outubro 19, 2017

Augusto: nove meses dentro, nove meses fora

Para mim, é uma data quase tão importante com o primeiro ano de vida. O meu pequenino Augusto, o meu ratinho apressado, cumpre hoje nove meses fora da minha barriga!

Ao terceiro filho, tudo devia ser mais fácil. Dormir devia ser canja, sentar-se devia ser canja, comer devia ser canja. Eu já me devia ter acostumado às noites sem dormir, não devia ter dúvidas nem medos irracionais, devia saber sempre interpretar o seu choro - devia saber sempre o que fazer. Mas o meu Augustinho veio lembrar-me que o terceiro filho é, tantas vezes, como o primeiro (e o segundo): uma pessoa totalmente diferente, com o seu próprio temperamento e personalidade. A única coisa que os meus filhos partilham como característica é o facto de terem demorado uma eternidade a dormirem bem. E o Augusto ainda está a trabalhar nisso.

Levei-o sempre para todo o lado, já fez milhares de quilómetros de carro como um valente, já voou como os irmãos (estar longe tem, pelo menos, o benefício de um baptismo de voo bem cedo!). Nasceu antes do tempo e pequenino mas o tempo se encarregou de o fazer crescer devagarinho. Eu bem quis acabar com a amamentação mas ele não deixa e parece que gosta hoje de mamar mais que nunca. Secretamente, fico feliz por ser assim, por poder prolongar este laço, mesmo que isso me roube ainda muitas horas de sono.

Passámos oito meses juntos e foi o bebé mais fácil dos três. Na unidade de neonatologia, era o bebé que menos chorava: só não gostava quando o despíamos para mudar a fralda mas fora isso não me lembro de o ouvir a chorar. Às vezes estávamos em casa e eu esquecia-me que ele também estava ali porque não o ouvia. Ainda me olha como quem está sempre feliz por me ver uma e outra vez, com aqueles olhinhos castanhos sempre a brilhar. Já se entretém com os seus brinquedos, sentado ao pé de nós e gosta pouco de estar sentado na cadeira, a não ser que veja que vem lá comida. Quer literalmente mexer em tudo o que entra no seu campo de visão e delira a chapinhar no banho.

Tem os dois irmãos muitas vezes a fazerem palhaçadas para ele se rir. E não lhe falta muito amor: dos irmãos, dos avós e dos tios mesmo longe, da pessoas que se cruzam com ele na rua e não resistem àqueles olhinhos de azeitona. O pequeno Augusto veio lembrar-me que ser mãe é um papel sempre inacabado, que todos os filhos são diferentes e muito especiais, que eu me posso sempre superar-me. E agora, a todo o vapor em direcção ao primeiro ano! De preferência, a dormir durante as noites mas havemos de lá chegar!

outubro 11, 2017

Nick, uma história de amor tardio



Li esta semana no blogue da Marta: percebi que aprendemos certas matérias com mais antecedência do que o nosso cérebro tem capacidade para as entender. E eu diria ainda mais: ouvimos e lemos muitas coisas em alturas da nossa vida em que não estamos preparados para compreendê-las.

Comigo aconteceu com alguns artistas e com alguns livros: cheguei a eles cedo demais. Não quer dizer que agora os compreenda na sua totalidade mas o passar do tempo ajudou-me a ter menos menos do desconhecido, a aceitar melhor a diferença nos outros, a ter mais tempo para pensar e digerir tudo o que consumo, culturalmente falando. E há uns tempos cheguei, finalmente, a Nick Cave, não só através da sua música, mas também através do documentário 20,000 days on Earth. Num mundo em que cada vez mais é o plástico e o vazio de ideias/carácter/personalidade que imperam, foi quase um alívio ver um documentário sobre um homem que, apesar de normal, se move num misto de escuridão e luz insuportável. Vê-lo criar, cantar e ensaiar, vê-lo no seu ambiente natural provou-me que nem sempre os ídolos têm pés de barro e ainda há quem justifique o hype.

Ontem pude vê-lo ao vivo. E vi-o de tão perto que, por momentos, me parecia estar a sonhar. A certa altura, o Mário chama-me e diz Olha, ele vem mesmo na nossa direcção! e no meio da multidão incrédula, de impecável fato e tão branca como um fantasma, uma espécie de aparição. Os olhos pequeninos, a camisa meio aberta, as mãos sempre à procura das mãos do público, a ironia sempre pronta a envergonhar quem, como eu, queria guardar o momento em vez de apenas o apreciar. Há muita dor na maneira como canta, pode sentir-se. Há um filho que já não vive e de cuja morte foi difícil recuperar. Ouvem-se os excessos da juventude, mistura-se luxúria com religiosidade, solta-se urros do fundo do ser, sussurram-se histórias ao microfone. Um concerto de Nick Cave é todo surpresa: a maneira desconcertante como se envolve fisicamente com o público, as forças que convoca para transmitir tudo o que é seu, as palmeiras projectadas debaixo de um tornado, um miúdo em câmara lenta num areal de Brighton.

Tocou coisas antigas e intensas como Tupelo, The Mercy Seat ou Red Right Hand. Tocou coisas novas e impregnadas de dor como Anthrocene, Jesus Alone ou Jubilee Street. Levou um monte de gente para cima do palco, dançou com miúdas, emprestou microfones, caminhou sem medo entre aqueles que o idolatram. Os Bad Seeds emprestaram-lhe solenidade, conduziram os momentos de fúria e também se mantiveram em silêncio quando foi preciso.

