dezembro 31, 2008

New Year's resolutions

Vou dizer mais vezes aquilo que sinto no momento certo. Vou correr mais, suar mais, resistir ao cansaço cada vez mais e gostar do que vejo no espelho. Vou arranjar outro emprego. Vou cozinhar só para uma pessoa. Vou tentar cozinhar sempre para duas pessoas. Não vou desistir do que acho que me faz feliz. Vou tirar mais fotografias. Vou continuar a usar ténis. Vou escrever mais e muito melhor. Vou dançar todos os dias no meu corredor. Vou estimar mais a minha família. Vou à praia nos fins de semana. Vou descer outra vez a costa alentejana. Vou voltar onde já fui feliz. Vou ter menos preguiça de ir ao cinema. Vou despachar livros de uma assentada. Vou apaixonar-me. Vou dormir menos e sonhar mais. Vou mandar o ipod à fava. Vou rir-me à brava. Vou conhecer gente nova. Vou comer fondue de chocolate. Vou mudar de perfume. Vou conseguir poupar dinheiro. Espero voltar a amar.

E vou desejar a todos o dobro da felicidade que querem para mim. Um ano de 2009 muito feliz, difícil mas feliz. Que vos esperem 365 dias de vitórias, desafios constantes e boa companhia. Chega a hora de arrumar este passado - vou, confiante, fazer-me à vida.

dezembro 30, 2008

Dormir mais feliz #18


I was lying in my bed last night staring
At a ceiling full of stars
When it suddenly hit me
I just have to let you know how I feel
We live together in a photograph of time
I look into your eyes
And the seas open up to me

Dei férias à tristeza


Buraka Som Sistema, Kalemba (wegue wegue)

E decidi que até chegar 2009 só vou ouvir música que me faça suar. De tanto dançar, claro. O meu corredor é a pista de dança até me cansar e preparo tudo para amanhã estar a postos. Tristeza, até quinta-feira!

dezembro 28, 2008

2008 *

1. Bruxelas ou como podemos dar por nós no centro duma avalanche de sentimentos que põe em causa tudo aquilo em que acreditamos. Encontrar um sentido. Deixar de me sentir vazia para passar a sentir-me só. Falar em voz baixa durante uma série de manhãs. Deixar as mãos dizerem por mim. Reaprender a serenidade.

2. Passar os meus finais de tarde no Jardim da Estrela. Ler nos dias frios de Sol, partilhando um banco com uma velhinha que se protegia com uma revista. Correr, já noite escura, e sorrir aos outros corredores. Esvaziar a cabeça de todos os males e fazer planos, preparar discursos e repetir coisas que nos fazem sentir bem.

3. Percorrer as ruas de Barcelona até os pés não aguentarem mais, sem mapa na mão e de mochila às costas. Dormir num pequeno quarto dum terceiro ou quarto andar no Raval, rodeado de turcos e magrebinos, indigentes e prostitutas. Encher os ouvidos de flamengo e comer patatas bravas num restaurante qualquer. Deixar partir um pouco da magia com que me enganava há muito tempo.

4. Ouvir toda a música que consigo aguentar. Ver todos os concertos que consigo financiar e ainda mais alguns. Suar entre a multidão ou sentar-me calmamente debaixo de luzes vermelhas, encher uma caixa de bilhetes para reconstruir depois a memória.

5. Ver nascer o dia nascer enquanto passava pelo Piolho, no Porto. Fazer uma visita rápida pela cidade num carrancudo dia cinzento. Beber um café em Serralves, dançar na Casa da Música, deslumbrar-me com o trash do Plano B. Madrugar nos Aliados e perder a oportunidade de ver o mar. Prometer voltar.

6. Gozar todo o Sol que me tinha escapado no ano anterior. Apanhar o ferry até Tróia e descer mais a Sul. Boiar sobre as ondas sem preocupações, apenas guiada por desejos. Pegar no carro às sete da manhã e chegar à praia completamente deserta. Dormir na Fonte da Telha depois duma madrugada de Incógnito. Bronzear-me.

7. Conhecer finalmente Paredes de Coura. Deixar-me contagiar pelo boné do poder. Conseguir um fim de semana de Sol e silêncio que há muito precisava. Tomar longos pequenos-almoços de porta aberta e almoçar à beira do Lima. Torrar à beira da piscina depois de ler o jornal. Libertar o resto da (falsa) magia, para sempre, de uma vez por todas.

* numa ideia emprestada daqui.

dezembro 27, 2008

Farra pós-Natal

Primeira e última foto por MT

Com alguns motivos para não festejarmos, decidimos arriscar. Dançando com P., a brasileira do Bangladesh, tentámos combater o frio. Nesta altura, revemos sempre as pessoas que andam longe o resto do ano. Esperamos que o caminho esteja livre para regressar a casa mas há quem ainda queira dançar mais. Estavam graus negativos na rua mas a minha memória está longe de congelar.

dezembro 26, 2008

Música para dias de Inverno e corações remendados


William Fitzsimmons, I don't fell it anymore

Está Sol mas o termómetro avisa que estão quatro graus lá fora. Não pode ser, penso eu, enquanto me deixo encandear com a luz mas, assim que abro a janela, sinto o frio nas maçãs do rosto. Há qualquer coisa de sagrado no frio que faz na minha terra: talvez seja por vir sempre acompanhado de um cão a ladrar ou dos pássaros que ainda resistem no quintal atrás da minha casa. Ou talvez seja das ruas estarem vazias - nem gaiatos a subirem a rua, vindos da escola, nem as velhas que vão ao pão com a bolsa debaixo do braço. Quando regresso à cama, puxo o edredon até ao pescoço e encolho-me o mais que posso. Está frio e eu quero repetir em silêncio as noites em que ardia debaixo dos cobertores.

