julho 23, 2010

Fazer ouvir a nossa voz

O meu cartão vermelho foi fotografado por ele.

Por norma, não sou mulher de fazer campanhas nem de querer impor as minhas convicções a outras pessoas. Gosto de discutir, é certo, mas normalmente fico-me por aí. Só que desta vez apetece-me mesmo falar sobre isto, nem que seja porque me parece cada vez mais absurdo que isto continue a acontecer em pleno século XXI.

Esta é a forma que encontrei para expressar a repulsa que sinto pelos casos de violência doméstica, quer se manifestem física ou apenas psicologicamente, sobre homens ou (mais frequentemente) sobre mulheres e crianças. Não há nenhuma relação nem nenhum laço de parentesco que justifique a aceitação e o encobrimento de actos de violência ou de humilhação. Nem mesmo filhos, especialmente não os filhos. Para mim, uma relação só funciona realmente quando ambas as partes se respeitam mutuamente e têm suficiente auto-estima para aceitarem (ou debaterem) as suas diferenças e trabalharem em conjunto para que elas desapareçam. Acho triste que todos nós conheçamos alguns casos destes, muitas vezes mesmo no nosso círculo de amizade mais próximo e que, de alguma forma e por variadíssimas razões, optemos por manter o silêncio.

A violência verbal, as traições sucessivas nunca devem ser toleradas. Sei do que falo porque já o senti na pele. Nos padrões ditos normais, aquilo que vivi não seria considerado abuso - antes, era visto como uma prerrogativa do homem à qual a mulher comum deveria sujeitar-se. Há padrões nestes comportamentos mas o importante é que a mulher consiga isolá-los, compreender as suas implicações e compreender que a vida não precisa ser assim. Felizmente, nunca me vi envolvida em nenhuma cena de violência de qualquer tipo mas acho que hoje é seguro dizer que, a acontecer, nunca a iria tolerar uma segunda vez. Toda a gente merece melhor do que uma personalidade abusadora, sem qualquer excepção e respeito na sua relação com os outros. É por isso que acredito que as vítimas devem falar: com linhas de apoio, familiares, amigos ou profissionais de saúde - não interessa com quem, desde que compreendam que não há nada que as possa obrigar a suportar a dor. Nunca precisei deste tipo de ajuda mas posso garantir - só depois de recusar a humilhação é que comecei a viver. E desde aí... Bem, sou muito mais pessoa que até então. Se é vítima de violência doméstica ou conhece alguém que seja, por favor fale. Ninguém tem o direito de abafar a nossa voz.

2 comentários:

aryabodhisattva disse...

também penso o mesmo. como nunca assisti a nenhum caso de perto, as únicas situações desse tipo que "conheço" estão aqui na blogosfera e são relatadas em posts pessoais das vítimas.
mas a tendência para querer "melhorar tudo" e "fazer com que as coisas fiquem bem"! uma e outra vez! como conseguem, quando existiu aquela primeira vez, que deveria, deveria mesmo tornar tudo o resto inaceitável?

Helena Barreta disse...

É um flagelo que também me choca. Choca-me o silêncio e a inércia das autoridades, quando muitas vezes a vítima faz queixa e o assunto não passa daí, por isso, muitas vezes, as ameaças deixam de o ser para serem actos consumados. Choca-me a mentalidade dos agressores e vítimas. Choca-me a pobreza de espírito.