julho 06, 2014

Pensar pensar pensar

Eu gostava de ter nascido noutro tempo. Correndo o risco de parecer mal agradecida ou mesmo de ser mal interpretada, eu gostava de ter nascido noutra época. Gostava de ter um trabalho para a vida, anos inteiros sem me preocupar com a falta de estabilidade, com ou sem progressão de carreira, mesmo não tendo escolhas. Gostava de viver num tempo em que não se pensava tanto no que se gostaria de fazer, aceitava-se a vida como ela é e os sacrifícios que fazem parte dela.

Viver hoje, trabalhar nos dias que correm é, no meu caso, uma luta desigual entre o que se tem que fazer para viver e o que se gostava de fazer. Com a agravante de eu não ser uma pessoa muito inclinada a correr riscos, de me faltar a imaginação e alguma coragem para conseguir viver exactamente da maneira que idealizo. Viver hoje é aceitar o que o mercado nos dá e fazer o melhor possível com a educação que foi sacada a ferros e no fim valeu de muito pouco. Eu bem sei que estudar nos abre imensamente os horizontes; o problema é que, em casos como o meu, não abre muitas portas profissionais na área. E por isso se vai fazendo de tudo.

A caminho dos dez anos de trabalho, acho que nunca me senti totalmente realizada profissionalmente. Por um lado, eu aceito que a primeira necessidade é ganhar dinheiro, porque há que comer e vestir e agora um filho. Mas por outro a violência destes sacrifícios vai-se tornando cada vez mais difícil de aguentar. Os dias, os anos passam e eu só me vejo cada vez mais longe da vida simples e com significado com que sonho. Não me interessa o status quo que me traz um emprego, longe disso. O que eu mais gostava de fazer era acordar todos os dias de manhã e não me arrastar até um emprego onde eu não pertenço e onde não posso verdadeiramente cumprir-me na totalidade. Tempos difíceis estes, em que há demasiado espaço para pensar, em que felizmente há bons exemplos de quem se deixou de coisas e se dedicou a uma vida mais tranquila e útil. Adorava que existisse um manual para se seguir a intuição sem deixar danos pelo caminho e sem pôr em risco as pessoas que estão à nossa volta. E também saber como se equilibra aquilo que se sonha para nós com aquilo que o outros sonham para si mesmos. Que a resposta não tarde a chegar.

2 comentários:

Carmem Grinheiro disse...

Boa tarde, M
Vou lhe dizer que me emocionou este seu post. A sério.
Houve um dia, há algum tempinho atrás, que eu queria dizer ao mundo exatamente isso. Mas calei meu grito cá dentro do peito.
«...um manual para se seguir a intuição sem deixar danos pelo caminho ...» - mas não existe, minha cara M., e terá que fazer o seu próprio manual, e segui-lo, e alterar as regras que não se mostrarem exequíveis. Essa é a vida de quem luta e ainda se dá ao trabalho de questionar.
Do fundo do coração duma anónima, que no fundo é o que somos aqui neste espaço, desejo que essa resposta não lhe tarde a chegar.
Já agora, boa viagem para a família, cá para Portugal :)
Abço amigo

M. disse...

Obrigada Carmem pelas suas palavras de encorajamento. Eu sei que a resposta e a força está apenas num sítio: dentro de nós. Há que trabalhar também para a tornar clara e exequível, como diz, e é nisso que penso :)