junho 11, 2017

Dia da Mãe para mim, que sou muitas mães diferentes

É amanhã que se comemora o dia da Mãe aqui no Luxemburgo. Como as escolas estiveram de férias esta semana, as prendas vieram antecipadas, porque os miúdos não quiseram perder tempo. Antes das férias, ainda fui uma manhã à escola do Vicente participar na tradicional actividade do dia da Mãe. Este ano assistimos a uma canção que eles ensaiaram durante umas semanas, tomámos o pequeno-almoço juntos e eu comecei a magicar no que vai acontecer quando os outros dois também tiverem actividades destas. Como vou multiplicar-me para participar em três celebrações diferentes?

Desejos de ubiquidade à parte, a verdade é que eu sou mesmo três mães diferentes. Sou a mãe mais paciente, melhor ouvinte e deslumbrada com o mais velho. Ele foi o único filho durante quatro anos, três dos quais passámos aqui, longe de tudo, apenas uma ilha de três. Ele teve muita da nossa atenção indisputada, ele teve brinquedos feitos de cartão inventados por nós, teve o nosso amor concentrado num ser pequenino e sempre de coração na boca. Ele teve direito a mil fotografias, a um blog só dele, ele foi o nosso primeiro teste de força.

Depois sou a mãe autoritária e disciplinadora com ela, que sofre da síndrome do filho do meio. Ela foi muito esperada e desejada: tínhamos o rapaz, ela vinha fazer o pleno e realizar aquele sonho banal de ter um casalinho. Ela esgotou-me as forças e fez-me bater fundo, obrigou-me a pedir ajuda e fez-me desejar estar sozinha. Ela é absorvente, insistente, ela é teimosa, ela desafia-nos a todos os minutos, ela quer e ela tem de ter. Dizem que é por ser menina, não sei. Só agora está a começar a conseguir expressar-se (em paralelo com o Português e o Francês, o mundo começa a fazer sentido naquela cabecinha dela) e só agora mostra algumas atitudes espontâneas de carinho. Ainda ontem fez uma birra tal que o empregado do hotel me sugeriu que podíamos esperar com os miúdos lá fora - é este o género. É a menina do papá e isso às vezes magoa-me

E finalmente sou a mãe do bebé, do pequenino que veio desequilibrar as contas. Do filho que dorme melhor, que é mais mansinho e que mais precisa de mim agora. Do bebé a quem beijo talvez mais do que ele gostaria mas é necessário porque ele é o meu último bebé e não vou poder mais beijar bochechas pequenas assim. Sou a mãe que o trata como porcelana, que ainda tem perguntas sobre coisas de bebés mas que já confia (um bocadinho) mais no seu instinto.

Também sou a mãe mais desequilibrada que conheço: tão depressa tenho dias em que sinto que consigo tudo - tratar da casa, resolver problemas, tratar dos miúdos sem pestanejar - , como tenho dias de nervosismo e exaustão, em que tudo me parece impossível e em que me sinto uma falhada em qualquer passo que dê. Se há coisa que os meus filhos me deram, foi a capacidade de olhar para as minhas conquistas e as minhas fraquezas com muita transparência e sentido auto-crítico. O que (infelizmente) não me deram foi a capacidade de perdoar os meus próprios erros, a habilidade para distinguir o que é obrigatório do que é supérfluo, a aceitação da realidade: é impossível estar em todo lado, o tempo todo, com as minhas qualidades intocadas.

Estas férias deixaram-me fragilizada, especialmente no papel de mãe. O cansaço, o desfasamento entre o comportamento que eu desejava nos meus filhos e aquele que eles realmente têm, uma alergia dos diabos a qualquer coisa que ainda não sei o que é levaram-me ao limite. A fragilidade teve o seu pico numa estação de serviço alemã, quando eu enfiei a chupeta da miúda no bebé e não conseguia encontrá-la. Chorei desalmadamente quando percebi a dimensão do meu cansaço, enquanto eles riam a bandeiras despregadas - afinal, aquilo era divertido! E descarreguei um valente pedaço de stress mas ainda não o suficiente para me sentir normal outra vez. Ter parido três filhos faz-me sentir uma super mulher mas educá-los traz-me de volta à realidade. Mesmo em silêncio, hei-de celebrar o dia da Mãe porque não há nada, mesmo nada na minha vida tão importante e tão difícil ao mesmo tempo.

junho 10, 2017

Os cinco na Dinamarca e na Suécia

Ah, a Escandinávia! Esse conjunto de países sempre nas listas dos mais felizes e mais desenvolvidos do Mundo, apenas separados do Luxemburgo pela gigante Alemanha. Sempre desejei conhecer esses quatro países e, no entanto, eles sempre me pareceram inalcançáveis. Não sei explicar bem porquê mas sempre senti que seria difícil ir lá, mesmo sabendo que estão aqui perto e fazem, ainda por cima, parte da Europa. Então decidimos que nestas férias de Pentecostes (uma semana entre Maio e Junho) pegaríamos no carro e visitaríamos pelo menos dois deles. Os escolhidos, por razões de mobilidade e tempo disponível, foram a Dinamarca e a Suécia. 


Depois de mais uma viagem medonha (fazer mil quilómetros num dia com três crianças no carro para pouparmos tempo foi, digamos, uma escolha arriscada...), chegámos a Copenhaga às nove da noite. Como agora somos cinco, torna-se difícil marcar apenas um quarto de hotel e, para poupar no alojamento, decidimos começar a recorrer ao Airbnb*: podemos ter uma casa só para nós, com todo o conforto, possibilidade de cozinhar, pelo preço de apenas um quarto de hotel.

De Copenhaga, vimos aquilo que a chuva nos deixou: a Pequena Sereia, cheia de turistas amontoados, que quase se empurravam para chegar mais perto; igrejas bizarras e imponentes; os quarteirões de prédios todos iguais; o que resta de um bairro de pescadores; a incrível zona de Amager Strand, onde passeámos junto ao mar, admirando o trânsito marítimo, os moinhos eólicos, a ponte de Orensund e onde, fustigados por um vento selvagem, três de nós se constiparam. O tempo foi curto para decidir se é daquelas cidades onde me imaginaria a viver mas considerando a proximidade do mar, o estilo de vida descontraído e saudável, os supermercados com horários decentes e as muitas crianças que vimos, mesmo à chuva, diria que sim. O contra? O cinzento dos dias, claro. Aquele cinzento opressivo que nos esmaga, o  vento, a chuva, o Verão nórdico.


