março 18, 2015

Desse buraco escuro e profundo chamado pós-parto

Quase três semanas depois do nascimento da miúda e aqui me encontro, nesta montanha russa de emoções que já conhecia e já esperava mas para a qual afinal não estava assim tão preparada como imaginava. Começo a chorar com as coisas mais idiotas: hoje de manhã, apenas porque me lembrei que ainda não me ajeito a montar o carrinho da miúda e hei-de precisar dele muitas vezes para sairmos. Ainda bem que não temos televisão - sempre me poupo às imagens das desgraças que vão pelo mundo e que de certeza me iriam criar um nó do tamanho do Mundo na garganta.

As minhas capacidades de concentração estão a voltar mas muito, muito lentamente. Tenho um livro parado a meio porque não consigo absorver aquela quantidade de informação. Sou, no entanto, capaz de ler sobre viagens e hoteis e spas e por isso a Condé Nast Traveller tem sido a minha melhor amiga nos (poucos) tempos que tenho tido livres. Consegui dormir três sestas até agora e isso não me tem ajudado muito, especialmente se tivermos em conta que grande parte das noites também é passada em claro. A miúda chora muito pouco se a comparar com o irmão mas tem um sistema digestivo que não a deixa descansar (falta muito até isto tudo regularizar? Alguém que me diga que sim porque eu começo a desanimar...). De resto, é uma velhinha desdentada, a olhar-nos muito séria com uns olhos que podem vir a ser como os do irmão, às vezes cheia de lua e de gargalhadas que me assustam. Eu pensava que ela é que ia ser difícil mas como me enganei: o irmão é que tem dado pano para mangas. Com a pequena, ele é amoroso e quer beijá-la e pegar-lhe a toda a hora, embora esteja um pouco decepcionado com o facto de não poderem ainda brincar os dois. Mas connosco... O verdadeiro problema está aí. As birras aumentaram exponencialmente de dimensão, a agressividade também aumentou, embora no final ele perceba o que fez e volte ao estado amoroso primordial. O que me deixa triste é que o cansaço às vezes não nos deixa ser muito tolerantes com ele e acabamos frustrados muito antes do que seria recomendável. Esforçamo-nos para que assim não seja mas é muito difícil argumentar calmamente com um miúdo de quatro anos que esperneia e grita com toda a raiva que consegue.

Estes últimos dez dias tivemos a companhia e a ajuda dos nossos pais, que praticamente vieram acabar de nos montar a casa. Sem eles, muitas coisas iriam ficar esquecidas tempo demais mas eles fizeram questão de não deixar nada por fazer. Tomaram conta do neto mais velho, conheceram e encantaram-se com a mais pequena. Não foi fácil, a convivência dos sete na mesma casa durante este tempo: cada um tem as suas maneiras de fazer e de pensar, todos temos muitas opiniões. Mas ontem, enquanto me despedia deles, bateu-me a tristeza de me aperceber que os miúdos voltam a estar longe deles por tempo indeterminado e que ter companhia, especialmente neste período, é muito bom. E então o peso das nossas escolhas atinge-me outra vez em cheio - é que, com o tempo, vamo-nos esquecendo do que significa ter escolhido estar aqui e às vezes é assim que nos lembramos. E então só me resta esperar que o Sol continue a aparecer todas as manhãs, que a Primavera substitua, mesmo que lentamente, o escuro do Inverno, que eu possa ter tempo para parar e pensar que sobrevivi uma vez. Esta vai ser só mais outra.

3 comentários:

Dalma disse...

Marisa, minha querida, só há que dar tempo ao tempo! Tens consciência que a "chamada depressão pós parto" existe e isso é meio caminho para ires lidando com ela enquanto não passa. Os dias maiores e mais claros vão ajudar-te e sendo assim a Amália veio no tempo certo. Não tenhas remorsos,manda o Vicente para a escolinha e tenta descansar qd a pequenina dorme, sai com ela ao jardim sempre que não chova e esquece que há coisa para arrumar, roupa para passar etc. Trata de ti pois uma família com uma mãe em baixo toda ela sofre!
Espero notícias mais animadoras.
Beijinhos
D.

ana disse...

Sim, é terrível isto da depressão pós-parto. Passei por ela e sinceramente, um ano depois, acho que ainda nevego nos seus mares mais profundos, mas finjo, finjo muito bem e tento só pensar nas coisas boas.
Cuide de si. Mais ninguém cuidará. Somos nós que nos devemos valorizar, não devemos esperar isso dos outros.

Gosto muito de a ler e reconheço-me tanto no que escreve que nem imagina...Um grande beijinho

Natascha Estevao disse...

Ola minha querida..tem calma..ainda ta mt tenrinho, o facto de teres passado por um parto..e só para te tranquilizar um pouco,sabes o que me chocou mais da 2ª vez??não ter a paciência e a disposição total e imediata durante a noite..para dar de mamar..era um sacrificio..e em relação ao Xavier..este tb durante 1 mesinho foi horrivel...tornou-se bruto, fazer birras..a testar a nossa paciencia a toda a hora..passado 1 mesito ele la se acalmou e adaptou-se à nova realidade.. :)..beijos grandes e fofos!!