fevereiro 02, 2016

Doze anos destas borboletas

A sério que não sei porque ainda aqui escrevo, tenho de começar assim. Este blog comemora hoje doze anos de existência, exactamento um terço da minha vida, o que, ano após ano, não pára de me impressionar.

Nos últimos tempos, tenho pensado muitas vezes em acabar com a minha presença nas redes sociais, blog incluído. Penso nisso especialmente por um motivo: a quantidade inacreditável de tempo que elas me sugam sem qualquer contrapartida positiva que não seja poder estar em contacto com os meus amigos e a minha família. Mas mesmo nisso às vezes tenho dúvidas: porque raio quero eu ler frases motivacionais ou correntes que não devemos quebrar sob pena de termos vinte anos de azar ou os recados que se mandam por indirectas? É que, no meio dos amigos e família, também há aquelas pessoas a quem não conhecemos bem ou os ex-colegas de trabalho com quem nunca tivemos grande confiança. Mas bem, podemos sempre restringir o que queremos ver e assim me vou aguentando por ali.

Mas o blog é outra história. O blog conhece o meu antes e o meu depois. O blog já me viu virada do avesso, a morrer de tristeza, a transbordar de alegria, a amar sem ser amada, a ser amada sem amar, a viver cinco ou seis vidas. Ele esteve sempre aqui, mesmo nos períodos mais longos em que eu não quis ou não pude escrever uma linha que fosse. O blog foi o meu maior confidente até ser descoberto, depois tornou-se no diário de uma jovem adulta e desnorteada, que seguiu até que ela se tornou em mulher e mãe de dois filhos. No blog escrevo eu e a quem ainda dá gozo comentar, sem desfile de estados, imagens e videos. Há uma audiência que eu espero que ainda aqui esteja porque gosta de (me) ler mas se ela não existisse eu continuaria a debitar as mesmas linhas, talvez mais soltas, talvez mais ousadas mas continuaria aqui.

Eu não escrevo tudo o que penso e muito menos tudo o que sinto. Nunca o poderia fazer, talvez apenas sob um pseudónimo. Não seria capaz de suportar o julgamento, tudo aquilo que os outros pensam de mim, já assim às vezes me custa. Ainda procuro uma forma de me libertar destas amarras e dar asas às torrentes de palavras que às vezes sinto dentro de mim. Não encontrei ainda a fórmula para as ordenar e torná-las em frases com sentido e isto é bom: depois de tantos anos a escrever, ainda posso surpreender-me. Mas, ao mesmo tempo, isto é também terrível: depois de tantos anos a escrever, ainda não encontrei a minha voz. E se por um lado eu acho que ainda tenho tempo, por outro parece-me que nunca vou conseguir. Por este andar, o blog ainda há-de cá estar para contar (também) essa história. Doze anos, caraças!

fevereiro 01, 2016

Há seis anos a moer-me diariamente o juízo, há quatro internacionalmente!

Foi há exactamente seis anos que soubemos que podíamos finalmente viver juntos. Não tinha ainda passado um ano desde o começo do nosso namoro mas tinha sido tempo suficiente para sabermos que não era vida namorar assim. Foram muitas horas passadas ao telefone, muitas sms trocadas durante o dia e durante a noite, muitas viagens para cá e para lá, muitas saudades e corações pequeninos sempre que a distância passava a duzentos e doze quilómetros. Namorar à distância pode ter piada ou fazer algum sentido quando somos adolescentes ou quando não podemos escolher mas torna-se numa tortura quando já somos adultos, responsáveis pela nossa vida e simplesmente não podemos mudar. Tudo se resolve, encarregou-se a vida de me ensinar, e no dia um de Fevereiro de dois mil e dez chorámos ao telefone por saber que a distância ia ter finalmente um fim.

Curiosamente, foi também neste dia que, há quatro anos atrás, soubemos que ia terminar outra distância, esta com mais de dois mil quilómetros de extensão. Ele a dormir num hostel como um adolescente, eu regressada a casa dos meus pais mas já com um filho nos braços. A procura tinha finalmente dado resultados e havia uma casa para os três. Fim às noites a partilhar um quarto com estranhos, fim aos serões a fugir do taxista psicótico, fim às chamadas com um bebé que não percebia que o pai estava longe, fim da incerteza. O dia um de Fevereiro tem tanta importância para mim, para nós como família!

Não posso dizer que a nossa vida a dois tem sido um mar de rosas, que não tem. E acho que nunca pensei que fosse uma das partes da minha vida em que mais tivesse de investir, em que mais precisasse de me adaptar. Vivi sozinha durante os anos suficientes para apreciar algum silêncio, para gostar do meu espaço, para esperar ter as coisas à minha maneira. Aprendi a desentupir o lavatório, a abrir garrafas de vinho, entrei em casa pela janela das traseiras quando fiquei sem chaves. Eu chegava-me e era tudo, nessa época em que pensava que estaria para sempre sozinha. E depois entra-me ele pela vida dentro, com a sua ordem e o seu feitio, com uns braços que parecem intermináveis quando me tenta proteger. Ainda luto contra isso porque me programei para me proteger a mim mesma. Ainda o empurro quando me tenta amparar as quedas porque o meu orgulho está acima da minha necessidade de protecção.

