novembro 12, 2010

Sobre a amamentação: crónica de um falhanço

Não foi preciso nenhum curso nem nenhuma lavagem cerebral para, logo no início da gravidez, decidir que iria amamentar em exclusivo o meu bebé. A ideia de que poderia dispensar suplementos ou outras fórmulas ditas mágicas veio depois, quando solidifiquei os meus conhecimentos e quando me mostraram que existem alguns mitos à volta do acto de amamentar. O Vicente mamou pela primeira vez na sua primeira hora de vida, como recomenda a Organização Mundial de Saúde mas logo ali eu percebi que iria ser uma longa batalha. A amamentação implica uma disponibilidade gigantesca para o bebé, implica que, de certa forma, nos esqueçamos de nós e tudo à nossa volta para nos podermos concentrar apenas nela. Estive quase a desistir por várias vezes, convencida de que não aguentava este nível de atenção e outras dificuldades fisiológicas que encontrei pelo caminho mas fui conseguindo aguentar.

Esta semana, com muita pena minha, o Vicente teve (como é natural) um pico de crescimento, o que significou que quis mamar muito mais do que habitualmente, de forma a estimular a produção de leite. O meu corpo ou fraquejou, ou demorou a acompanhar o passo e foi assim que desabei a ouvir o meu filho a chorar ininterruptamente com fome, sem dormir porque provavelmente o estômago precisava de mais conforto. Não encontrámos outro remédio que não fosse ligar à pediatra e pedir conselhos sobre suplementos, para que ele pudesse ser convenientemente alimentado. Muitos dirão que deveria ter aguentado, tentando ignorar o choro descontrolado do bebé, a bem duma aleitação materna em exclusivo. Confesso que esta pressão social em que me envolvi conscientemente - a de que só o leite materno é suficiente, estigmatizando que opta por outras soluções ou quem a elas se vê obrigado - foi a única barreira a separar-me desta opção partilhada já há muitos dias. Quis também recusar a ideia de que o meu leite não seria suficiente e acabei por não dar ouvidos a vozes mais experientes, tentando confiar no meu instinto maternal. O suplemento entrou em nossa casa ontem à noite e o Vicente acalmou e dormiu. Continua a beber leite materno porque não acredito numa alimentação completamente artificial mas em mim ficou uma espécie de mácula: a ideia que eu mesmo criei de que, incapaz de amamentar em exclusivo o meu filho, sou menos capaz e falho em proporcionar o melhor que posso ao meu bebé. Vamos vivendo com pequenas vitórias todos os dias mas também é necessário saber encaixar as derrotas. O meu corpo talvez me tenha falhado mas é importante continuar: a serenidade do meu filho enquanto dorme vale todas as latas de leite em pó do Mundo.

9 comentários:

Helena Barreta disse...

Eu também idealizei a amamentação como certa e a mais indicada. Sem que nada tivesse feito para tal, deixei de produzir leite ainda o meu filho não tinha 2 meses. Fiquei tristíssima, mas havia que alimentar o bebé e o leite artificial veio substituir o meu e com ele vieram os receios de que o bebé não crescesse tão saudável como desejaria e a culpa por não ter sido capaz, como se isso dependesse de mim, de o amamentar.

Digo-lhe que o meu filho sempre foi um bebé, uma criança e um jovem super saudável. Hoje, tem 18 anos, mede 1,85m e é um desportista nato.

Olhando para o crescimento do meu filho fui desfazendo o mito de que só o leite materno é bom. Deixo-lhe o meu testemunho, verdadeiro, para que possa descansar e não ver o leite artificial como "inimigo" do Vicente. O bem estar e a curva de crescimento do Vicente vão mostrar-lhe que há factores de desenvolvimento mais importantes do que o leite materno e não veja na não amamentação um falhanço seu, é que não é mesmo, de todo.

Um beijinho com muito carinho para si e um para o Vicente com muita ternura.

Bom fim de semana

aryabodhisattva disse...

