Agosto 19, 2014

Entre tres tierras


Na minha cabeça é já oficial: o Verão acabou. Sim, é verdade, mesmo que em Portugal as temperaturas teimem em não descer dos trinta graus, mesmo que só vejamos Sol e muito calor, aqui a coisa já deu o que tinha a dar. E este fim de semana já foi um belo exemplo do que nos deve esperar nos próximos tempos. Portanto, este ano no Inverno tivemos apenas um dia de neve e no Verão quase apenas um dia de verdadeiro calor - o resto dos dias são de uma gigante indefinição entre uma Primavera já gelada e um Outono desastrosamente chuvoso.

Este fim de semana veio mesmo a calhar para alguém como eu, que andava há muito a precisar de arejar as ideias. Já o tínhamos marcado há bastante tempo, creio que ainda na ilusão de que lhe podíamos chamar um fim de semana de Verão no campo. Lá pelo campo andámos nós, em ruas em que um lado pertencia à Bélgica e o outro à Holanda, onde se ouvia falar quase exclusivamente Neerlandês e onde mal se falava Francês. 

A cada visita que passa dou comigo a gostar mais da Bélgica e especialmente da zona das Ardenas. É impressionante o verde daqueles campos (embora não seja de admirar, se pensarmos nos litros de chuva que caem por estas bandas...), a calma e o silêncio, os memoriais da Segunda Guerra sempre à espreita em qualquer cruzamento, as casas de pedra que afinal são feitas de madeira, os jardins bem cuidados e os sinais de vida nas ruas, mesmo aos Domingos. Estes sítios são impecáveis para quem tem miúdos, que podem saltar nas poças deixadas pela chuva, mexer em gatos felosos e não tão felosos, ver burros, galinhas e galos de perto, praticar os desportos em dois pedais. E também não são menos espectaculares para pessoas que precisam de sair da rotina, que precisam de respirar fundo e mandar más vibrações para trás das costas, que precisam de se distrair. E foi isso que fizemos. Com castelos à mistura, bons amigos, moules e frites (está claro!), manhãs a ver o atletismo colados à televisão, cozinha holandesa e, para terminar em beleza, uma açorda para matar saudades! Depois? Foi respirar fundo, fazermo-nos à estrada e ignorar que a vida real voltava na manhã seguinte. Agora é esperar até à ocasião seguinte.

Agosto 04, 2014

(Um intervalo neste gigante parêntesis)

Ainda aqui estou, mesmo que não pareça. Olho para a data da última publicação que fiz e assusto-me quando vejo que foi já há quase um mês! Acho que foi o período mais longo que passei sem escrever aqui.

Não desisti disto, a questão não é essa. Não me passou pela cabeça acabar com este espaço de partilha, que já tanto me trouxe. Só que estou num sítio muito confuso neste momento - falo da minha cabeça, claro - e não arranjo forma de me expressar de uma maneira clara, sem alarmismos nem sentimento e emoção a mais. E ainda por cima, como se toda esta confusão interior não chegasse, também não me sinto preparada para verter isto cá para fora. Se alguma mudança realmente tiver existido nos últimos tempos, é esta: não consigo abrir-me e também não acredito que estas coisas sejam interessantes para os leitores.

Fomos de férias e já voltámos. O que dizer? Eu podia fingir que não estou sempre à espera de pisar solo português mas estaria a mentir. As viagens correram com grande tranquilidade ( muito graças ao nosso homenzinho, que se portou à altura, poupando-nos a birras ou choros desnecessários e sempre empolgado para ambas as direcções. Optámos por dormir uma noite no caminho para cada lado para evitar o cansaço dos dois mil quilómetros. Dividimo-nos entre Lisboa e Portalegre e o tempo (mais uma vez) foi insuficiente para tudo o que queríamos fazer e todos os que queríamos ver. E neste capítulo, ainda estamos longe de fazer o melhor: embrulhamo-nos em tantos compromissos que acabamos por não ter verdadeiramente momentos de descanso, o último propósito das férias. Não sei se alguma vez aprenderemos a fazê-lo ou se continuaremos a falhar mas a verdade é que o balanço entre gente que queremos ver e descanso de que necessitamos é incrivelmente difícil de manter.

Pudemos pelo menos apanhar ar. Pudemos comer junto ao mar, almoçar na tasca dos vizinhos lá ao pé de casa, tomar banho de mar e piscina. Pudemos tratar de burocracias que exigem a nossa presença em Portugal, pudemos ver alguns amigos (e partimos tristes por falharmos outros mas sabemos que todos têm as suas vidas e chegarmos nós a destabilizar é dose), demos saudades a matar à família que, como sempre, nos acolheu cheia de mimos e recordações comestíveis/bebíveis que enchem o nosso coração (e estômago!) agora que regressámos. Nunca chega, a verdade é essa. Por muito que tentemos condensar tudo em tão poucos dias, nunca é suficiente e os dias parecem mais curtos nestas alturas.

Pelo meu lado, tive um momento de revelação e desabafo que me aliviou mas abalou um pouco. Era espectacular que pudessemos ter sempre a certeza de tudo e estarmos totalmente confiantes nas nossas decisões e escolhas. O tempo tem-se encarregado de me mostrar que nem sempre as coisas funcionam assim, com toda a dificuldade que estes momentos implicam. Imagino que a seu tempo conseguirei falar de tudo quanto me tolda a visão agora mesmo, que poderei racionalizar o que me parece agora um amontoado de emoções à solta e que me tem dificultado a verbalização das coisas. Tempos estranhos, estes e fico-me agora por aqui. A seu tempo, tudo se ordenará.