Seguiu-se a Suécia. Atravessa-se a ponte de Oresund em menos de trinta minutos e estamos do outro lado da Escandinávia. Demos um salto a Malmö mas apenas para comer qualquer coisa e fazer tempo para chegar ao nosso destino final, Falsterbo, numa espécie de península que acaba num campo de Golfe mesmo à beira mar. Campos de golfe que, descobrimos depois, se multiplicam no pedaço de costa sueca que visitámos, o verde do green sempre a contrastar com o azul (nuns rasgos de sorte) ou o cinzento do céu (o que mais vimos). Subimos até ao farol de Kullaberg, almoçámos em Mölle, uma aldeia costeira perdida onde assistimos a uma valente trovoada, o restaurante apenas servia um prato e em que a dona do mesmo tinha trabalhado dez anos com um chef português. Ficou espantada de ver uma família portuguesa por ali (durante anos, apenas outros dois casais apareceram por ali) e, considerando-nos exóticos, pediu-nos para nos fotografar.

Comemos schnitzel à moda sueca (com pepino em pickle, anchovas e alcaparras), umas fatias de Prinsesstarta (melhor bolo de sempre!), provámos a verdadeiras Kannelbulle (as do Ikea não se ficam atrás). A tempestade alternou com o céu azul, os Suecos revelaram-se simpáticos, o Inglês fala-se por todo o lado.  Fiquei fascinada com a costa: a vegetação vai mesmo até ao mar, não vimos grandes areais, apenas praias de pedras bem grande e casas que ficam entre bosques frondosos e a beira mar.

O que fiquei a invejar deste dois países? A forma como as pessoas vivem a sua vida independentemente nas condições meteorológicas e a maneira incrível como o fazem em plena comunhão com a Natureza. Vimos tantas pessoas a caminhar, a correr, de bicicleta pelos quilómetros de caminhos junto à costa, crianças e bebés incluídos, enquanto chovia ou eram fustigados pelas fortes rajadas de vento. Estas pessoas aceitam a Natureza na sua magnificência e não deixam que nada os páre. Já eu, mesmo depois de cinco anos a viver aqui (bem sei que não é exactamente um país nórdico mas pronto), ainda vivo com aquela mentalidade sulista: epá, se não está Sol, não vou arriscar nenhuma actividade fora de portas.

Tenho meenos vontade de conhecer a Finlândia mas um desejo gigante de nos aventurarmos nos fiordes noruegueses. Escandinávia nos aguarde, que nós vamos voltar!

maio 30, 2017

Um elogio da mediocridade

(Este post é inspirado neste artigo, que descobri através deste blog. É incrível como nos últimos tempos tenho encontrado pessoas que exprimem na perfeição os meus próprios dilemas.)

Depois de um período de alguma ansiedade, limpei das minhas redes sociais aquelas pessoas/contas que me faziam sentir uma péssima mãe/mulher por não conseguir ser perfeita. Os miúdos perfeitamente vestidos e comportados, a casa perfeitamente decorada e limpa, as refeições perfeitamente planeadas e saudáveis, as viagens perfeitamente organizadas - a pressão era demais. Mas a culpa nem sequer é dessas pessoas que fazem tudo parecer simples e atingível - a pressão é, em último caso, auto-imposta e por isso só eu tenho a chave para me desfazer dela.

As viagens de avião são um belíssimo exemplo de como as nossas expectativas e a possibilidade de concretizar os nossos desejos mudaram nos últimos 10, 20 anos. Lembro-me de ser adolescente e as viagens de avião eram uma coisa séria. Não estavam reservadas para o comum dos mortais, muito menos à classe média em que sempre vivi. Custavam, muitas vezes, centenas de contos e não nos faziam sonhar que era possível ir a todo o lado. Hoje em dia, todos sabemos, viajar de avião pode mesmo ser mais barato do que viajar de carro. O incoveniente de ter de voar é largamente suplantado pela vantagem de demorar muito menos tempo. Hoje parece que podemos ir a qualquer lado no Mundo. E não é exactamente verdade, muito mais quando se pensa que agora somos uma família de cinco (quatro bilhetes de avião completos, a multiplicação dos quartos de hotel, as mesas nos restaurantes...).

Mas não são apenas as viagens. Hoje parece que é proibido não ambicionar a ter a vida perfeita. Hoje parece que somos obrigados a inscrever os miúdos em mil actividades, a ser uns pais sempre pacientes e positivos, a comportarmo-nos como dois miúdos apaixonados mesmo que no final do dia só nos apeteça fechar os olhos e dormir, a termos sucesso nas nossas profissões, a encontrarmos a profissão ideal para "nunca mais trabalharmos um dia na vida", a termos o último modelo da moda, a viajarmos para os sítios mais incríveis, a comermos nos sítios mais in. Desejar menos que isto é sermos um extraterrestre, uma anomalia de feeds de amigos e de notícias.

Não quer isto dizer que eu não tenha ambições. Ou que não deseje o melhor para mim e para a nossa família. Simplesmente, acho que o segredo é adaptar as expectativas à realidade e àquilo que podemos realmente alcançar.  Para mim, a escolha é entre isso e ter de viver na frustação  de não conseguir  acompanhar as últimas tendências. É conhecer as nossas limitações e continuar a sonhar mas com os pés bem assentes na terra. É não ter medo de não ter uma vida espectacular e aprender a apreciar a nossa vida enquanto ela acontece, porque é essa a nossa riqueza. Sem salas perfeitas, sem a última novidade em brinquedos, sem aquela tosta de abacate que é o último grito da alimentação, sem frases feitas e com muita, muita imperfeição. Com as refeições que não merecem ser fotografadas, com os gritos que às vezes damos aos miúdos, com tupperwares que valem mais do que bonecas, com passeios em que o principal objectivo é mantermos a nossa sanidade, os cinco dentro do carro.