Lembro-me de implicar com os meus amigos (e primos) Monteiro porque não entendia a sua devoção a este Australiano misterioso. Mas lá cheguei e é melhor abrir-lhe os braços tarde do que nunca ter sentido o abanão que são a sua música, as suas palavras.

outubro 08, 2017

Senhor Mário, quarenta e um anos

O senhor que alguns conhecerão como meu marido celebra hoje quarenta e um anos de vida. Escolho a palavra celebra intencionalmente porque uma vida tão rica, tão cheia de aventuras, peripécias e de amor (nas suas mais variadas formas) precisa mesmo de ser celebrada todos os anos.

Este senhor só pensa em ter mais filhos (cinco é o mínimo que aceitava, até eu lhe explicar que três é o limite. Mesmo assim, gosta de insistir) e eu percebo porquê: trata-os com tanto amor, muda fraldas com a naturalidade de quem fez isso a vida toda, resiste aos nervos que causam algumas birras, relativiza e coloca sempre tudo em perspectiva, corta-lhes fatias de queijo mesmo como eles gostam, beija-os até eles não aguentarem mais, corre atrás e carrega-os sempre que as costas lho permitem, diz não com a firmeza de quem ter a certeza do que está a fazer, gosta realmente de brincar com eles.

Por outro lado, eu vejo - embevecida -  a maneira como outras pessoas gostam dele. Talvez não seja uma pessoa fácil de entender ou até mesmo de gostar. Talvez muita gente desista de o fazer porque a sua parvoíce e sentido de humor podem ser difíceis de compreender. Mas eu juro que nunca vi ninguém a fazer amigos com tanta naturalidade, a falar com estranhos como se os conhecesse há uma vida atrás, a falar com outros miúdos naquela linguagem que só eles entendem. Ele precisa de estar rodeado de pessoas, não de muitas pessoas e também não necessariamente a toda a hora - mas creio que murcharia definitivamente se não pudesse soltar o animal social que tem em si.

Há ainda um senhor Mário profissional. Alguém que já fez de tudo nesta vida, que se fez à vida quando teve de ser, que emigrou e desemigrou antes desta nossa aventura, que viu muita miséria e acudiu a muita gente que precisava, que trabalhou por turnos e que vi o seu sonho de negócio próprio a ir por água abaixo mesmo antes de existir. Alguém que faz o que tem a fazer mas que não hesita em reclamar com o que está errado. Alguém que não pode andar pela cidade do Luxemburgo sem que seja abordado por uma mãe e seus filhos a quem ajudou nas consultas médicas ou por um grupo de adolescentes a quem acompanhou nas inscrições escolares, todos de sorriso aberto, visivelmente felizes e gratos pelo seu trabalho.

E finalmente, ele existe como meu marido. Antes disso, é sabido, já era meu amigo há vinte, trinta anos. Ele era o amigo que queria ter filhos comigo e a quem eu enxotava sempre que ele brincava com isso. Mas ele era um grande amigo, alguém que me escutava e com quem podia partilhar qualquer história, um ombro onde ainda chorei. Não existiam muitos segredos entre nós: talvez apenas histórias que não partilhámos com mais ninguém. E hoje, olho comovida para o que já construímos juntos - vinte e tal anos de amizade, quase nove de namoro, quase seis de casamento, três filhos. As aventuras que já vivemos juntos, as vezes em que eu chorava e ele fez qualquer palhaçada para me fazer rir, a tristeza que senti quando percebi que nunca mais íamos ser só nós os dois, o arroz de polvo que fui obrigada a comer uma e outra vez, os gostos musicais que sempre partilhámos, a forma desinteressada com que sempre acreditou em mim - pode acontecer de tudo mas estas coisas já ninguém me rouba.

Querido Mário, parabéns pelos teus quarenta e um anos. Cada dia que passa fica mais claro que estarei ao teu lado por muitos e longos anos, mesmo com o meu mau feitio e o teu péssimo feitio. Mas com muito, muito amor. E só com três filhos, que não precisamos de preencher todos os lugares da carrinha.

(Os anos vão passando e a possibilidade de me repetir aumenta exponencialmente mas eu gosto de fazer este exercício uma e outra vez.)

outubro 07, 2017

Estou feliz porque amanhã sou obrigada a votar!

Este ano, depois de cinco anos e meio de Luxemburgo, vamos finalmente votar nas eleições comunais, as equivalentes às nossas autárquicas. A legislação prevê que todos os estrangeiros que vivam no país há mais de cinco anos e que queiram participar (apenas nestas e nas europeias, o direito ainda nos está vedado quando falamos de legislativas) o possam fazer, bastando para isso estar inscritos nas listas eleitorais da sua comuna de residência.

Mas aqui as coisas funcionam de maneira diferente do sistema eleitoral português. Todos os cidadãos luxemburgueses são inscritos automaticamente nos cadernos eleitorais e são obrigados a votar. A lei prevê apenas duas excepções: os eleitores que vivem numa comuna diferente da onde estavam previamente registados e os eleitores de mais de setenta e cinco anos (que podem votar por correspondência). Para os cidadãos não-luxemburgueses, o caso é diferente: assim que completem cinco anos de residência no Grão-Ducado, podem inscrever-se nos cadernos eleitorais. Esta inscrição é opcional mas, se a fizerem, os cidadãos incritos passam a ser obrigados a votar. Podem, a qualquer momento, pedir para cancelar esta inscrição, o que não acontece com os cidadãos luxemburgueses.

A realidade é preocupante, especialmente do ponto de vista de um cidadão estrangeiro. Neste momento, os cidadãos não-luxemburgueses representam quase mais de cinquenta por cento da população total do país. Isto significa que, se não se inscreverem voluntariamente nos cadernos eleitorais, não podem votar e deixam as grandes decisões nas mãos de uma minoria, os cidadãos nascidos aqui. Os representantes dos partidos da comuna onde vivemos mostraram-se desiludidos com número de inscrições de eleitores estrangeiros nas listas e eu também sinto que há algum desinteresse e afastamento da política, talvez por razões meramente linguísticas. Há um grande debate sobre as línguas em que devem ser publicados os materiais de propaganda: há comunas mais francófonas, há comunas mais inclinadas para o Alemão, há comunas que não abdicam do (difícil) Lixemburguês. E existe a dificuldade real que é traduzir os programas eleitorais e conseguir que eles façam sentido e mantenham o espírito inicial (hoje mesmo recebemos um dos programas eleitorais traduzido em Português mas numa tradução e aspectos tão pobres - parecia saída do Google Translator, numa folha impressa em casa, sem a marca visível do partido).