Julho 10, 2014

Mesmo à émigrant

Este ano, e para ser um bocadinho diferente das visitas até aqui, resolvemos ir de carro para Portugal nas férias do Verão. Não vamos em Agosto, é certo e por isso se perde alguma daquela mística, mas os dois mil quilómetros cá cantarão outra vez em cada direcção. E claro, sempre se poupam uns seiscentos euros em bilhetes de avião, a que se sumariam uns cento e cinquenta de um carro alugado, o que é sempre de considerar

Primeiro tínhamos pensado em fazer a viagem pelo Sul de França e de Espanha. Pegávamos no carro e íamos pela costa, parando nas praias onde nos apetecesse tomar banho, suspirando com as piturescas aldeias à beira mar. Mas depois, quando pensávamos no número de dias que tínhamos para fazer as viagens e em todas as coisas que gostávamos de fazer em Portugal, a conclusão pareceu-nos óbvia: é impossível, estamos malucos ou quê? Então refizemos o percurso (ainda nada verdadeiramente decidido) e agora está claro que vamos direitos como uma seta a nosso rectângulo mais querido.

Vou já dizer: não vamos de Mercedes. Nem de BMW nem outro carrão so género. Chegaremos a Portugal no primeiro carro novo que pudemos comprar com o nosso dinheiro, feio ou bonito, potente ou a soluçar pelo caminho. Não pretendemos impressionar, apenas poder chegar a casa e encher a mala com as coisas que nos têm feito falta aqui. Na minha cabeça, uma imagem: três garrafões de azeite, um frasco de tempero de açorda, bacalhau. É o lugar comum mais verdadeiro da vida de emigrante, parece-me. São coisas difíceis de encontrar aqui ou, se se podem encontrar, vendidas a preços astronómicos e com bastante menos qualidade. Também queremos dar uma volta a todas as coisas que deixámos para trás quando decidimos sair. Naquele dia em que me meti ao caminho com o nosso amigão, tinha na mala da velha carrinha apenas aquilo que considerávamos essencial para recomeçar. Vivemos até aqui sem muita coisa que ficou em Portugal e daremos tudo o que acharmos dispensável, que imagino ser grande parte. É uma ideia libertadora e que pode certamente ajudar pessoas que precisam.

Então e fazer uma viagem com o gaiato reguila de três anos? Pois, não sei. Eu confio nos poderes da canetas de feltro, dos lápis de cera, dos desenhos animados para distrai-lo das longas horas de viagem. A ansiedade seria muito maior se ele fosse mais pequeno e mais irascível, acho que dificilmente arriscaríamos fazer uma viagem destas. Mas dizer-lhe que vamos a caminho de Portugal, a caminho da nossa casa e das casas dos avós, a caminho da praia e da piscina, a caminho de algum Sol (que espero dure até que voltemos) deve chegar para o acalmar de vez em quando.

Ainda faltam uns dias mas claro, a minha cabeça já está em contagem descrescente. E de vez em quando vou-me lembrando de coisas que quero mesmo trazer para cá. Que pena não conseguir arrumar o meu país na mala espaçosa do nosso carro.

Julho 06, 2014

Pensar pensar pensar

Eu gostava de ter nascido noutro tempo. Correndo o risco de parecer mal agradecida ou mesmo de ser mal interpretada, eu gostava de ter nascido noutra época. Gostava de ter um trabalho para a vida, anos inteiros sem me preocupar com a falta de estabilidade, com ou sem progressão de carreira, mesmo não tendo escolhas. Gostava de viver num tempo em que não se pensava tanto no que se gostaria de fazer, aceitava-se a vida como ela é e os sacrifícios que fazem parte dela.

Viver hoje, trabalhar nos dias que correm é, no meu caso, uma luta desigual entre o que se tem que fazer para viver e o que se gostava de fazer. Com a agravante de eu não ser uma pessoa muito inclinada a correr riscos, de me faltar a imaginação e alguma coragem para conseguir viver exactamente da maneira que idealizo. Viver hoje é aceitar o que o mercado nos dá e fazer o melhor possível com a educação que foi sacada a ferros e no fim valeu de muito pouco. Eu bem sei que estudar nos abre imensamente os horizontes; o problema é que, em casos como o meu, não abre muitas portas profissionais na área. E por isso se vai fazendo de tudo.

A caminho dos dez anos de trabalho, acho que nunca me senti totalmente realizada profissionalmente. Por um lado, eu aceito que a primeira necessidade é ganhar dinheiro, porque há que comer e vestir e agora um filho. Mas por outro a violência destes sacrifícios vai-se tornando cada vez mais difícil de aguentar. Os dias, os anos passam e eu só me vejo cada vez mais longe da vida simples e com significado com que sonho. Não me interessa o status quo que me traz um emprego, longe disso. O que eu mais gostava de fazer era acordar todos os dias de manhã e não me arrastar até um emprego onde eu não pertenço e onde não posso verdadeiramente cumprir-me na totalidade. Tempos difíceis estes, em que há demasiado espaço para pensar, em que felizmente há bons exemplos de quem se deixou de coisas e se dedicou a uma vida mais tranquila e útil. Adorava que existisse um manual para se seguir a intuição sem deixar danos pelo caminho e sem pôr em risco as pessoas que estão à nossa volta. E também saber como se equilibra aquilo que se sonha para nós com aquilo que o outros sonham para si mesmos. Que a resposta não tarde a chegar.