Se eu tivesse que subscrever um manifesto, seria por bebés que crescem mais ou menos depressa; por vidas que às vezes são difíceis mas sem artifícios; por filhos que não dormem a noite toda; pelos copos de vinho que me apetece beber; pelos livros que consigo ler às mijinhas com uma espécie de laterna para não acordar o bebé; pelo monte de roupa que se acumula à espera da triagem ou simples arrumação; por todas as sestas que ficam por dormir; pela sensação de que, a cada filho, a maternidade fica mais fácil; pelas birras sempre irracionais e dramáticas; pelas cólicas e perguntas difíceis; pelos pais que às vezes discordam mas no fim se entendem; pelos momentos em que estão os três a gritar/chorar ao mesmo tempo; pelos pesadelos e xixis a meio da noite; pela erva do jardim que não se corta sozinha; pelas chuchas que se perdem dentro de casa; pelas obras no vizinho que acabam com as sestas (que já de si eram complicadas...). A nossa vida muitas vezes é chata e sem glamour mas, garanto-vos, nunca, mas nunca monótona!

maio 14, 2017

Crónica de um dia do demónio

(na verdade, este post começa ontem, quando decidi espreitar só o festival da canção para ver como paravam as modas e acabei a ver tudo até ao momento inacreditável em que Portugal ganhou. Tudo isto quando sabia que tinha de me levantar pouco antes das quatro da manhã para apanhar um avião...)

4:20 am - chego ao balcão do check-in no terminal dois e sou atendida por uma funcionária carrancuda que primeiro me pergunta se vou viajar com a criança (o pequeno Augusto, entenda-se). Quando respondo afirmativamente, pede-me a declaração paterna de que ele pode sair do país. Entrando ligeiramente em pânico, respondo que tenho três filhos, já viajei com eles separadamente em ocasiões diferentes e nunca me foi pedida tal declaração. Depois de muitos argumentos tolos (se queria sair do país, porque não tinha a criança um passaporte? Espaço Schengen, duh.), lá a convenço que temos residência permanente aqui e que o pai nos espera. Ela pede que não me exalte, eu já estou que nem posso.

4:40 am - sou convidada a passar no controlo de bagagem no fast track. Funciona impecavelmente e não há ninguém à nossa frente. Quando terminamos, estamos directa em frente às portas de embarque.

4:50 am - amamento o miúdo tranquilamente mas cheia de fome. O primero café abre às cinco mas toda a gente do terminal já está a fazer fila. Abro um saco de cajus, como uma mão cheia e vou embarcar sem tomar o pequeno-almoço.

5:30 am - Entro depois de meia dúzia de passageiros prioritários e antes do resto dos passageiros. Viajar com bebés rende sempre.

6:20 am - o voo leva uns dez minutos no ar e passa uma miúda a correr para a casa de banho. Demoro a processar o que aconteceu: leva a cara cheia de vómito, que vai pingando para o corredor do avião e salpicando alguns passageiros. O cheiro é nauseabundo e sinto pena dos comissários de bordo que, de imediato, calçam as luvas, empilham guardanapos e enchem copos de água e limpam tudo o melhor que podem.

8:55 am - o miúdo porta-se lindamente durante todo o voo e aproveito para o ajudar na aterragem, amamentando-o. O piloto faz uma das piores aterragens de que tenho memória: o avião parece que salta e vai partir-se em dois. Alguém esboça um aplauso muito fraco, o resto dos passageiros está demasiado aterrorizado para reagir.

9:30 am - finalmente posso comer e tenho a sorte de comer um mil folhas, acompanhado de um galão. Ainda não estou em mim e penso que toda a gente à minha volta fala Português. Por acaso, é mesmo verdade.

10:15 am - vamos directos para o torneio de futebol do mais velho que durará até às quatro da tarde. Não há tempo para refrescar, deixar as malas em casa ou fechar os olhos durante uns minutos - ele precisa de nós. Não consigo imaginar maior tortura do que seis horas de futebol depois de uma manhã agitada mas ele merece tudo.

12:15 pm - almoço uma salsicha e uma daquelas bebidas dos atletas, entre um aguaceiro e o Sol que volta de repente. O treinador do miúdo passa e diz que ele tem que aprender a perder.

2:15 pm - o miúdo chora sempre que lhe tocam e sempre que as coisas não lhe correm como quer. E também sempre que perde um jogo. Ou seja, passa a tarde inteira a chorar, enquanto não simula uma falta e se manda para o chão. Os outros pais riem-se.

5:30 pm - depois da mala desfeita e de alguns amassos no miúdo, é hora de levar o marido ao aeroporto. Agora vai ele para Lisboa enquanto eu fico a capitanear o barco aqui. Estou com os meus dois miúdos, nada temo. O miúdo chora na despedida do pai, o bebé chora assim que chega a casa. Mesmo assim conseguimos tomar banho os dois.

7:40 pm - o bebé não consegue dormir, ora com os ruídos, ora com as dores de barriga. Abanamo-lo à vez até que adormece mais um bocadinho. Assim que nos dá uma abébia, desenrasco um jantar à pressa porque a única coisa que quero hoje é fechar os olhos. O bebé está na mesma e o mais velho também precisa de descansar do berreiro da tarde.

8:19 pm - finalmente consegui pôr o bebé a dormir na cama e parece que é de vez. O mais velho quer dormir comigo e não consegue moderar o tom de voz, pelo que lhe dou a escolher: o silêncio ao pé de mim ou a galhofa solitária na cama dele. Adivinhem o que escolheu. Não posso teclar mais, ainda assim não acorde o pequeno. Ou adormeça sobre o teclado.


maio 07, 2017

Dia da Mãe (7 anos para mim, 37 para ela)


Hoje é dia da Mãe e mais do que nunca acho que foi preciso ter sido mãe para compreender a minha própria mãe.Pode não ser verdade para toda a gente e pode mesmo haver quem, não experimentando a maternidade, compreenda a sua própria progenitora mas eu acho que ajuda muito passar pelo mesmo.

Talvez a melhor definição do que a minha mãe sempre foi para nós se possa traduzir num acontecimento nestes últimos dias. Em conversa, eu disse que andava com vontade de fazer um bolo de cenoura e ontem ele ali estava, com aquela cobertura de chocolate malandro e sem que eu tivesse que mexer uma palha. A minha mãe nunca se esquece de nada, mesmo aquelas coisas que se mencionam de raspão numa conversa. E, mais do que não se esquecer, ela gosta de nos fazer as vontades e de nos fazer surpresas. Ele é um pijama novo na gaveta, ele é aquela tomatada de que sentimos saudades, ele é esticar o colo para caberem os três netos.

