agosto 29, 2015

(pausa para respirar)

Estou aqui mas é como se não estivesse. Estou de férias e devia querer sair e fazer coisas mas a única coisa que quero é ficar em casa, recolher-me o máximo possível e não falar com ninguém.

Ter um bebé já com seis meses que não dorme é debilitante. Ter um bebé que não dorme de dia e também não dorme à noite é um pesadelo tornado realidade. Sinto uma espécie de terror assim que se nota que ela precisa de dormir porque sei que não vai conseguir. E se ela não consegue, eu não consigo. Os meus pais bem têm ficado com ela para me aliviar mas é difícil: há outro filho para entreter durante o dia e as noites continuam a ser apenas minhas. Ler sobre o assunto (obrigada Madalena!) não tem ajudado: faz-me sentir bem por saber que há quem passe pelo mesmo mas ainda não consegui melhorar nada. É duro, dia após dia, ver chegar as noites e saber que não vou dormir ou vou acordar de hora a hora e saber que durante o dia a situação também não vai melhorar. "Durma quando o seu bebé dormir", dizem os especialistas. E quando o bebé não dorme, fazemos o quê? Agora tenho ajuda mas daqui a duas semanas, como é suposto sobreviver sem dormir? E se, em vez de melhorar, toda a situação piorar com o passar dos meses?

Não tenho vontade de fazer nada. Forço-me a sair pelo mais velho e pouco mais. Não tenho nenhuma capacidade de concentração, não tenho paciência, não tenho assunto, nem sequer vontade de conversar. Gostava muito de dormir mas, acima de tudo, que ela encontrasse o seu descanso e um padrão de sono que não a deixe agitada. Que durma mais de uma hora de cada vez. Que todos aqui em casa possam também descansar. É evidente que não foram estas as férias com que sonhei. Começa também a tornar-se óbvio que quando regressar não vou mais descansada do que quando cheguei. Não tenho respostas às minhas perguntas, nenhumas.

Por enquanto quero apenas todo o silêncio que conseguir. E que finalmente possamos dormir.

agosto 23, 2015

Bem-te-quero, mal-te-quero


Não sei exactamente quando me chegou a vontade pela primeira vez. Não sei se houve sequer alguma razão para ela aparecer mas sei que na altura não a saberia vocalizar. Eu tinha que sair de Portalegre.

Apercebi-me esta semana, enquanto parava no miradouro por breves instantes, que tenho uma relação de amor ódio com a minha cidade. Eu tinha dezassete anos e podia ter escolhido ficar mas nunca quis - precisava ir embora. Felizmente, os meus pais (à custa sei lá de que sacrifícios) deram-me a possibilidade de escolha, que muita gente não tem. Quis ir para Coimbra durante algum tempo mas, talvez assustada com toda a (para mim exagerada) tradição académica, acabei em Lisboa com apenas dezassete anos. Lá vivi quase tantos anos como em Portalegre e, apesar de não ter lá nascido, é sempre lá que sonho voltar. A Portalegre quero apenas regressar pela família que deixámos para trás.

Também percebi que me defino mais como alentejana do que como portalegrense e de maneira nenhuma me vejo como alfacinha, embora sonhe com Lisboa todos os dias. Admiro muito as pessoas que escolheram ficar aqui e outras que, não sendo portalegrenses ou sequer alentejanas, assentaram aqui arraiais. Algumas fazem pela cidade muito mais do que eu alguma vez fiz mas  a vontade de sair, de me perder fora daqui falou sempre mais alto. Mesmo assim, continuo a achar que para vencer nesta cidade são precisos demasiados empurrões e conhecer as pessoas certas é absolutamente essencial. Acontece que nunca nos movemos nesses círculos. Não tenho pena, talvez apenas alguma mágoa por ver como toda a vida as coisas funcionaram aqui.

Hoje olho para a minha cidade, vejo as mudanças radicais desde que daqui saí, perco-me em memórias daquilo que um dia aqui vivi, penso na tranquilidade que seria ver os nossos filhos crescer aqui mas sei que nunca poderia ficar. Sentir-me-ia asfixiada, sem possibilidade de ver mais mundo com os meus olhos e de o dar também a ver aos miúdos. Este ano concretizei o sonho de pisar outro continente e sei que só o pude fazer porque um dia saí.

Espero que a minha cidade me perdoe. Voltarei enquanto os nossos estiverem vivos e, num mundo ideal, escolheria ficar aqui descansada. Mas o mundo é grande demais para este meu coração e preciso de sentir que posso ir sempre mais longe. Com ela no coração, sempre.

agosto 11, 2015

(Ainda aqui estou...)

Inaugurei ontem a terceira semana em Portugal e a primeira de malas desfeitas em Portalegre. Restam-me ainda trinta dias por aqui que vou aproveitando como os miúdos vão deixando.

