouvidos enquanto me dizia Estou a ouvir as notícias. Pensei que era o ritual matinal dele mas realmente nunca antes o tinha visto a fazer semelhante coisa.

Depois sentei-me, café a ferver ao lado do computador, a sandes que não tive tempo de comer em casa e ele pergunta-me Já viste, isto outra vez? e eu não fazia ideia do que se tinha passado. O que se passou?, perguntei eu sem qualquer noção da gravidade e foi aí que ele me disse que Bruxelas tinha sido atacada. Bruxelas, onde estão os nossos maiores amigos. Bruxelas, onde o meu marido esteve há apenas três dias. Bruxelas, a cidade a que mais vezes voltei e na qual sempre me senti em casa. Bruxelles, ma belle.

Viver no centro da Europa tem tantas coisas boas. Tem as grandes capitais todas à mão, tem uma rede de transportes sofisticada e eficiente, dá-nos a falsa sensação que o mundo é todo nosso e que nos podemos mover como queremos. Mas tem a desvantagem de estarmos também nesse centro nevrálgico que estes bárbaros querem atingir, no centro dessa comunidade que vive em liberdade, que acolhe quem é diferente, que vive e deixa viver. E isso é o pior dos nossos pecados aos olhos de quem nos quer tanto mal. Por muito que tente, não consigo entender porque é que isso é tão difícil de aceitar e porque é que temos que, escolhendo uma religião, bater-nos até à morte para fazer valer a nossa fé. A minha fé é só uma: tenho fé no ser humano. Mas isso é nos dias bons, porque nos dias maus é difícil pensar que nem todos somos monstros intolerantes e selvagens, parece que o mal se multiplica por toda a parte. Torna-se cada vez mais difícil acreditar numa solução que não passe, ela também, pela violência e pela opressão de outros credos. Entretanto, há gente com fome e com frio às portas da Europa. Conseguir entrar, se não o era já antes, torna-se completamente impossível porque é humanamente impossível confirmar que todos os que vêm o fazem por bem.

Tenho muitas vezes pesadelos e sonho muita vez com o fim do mundo, que quase sempre chega sob forma duma catástrofe natural ou (ultimamente) pelas mãos (braços? tentáculos? coisas?) de extraterrrestres. Mas desses pesadelos eu posso acordar, respirar fundo, assegurar-me que os meus filhos estão quentes nas suas camas e seguir a minha vida. O novo pesadelo, este que se constrói todos os dias e do qual não podemos despertar, está cada vez mais à nossa porta.

***

No mesmo dia em que perco um pouco mais de fé na humanidade, há uma vida que chegará a Bruxelas com toda a pujança e potencial para mudar o mundo. E sossega-me saber que terá os braços da família prontos para acolhê-la, mesmo no meio de tantos destroços e de falta de esperança. Agarro-me a esta pequena luz com o desejo que possa crescer num mundo de paz e tolerância, que possa brincar com os meus filhos sem qualquer receio, que possamos ver o fim destes ataques todos juntos.

março 07, 2016

Viver com um propósito

Prelúdio

Várias pessoas na noite de Sexta-feira passada: Mas tu nunca não te cansas dançar?
Eu: Eu tenho tão poucas oportunidades de dançar que (quando o faço) faço-o à séria.

***

Volto à questão dos podcasts e de como me têm feito (entre outras coisas, claro) pensar. Já aqui disse que não acho que nasci para ser mãe, nem sigo as últimas tendências da moda e não sou a maior feminista que conheço. Gosto de pensar em mim como uma pessoa simples ou como uma pessoa num processo longo e complexo de simplificação, que continua a aprender como apreciar e valorizar as pequenas coisas e que tenta a aceitar os acontecimentos diários como algo natural, mesmo que às vezes sinta que não são desprovidos de significado.

Aconteceu-me uma coisa com o passar do tempo: cada vez mais me estou nas tintas para o que os outros pensam de mim ou daquilo que faço. Não tento agradar a ninguém: é possível que seja mais tolerante ou diplomata em questões profissionais mas na minha vida pessoal não tenho papado fretes. Por isso, Sexta-feira à noite fui ao lançamento do rebranding da empresa em que trabalho e dancei até não aguentar mais. Ou até o DJ matar a pista, o que coincidiu no tempo. Há uns anos atrás, demasiado auto-consciente, teria reservas em divertir-me sem amarras. Hoje em dia, ainda demasiado auto-consciente mas sem dar a isso a mínima importância, não hesito em dar tudo na pista de dança, literal e figurativamente - imaginem que a pista de dança é também a vida.

Liga este pequeno fait divers com um podcast que ouvi hoje ( chama-se Amplify your life, da mesma autora do site Abundant Mama) em que se discutiam os conceitos de slow living e de knowing your why. Muito resumidamente, a ideia é que devemos tentar encontrar o propósito nas nossas vidas, ou seja, procurar aquilo que nos faz mais feliz e eliminar tudo o resto das nossas vidas. Para isso, viver devagar é essencial. E o que é isso de viver devagar? É simplesmente não nos impormos todas as tendências de moda do mundo, não inscrevermos os nosso filhos em todas as actividades possíveis e imaginárias, não sentir que necessitamos de ver aquele filme ou conhecer aquela banda para nos sentirmos completos. É literalmente reduzir a velocidade a que vivemos e não deixar que as imposições sociais, culturais, emocionais tomem conta das nossas vidas. É escolher fazer as coisas com um propósito, aceitar que não vamos conseguir estar em todos os sítios ao mesmo tempo, saborear o prazer que nos dão as pequenas coisas. Como dançar sem reservas numa Sexta-feira à noite.