Eu ouço a minha mãe hoje em muito do que digo aos meus filhos, quer queira, quer não. Mas reconheço que às vezes acho que não vou ser capaz da mesma abnegação com os meus filhos: a minha mãe sempre nos colocou acima de todas as coisas, eu continuo a achar que há coisas em que eu estou primeiro. Enquanto escrevi, a minha mãe cozinha vários pratos para que a minha irmã não tenha que se preocupar durante a semana e só não faz o mesmo por mim porque não dá jeito a troca de tupperwares a 2000km de distância. A minha mãe até mudou e às vezes nem se chateia quando lhe perdemos a tampa de um tupperware ou quando nos esquecemos do saco térmico.

A minha mãe ensinou-me que às vezes dói fazer a coisa certa: aquilo que precisamos fazer pode doer-nos a nós e também aos nossos filhos. Mas estas dores são necessárias para que todos possamos crescer e ela não mo explicou - sentimos as duas estas dores de crescimento, houve períodos em que nos afastámos, em que não nos compreendemos mas soubemos sempre voltar a um plano de entendimento.

Não somos de muitos abraços e beijinhos - bem, talvez eu não seja de abraços e beijinhos mas ela sempre esteve lá para me amparar as quedas e eu, cada vez mais, recorro à sua sabedoria e aprecio a sua aprovação. Felizmente tenho tido um bom modelo e, mesmo que tenha cá as minhas ideias e que possamos divergir em algumas coisas, sinto-me sortuda por ter uma mãe assim. E é verdade que sou muito má a dizer estas coisas mas desenrasco-me melhor a escrever e por isso lhe escrevo hoje Feliz dia, minha Mãe!

maio 05, 2017

Quase um mês de Portugal

Estou cá quase há um mês, parece mentira. Primeiro éramos cinco, depois ficámos três.

Como sempre, fui naive e pensei que poderia descansar um pouco. Afinal, os meus pais (e, ocasionalmente, a minha avó) têm tempo para ajudar. Mas, como sempre, não é isso que tem acontecido. É o que dá ter uma filha que tem uma personalidade exuberante, à falta de outro adjectivo. A necessidade dela de chamar a atenção tem crescido e tem sido difícil de conter e por isso, se ela estiver acordada, é sempre preciso chamá-la, convencê-la, afastá-la, acalmá-la, gritar, impedi-la, guiá-la, compreendê-la, inspirar fundos vezes infinitas, recordar que ela não tem segundas intenções e só quer centro o centro das nossas atenções. Faz-me sentir que estou a falhar a toda a prova, sinto-me frustrada por não encontrar a maneira certa de me fazer ouvir, mesmo quando me lembro que todo este desnorte é o resultado de ainda não saber comunicar decentemente e de estar a competir pela atenção com o mais novo da casa. Isto não são os terrible two, são os monstruous, fearful two e eu não estou preparada para que isto ainda piore um pouco. Valem-me os momentos em que ela é uma miúda doce, enviado beijinhos a toda a gente, espalhando Bonjours por todo o lado, aprendendo mais e mais palavras em Português (sendo coitadinho! a minha preferida, cortesia da minha avó que a repete frequentemente para o bebé), dançando as canções do Panda. É um equilíbrio super ténue entre um pequeno monstrinho indomável e um docinho bilingue e picuinhas.

O senhor Augusto deixa pouco para contar. Mama e dorme infinitas vezes melhor que os seus irmãos, distingue na perfeição o dia da noite, é simpátivo e risonho quando está acordado e só sofre ainda um pouco da sua barriguinha mas melhora a olhos vistos. Agradeço ter-me calhado em sorte um bebé assim porque se tivesse um bebé chorão ou um bebé que precisasse de estar sempre colado a mim ou que precisasse de imensa atenção - bem, o cocktail seria explosivo com a sua irmã do meio.

No meio destes dois, tem-me sobrado tempo para ver alguns amigos e família, vi uma mão cheia de episódios em atraso, consegui ler um livro (E a noite roda, da Alexandra Lucas Coelho, o seu primeiro romance, inspirador e comovente e, ao mesmo tempo, um valioso testemunho histórico sobre o conflito israelo-palestiniano), cozinhei uma ou duas vezes. Tenho planos para ler mais três livros na semana que falta até voltar a casa, já perdi a esperança de aprender a tricotar uma camisola (lãs, agulhas e uma diva de dois anos não combinam de maneira nenhuma...) e ainda espero bordar qualquer coisa em ponto cruz. Não sei de onde vem esta vontade grande de trabalhos manuais mas gostava de descobrir alguma coisa em que fosse boa para me distrair e oferecer aos outros. Não são exactamente as férias de que estava a precisar mas são as melhores que se podem arranjar e sinto-me grata por isso.

abril 25, 2017

Portalegre, Abril de 2017





Hoje é feriado e isso não ajuda: a cidade está quase deserta. À parte dos polícias que trocam de turno e um ou outro carro que desce a rua da Torre do Pessegueiro, não encontro ninguém. Nenhuma manifestação espontânea com cravos, ninguém a celebrar a liberdade, nenhuma palavra de ordem ecoa pelas ruas desertas contra as paredes descascadas.

Os dias passam por mim sem que eu saiba a quantas ando, a licença de maternidade é um fim de semana permanente na minha cabeça. Pego na mochila e faço-me ao caminho pelas ruas que sempre conheci. Mesmo assim, constato que não conhecia muitos nomes das ruas por onde passo: as minhas coordenadas sempre foram mais emocionais do que geográficas. Por entre portas e janelas, as cortinas balançam com a aragem quente deste dia que acordou em nevoeiro cerrado. Às vezes escuto uma televisão no programa da tarde, uma voz que pergunta se a carne está temperada, o som de pratos a serem lavados num lava-louças de mármore. Lembro-me nesta minha expedição que há ruas em que os carros não cabem e vejo que há muitas casas fechadas por onde passo.