Junho 26, 2014

Dias de Sol



Eu gostava que todos os dias fossem assim. Que fossem fáceis e cheios de Sol e eu me enchesse sempre de vontade de levar o miúdo ao parque porque afinal não está a chover e é quase um crime ficar em casa. Gostava de não ter de pensar no almoço e de seguida no jantar e na roupa que ficou por tratar, bem como o chão a precisar de uma aspiradela. Dias em que me posso sentar num banco à sombra e ter a sorte de ler um ou dois capítulos de um livro sem que ele se aborreça de estar a brincar ou em que falamos do medo que ele ganhou a moscas e de como gosta de correr atrás de borboletas. Mesmo que ele me faça levantar mil vezes do banco para empurrá-lo no baloiço porque insiste que não quer aprender a dar balanço, ainda que às vezes já o faça inconscientemente.

Nestes dias, consigo fazê-lo esquecer as birras e que seja razoável. Talvez porque esteja Sol e a temperatura amena e isso também o amoleça como a mim. Ajuda-me nas compras e a única exigência que faz é segurar os seus iogurtes até chegarmos à caixa. Vamos no carro e quer ensinar-me a conduzir, não é assim mãe, tira daí a mão, faz pisca! Eu rio-me e ele pensa que já sabe muito sobre condução. Com tempo para explicar-lhe a sequência do que vamos fazer, consigo que aceite sair do parque sem birra e almoce sem as suas esquisitices, ele que na escola come tudo e duas vezes e em casa não pode ver uma graínha do tomate no prato que é logo razão para começar a bufar. Já não dorme a sesta, é verdade, e que jeito me daria ainda deitá-lo umas boas duas horas só para ficar no sofá a sentir o silêncio! Mas em compensação vai brincando nos bocadinhos em que se esquece de mim: caso contrário, cola-se a mim como se não me visse há meses. Eu sou o parque infantil preferido dele, mesmo que muitas vezes chegue ao final do dia completamente derreada pelas voltas que ele me dá.

Nem todos os dias podem ser assim porque a vida real leva muitas vezes a melhor e há pouco tempo a dividir entre as tarefas caseiras mínimas, a alimentação que não pode faltar, o banho que ele agora detesta mas que é absolutamente necessário depois de um dia de piratices na escola, os momentos de relaxamento pós-jantar. Às vezes gostava de não me sentir tão cansada para as coisas mais simples mas as coisas são como são e vamos vivendo um dia de cada vez, que é a única maneira de seguir em frente sem perder o juízo.

Junho 17, 2014

Memórias (para quem tem pouco jeito para o DIY)


É mesmo assim: quem não tem cão, caça com gato. Eu, já o disse algumas vezes, não tenho jeito para os trabalhos manuais. Não coso, não pinto, não construo, só me sobrou um gostinho pela cozinha. Também não tenho boa voz para cantar e para tocar alguma coisa ainda me falta o tempo e a paciência para treinar muito. Só que às vezes tenho ideias e desenrasco-me a concretizá-las, mesmo que à minha maneira.

Desta vez nasceu um livro com uma história em imagens daquilo que o Vicente tem feito, países que tem visitado, disparates e momentos doces que eu e o pai vamos coleccionando digitalmente. Eu adorava fazer muito mais: gostava de ter filmes, de lhe gravar as conversas que começam a ser longas e cheias de argumentação que só faz sentido naquela cabecinha. Gostava de lhe desenhar livros e talvez ainda possa pensar em escrever-lhe uma história mas agora interessa-me mesmo que ele possa ter objectos que lhe contem a história que é a dele e, em última análise, também a nossa. Todos nós conhecemos aquele amigo que não tem nenhum álbum ou os outros que têm tudo e mais alguma coisa mas todas as maneiras são boas e válidas para guardar recordações. Agora já abrandámos muito as fotografias porque nos primeiros tempos era literalmente demais: estávamos mesmo sempre prontos e de máquina em punho.

As ideias vão surgindo naturalmente. O primeiro livro privilegiou as palavras, este segundo fica-se pelas imagens, que também dizem muitíssimo sobre o que têm sido estes anos com ele. Reparei que não tem quase nenhuma fotografia de birras ou de momentos menos bons mas não é de maneira nenhuma intencional: acho que nunca me ocorreu pegar na máquina quando ele está a berrar desalmadamente ou quando bate os pés se não acedemos a algum pedido! E de repente já estou a pensar no que posso fazer a seguir!

Junho 16, 2014

Luxembourg, mon amour


Eu, quando não estou a morrer de saudades do Sol de Lisboa e das suas calçadas, becos, fachadas, avenidas, rio, restaurantes, subúrbios e colinas, estou ocupada a gostar do país onde me vi exilada desde o primeiro dia de Primavera do anos de 2012. E, por muito que me custe a distância (sim, é já sabido, custa-me), sinto que é o meu dever exaltar a beleza, o silêncio e a tranquilidade deste pequeno grão ducado, entalado entre a Bélgica, a França e a Alemanha.