A viagem de carro foi bastante dura e longa. As auto-estradas francesas fazem-se pagar bem mas não nos livramos de alguns (muitos) quilómetros de filas, especialmente a seguir a Bordéus e especialmente a meio de um enorme fogo florestal já mais perto da costa que mobilizava meios aéreos e terrestres.

A viagem também é uma interessante experiência sociológica: cruzámo-nos com gente de muitos países com comportamentos a dar razão a alguns estereótipos. Os jovens muçulmanos parados nas áreas de serviço, de tapete na mão, a prepararem a oração da tarde enquanto a sua jovem mulher esperava em silêncio no carro; os holandeses, todos altos, todos louros e todos com mais de três filhos; os magrebinos em carros com matrícula belga ou holandesa, carregados sabe-se lá do quê nas lonas mal esticadas em cima do carro e (quase todos) com uma bicicleta de criança em cima; os belgas a conduzirem invariavelmente na faixa do meio, a atrasarem a vida aos outros condutores; os franceses com as bicicletas sempre atrás, como se as férias só fizessem sentido sobre duas rodas; os portugueses, a colarem símbolos da pátria onde podem para que toda a gente saiba de onde eles vêm; os carros de matrícula luxemburguesa que eu ia festejando - num país tão pequeno, a possibilidade de conhecer as pessoas é enorme!

Depois foi Lisboa e a nossa casa em Lisboa, já muito apertadinha para os quatro. Comporta, Guincho, praia das Maçãs, Fonte da Telha; Chiado, Martim Moniz, Estrela e Campo de Ourique; peixe grelhado, frango assado e alguns caracóis; amigos, irmãos e vizinhos - mesmo sem planos, acho que conseguimos atenuar algumas saudades.

E agora Portalegre, Portalegre e Portalegre. Os miúdos a serem mimados pelos avós, a mãe a descansar sempre que pode. Os três com saudades do pai que já regressou ao trabalho mas os quatro a juntar forças para o ano que começa em Setembro.

julho 20, 2015

Nos entretantos

Já comecei a escrever dezenas de posts na minha cabeça, durante a noite, enquanto trato da miúda e tento não fechar os olhos. A existir uma entidade divina, não me abençoou com a dádiva dos bebés que dormem muito e bem e por isso, quase à beira dos cinco meses, a menina Amália continua a acordar durante a noite e, se bem que não chora, requere alguma manutenção. O meu sono está esfrangalhado como de costume e, embora já soubesse como era antes dela nascer, não me está a custar menos por isso. É por isto que começo os posts no escuro, às três, quatro ou cinco da manhã: não tenho normalmente forças (nem tempo suficiente) para me sentar ao computador e escrever um post a sério.

Em jeito de resumo, as coisas que me têm ocupado a mente nos últimos tempos:

  • a Grécia e a política europeia no geral. Eu sempre disse que não percebo nada de política e, quanto mais tempo passa, mais sinto que isto é verdade. Mas, depois do que li e vi entre o referendo grego e a humilhação a que a Europa sujeitou a Grécia, percebo porque não quero entender a política: é um meio demasiado sujo e desumano. Não quero acreditar nas teorias da conspiração que muitos sugerem porque isso seria o equivalente a enloquecer de vez mas como é que se podem ignorar essas coisas?
  • estou um bocado cansada das pessoas que se indignam por tudo e por nada e das outras, que acham que ninguém  tem o direito a indignar-se assim. Desde quando é que só existem os dois extremos radicais? Já ninguém tem direito a indignar-se só assim-assim? Também me inquieta o ódio, a mesquinhez e a maldade que tomam conta das caixas de comentários à menor oportunidade e normalmente sem qualquer justificação. Como é que estas pessoas conseguem viver na vida real com tanto fel dentro de si?
  • o miúdo vai mudar de escola e ela precisa de uma creche. A parte da escola é pacífica, é mesmo ao pé de casa e automaticamente assignada pela comuna, é a creche que me deixa a cabeça em água. Volto ao trabalho em Janeiro e por isso ainda não estou em pânico mas confesso que, aos poucos, aquele sentimento de que terei de abandoná-la nas mãos de alguém que não conheço e não a conhece toma conta de mim. Ele entrou para a creche aos cinco meses e sobreviveu, ela entrará aos dez meses e também há-de sobreviver. O coração de mãe é que leva umas chapadas nos entretantos.
  • no outro dia saímos e eu levei uns boiões para a miúda comer. Escolhi-os com base na indicação da idade (eram indicados a partir dos quatro meses) e não li convenientemente os ingredientes. Acontece que os dois continham leite de vaca e ontem as reacções não se fizeram esperar: alguma dor de barriga, muitos gases e muita impaciência. Como se uma pessoa não tivesse já razões de sobra para se sentir culpada, ainda fui arranjar mais uma e injustificável, ainda por cima. Serviu de lição, enfim...
  • Daqui a cinco dias partimos para Portugal. Já tenho algumas coisas apontadas para não me esquecer mas desta vez vamos ficar tanto tempo que o mais natural é esquecer-me de alguma coisa. Marquei o hotel para meio do caminho há umas semanas para me certificar que não temos que andar às voltas à última da hora. Como me dizia um amigo há uns tempos, a viagem pode ser muito boa ou muito má, já que depende de uma criança de cinco meses. Eu estou a descair para o lado optimista mas a rezar para que seja mesmo assim...
Não acredito em soluções milagrosas mas adorava encontrar uma que me deixasse dormir um bocadinho mais e não me fizesse arrastar-me muitas vezes casa fora. Assim sendo, eu vou tentando tudo o que me lembro e pode ser que entretanto reganhe forças para ir escrevendo todos os posts que comecei às escuras e não pude acabar.