A medo, espreito um jardim que sempre tive curiosidade de conhecer. É frondoso, misterioso mas parece abandonado. Como abandonadas estão tantas casas, montras antes cheias de vida, prédios inteiros que só se aguentam de pé sabe-se lá como. É um caminho feito de memórias de infância guardadas num espaço a que não acedo com frequência, percursos gastos e outros tantos que nunca fiz vezes suficientes. Já no final, terras a perder de vista, como se o mar estivesse lá bem ao fundo. Limoeiros tão carregados de frutos que a imagem de uma tarde se materializa imediatamente na minha cabeça. O silêncio do feriado e os bancos vazios de senhoras a cochichar. Tudo debaixo de azul, tudo entre a luz e a sombra, o calor precoce de Abril. E eu, como uma estranha, pelas ruas que antes não via mas conhecia tão bem.

abril 22, 2017

Luxemburgo - Bayonne - Portalegre

Primeira viagem a cinco e, surpresa!, não vou dizer que foi um sucesso. Aproveitámos as férias da Páscoa para trazer o pequeno Augusto a conhecer a família e os amigos. Procurei os bilhetes de avião para os cinco demasiado perto da data e enfim, o preço andava na casa dos quatro dígitos, o que nos facilitou a decisão de virmos de carro.

Nós, os adultos, gostamos de fazer viagens longas e também de conduzir, por isso a ideia de viajar durante dois dias não nos incomoda. Só que não nos podemos esquecer que agora temos três crianças a viajar conosco, todas com diferentes necessidades de atenção e formas de satisfazer as necessidades básicas. Mesmo os planos pensados com alguma antecipação (livros de autocolantes, filmes para durar alguns dias de viagem, comida) não foram suficientes para conter tanta frustração e acalmar os ânimos quando mais foi necessário.

Somemos a isto um GPS que escolheu um caminho errado sem que nós nos apercebêssemos (digamos que duas horas para apenas contornar Paris estavam muito longe dos nossos planos...), um bebé cheio de fome e muito calor em pleno engarrafamento, uma miúda birrenta e muito cansada e é coisa para explodir a qualquer momento. Apenas se aproveitou o mais velho, que praticamente fica hipnotizado assim que começa um filme ou um episódio de animação e que quase não abriu a boca durante dois dias de viagem! Claro que precisámos parar mais vezes do que tínhamos idealizado e assim, em vez das 10 horas de viagem que o GPS previa para o primeiro dia, acabaram por ser 14 horas. Chegámos ao hotel perto das 9 da noite e éramos apenas dois farrapos humanos adultos e três crianças a precisarem de colo, comida e de uma cama ASAP.

O segundo dia de viagem é sempre mais fácil: são menos quilómetros, trânsito quase inexistente nas auto-estradas espanholas, a meteorologia a ajudar, a perspectiva de chegar ao nosso país a cada quilómetro que fazemos. Longe vão os tempos em que o Vicente via qualquer casa ou prédio no horizonte e perguntava se era a casa dos avós, não importa em que país... Já conhecemos as estações de serviço e sabemos onde podemos almoçar aquelas tapas marotas. Há sempre aquela emoção sempre que numa placa se lê Portugal e a satisfação de entrar pela fronteira em Valência de Alcântara, com Marvão ao fundo e a serra de São Mamede a separar-nos de Portalegre.

Para as pessoas que nos acharam corajosos: não é bem isso. Já aqui disse que os bilhetes de avião eram proibitivos (e será cada vez mais assim, já que dois dos miúdos já pagam bilhete inteiro), portanto era mesmo um caso de falta de alternativa. Além disso, três filhos depois, acho que estamos mais prontos para estes testes de esforço e somos capazes de ignorar birras durante um período mais longo. É preciso dizer que não pude controlar as lágrimas quando estávamos parados nos subúrbios de Paris, o bebé chorava de calor e de fome (tínhamos saído do Luxemburgo com 3 graus e, de repente, estavam 26...), a miúda estava cansada e a precisar também dormir (o que só aconteceu umas 10 horas depois...) e, apesar do engarrafamento gigante, não dava para sair do carro. Apetecia-me fugir, apetecia-me gritar impropérios contra todos os condutores que entupiam a auto-estrada e apenas me restou respirar fundo e rezar em silêncio por uma área de serviço para acalmar as hostes.

All in all, acho que saímos mais fortes destas experiências. Ou pelo menos, se a nossa sanidade mental sair intocada destas horas dentro de um carro, acho que seremos capazes de tudo!

março 19, 2017

(não está fácil...)

Acima de tudo, quero escrever este post para poder lê-lo mais tarde e rir-me do tempo em que achava que não ia aguentar. Já sei que não há outro remédio: aguentamos e pronto.

O pequeno Augusto comemora hoje dois meses de vida. Simultaneamente, penso como o tempo passou incrivelmente depressa e como estes dois meses me parecem uma eternidade. É difícil tratar de um recém-nascido mas para mim foi ainda mais difícil tratar deste que chegou antes do tempo. Nas primeiras semanas, já se sabe, a rotina era basicamente mamar e dormir, sem grande períodos desperto. Depois, começou a manter os olhinhos abertos mais ums minutos e eu e o pai tivemos mesmo direito a um sorrisinho cada (que resolveu aquela pressão de saber se já tinha dobrado o riso). Mas com o passar do tempo, o pequeno Augusto foi sofrendo mais e mais de cólicas (ou da incapacidade de deixar sair todo o gás que tem dentro) e tudo culminou na noite de ontem: cinco horas a pé, das duas às sete da manhã, a tentar aliviá-lo, quase sempre sem sucesso. Dorme aos bocadinhos, às vezes nem tem os olhos bem fechados, contorce-se com dores, está aflito. E aflita estou eu, que ao terceiro filho continuo sem ter a solução mágica para este mal e sem perceber os outros bebés a quem os intestinos nunca afligiram. Sinto um alívio gigantesco quando vejo começar o dia e tenho assistido muitas vezes ao nascer do Sol. Na minha cabeça, o mantra é This too shall pass mas, mesmo sabendo que estas dores não duram para sempre e que já dois dos meus filhos lhes sobreviveram, está difícil desligar disto e não passar os dias apenas a tentar sobreviver.