O Luxemburgo pode não ter mar nem um rio que se veja (este das imagens não conta); pode não ter as altitudes suficientes para ter um miradouro digno desse nome (bem, alguns castelos podem desempenhar esse papel); pode não ter uma capital com mais de cem mil habitantes. Mas tem coisas em abundância: os campos cultivados e verdes todo o ano (excepção feita à época da neve); riachos que correm livres e a que o comum mortal tem acesso sem precisar de uma licença ou bilhete especial; aldeias em que quase podemos tocar a paz que se faz sentir; boas estradas, que vão ficando cada vez mais vazias quanto mais avançamos para Norte. E também guardou nesta zona do país um número bastante razoável de memórias da Segunda Guerra Mundial, que ajudam a não apagar da História o que a Europa viveu nesse período.

Há uns anos atrás, eu achava que não conseguiria sobreviver no campo mas neste momento não há nada que eu deseje mais do que o som do ventos nas espigas, o horizonte salpicado por eólitos, as Ardenas mesmo aqui ao lado, o tempo que parece não existir nestas aldeias isoladas. Eu ficava bem contente se pudesse ter acesso aos bens de primeira necessidade e à educação do miúdo e estar longe do resto. Salvaguarda-se, claro, que também tivessemos acesso aos nossos meios de subsistência, que eu cá não acredito (totalmente) na história do amor e uma cabana. Se eu não sentisse tanta falta de Lisboa, daquela maneira que quase dói fisicamente, era aqui que eu não me importava de estar, quem sabe se finalmente conseguindo manter uma horta por mais de duas semanas, com direito a animais de estimação e um grelhador para os dois ou três dias de Verão que passam por aqui. Por isso, nos nossos passeios não me limito a ver ou admirar: acho que sonhar é a palavra que descreve melhor o estado em que fico nestas viagens por aí.

Junho 12, 2014

Pequenas coisas *

Eu tenho um certo problema com a escrita: parece-me que apenas sou capaz de escrever sobre aquilo que vivi ou aquilo que sei, é como se de repente a minha imaginação tivesse desaparecido para parte incerta e eu não conseguisse mais fantasiar sobre nada. Por isso é-me mais fácil escrever estas pequenas crónicas sobre o quotidiano, sobre os sítios longínquos que visitei, os sítios familiares onde me movo, as pessoas que me vão transformando, os desafios e desgostos profissionais, o país com que sonho e o país que me abraçou. É claro que esta espécie de deficiência ou de falha não é impeditiva, posso escrever mesmo assim mas não posso criar tão livremente como eu sonhava. Mesmo assim, não penso que seja uma condição definitiva: é mais o resultado de falta de treino e de disciplina do que apenas inaptidão minha. Pelo menos, é no que quero acreditar.

De qualquer maneira, de vez em quando aparecem pessoas que, escrevendo sobre a sua vida, descrevendo apenas episódios aparentemente banais e desprovidos de qualquer sentido revelador, me conquistam e eu, limitada pela minha aparente falta de imaginação, passo a acreditar que o que é realmente importante é a maneira como se contam, como se escrevem, como se olham as coisas. Não importa fantasiar se o resultado se traduz desastrosamente num par de linhas sem sentido, se o leitor não sente a urgência de continuar a ler. Já li um pouco de tudo, mais ficção do que não ficção, é claro, e sei que o que interessa é a maneira como as palavras nos transportam para um sítio fora de nós, real ou imaginado. Mas as histórias banais, os relatos de vidas de gente como nós, mesmo que necessariamente misturadas com o reino da fantasia (porque já não contamos as coisas como realmente se passaram mas como achamos que se passaram, com tudo o que de adulteração isso traz à escrita) têm a vantagem, chamemos-lhe assim, de funcionarem como uma espécie de espelho, eis-me reflectida na miséria do outro, eis que a minha história não é tão especial, eis que alguém parece saber exactamente do que falo. E eu sinto-me perto destas pessoas, das que sentem coisas que podem ser mal interpretadas, que reconhecem a distância a que estão da perfeição, que falham mas que voltam a tentar, que não se incluem exactamente nos cânones do comportamento exemplar, que são ainda necessariamente um pouco ficcionadas mas dolorosamente reais.

Eu nunca fiz parte realmente de um grupo ou um tipo de pessoas, pelo menos é assim que me vejo. Eu sou, nos meus padrões, uma pessoa aborrecidamente normal mas até a gente como eu acontecem coisas na vida, há acontecimentos que nos marcam para todo o sempre, há sonhos em que gritamos mas queríamos esquecer, há tristeza e melancolia em doses industriais, assim como brilhos nos olhos com as coisas mais pequenas, há maneiras peculiares de sentir e gostar e aprender, há desgostos, incertezas e conquistas que nos trouxeram até aqui, até ao tempo presente. Se calhar é isto que explica a empatia que sinto pelas pessoas normais, com vidas normais, com lutas normais e que sinto um inexplicável abismo entre mim e as pessoas com vidas perfeitas, idealizadas até à náusea, a quem tudo sorri mesmo naqueles dias em que apenas nos apetece mandar o mundo à merda, perdoem-me a expressão. E hoje em dia há cada vez mais gente assim e eu sinto-me cada vez mais longe dessa pantomina. Eu sou chata e real mas isso não significa que a minha vida seja desprovida de emoções, episódios, charadas. E por isso fico presa nessas pequenas coisas, naqueles momentos que nos tornam mais reais, um pouco mais humanos, cheios de dúvidas e a precisar de confiar na nossa intuição.