Quando recebi a convocatória na Segunda, com a indicação da nossa mesa de voto, senti que estava a viver um momento solene e que, de certa maneira, simboliza o coroar do nosso processo de integração na sociedade luxemburguesa. Não basta ter os miúdos na escola pública, participar nas variadas manifestações culturais, conhecer a história e assimilar a cultura, contribuir para a riqueza material e humana do país: é preciso aproveitar a oportunidade, tentar compreender melhor o sistema político e exercer o dever cívico de escolher quem nos representa.

No Domingo, somos convidados a votar entre as oito da manhã e as duas da tarde na escola onde anda o Vicente. Levamos conosco a convocatória e o documento de identificação e eu levo mais qualquer coisa comigo: o orgulho em fazer a minha parte, o mesmo que sentiria se estivesse a votar no meu país. E também a esperança de que outros entendam a importância destes pequenos (grandes) gestos e queiram também participar.

outubro 06, 2017

O regresso à vida real: pegar de caras o trabalho que nunca acaba

Primeira semana de trabalho e estou feliz apenas por ter sobrevivido. Depois de dez meses em casa, completamente afastada do jargão técnico, dos colegas e do escritório, custou-me regressar. Não ajuda ter um bebé em casa que em muitas noites ainda acorda de duas em duas horas, sabe-se lá porquê. Bastava que pudesse dormir umas seis horas seguidas por noite e já não me arrastaria pelo escritório à procura do café.

Na minha cabeça, tudo o que agora fica por fazer em casa na minha ausência. Antes, podia organizar bem o tempo e podia mesmo deixar coisas para fazer amanhã, porque sabia que estaria lá, porque sabia que conseguiria apanhar o combóio no dia seguinte. Agora? Agora não há dia seguinte. Tudo o que não faço hoje só vai acumular até ao próximo dia livre. Esta semana fiquei feliz apenas de conseguir manter os miúdos alimentados, dar-lhes banho todos os dias, passar algum tempo com eles. Pouco mais fiz, a não ser tratar das refeições. A minha cabeça voa frequentemente para a roupa que se há-de acumular, na arrumação que cumpro em serviços mínimos. E voa para o silêncio dos últimos dias, com os miúdos já na creche/escola e eu a tomar o pequeno-almoço a olhar para o jardim.

Para piorar, voltei ao trabalho e mudei de funções. Não para algo radicalmente diferente mas para uma posição recém criada, onde não há ainda muitas orientações definidas, onde vou precisar de desbravar caminho. Passo de uma função integrada numa equipa para algo mais individual e não vou mentir, gosto dessa possibilidade de trabalhar sozinha. É claro que continuo a gostar das pessoas que trabalhavam antes comigo mas sabe-me bem poder (às vezes) isolar-me e fazer o que há para fazer. De resto, no capítulo das pessoas, há demasiadas caras novas para conseguir sequer decorar nomes. Uma empresa que cresceu vinte por cento em pessoal no último ano é motivo de orgulho e confiança no futuro mas também de demasiada gente que precisamos conhecer, com quem é necessário estabelecer confiança (só eu sei o tempo que isso me leva...), com quem é preciso aprender a lidar. Eu lido mal com pessoas no geral, pior ainda com as que não conheço - extra esforço nesta minha rentrée.

O primeiro dia foi tão mau que duvidei da minha capacidade de acabar a semana com a saúde mental intacta. Dormi extremamente mal, apesar de não ter pensado uma única vez no trabalho. Só que estar dez meses em casa, sem precisar de estar em frente a um computador mais de oito horas por dia, faz mossa. À hora do almoço, tomei um paracetamol em casa e decidi que ali iria almoçar sempre que puder. Assim sempre faço de conta que a licença ainda não acabou. Depois, com o passar dos dias, a coisa foi melhorando: fui tolerando melhor o computador, fui repescando informação que já tinha arrumado na memória, fui sendo apresentada à gente, fui sendo recebida de braços abertas pelos antigos colegas. O CEO passou no segundo dia e perguntou-me se estava tudo bem e se me aguentava. Se me aguentava a quê, perguntei eu, inocente. E ele explicou que quando acabo o trabalho aqui, abro a janela do outro trabalho em casa e lembrou-me que a mulher dele, ao quarto filho, percebeu que já não conseguia conciliar as duas coisas. Hei-de provar que as mulheres são de tal maneira eficazes que conseguem produzir relatórios complexos e limpar nódoas de sopa. Mas por agora, se alguém quiser passar lá em casa e passar a ferro uma peça ou duas, eu não digo que não.

setembro 29, 2017

Sete anos de Vicente

Passam hoje sete anos desde o nascimento desta força da natureza que se chama de Vicente e com quem me transformei numa Mãe. Digo força da natureza porque vive tudo com o coração na boca, sempre num equilíbrio ténue entre o tudo e o nada, sempre capaz de irradiar a maior felicidade e desfazer-se na maior tristeza. Ainda esta semana, me diziam lá nos tempos livres "Só duas coisas, mãe: lê impecavelmente mas é preciso que deixe de chorar por tudo e por nada!". Eu, porque sei a quem é que ele sai, faço o mea culpa e explico-lhe que já não é tempo de tudo ser motivo para lágrimas.

