dezembro 12, 2006

American Psycho II (revisitado)

Eu já sabia que o moço tinha problemas. Que era um tipo um pouco perturbado por uma experiência de vida algo invulgar. Que era uma pessoa que não se encaixava nas nossas definições de pessoa normal. E sabia que, acima de tudo, ele era um inadaptado. Muitas vezes nos tinha ocorrido que algo de muito grave tinha acontecido com este rapaz que o impossibilitava de se integrar, de agir com naturalidade. Muitas mais vezes ainda rimos dos factos que dispara para quem quer ouvir ('Vocês sabem que no Pólo Norte não é preciso existirem frigoríficos?' ou então 'Vocês sabem que existem três tipos de liberdades: a de expressão, a de pensamento e a de acção?'), da forma como sorve o chá todas as manhãs ou da total incapacidade de se concentrar nas instruções de trabalho.

E ontem, no jantar de Natal do nosso piso, o rapaz voltou a mostrar porque é que às vezes quase temos medo dele. No meio de 40 pessoas foi o único a beber vinho demais. Bebia-o como copos de água, dizia quem estava junto dele. Falou muito, a contrariar todos os dias em que trabalhou até agora. Gritou o meu nome muitas vezes, exigiu que fosse com ele para o Catacumbas (onde suspeito que, apesar de apregoar o contrário, nunca pôs pé). Tornou-se agressivo e saiu do jantar já a cambalear. Mas, para mim, tinha guardado a pérola da noite. Eu já estava no escuro, debaixo dos lençóis quando o telemóvel tocou. Não conhecendo o número, atendi porque pensei que alguém podia precisar de alguma coisa. Ele atendeu, gritando o meu nome mais uma vez e eu assustei-me. Quando eu perguntei o que queria, ele respondeu-me que tinha acabado de vomitar. E pediu-me que não sentíssemos a falta dele, a sua folga seria curta. Eu fiquei sem saber o que dizer e pedi-lhe para desligar. Desliguei eu. Debaixo do edredon, ri-me, desprevenida. Mas adormeci dividida por dois sentimentos: por um lado, incomodada com o acontecimento do tipo stalker; por outro, invadida pela pena de alguém a quem talvez doa apenas ser.

2 comentários:

Anónimo disse...

medo! mt medo!

Madeline disse...

Sim, senhora! Haja animação. :D

Gosto de te ver contente.
Beijinho*