novembro 13, 2008

Ver nacer el dia en Bruselas *

Sem esforço, consigo ainda ouvir o som do teu riso ou perceber que tentas inventar qualquer coisa para me fazer rir. Insistes que podia cantar jazz, enquanto eu desminto e digo que não sei cantar nada mas tu achas que nunca experimentei e dizes que gostas da minha voz, gostas da música que faço quando falo. As nossas conversas são cascatas de curiosidade que correm sobre olhos que fazem perguntas em silêncio, que dizem tudo o que só conseguimos dizer quando estamos sós. Respondo a todas as tuas perguntas sem sequer pensar no que digo, só para te satisfazer, só para falar em círculos, só para evitar que as coisas se precipitem.

Há um mapa-mundi que me mostra a distância que sempre nos separou e aquela que se colocou entre nós agora. Eu olho seriamente para ele, como se pudesse antecipar esta sensação de abismo em que nos envolvemos. Mas logo o teu cabelo preto me prende a atenção e logo as tuas mãos ossudas e pequenas me distraem e logo os teus olhos se prendem nos meus tão demoradamente e está calor enquanto o vento uiva e abre repentinamente a janela. As horas parecem intermináveis enquanto me abraças com tanta força e te levantas e pegas na tua caneca de chá e matas a sede, são infinitos minutos a saber o que estamos a perder, uma pequena eternidade tentando gravar todas as memórias em que nos enrolamos devagar. Fingimos que amanhã vai ser igual e depois de amanhã vamos estar no mesmo sítio para aliviar o sufoco da saudade que já ataca mas sem grande sucesso. Enquanto o dia nasce, enquanto a claridade transforma os nosso olhos em pequenas pérolas negras, despedimo-nos o mais serenamente que conseguimos. Sem olhar para trás uma única vez, sob pena de nunca mais conseguir ir embora.

Não me interessa o que fazemos a seguir. Eu não vou esquecer.

*ou carta a J., mi estrella invisible

8 comentários:

nutmeg disse...

Nem consigo começar a imaginar o sofrimento de estar tão longe de quem se ama...

Ocarteiro disse...

Cantar não sei, mas escreves muito bem.

Maria Eva disse...

Gostei ;)

caracoleta violeta disse...

Muito bonito, mesmo.

Anónimo disse...

Tens uma escrita tao bonita e uma alma tao doente... Livra-te dos teus demonios! Afinal de contas... Sera assim tao dificil?

"The thing about addiction is... It never ends well. Because eventually, whatever it is that was getting us high, stops feeling good... and starts to hurt. Still, they say u don't kick the habit until you hit rock bottom.
But how how do you know when you're there? Cause no matter how badly a thing is hurting us, sometimes letting it go... hurts even worse".

Perhaps it is...

Yours faithfully, de um anonimo que padece do mesmo vicio que tu...

M. disse...

Recordar-me de momentos bons ou sentir coisas tão fortes é tudo menos sinónimo de almo doente. É apenas um sinal de que ainda estamos vivos.

:)

Anónimo disse...

a palavra usada nao foi a mais correcta e por isso peço desculpa... nonetheless, todos esses momentos bons e coisas fortes compensam a tristeza e sofrimento que hoje pareces sentir?

M. disse...

Compensam porque me fizeram sentir feliz. Só isso :)