dezembro 24, 2008

Seasons Greetings

Depois de enchermos a barriga, chegou o momento. Desejo a todos um bom Natal, juntos ou longe da vossa família, com polvo, perú ou bacalhau, quer gostem ou (como eu) tenham sentimentos mistos sobre a quadra. Que esta noite traga a todos, pelo menos, paz de espírito - são os votos das irmãs M.

dezembro 22, 2008

Das Weihnachtsfest

O Natal no trabalho acabou. Foi dia de fatias douradas, pensamentos positivos e Natal dos hospitais; foi dia de karaoke, Berliner Brot e concursos; foi dia de nunca parar quieta, biscoitos com sementes de papoila e clássicos de Natal por toda a parte. Agora, se faz favor, que chegue também a noite do bacalhau e das couves, com a televisão ligada numa sopa dos pobres qualquer e a família à volta da mesa, a discutir quem já morreu este ano. Acho que percebem o meu entusiasmo...
Cada um é tão infeliz quanto acredita sê-lo.

(o que me saiu em sorte nos nossos fortune cookies. Estou numa fase em que acredito muito na minha infelicidade, apesar da saúde e dos amigos e da família e de tudo. E, apesar de saber que não passa disso mesmo, duma fase, tem sido difícil acordar todos os dias com vontade de fazer as coisas acontecerem. Ando à espera que isto me passe, a dizer que preciso de tempo, a ver até onde pode ir esta tristeza. E os dias demoram cada vez mais a passar e eu preciso de alguém que me ponha a mão sobre a cabeça e me diga o que preciso de ouvir agora. Lembro-me de uma coisa que me escreveram há muito tempo - Para a M., como canas ao vento - e espero que, como elas, eu vergue mas não quebre.)

dezembro 21, 2008

M. vai a um spa

Domingo de manhã. Peguei no fato de banho e fui finalmente usar a prenda que a mana me tinha oferecido pelos temidos vinte e nove anos. Nunca tinha entrado num spa nem sequer pensado seriamente em usar um mas parecia-me uma ideia excelente e não me lembro de uma altura em que tenha precisado mais. Um spa, ria-me eu a caminho, não sabendo muito bem o que ia encontrar.

O atendimento foi super atencioso e formal e fui acompanhada por uma assistente que me mostrou as instalações e me explicou brevemente o partido que podia tirar da primeira metade do tratamento. Foi assim que entrei pela primeira vez num banho turco, numa divisão onde mal conseguia respirar, tal era a humidade. Não conseguia ver mais do que dez centímetros à minha frente mas senti imediatamente o corpo a libertar as toxinas do crepe da noite anterior e deixei-me ficar em silêncio no meio de todo aquele vapor. Depois, logo à saída, contrariei aquele calor com um duche gelado para estimular os músculos. Passei a uma piscina cheia de jactos de água e com uma cascata para massagens lombares onde passei longos minutos mais em jeito de brincadeira do que de terapia. Depois de me refrescar numa fonte de gelo, foi a vez de caminhar sobre seixos, enquanto jactos de água activavam a circulação nas pernas. E finalmente, a terminar o aquecimento, boiei mais de 10 minutos numa piscina com água do Mar Morto (dizem...), o que equivale a duas horas de sono.

Depois era a vez da massagem. Quando me veio chamar, estranhei ver um homem na casa dos trinta anos, cabelo comprido apanhado atrás, alto e com uns olhos rasgados e intensos dizer que era o meu terapeuta. Eu esperava uma mulher mas em vez disso, e como num cliché cinematográfico, estava entregue a um terapeuta sexy. Falava muito baixinho, como para me acalmar e assegurar de que estava num ambiente sério, era bastante educado e delicado, o que me deixou desde logo à vontade. Na sala da massagem, pediu-me que me despisse enquanto ele esperava lá fora e eu quase entrei em pânico: despida num sítio desconhecido, na companhia de um homem desconhecido. Mas o ambiente era tão calmante, o incenso queimava tão lentamente que me abandonei às mãos daquele homem. Explicou antes o que faria e as suas mãos eram firmes, experientes. Nunca o ouvi deslocar-se naquela sala, tal era o nível de subtileza e agilidade dele. A única coisa que lhe sentia eram as mãos, os braços e a respiração, já que nunca falou durante a massagem, apenas para assegurar-se de que eu estava a gostar. Eu sei que era apenas mais uma cliente nas suas mãos mas, sem saber exactamente como, ele fez-me sentir importante, como se fosse aquela a sua primeira massagem. No final, convidou-me para um chá, que recusei delicadamente, com medo de estragar aquele ambiente com alguma trivialidade ou timidez. Despediu-se de mim com um aperto de mão, um sorriso misterioso e um olhar tão tranquilizante como as suas mãos sobre mim.

Escusado será dizer que terei que voltar. Nem que seja para gozar aquele imenso silêncio dentro de água, nem máquinas, nem música, e eu a perder cada vez mais a consciência de onde estou. Ou para me encostar à parede durante o banho turco e ver as impurezas deixarem o meu corpo. E, enquanto me divirto sozinha na piscina, vê-lo passar no corredor e acenar-me calmamente. Agora, isto é tudo o que eu precisava.

É Inverno, finalmente *

E da janela da minha casa é esta a vista sobre o Inverno em Lisboa: um dia absolutamente radioso e frio, as ruas vazias de pegadas e vozes, a calma de um Domingo na cidade. É um bom dia para regressos, para cozinhar e para domar inquietações no peito.