* porque comecei a ler este livro e de repente sinto-me ligeiramente assombrada pela simplicidade e riqueza de uma vida normal.

Junho 10, 2014

Luxemburgo, trinta graus


Não podem ser sempre os mesmos a rejubilar com o tempo quente e seco e por isso este fim de semana fomos nós. Já sei que o tempo em Portugal tem andado um bocado instável mas paciência, isso é basicamente o resumo de todo o nosso ano aqui!

Parece-me óbvio que qualquer lugar fica mais bonito com Sol e com um calorzinho que permita disfrutar das condições naturais que o(s) nosso(s) país(es) nos oferecem e sim, eu sou vítima desse cliché que diz que só damos valor a uma coisa quando a deixamos de ter. Sempre fui mais uma pessoa do Verão, do calor do que outra coisa qualquer, ou não fosse eu uma alentejana orgulhosa do quarenta graus à sombra na cidade que me viu nascer. É que em Portugal o Sol aparece muitas vezes e, melhor ainda, muitos dias seguidos. Tantos que uma pessoa tem tendência a achar que é essa a regra. Até pode ser mas isso não é bem assim quando se escolhe o Luxemburgo para viver.

Este fim de semana pudemos sentir na pele a excepção à regra e tivemos calor mas daquele do bom e em quantidades irrespiráveis. Pudemos sair um pouco e confirmar como as árvores estão frondosas e verdes, derramando o fresco da sua sombra pelas estradas; como os campos ficam ainda mais verdes e bonitos quando, em contraste, o céu deixa de estar cinzento; como correm os riachos bem frescos fora dos percursos habituais. Aqui faz-se muito campismo e os parques já vão estando cheios nesta época. Além disso, parece-me que as pessoas precisam de condições menos favoráveis para estar no campo, estão mais habituadas aos caprichos do tempo luxemburguês.

Confesso que acho estranho ver tantos pequenos cursos de água sem que as pessoas estejam verdadeiramente a desfrutar deles e da natureza envolvente. Esperava ver mais gente, margens fora, com o farnel espalhado pelo chão, em aglomerações mais ou menos espontâneas mas vejo que isso deve estar reservado para países onde a espontaneidade também se vê no resto. E agora, depois de ver as previsões para os dias que aí vêm, já me passou a alegria: não há calor que sempre dure nem frio que nunca acabe. Se bem que aqui...

Junho 03, 2014

Hoje...

... gostava de escrever um post extremamente positivo e inspirado mas não vou ser capaz. Porque passei o dia inteiro em frente a um ficheiro Excel, calculando e recalculando, apontado para o lucro, revendo números todo o santo dia, a minha falta de rapidez a ser sinónimo da minha falta de aptidão, que eu sou uma mulher de letras, não de números, não não não. Faziam falta mais provas de que eu sou a pessoa errada no lugar errado? Não faziam, que isso está já bem claro na minha cabeça mas hoje foi um dia especialmente pródigo em provas desse género. E colegas de trabalho, podes contar com eles, perguntam vocês? Só se for para atrapalhar e tornar as minhas conquistas aparentemente simples em labirintos insoluveis, onde há uma palavra que é estrictamente (o acordo ortográfico não vencerá) proibida e que é: responsabilidade.

Portanto, eu saio no final do dia, deixando para trás as chatices que eu não criei, não posso resolver mas das quais vou ser culpada na mesma, e dirijo-me ao meu filho que basicamente me salva o dia, quando a sua educadora me entrega o presente do dia da Mãe (sim, em maiúsculas, porque já não se sabe se ser mãe nos dias que correm é um dever ou um prazer e eu esforço-me muito para que seja as duas coisas ao mesmo tempo) porque aqui o dia da Mãe é só no Domingo. Por isso, enquanto todas as mães que conheço se estavam a babar com as devidas homenagens no primeiro fim de semana de Maio, eu estava de mãos a abanar e é apenas justo que, dada a distância a que fica este pedaço do Mundo, eu possa agora festejar sozinha enquanto as mães que eu conheço já tiveram a sua quota parte de festa.

Mas esqueci-me que ainda havia o jantar, que não se faz a si mesmo, embora hoje em dia já existam alternativas catitas, e que não posso dobrar as pernas porque ontem exagerei na primeira sessão de ginástica em casa e que eu juro vai ser o golpe final na banha que acumulei indevidamente até agora e não posso andar os 30m que estavam no plano de hoje. E então fico a sentir-me um pouco mais miserável e, não contente, dá-me para ver fotos de miúdas sãs e com juízo e acontece que já não sei como regressar a esse ponto. É como se jogasse Sonic e me tivesse esquecido de gravar o jogo - perdi todo o meu progresso e tenho que, dolorosamente voltar ao início. Com a desvantagem que toda a gente sabe que não há nenhum glamour em gente que se exercita em casa, que estende a roupa na cave e ainda sonha em ter tempo para as coisas de que gosta.