Mas há seis anos que partilhamos o mesmo espaço, mesmo depois do cepticismo de alguns, mesmo depois das cambalhotas que a vida nos fez dar. Eu cá acho que a tendência agora é simplesmente  melhorar: somos uma equipa a funcionar bem mas ainda nos falta encontrar aquilo que nos tornará numa máquina. E ainda se aprende mas mal seria se já tudo estivesse sabido...

janeiro 27, 2016

Diário de bordo

É a quarta semana depois de ter regressado ao trabalho e sinto-me uma máquina, com o que isso tem de bom e de triste.

Durante a semana, não há tempo para quase nada. Os banhos deles, o meu, o jantar, cama para eles, sobramos nós. Ela tem sempre sono, ele não tem mas se se deita adormece logo e profundamente. Há dias em que só os adultos sobrevivem à hora de jantar e o silêncio e falta de agitação são estranhos. Não tenho paciência para ficar a ver televisão, por isso tenho lido sempre umas páginas antes de me deitar e com isso estou em vantagem no desafio que impus a mim mesma: ler doze livros este ano.

Nestas quatro semanas, não trouxe almoço para o trabalho apenas uma vez e porque tinha tido jantar de trabalho no dia anterior, chegado tarde a casa e de manhã resta-me pouco tempo para preparar as minhas coisas: entre mudar e vestir a miúda que acorda sempre bem disposta e conseguir arrancar da cama o miúdo que acorda sempre mal disposto, a minha luta é apenas com os gritos que tenho vontade de dar. Veste-te, queres leitinho, bebé?, o que queres comer?, lava os dentes, então e a cara?, olha o casaco, deixa de esmagar a tua irmã, e as manhãs antes de sair de casa passam num instante. Os almoços? Preparo-os ao Domingo, muita coisa só no forno ou cozida, o cuscus, a massa ou outros acompanhamentos podem preparar-se no dia, cozo dez ovos para mim e para o pequeno, a fruta arranja-se antes de ir para a cama. Não quer dizer que consigamos tratar do jantar todos os dias: às vezes não há mesmo pachorra mas é bom podermos os dois fazer as coisas a meias.

E depois sobram os fins de semana. Dois dias para estarmos com os pequenos, dois dias para a limpeza da casa e para tratar da roupa, dois dias para fazer as compras, dois dias para sair de casa e arejar. Quarenta e oito horas não chegam para isto tudo. Ou chegam mas é preciso esticar um bocadinho o tempo. É preciso muita ordem e disciplina e, quatro semanas depois de voltar a trabalhar com dois filhos, suponho que ainda estou a aprender a disciplinar-me. No fundo, não me custa muito esta divisão eficiente do tempo: o que custa é sentir que não há muito glamour, não há tempo para fazer bonito, não há aquelas vidas ideais. E para mais neste Inverno, em que saímos de casa e é noite escura e entramos em casa e o cenário é exactamente o mesmo. Havemos de aproveitar o quintal a partir da Primavera, prometo a mim mesma. Havemos de habituá-los a gostar de caminhadas, congemino em silêncio. Havemos de sair sem pensar no que há para fazer, sempre desejei. Um pouco mais de disciplina e talvez cheguemos lá. Um pouco mais de tranquilidade e chegamos lá de certeza.

janeiro 15, 2016

Ódios de estimação: a neve



Chegou com muito atraso.Era como se o Inverno não fosse Inverno ou fosse apenas um sucedâneo da estação a que estamos habituados que comece no dia vinte e um de Dezembro. Uns dias de chuva, muitos dias cinzentos, quase nenhuma ponta de Sol. E agora esta chatice chamada neve.

Eu desconfio que as pessoas que dizem que adoram a neve só o fazem porque não têm que viver com ela. Claro que é muito giro ir para Pas de La Casa e esquiar mas melhor ainda é regressar a casa, enxutos e sem precisar do drama das botas, casacos, gorros, luvas e cachecol, pá para limpar a neve e sal para impedir que os vizinhos partam uma perna à nossa porta. Também não é lá muito engraçado ter que limpar todos os vidros do carro com uma escova gigante e ter que estar sentada durante longos minutos à espera que o carro aqueça. E depois ter que enfrentar a neve com uma bebé (no ovo) pela mão e um miúdo que apenas quer fazer bolas e bonecos de neve, enquanto todos estamos atrasados, foi coisa para me esfrangalhar os nervos logo de manhã.

Um pessoa deita-se tranquila, passa a noite sem ouvir mexer uma palha e, de repente, acorda e as ruas estão cobertas de um espesso manto de neve. Nisto prefiro a chuva: chove torrencialmente mas nós sabemos o que se passa na rua. A chuva é definitivamente menos traiçoeira. A única coisa boa da neve é quando levantamos as persianas, chamamos os miúdos e os olhos iluminam-se com o entusiasmo que sentem. O mais velho foi hoje patinar no gelo com a escola. Agora é esperar que não me chegue a casa encharcado e doente (como eu estou a prever) e que guarde a vontade das bolas de neve para amanhã de manhã. Pode ser que esta lambisgóia continue a cair até amanhã, no mais profundo silêncio para delícias dos miúdos. Desta graúda é que não!

janeiro 14, 2016

Ontem era dia de celebrar

O dia de ontem teve duas efemérides para mim. Fez exactamente um ano que deixei de trabalhar para entrar na licença de maternidade e também que assinámos, no notário, o contrato com que comprámos o nosso apartamento.