* porque assim chega o Verão mais depressa.

dezembro 20, 2008

Songs for a sleepless girl

Ando novamente na fase de privação do sono. Mas entro no metro, encosto-me perto da porta e é como se os meus olhos não pudessem estar abertos. Chego a casa e sou toda planos para dormir, para evitar televisões e computadores mas nunca consigo. No trabalho, faço um sacrifício para me manter desperta e atenta, especialmente depois do almoço. Vou correr para cansar o corpo, quero saber se aquela sensação de estar em branco durante o exercício é mesmo verdade. Mas depois chega a noite e eu sinto as horas e vejo os minutos a sucederem-se tão devagar e faço contas a quantas horas ainda poderei dormir - poucas. Essa coisa de ser a rapariga sem sono um dia havia de voltar e eu havia de voltar a não saber o que fazer com ela. E aposto que agora desligo isto e apago imediatamente o candeeiro de cabeceira e tento que os meus olhos pesados descansem no silêncio das paredes centenárias desta casa e não consigo. Ou então consigo e daqui a duas horas estou olhando para o tecto, pensando em assuntos de trabalho. O corrector de olheiras está na minha lista de desejos para este Natal. Ou isso ou adormecer hoje e acordar já num ano melhor que este.

dezembro 18, 2008

Natal corporativo

Este ano ainda não me tinha chegado nada parecido ao espírito natalício. Sim, eu vejo as luzes por aí e as lojas com as suas montras aprumadas e os anúncios a cinquenta mil brinquedos diferentes mas não podia dizer que alguma dessas coisas me tivesse realmente tocado. Quando saí para o jantar de Natal da empresa, não pensei na ocasião, só no lombo com farinheira que ia comer.

A escolha do sítio não me podia deixar mais feliz: a Casa do Alentejo, que além de ser um espaço lindíssimo, fala-me ao coração. O jantar foi animado, porque ninguém foi obrigado a sentar-se entre desconhecidos (como é hábito). Perdi a conta aos brindes com tintos alentejanos e aos empregados que eram castiços mas pouco delicados. Depois chegou a vez do karaoke, dominado sempre pelas mesmas pessoas, os mesmos heróis de algibeira e em que eu tive o prazer de não participar. Finalmente, foram entregues os prémios a quem se distinguiu na empresa neste último ano. Et voilá, por este ano estamos conversados.

O regresso a casa foi um momento solitário. Esperei um autocarro que nunca chegou, enquanto as ruas eram lavadas ou alagadas e os últimos indigentes se passeavam pela praça. Eu fechava o casaco e encolhia-me dentro do vestido que o vento agitava, o cabelo cobrindo-me os olhos, impedindo que alguma lágrima escapasse. Ainda há minutos era a funcionária exemplar, risonha e resistente e agora não passava de uma mulher sozinha, enregelada e profundamente vazia que caminhava em direcção a um táxi. Enquanto via a avenida desfilar pela janela, pensava que a única coisa que me resta é esperar que isto me passe. E para este Natal eu pedi apenas tempo para me ajudar a remendar o coração.

dezembro 16, 2008

Procurar(-te)

De tantas vezes fazer o caminho, já o sei de cor. Sei o tempo que me leva a chegar ao centro, sair no Midi e carregar a mala comigo até aí. Posso não saber quantos degraus preciso subir mas conheço o barulho da tua porta a abrir e a maneira como afundas a tua cabeça no meu colo, enrolado como um embrião. De tantas vezes o repetir enquanto vou de casa para o metro e do metro para o trabalho, sei o teu riso de cor, a maneira como os teus olhos fechados o denunciam, a tua expressão a rasgar-se num sorriso à minha frente. Somos dois inadaptados que não sabem dizer nem fazer, que trocam os nervos por gargalhadas matinais quando faltam apenas cinco minutos.

São horas, digo-te eu. E tu, como que antecipando o vazio que aí vem, puxas-me para ti e esmagas-me contra o teu corpo ainda dentro da cama. Mas antes é tão cedo e podes sentar-te no cadeirão debaixo da imensa janela e tocares, tão apaixonado pela guitarra e com esse olhar tão intenso que pousas sobre mim a espaços. E ainda me podes tentar mostrar a tua vida antes de mim, em minutos escassos, atravessados pelas tuas pausas e pela maneira como tudo faz sentido.

É contigo que isto me acontece, esta sensação de flutuar sobre todas as coisas supérfluas, esta vontade de devorar o Mundo, esta sensação de que não existe mais nada a seguir. Só que, tendo procurado, ainda não sei onde estás. Mas tu sabes onde eu estou e isso, de alguma maneira, sossega-me. Aqui.

dezembro 15, 2008

Voltar onde já se foi feliz

Não acredito na teoria de que não se deve voltar onde já se foi feliz. Por mim, e para alimentar o meu masoquismo, devemos regressar vezes sem conta, desprezando as consequências e os contratempos, o vazio que se instala logo de seguida. As consequências ficam para amanhã. E, quando chegar amanhã, fechamos os olhos com força e conseguimos aguentar. Foram tantas horas em trânsito, habitando as desconfortáveis cadeiras dos aeroportos e os partilhados bancos dos comboios. Mas foram também os camarões que passavam por nós no centro cultural espanhol e a miúda de óculos que me levou a dançar no Le Bazaar. Foi bater àquela porta às quatro da manhã, quando já não se ouvia nada na rua, senão o frio a subir pelas paredes. Foi andar na roda gigante e entrar em pânico exactamente no topo, temendo não aguentar a vertigem, como quando não conseguimos conter outras emoções. Foi dançar quase às escuras, ser comparada à Selma Hayek (sim, há quem precise de um oftalmologista, eu sei) e quase não conter a gargalhada, foi bom ser vista e ver.

