agosto 07, 2013

Ser emigrante: um estereótipo

A minha primeira reacção a textos como este é ficar enervada com a quantidade de ideias feitas que para ali vai, como se todos os emigrantes fossem iguais. Não são, como nem todos os alentejanos são preguiçosos ou como nem todos os Alemães são frios e distantes. Há gente boa e gente má em todo o lado, há canalhas nos países mais desenvolvidos e civilizados e há gente de palavra nos países ditos em desenvolvimento. Não existem regras, o carácter de uma pessoa está acima de uma nacionalidade.

Mas depois, quando efectivamente começo a pensar no que li, quase sou obrigada a concordar. Pouco depois de chegar ao Luxemburgo percebi porque há tantos emigrantes de férias em Portugal em Agosto: na construção civil há uma espécie de convenção colectiva que determina os períodos de férias, que se dividem maioritariamente entre três semanas no Verão e outras tantas no Inverno, em Dezembro. Ora a maior parte dos emigrantes portugueses aqui trabalham na construção civil ou noutras profissões que não exigem mão de obra qualificada (empresas de limpeza ou restaurantes, por exemplo) e são desta maneira "obrigados" a fazer férias em Agosto.

Aqui os emigrantes também se fecham muito nas suas comunidades: há ruas inteiras em que só se ouve falar Português e onde, caso não fosse a paisagem tão distinta, podíamos jurar estar em Portugal. Mas ao mesmo tempo quase todos falam pelo menos uma das línguas oficiais (normalmente o Francês) e participam na vida em comunidade. E entre os emigrantes há um alto nível de entreajuda: podemos, se conhecermos as pessoas certas, remodelar uma casa a fundo por metade do preço "oficial" só porque somos Portugueses.

Não conheço quase nenhum emigrante aqui que tenha nascido abaixo do rio Tejo: os emigrantes são, como em quase toda a parte, gente do Norte. E talvez por isso muitas vezes eu tenha a tendência a confundir a sua maneira aberta, despreocupada de ser com alguma grosseria (uma vez ouvi uma conversa entre duas empregadas portuguesas numa papelaria - com quem falei em Francês - que me fez corar e, acima de tudo, me deixou desgostosa por sermos todos incluídos no mesmo saco - o saco dos emigrantes mal formados e que tentam vingar com o chico espertismo também aqui).

Ser emigrante não nos mudou quase nada na maneira como nos comportamos aqui e em Portugal. Continuo a gostar do meu país e dos portugueses, mesmo achando que os destinos do país estão irremediavelmente mal entregues. Continuo a gabar-lhe a espontaneidade e o famoso desenrascanço que tantas vezes faltam aqui mais a Norte. Tento respeitar os costumes do país onde vivo e nunca me esqueço de onde vim. Gostava de poder ter um país que reunisse o melhor de Portugal e o melhor do Luxemburgo mas toda a gente me lembra (muitas vezes) que não podemos ter tudo. E espero que como nós, como outros Portugueses que saíram de Portugal nos últimos anos, a imagem, o estereótipo do emigrante possa um dia mudar ou desaparecer. Espero que um dia se possa dizer que são gente bem formada, trabalhadora, orgulhosa do seu passado e das suas raízes, que regressa a Portugal quando pode para matar as saudades. Sem Mercedes alugados para os vizinhos verem, sem música pimba nos auto-rádios, sem gritarias despropositadas e exibicionistas, sem desprezar a terra que nos viu nascer. Simplesmente sendo cidadãos que se adaptaram a outra vida, que, mesmo sentindo falta da sua terra, aprenderam a gostar do país que os acolhe, que procuraram para si uma alternativa que não existia senão além fronteiras. Que não se maldiga Agosto por ser o mês do emigrante e que não se pense que todos saem do país para penar lá fora. A emigração, fruto da crescente necessidade, está a mudar. Mudemos também os nossos preconceitos com ela e deixemo-nos surpreender por quem se arrisca a voar.

4 comentários:

Katy disse...

Sinto a mesma falta do que tu, de gente da zona de lisboa (embora tenha alguns amigos) e principalmente interessante. Não me identifico com os luxemburgueses nem com a maioria dos portugueses que por aqui vivem, e sofro todos os dias com isso. Penso que o ter deixado Lisboa, amigos e família foi o melhor para os meus filhos, que não era vida viver longe do meu marido e tudo o mais, mas ao mesmo tempo a minha vida passada parece que já lá estão tao longe: larguei um emprego de consultoria do qual gostava para fazer aquilo que nunca pensei que era deixar o meu país.

Mas a vida é mesmo assim, e esta tem sido uma grande aventura!

Já sabes que tens aqui uma lisboeta pronta para te dar força :-)

Muitos beijinhos

Catarina
http:/nolugarquechamocasa.blogspot.com

M. disse...

Obrigada Catarina! Eu imagino que haja mais gente assim por aqui mas a verdade é que todos os dias, na rua, no supermercado não temos a oportunidade de comprová-lo :)

Portuguese Girl With American Dreams disse...

Concordo contigo. Vim viver para Nova Iorque e a ideia que tem dos emigrantes e como descreves. Gostei muito do teu blog:)

David disse...

Com a nova vaga de emigracao muitos recem-chegados mudaram o seu preconceito em relacao aos emigrantes ja que nao querem que o estereotipo do emigrante lhe seja tambem colocado