julho 03, 2015

Às vezes, esta é uma casa de loucos

Há uns dias atrás, estávamos os quatro na cozinha a jantar (nós os três à mesa, a cachopa no seu ovo). Tínhamos ligado a rádio como costumamos fazer e eis que começa a tocar esta canção:


A miúda começa a chorar de repente, no momento exacto em que se fazem soar os primeiros acordes da canção. A seguir, e numa espécie de solidariedade, o mais velho desata também num pranto, alegando que a música lhe metia medo. O barulho dos dois era tal que quem ouvisse de fora havia de julgar que se tinha passado alguma desgraça! Depois, cada um de nós consolou um deles e nós, os adultos, trocámos umas gargalhadas silenciosas enquanto abraçávamos os pequenos.

Como neste dia, alguns dias são uma confusão pegada. Às vezes gritamos mais do que queremos e do que é preciso mas estarmos aqui sozinhos, sermos esta fabulosa ilha de quatro, tem destas coisas e a paciência esgota-se mais rápido. Às vezes à noite ela chora porque lhe custa a adormecer e ele aproveita a deixa para chamar um pouco a atenção. Noutras vezes, ele começa a rir-se para ela e ela ensaia as primeiras gargalhadas ao ver as palhaçadas do irmão. Quando conseguimos que os dois se deitem, é um silêncio esquisito e que nos faz sentir como se alguma coisa não estivesse bem.

Mais do que um filho é duro, é trabalho mas é mesmo casa cheia! Ainda não dominamos totalmente a divisão das tarefas mas pelo menos é claro que cada um de nós tem que se ocupar com um deles, não há muito que enganar. Esta é talvez uma das razões pelas quais é não considero o terceiro filho: é que depois sobra sempre um e quem é que o vai agarrar quando ele desatar a correr para a estrada? De qualquer maneira, é espectacular ter estes dois macaquinhos sempre perto de nós. Mesmo que às vezes isto pareça um manicómio!


julho 02, 2015

Questões existenciais

Foi ontem depois do jantar. Eu tinha ido deitar a miúda no nosso quarto e ainda havia muita luz. Ele veio a correr e deitou-se na nossa cama, ao meu lado.

Começou uma série de perguntas sobre o crescimento dos avós, até que chegámo ao ponto em que notou que lhe falta conhecer uma avó, que infelizmente partiu mais cedo. O diálogo que se seguiu foi mais ou menos assim:

Ele: Então e onde está a mãe do pai?
Eu: A mãe do pai morreu, querido.
Ele: (ficou pensativo durante uns instantes) Então mas as pessoas morrem?
Eu: (da maneira mais calma e ponderada que pude) Sim, todas as pessoas morrem. Normalmente ficam velhinhas e é aí que acontece.
Ele: Então mas e tu estás a morrer?!
Eu: Não, querido, ainda não! Ainda falta muito para isso.
Ele: Mas mãe, eu não quero ficar velhinho e morrer!
Eu: É o curso normal das coisas, querido. Mas não te preocupes nem penses nisso agora, és muito pequenino.

Provavelmente não é assim que a pedagogia diz que se deve abordar o tema mas foi a melhor maneira que arranjei para falar sobre isto, especialmente porque fui apanhada de surpresa. Não queria falar-lhe da ideia de Céu: apesar de achar a ideia de ter alguém lá em cima muito reconfortante, não queria entrar na perspectiva religiosa da coisa.

Suponho que a partir de agora estas questões vão suceder-se de mesma maneira imprevisível e inocente. É tão difícil explicar-lhe alguns conceitos mas para mim só faz sentido aproximar-me o mais possível da realidade, mesmo que isso possa significar uma história menos cor de rosa. Não quero que ele viva numa redoma mas também não faço tenções de lhe mostrar já como pode ser cruel o mundo. Para isso, ele ainda tem muito tempo. Ainda eu me queixava dos tempos de bebé - os verdadeiros desafios começam agora.

junho 25, 2015

Singularidades de uma mãe de dois

Dormir nunca mais é a mesma coisa. Nunca, nunca mais. Já tínhamos um miúdo de quatro anos a dormir relativamente bem, apenas com alguns episódios de terrores noturnos ou simples pesadelos. Conseguimos que não bebesse leite a meio da noite a muito custo mas já não temos tido muita sorte com as horas a que acorda ao fim de semana. De repente, juntámos-lhe uma miúda de quatro meses que, apesar de não dormir a noite toda, não chora (só mesmo em desespero) e que é relativamente fácil de adormecer. Ainda estamos a treinar a coisa de a deixar adormecer sozinha na cama e acho que está a andar. Mas a cabeça de mãe não deixa dormir como antes - qualquer suspiro ou volta na cama são suficientes para despertar. Esta semana o mais velho gritou pela irmã em pleno sono e pregou-me um valente susto. Eu, que sempre conseguia dormir até ao meio dia nos bons velhos tempos, transformei-me numa pessoa das manhãs e luto para relaxar mais durante as noites.