Não sei melhor. E regressava outra vez, de olhos fechados. Mesmo sabendo como é voltar.

dezembro 13, 2008

Um post para o futuro

A esta hora será tarde demais. Não haverá mais regresso. Serão onze horas da noite de sexta e eu provavelmente terei feito apenas a próxima asneira da minha vida. A esta hora voltarei a ser inocente, como num ciclo que conheço de cor. De nada vão valer os conselhos, os que me queriam sossegada e os que desejavam que fosse. De nada vão valer as noites que passei a antecipar todos os cenários, todas as possibilidades, todas as falhas no meu plano. Para o meu eu de sexta-feira, para o corpo que se passeará outra vez pelo frio eu digo hoje

Espero que saibas o que estás a fazer.

dezembro 11, 2008

Ficção #11

Olhas para o cabelo dela, em constante desalinho, deixas os olhos descerem até ao peito onde tantas vezes recuperaste o fôlego que ela te roubava, reinando sobre ti. Se pudesses, tomava-la ali mesmo, sobre aquele banco, debaixo dos olhares inquisidores dos turistas que caminham ofegantes debaixo das oliveiras que resistem ao capricho do sol mediterrâneo. Ela seria tua e toda a gente poderia sabê-lo, poderias anunciar ao mundo a tua vitória sobre mais uma ninfa, poderias encher o peito deste sucedâneo do amor com que brindas as tuas conquistas. Ris-te só para lhe arrancares outro sorriso, só para sentires como lhe brilham os olhos, para te veres reflectido naqueles espelhos castanhos. Quando os olhares se cruzam mais do que breves segundos, param ambos de sorrir e deixam-se tomar pela electricidade que sentem na pele do outro. Sabes que serão sempre instinto, sabes que fechados numa sala ou num quarto nada vos poderá impedir de se despirem sem palavras e se abandonarem à forma como o desejo impera sobre tudo.

dezembro 09, 2008

Tot *

Das nove da manhã às dez da noite com três alemães e uma inglesa. Apresentações sobre os resultados do ano que acaba agora, planos e orçamentos futuros, três línguas a enrolarem-se na minha cabeça. Um almoço num espanhol e um jantar num italiano. Às vezes não sei se fui talhada para isto ou se devia antes ter um monte afastado da estrada, uma cadeira de baloiço debaixo de um alpendre voltado para uma seara, três ou quatro pés de qualquer coisa semeados ali e um livro debaixo do braço. Imagino o silêncio de uma vinha a perder de vista, imagino só o crepitar das espigas no Verão, as cigarras que dormem de dia e acordam à noite. E acho que era mais feliz a caçar grilos, a deitar-me debaixo de figueiras, a cavar pequenos regos para a água chegar a todo o lado. E a comer fruta das árvores, a ouvir as histórias de quem sabe e a querer acordar de madrugada.

Mas temos que ganhar dinheiro. Or so they say.

*morta, em alemão.

dezembro 08, 2008

Já não estou.



E era mesmo isto * que eu lhe queria dizer agora. De tantas outras coisas que me ocorrem, dos meus desejos e das minhas saudades, queria falar-lhe da minha partida e de como respirei fundo para parecer imune. Queria explicar-lhe que sempre quis dizer sim, mesmo quando era não o que ele ouvia. Mostrava-lhe a luz de Lisboa, as estradas intermináveis e vazias, o silêncio das tardes passadas em casa. Nunca soube fazê-lo a tempo, nunca. Para mim é sempre tarde demais.

I don't know if you'll even notice at all because I was real quiet when I closed the door.

*as palavras do Fink.

dezembro 07, 2008

Em trânsito


Conduzi durante mais de seiscentos quilómetros em menos de vinte e quatro horas. Dividi as minhas horas entre Lisboa, Portalegre e um apartamento novo algures em Odivelas. Vi um concerto dos Deolinda, descansei uns vinte minutos sobre a minha cama gigante e vi-me perdida no meio de Loures. Neste momento, sinto que sei de cor todas as placas do eixo Norte-Sul, todas as saídas e bifurcações, faixas de aceleração, sinais luminosos e falhas no pavimento. Dancei sozinha e a três, falei demais e calei-me fora de tempo, acordei todos os dias a pensar na mesma coisa e deixei-me ficar a repetir essas imagens até serem horas de almoçar. Joguei consola, pesei-me e fiz girar um hula hoop imaginário na minha cintura, senti outra vez que a vida me tem trocado as voltas e senti-me grata por isso. A casa está vazia, o tempo tão cinzento e eu não planeio articular uma palavra que seja no dia de hoje. A não ser com os meus pais, para descansá-los e dizer que sim, que estou exausta desta correria toda mas está tudo bem.

dezembro 03, 2008

Ficção #10

Deixas a porta entreaberta enquanto afastas toda a roupa que tinhas espalhado pela cama e a tentas dobrar com a maior rapidez possível. De frente para a porta, espreito pela fresta mas não vejo mais do que o teu vulto entre a cama e a cadeira e fico inquieta. Não sei se me vais chamar ou levar-me pela mão a descobrir a que cheiram os teus lençóis. Ensaio o meu melhor olhar de sedução sem qualquer sucesso porque demoras a sair do quarto. Quando chegas, é interrogação aquilo que vês. E respondes sem sequer abrires a boca, apenas fazendo-me sentir que me esperas. Hesitante, vejo-me à tua frente, os teus olhos buscando os meus, as tuas mãos ossudas e pequenas na direcção da minha cintura. Somos a reprodução de um par dançante, dois amantes imobilizados pela ausência de lógica, a imagem cristalizada da impossibilidade prestes a ser quebrada por um beijo. Promete-me noites acordados sem cessar. Promete-me fazer disto um sonho. Promete-me tudo.