Acho que lidaste com a situação muito bem. Ainda bem que vivemos numa época onde qualquer coisa que precises está disponível em supermercados/farmácias.
Mas ainda bem que continuas a amamentar. Não vejo isto como um falhanço! Nem pensar! O Vicente não será o primeiro nem o último bebé do mundo a servir-se de leite em pó. É para isso que existem, para auxiliar as mães e confortar as barriguitas dos meninos.

Ministério da Saúde disse...

Dê ao seu filho o que há de melhor. Amamente!
Quando uma mulher fica grávida, ela e todos que estão à sua volta devem se preparar pra oferecer o que há de melhor para o bebê: o leite materno.
É muito importante, tanto para o bebê como para a mãe, amamentar até os dois anos de idade ou mais. O leite materno é o únio alimento que o bebê precisa, até os seis meses. Só depois se deve começar a variar a alimentação.
Acontece que nem todas as mães sabem de todos os benefícios e deixam de amamentar mais cedo. Você pode ajudar nessa campanha divulgando materias e informações.
Caso se interesse pelo tema, entre em contato com comunicacao@saude.gov.br e participe!

Atenciosamente,

Ministério da Saúde

Branco e Negro disse...

O problema que senti na questão da amamentação e também noutras questões relativas à maternidade é a generalização abusiva dos problemas e das soluções. Assim como há quem pense que a amamentação é sempre possível também há quem pense que quem só amamenta é uma fundamentalista obcecada e intransigente. Cada caso é um caso e mais, cada pessoa, cada mãe tem o o direito de avaliar a situação e de fazer uma escolha e esta é tão válida como outra qualquer.

Senti também algumas dificuldades iniciais com a amamentação, o meu filho aumentava pouco e chorava ao final do dia com fome. Lembro-me de ter implementado alguns truques, consegui aumentar a produção de leite e ele lá começou a engordar. Sei também de alguns casos em que pontualmente as mães recorreram ao leite de lata e depois passaram a dar só mama e também em que o oposto aconteceu. Uma coisa é certa, se as coisas não tivessem corrido bem, fome é que o meu filho não iria passar.
Acima de tudo, irrita-me o facto de toda a gente achar que faria as coisas melhor do que nós, as mães, as mais interessadas e sabedoras do assunto.

És a mãe, tu é que sabes e mais nada :)

P a t r i c i a disse...

Ó, meu Deus! O que é essa mensagem do Ministério da Saúde agora?! Como se toda a pressão do mundo não bastasse! Deviam era ir cuidar do Serviço Nacional de Saúde, porque isto sim deixa uma pessoa doente, e deixar as mães e seus bebés em paz.
Humpf.
E tenho dito.

Catarina disse...

Falhanço?
Mas tu estás tonta ou quê?
Acho que já aqui deixei um comentário num dos teus post que achei a amamentação um processo mil vezes mais complicado do que o parto em si
O que interessa é vê-los bem, sempre! O resto é conversa!

superM. disse...

Também acho a palavra falhanço forte demais...

Beijos, muitos

Pedro Sobreiro (aka Tio Sabi) disse...

You're just being too hard on yourself... as usual…

Exigir de ti algo que a natureza não te deu é desumano. É óbvio que o leite materno é o alimento ideal para um recém-nascido mas na falta dele ou no caso de existir mas não ter todos os nutrientes que a criança necessita, faz com que se tenha de recorrer às outras soluções disponíveis. Ambas as minhas princesas tiveram de ser alimentadas por leite em pó desde muito cedo e Graças a Deus são crianças saudáveis e que, penso eu, em nada diferem das que poderiam ser se mamassem até aos 19 anos… ;)

Como dizes, o bem estar do teu filho deve justificar tudo.

Não te preocupes tanto. Tenta desfrutar mais.

Bj

Pedro

C disse...

aconselho leres o blogue da rititi!
ela consegue ser genial no que respeita à maternidade e faz-nos sentir bem porque percebemos que TODAS as mães sentem e passam pelo mesmo :)
beijo e tudo de bom para o vicente