A distância que já vai de lá até aqui! Eu tinha acabado de deixar de trabalhar e pensava, com grande prazer, no que era ter um ano inteiro sem escritório pela minha frente. É certo que já me arrastava em vez de andar mas o simples facto de me poder resguardar durante tantos meses era suficiente para me deixar menos ansiosa. Não tinha verdadeiros planos mas sabia que ia gostar de estar em casa, cuidar da miúda e das coisas domésticas. Enganei-me e não me enganei.

Nesse dia, pude finalmente tomar o pequeno-almoço com alguma calma antes de sair para o notário. O caminho era curto e fi-lo de autocarro, não me lembro bem porquê. Encontrámo-nos à porta e, descobrimos depois, já estávamos uma hora atrasados: a secretária havia enviado a hora errada para nós e não nos conseguiu avisar a tempo. Lá dentro, os antigos donos do apartamento já nos esperavam, talvez um pouco ansiosos, mas felizes por venderem a casa. O tipo da agência imobiliária disse-nos que queriam o dinheiro para investir em Espanha. Eu só pensava que devia ser um investimento e tanto!

O notário era um homem dos seus sessenta e tal anos, muito bem posto, natural da Alsácia, cheio de pequenas anedotas sobre assinaturas de escrituras e sobre a vida em geral. Depois dos antigos donos saírem, ainda ficámos com ele um bom bocado a rever os documentos todos e a ouvir as histórias que tinha para contar. Já tínhamos a cabeça no nosso lote mas teria sido desagradável apenas pedir-lhe para se apressar. Ficámos e ouvimos.

Saímos, um molho intrigante de chaves num pequeno saco de cartão, e dirigimo-nos quase de imediato para a nossa casa. Pensar nisso, na nossa casa, parecia uma coisa irreal. Eu, que tanto tinha lutado contra a ideia de ter uma casa aqui, estava de repente radiante, ao pensar em tudo o que ainda havia por fazer. Passeei-me pela casa vazia, a tentar sentir-lhe o pulso mas na verdade já me sentia a viver ali desde a primeira e única (!) visita que fizemos antes da compra. Voltar para a casa antiga com a cabeça na nova foi uma tortura. Só pensava em soluções para podermos mudar-nos o mais rapidamente possível, ontem já era demasiado tarde!

Apetece-me dizer Possa, para onde foi este ano inteiro? mas sei exactamente como o tempo custou a passer, apesar de agora me parecer que foi tudo demasiado rápido. Parece que já vivo nesta casa há anos, encontrei o meu sítio mesmo ali. Às vezes vêm-me à memória as imagens das infinitas caixas do Ikea que descarregaram numa manhã gelada de Janeiro pela janela do quarto dos miúdos. Ou as imagens dum marido a montar móveis atrás de móveis e a dizer que tinha achado a sua vocação. E a imagem do miúdo a dormir na sua cama, a primeira a ficar pronta. E as imagens da nossa sala, sem uma peça de mobiliário ou decoração, a não ser a televisão que me tinham deixado no chão. E lembro-me de ter muito frio porque nevava e o aquecimento precisava (ele mesmo) de tempo para aquecer e eu tinha a barriga do tamanho dum balão!

Ontem era dia de celebrar mas entrei em casa quase à meia noite e a minha gente já dormia. Guardemos para depois a celebração não só do tecto sobre as nossas cabeças, mas especialmente dum sítio a que chamamos nosso.

janeiro 05, 2016

Regressar ao batente

No final, tudo correu bem.
 
Eu trabalhei as oito horas e ela esteve longe de mim as mesmas oito. De manhã, quando a deixei na creche, fixou-me com um olhar que reflectia desconfiança e muita, muita hesitação. Silenciosamente, perguntava-me: quem é esta gente com que me vais deixar? Eu hesitei também um pouco na saída mas, consciente do risco dela começar a chorar e eu não conseguir mais deixá-la, saí quase a correr.
 
Tudo correu bem. Eu não tive demasiado sono, à excepção do período pós-almoço mas posso pôr as culpas na digestão. O cansaço só chegou à noite, quando me consegui finalmente sentar um bocado no sofá e dei pelos meus olhos a fecharem-se teimosamente. Ela já chegou cansada a casa. Quando me viu entrar na creche no final do dia, olhou-me com uma indisfarçável alegria e, pareceu-me, com algum alívio por ver finalmente uma cara conhecida, a falar uma língua conhecida. Estava contente, sentada a brincar com um livro e isso tranquilizou-me: consegui imaginar que ela tinha passado o dia bem sem mim e, assim, reduzir drasticamente o gigante complexo de culpa que sinto por ter de voltar à vida normal.
 