Socorro, tornei-me numa senhora de 60 e tal anos!

Hoje já pensei duas vezes nisto. Parte da minha hora de almoço foi passada a destilar esta insatisfação com uma colega de trabalho, que me ouviu pacientemente, que partilhou das minhas dores sem sequer fazer cara feia. Depois estive vinte e dois minutos ao telefone com o meu pai a falar disto. Vinte e dois! Quem me conhece bem, sabe o quanto odeio falar ao telefone mas mesmo assim isso não me impediu.

Não quero repetir a proeza aqui. A única coisa que desejava era ser como a maior parte das pessoas que trabalha comigo e habituar-me, encostar-me, ignorar-me, escolher viver sem desafio nem motivação, esquecer-me da cenoura que nos colocam à frente. Muito terás ainda que aprender, dizem muitos e dizem muito bem. Muitas vezes terei que reconhecer que isto se calhar não vale a pena, que há pessoas que aos vinte e sete anos estão cansadas de trabalhar e outras que aos setenta e tal ainda se levantam às cinco da manhã para conseguir garantir a sua sobrevivência. O mundo é, francamente, uma coisa maluca. E ainda o é mais para pessoas que têm orgulho em fazer a coisa certa no momento certo. Se cedo, volto-me contra mim. Se bato o pé, não duro muito mais. Alguém que me acabe com as chatices e me dê já também a reforma.

dezembro 01, 2008

M. Pictures presents...


Daqui, deste cartaz rabiscado a marcadores e a lápis (só eu sei há quanto tempo não usava um lápis de carvão...) está a nascer um filme. Se quiser ser mais precisa, daqui está a nascer uma curta-metragem que nunca antes me tinha passado pela cabeça. O processo de escrita é muito pouco romântico, apoiado mais na objectividade e no efeito que se pode provocar no espectador do que na literatura, na escrita livre e apaixonada. Escusado será dizer que há quem tenha escolhido o reconhecimento, a crise de valores ou o ritual de iniciação como tema mas eu tinha que me ficar pelo romance.

Vi no outro dia numa série qualquer um escritor que dizia que só escrevemos sobre aquilo que conhecemos mas eu recuso-me a aceitar que é só isso que existe cá dentro. Só que, e apesar de querer sair desta minha comfort zone, não me saía mais nada. Não me apetece uma sequência de imagens sobre a integridade do herói ou a constante busca pelo pai ou sobre o eterno combate entre o Bem e o Mal. Portanto, e como todos escrevemos um bocadinho sobre aquilo que somos, é um filme sobre um desencontro amoroso que apenas o espectador conseguirá resolver. Eu acho que tudo acaba bem mas conheço-me bem demais para não desconfiar da minha intuição...

Só me falta um título. Há um provisório mas queria qualquer coisa mais sólida. Por isso, se alguém tiver aí à mão uma grande tirada sobre duas pessoas que se repelem mas que se desejam encontrar, é dizer. Dou créditos, prometo.

novembro 30, 2008

Casino Royal @ CAEP

Depois de ver o jazz de fusão dos 4 Corners, saímos para ver ainda os Casino Royal (que vêm da Figueira da Foz e têm myspace aqui). Há todo um conceito atrás disto, a banda entra em cena e percebemos que se têm ideias por aqui. Hoje não era noite de cerveja, a música pedia qualquer coisa como um martini seco sobre uma esplanada da Côte d'Azur. Além disso, a neve que tinha caído durante a manhã gelara a cidade inteira - tinha chegado a noite de voltar ao gin tónico. A vocalista, minha homónima, dividiu-se entre loura e morena mas sempre com um olhar atrevido e uma voz potente. Não foi uma noite para dançar, apenas para não me esquecer que o frio veio para ficar. E o gin tónico também.

novembro 29, 2008

Cai neve e não é em Nova Iorque!

Mas a menina, como decidiu acordar um pouco mais tarde e fazer a viagem debaixo de chuva torrencial, só chega a tempo de olhar os restos dos flocos que ainda resistiam e de ver tímidas manchas brancas espalhadas pela serra. Está tanto frio mas os aquecedores estavam ligados, à minha espera. Mesmo que por pouco tempo, regressar é bom.

novembro 28, 2008

Em jeito de telegrama mas sem poupar nas palavras!

Fotografia (descarga invulgarmente rápida, hã?) do grande JER

(Depois de um dia inteiro de formação com um simpático senhor que deixou para trás Inglaterra e assentou arraiais em Gibraltar, com quem partilhámos um dos piores almoços de sempre em que um bocado de plástico fingia ser o molho bechamel dumas migas de bacalhau; depois de correr para casa sem tempo de fazer a mala nem um lanche, apenas enfiar duas ou três tangerinas na mala e perder o eléctrico que devia levar-me ao meu destino; depois do largo de Camões estar às escuras durante mais de uma hora e nós no terceiro andar termos uma lanterna minúscula com que criámos o belíssimo ambiente da nossa conversa; depois da luz voltar e beber todo o chá que conseguia aguentar e fazer o esquema do primeiro -haverá mais?- filme que vou escrever; depois de comer uma bela bifana acompanhada de uma imperial ao balcão duma cervejaria em plena avenida da Liberdade, na bela companhia deste rapaz e ao lado de dois espanhóis que despachavam uma sapateira) fui ver os The Big Church of Fire ao Maxime.