Isto não significa que deixemos de querer o melhor para os nossos filhos, nem que subitamente desliguemos das actividades que sempre nos trouxeram felicidade e um sentido de pertença. Viver com um propósito, para mim, é simplesmente aceitar que o meu tempo, as minhas costas, a minha paciência têm limites. É deixar de me sentir culpada por não conseguir acompanhar todas as novidades no mundo da música e por ter de escolher melhor os livros que leio porque o tempo não estica. É, lentamente também, sentir a liberdade de não precisar de impressionar ninguém e a satisfação de gerir o meu tempo o melhor que uma vida profissional, dois filhos e uma casa permitem. E é mesmo dançar como se ninguém estivesse a ver...

fevereiro 26, 2016

Amália: um ano a quebrar corações

Era perto da uma da manhã quando começou e quase quatro quando percebi o que estava a acontecer: estava em trabalho de parto no dia vinte e seis de Fevereiro, quando supostamente ainda faltavam duas semanas para a gaiata estar pronta. Tinha o mais velho doente, estava desnoitada e, enquanto cuidava dele e de mim, percebi que em breve ia ter mais alguém de quem cuidar. Da primeira vez, não tinha chegado a este nível de dor durante as contracções, graças aos milagres da medicina moderna; desta vez, nem tempo para levar uma epidural tive. Foi a experiência mais alucinante da minha vida e também a mais empowering de sempre. Nunca me vou esquecer do silêncio e penumbra da sala de parto, dos gritos que me saíam sei lá de onde, de ter vontade de fazer força e ter a miúda cá fora em dois puxões valentes. Sozinha, sem ninguém da família, sem amigos na sala: só a parteira que me dizia que tivesse calma e que seria capaz. No fim, ela chamou-me valente e, no meio da alegria de ter feito tudo sozinha, insinuava-se a tristeza de não ter ninguém ali para abraçar. A não ser a minha pequena filha, que não chorou logo de imediato e me olhou com aquela cara séria dela.

É incrível pensar que passou um ano. Amália completa hoje o seu primeiro ano de vida, cheia de mimos dos rapazes e de colo da mãe. Passou quase um ano sozinha comigo, insistindo em não dormir, muito à imagem do seu irmão e precisando de muita atenção. De toda a atenção do mundo, mesmo quando já conseguia pegar nos seus brinquedos com aquelas mãos gordinhas sempre a postos. À parte dos miseráveis hábitos de sono (que ainda persistem, mesmo que mais regulados), esta pequena boneca adora comer, gosta de fazer adeus e brincar com balões, delira a puxar o cabelo da mãe e do irmão, começa a gatinhar mais depressa quando sabe que a vamos apanhar. É divertida, esta nossa filha. Já percebe quando tem graça e tenta fazer-nos rir. Nunca mas nunca acorda mal disposta, ao contrário do irmão que, excepto algumas excepções, sempre acordou a chorar. Ainda não anda mas empoleira-se sempre que pode, tem seis dentes bons para roer bolachas e côdeas de pão, adora tomar banho - só detesta sair da banheira.

Eu, como (penso) a maioria das mães de dois filhos, pensei que havia de ser difícil arranjar espaço para ela no meu coração. Afinal, cinco anos apenas com um filho é coisa para deixar marca. Não foi difícil gostar dela, assim mesmo loucamente, ao contrário do que esperava. Ela esgotou-me as forças ou as minhas hormonas esgotaram-me as forças e sei que algumas vezes a culpei pela minha quase-depressão. Mas a minha filha pequenina, que nasceu um bebé tão pequenino a comparar com o irmão, não fazia mais do que precisar de mim, de nós para poder crescer com tranquilidade. A minha bebé pequenina só chegou a este mundo perdida entre dia e noite, a precisar da minha total dedicação, enquanto eu me via a dormir aos soluços, a enlouquecer com a estupidez de querer controlar todas as coisas. Já não tentei perceber porquê: bastou-me o Vicente para entender que eles são como são mas mesmo assim custou-me a aceitar que ela não fosse um borreguinho a dormir.

A pequena Amália faz um ano e tem a sorte de ter parte da sua grande família com ela para festejar. Eu cá olho-a embevecida de cada vez que ela se despede de alguém ou sempre que tenta quebrar os limites, tentando escalar sofás ou escapar por portas entreabertas. Eu vejo a alegria com que ela nos olha todos os dias, especialmente quando acorda e percebe que nós os três ainda estamos ali e é tudo o que peço para ela: que continue indomável e curiosa e que se sinta sempre amada pela gente à sua volta. O resto? O tempo tratará disso.