As coisas pequenas são mais saborosas que alguns grandes gestos. Nos primeiros tempos, é difícil descrever a patetice que é ficar contente com um cocó mas foi assim com ele e continua a ser assim com ela. Ele trouxe-me a prenda do dia da mãe há uma semana. Conseguiu guardar segredo enquanto a fazia lá na escola e isso surpreendeu-me. Mas o melhor são momentos como quando me perguntou Posso dizer-te um segredo?. Acenei que sim e ele disse-me ao ouvido, bem baixinho Prometo que hoje não choro quando me for deitar. Foi ele que decidiu isto, espontaneamente, sem ninguém lhe pedir nenhum compromisso e cumpriu a promessa. Ele nunca nos deixa esquecer as nossas promessas mas também honra as dele.

Deixei de ter medo de coisas parvas. Ter um filho tem este efeito: passamos a achar ridículos alguns medo. Lembro-me de ficar tão nervosa para entrevistas de traqbalho, por exemplo, que a dor passava a ser física. E depois tive um filho e agora o segundo e nada disso me assusta. Convenhamos: quatro horas em trabalho de parto intenso em casa, quarenta minutos no hospital e nenhum tempo para levar a epidural tornaram-me mais rija. Claro que tenho ainda medo de algumas coisas mas eliminei os medos supérfluos. É muito importante ter um trabalho, claro, mas é mais importante poder estar com os nossos filhos.

Comecei a ver os meus filhos reflectidos em todas as crianças do Mundo. Nas que são refugiadas, nas que têm fome, nas que têm família e nas que não a têm, nas que se cruzam conosco diariamente. Todas as caras me fazem lembrar dos meus filhos e da imensa sorte que eles tiveram nesta lotaria: puderam nascer em países onde há paz e segurança suficientes para as crianças crescerem. É que se pensarmos no número de refugiados que existem no mundo, se não ignorarmos as imagens que nos chegam todos os dias a casa, então temos mesmo que admitir: temos uma sorte imensa por podermos fazer parte de um mundo livre, sem nunca precisarmos de deixar as nossas casas.

Às vezes pode não parecer mas consigo gerir muito melhor o cansaço. É claro que há dias em que tudo o que quero fazer é ficar deitada no sofá e reservo-me o direito de ter mesmo esses dias. Mas depois há os outros em que consigo fazer tudo o que tenho em atraso e nesses dias sinto-me uma verdadeira super-mulher. Às vezes ando a passear com ela no quarto de olhos fechados e com vontade de dormir, outras só estou à espera que eles se deitem para poder fechar os olhos mas no geral sinto-me muito menos cansada do que quando nasceu o Vicente. Talvez seja o calo, a prática, não sei, mas por enquanto ainda dá para gerir. Só não quero pensar quando, daqui a seis meses, tiver que voltar ao trabalho. Mas empurrei essa data para o meu inconsciente e lá ficará até dar.

junho 11, 2015

De que têm medo os Luxemburgueses?

(Disclaimer prévio e óbvio: não percebo nada de política. Este post é menos sobre castigos políticos e mais sobre integração.)

No passado Domingo, os Luxemburgueses foram chamados às urnas para um referendo, onde lhes foram feitas três questões:

- está de acordo com o voto a partir dos 16 anos?
- está de acordo com o voto dos estrangeiros residentes (desde que habitem no Luxemburgo há pelo menos dez anos e tenham já votado em eleições comunais/europeias anteriores)?
- está de acordo com a limitação dos mandatos governamentais a um máximo de dez anos?

A questão sobre o voto dos estrangeiros incendiou as conversas e as redes sociais, ao mesmo tempo que trouxe para a discussão a ideia de que, apesar de muito se falar sobre tolerância e integração, os Luxemburgueses (grande parte, pelo menos, e a julgar pelos resultados do referendo) são xenófobos. Um pouco antes e depois desta consulta pública, dediquei-me a investigar os foruns online sobre o assunto e fiquei assustada e, simultaneamente, espantada com aquilo que fui lendo.

Primeiro, há que dizer que o Luxemburgo é um caso isolado no que diz respeito aos seus congéneres europeus: é o único país em que a percentagem de estrangeiros residentes está prestes a ultrapassar a percentagem de naturais do país. Do total de 563 mil residentes, 258 mil são já estrangeiros (donde 92 mil são Portugueses). Prevê-se que em 2020 o número de estrangeiros a residir aqui ultrapasse os naturais do Luxemburgo, a fazer crer no balanço migratório dos últimos anos. Isto quer dizer que em breve mais de metade de população deste país não terá direito a votar e terá que aceitar as escolhas de menos de metade da população.