Tudo correu bem menos quando percebi que dificilmente voltará a haver tempo para desperdiçar nestes finais de dia, quando percebi que há dois banhos para tomar, uma bebé cansada e rabugenta, um menino que precisa de atenção e de contar como lhe correu o dia, um marido que dá a atenção aos dois à vez, o jantar e os almoços do dia seguinte que não se fazem sozinhos. Fiquei triste, nesse momento. Mas, ao mesmo tempo, senti-me determinada a encontrar alternativas que nos possam poupar a alguma da rotina: dar banho aos dois ao mesmo tempo, cozinhar montanhas durante o fim de semana, evitar as distracções. Vai ser possível, é nisto que acredito senão não vejo qual é o sentido de trabalharmos tanto para não estarmos com eles. Procuro truques, pequenas soluções, alternativas imaginativas e acredito com firmeza que vamos melhorar.
 
Durante o dia, senti em ondas as saudades de ser dona do meu tempo. Senti saudades do silêncio da nossa casa e do conforto de não precisar de sair. Durante o dia, ocupei-me o melhor que pude, evitei muitos cumprimentos mas recebi outras tantas boas vindas, tentei a custo recuperar um ano inteiro de ausência para concluir que isto me vai demorar bem mais do que uns dias.
 
Comecei ontem a dolorosa tarefa de entregar a minha bebé ao Mundo. De aligeirar os nossos laços, confiar em estranhos, sem poder evitar a totalidade do choque. Bem sei que os filhos, no fundo, não são nossos mas ainda está por inventar a cura para a dor que se sente em deixá-los ir. E quase me rio, que isto agora é apenas a creche. Sei que tudo é necessário para podermos avançar. E, simultaneamente, senti o alívio de poder voltar a sentir-me normal e deixar de me afundar na confusão dos dias em que o som das nossas vozes era tudo o que ouvia. Seguimos as duas em frente, que é na verdade a única opção, e crescemos juntas.

dezembro 19, 2015

Podemos dormir e acordar já em 2016?

Este é o mais difícil mês de Dezembro de que me lembro. Não, quem estou eu a enganar? Este foi o mês mais difícil de que me lembro, ponto. E foi também o ano mais duro que acabamos agora de atravessar. Eu mal sobrevivi, eles não deram por nada.

Foi um ano tão difícil quanto feliz. O início do ano foi brutal em termos de mudanças: comprámos a casa a treze de Janeiro, mudámos no primeiro de Fevereiro, a Amália nasceu a vinte e seis. Fiz as mudanças grávida de oito meses, mais a arrastar-me do que outra coisa, nada planeado, as nossas coisas enfiadas à toa nos abençoados sacos do Ikea, nenhuma ordem definida. Nevava, as minhas botas estavam empapadas naquela neve já castanha, multiplicavam-se as viagens entre a casa velha e a casa nova. Eu subia a custo o escadote para limpar os armários, tinha medo de cair e adiantar demasiado o nascimento da gaiata mas precisava de deixar tudo pronto para podermos começar de novo.O Mário pintou toda a casa velha em apenas um dia, dormiu entre baldes de tinta e trinchas, fez o que pôde e no fim o senhorio achou pouco. Que se lixasse, nós só queríamos sair dali.

Depois foram vinte e poucos dias sozinha em casa. Todos os dias com coisas para fazer, livros e brinquedos para arrumar, móveis ainda por montar, decisões sobre arrumações e ia arranjando uns momentos de sofá. Tomava o pequeno-almoço em silêncio enquanto estudava o pequeno jardim e a neve que ia caindo e cobrindo as árvores cujo nome ainda desconhecíamos. Havia tanto silêncio e a casa ainda não cheirava a nós mas começava lentamente a aquecer. Aos vinte e seis dias do mês de Fevereiro, passei a noite acordada. Primeiro com o miúdo, que parecia ter uma gastroenterite. Quando ele finalmente acalmou, eu finalmente percebi o que estava a acontecer comigo: estava em trabalho de parto. Não tive dúvidas e, apesar de não entender de onde me vinha este instinto, eu sabia que tinha que esperar e que estava tudo bem. Até não estar, até me rebentarem as águas e fazer a viagem até à maternidade no silêncio fundo de quem sabe que a vida estás prestes a mudar. Outra vez e desta vez sozinha numa sala de parto a meia luz, uma escuridão onde não ouvia outras mães, a ter que suplicar pela anestesia no melhor Francês que conseguia arranhar e a ter a minha filha nos braços em menos de quarenta minutos de gritos animalescos.