A pequena Amália também não está a ajudar, certamente por ter perdido o estatuto de bebé da família. É carinhosa com o bebé mas nunca sabe quando parar, precisamos estar constantemente a lembrá-la de que deve deixar a cabeça do irmão. Como se não bastasse um bebé a precisar de muito colo e atenção, ela resolveu elevar as suas birras a um nível completamente irracional e só muita cabeça fria (ora minha, ora do pai) nos tem impedido de enlouquecer de vez. Chegamos o fim do dia exaustos só de nos certificarmos que não faz só asneiras. Para compensar, disse o nome do irmão bebé pela primeira vez esta semana, o que me faz pensar que (lentamente) está a aceitar a ideia de que ele veio para ficar. Alterna estes momentos de loucura total (uma birra na semana passada, enquanto tinha cá os tios, consumiu-lhe todas as forças e fê-la soluçar profundamente mesmo quando dormia...) com a doçura daqueles olhos, com as perguntas que dispara a toda a velocidade, com as ocasiões em que se calça e improvisa uma mala e diz XAU, enquanto finge que vai sair.

Safa-se o mais velho e mesmo assim à rasca. É o que menos reclama tempo de antena mas sei que às vezes lhe faz falta. Vale-lhe ter passado sozinho conosco os quatro primeiros anos da sua vida e ter sido alvo único da nossa atenção durante esse tempo. Vai ajudando como pode, mesmo que seja um grande cabeça no ar. Sonha com futebol, vive para o futebol. Conta-me todos os lances em que participou quando não vou aos treinos. Imagina os golos que vai marcar antes de cada jogo de Sábado. Mas continua a ser capaz de se sentar no sofá em silêncio com um ou dois livros. Ou de fazer um puzzle a meias com o pai. Ou de ver as notícias encostadinho a mim.

Eu sei que tudo vai melhorar. Eu sei que as noites hão-de estabilizar e as dores de barriga darão lugar às dores de dentes e estas a outras dores de crescimento. Mas por agora preciso de me lembrar frequentemente que vou ser capaz. Preciso de não me comparar com aquelas pessoas que sigo nas redes sociais e que parecem ter tudo controlado. Preciso de lembrar-me que a culpa não é do meu leite. Mas também me fazia falta chorar com alguém de fora, alguém que não saiba quão longos e difíceis têm sido os nossos dias aqui. E por isso choro aqui, metaforicamente falando. Para que daqui a um ano o Facebook me lembre deste post e eu sorria, tranquilamente ou dê uma gargalhada sonora por me lembrar do difícil que era. Por agora, isto não está fácil e não há quantidade nenhuma de café que me valha.

março 04, 2017

E quando os nossos filhos não são os melhores?

Como vos contei neste post, o senhor Vicente agora é federado e representa este clube de futebol. Significa isto que o acompanhamos duas vezes por semana aos treinos e que ele vai participar este Sábado pela primeira vez num jogo a sério. Para mim, é muito emocionante ver como ele se interessa por uma actividade por iniciativa própria; para ele, é a loucura total aprender a jogar futebol e participar num campeonato verdadeiro. Nunca nos preocupámos muito em inscrevê-lo em actividades extra-curriculares, especialmente porque achamos que a escola aqui já proporciona actividades interessantes (saídas para a floresta/natação/trampolim/desporto/ateliers de pintura, construção e faz de conta). Em casa, normalmente, apenas estimulamos a leitura e o jogo livre mas o futebol é bem vindo porque chegou naturalmente e na hora certa.

Mas esta semana fiquei meio horrorizada com a atitude de dois pais que acompanhavam também o treino. Ambos estavam desapontados com a prestação dos miúdos, que pareciam não estar à altura das suas expectativas. Um deles gritava "És um zero à esquerda! Estás a fazer de propósito? Chutaste sete vezes à figura do guarda-redes! O que é que esperas alcançar com isso? Vou filmar-te a falhar para que possas depois ver o que estás a fazer!". O miúdo não terá mais de sete anos, como o Vicente.

Eu compreendo que todos queiramos que os nosso filhos tenham sucesso e sejam os melhores naquilo que fazem. Mas sujeitar uma criança a estes níveis de exigência, a esta pressão, especialmente em público, não é para mim. Acredito em deixar as crianças serem crianças e aceito se os meus filhos não forem excelentes em tudo o que querem fazer. Mas quero que eles possam escolher as suas actividades, fazer exercício físico, compreender os conceitos de disciplina, equipa e preserverança sem nunca se sentirem um falhanço. Especialmente quando esse falhanço é apenas o resultado de expectativas demasiado altas  não deles mesmos, mas dos pais. Aquilo que assisti esta semana deixou-me incomodada. Não quero julgar as aspirações daquele pai mas de certeza que não quero aquilo para o meu filho, que é, neste momento, um novato nas coisas do futebol e já tem dificuldades em escutar as instruções do treinador, quanto mais em controlar a bola ou acertar um passe.

Não há mal nenhum estimular as crianças a serem as melhores, é apenas natural. É evidente que eu não parto para qualquer actividade contente se os meus filhos forem medíocres. Mas faço o esforço de separar a realidade dos meus desejos. E acredito que devidamente estimulados, esse desejo de serem os melhores tornar-se-á natural, inseparável da sua maneira de encararem os desafios, saudável forma de se tornarem pessoas melhores. Mesmo que no começo sejam zeros à esquerda, especialmente nesse caso.



março 03, 2017

Um primeiro mês agitado

A razão da minha ausência é muito simples: tenho-me concentrado num recém nascido que começou por apenas mamar e dormir e passou depois a incluir também cólicas ou dores de barriga.

Em parte, e como já suspeitava, a transição de dois para três filhos não é nada drástica. Já praticávamos uma ginástica de distribuição de tarefas e de bom aproveitamento do (pouco) tempo que temos e continuamos com a maioria das rotinas que tínhamos antes. A diferença é que o bebé ainda exige que me concentre exclusivamente nele (principalmente quando são horas da amamentação que, apesar de correr muito bem, é sempre uma pequena luta entre nós os dois) e isso causa algum desequilíbrio se o pai não está. Sei que é uma situação passageira e que assim que passarmos o quarto trimestre (este período em que o bebé ainda devia estar no conforto da barriga da mãe) provavelmente as coisas vão melhorar. Por enquanto, levo as coisas na base da reacção e tento apagar os fogos o melhor que posso (acudir à pequena a meio da noite com o bebé na mama, por exemplo, implica uma certa ginástica...).