Os Luxemburgueses contra o direito ao voto dos estrangeiros (quase 80% dos votantes neste referendo!) acham que todos os estrangeiros que querem votar devem pedir a nacionalidade Luxemburguesa. Para este efeito, é apenas necessário residir no país há pelo menos sete anos, frequentar um curso de instrução cívica e passar num curto teste de Luxemburguês (uma prova oral sobre assuntos do dia a dia). São estas três cláusulas que tornam alguém digno de poder votar neste país. Eu acho que saber Luxemburguês é desejável e devia ser encorajado mas num país com três línguas oficiais e em que as demarches administrativas são feitas maioritariamente em Francês e Alemão, não entendo a insistência. Falar e compreender duas das línguas oficiais, por exemplo, devia também valer alguma coisa.

Os Luxemburgueses querem, naturalmente, defender a sua língua, história e património. Evidentemente, sou a favor desta auto-preservação, que creio ser comum a todos os povos. Mas os Luxemburgueses acham que os estrangeiros apenas vêm para ganhar mais dinheiro que no seu país de origem e nada mais. Esquecem-se que esses mesmos estrangeiros também querem ficar porque gostam de viver num país mais justo, onde as melhores condições de vida não se resumem aos ordenados, onde há gente de centena e tal de nacionalidades, onde o património histórico e natural são verdadeiramente impressionantes e porque o país está exactamente no coração da Europa. Também se esquecem que os estrangeiros trabalham e, como tal, pagam as suas contribuições, sendo que muitas vezes ganham menos do que um trabalhador luxemburguês exactamente na mesma situação.

Muitos comentários que li diziam qualquer coisa como "Não gostam? Podem voltar para a vossa terra". Acho que estes comentadores se esquecem que sem nós, os estrangeiros que (ainda) não sabem falar Luxemburguês mas que vivem em pleno a sua vida no país não existiria construção civil, restauração, turismo, serviços. Sem nós, o país estaria muito mais atrasado e seria muito menos atraente. Era bom que, a curtos passos de nos tornarmos a maioria, os Luxemburgueses passassem a olhar para nós como parceiros em vez de potenciais ameaças. E que percebessem que uma língua não nos faz amar e valorizar mais o seu país.

junho 02, 2015

Bem-me-quer, mal-me-quer

Nos últimos tempos tenho ouvido algumas histórias de relações que não deram certo. Não vou cometer o erro de considerar que os motivos foram sempre os mesmos mas, no geral, há uma característica que me parece comum a todas: há muitas pessoas que não sabem o que querem.

Pessoalmente sempre tive um problema: parti sempre para as minhas relações com a ideia de que aquela é que era. Mesmo nas relações mais fugazes, em que honestamente eu sabia que não tinha grande hipótese de ir a algum lado, eu investi muitíssimo em fazer tudo resultar. Acho que sempre levei tudo demasiado a sério, nunca fiz coisas só por fazer, sempre procurei ser a melhor versão de mim mesma. Mesmo por isso, vi-me enredada em algumas ilusões que eu mesma criei, sofri e, nesse aspecto, fui responsável for esse sofrimento. Mas, se existe alguma coisa de que me posso orgulhar, é o facto de sempre ter respeitado as pessoas que passaram pela minha vida.

Ouço histórias hoje em dia que me fazem temer pela minha própria relação: pessoas que estavam juntas há imenso tempo e que se separam pelos motivos mais absurdos, famílias que se constroem para logo cada um ir à sua vida, divórcios e separações litigiosas, surpresas um pouco tristes, até na minha perspectiva. Não tenho nada contra pessoas que não querem assumir compromissos, que querem ser livres. Mas então que o admitam, ajam de acordo essa sua filosofia de vida e poupem as outras pessoas do sofrimento desnecessário. Ouço histórias de pessoas que mudam radicalmente e um dia simplesmente deixam de gostar e tenho medo por nós.

Na maioria dos casos, acho que as pessoas se esquecem que uma relação a sério requere trabalho, empenho. Não é só feita de magia e daquela paixão inicial, ambas tão fortes e cegas. Uma relação a sério passa, a partir de um certo momento, a ser também composta daqueles momentos banais do quotidiano, sem glamour nem encantamento, dos defeitos do outro e dos nossos defeitos (tanto os que conhecíamos como os que vamos descobrindo), dos filhos se os houver, das vezes em que só pensamos em estar sozinhos. Não é fácil, muitas vezes não é inspirador, não é bonito. Não é só caras felizes nem fotografias perfeitas, não é toda a gente de acordo, uma rotina sem percalços. Não sei se há quem espere tudo isto mas eu acho que não existe nada assim. Mas sei que existem relações em que as pessoas cuidam uma da outra, em que o sentimento de segurança e tranquilidade é avassalador, em que a admiração e o orgulho pelo outro vão crescendo, em que o amor vence as quezílias mais mesquinhas com o sorriso gozão de quem sabe que ia ganhar. Felizmente, também conheço histórias de amor duradouras, de preserverança e empenho. E a única coisa que desejo é que todos possam encontrar alguém por quem valha a pena lutar, com quem valha a pena discutir, com quem possam ser verdadeiros e por quem se sintam valorizados. Eu bem sei que muitas vezes parece qualquer coisa verdadeiramente rara e inatingível mas talvez com um pouco de paciência e o olho bem aberto a pessoa certa esteja bem perto. E se não estiver, continuo a acreditar que mais vale só que mal acompanhado.

