dezembro 06, 2017

“A single person is missing for you, and the whole world is empty.”

Há dois dias acabei de ler o livro mais triste de que me lembro. Chama-se The Year of Magical Thinking (O Ano do Pensamento Mágico em Português), escrito pela jornalista e escritora Joan Didion. Quando peguei no livro, não sabia muito bem ao que ia. Já o tinha visto recomendado por algumas pessoas com quem partilho os gostos literários mas não estava preparada para o enorme murro no estômago que foram estas duzentas e poucas páginas de não-ficção.

O livro centra-se no ano que se seguiu à morte do marido de Didion, John Dunne, e em que a sua filha estava também internada em coma após uma pneumonia e um choque séptico. É o retrato de uma mulher sozinha, apenas acompanhada pelas muitas memórias de quarenta anos de vida em comum, dividida entre fazer o luto pelo marido e acompanhar a filha no hospital. É um relato brutal da dor mas principalmente das maneiras como ela tenta enganar-se a si mesma com o tal pensamento mágico: se ela fizesse muita força, se ela, por exemplo, guardasse os sapatos do marido, talvez ele não estivesse realmente morto e ainda pudesse voltar. Didion tenta evitar todos os sítios onde criaram memórias os dois (ou os três) mas descobre que até as mais pequenas coisas têm o poder de despertar memórias sobre as conversas, as discussões, as promessas, os planos que tinham feito, quase sempre trabalhando lado a lado. E depois há o facto da filha estar em coma aquando da morte do pai (acabou, tragicamemente, por morrer também em 2005) e de isso ter, de certa maneira, adiado o luto, tão necessário, quanto inevitável.

Não sou muito boa a lidar com a morte. Ninguém é, dirão vocês e com razão. Muitas vezes penso nela - não na minha mas na dos que me são próximos - e choro antes de dormir. Noutras vezes, não consigo compreender como pode a vida ser só isso, umas dezenas de anos sobre a Terra, uma passagem breve e totalmente desprovida de sentido. Há noites em que percebo que o Mundo como o conhecia está a desmoronar-se lentamente e que vamos ver mais e mais pessoas de quem gostamos ou com quem tivemos algum tipo de relação a ir também, sucumbindo à implacável passagem do tempo. Noutras ocasiões, penso na tristeza de (um dia) deixar de ver os meus filhos e imagino a tristeza que isso também lhes trará e isso dói. Sinceramente, nada faz sentido porque não acredito na vida depois da morte. Então vir ao Mundo, crescer, aprender, trabalhar, amar - é tudo um desperdício de matéria.

Mas devo dizer a verdade: na maior parte do tempo não penso na Morte. Na maior parte do tempo, é como se fôssemos todos imortais e não me consigo aceitar a ideia de que o nosso destino é todo o mesmo. Na maior parte do tempo, não penso em agências funerárias, em atestados e certidões, em termos médicos incompreensíveis, em coroas de flores e velórios, no vazio que são aqueles primeiros dias após. Na maior parte do tempo, tento convencer-me que tudo aceitarei, que nada me magoará, que serei capaz de tudo sem chorar. Não vou ser capaz, eu sei. Todos morremos, não precisam lembrar-me. É  a conclusão esperada desde sempre, claro que sim. A vida continua, com um bocado de sorte. Mas nada me preenche esta sensação de vazio, de escuridão e de inutilidade quando penso nos porquês.

(às vezes há períodos assim, cheios de Morte. Para mim, foram as noites a ler o livro. Depois morreram o João Ricardo, o Pedro Rolo Duarte, o Belmiro de Azevedo e o Zé Pedro. Há pessoas a morrerem em ataques terroristas no Egipto e no Iemen. Há colegas de trabalho que morrem ou a quem morre alguém. E no meio disto tudo, num rasgo de puro egoísmo, eu penso: quando é que me vai tocar a mim?)

3 comentários:

Paulo Barbosa disse...

Excelente documentário sobre ela na Netflix.

Dalma disse...

Marisa, porquê ler livros que nos incomodam? Não faz sentido!
Quanto ao recordar momentos felizes, do meu ponto de vista, a partir de certa data das nossas vidas também não faz sentido... recordar coisas, momentos que foram bons mas que não voltam a acontecer só nos fará sofrer!

Eurico Ricardo disse...

Ando há anos para folhear esse livro e eventualmente capturá-lo! ps: Aqui em Portugal, o canal do €stado fez-me esperar 33 minutos para me informar sobre o mega atentado no Egipto.