E gostei muito do que vi mas a minha provecta idade já não me deixa aguentar espectáculos divididos em sete partes e no trabalho hoje não iam ter pena de mim. Aquelas moças que eles põem a dançar lá atrás... Que maravilha. Quero ser uma rainha da selva como elas e menear aqueles adereços todos como quem está a fazer a coisa mais natural do mundo.

E hoje queria ir dançar e beber cervejas frias na mais gelada cidade do meu coração mas a chuva lavou-me um bocadinho da vontade que tenho de conduzir no escuro e sobre lençóis de água. De maneiras que hoje descansarei, jantarei outra vez sozinha e colar-me-ei a um ecran qualquer. Exactamente a sexta-feira de que precisava.

Not.

novembro 25, 2008

I wish I was a better version of myself

Com o avançar da idade, julguei que aceitar a mudança, resignar-me a desiludir-me aos bocadinhos e resistir ao stress seriam coisas que surgiriam naturalmente. Não podia estar mais enganada. Especialmente em dias como o de hoje (em que deixo quase tudo por fazer na secretária, tento convencer pessoas a não se despedirem, tento envolver outras pessoas no trabalho para aligeirar o ambiente, passo a tarde em formação numa sala minúscula de hotel sem ar condicionado, estendo-me sobre os paralelos na rua Viriato - para prejuízo da minha perna e braço esquerdos-, volto ao escritório para resolver os pendentes, chego a casa quase duas horas depois do habitual e fico sem tempo ou vontade de correr), é muito difícil não vacilar um bocadinho.

Sou uma mulher adulta sem tolerância nenhuma à frustração. Sou fraquinha, se preferirem. E não há nenhuma formação no Mundo que me ensine a ser diferente. É só uma questão de saber disfarçar.

novembro 23, 2008

As minhas noites são mais belas que os meus dias v

Mas nem assim me consigo esquecer que estou cheia de saudades dele.

novembro 22, 2008

La frontiere de l'aube

ANTES (de me sentar no King):

Não sei olhar para ti sem me comover com a maneira como desvias o cabelo naqueles dias ventosos em que pareço distante e em que me esqueço dela. Quando estamos longe, é exactamente este o momento que repito em segredo, é com esta imagem que me convenço que afinal ainda te quero, que o Outono sem ela é uma estação cheia de folhas douradas que revolvemos com a ponta dos nossos sapatos. Fechas os olhos quase timidamente enquanto levas a mão à cabeça e é tudo tão delicado que me sinto incrédulo - esta mulher tão bonita caminha comigo, eu podia amá-la se ela me incendiasse a todas as horas, se alternasse a candura com a luxúria de uma noite em branco. Quero-te mas deixo que o vento te mantenha segura, longe de mim, longe do meu desejo de te destruir os sonhos.

DEPOIS (de me sentar no King):

Meu amor, não sei se te hei-de chamar assim. Amo-te mas não te quero, não é por ti que entro naquele estado febril que me queima desmesuradamente, que me encharca os momentos mortos. Quero dizer-te adeus mas tu olhas-me com essa doçura tão grande, olhas-me sem pressa, como se o meu castigo fosse o teu amor por mim. Quero fixar a placidez com que encostas o teu rosto à almofada e a forma como encaixamos durante o sono, tu tranquila, eu consumido pela imagem dela. Quero que sejas o meu amor, quero ouvir-te dizê-lo e prometer que estarei para sempre junto de ti mas as palavras há muito que me deixaram e só sobrou o nome dela em delírio. Quero deitar-me devagar, a rua em alvoroço lá fora e a tua luminosidade como um foco de paz dentro do quarto. Mas quando fecho os olhos, tudo o que vejo são os cabelos louros dela e tudo o que sinto é a vertigem da saudade. Salva-me, se podes. Não podes.

novembro 21, 2008

Sobre pessoas que nos conhecem bem *

Não desfazendo de outros presentes escolhidos, também eles, de forma cuidadosa, esta folha que vêem aqui em cima esteve no topo das minhas preferências deste ano. Foi-me enviada por correio azul directamente da zona de Loures e chegou mesmo, mesmo a horas. É, nada mais, nada menos, que a setlist do concerto dos Dead Combo em Portalegre, com a dedicatória dos artistas à menina aniversariante. Tirando o facto de ambos escreverem o meu nome com z, foi uma prenda mesmo bem sacada. E portanto acho que renderam todas as noites que passámos a conversar no agora moribundo IRC e todos os CD's que me levavas para ver se gostava e as conversas intermináveis à porta do Crisfal à rasquinha para ir à casa de banho. Contigo é tudo simples e a conversa nunca morre. Por isso é que são 11 years and counting, compadre.

*e sim, juro que agora acabou a graxa. Definitivamente.

novembro 19, 2008

Tenho andado a deitar-me com estes dois.

You'll have to forgive him. He's from Barcelona.

São bons no sofá mas são ainda melhores na cama. É que parece-me que o meu riso assim faz menos eco e o meu sono, ainda que velado pelo irascível Basil, tem chegado de mansinho.

novembro 18, 2008

Estado em que se encontra este blog *

[...]

But
if each day,
each hour,
you feel that you are destined for me
with implacable sweetness,
if each day a flower
climbs up to your lips to seek me,
ah my love, ah my own,
in me all that fire is repeated,
in me nothing is extinguished or forgotten

[...]