O meu Vicente, que hoje me parece mais perto de um homenzinho do que dum miúdo, nasceu há sete anos. Era um dia ainda quente, eu não conseguia ajudá-lo a nascer por causa da epidural, tinha uma vista bonita sobre a Expo e foi o único parto a que o pai pôde assistir. Ali chegava o Vicente, gordinho e rosado, cheio de vernix, assustador com as suas pequenas mãos sobre as têmporas, como se tivesse chegado e já começado a pensar. O Vicente que sempre chorou muito, que deu noitadas que me parecem hoje infinitas mas incrivelmente longe, que cresceu sempre como devia, chegava há sete anos e o meu mundo dava uma cambalhota da qual ainda hoje não recuperei.

Hoje deixei-o na escola para ajudá-lo com o bolo de aniversário e ele estava contrariado: quer ir para a escola sozinho. O menino que viveu com os os pais durante mais de quatro anos como uma ilha, sempre os três para todo o lado, tudo para ele, agora quer ser livre. Não extremamente livre, que ainda se pendura nos nossos pescoços a pedir mimo, ainda nos quer mostrar os pontapés de bicicleta que sonha fazer bem, ainda nos pinta desenhos sem ser em ocasiões especiais, ainda nos quer. Mas já começou o caminho que há-de fazer sozinho e isso comove-me, deixa-me entusiasmada mas também triste, o meu primeiro bebé há muito que deixou de o ser.

Anda há três dias com duas folhas na mala que devia ler todos os dias (até hoje, quando vão ler na sala de aula) e praticava nos tempos livres e depois comigo, em casa. E de cada vez que o ouvi a ler aquelas palavras em Alemão, com o à-vontade de alguém que nasceu aqui mas que, na verdade, só começou a aprender há duas semanas, vieram-me as lágrimas aos olhos. Por perceber do que ele é capaz, por ver como se interessa pela escola (mesmo que às vezes esteja cansado), por desejar que assim seja sempre. E quanto mais penso nisso, menos me parece que tenha alguma coisa a ver conosco: ele quer saber, aprender, fazer bem. E só isso é coisa para me fazer chorar porque é meio caminho andado.

Andava há que tempos a contar os dias para o seu aniversário, com aquele febre de quem sabe que o dia é especial. Levantámo-nos cedo e cantámos-lhe os parabéns a cinco (na verdade a dois, porque um ainda não sabe o que se passa e a outra estava a tentar perceber porque é que ele recebe presentes e ela não). O nosso menino faz sete anos hoje e tem dado muito trabalho mas aquele brilho nos olhos vale todo o trabalho do mundo!


setembro 25, 2017

O fim (e, necessariamente, também o princípio)


Estou a apreciar os meus últimos dias livres o mais possível, já que regresso ao trabalho exactamente de hoje a uma semana. Prevêm chuva para a esse dia e eu decidi absorver os últimos raios de Sol num Outono que já vai longo (aqui). Portugal ainda se despede lentamente do Verão e nós já dormimos com o edredon há que tempos, os miúdos saem com os casacos de Inverno de manhã, há abóboras por todo o lado.

Hoje dei um passeio pelo nosso bairro e entrei mesmo no cemitério. Não sei porquê mas sei que respondi a um impulso, abri e portão e deambulei entre as campas. Só se ouviam os pássaros a cantar e um ou outro ramo a quebrar no bosque e apeteceu-me chorar pelos mortos que ali jazem: famílias inteiras, crianças, homens que nunca chegaram a ter a minha idade. Em Portugal, entrei num cemitério apenas duas vezes para enterrar os meus dois avôs e por isso ainda compreendo menos porque me senti impelida a entrar.

Não me cruzei com ninguém no caminho e o casaco mais forte ficou em casa. Estava tanto Sol e só se ouviam os trabalhos de jardinagem aqui e ali. Pelas janelas da frente, um vislumbre sobre os jardins nas traseiras e sobre as cozinhas em suspenso, sem que se visse alguém em casa. Numa porta de vidro, um cão tinha encostado o focinho e parecia esperar calma mas tristemente o dono. Num parque infantil, apenas uma mãe com um carrinho de bebé, a lembrar-me que estes tempos de calmaria, de introspecção, de criação de hábitos não se voltarão a repetir.

Em breve regresso à vida real. E se por um lado me sinto mais pronta do que nunca e mesmo desejosa de recomeçar, por outro lido com a tristeza de ser a minha última licença de maternidade. Abraço estes últimos dias com força, trato das últimas arrumações, deixo-me estar em silêncio. Numa semana tudo chegará ao fim e eu quero ter a certeza que não ficou nada por fazer.

setembro 22, 2017

Socorro, tenho um filho na primeira classe!

Todos os pais passam por isto, felizmente. Os miúdos crescem, passam da creche à pré-primária e de repente, puff!, estão na primeira classe. Imagino que à primeira custa um bocadinho, à segunda já se está mais à vontade e à terceira já se faz com uma perna às costas, mas é sempre um momento tão especial para pais e filhos.

O Vicente entrou para a primeira classe este ano, poucos dias antes de fazer sete anos. Pessoalmente, tenho a mania de o comparar comigo e, como entrei para a escola ainda com cinco anos, parece-me que ele vai atrasado. Mas o sistema educativo no Luxemburgo é diferente e aqui prefere-se que os miúdos brinquem uns bons três anos (um ano de Prècoce e dois anos de Spilschoul, literalmente escola precoce e escola de brincar) antes de começarem a aprender a sério. Digo a sério porque em ambas as escolas eles aprendem sobre a vida em sociedade, sobre a sua relação com os outros e com o seu próprio corpo, são despertados para os números, as letras, as artes e os trabalhos manuais mas ainda não funcionam em disciplinas propriamente ditas nem são, naturalmente, avaliados. Antes, são seguidos pelas educadoras e há balanços a cada três meses para que os pais saibam onde os podem ajudar, quais são os pontos fortes e os pontos fracos. Para o menino Vicente, o ponto fraco foi sempre (ainda é) o controlo da suas emoções, que leva às vezes a alguns problemas de indisciplina. Nada de grave, felizmente, mas ainda assim um assunto que trabalhamos com ele já da creche porque ele vive de coração da boca e consegue ser a maior drama queen deste mundo.