A minha filha definiu-me o resto do ano. As estações sucederam-se e ela foi a medida de todas as coisas. Ela ocupou-me todo o espaço livre, ela trouxe-me a alegria pura de ter um bebé perfeito e a exaustão profunda de quem não consegue dormir. Em casa durante quase um ano, eu passo-o em revista e tudo é ela: quando só dormia na nossa cama, tão pequenina; quando olhava tão calada para os nossos olhos e pensávamos que era mansinha; quando bebia o leite tão depressa quanto conseguia; quando a carregava para ir estender a roupa; quando as noites significavam acordar de hora em hora; quando admitia em voz alta que ela, como o irmão, não sabia dormir; quando ela começou a reclamar com tudo e a gritar com toda a força que tem; quando ela se ri, já com dois dentes e a sua alegria começa naqueles grandes olhos castanhos; quando ela gatinha e tenta roubar tudo o que o irmão tem nas mãos. Ela esgotou-me e fez-me duvidar sobre as minhas qualidades de mãe. Ela trouxe-me mais perguntas do que respostas e eu demorei quase um ano inteiro a saber lidar com isso. Entretanto, o irmão cresceu, tornou-se meigo em casa e arisco na escola, as birras abrandaram (mas não desapareceram), começou a medir o seu amor por toda a gente ("Mãe, gosto de ti dois zero zero três zero zero! É muito?"). E agora já quase brincam juntos e ela delira quando o vê e ele quer sempre enchê-la de beijos e são mesmo irmãos.

Este ano quase me derrubou. Se consegui escapar (mais ou menos) incólume, tudo devo à minha família. A um marido que aguentou as pontas e me amou sempre com o seu pragmatismo e força de vontade, ao meu filho que não gosta de me ver chorar, à minha filha que foi crescendo saudável e boneca, aos meus pais e avó que não descansaram enquanto eu não descansei, à minha irmã que tanto amou os seus sobrinhos. Tenho vergonha de admitir mas este ano foi mais forte do que eu. Não consigo escapar ao sentimento de que sou um falhanço mas tenho lutado muito para conseguir ver além isso. Sei que preciso de voltar ao mundo, de voltar à vida real e que só isso me vai conseguir trazer de volta. Este ano, mais do que nunca, estou grata pela família que tenho e que nunca desistiu de mim, apesar de toda a frustração. Quero muito que este ano acabe, muito mesmo, na certeza de que, depois destes 365 dias de dificuldades, só podem vir coisas boas. Só mesmo. Talvez eu possa voltar a sentir-me inteira, capaz, tranquila. Até lá, deixo os meus votos de Boas Festas e que os vossos balanços possam ser menos negros, mais positivos que o meu. Para o ano que vai começar, desejo a todos força, optimismo e muito, muito amor. Como o que desejo para mim.

dezembro 02, 2015

Dois dias (parte IV) *

Os dois dias foram-se à vida. Eu calei-me muito durante este tempo, caminhei, estiquei as pernas e o juízo e ganhei um pouco do fôlego de que precisava para voltar. Se estes dois dias foram suficientes? Se calhar não, mas por agora vão ter de servir.

Táxi até ao terminal dois, prioridade nas filas, a miúda inquieta no avião e vejo-me de repente no frio do mercado de Natal. Não estava vestida para o ocasião e por isso, enquanto comemos à pressa e bebemos o vinho quente, tremo um pouco de frio. A roda gigante está mesmo ali ao lado e ninguém parece incomodado pelas temperaturas baixas. Os miúdos estão quentes e isso reconforta-me.

Chegamos a casa e é noite cerrada. Há no ar aquele silêncio que só se pode encontrar aqui e os vizinhos parecem não estar em casa. Desfaço um pouco da mala mas depressa me canso: quero vestir o pijama e dormir. Adormeço a desejar que as baterias que recarreguei nestas duas semanas me cheguem pelo menos até ao final do ano. Aí, a história vai ser outra.

(* uma série de posts em diferido, para não atrapalhar o curso da história)

dezembro 01, 2015

Dois dias (parte III) *

Sou teimosa e resolvo apanhar outra vez o eléctrico. Foi a custo porque não me apetecia sair do sofá e a ideia destes dias era exactamente fazer o que me apetecesse. Mas como é que se pode ir à janela, olhar para este céu azul e ficar em casa? Pois, não se pode. Desta vez, o eléctrico não demorou tanto e vinha menos cheio. Consegui um lugar e fui tranquilamente a olhar pela janela até à Graça.

Não sei quantas vezes subi até à Senhora do Monte mas tenho a certeza de que subirei muitas mais. Corre um vento frio, aperto o casaco o mais que posso e sento-me num dos bancos livres. Miúdas a beberem cerveja ao Sol, turistas franceses e irlandeses, guias que debitam guiões sobre o rio e o convento do Carmo sem paixão nem entusiasmo, cadeados do amor nas grades, as cores incríveis do casario de Lisboa. É Outono mas podia certamente ser um dia de Primavera.

Começo a descer pela Graça, onde páro mais uns minutos. Ao meu lado, um casal americano com dois filhos pequenos a discutir no tom mais diplomata possível sobre o que fazer a seguir. Como eu, descem em direcção ao miradouro de Santa Luzia mas separamo-nos antes da subida para o castelo. Deste lado, o Tejo imenso e a aparente acalmia da margem de lá. Vendedores ambulantes por todo o lado, pintores de aguarelas, azulejos e roupa estendida ao Sol. Quando ouço o ronco do eléctrico nos carris, corro para o outro lado da rua e consigo um lugar com a janela aberta. Entro em pânico quando penso que perdi o telefone na paragem: reviro a mochila e os bolsos do casaco e preparo-me para sair na próxima paragem e voltar para trás quando, plim!, o encontro numa bolsa escondida. Alívio alívio alívio!

