junho 05, 2011

Votar (nos dias que correm)

Eu não sou propriamente a pessoa mais comprometida com a política e com a mudança. Não simpatizo particularmente com nenhum partido mas posso dizer que o meu coração pende para a esquerda do espectro partidário. Nunca me envolvi em nenhuma campanha, não sou filiada e estou, no fundo, tão desiludida como o resto da população votante. Mas mesmo assim, mesmo depois do circo em que se tornou a vida política nos últimos meses, custa-me a entender um número tão elevado de abstenção (previsões até aos 43%).

Posso não ser propriamente uma cidadã muito envolvida e até muitas vezes de costas voltadas para a política mas ainda sinto que estou perante um momento solene quando, na sexta mesa de voto da Lapa, me vejo perante um boletim de voto. Sinto que faço parte de algo muito maior e, por momentos, sinto também que o meu singular voto pode fazer alguma diferença. E é por isso que gosto de ir votar, apesar de desconfiar de qual vai ser o resultado destas eleições. Acima de tudo, gosto de deixar a mesa de voto com a sensação de dever cumprido, com a legitimidade de criticar as escolhas e as decisões de quem vai estar à frente do nosso país nos próximos anos.

Eu entendo que o nosso país está completamente enterrado numa dívida que não foi provocada por nenhum de nós, pessoas normais, contribuintes (cumpridores ou não) mas antes por quem, à custa destas mesmas pessoas, tomou decisões para seu próprio proveito, ignorando os mais básicos fundamentos da democracia e usando o poder para dele obter dividendos pessoais. Só por isso é que entendo o desencanto brutal em que vivemos e que afasta as pessoas dos políticos e, mais importante ainda, das urnas. Não é possível alguém ainda hoje votar e ter a sensação de que o país vai ser bem entregue. Só que acho que ficar em casa, votar em branco ou votar nulo também não vão ajudar a alterar este cenário de crise profunda em que vivemos. E acho que a situação é tão grave que estas pessoas nunca mais deviam abrir a boca para falarem sobre o que quer que seja. Mas infelizmente, e como é costume, serão as primeiras a fazerem-se ouvir. E, a somar a isto os resultados que aí vêm, já se entende a vontade que uma pessoa tem de emigrar. Uma pessoa bem tenta pensar diferente mas o que aí vem não pode ser bom.