A amamentação, já o disse, vai bastante bem mas deu pano para mangas. Sendo ele um bebé prematuro, estava sujeito a horários rígidos de alimentação enquanto estava na unidade de neonatologia - de quatro em quatro horas em ponto, uma quantidad3e de leite pré-estabelecida. Quando pôde ir para casa, as instruções eram basicamente as mesmas, apenas com o conselho de deixar o biberon e passar apenas à amamentação directa. Na primeira consulta de seguimento com a parteira, ficou claro que o peso do Augusto não tinha aumentado muito mas que devia continuar a evitar o biberon. Depois, seguiu-se uma consulta com a pediatra que foi um balde de água fria: a médica achava-o desidratado, ainda com icterícia e com um ganho de peso muito fraco. Eu sabia que ele não tinha aumentado muito mas achava que estaria longe de desidratado mas se a médica o dizia, quem era eu para discordar? Saí da consulta desolada, sem perceber se estava a fazer a coisa certa e muito desmoralizada por, aparentemente, não estar a ler bem os sinais do meu bebé. 

Mas nesse mesmo dia, umas horas mais tarde, tive a segunda consulta com a parteira, a quem contei o que se passara e a quem expliquei as minhas dúvidas. Sentia-me ridícula: afinal, ao terceiro filho, esta mãe não percebia nada do assunto de manter um bebé vivo e em boas condições de saúde? Depois de examinar o bebé e de o ver a mamar, a parteira achou que a pediatra talvez tivesse exagerado e que, principalmente, não existiam sinais de subnutrição. Depois de muitos conselhos, deixou-me a frase que me manteve à tona nos dias seguintes: confie em si mesma e confie no seu bebé, ambos sabem o que é melhor. E foi isso que eu fiz porque o meu instinto maternal assim o ditava. E o resultado foi que, no espaço de uma semana, o bebé aumentou quatrocentos gramas, muito acima dos normais cento e vinte, cento e cinquenta. Às vezes a nossa intuição está certa mas precisamos de um empurrão do exterior para poder validá-la e é muito importante encontrar este apoio, quer na família ou nos profissionais, como foi o caso. Fiquei impressionada com a quantidade e diversidade de ajuda que existe para as mães que desejem amamentar: desde consultantes de aleitamento ainda no hospital, ao seguimento porterior pelas parteiras, à facilidade em alugar uma bomba para extrair o leite nos primeiros tempos. O que me deixou um pouco desorientada (verti mesmo umas lágrimas, confesso...) foram as opiniões profissionais tão diferentes (equipa de neonatologia vs. pediatra vs. parteira). Valeu ouvir aquela voz interior e optar por segui-la sem medos.

É natural que os meus dias agora se resumam à interação com cada um dos nossos filhos (embora consiga incluir neles as mil tarefas domésticas e algum tempo de lazer Há noites em que consigo mesmo ler um par de páginas!). Aguentem os cavalos, a emissão volta ao normal dentro de momentos.


fevereiro 06, 2017

Nascer antes do tempo

Quando eu dizia que sentia que este bebé não chegaria às quarenta semanas de gravidez, não esperava que chegasse tão cedo. Uma coisa é ler histórias de bebés prematuros ou até mesmo conhecer quem tenha passado por isso mas ninguém nos prepara para um embate assim.

Antes de mais, devo dizer que o nascimento do Augusto não foi um caso extremo de prematuridade: afinal, ele já contava trinta e cinco semanas de gestação, estava mais ou menos pronto a nascer, tinha um peso muito aceitável. Não se pareceu, por isso, com os casos mais dramáticos de bebés prematuros que às vezes vemos. Ele não corria perigo de vida mas o protocolo do hospital obriga a que todos os bebés nascidos antes das trinta e seis semanas passem directamente da sala de parto para o serviço de neonatologia.

Esse foi o primeiro choque: eu tinha acabado de dar à luz um bebé que parecia saudável (um índice Apgar de 9) mas alguém entra na sala para o levar numa incubadora. Tive apenas direito a uns segundos de pele a pele, o bebé não pôde mamar - só tive tempo de lhe dar um beijo e deixei de o ver. Naquele momento, e apesar de me terem avisado logo quando dei entrada no hospital, atingiu-me um sentimento de perda gigantesco: se eu tinha dado à luz um bebé, por que raio estava agora sozinha na sala do recobro? Depois, talvez por falta de organização da maternidade ou talvez porque o protocolo assim o exija, esperei quase oito horas para poder rever o meu filho. As horas passavam e ninguém me vinha buscar para me ensinar o caminho até à neonatologia, o que só aconteceu quando o pai e os irmãos chegaram para a visita. Eu estava já perto de desesperada: sem voz, extenuada, a sentir que me tinham roubado tempo precioso com o meu bebé.

Como nos outros partos, sentia-me bem o suficiente para andar pelo meu próprio pé. Deve ser aquela adrenalina do parto normal, toda eu cheia da sensação de que posso tudo, dividida entre o orgulho de ter trazido um ser humano ao Mundo e do cansaço a que isso obriga. Com uma auxiliar, entrei pela primeira vez no serviço de neonatologia pelo meu pé e o meu coração caiu quando vi o meu bebé numa incubadora. Não sei o que esperava ver, para ser honesta. Não estava entubado, tinha apenas um cateter na mãozinha e eléctrodos que lhe monitorizavam os batimentos cardíacos, a saturação do oxigénio, a respiração. Era o meu bebé, ligado a máquinas, que às vezes disparavam em alarmes assustadores mas que garantiam a sua vigilância próxima. Ao terceiro dia, ele pôde sair da incubadora e ficou apenas numa cama aquecida, já que o seu estado de saúde evoluía satisfatoriamente.

Os meus dias passaram a ser um vaivém constante entre o meu quarto para comer, tomar banho e extrair leite e a neonatologia, onde tratava do meu bebé sempre que possível. Esta distância implicou que a amamentação tenha ficado para segundo plano mas apesar disso o leite materno é tudo o que o tem feito crescer. Durante aquela semana, ele bebia quantidades pré-estipuladas de leite a horas também previamente estabelecidas, sem qualquer possibilidade de livre demanda, como aconteceu com os dois irmãos. Ainda não desistimos de mudar isso mas temos precisado de ajuda e de uns shots de confiança externos.

