agosto 31, 2009

Delicious hospital food *

Os corredores denunciam a remodelação mas não o esmero da limpeza. Desceram o tecto poucos centímetros acima da nossa cabeça, o que contribui para aumentar a sensação de claustrofobia, apenas aliviada pela cor pastel das paredes. Quase todas as persianas estão descidas, o que, juntamente como os novos aparelhos de ar condicionado, ajudam a que se consiga respirar mesmo quando estão quarenta graus lá fora. Os elevadores ainda não foram alvo da tal remodelação e tanto cheiram a mofo e a naftalina, como à sopa que sofre da falta do sal.

O que me tem incomodado nestes últimos dias de hospital não é tanto o facto de ele estar encurralado no seu próprio corpo, sem ser capaz de se exprimir, o facto de perder constantemente a noção do sítio onde está ou de quem o visita ou a sensação de que já não nos conhece. Também não são as mãos atadas à cama ou o estado (nervosamente) estacionário que tem prolongado a sua estadia por mais tempo do que pensaríamos inicialmente. O que me tem perturbado são as outras misérias que, abandonadas no meio da renovação, esquecidas pela família ou pela previdência, respiram a custo, tentando inutilmente sobreviver. Ele esqueceu já todas as palavras mas nós estaremos sempre à cabeceira e aos pés da cama. Mesmo que à distância, ele nunca estará sozinho.

* o verso dos Eels, a lembrar-me desejo ardentemente que este 2009 acabe porque ninguém me preparou para a quantidade de quartos de hospital que já visitei até agora.

4 comentários:

aryabodhisattva disse...

Leio o teu blog há já algo tempo mas nunca comentei antes (penso).
Só queria dizer que lamento.

M. disse...

Comentar agora é melhor do que nunca :)

*abobora menina* disse...

um beijinho gigante e um abraço apertadinho

Maria del Sol disse...

Infelizmente este ano também já frequentei mais hospitais do que queria, mas o caso que aqui descreves parece-me bem mais grave. Só me resta desejar-te força e rápidas melhoras para a pessoa em questão.