maio 27, 2015

Arqueologia sentimental


Não é fácil. Não é fácil pensar que nunca mais entrarão nesta casa, que as velhas cadeiras nunca mais serão ocupadas por eles para ver quem passa e que as flores nunca mais serão regadas e mimadas como antes. A casa da minha avó está vazia de pessoas mas cheia de recordações. Acho que ela não pôde despedir-se convenientemente porque a doença já não o permitia mas sabe que não voltará a entrar aqui. E assim eu fico triste - por mim e por eles.

Temos o resto do nossos pertences na sala da minha avó. A mesma sala onde quase nunca entrava, onde a minha avó guardava as melhores peças de roupa, onde descansava a papelada do médico e algumas fotografias nossas. São caixas e caixas de coisas que deixámos para trás no imenso silêncio que é o que resta dos meus avós. Não me hei-de esquecer nunca: o retrato gigante do meu pai quando estava no Ultramar, o gato de loiça a substituir o gato que uma vez largaram em Arronches, o velho relógio a marcar as horas que sempre passaram lentas, os cortinados de renda que foram fundo de fotografias encenadas e pouco naturais, as flores e plantas que a minha avó sempre adorou com o seu jeito inato, o pote com açúcar louro que sempre guardou na gaveta ao lado do fogão, a pequena cafeteira com que fazia a mistura para os nossos lanches e que bebíamos em chávenas que eram maçarocas de milho, a cama onde me sentei tantas vezes enquanto o meu avô ainda dormia depois do turno da noite, as nossas fotografias em bebé e os nossos primos afastados e eu vestida para a primeira comunhão.

Não quero ter medo de um dia entrar lá em casa mas a verdade é que agora sinto que em breve não restará nada, apenas os fantasmas da vida que tivemos lá, enquanto crescíamos. Não me esqueço dos lanches nas escadas como se fossem piqueniques ou de entrar a custo pela varanda depois de vir da biblioteca carregada de livros. Hei-de sentir sempre o cheiro a cortiça e ver as mulheres que se param a conversar ao pé do quiosque e lembrar-me das batatas fritas que a minha avó me fazia (grossas e moles, como eu mais gostava). Eu sei que eles vivem enquanto restarem as nossas memórias mas não é a mesma coisa. Parece que com eles desaparece também a minha infância e tudo o que resta são os artefactos desse tempo numa espécie de museu. A casa da minha avó está vazia de pessoas mas cheia de recordações.

maio 13, 2015

Estar só

Num período bastante conturbado da minha vida tive que aprender a estar só. Para algumas pessoas, é qualquer coisa que sai naturalmente mas não para mim, habituada a estar sempre com gente à volta, a sair mesmo sem propósito. Passei muitas horas, muitos dias sozinha em casa. Às vezes só falava com as pessoas com quem trabalhava, outras nem isso. Hesitei muitas vezes entre cozinhar para uma pessoa ou comer só qualquer coisa. Nao tinha horários e era completamente dona do meu tempo e das minhas decisões. Era uma liberdade esquisita porque às vezes desejava estar presa a outro alguém.

Depois vieram os filhos. Todos sabemos que há um tempo antes dos filhos e outro depois deles chegarem. Com um, ainda conseguia ter algum tempo livre, algum silêncio e espaço para respirar. Com dois, e se bem que ela é ainda uma bebé com poucas exigências, vi-me privada desses momentos de solidão. E estou a todo o momento a arranjar maneiras de substitui-los como posso. É por isso que caminhar me faz tão bem: a miúda vai a dormir no carrinho, eu a ouvir um podcast qualquer ou simplesmente os sons do bairro. Se calha ela a dormir um pouco mais (como neste preciso momento) tento desligar-me das tarefas e dos afazeres e simplesmente aproveitar o silêncio e estes minutos em que não preciso de tratar de ninguém, em que ninguém esta directamente a depender de mim. Poder sentar-me na nossa varanda e ler um pouco nestes dias em que se começa finalmente a sentir a Primavera é realmente um luxo e eu faço o que posso para aproveitá-lo.