E depois o miúdo até se deita pacificamente, exige beijinho e abraço para se poder entregar ao sono, não sem antes querer abrir garrafas de vinho, tirar lasanhas do forno ou colar mais quinhentos cromos na caderneta do pai. E chorar para a maioria destas coisas. E eu volta e meia a pensar neste debate que por aí vai, disciplina ou deixa andar, muita teoria e pouca prática, muita vontade de fazer bem desajustada da realidade. Eu deixei de acreditar nos conselhos quando os livros me diziam que aos quatro meses o bebé havia de dormir bem, que a mãe havia de poder descansar se fizesse isto e aquilo, tudo técnicas que devem ter resultado em todos os bebés do Mundo menos no meu. Isso é grave? Claro que não, só valeu para eu aprender a escutar mais a minha intuição e menos os especialistas. Porque o meu bebé, como eu, não é os outros.

E no final do dia, neste exacto momento em que vos escrevo, em que finalmente dormimos apenas com o colchão novo (e dispensamos os outros que nos destruíam as costas), em que o silêncio é maciço e se pode quase sentir, em que o Sol decide que talvez agora seja a hora de descansar, em que a solidão se espalha pelas ruas onde se ouve apenas o automóvel ocasional de quem certamente não vive aqui, eu respiro fundo no escuro do nosso quarto, tratando de me convencer que amanhã vai ser um dia melhor. Honestamente, sei que isso é provavelmente mentira, admito. Mas estes breves instantes de engano são o suficiente para eu largar as reservas, fechar os olhos e me entregar à imensidão desta pausa. A vida só recomeça daqui a umas horas.

Maio 30, 2014

Casa (s) *

Eu gostava de escrever um texto muito bonito e inspirado sobre a minha casa mas calha que não tenho apenas uma. Gostava que a minha casa fosse organizada, limpa e decorada como nas revistas e blogues da moda mas a que tenho agora está sempre a um curto passo do caos.

Primeiro existiu a casa de Portalegre. Existiu não, ainda existe e ainda bem. Não saberia o que fazer sem ela. Aliás, sem elas, que as casas das minhas avós são também as minhas casas. Entre as três, cresci, sempre com o gigante luxo de ficarem apenas a minutos umas das outras. Ao contrário de muita gente que conheci, sempre tive os meus avós na minha vida e não imagino como seria não os ter. Em cada uma delas, memórias tão doces quanto ríspidas: a minha avó a ralhar com o meu avô só porque sim, o meu outro avô a dizer-me que nunca mais poria os pés naquela casa se saísse naquele instante, os meus pais aturando a música em altos berros e os concertos que dei no quarto. Fiz-me pessoa em todas elas e delas sinto a falta. O meu medo, o meu grande medo de as ver desaparecer é perder também eu as origens e não ter mais razão para regressar ali. As minhas casas têm fotorgrafias minhas e da minha irmã nos móveis e nas paredes que começam a dar lugar às do meu filho. Deve ser a isso que chamam renovação.

E um dia, depois de passar por meia Lisboa, comprei uma casa num bairro que não conhecia. Tinha adorado o Alto do Pina, sofrido pela Praça do Chile, sonhado em Benfica, perdido o Norte na Penha de França, tinha-me isolado em Telheiras e acabei na Lapa. Que é hoje Estrela, ou qualquer coisa assim. Acabei na casa que desejei ter na primeira vez que a vi e disse ao senhor "Por favor, não coloque nenhum anúncio, eu fico com ela!" e ele acedeu. E ela tornou-se minha, num dia que lembro como cinzento na sede do banco, com vista sobre a Praça de Espanha, eu a enganar-me ao escrever o montante no cheque, envergonhada pela minha ingenuidade e nervosismo e de repente dona de uma casa! Um feito, pelo menos para mim. Um abrigo, uma toca num prédio quase a cair de velho, onde os meus vizinhos chamam o filho nas escadas para o jantar, onde se ouve gritar pelo Sporting e pelo Benfica com a mesma intensidade. É a minha casa, a mesma que viu a minha gravidez e o meu despedimento aos sete meses, onde o Verão era impiedoso mas onde o vento a fazer bailar as cortinas em tardes amenas tudo fazia esquecer. A minha casa, cujo cheiro me descansa assim que abro a porta, que vive agora fechada, sempre à minha espera na penumbra dos dias lisboetas que tanta falta me fazem.

E agora a minha casa luxemburguesa, onde ganhámos um quarto a sério e uma casa de banho onde cabe mais do que uma pessoa. A casa onde o meu filho me pediu pela primeira vez na sua curta vida para dormir e onde anseio chegar todos os dias. Não é uma casa de revista, não consigo fazer desaparecer todos os carros e tractores e autocarros da cozinha, casa de banho e sala. Há dias em que literalmente todos os pertences do miúdo estão espalhados no chão do quarto, como é o caso de hoje. Mas é o sítio onde me apetece estar nos meus dias livres e onde preciso deitar-me no tapete para que o miúdo faça de mim um cavalo, onde me deito e posso ver o céu, onde tento não matar algumas plantas.

Ter o coração assim dividido é custoso mas é impagável poder voltar a cada um destes cantos quando posso, quando as férias me deixam, quando o tempo chega para dizer olá. Acho que em cada uma delas sinto a falta das restantes e nelas ouço também os ecos do meu passado. Nelas posso caminhar às escuras sem tropeçar e regressar, se a vida me quiser empurrar assim.

