outubro 26, 2008

Janela indiscreta

Quando tento perceber que tempo faz lá fora, vejo um rapaz de tronco nu, encostado ao vidro. Tem um ar distraído e uma fita a prender-lhe os caracóis. Parece estar ainda a acordar, mesmo às duas da tarde. É a mesma casa onde costumo ver duas mulheres de meia idade fumarem, antes mesmo das sete, de robe apertado e encolhidas pelo frio da manhã. Pergunto-me se é filho ou talvez amante de uma delas. Queria mostrar-lhe a minha curiosidade mas não consigo mais do que espreitar pela fresta da janela minúscula. Há metade dum romance a nascer-me na cabeça e eu sem paciência para me sentar a escrevê-lo.

(sabes, habituava-me a isto
habituavas-te a quê?, pergunta ela
a acordar aqui e a ver-te dormir enquanto desfazes o que resta da cama
e depois?
e depois bebia o café aqui mesmo, encostado ao vidro, enquanto pensava em ti
e o que é que os vizinhos iam pensar?
que, para acordar assim, me deitava com a mulher mais maravilhosa que existe)

3 comentários:

Maria Eva disse...

O meu namrado brinca comigo porque faço muitos "filmes". Assisto a uma situação parecida com a que viste e começo logo a imaginar o que se terá passado e relato os acontecimentos como se de um filme e tratasse. E também eu penso " pena que não tenho muita paciência para escrever".
Agora vejo que não sou só eu ;)

K. disse...

Às vezes nao consigo decidir se gosto mais da maneira que tu escreves ou da maneira como vês as coisas, e as imaginas.

M. disse...

:)

É que eu, não sendo cinéfila nem nada do género, sinto que tenho a cabeça cheia de cinema...