Daqui a uns minutos volto a ser necessária e daqui a umas horas duplamente assim. Por agora, sou apenas eu a pensar no que ainda tenho a fazer, a apanhar um pouco de Sol e às vezes é tudo o que é preciso.

maio 06, 2015

Ser mãe: um longo tratado de culpa

Li este artigo há uns dias e não pára de me assaltar o pensamento desde então. Para quem não tem tempo ou vontade para o ler, é um artigo que versa sobre a forma como um casal mudou de ideias sobre a melhor maneira de fazer férias depois de ter um filho: passaram de aventureiros destemidos para um casal que procura o conforto dos resorts com tudo incluído. Também descreve as diferenças entre as infraestruturas disponíveis para quem viaja com crianças nos Estados Unidos (país de origem) e a Escócia (país onde o autor vive no momento). Mas, mais do que o artigo, o que me ficou na memória foi a discussão que se gerou na caixa de comentários.

Para além do binómio já esperado comentadores sem filhos/comentadores com filhos, surgiram outras questões pertinentes sobre as viagens com  filhos de várias idades. Algumas posições chocaram-me bastante (às pessoas com bebés não devia ser permitido viajar de avião, as crianças nunca devem ser levadas a jantar a restaurantes, os bebés devem estar é em casa), outras fizeram-me pensar bastante (o que fazer quando os miúdos se portam mal, escolher sítios apropriados à idade para evitar o desconforto dos olhares de soslaio e adaptar o comportamento dos miúdos às circunstâncias).

Mãe de duas crianças, não consigo evitar o sentimento de culpa pelo potencial comportamento indesejável dos meus filhos: por um lado, uma bebé pequenina que sofre imenso com a imaturidade do seu sistema digestivo e é obviamente incapaz de controlar o seu mal estar; por outro, um puto de quatro anos que, apesar de gentil e amoroso quando quer, não pára de ser rebelde e tentar afirmar-se como um ser independente. Com ele, precisamos do triplo da paciência, muita capacidade de negociação e muitas estratégias para o distrair das suas parvoíces. Mas daqui a deixar de fazer coisas para não incomodar os outros? Não me parece. Na cabeça de algumas pessoas, ter filhos é o equivalente a renunciar a uma vida social. É claro que não os levamos a todo o lado e preferimos as actividades com crianças mas isso é apenas o senso comum a falar.

O caso do mais velho é o que me preocupa agora. Dois meses depois da irmã nascer, as birras atenuaram um pouco e os dramas irracionais diminuíram de dimensão. Já conseguimos fazer uma refeição sem acabarmos todos aos gritos e que ele se mantenha a dormir na sua cama. Ele adora a irmã e não interage mais com ela porque nós não deixamos ou estava constantemente em cima dela - literalmente. Mas continua um pouco beligerante e muitas vezes é difícil argumentar com ele para que se comporte ao nível do normal. Não negociamos com comida e tentamos que sejam sempre reforços positivos a fazê-lo andar na linha mas muitas vezes nem isso funciona. Tento falar com ele e saber como foi a escola: ele responde sempre que correu tudo bem mas não é verdade, às vezes as professoras contam-nos histórias que nos preocupam. E aqui entra a culpa: estamos a fazer tudo mal? Que parte disto tudo é culpa nossa e que parte é responsabilidade da personalidade dele? Eu acredito que podemos ter os propósitos mais nobres na educação de um filho mas há muitos factores externos que não podemos controlar e um deles é ele ser a sua própria pessoa e não o que nós antecipámos como filho.

Não tenho respostas e muito menos soluções. A senhora que o vai buscar à escola diz que ele é uma mão cheia de trabalho mas que apaixona as pessoas que o conhecem. Eu preocupo-me com o seu futuro com antecipação porque quero que seja um tipo porreiro, que se interesse pelo mundo e respeite os outros. Não sei medir se estamos ou não a conseguir transmitir-lhe tudo isto: talvez seja algo que só se pode ver bem à distância mas sei que não desistimos de tentar. Que pena não podermos ter segundas oportunidades mas pelo menos sabemos que fazemos o que podemos.

abril 22, 2015

Virar o jogo

Começar, como em tudo, é muito, muito difícil. Antes de mais, um disclaimer mais ou menos evidente: não procuro ser uma atleta de alta competição nem uma super modelo. Quero só ser mais saudável (e, claro, perder uns quilos no processo), acho que é um desejo simples e que resulta do senso comum.

Muitas vezes as pessoas confundem a licença de maternidade com um período de férias. Não trabalhamos fora de casa, é certo, mas temos um bebé para cuidar e isso a mim ocupa-me muitíssimo tempo. Nas primeiras duas semanas foi relativamente fácil mas a tarefa complicou-se desde então e a miúda exige-me muita atenção. Só esta manhã, por exemplo, foi andar com ela ao colo para trás e para a frente para acalmar até decidir sair um bocado de casa antes que desse em maluca. Tentar enxaixar exercício nestes primeiros meses é uma missão difícil mas não impossível. Vejo aquele video da mãe super-em-forma que faz exercício com o seu bebé em cima e só penso Agora experimenta a fazer isso com um bebé de dois meses com cólicas e que não pára de chorar, vá.