A geração dele não tem nada a ver com a minha geração em termos escolares. Quando nós andávamos na escola, a idea era os nossos pais darem-nos as oportunidades e ferramentas que eles mesmos não tinham tido. Em muitas famílias, os miúdos da minha geração eram os primeiros a poder ir para a universidade ou, pelo menos, a fazê-lo com algum conforto, ainda que com muito sacrifício. Não é isso que me preocupa na escolaridade do Vicente: já vivi o suficiente para perceber que uma licenciatura ou um mestrado não significam nada por si mesmo e podem mesmo nem ajudar no mundo profissional. Vou continuar a achar que a universidade é fundamental para melhor compreender o mundo, para aprender a pensar e apreciar as artes, a política e a cultura mas não é obrigatória.

O que me custa no sistema educativo luxemburguês é uma espécie de elitismo: os alunos são muitas vezes julgados previamente com base no seu apelido, sem incluir o seu percurso escolar. Isto significa que alunos com um apelido português são automaticamente colocados no pote dos menos capazes e orientados para o ensino técnico em vez do percurso no ensino clássico. Quero dizer que não tenho absolutamente nada contra o ensino técnico e que ficarei igualmente feliz se o Vicente quiser ser canalizador, electricista, médico ou sociólogo. A única coisa que desejo é que ele tenha muito sucesso no seu percurso académico mas, acima de tudo, que ele possa ESCOLHER o que quer fazer e que não seja prejudicado simplesmente pela sua nacionalidade. É um trabalho que também nos cabe a nós, pais: acompanhá-lo, ajudá-lo e fazê-lo sentir que tudo lhe é permitido, assim se aplique, esforçe e queira.

De resto, e avaliando apenas os primeiros dias de aulas, estou bastante feliz como se organiza a sua semana escolar e com os primeiros resultados que vou vendo nos cadernos diariamente. A escolaridade aqui é feita em Alemão (o Luxemburguês surge como língua à parte e o Francês e o Inglês só aparecem mais tarde), aprendem música, fazem ginástica e natação, têm uma disciplina de vida em sociedade (que substituiu Religião e Moral) e ainda brincam muito. Se ele se conseguir manter aplicado e entusiasmado como até agora (é pouquíssimo tempo, eu sei), estamos bem. E estamos cá para empurrar nos momentos em que isso não for assim. Empurrar com força, se for preciso.

setembro 21, 2017

Quantos filhos são filhos suficientes?

Disclaimer prévio (especialmente para os meus pais): não, não vamos ter mais filhos!

Só que esta semana li este artigo no blog da Joanna e, mais uma vez - com a devida distância e com as diferenças gigantes entre a vida dela e a minha - , ela toca na ferida. Na minha ferida e na de muitas outras mulheres por esse mundo fora, a julgar pelos comentários.

Começo por dizer que nunca imaginei ter mais do que dois filhos. Passei pela fase de querer ser mãe solteira (eu e um bebé todo para mim, sem figura paterna a ajudar, só porque sim - a adolescência tem destas imbecilidades), depois acho que sempre imaginei ter dois filhos. Afinal lá em casa era eu e a minha irmã e quatro parecia-me um número simpático. À nossa volta, apesar de existirem outros exemplos, sempre houve muitas famílias com dois filhos e, inconscientemente, sempre me pareceu a solução mais equilibrada. Então se fosse um rapaz e uma rapariga, ainda melhor!

Nós tínhamos conseguido essa proeza, o casalinho com que muita gente sonha mas resolvemos estragar esse equilíbrio e mandámos vir mais um. Até ao nascimento da Amália, acho que nunca tinha pensado que podíamos ser uma família ainda maior. Mas quis o destino que o meu marido (que raio, quando me irei a costumar a dizer isto?) sonhasse com uma família maior e contagiou-me com essa ideia. É verdade que ele sonhava com cinco filhos e eu digo que três é o máximo mas o certo é que ele conseguiu mudar a minha perspectiva sobre a parentalidade, quebrando a barreira dos dois filhos.

Escrevo este post ainda exausta. Digo ainda porque é mais ou menos assim que me venho sentido há uns dois anos, com dias melhores mas com muitos dias em que parece que simplesmente me arrasto e não vivo no verdadeiro sentido do termo. Uma filha que dormiu a primeira noite inteira depois dos dois anos e um bebé que começou a dormir bem mas piorou com o tempo e eis-me em todo o esplendor da falta de sono, incapaz de dormir mais do que duas horas seguidas, mesmo que esteja longe deles. Ainda não regressei ao trabalho e já me pergunto como vai ser quando tiver que passar nove horas fora de casa com o necessário esforço intelectual e depois regressar a casa e tratar de três crianças e de tudo o resto, antes de começar a noite e eu entrar no pesadelo que é quase não dormir. Estou decidida a não sofrer por antecipação (não ajuda em nada e só me desgasta ainda mais) e por isso vou-me tentando convencer que também hei-de sobreviver esta vez.

