abril 04, 2010

Sobre crescer *

No ano em que faço trinta e um anos e vou ter um filho, acho que tenho já alguma autoridade para falar sobre o crescimento. E sei que ele não é medido pelo número de casamentos, responsabilidades profissionais ou aumento da prole. Durante muito tempo recusei-me a crescer, ou pensava eu. Até a assinatura do cheque que pagou a minha casa me provocou alguma urticária, um marco colossal do momento em que se fechavam as portas da minha adolescência e se iniciava a descida ao inferno dos adultos. Mas enganei-me e depois desse dia, depois de me sentar numa sala com notários, advogados, proprietários e os meus pais fiadores, depois de ouvir a leitura de um contrato de que não entendi mais do que duas ou três palavras e olhar sobre a paisagem cinzentamente urbana da Praça de Espanha, fiz muita asneira. E, consequentemente, não cresci. Não como estava pré-estabelecido, não como se esperava de mim, não como via os outros crescerem e fiquei pensando que talvez isso não me estivesse destinado.

Não me casei, não me tornei amarga e cinzenta, quis criar os meus próprios rituais. Não engravidei, não chegava cedo a casa e não respeitava os ideais do mundo dos negócios. Não tinha um relacionamento feliz (aliás, sempre fui exímia a escolher as pessoas mais erradas), não me tinha tornado numa dona de casa exemplar e continuava a não querer crescer. Mas a verdade é que toda essa viagem, todo esse trajecto de vazio em vazio, todos os dias em que cheguei a casa e ouvia o eco dos meus próprios passos me estavam a transformar radicalmente. Já tinha deixado de estar triste para estar apenas conformada com a ideia determinista que uma vida normal não era para mim. E via os meus amigos a casarem e a terem filhos e a mudarem de casa e a investirem no seu futuro e eu nada, nicles, continuava no (des)conforto da Lapa.

Aquilo que me fez crescer foi eu desejar o melhor para mim. Foi começar a pensar se era assim que eu queria continuar e tornar-me daquelas pessoas que não são ilhas mas antes icebergues à deriva, incapazes de controlar o seu rumo e prestes a chocarem contra a costa. Foi começar a perceber que eu podia efectivamente mudar a minha vida, eu é que tinha o poder de alterar as coisas, de me envolver em actividades que me davam prazer, de abrir-me mais ao Mundo. E quando fiz isso, quando resolvi que quem manda aqui sou eu e dei esse metafórico murro na mesa, cresci. A questão não é ter dinheiro nem é ter status nem sequer é encontrar quem nos preencha: é mudarmos a nossa vida com as nossas mãos, sem esperar que nos ajudem, nos aconselhem, nos incentivem. Tudo o resto muda a partir daí. Crescer é ter a vida em marcha, é perguntar a nós mesmos se é isto que queremos, é não ter medo de admitir que fizemos mal. E para este crescimento não são precisos aumentos nem viagens nem apartamentos novos. É só não acreditarmos que fomos destinados a ser um falhanço, especialmente quando há cinquenta mil pessoas a quererem provar-nos o contrário.

E crescer é não recusar desafios. Se vem aí um filho, há melhor coisa a fazer que desejá-lo como loucos e sonhar com o dia em que o vamos abraçar? Mesmo sabendo dos cocós que aí vêm e das saídas à noite e de todas as vezes em que não nos vamos entender e as noites velando-lhe o sono? Crescer também é abraçar aquilo que a vida nos dá e usá-lo o melhor que podemos. Quem se preocupa com os terríveis trinta quando, por dentro, ainda nos sentimos com os saudosos dezoito? Mesmo que o corpo já não o confirme... ;)

* para ti, que ainda não sabes quem és

6 comentários:

ML disse...

"Leio-te" diariamente. Nunca comentei. Hoje teve de ser. Apenas para te dizer que amei ler este post.

Parabéns. E não imaginas o sentido que fez para mim.

Big Kisses

ML

Lua disse...

A pulga tem sorte, sabes? Esta carta bonita de tão simples e sentida que é, é um bom exemplo.

Espero que te corra tudo bem nesta nova viagem,

Çapo disse...

..."terriveis trinta"... ;)

P a t r i c i a disse...

Fizeste o meu dia =)

Tiagão disse...

Já não vinha aqui há muito tempo, as rotinas também são outras. Fico feliz por descobrir que o teu mundo avança, e tu estás feliz. Estranho porque nunca nos conhecemos, mas lemo-nos, o que às vezes é mais ou menos o mesmo.
Parabéns,
TF

M. disse...

Obrigada a todos pelas simpáticas palavras :) Este post saiu-me bem cá de dentro, há de certeza quem perceba porquê.

Ainda bem que faz sentido para mais gente :)