* que é exactamente o tema da Granta que fui hoje, finalmente, levantar aos correios.

Maio 28, 2014

Não estamos nunca a salvo

Um destes dias tive um sonho horrível, do qual despertei completamente angustiada e com um gigante sentimento de culpa. Estava num complexo de piscinas imaginário, explorando e visitando, e ao chegar a um segundo ou terceiro andar, não sei precisar, o miúdo empoleirou-se (se este verbo não existe, acabei de o inventar) num varandim e caiu, em direcção a uma piscina demasiado rasa. É claro que eu, de cabeça perdida e consciente da enorme falta de atenção que tinha provocado o acidente, saí dali a gritar, voando nas escadas, para encontrar o meu filho vivo, magoado mas vivo. A dor que eu senti durante esse dia, essa, foi bem real e não ficou no sonho como eu queria.

Já tinha tido outros sonhos assim (o sonho que o perco por uma pura negligência de segundos deve ser até recorrente) e sofro muito, mesmo sabendo que não passa de algo que o meu inconsciente fabricou a partir dos meus medos. É que eu sou aquele tipo de mãe que sofre apenas por pensar no que pode acontecer ao nosso filho. Acho que todos os dias vemos/lemos/ouvimos histórias mirabolantes e assustadoras do que acontece a crianças ou mesmo adultos por esse mundo fora. Nos últimos tempos, lembro exemplos (esta, esta, esta ou esta histórias) da total falta de respeito pelos direitos humanos e da silenciosa impunidade que vivemos hoje. Estes pesadelos não são exclusivos de um continente ou civilização, não escolhem idades mas ainda tendem para passar-se maioritariamente com o sexo feminino. A nossa passividade (autoridades, profissionais de educação, família, amigos) é gritante e é impossível saber destes casos sem que se nos dê um nó no estômago e fiquemos literalmente nauseados. E eu, confesso, tenho muita dificuldade em aceitar os motivos religiosos, passionais, irracionais que levam esta gente a viver assim. Pior: custa-me entender que actos destes se façam por pura diversão, por falta de soluções e divergências de opinião. Esta aleatoriedade de motivos ainda me fazem temer mais pelo nosso futuro. É preciso viver com a consciência de que podemos vir a estar precisamente no olho do furacão sem saber como aí chegámos.

Quando eu olho para o nosso filho, tenho apenas um enorme desejo: que se possa cumprir e realizar como ser humano, vivendo e aproveitando ao máximo, consciente de si e dos outros, respeitando todas as formas de vida, todas as opiniões, todas as escolhas alheias. Que possa fazê-lo em paz, num ambiente que promova o desenvolvimento saudável e pleno das suas capacidades, em que estimule e seja estimulado pelo valor inestimável que têm as pessoas ao nosso redor. Que possa escolher o seu próprio caminho e que nós possamos sempre ajudá-lo. Não o trouxe para este mundo, em que ser menor ainda é uma desvantagem, em que ser mulher ainda é uma fraqueza, em que o dinheiro ainda fala mais alto do que a justiça. Nestes momentos, tenho vontade de o apertar e colocá-lo numa redoma onde ninguém lhe possa fazer mal, nem mesmo eu com as minhas negligências sonhadas. Falta muita humanidade por aí.

Maio 21, 2014

Contra uma certa ditadura da imagem


Já o escrevi aqui muitas vezes sob as mais variadas formas: não acredito que o que vestimos nos define na totalidade e com o detalhe necessário. Digo isto na vertente profissional da coisa: se a roupa/calçado/acessórios são uma imagem fiel ou não da nossa personalidade, isso já são outros quinhentos.

Lembro-me vezes sem conta da conversa que tive uma vez com um amigo, há muitos anos atrás e ainda antes de começar a trabalhar. Indignada, eu assegurava-lhe que nunca iria mudar a minha maneira de vestir ou ceder a códigos de dress code impostos onde quer que fosse. Ele, por seu lado, não defendia esta obrigação mas reconhecia que somos obrigados a fazer muitas cedências na vida e esta era apenas uma de somenos importância. No primeiro emprego que tive, tudo bem: não existia nenhum código definido e cada um trabalhava como bem lhe apetecia. O nível de responsabilidade ou de complexidade das tarefas? Perto de zero. Depois de mudar a primeira vez de emprego, as coisas foram quase sempre piorando, também na medida proporcional do grau de responsabilidade dos cargos que ocupei. Até chegar aqui e agora, onde a imagem é, talvez, mais importante que nunca.

Não vou ser hipócrita: entendo que quem tem contacto directo com clientes deve ser o cartão de apresentação vivo da empresa, nem mais nem menos. Deve cuidar-se, não descurar a higiene, ter uma imagem sóbria e ir ao encontro dos padrões da empresa que representa. Tudo certo, até aqui. O que eu não consigo aceitar ou sequer compreender é que essa imagem seja igual para todos os funcionários de todas as empresas, que se espere um determinado conjunto de roupa e acessórios que é comummente aceite por todos. É um acordo tácito, à excepção das empresas que o definem na totalidade (sei de empresas onde se define a altura exacta das saias, o tipo de acessórios que podem/devem usar-se, por isso pouco me admiro), é supostamente entendido por quem entra nesse mundo.