Então porque é que, depois de todo este cansaço, depois de todas as birras e amuos, depois de estarmos sozinhos e não termos mãos a medir com escolas e creches e futebol e brincadeiras, eu fico triste quando penso que não vou ter mais filhos? Para a família da Joanna, dois filhos foram o limite; para nós, dois eram suficientes mas ainda arriscámos o terceiro, sabendo das dificuldades que é não ter uma aldeia para ajudar com os miúdos. Porque é que eu sinto que ainda podíamos ter mais um pelo menos? E porque é que, depois do quarto, se calhar podíamos mesmo chegar aos cinco, como o pai tanto queria? Não podemos, não vamos mas as perguntas vão ficar sempre lá.

Na semana passada, voltei ao hospital onde nasceu o Augusto para uma consulta de rotina e senti falta do acompanhamento da gravidez, da força que me deu sentir que carregava um ser humano (nas três vezes) comigo, da pujança que me encheu o peito por saber que estava a gerar vida e que, felizmente, todas as vezes sem qualquer limitação. Senti falta daqueles momentos antes dos partos, mesmo estando completamente sozinha em dois deles, da onda de força que me invadiu sempre que foi preciso fazer força, dos primeiros instantes em que dei à luz um bebé, do incrivelmente poderosa que me senti todas as vezes. Incrivelmente poderosa e sortuda, trazendo ao mundo bebés saudáveis, sozinha numa sala de parto mas aceitando as circunstâncias e a natureza como elas são, sem perguntas nem lamentos. E sinto aquela dorzinha no peito que se insinua de vez em quando, sempre que penso que nunca mais vou sentir o milagre de trazer vida a este mundo.

E a verdade é que nenhum número de filhos me iria curar dessa dor: ter quatro, cinco ou dez filhos não me iria impedir de sentir falta desses nove meses de cuidado e daquele estado de alerta das primeiras semanas e daquela sensação de que, depois disto, sou capaz de tudo. Por isso, revivo as memórias dos meus três partos com muito amor e muita frequência para que nunca me esqueça do incrível que foi ver nascer os meus filhos. E revivo também as horas intermináveis, especialmente durante a noite, com eles no meu colo, exausta pela falta de descanso, para ter a certeza que não vou repetir estas proezas! A sabedoria popular tem sempre razão e lá diz que três é a conta que Deus fez...

setembro 11, 2017

Xô, ansiedade!

Eu tenho péssima memória e ter filhos só o vem provar. Se me perguntarem quando teve o Vicente o primeiro dente ou quando é que a Amália começou a gatinhar... não sei. Só se houver alguma imagem, algum registo do que ficou para trás, caso contrário estas minúsculas conquistas perdem-se na minha cabeça.

Pensava que ao terceiro filho já sabia tudo o que havia para saber da maternidade. Pensava que tinha a amamentação, os sonos, os sólidos, as constipações dominadas. Pensava que seria muito estranho ter dúvidas à terceira vez. Mas acontece que as tenho, não fosse cada um dos meus filhos uma pessoa diferente e única, com a sua personalidade e afectos e birras. A quantidade de literatura que consumi (especialmente antes de nascer o primeiro) sobre tudo o que era ter um bebé em casa de pouco serviu. Eles continuaram a chorar, a dormir muito pouco, eu continuei a não conseguir dormir durante o dia, a deixar-me muitas vezes consumir-me pela dúvida e, acima de tudo, pela culpa. E a esquecer-me que, na maior parte dos casos, não vale a pena procurar um motivo, uma razão, uma desculpa - eles são como são, um obedece mais, outra é dona disto tudo, o terceiro ainda se está a formar. Nós podemos ampará-los e direccioná-los mas tenho que repetir muitas vezes para mim mesma que dificilmente eles farão tudo o que achamos ser o melhor para eles. Mas ser mãe é nunca deixar de tentar.

Talvez por ter nascido prematuro (um mês antes do tempo, nada dramático, eu sei; muitos outros bebés vieram muito antes do tempo e, juntamente com as família,s lutaram para sobreviver e isso faz-me sentir privilegiada e parece que me tira o direito ao sofrimento que foram aqueles dias na Neonatologia), eu preocupo-me mais com o desenvolvimento do pequeno Augusto. Não passo os dias a pensar nisso e sei como essas coisas são flexíveis mas não posso dizer que não me custava perceber que ainda não se virava bem aos cinco meses ou ainda não se mantinha sentado depois dos sete. Mas na semana passada, quando o vi sentado e quase a brincar com o que tinha à frente, senti que continuo a sofrer por antecipação. 

E, nem a propósito, li no mural da bonita Inês Maria Meneses a seguinte frase Convocar a angústia antes do tempo, condiciona a possibilidade de vivermos melhor. E sei que este trabalho nunca está feito, a ansiedade está quase sempre lá, o pensamento é mais rápido do que a luz mas faço, há algum tempo, muita força para viver apenas agora. Deixando para trás aquilo que já não volta, impondo reservas a mim mesma sobre sonhos futuros (apenas os necessários, ninguém pode viver sem sonhar), tentanto fazer deste momento presente o melhor que posso. Com filhos, isso é especialmente importante e excepcionalmente difícil: como seguir em frente, sabendo que o que fazemos hoje condicionará o que eles serão amanhã? Só lhes posso prometer tentar e garantir que, com birras ou sem elas, capazes de se sentar ou já de correr, eu gosto deles exactamente como eles são. E esperar que um dia não lhe seja tão difícil aceitar as suas imperfeições como às vezes me acontece. Sem pressas e sem culpas.

