outubro 03, 2012

Sobre partidas

Quando decidimos que íamos emigrar, demorámos um pouco a perceber a dimensão das coisas que teriam (obrigatoriamente) de mudar e a perceber exactamente aquilo em que nos estávamos a meter. Eu, uma orgulhosa de primeira, tinha metido na cabeça que não havia de pedir ajuda a ninguém. Afinal, tanto eu como o M. já tínhamos vivido noutros países e sobrevivido. Não conhecíamos ninguém no Luxemburgo, à excepção de um primo afastado que vivia lá há alguns anos e com quem eu não tenho nenhuma afinidade ou contacto. E ele, como é normal, estava demasiado concentrado na sua vida para poder sair do seu caminho e ajudar estas três alminhas prestes a partir. É normal: as pessoas constroem a sua rotina, estabelecem-se mais depressa ou mais devagar, criam círculos de amigos, arranjam empregos e não precisam de fazer tudo isso por outra pessoa.

À falta dessa ajuda, e como qualquer pessoa, fizemos tudo sozinhos. Arranjámos empregos, alugámos uma casa, conseguimos uma creche e construímos assim o início de uma vida. Felizmente, nunca passámos dificuldades: não nos faltou o que comer, telhado também sempre houve e tudo foi meio caminho para não perdermos a esperança e continuarmos a acreditar que o melhor estava ainda para vir. Nós não sabemos o que é deixar o país com uma mão na frente e outra atrás, sem dinheiro sequer para voltar a Portugal se tudo corresse mal. Nós não recorremos a nenhuma agência de emprego porque as nossas experiências e qualificações nos permitiam outras aventuras. Nós não fomos enganados por intermediários, não fomos levados em promessas, não nos vimos num cenário em que a única solução era voltar para trás. Nós saímos daqui empurrados pela crise e pelo desemprego mas não pelo desespero. E, além disso, um de nós tinha emprego lá.

Aconteceu que agora foi a nós que pediram ajuda. Só que nós dificilmente podemos ajudar. Não temos nenhuma experiência em trabalho temporário nem construção civil, não temos uma rede de contactos sólida. Só que é difícil explicar a alguém que fazem falta qualificações, faz falta formação e educação, fazem falta muitas línguas. Num país onde grande fatia da população é imigrante, os critérios de selecção das empresas são cada vez mais rígidos e mais exigentes e as cunhas dificilmente vingam. E então cabe-nos desta vez a difícil missão de, ao mesmo tempo que não acabamos com a réstia de esperança de alguém, não darmos a entender que ir é fácil. Como é que explicamos que há muitas histórias de miséria de quem se aventura assim sem parecermos insensíveis? Como é que contamos histórias de pessoas que vivem em carros sem dinheiro para voltar sem aumentarmos o terror de quem cá fica? Não gostaríamos nós de ser ajudados, de ser guiados por alguém que já conhecesse o caminho? Não teria tudo sido mais fácil?

Sofrer faz parte desta experiência de emigrar em condições adversas. Seja porque não se tem trabalho, seja porque é tão difícil encontrar casa, seja porque se deixa a família para trás - há muitas coisas que custam. E é tarefa (ingrata, é certo) do emigrante perceber até quando é que a dor e o sacrifício valem a pena. Para muitos, umas semanas difíceis são um sinal que devem voltar. Não há ninguém que nos possa dizer quando é que a dor é suficiente. E nós não podemos (felizmente) dar conselhos com base nessas dificuldades. Nem podemos dizer até quando vale a pena ter esperança. Às vezes, esta voz interior demora a chamar-nos de volta à realidade. Só esperamos que não seja tarde demais para quem não sabe o que fazer.

3 comentários:

M de M disse...

ajuda-se no que se pode e como se pode...o resto é com cada um.

*

Paula_2700 milhas disse...

Bem, eu passei pela mesma experiência e compreendo perfeitamente as tuas palavras.

Quando me perguntam (o que acontece com frequência) procuro passar uma imagem muito realista da cultura local. Explico em que pontos vão encontrar dificuldades, o que podem contar como pior ou melhor. Se me pedirem um conselho, dou a minha opinião com franqueza, tendo em atenção a história dessa pessoa (em que condições quer emigrar).A partir daí, a decisão é de cada um.

Andorinha disse...

A minha opinião sincera é que nós não temos que carregar com os outros às costas, seja o primo ou o melhor amigo, e isto resume-se à frase: não pesques por ele, ensina-o a pescar.
Podes apoiar com a tua sinceridade com as tuas dicas e alguma informação que esteja recolhida, mas depende unica e exclusivamente da pessoa conseguir o seu lugar ao sol e mexer o rabinho, juntar dinheiro e fazer-se ao mundo.
Levei uns bons 2 anos a por a minha Mãe no sítio, mas nunca mais me pediu cunhas pra ninguém, isso não tem cabimento nenhum e é o típico facilitismo Português. Eu gosto MUITO de ajudar, e já ajudei pra lá do que devia mtas vezes, mas acredita que só vinga quem quer vingar, tu não és e não te podes sentir responsável pela desgraça dos outros.

Custa voltar, eu sei. E mentir-te-ia se te dissesse que cada ano é mais fácil. Não é. Mas não se martirizem, vão à vez a PT matar saudades, organizem mais o pilimlim pra ires mais vezes a casa. É o que eu vou fazer pro ano.
Um beijinho :)
Sofia