Vou directa à Estrela, onde me sento com os restos do jantar de ontem. Ali ao lado, em pleno jardim, a creche onde o Vicente ainda andou deixa-me de lagriminha ao canto do olho. Os bancos dividem-se entre os reformados que passam o tempo, turistas que recuperam o fôlego, miúdos das escolas em redor. Leio durante uns quarenta minutos antes de me pôr a caminho: casa não é casa sem um café na Tentadora!

(* uma série de posts em diferido, para não atrapalhar o curso da história)

novembro 30, 2015

Dois dias (parte II) *

IUma linha de metro e um autocarro depois e estou em casa a tempo de beijar a minha irmã antes dela sair para trabalhar. Estava à minha espera e tinha-me feito a cama de lavado. Agradeci, ela sabe que não era preciso mas fê-lo por gosto e eu sorri.

Almoço na tasca dos três irmãos aqui na esquina. São os vizinhos, são os amigos e perguntam-me pelo marido e pelos meninos. Escolho a alheira porque é esta a comida de tasca e nem cinco minutos depois já a tenho à minha frente. Aqui não há tempo a perder, nem há mãos a medir. Entram os mecânicos, entram os doutores, entram a senhoras que vivem sozinhas e é travessas de cabidela e perca grelhada sempre a saírem. Resisto ao pudim de ovos e ao arroz doce, peço só um café e saio.

Espero meia hora pelo eléctrico. Dizia que passava de oito em oito minutos mas eu já me tinha esquecido que os minutos-Carris não equivalem a minutos humanos e encolho os ombros mentalmente. No eléctrico, há quem bufe com a falta de espaço. Eu não bufo, não cedo à frustração porque tenho tempo. Saio no Calhariz e dou um salto ao antigo Adamastor. A vida lisboeta é tão boa para os turistas: esplanadas brindadas pelo Sol, jarros de vinho fresco, um mundo de pratos regionais a descobrir. Tempo para se absorver as ruas sujas mas belas, as montras das pastelarias cheias de línguas de sogra, natas e bolos-rei, tantas horas de Sol. Para viver Lisboa como a sonho teria que ser turista e isso será sempre impossível, pelo menos permanentemente.

Chego ao cinema Ideal em cima da hora e compro um bilhete para o Montanha, do João Salaviza. Somos cinco na sala, todas mulheres. Tirando eu, todas com mais de cinquenta anos. O filme é um pouco amargo mas belo, a solidão e o desnorte algures nos Olivais, um crescimento à força embebido no suor e no calor, musicado pelos sons da cidade. E quando termina e eu quero levantar-me, um tal cansaço abate-se sobre mim, como se estivesse há dias à espera de se manifestar. 

Espero o eléctrico que não vem, espero o 758 que não vem e decidi procurar o 709. Desço até ao Rossio para descobrir que já não passa ali. Desespero porque parece que vou adormecer a qualquer momento. De caminho, vejo muita miséria pelas ruas, muita roupa coçada, gente sem pernas, três ou quatro cegos. Enfio-me no metro e, três linhas e um autocarro depois, consigo arrastar-me até casa. Deixo as luzes apagadas e preparo-me parq dormir um pouco. Aterro na cama e zás!, uma espertina de todo o tamanho.

(* uma série de posts em diferido, para não atrapalhar o curso da história)

novembro 29, 2015

Dois dias (parte I) *

São oito da manhã e estou sentada num autocarro com destino a Lisboa. Quase a partir, a manhã está fria mas há Sol e o céu está azul, o que parece explicar uma certa ponta de optimismo.

O autocarro avança e eu tenho Portalegre à minha esquerda e o Sol que nasce atrás das torres da Sé. Quero absorver o perfil da cidade uma última vezes, como em todas as vezes, mas só consigo fixar o olhar a espaços. Não consigo evitar chorar, não posso. Nunca quis aqui ficar mas penso em tudo o que já foi e tenho saudades. Estes dias foram tudo, foram catárticos, foram duros mas necessários. Fui sentindo ao longo da vida mas agora, aos trinta e seis anos, vejo claramente o amor incondicional que os meus pais sentem por mim e aspiro apenas a poder oferecer o mesmo aos meus filhos.

Perdi-me algures no caminho e tem sido difícil reencontrar-me. O autocarro avança e eu abandono-me à paisagem, às azinheiras ou sobreiros que nunca soube distinguir, à geada que cobre os campos verdes com o seu manto macio, às vacas que pastam alheias ao que se passa à sua volta e imagino este silêncio lá fora.

É possível que muita gente não entenda por que raio estou eu sentada sozinha a caminho de Lisboa e isso, apesar de não ter importância, incomoda-me um pouco. Já não me lembrava como era fazer uma viagem tão lentamente, sem a necessidade de estar perto do volante. Já não me recordava do que era ter tempo para pensar, do que era mergulhar neste estupor, de ver alternar terras lavradas com parcelas por lavrar, de adivinhar ribeiras e riachos, de cobiçar casas abandonadas e em ruínas. A paisagem lá fora é um filme mudo e os meus problemas são ridículos, envergonha-me chamá-los problemas. Como se estivesse sempre ao meu alcance controlá-los.