setembro 03, 2017

Férias


Foram quase dois meses. Quatro mil quilómetros pela Europa e ainda mais em Portugal, entre Portalegre e Lisboa. Ser emigrante é isto mesmo: é ter sede de ver Mundo mas acabar sempre a desejar estar em Portugal. Passámos fora de casa tanto tempo quanto nos foi permitido. Nadámos e mergulhámos muito: o mais velho aprendeu a nadar debaixo de água, a miúda aprendeu a ficar sozinha com as braçadeiras, o pequenino tomou banho de piscina pela primeira vez e gritou quando lhe molhei os pés no mar. Abraçámos a nossa família, que pôde estragar os miúdos com mimos para compensar o resto do ano em que não estão. Comemos muito e comemos bem: muitos caracóis, empadas, sardinhas, boa fruta (obrigada tia Rosa e tio Tozé, ainda hoje comi torradas com doce de abrunhos e de figos das vossas árvores!). Foram quarenta e tal dias de muito, muito Sol, de um calor de que já não me lembrava e do que qual não vou sentir saudades, de fumo dos incêndios a esconder o Sol durante muitos fins de tarde, de leques e ar condicionado. Os cinco na nossa minúscula casa de Lisboa, sete na casa dos meus pais em Portalegre, andámos sempre ao monte e isso nunca ajudou a manter a calma. O Augusto a mudar radicalmente (noites muito mal dormidas, a fruta e a água que não vão nem à lei da bala, a barriga ainda sem funcionar), birras dos outros dois (em casa, nas piscinas, à saída da praia, nos restaurantes, no jardim da Estrela - em suma, onde pusemos o pé!). Mas também vivemos muitos momentos de alegria pura: quando não saíam da água a manhã toda, quando puderam apanhar ovos directamente no galinheiro e morangos da planta e abrunhos da árvores, quando andaram de trotinete, quando brincaram com os primos e com os amigos que só vêem uma vez por ano, quando recebiam mimos dos avós, dos tios, dos vizinhos.

O pai regressa ao trabalho amanhã. Eu tenho ainda um mês para me recompor, para preparar a entrada do mais velho para a primeira classe e a entrada do mais novo para a creche. E para dormir todas as sestas que conseguir, para ler e sair sozinha - é como se as minhas férias começassem agora. E respirar fundo muitas vezes, lembrando que falta uma mês para voltar à vida real. É que, por muito que o deseje, estou ansiosa por ver como nos vamos adaptar à nova vida trabalhadores + pais de três. Estou confiante, apesar de estar quase a bater com a cabeça no teclado. Se conseguir resistir a esta falta de sono, então será oficial: sou invencível!

julho 14, 2017

(um parênteses para dar sentido ao drama de ontem)



Imaginem o cenário: um chalet de escuteiros, em pleno bosque. Uma casinha de madeira preparada para a festa de fim de época do clube de futebol dos miúdos. Carnes na grelha, vinho, cerveja e champanhe para quem prefere bebidas mais leves. Saladas frias, tartes e bolos. Tudo organizado pelo treinador dos miúdos, incansável.

Imaginem os protagonistas: os Bambinis da época 2016/2017, sempre à procura de uma bola de futebol para improvisar um jogo qualquer. Os pais, os irmãos dos miúdos à volta das mesas, conversando em três línguas diferentes, partilhando as traquinices dos miúdos. Bebés e miúdos crescidos a correr pelo bosque, à procura de um tesouro que o treinador escondeu algures.

Estava tudo bem. Tínhamos comido e bebido, o Vicente tinha jogado muito à bola, a Amália tinha fugido vezes sem conta e arranjado mais umas quantas cicatrizes nas pernas e outras tantas marcas de urtigas. Alguns pais já tinham ido embora, nós decidimos que era a nossa vez. Despedidas feitas, recolhemos os miúdos e vemos um dos pais a passar a correr, sangrando de um dedo. Normal, pensei eu, talvez se tivesse cortado numa garrafa. Mas quando realmente saímos do chalet, percebemos que algo de grave tinha acontecido. Outros pais pediram aos miúdos para brincarem no bosque, nós ficámos frente à entrada porque estávamos de saída. O Mário foi perguntar o que se passava e como podia ajudar, está-lhe no sangue, é muito mais forte do que ele. E foi quando voltou, com outro pai e algum gelo, que se deu o primeiro choque: o outro pai não se tinha apenas cortado - metade do seu dedo tinha ficado nas grades do campo de futebol. 

Tentando acompanhar o pai, que ia salvar o que podia do dedo para que se pudesse coser depois, o Vicente percebe o que se passa e vê, ao mesmo tempo do que eu, o resto do dedo nas grades. Foi o terror e faltaram-me os braços para agarrar os meus três filhos e garantir que estava tudo bem. Já tinham chamado a ambulância e tentavam manter a calma lá dentro quando outro pai vem a sair e, subitamente, cai redondo no chão. O Vicente começou a chorar ainda mais e eu já não sabia o que havia de pensar: naqueles segundos iniciais, não era claro se o senhor tinha apenas desmaiado. Aparentemente, foi a reacção àquela visão que o fez perder os sentidos.. Eu continuei abraçada aos dois (Vicente aterrorizado, Amália choramingando por solidariedade com o irmão) e com uma mão no carrinho do bebé.

Depois de nos assegurarmos que havia gente suficiente para tomar conta dos dois acidentes, fomos embora. No carro, explicámos que é necessário falar sobre estas coisas e não guardar nenhum medo cá dentro, que o pai do menino seria tratado no hospital e que voltaria ao "normal". A noite prometia ser agitada mas teve apenas um breve ataque de sonambulismo sem consequências de maior.

Talvez o maior terror e desconforto tenha sido o meu. Não consigo tirar da cabeça a imagem do dedo sobre as grades e a expressão do Vicente quando percebeu o que se passara. Não consigo ainda entender como é que um dia tão tranquilo e inofensivo pode acabar numa sucessão de gritos e algum terror. As imagens repentem-se sem fim na minha cabeça. E sei que há-de passar mas agora é só no que penso. Nisso e nos dois pais acidentados e em como é que posso proteger os nossos filhos da violência e da dor.

julho 11, 2017

(um parênteses para falar de uma Festa)



Sábado à noite. Já não me lembro da última vez que saí e muito menos da última vez que saí sozinha mas este Sábado aconteceu. Perdi o incrível concerto dos Arcade Fire em Paredes de Coura em 2005. No Meco, com o meu cunhado, saímos pouco depois do concerto começar, exaustos de um dia de trabalho. Não podia perder esta oportunidade, era impossível.

