maio 06, 2015

Ser mãe: um longo tratado de culpa

Li este artigo há uns dias e não pára de me assaltar o pensamento desde então. Para quem não tem tempo ou vontade para o ler, é um artigo que versa sobre a forma como um casal mudou de ideias sobre a melhor maneira de fazer férias depois de ter um filho: passaram de aventureiros destemidos para um casal que procura o conforto dos resorts com tudo incluído. Também descreve as diferenças entre as infraestruturas disponíveis para quem viaja com crianças nos Estados Unidos (país de origem) e a Escócia (país onde o autor vive no momento). Mas, mais do que o artigo, o que me ficou na memória foi a discussão que se gerou na caixa de comentários.

Para além do binómio já esperado comentadores sem filhos/comentadores com filhos, surgiram outras questões pertinentes sobre as viagens com  filhos de várias idades. Algumas posições chocaram-me bastante (às pessoas com bebés não devia ser permitido viajar de avião, as crianças nunca devem ser levadas a jantar a restaurantes, os bebés devem estar é em casa), outras fizeram-me pensar bastante (o que fazer quando os miúdos se portam mal, escolher sítios apropriados à idade para evitar o desconforto dos olhares de soslaio e adaptar o comportamento dos miúdos às circunstâncias).

Mãe de duas crianças, não consigo evitar o sentimento de culpa pelo potencial comportamento indesejável dos meus filhos: por um lado, uma bebé pequenina que sofre imenso com a imaturidade do seu sistema digestivo e é obviamente incapaz de controlar o seu mal estar; por outro, um puto de quatro anos que, apesar de gentil e amoroso quando quer, não pára de ser rebelde e tentar afirmar-se como um ser independente. Com ele, precisamos do triplo da paciência, muita capacidade de negociação e muitas estratégias para o distrair das suas parvoíces. Mas daqui a deixar de fazer coisas para não incomodar os outros? Não me parece. Na cabeça de algumas pessoas, ter filhos é o equivalente a renunciar a uma vida social. É claro que não os levamos a todo o lado e preferimos as actividades com crianças mas isso é apenas o senso comum a falar.

O caso do mais velho é o que me preocupa agora. Dois meses depois da irmã nascer, as birras atenuaram um pouco e os dramas irracionais diminuíram de dimensão. Já conseguimos fazer uma refeição sem acabarmos todos aos gritos e que ele se mantenha a dormir na sua cama. Ele adora a irmã e não interage mais com ela porque nós não deixamos ou estava constantemente em cima dela - literalmente. Mas continua um pouco beligerante e muitas vezes é difícil argumentar com ele para que se comporte ao nível do normal. Não negociamos com comida e tentamos que sejam sempre reforços positivos a fazê-lo andar na linha mas muitas vezes nem isso funciona. Tento falar com ele e saber como foi a escola: ele responde sempre que correu tudo bem mas não é verdade, às vezes as professoras contam-nos histórias que nos preocupam. E aqui entra a culpa: estamos a fazer tudo mal? Que parte disto tudo é culpa nossa e que parte é responsabilidade da personalidade dele? Eu acredito que podemos ter os propósitos mais nobres na educação de um filho mas há muitos factores externos que não podemos controlar e um deles é ele ser a sua própria pessoa e não o que nós antecipámos como filho.

Não tenho respostas e muito menos soluções. A senhora que o vai buscar à escola diz que ele é uma mão cheia de trabalho mas que apaixona as pessoas que o conhecem. Eu preocupo-me com o seu futuro com antecipação porque quero que seja um tipo porreiro, que se interesse pelo mundo e respeite os outros. Não sei medir se estamos ou não a conseguir transmitir-lhe tudo isto: talvez seja algo que só se pode ver bem à distância mas sei que não desistimos de tentar. Que pena não podermos ter segundas oportunidades mas pelo menos sabemos que fazemos o que podemos.

2 comentários:

Dalma disse...

Querida, ter filhos não é fácil e hoje em dia muito menos. Porém há as alegrias de os ter, alegrias que quem os não tem nunca poderá sentir!
Claro que quando são assim pequeninos a coisa é mais difícil, mas depois mais crescidinhos, as viagens, as idas aos restaurantes etc. ficam mt mais fáceis. Coragem e não te deixes impressionar por experiências como as do tal artigo!
Beijinhos
D.

Anónimo disse...

O mundo precisa de rebeldes. :-) Aposto que não é fácil (eu sou da categoria sem filhos, só posso imaginar), mas não se pode ter as rosas sem os espinhos - e esse menino, a avaliar pela descrição ("uma mão cheia de trabalho mas que apaixona as pessoas que o conhecem"), deve ser um diamante em bruto que pode vir a revelar muitos quilates.
P.T.A.