Talvez há mais de dez, doze anos não faça uma viagem assim. Na única paragem do caminho, o ridículo dos amores que se escrevem nas portas das casas de banho, na esperança... Na esperança de quê? Respiro fundo, muitas vezes. A minha missão é apenas apanhar ar. Não quero (não posso) falar, não quero partilhar, simplesmente preciso de espaço. Daquele mesmo que tinha em demasia quando eu era só uma e tinha apenas a responsabilidade (facílima, vejo hoje) de tratar de mim. A vida enfiou-me numa espiral perigosíssima e eu estou agora à tona, combatendo a profundidade com as minhas parcas forças. Por isso, olho pela janela. Às bermas constantemente cheias de lixo, junta-se a barragem tão em baixo, o desleixo das casas à beira da estrada, o piso bom e o piso por renovar, o Sol esconde-se atrás de nuvens, ainda há ribeiras a correr e os ciganos ainda se sentam na rua em acampamentos improvisados. Toda a vida continua, não há tempo para olhar para trás. Porque haveria eu de parar?

(* uma série de posts em diferido, para não atrapalhar o curso da história)

novembro 25, 2015

(uma sombra apenas)

Às vezes acontece-me isto. Acordo um dia e não sou mais do que uma sombra. 

Aconteceu-me há umas semanas e eu demorei a perceber. Depois tudo se conjugou numa imensa cabala contra a recuperação: a exaustão chegou para ficar e depois Paris foi atacada, Bamako foi atacada e Bruxelas ficou em estado de sítio. Durante as últimas duas semanas consomi mais televisão do que gostaria de admitir. Foram horas de directos, as polícias a intervir, os especialistas e os generalistas a comentar, muito mais especulação do que alguém consegue digerir mas eu não consegui sair da frente da televisão.

Estou-me nas tintas para quem acha que é hipocrisia sentir tanto os ataques em Paris. Agora estou em Portugal e talvez não me possa sentir segura em mais nenhum lado mas no Sábado levanto voo com uma bebé de nove meses e volto quase para o centro da acção. Tudo o que eu não quero é passar a andar a olhar sobre o ombro, à procura da ameaça a todo o instante. Tudo o que eu desejo é que os meus filhos, como os filhos de tanta gente da paz, possam viver, crescer, ir aos mercados de Natal, correr nos parques sem que eu tenha de lhes explicar que a ameaça é real.

Como não sei parar, li todos os artigos a que consegui deitar a mão, na ânsia de encontrar respostas. Na ânsia de entender porque é que tanta gente inocente, tanta gente pacífica tem de morrer às mãos de selvagens que invocam a religião a cada ataque. Não consegui entender, obviamente. Nunca vou entender fanatismos, sejam eles religiosos, partidários ou clubísticos. Nunca vou entender pessoas que preferem morrer e levar consigo o maior número de inocentes possível em vez de aproveitarem o que a vida tem de bom.

Continuo com medo mas com menos ansiedade. Tento mentalizar-me que não há nada que possamos fazer, não está ao nosso alcance evitar e a única coisa a fazer é viver. Beijar os miúdos sempre que possa, ouvir quem nos quer bem, escolher o Bem todos os dias. A ideia do que está para vir é horrorosa mas, se eu não escolher este caminho, não vou suportar essa escuridão.

As palavras têm-me faltado mais do que nunca. Os pensamentos correm à velocidade da luz, especialmente antes de adormecer. O esforço para esvaziar a cabeça é redobrado, se quero descansar. Nunca pensei viver para ver algo assim e imagino que ninguém, ou pouca gente, esteja preparado. Que estejamos cá todos daqui a uns valentes anos, para contar a História como ela deve ser lembrada.

novembro 06, 2015

36 ou a salganhada de sentir tudo ao mesmo tempo

(nota prévia: este não é um post luminoso sobre aniversários.)

Cheguei aos trinta e seis. Dobrei, portanto, aquele marco invisível da meia idade para viver a segunda metade da minha vida e possivelmente nunca me senti tão confusa, um pouco perdida.

Não se deixem enganar: eu gosto de fazer anos. Mas apenas porque é um dia que me faz sentir especial, não porque goste de sentir os anos a passar. E o pior é que nem estou a envelhecer bem: é o baby weight que teima em ficar, é o cabelo quase todo branco a emoldurar a minha cara, a fragilidade das minhas mãos. Ultimamente, em todas as vezes que me apanho em frente ao espelho ouço a mesma pergunta: mas quem raios és tu? Não era suposto que a resposta fosse fácil, trinta e seis anos depois de chegar ao mundo? Não era tão mais simples não fazer perguntas e, cúmulo da serenidade, não pensar sequer?