À minha mãe ainda faz confusão que eu vá a um concerto sozinha. Aceito - normalmente, são ocasiões em que estamos acompanhados, só a dois ou num grupo de amigos. Mas e quando gostamos muito de uma coisa e não há quem nos queira/possa acompanhar? Há uns anos valentes que decidi que não deixo de fazer nada por falta de companhia. Para poder assistir ao concerto neste Sábado, precisei que o pai dos meus filhos ficasse com eles e tenho a sorte de ser ele um homem descomplicado e capaz. Pude ir sem nenhum remorso ou sem pensar se eles estavam bem entregues ou não.

Não me lembro da última vez que dancei tanto, juro! O concerto foi sobretudo uma festa dançante e há muito tempo que não via uma banda que se entregasse tão livemente ao prazer de estar em palco e de dar prazer aos outros. Num palco de 360º, o público teve a possibilidade de ver todos os elementos da banda trocando de instrumentos, incitando à dança, gritando e cantando (Wake up, Everything now, No cars go, Reflektor, Power out, Rebellion, entre outras tantas). Um calor terrível dentro da sala. Um casal ao meu lado que abandonou o concerto depois dele ter sofrido uma quebra de tensão. Não arriscar sequer ir buscar uma garrafa de água para não perder o lugar perto do palco. Tanto calor que a única solução foi aceitar o suor, as roupas coladas ao corpo e imaginar que perdia alguns quilos dispensáveis. Concerto a acabar às dez da noite: em Portugal, isto deve parecer uma coisa de choninhas. Eu cá aprecio: não é demasiado tarde, ainda era de dia quando saí e para quem, como eu, tem filhos bebés, ainda se chega a casa a horas de tratar do que é preciso. Um pedaço de pragmatismo depois da poesia que foi gritar, fazendo parte daquela celebração como mulher apenas e não como mãe de três filhos.

Por uma escolha nossa (voluntária muitas vezes, noutras fruto da falta de opção) não costumamos sair à noite. Não temos quem nos fique com os miúdos (claro, há babysitters, mas honestamente nunca nos sentimos capazes de tomar essa decisão) e isso limita-nos muito os movimentos. Não é de estranhar que estejamos mais vezes a dois quando vamos a Portugal: afinal, lá temos a nossa família, a quem confiamos os miúdos sem pestanejar. Por isso, estes momentos são duplamente saborosos. E são quase terapêuticos: são um bálsamo para a alma, especialmente naqueles momentos em que me lembro que há toda uma vida que não inclui fraldas, birras e noites sem dormir; há toda uma vida que era a minha antes de ter filhos e da qual sinto (pontualmente) saudades.

Sábado à noite, dez e tal da noite. Faço a viagem de volta a casa de janela aberta, a saborear a brisa que veio acalmar o imenso calor que se sentiu durante o dia, uma lua cheia impressionante à minha direita, a auto-estrada quase vazia. Rodo a chave na fechadura com jeitinho, a casa em silêncio, todos dormem e sobra ainda uma réstia de luz do dia que agora acaba. Apanho na garrafa de água e deito-me com aquele zumbido bom nos ouvidos. Custou-me a adormecer.

junho 30, 2017

Crise de meia idade

Treze anos a blogar tem destas coisas. Já fiz muitos balanços neste blog, olhei muitas vezes para trás e surpreendi-me quase sempre: treze anos a escrever sobre a minha vida é muita, muita fruta, especialmente se pensarmos no que se encontra por aí (como neste site ou neste). Mudei tanto e a minha vida mudou tanto que às vezes parece que foram pessoas diferentes a escrever em meses (anos) diferentes.

Este blog chegou a uma crise de meia idade, (ainda) não fui eu. Questiono-me cada vez mais sobre o que é aceitável escrever aqui, sobre o que pode interessar aos outros, sobre o que me apetece revelar. Na maioria das vezes, acho que, não trazendo nada de novo ao Mundo, mais vale manter-me calada. Noutras, é a abundância de blogs pessoais com o seu próprio estilo, com a sua própria voz que me faz desistir de escrever: afinal, que interesse tem ser apenas mais uma? Porquê continuar, se a única coisa que posso oferecer é uma vida que, diga-se em abono da verdade, não está muito longe do banal? Depois há ainda outras vezes em que vejo como tudo isto se tornou num negócio para algumas pessoas, que confundem a sua vida com publicidade encapotada e lembro-me de quando comecei a escrever: um blogger não era um influencer nem um trend setter; muitos eram pessoas que escreviam genuinamente bem, muitas vezes tinham graça, sabiam contar a sua história. Sinto-me uma dinossaura da blogosfera, é o que é.

Não quer dizer que vá fazer uma pausa oficial ou que deixe mesmo de escrever aqui. Não me estou a despedir, até porque nem consigo: todas as vezes que pensei em acabar com este blog acabaram comigo a ficar triste, sem conseguir imaginar como seria se este espaço deixasse de existir. Mas, como nessa crise de meia idade, questiono-me sobre o meu lugar aqui, sobre os assuntos sobre os quais posso e quero escrever, sobre a voz que quero fazer ouvir. Não vos quero maçar com banalidades, especialmente agora que a minha vida se resume a tratar de três filhos e a manter a casa longe do caos. Não quero ser especialista em nada, nem escrever sem paixão. Por isso, regressarei assim que me sinta mais inspirada, quer isso seja daqui a umas horas, dias ou meses. Obrigada por não desistirem, mesmo nos dias menos interessantes e até já!