março 21, 2013

Luxemburgo, ano zero: uma breve declaração de amor



Caramba, já passou um ano!

É incrível como às vezes nem damos pelo tempo passar. Por um lado, parece que foi ontem que levantei voo do Porto, com um filho e uns quilos valentes de bagagem às costas para chegar aqui. Por outro lado, sinto que vivo aqui há muito tempo e não posso dizer que me sinto mal nesta nova vida.

Nunca teríamos escolhido o Luxemburgo como primeira opção. Não sabíamos o suficiente sobre o país, apenas que era muito pequeno e estava cheio de Portugueses e era tudo. Não tinha qualquer ideia sobre a geografia, sistema político ou meteorologia. Só que, no meio de tantas candidaturas, foi daqui que chegou a oportunidade que em Portugal teimava em aparecer. Foi o Luxemburgo que nos escolheu a nós, é como gosto de pensar. Durante uns tempos, a ideia de emigrar parecia só uma coisa longínqua e maluca, que nunca ia chegar a acontecer. Até ao dia em que pisámos o Luxemburgo pela primeira vez.

Há um ano atrás, cheguei com um tímido dia de Primavera, cansada da viagem e triste pela vida que deixava para trás mas com muita esperança no que aí vinha. Os primeiros dias foram muito cansativos, tratando de limpar a casa, arrumar toda a nossa tralha, criando rotinas e hábitos. As idas ao supermercado ainda eram sinónimo de deslumbramento, sem saber onde procurar as coisas e extasiada com as escolhas tão diferentes. Ainda me espantava com o Português que se falava em todo o lado e estava até presente nas repartições públicas, nas antenas parabólicas portuguesas espalhadas por todos os bairros, pelas pessoas que reconhecia como portuguesas mesmo antes de as ouvir falar.

Depois veio o espanto com a eficácia dos serviços, com os baixos tempos de espera, com a clareza e transparência no tratamento dos expedientes. A seguir a admiração nas viagens que começavam perto da capital e nos levavam a outros países em vinte minutos, a possibilidade de pisar três países quase sem sair do mesmo lugar, as compras que se podiam fazer além fronteiras. Chegou a sensação de familiaridade e beleza que sentimos pelo verde dos campos no Verão, as cores exuberantes das florestas no Outono e a pureza da neve nos últimos meses. Esquecemo-nos de como era sobreviver apenas para passar a viver sem luxo mas com tranquilidade. Ganhámos uma casa maior, comprámos o primeiro carro das nossas vidas, trabalhamos mais mas com um salário mais justo. Pagamos muitos impostos mas sentimos o nosso dinheiro a contribuir para o sistema de saúde, para a educação gratuita, para o desenvolvimento da nossa comunidade. Sentimos que poder governar melhor é uma possibilidade real e que a classe política aqui não está tão distante dos seus eleitores.

Aprendemos a gostar de salsichas, feiras populares e mercados, flores e hortas de varanda, aquecimento central e neve de vez em quando. Melhoramos as nossas capacidades linguísticas, ficamos espantados com o civismo da maior parte das pessoas, sentimos que vivemos numa sociedade mais tolerante. É o país perfeito, ideal? Claro que não, nem que seja por lhe faltar um pouco da nossa espontaneidade, do nosso calor, da nossa capacidade de desenrascanço. Mas é certamente um país mais justo do que aquele que deixámos para trás.

Dói ter deixado a família e os amigos para trás. Dói privá-los do crescimento do Vicente, privar-nos da sua companhia, conseguir enfiar todos os compromissos na única visita do ano, não podermos estar à mesa com todos, passear na Estrela e em Paço d'Arcos em dias de calor, perder tantas ocasiões especiais onde só queríamos poder dar-lhes um abraço. Se calhar muitos pensam que, exactamente por isto, o sacrifício não compensa. E em muitos dias eu pergunto-me se realmente é assim mas a resposta não sei qual é. A única coisa da qual tenho a certeza é que tínhamos de vir, era preciso mudar de vida, era preciso encontrar outro poiso onde lutar não significasse apenas um esforço inglório. Felizmente, a vida ensinou-nos a aproveitar ao máximo as mudanças, sem grandes amarguras nem ressentimentos. Por isso, se pudesse agora abraçar o Luxemburgo, estendia os braços e agradecia por nos ter acolhido e deixado começar outra vez. Afinal foi fácil encontrar uma nova casa.

3 comentários:

M de M disse...

passou demasiado depressa....tudo passa, é impressionante. curiosos que foi a distância que nos aproximou e só por isso te (vos) dou os parabéns por este ano. de mudança e de coragem.

Beijos

Vitor Antunes disse...

Ola Mariza . é Vitor...falamos de quando em vez sobre hoteis e interfaces, eod e ip´s. Não posso deixar de lhe dar os parabens pelo extraordinario blog, e sobretudo pela clareza do ultimo post. É triste mas real , que tenhamos de ir embora para descobrir que afinal há um país onde se trabalha, onde os imppostos são altos mas tambem onde se podem realizar os sonhos. Parabens pelo primeiro ano e que o Luxemburgo continue assim.

Helena Barreta disse...

Já passou um ano? ainda me lembro de os "ver" a passear pelo jardim da Estrela, era o Vicente tão pequenino.

Que a vida no Luxemburgo continue a correr-vos bem, que sejam felizes e que o Vicente cresça saudável e traquinas, como se quer.

Parabéns pela coragem e ousadia de deixar para trás tanta coisa, na crença de alcançar mais e melhor com esforço e empenho.