Estava fora de questão ir para um ginásio (já tentei demasiadas vezes para saber que não funciona) e ainda não dá para correr sozinha. A solução? Um programa de exercício que posso seguir sozinha em casa (poupo dinheiro, tempo e o desconforto dos balneários) e caminhadas com a miúda sempre que o tempo o permite. Era muito bom ter alguém por perto para corrigir a minha postura ou para me motivar mas por agora chega-me bem poder seguir um plano de exercícios durante cinco dias por semana, no conforto de casa e sentir que pelo menos me estou a mexer. Depois é só pegar no carrinho dela e andar um bocado aqui pelo bairro e já me sinto mais leve no final.

E a decisão lógica seguinte foi começar a comer melhor. Não se trata de nenhuma dieta, é apenas o que se designa de comer o mais clean possível: diminuir o consumo de carne e apostar noutras proteínas, escolher produtos frescos e da época para cozinhar, evitar ao máximo todos os alimentos processados. Há dias em que é mais difícil seguir os preceitos à regra: são dois filhos a precisarem de muita atenção, uma casa para gerir - nem sempre me apetece cozinhar e muito menos cozinhar tudo mas o que interessa é fazê-lo o maior número de vezes possível. O verdadeiro desafio é passar estes hábitos para a restante malta cá de casa, embora sejam incontestavelmente mais saudáveis.

Mesmo antes de ver quaisquer resultados, sinto-me bem e existe apenas um único motivo: a vida é minha e eu faço dela o que quiser. Poder tomar as rédeas com convicção e determinação, poder decidir o que é melhor para mim sem esperar pelos outros - poucas coisas sabem tão bem! E no fundo os resultados já aí estão: mais energia e aquele cansaço bom quando me vou deitar. Agora é bola para a frente e força de vontade para não furar os planos!

abril 17, 2015

A vida lá fora


O céu hoje acordou cinzento pela primeira vez em bastantes dias. É apenas um intervalo, segundo a meteorologia, que prevê o regresso do Sol para amanhã. Mas nem o cinzento consegue ofuscar o branco puro da árvore que está quase totalmente florida e a qual ainda nos falta identificar - somos novatos nestas coisas de quintais.

No chão, restam ainda as folhas que caíram no Outono passado, à espera que saibamos o que fazer com elas. Tenho visto alguns vizinhos a cuidar dos seus quintais e estou a tentar aprender pela observação antes de recorrer aos tutoriais que devem estar espalhados por aí. À esquerda, fica o quintal cuidado do nosso vizinho que partilha o apelido com a nossa rua e que gosta muito de cumprimentar o Vicente pela manhã. À direita, o estendal onde a nossa vizinha congolesa estende a roupa dos seus três filhos. No outro dia, apanhou-me a estender a roupa com os miúdos e desceu para se vir apresentar e conhecer-nos. Sou muito má com nomes mas sei que tem três filhos (rapaz de 25 anos e gémeos rapariga-rapaz de 15). Falou-me da viagem que fez no ano passado a Lisboa e de como comeu bem por lá. Concordámos as duas que é fácil fazer boa vida em Portugal quando se vive por estas bandas. A nossa vizinha de baixo juntou-se à conversa e percebi que fazem as duas exercício juntas quando começaram a brincar aos agachamentos. A senhora congolesa faz limpezas em lares de idosos e diz que já viu de tudo mas que teve uma surpresa (desagradável) na semana passada. A minha vizinha de baixo trabalhava numa pastelaria até ter um acidente de trabalho que a tem de baixa há vários meses. O que meia dúzia de minutos nos pode dizer sobre as pessoas...

À nossa frente, duas personagens: a velhinha que de vez em quando espreita à janela e usa a marquise apenas para passar a roupa a ferro e deixa-la bem estendida, pendurada em cruzetas; do seu lado esquerdo, o senhor que podemos ver a vestir-se todas as manhãs, pouco depois das sete, e que nunca abre ou fecha as persianas de casa. Há pássaros a pousarem na nossa varanda e a picarem um ou outro quintal, há esquilos de vez em quando a saltar de árvore em árvore à procura de qualquer coisa para comer. Estamos mais longe do percurso que os aviões fazem pouco antes de aterrar no Findel mas ainda os conseguimos ouvir a chegar. Aposto que mais umas semanas e vai começar a cheirar a sardinhas ou entremeada grelhada quando chegarem as sete da tarde. Nós havemos de procurar um grelhador maneirinho, uma mesinha para a varanda, umas cadeiras para o quintal e uma manta para deitar os miúdos. Nunca pude viver as traseiras de uma casa e ainda me estou a habituar a ter um espaço assim. Falta-nos um estendal e o tempo para tratar do pedaço de terra onde hei-de plantar as plantas comestíveis. No fim disto tudo, só nos ficará a faltar a companhia dos nossos para fazermos um beberete nos dias quentes!