Cheguei aos trinta e seis com dois filhos e num estado de exaustão que me preocupa. Cheguei aqui e há dias em que eles são aquilo que me define: se os amei tudo o que pude, se lhes dei banho a correr, se consegui não gritar. Cheguei aqui e às vezes parece que eles são tudo o que interessa, mesmo quando me lembro que eu sou a minha própria pessoa, com desejos, falhas, neuras e vontades. Talvez por estar em casa há tantos meses mas eles ocupam-me tanto espaço no pensamento que só acordo do torpor às vezes, um número minúsculo de momentos em que resolvo ser só eu.

Trinta e seis anos, porra. Imagino como se sentirão os meus pais a olhar para mim e ainda a conseguir ver o bebé que fui, imagino olhar para os meus filhos com trinta e seis anos. Como é que se pode aceitar a crueldade do tempo com um sorriso nos lábios? Se calhar com trinta e seis anos percebi que não estou aqui para sempre, vou abrandar e ficar velha, se calhar definhar enquanto os meus filhos se tornam pessoas. Se crescer é ficar mais sábio, mais complacente, porque é que pensar na finitude custa tanto?

Tenho hoje trinta e seis anos e começo a sentir-me excluída da novidade, do entusiasmo dos mais novos. Vejo aquela malta a entrar para a faculdade e penso Mas espera lá, ainda há pouco eu estive ali. Só que não, entrei há quase vinte anos para a faculdade, dito assim parece ridículo e irreal mas é dolorosamente verdade. Vinte anos em que vivi tanto e que hoje me parece tão pouco. Algum dia vai chegar?

Hoje comemoro os trinta e seis anos. Se estou mais sábia, não tenho notado. Estou talvez mais paciente, mais apaziguadora. Esqueço-me dos grandes gestos para me concentrar nas micro vitórias que uma vida longe do meu país e da minha gente me dá. Estou um pouco desiludida com o que consegui até aqui e com o que me custa tantas vezes dar a volta por cima. Pergunto-me mais coisas do que aquelas que gostaria: é isto, ser feliz? Posso eu algum dia sentir que me cumpri? Só sei dizer não sei, repeti-lo até à exaustão. Que aos trinta e sete tenha já encontrado altumas respostas mas por agora preciso de me habituar a dizer trinta e seis.

outubro 21, 2015

Outono, dentro e fora


Há muito silêncio por aqui. Quer dizer, não é silêncio completo ou profundo mas o suficiente para me ouvir a respirar. Corrijo: não é silêncio, é apenas a ausência de azáfama e correria doutras cidades, doutros países. Aqui eu consigo viver devagar. Aqui as ruas estão misteriosamente vazias e as janelas desocupadas. Ouve-se o ruído interminável da auto-estrada ao longe, bem abaixo do bosque cerrado e frondoso onde também se esconde o cemitério. Ouvem-se as empresas de jardinagem que se multiplicam nas manhãs por todos os quintais e jardins das casas donde saem pessoas de meia idade em Porsches. Ouvem-se os corvos pousados ora nos jardins, ora nos telhados que esperam os primeiros flocos de neve com alguma antecipação.

Não sei se faço parte. Quando saio com a miúda, alterno entre a minha música ou os meus podcasts e o ruído da vizinhança. Os parques estão vazios e estranhamente silenciosos. Ao fundo, a igreja marca a passagem to tempo a cada quinze minutos. Parece que tenho sempre que morar perto duma igreja (ao lado da igreja na Taborstr. em Berlim, quase ao lado da Basílica da Estrela em Lisboa, a metros desta igreja em Howald - é este um sinal?). Cruzo-me com poucas pessoas nos nossos passeios de higiene mental: outro carrinho de bebé, a senhora que veio apanhar o correio, os senhores das obras sempre a esquecerem-se que o mais certo é que quem passa fala Português. O Outono chegou e bem até aqui, mesmo nas zonas com menos árvores. Está frio e às vezes Sol mas esta ausência de vida é transversal a todas as estações.

Numa janela vislumbro um piano. Nunca vivi perto de pessoas que podem e têm um piano em casa. Os jardins das traseiras alternam entre a simplicidade e os intricados trabalhos de arquitectura paisagística. Começo a ter vergonha do nosso jardim, coberto pelas folhas débeis da cerejeira que perdeu há muito o fulgor do Verão. É como se a relva, mal aparada mas verde, se estivesse a preparar para o manto de neve que ainda há-de chegar. Às vezes cai uma chuva muito miudinha, é de noite quando levo o miúdo à escola mas agradeço a escola ser no fundo da rua para nos poupar a percursos de carro. A carteira passa sempre à mesma hora e eu ouço o bater da nossa caixa do correio. Os homens do lixo passam sempre à mesma hora e eu ouço o caixote a voltar ao passeio, já vazio. Os nossos vizinhos já não trabalham e eu vejo-o da janela da cozinha, enquanto recolhe as folhas que se acumulam no seu lado da cerca. Aqui dentro, o calor da nossa casa. Aqui dentro, eu perco toda a vontade que alguma vez tive de sair. Não preciso, sou só eu e ela e podemos passar o dia em pijama. Aqui dentro, conto os dias para este silêncio acabar e, com alguma ansiedade num estado inicial, peço para o tempo demorar muito mais a passar.