O bebé Augusto está a crescer bem e num instante recuperou o peso de nascença. Ainda é muito pequenino (completaria hoje trinta e oito semanas de gestação), pouco mais faz do que comer e dormir. Mas é muito amado pela família, tem dois irmãos que querem sempre estar perto dele e faz as delícias das pessoas que espreitam para o nosso carrinho. Agora, é tempo de crescer cá fora. O pior já ficou para trás.

janeiro 21, 2017

Crónica de um nascimento não anunciado

Quando disse, várias vezes, que este bebé havia de chegar antes da data prevista, não estava a contar com toda esta antecipação. A meio da trigésima quinta semana, ainda a cinco longas semanas do fim, o nosso terceiro filho, Augusto de seu nome, decidiu que tinha chegado a altura de nascer!

Foi quinta de madrugada que acordei com aquele acontecimento inequívoco que é a ruptura das águas e que, em pânico e muita, muita negação (não pode ser, ainda não pode ser, isto não pode acontecer...), confirmei que o melhor era começar a ir para o hospital. Só tinha começado a fazer a mala: a criança ainda não tinha roupa escolhida, eu não tinha nada à parte de um par de chinelos e à pressa, sem conseguir racionalizar ou seguir a lista à risca, tentei meter lá dentro tudo o que podia. Depois foi acordar os miúdos, enfiar-lhes um casaco, um gorro e explica o que estava a acontecer, enquanto lhes garantia que regressariam à cama num instante. Estar assim longe significa que não tínhamos ninguém que nos ficasse com eles e por isso fomos (ainda) os quatro para a maternidade. Assim que me deixaram na entrada de urgência, puderam voltar a cama e dormir.

Para mim (e para o menino Augusto) a noite tinha apenas começado. Poupo-vos, evidentemente, aos pormenores sórdidos e digo apenas que, dadas as circunstâncias (ruptura das águas à trigésima quinta semana de gestação), o diagnóstico era muito simples: só voltaria a sair do hospital quando o bebé nascesse, quer isso significasse as horas, dias ou até semanas seguintes - tudo dependeria do estado do bebé. Só havia um pequenino problema: eu começara a sentir contracções bastante fortes e cada vez mais frequentes que os monitores não documentavam e por isso ninguém achava que o parto estava iminente! Cinco horas a sofrer em silêncio para não acordar a minha companheira de quarto, tentando respirar mais fundo possível e imaginando-me a surfar as contracções como se pudesse aliviar-me na crista da onda.

Já era dia quando implorei pelo alívio da dor e me levaram para a sala de partos. Mesmo desejando outro parto totalmente natural, não pude resistir à epidural, dada por um médico sem maneiras nem um pingo de humanidade mas que me serviu para aguentar o que se seguiu. Menos de uma hora e meia após a minha entrada na sala de partos, nasceu o Augusto, um rapaz como sempre suspeitara desde o início, a chegar ao Mundo num dia de céu totalmente limpo e temperaturas bem negativas.

Há todo um outro post à espera de ser escrito, desta vez sobre a prematuridade mas que deixarei para mais tarde. Agora, enquanto escrevo este, olho para aquele corpo frágil mas valente dentro da incubadora - são horas de treinar a amamentação. Aliviada mas ainda não completamente feliz - talvez amanhã, se ele deixar a incubadora, possamos finalmente estar juntos a cinco.

janeiro 11, 2017

Vicente joga à bola


Um breve disclaimer: aqui em casa gosta-se de futebol moderamente. É conhecida a divisão clubística: eu do Benfica, o marido do Sporting. Mas como nenhum de nós liga verdadeiramente a futebol, a nossa convivência desportiva é bastante saudável. Não acompanhamos o campeonato mais do que o estritamente necessário, não conhecemos os jogadores das nossas próprias equipas e só vibramos realmente com os jogos da selecção. 

Isto pode ajudar a explicar a admiração que senti quando comecei a perceber que o miúdo respira futebol, sonha com futebol, não quer fazer nada senão praticar futebol. Quer ver os resumos de todos os jogos, conhece os nomes dos jogadores, festeja sempre que vê imagens do golo do Éder neste Verão, copia os gestos do Ronaldo. Continua a gostar de outras actividades e entusiasma-se com muitas coisas (ainda ontem com um rato morto que encontrou no passeio quinzenal da escola ao bosque...) mas, in the end, ele gosta é de bola. Gostava mais que ele se inclinasse para a natação ou para um instrumento musical, por exemplo, mas ele gosta de futebol e ser mãe significa isto mesmo: deixar para trás as aspirações que temos para eles e aceitar os seus gostos, apreciar a sua personalidade sem tentar moldá-los à nossa imagem.

Por isso, chegou finalmente a altura de passar à acção e ontem acompanhámo-lo ao seu primeiro treino a sério no clube aqui do bairro ou da comuna. Dois dias por semana (agora apenas um, devido ao mau tempo) treina com outros miúdos (escusado será dizer que há algumas camisolas da selecção portuguesa e há um ou outro Ronaldo...), vai passar a ser federado e, correndo tudo bem, há.de jogar no campeonato local na categoria de Bambini. Levei-o ao treino, ajudei-o com os atacadores dos ténis que ainda não sabe atar, vesti-lhe o equipamento que o tio lhe comprou pelos anos. E ele entrou em campo e correu muito, tentou fazer os exercícios o melhor que pôde, olhou vezes demais para nós nas bancadas, acenando e chamando por nós, e depois não marcou nenhum golo. Enquanto lá estive a vê-lo, não consegui disfarçar a alegria de vê-lo a fazer aquilo de que gosta, a gastar energias, a seguir instrucções. Ele estava muito feliz, eu estava ainda mais. Pelo menos até ele regressar a casa e começar num pranto porque não marcou nenhum golo na partida que fizeram a seguir. Teve que haver pep talk e explicar-lhe que o Ronaldo também não marca em todos os jogos e que não existem só avançados numa equipa, os defesas, por exemplo, também fazem muita falta.

Portanto, estamos já na fase das necessidades de afirmação e de pertença, deixando para trás as necessidades básicas que ficam, por enquanto, reservadas para a irmã. Nunca insistimos em nenhuma actividade extra-curricular e em casa instigamos apenas à leitura e às brincadeiras com Lego mas abraçamos com força esta primeira manifestação de real vontade própria. E agora só espero que ele vá marcando uns golos ou que encontre o seu lugar na equipa ou então tenho de preparar uns quantos discursos diferentes para lhe aliviar a frustração. E, quem sabe, ainda nos sai dali um craque e eu torno-me na próxima dona Dolores...