Eu tenho um ou dois problemas neste campo. Não tenho/uso acessórios nenhuns (embora muitas vezes me apeteça investir nisso), sou péssima com maquilhagem (que uso só para disfarçar o aspecto macilento que me trouxe a vida no Norte), não suporto saltos altos (não é uma questão estética, quem me dera alongar as pernas assim) e não sou mulher de decotes ou saias curtas. Um conjunto que, para quem faz o que eu faço, pode ser letal. Já decidi há uns tempos que não vou preocupar-me com isto e que vou sempre fazer o melhor para que as minhas qualidades possam falar mais alto do que a minha imagem. Se quero ser um trambolho? Claro que não, mas não posso aceitar que seja um par de sapatos ou um colar estratégico a definir-me profissionalmente. Além disso, acredito mesmo que é uma mais valia para a empresa ter alguém que se mantém fiel às suas convicções sem desafiar ou prejudicar a sua imagem: demonstra abertura de espírito e igualdade no tratamento dos seus funcionários. 

Por isso, os meus melhores amigos agora são estes sapatinhos prateados que me apetece calçar todos os dias. Dão um bocadinho de glamour à minha rotina luxemburguesa e eu não tive que aprender a andar com eles. E continuo a dizer: viva a diversidade! Continuemos a trabalhar para não julgarmos os livros pelas suas capas.

Maio 20, 2014

(ainda sobre os Estados Unidos...)

É impossível não ficar impressionada com os Estados Unidos. Se pensar dois segundos, grande parte nas minhas referências musicais, cinematográficas, literárias giram à volta deste país tão livre e tão impossivelmente controlado desde que tenho recordações. Goste-se ou não, concorde-se ou não mas ele lá está: as brownstones das séries onde a malta se senta antes de entrar em casa, os ícones arquitectónicos e históricos mais ou menos recentes, o Woody Allen a filmar a ponte de Brooklyn, as tipas do Sexo e da Cidade saltando entre restaurantes mais ou menos exclusivos, os blogs que recentemente aprendi a adorar, os camiões imponentes, as banheiras pela estrada fora. Tudo isto na única língua que, na minha confusa cabeça, faz tanto ou ainda mais sentido que o Português. É uma enorme sensação de alívio e segurança sabermos de antemão que vamos visitar um país onde compreendemos e podemos fazer compreender.

Também seria mentir se dissesse que não tinha ideias feitas sobre muitas coisas: as pessoas, a comida, a segurança. Se posso dizer que fui surpreeendida em algumas coisas, noutras a nossa percepção está totalmente correcta. Tinha a ideia em Nova Iorque que toda a gente seria impossivelmente antipática, sem tempo para dedicar a estranhos ou sequer sorrir. Não podia estar mais enganada: muitas vezes fomos ajudados por alguém que, espontaneamente e topando a nossa desorientação temporária, se dirigia a nós oferecendo ajuda.Ficámos com boas memórias neste campo.

A comida é outro estereótipo: é geral pensar em doses industriais de comida rápida por todo o lado. Não tive, neste tempo que passámos lá, nenhuma experiência em que a quantidade tenha sido manifestamente exagerada mas posso afirmar que a comida (mesmo a que se intitula menos rápida) é tudo menos saudável: muitos fritos, muitos molhos espessos de sabor indefinível, bastante gordura. Há zonas em que não existem alternativas (perto do hotel onde ficámos, por exemplo, onde as escolhas quase não passavam do chili ou do hamburguer nas suas muitas variações. Em Miami também é um pouco assim, apenas com a vantagem que a cozinha cubana tem muita expressão. Mas é carne e molho com fartura.

Já a segurança... Bem, é tudo aquilo que imaginamos e ainda mais. Desde o embarque ainda em Lisboa, onde a área de espera foi primeiro evacuada para depois revistarem uma lista de passageiros escolhidos a dedo (adivinhem quem teve que abrir a mala...), as impressões digitais e a fotografia tiradas à chegada no aeroporto, as atracções com redobrados controlos de segurança e raios x e revistas... Eu estou bem familiarizada com os acontecimentos (já não tão) recentes mas será que ninguém vê nisto um bocadinho de paranóia? Nesse aspecto, a Europa está a anos luz do que se faz lá mas a verdade é que nunca sofremos um ataque da dimensão do onze de Setembro. Enfim, continuo a achar que aquelas cabecinhas pensam demasiado.

O que eu achei cómico e mesmo um pouco ofensivo é o tom das recomendações. Nas lojas, por exemplo, lê-se "You break, you pay" e nos hoteis qualquer coisa como "You puff, you pay!". Se compararmos com o estilo europeu, este é talvez mais paternalista mas pelo menos mais delicado, sendo mais normal ler "Please do not touch the cups" ou "This is a non-smoking room". Enfim, estilos, eu cá continuo a preferir o tom cordial e delicado aqui das nossas bandas. São gostos!

Mas aquilo que mais me fascina nos Estados Unidos (e o que seguramente me vai fazer voltar) é a sua diversidade, são os seus parques naturais e estradas desertas, são os arranha céus que desafiam as alturas e as pequenas cidades de beira de estrada, as praias imensas da costa Oeste, os extensos campos de cereais, os climas temperado e tropical num só país. Faziam-nos falta muitos dias de férias (e correspondente pocket money) para poder ver tudo com a calma e a atenção que um país destes merece. Até lá, como em tudo, vamos continuar a sonhar com destinos longínquos.