* imerso em trabalho durante o dia, afogado na poesia de Neruda durante a noite. Se me dão cinco segundos em que não tenho que me concentrar, perco-me indefinidamente em recordações. Ainda me custa o silêncio e a semana anterior não é muitas vezes mais que um borrão que tento (à força) resgatar das garras de memória que a insiste em ignorar. Mas resisto e assim travo todos os suspiros que sinto formarem-se no meu peito.

novembro 16, 2008

Jana Hunter + Beach House @ CAEP

(Não há grande coisa a dizer. Apenas que foi a última noite antes de voltar à vida, depois de andar mais de uma semana completamente afastada do mundo real, abrigada pelas asas dos pais e presa por um país inteiro. Talvez seja disto que preciso, de acordar sempre à mesma hora, de não conseguir ordenar as minhas prioridades diariamente, de não ter tempo. Os dias livres trouxeram-me a calma mas agudizaram-me a melancolia. Não há nada que me arranque aquelas imagens da cabeça.)

novembro 15, 2008

I'd rather be dancing with you

Precisava definitivamente de me distrair e consegui da forma mais simples que conheço: música. Primeiro, música para ver; depois, música para conversar e, finalmente, música para dançar. Enquanto o som está alto, tenho menos espaço na cabeça para pensar e liberto o resto do corpo para a dança. Numa discoteca quase vazia, fui rainha da pista ao som dos Metallica e dos AC/DC - era como se tivesse catorze anos de novo. Aliviada pelo som, deitei-me pela primeira vez em dias sem pensar em nada. Deitei-me e dormi. Não quer dizer que doa menos, só significa que hei-de conseguir manipular a dor.

(na foto, a Digei Nossa Senhora, responsável por parte deste alívio)

novembro 13, 2008

Ver nacer el dia en Bruselas *

Sem esforço, consigo ainda ouvir o som do teu riso ou perceber que tentas inventar qualquer coisa para me fazer rir. Insistes que podia cantar jazz, enquanto eu desminto e digo que não sei cantar nada mas tu achas que nunca experimentei e dizes que gostas da minha voz, gostas da música que faço quando falo. As nossas conversas são cascatas de curiosidade que correm sobre olhos que fazem perguntas em silêncio, que dizem tudo o que só conseguimos dizer quando estamos sós. Respondo a todas as tuas perguntas sem sequer pensar no que digo, só para te satisfazer, só para falar em círculos, só para evitar que as coisas se precipitem.

Há um mapa-mundi que me mostra a distância que sempre nos separou e aquela que se colocou entre nós agora. Eu olho seriamente para ele, como se pudesse antecipar esta sensação de abismo em que nos envolvemos. Mas logo o teu cabelo preto me prende a atenção e logo as tuas mãos ossudas e pequenas me distraem e logo os teus olhos se prendem nos meus tão demoradamente e está calor enquanto o vento uiva e abre repentinamente a janela. As horas parecem intermináveis enquanto me abraças com tanta força e te levantas e pegas na tua caneca de chá e matas a sede, são infinitos minutos a saber o que estamos a perder, uma pequena eternidade tentando gravar todas as memórias em que nos enrolamos devagar. Fingimos que amanhã vai ser igual e depois de amanhã vamos estar no mesmo sítio para aliviar o sufoco da saudade que já ataca mas sem grande sucesso. Enquanto o dia nasce, enquanto a claridade transforma os nosso olhos em pequenas pérolas negras, despedimo-nos o mais serenamente que conseguimos. Sem olhar para trás uma única vez, sob pena de nunca mais conseguir ir embora.

Não me interessa o que fazemos a seguir. Eu não vou esquecer.

*ou carta a J., mi estrella invisible

novembro 12, 2008

Lisboa-Bruxelas-Gent-Lisboa *

Preparo a menor mala que consigo para não me atrapalhar e deixo uma Lisboa chuvosa para trás. É uma eternidade que demoro até chegar ao meu destino, horas perdidas num aeroporto cuidadosamente desenhado e assustadoramente silencioso em que quase consigo ler um livro duma assentada só.

Bruxelas espera-me com o seu tempo instável e frio, a lembrar-me que aqui o Sol é realmente uma preciosidade. Pouso as malas e levam-me a jantar a um restaurante português feio e mal decorado mas com o melhor e mais original bitoque de que há memória. Atravessamos a Grand Place toda iluminada. A noite passa-se entre este sítio aqui e uma discoteca com os piores êxitos dos últimos tempos, onde nem a cerveja pesada faz esquecer a fraca performance do DJ. Conheço pessoas novas, tanta gente do Mediterrâneo e revejo caras conhecidas, sempre a oscilar entre duas ou três línguas diferentes.

Fazemos um piquenique no parque, apenas interrompido pelo vento gelado que estragava aquele dia de Sol. Levam-me a um vigésimo primeiro andar com a vista mais maravilhosa da cidade e eu tremo com as vertigens antes de dormir a sesta numa cama até agora desconhecida. Janto pela primeira vez num restaurante africano, onde como as mais deliciosas asas de frango de todo o sempre e onde quase acabamos a dançar. Festejo os anos de alguém que não conheço e somos nós, os portugueses, que vamos tomando conta da música, alternando entre a playlist da anfitriã e as recordações de outras décadas.

Apanhamos um comboio e, meia hora depois, chegamos a uma Gent aparentemente abandonada e demasiado fria. Andamos, andamos e andamos, às vezes debaixo de uma chuva nervosa, da qual fugimos para uma cerveja e um capuccino que demoram a chegar. Fazemos concursos para ver quem consegue fazer a cara mais séria e eu perco sem apelo. Baptizamo-nos de Toppo Giggio e o Coco Pops depois de fazermos mais concursos absurdos.

Posso ser analfabeta funcional porque não saber ler uma reserva de voo acabou a custar-me muito dinheiro. Corro, quase desfalecendo, entre terminais no aeroporto de Madrid, certa de que o pesadelo ainda estava longe de acabar. Mas tudo o que quero mesmo recordar está guardado, trancado dentro da sua própria impossibilidade, condenado a nunca se repetir. Quando pouso as malas em casa, enfio-me de imediato debaixo do chuveiro e, ao contrário de todos os outros regressos, não é alívio aquilo que sinto hoje.

*mais fotos, como sempre, aqui.

novembro 11, 2008

Regresso quatrocentos e setenta euros mais leve e completamente desorientada. Não foi à procura deste desconsolo que dói que levantei voo em primeiro lugar, não foi buscando esta dor. A vida insiste em tornar-me pequena, em impedir-me que me sinta completa. Em vez de histórias para contar, hoje enterrei-me em silêncio, apenas com a esperança de poder ver o mundo novamente, amanhã.

Dói.

novembro 07, 2008

Então,

até já.

novembro 06, 2008

Trinta menos um

Vinte e cinco mais quatro. Dezoito mais onze. Nem por isso tenho menos medo do escuro ou choro menos quando vejo uma boa história de amor. Não sei onde se meteram os outros anos todos nem o juízo que supostamente já devia ter chegado. Chegou o momento de cruzar a última fronteira. São vinte e nove anos de alguma desorientação, certezas abaladas, vontade de arriscar e muitas descobertas. Que seja um ano para nunca mais esquecer.

novembro 05, 2008

verb pronominal empanturrar-se [ẽpɐ̃tu'ʀarsə] comer muito

Da maneira que as coisas andam por aqui, esta é a única forma de me empanturrar que posso permitir. Não é que a disciplina seja espartana mas subsiste o respeito por uma ou duas regras do regime alimentar, que, genericamente, dizem que devo comer melhor. E bem, peixe, fruta e arroz parece-me a combinação perfeita. Além disso, a casa ficou às minhas ordens e as férias começaram há coisa de umas quatro horas, o que quer dizer que não faço mais do que o essencial. E isso implica, por agora, não mexer uma palha na cozinha - só destapar e voltar a tapar as caixas onde o sushi vem. Nem os pauzinhos uso, que a minha coordenação motora não vale nada. E agora ficar a gozar esta sensação de que o estômago vai alargar a qualquer momento, deitada no sofá vermelho, numa noite sem nada para fazer - só curar esta sensação de enfartamento. E rir-me quando vejo um monstrinho a espreitar ali em cima.

Entre os dedos *


É um filme feito de olhos escuros que se interrogam mutuamente, que se esquivam às perguntas e que se acusam em surdina. Estes rostos gastos, as olheiras não disfarçadas e as mãos nervosas valem mais do que qualquer diálogo no filme, contam-nos mais sobre quem fala. Estamos condenados aos formigueiros dos subúrbios, aos medicamentos que conseguimos desviar e ao silêncio sobre todas as coisas. Quando quisermos falar, gritamos. Quando quisermos calar, deixamos as lágrimas cair.

*um filme a evitar em alturas menos felizes. Para que o nó no estômago não aperte ainda mais.

novembro 03, 2008

(...)


Bon Iver, Flume

Não sei porquê. Talvez seja de me ter, finalmente, apercebido que o frio está aí e que as nuvens em casa parecem carregadas de neve em vez de chuva. Talvez esteja relacionado com o facto de ter calçado meias para dormir pela primeira vez e já me apetecer uma braseira. Talvez não me apeteça fazer anos se não me sinto com esta idade, se não sei que idade tenho. Talvez me falem às vezes das pessoas que não têm mais ninguém e do marasmo em que se afundam e eu não acredite ser imune. Talvez dançar não chegue. Talvez um chá não aqueça. Talvez tenha demasiadas saudades de quem não devo. Talvez as pessoas nunca sejam mesmo aquilo que parecem. Talvez precisasse de travar abruptamente o rumo das coisas. A nossa tristeza nasce onde? Faz-se de quê?

novembro 02, 2008

Eléctrica Cadente

Dois homens contrariam a imensa escuridão do palco. Um não tira os óculos escuros, o outro esconde-se debaixo de uma velha cartola. Quando tenta explicar o que o fez escrever uma música, atrapalha-se docemente. Bate-se o pé sobre o estrado, sobe o pó da alcatifa debaixo dos projectores e um prato vibra fora de ritmo. O jogo de luz é sublime, cobre-os de sangue e de luar à vez, dá-lhes a nitidez da luz de Lisboa enquanto se desce uma calçada, esconde-os numa travessa de onde se vê o Tejo. São só dois homens e oscilam entre desamparados e donos de tudo. A música diz muito mas está cheia de espaços que preenchemos com as imagens que temos dentro: uma janela para o rio, miradouros mal tratados, o cheiro das primeiras flores e da roupa lavada, um salão de baile onde só dança um par, dois homens que posam num porto abandonado.

(Os Dead Combo estiveram ontem no CAEP e, dois anos depois, voltei a vê-los. Num momento ou outro, contive tímidas lágrimas de alegria. É deles tanta da minha inspiração, foi da música deles que nasceram tantos dos meus caracteres. Duma guitarra e dum contrabaixo se faz a beleza de Lisboa numa vagarosa tarde de Verão.)